sexta-feira, 20 de abril de 2007

Poemeta

O que posso dizer desta cidade onde a aura de Neruda vagueia pelas ladeiras do cerro Bella Vista

O que posso dizer desta cidade onde o cheiro de maresia denuncia o porto ancorado no Pacífico

O que posso dizer desta cidade onde os marinheiros, após meses no mar, escolhem-na para seu hogar

O que posso dizer desta cidade que se insinua entre as colinas e se oferece aos pés do oceano

O que posso dizer desta cidade onde as gaivotas domesticadas pousam fotogenicamente diante das câmeras dos turistas

O que posso dizer desta cidade de casinhotas decrépitas e de espigões abastados elevando-se mais alto que seus cerros

O que posso dizer desta cidade que me indicou a rota certa por onde andar e me furtou a visão

O que posso dizer desta cidade de gentis moradores e impiedosos ladrões

O que posso dizer desta cidade, misto de Alfama, Santa Tereza e Boca

O que posso dizer desta cidade e de seus colossais guindastes, tais tentáculos de polvo, empilhando enormes containers uns sobre os outros no cais

O que posso dizer desta cidade e de seus coloridos e impacientes ônibus trafegando velozes através das ruas

O que mais posso dizer que já não foi dito e sussurrado pelos amantes indóceis se esfregando tesudos à beira mar

O que posso dizer desta cidade e de seus velhos bebuns de faces inchadas escutando boleros em decadentes botecos

O que mais posso dizer contra ti

O que mais posso dizer a teu favor

Um mistério a beira-mar? um calor tropical à tarde? um friozinho andino à noite?

Sei lá o que és, Valparaíso, talvez por isso tenhas sido a morada do poeta.

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