terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Desafio em dose dupla!!

Nem foi preciso o Fred me chamar porque antes das 4 eu já estava de olhos bem abertos, me arrumando pro grande dia. De posse de minha mochilinha de ataque vou até a cozinha onde o desaiuno está sendo servido. O apetite é zero porque quando estou neste estado de espírito, misto de nervosismo, ansiedade e excitação, perco totalmente a vontade de comer.  Em assim sendo, tenho de fazer um esforço na tentativa de engolir alguma coisa. Em silêncio, deixamos o acampamento Salto Angel às 6 horas debaixo de cerração, numa curta caminhada rumo ao ponto da parede, distante 100 metros à direita, donde está a fenomenal cachoeira. Às 6 e 30 estamos já realizando a descida de aproximação até a borda do paredão. Não contrariando o costume em semelhantes situações, sinto dor de barriga. Putz, sacal demais tirar a cadeirinha pra poder me aliviar e depois ter de novamente acinturá-la. Mas enfim, impossível conter os ímpetos intestinais. Fred percebendo meu nervosismo, enquanto verifica se o baudrier está corretamente atarraxado, aconselha “nerviosismo es aceptable, Beatriz, panico, no te olvides, mata!” O providencial conselho mexe comigo de forma positiva, tornando-me mais tranquila, ou melhor, menos medrosa, hehe. Inauguro o primeiro rapel do dia, descendo 40 metros de parede entremeados de trechos positivo e negativo. Durante o descenso a névoa dá uma breve dissipada e eu visualizo por instantes o rio Churun lá embaixo no fundão do canyon. Até pinta um friozinho no estômago mas controlo legal o medo. A reunião, na plataforma, acomoda bem todos nós, clientes mais Ricardo, responsável pela segurança. À medida que vamos descendo, Ric avisa Fred, posicionado na plataforma superior, que a corda liberou. Assim, Fred faz descer o seguinte. Os 3 guias se comunicam por rádio já que, na maior parte dos rapeis, cada um está posicionado em diferentes níveis na parede, executando distintas funções, afastados entre si por dezenas de metros. Por exemplo, pode Fred ficar em cima afixando a ponta da corda no freio ATC de cada cliente, enquanto Mario, na plataforma imediatamente inferior, segura as pontas durante o descenso de cada um. Já Ricardo, na plataforma subsequente, prepara a ancoragem do próximo rapel. Tudo coordenadésimo, tentando ganhar tempo e agilizar procedimentos num grupo de 12 pessoas. Fico sabendo numa das esperas (necessária muiiitaaaa paciência até que todos baixem, pois dependendo da altura do trecho rapelado, a espera dura de 40 minutos a 1 hora e meia) que eles, certa feita, já operaram com até 19 pessoas!! O rapel seguinte, de apenas 30 metros, também, apresenta lances positivo e negativo. Mario muito relax enquanto espera o pessoal descer senta-se na sua minicadeirinha...que tipo! A plataforma do 2º rapel não é tão larga e confortável quanto a 1ª, motivo pelo qual aqui ficamos meio apertados. Otimista, contabilizo, mentalmente: bueno, se dos 500 metros que temos de parede hoje, já rapelamos 70, agora só restam 430! Putzgrila, como esses belgas são irritantes: não param nunca de falar; aos gritos incentivam uns aos outros enquanto rapelam!! Parecem um bando exaltado de adolescentes. Oxalá, se houver abelhas, elas não se irritem com o griteiro e não nos ataquem. Era só o que faltava, valha-me deus!! Às 9 e 30 a cerração continua impiedosa obstruindo a visão do canyon. Os 3º e 4º rapeis medem respectivamente 40 e 80 metros e confesso que foi cansativo descer este último já que em razão de sua altura é utilizada corda dupla. Paro umas três vezes pra descansar meu dolorido braço direito durante o descenso e aproveito pra dar uma rápida olhada ao redor. Consigo, inclusive, vencer a aversão à altura e curto um pouco o espetacular cenário. Supertrimega emocionante estar pendurada a 800 metros de altura!!! Fred escolhe o estreito e comprido platô, situado entre o 4º e 5º rapel, como lugar de nosso almoço. Às 11 e 45, estamos comendo wraps recheados com verduras. Minha adrenalina continua a mil, tanto que nem dou conta de toda a refeição, guardando o restante na mochila. Virá a calhar quando estiver menos agitada, confidencio pros meus botões. Igualmente estafante o 5º rapel porquanto novamente é usada a pesada corda dupla, considerando que o lance envolve outra baixada de 80 metros. Em compensação, a névoa dissipa-se de vez, permitindo que se desfrute da esplêndida visão das adjacências à parede oeste onde estou pendurada bem como duma boa porção do canyon. Pra se chegar ao local onde inicia o 6º rapel, Ricardo ordena que nos becapeemos ao improvisado corrimão feito com corda antes de percorrermos os 20 metros do estreito platô, limitado à esquerda pelo despenhadeiro de quase 700 metros de altura. Quem pode garantir que aquele terreno aparentemente sólido não desabe sem mais aquela, não é mesmo?!! Afinal estamos a centenas de metros distantes de terra firme. Embora seja o pior de todos, com 90 metros de exaustiva descida, sou recompensada quando, num lance negativo, a corda me faz girar 180º, permitindo que eu dê as costas à parede e tenha aos meus pés o cenário sensacional do canyon del Diablo e do rio Churun. E ao tocar no platô, rodeado por deliciosa matinha, nova recompensa: passarinhos cantando, pasmem, como bem observou Mario, em estereofônica melodia! Embora o 7º rapel conte com modestos 35 metros, são tantos os arbustos que brotam da parede que a corda enreda 2 vezes nos galhos, embaraçando o descenso. Como alguns ainda não terminaram de rapelar o penúltimo lance do dia, enquanto aguardo, sentada quase à borda do platô, curto Salto Angel, perfeitamente visível deste ponto da parede. O 8º rapel, com 80 metros, desenrola-se numa fenda entre rochas, exibindo, igualmente, muitos arbustos grandotes já que deixamos a, até então, quase desnuda parede para adentrarmos zona coberta com densa vegetação. Às 16 e 20 sou a primeira a chegar ao acampamento Cueva, um platô largo forrado por areia rosada, fronteiriço ao Salto Angel, coisa de 50 metros!  Uma pequena reentrância entre rochas forma uma pequena cova, daí a razão do nome do acampamento. O lugar onde escolho dormir tem uma baita saliência de rocha formando um teto larguíssimo cujo pé direito deve ter uns 15 metros. Muito tri vai ser dormir aqui, bivaqueada, tendo apenas saco de dormir e isolante uhuuu!! Deitada, aprecio o sol iluminar a parede leste acentuando a rósea coloração de sua rocha. Nuvens lançam manchas escuras sobre a floresta que recobre a metade final daquele paredão. E do Salto Angel a visão é soberba aqui do acampamento, inobstante a pouca quantidade de água dê a impressão de que está se evaporando no ar durante a queda. Incrível como meus sentimentos evoluíram desde que entrei na parede: da aflitiva sensação de medo dos primeiros rapeis acompanhado do indefectível questionamento “o que tô fazendo aqui, a la putcha?!” até a tão desejada atitude de relaxamento que permitiu enfim que eu desfrutasse da soberba paisagem que de outra maneira não teria conhecido!


Na terça-feira, acordo às 5:30 e tanta a cerração que mal dá pra entrever o Salto Angel. Pensei que não iria conseguir dormir haja vista as precárias condições de nossas “habitações”, afinal bivaquear requer a tal palavra tão em voga: resiliência. Qual o quê, dormi legal salvo algumas vezes quando acordei para virar de lado e acomodar melhor o travesseiro na pedra. Hoje completaremos os rapeis que ainda faltam  para sair da parede. Temos pela frente outros 500 metros de baixada. Como o platô não é lá muito grande, tampouco confortável pra acomodar 12 pessoas, sobrou pra Mario dormir, literalmente, sobre pedras.  Ele nem se abalou, acomodou o colchonete atrás dos nossos e ali passou a noite. Imagino deva ter sido bem desagradável sua noite, pobrecito del muchacho! Mas são ossos do ofício de guia. Saímos às 7 horas e descemos, caminhando, uma piramba super íngreme no mato cerrado. Como somos muitos, demorada se faz a pernada. Quase 9 horas e ainda tem dois a minha frente pro 1º rapel do dia. Esperar tanto assim tira muita energia e dá um soooono. Finalmente chega minha vez depois de quase uma hora aguardando. Mario prende a corda dupla no freio atc e eu desço 60 metros em meio ao matagal. Fred, no platô abaixo, nos prende à corda, dessa feita, simples, para mais 40 metros de pura alegria: são degraus de rocha no meio do mato. Cada vez mais perto do leito do rio Churun, já consigo até escutar seu rumorejar. Às 11 e 30 faço o 3º rapel de 45 metros, constituído por várias plataformas rochosas, desenrolando a corda lentamente (pra curtir, pra curtir) dentro do verdejante bosque que cresce na encosta do paredão. Mundo paralelo este, provavelmente, povoado por fadas, duendes e gnomos, invisíveis aos nossos olhos hipossensitivos. Vez por outra rajadas de vento. Trinados de pássaros e chão atapetado de folhas. A única coisa que estraga tanta perfeição é o barulho nada a ver das avionetas com turistas sobrevoando o canyon. Mas enfim cada qual, cada um. Assim, eles lá, eu aqui, hehe!! A plataforma entre o 3º e 4º rapel embora estreita é confortável o suficiente permitindo que nos sentemos comodamente, porém becapeados...por segurança. O 4º rapel, ridiculamente curto (8 metros), até daria pra fazer sem corda. Daqui dá pra ver bem a bifurcação existente no canyon del Diablo cavada pelo Churun e por outro rio que guia algum soube dizer o nome, talvez até porque nem tenha. O 5º rapel com 30 metros tem em seu início um trecho que exige certa habilidade porém o restante do descenso é facinho. Não tinha ideia de que a aparente verticalidade da parede (se vista de fora), especificamente nestes seus 500 metros finais,  comportasse tantas plataformas, algumas com capacidade de acomodar 20 e tantos viventes, bem como trechos onde se pode caminhar sem necessidade de rapel. O 6º rapel por causa de troncos de árvores que crescem na beira do platô, também requer cuidado no manuseio da corda. A mata se faz cada vez mais cerrada e bela. Os 35 metros do 7º e último rapel  novamente é dificultado pelas árvores que crescem como erva daninha na parede, findando, assim, o que era doce, quem desceu arregalou-se!! Daqui pra frente, apenas caminhada numa baixada hiper íngreme e resvaladiça até Isla Ratón onde pernoitaremos. Em alguns trechos, sento e pratico o eskibunda, esporte em que sou perita, hehe. Ainda bem que a descida foi curta (todos estamos bem cansados), sucedida por um trajeto relativamente plano, cujo único entrave são raízes e pedras. Chegamos ao mirador do Salto Angel onde paramos para fotografá-lo. O lugar é lindo, um largo anfiteatro escavado pelas águas da famosa cachoeira que, ainda tem força para, em sua parte final, formar uma sucessão de pequenas cascatas ladeadas pela verdejante floresta. Chegamos a um refúgio em Isla Ratón (há outros mais) às 18 horas. Construído à margem esquerda do rio Churun, a rústica habitação, com teto de zinco, sem paredes, conta apenas com a proteção dum baixo muro de pedras no seu entorno. Contudo, cozinha e banheiros são fechados. Na ampla peça, mais duma dezena de redes servem como cama. E luxo supremo: energia elétrica fornecida por gerador, super barulhento, felizmente, desligado, às 22 horas!! Resolvo tomar um banho rápido no rio Churun onde sou atacada por uma horda de famigerados mosquitos. Suas mordidas além de deixarem meu corpo empolado coçaram durante vários dias. Estou faminta, afinal, a única refeição comida durante o dia todo foi sucrilhos - acho insuportável esse "cereal" - com leite no café da manhã, afora a rapadura de amendoim gentilmente oferecida por Mario durante a espera num dos rapeis. Assim, nem mastigo direito os bens temperados franguinhos assados na brasa, acompanhados de arroz e salada de batatas, servidos na janta. De buchinho cheio, deito na rede embalada pelo tóin tóin das gotas de chuva tamborilando no zinco do teto. Ai meu deus que coisa boa, coisa boa meu deus, descer do céu pra entrar no paraíso!!

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Entre samambaias e bromélias

Choveu durante a noite e quando levanto às 5 horas dum sabadão nublado, a garoa fina ainda está caindo. Deixamos às 7:30 o acampamento Neblina nos embrenhando num matagal, constituído por expressiva quantidade de samambaias. Nunca tinha visto coisa igual. E, coisa boa, as subidas não são muito puxadas. Hoje sou eu que afundo no barro. Tanta a sucção que quase não consigo resgatar a perna daquele sorvedouro de areia movediça, valha-me deus! De repente o matagal de samambaias acaba num lajedo livre de vegetação onde há, pasmem, uma estação meteorológica com uma puta antena! Ainda bem que não é de telefonia celular, valha-me deus outra vez! Após breve descanso, a pegada é encarar o interior dum bosque escuro, atravancado de troncos e galhos de árvores caídos, cujo terreno irregularíssimo alterna baixadas e subidas. Por duas vezes, torço o tornozelo e sinto que não foi pouca coisa, não. Tudo muito úmido, tornando o solo em certos trechos uma meleca pantanosa. Após 2 horas e meia de pernada naquele matagal soturno, fazemos outra parada, dessa feita mais longa, noutro lajedo. Bernard, o fisioterapeuta, coloca kinesio tape num dos ombros da francesa. Também pudera, carregar cargueira há 6 dias não é pra qualquer uma! A picada, lá pelas tantas, melhora, tornando-se mais aberta, ladeada por um capinzal que lembra talos de cana de açúcar. Num jogo de esconde-esconde, o sol tenta se impor mas é vencido pelo humor cinzento do céu que se instala de vez quando, às 13 horas, chegamos ao acampamento Kerepa. Situado às margens do rio de mesmo nome, suas águas escuras não possuem atrativo algum. Devido à estiagem do verão, visíveis as porções de lajes que formam seu leito. Pior acampamento de todos. Ouso dizer: até me deprimiu um tantinho. Não sei se por causa do tempo nublado, se pela nada atrativa mata ao redor, ou se devido ao solo irregular e sulcado por raízes à flor da terra onde as barracas foram instaladas. Sempre cuidadosa em relação às serpentes, cada vez que necessito urinar ou defecar trato de fazê-los bem rapidinho. Morro de medo de que alguma cobra queira me picar nas partes pudendas. O outro terror são os escorpiões. Há uma espécie no Auyan que ataca o sistema nervoso, matando em pouquíssimas horas. Nem adianta acionar o telefone satelital porque, até que mobilizem helicóptero, o vivente terá passado desta pra melhor (será?). Assim, cuido em por os únicos calçados que trouxe, o par de botas e a sandália Kroc, bem abrigados sem-pre num saco no interior da barraca. E pela manhã dou um vistaço neles. Eu hein?!! Entediada porque não há muito o que explorar neste bosque onde estamos, cujo terreno truncado impede maiores deslocamentos, quedo-me quase todo o tempo resguardada na barraca, exceto quando vou tomar um banhito no rio e depois quando saio pra jantar. No mais é “caminha” e a absorvente leitura do Americano Tranqüilo, escrita por Graham Greene, sobre a love story entre uma vietnamita, um inglês e um norte-americano, ambientada num Vietnã, prestes a ceder o domínio até então exercido pela França ao USA. 
Hoje está terminando a primeira etapa de nossa aventura....que peninha, pois foram ma-ra-vi-lho-sos todos os dias que caminhei nesse estupendo e surpreendente tepui. A partir de amanhã, só descenso usando as benditas cordinhas que nos ajudarão a baixar do tepui até o refúgio de Isla Ratón, situado na margem esquerda do rio Churun....nem acredito....que maravilha! Embora o trajeto seja duro,  curta é a distância entre este acampamento e o do Santo Angel, motivo por que não nos apressamos a abandonar Kerepa. Por isso,  somente às 8:15 iniciamos a caminhada até o acampamento Salto Angel. A trilha percorre o mesmo tipo de bosque cerrado, escuro e úmido que percorremos ontem, cheio de subidas e descidas, com poças lamacentas que nos obrigam a altas acrobacias a fim de evitá-las. Louquíssimo o trecho da selva onde espessos musgos de coloração ferruginosa recobrem por inteiro troncos e galhos de árvores. O caminho é pontilhado por bromélias ao contrário de ontem onde o predomínio foi das samambaias. O tempo insiste em permanecer nublado, embora às vezes o sol consiga furar o bloqueio das nuvens. De repente não mais que de repente, nos livramos do matagal pra adentrar num campo aberto coberto de gramíneas, vencendo sem esforço uma curta ladeira cujo término é na zona lajeada, circundada por arbustos,  às margens do rio Kerepa, conhecida como acampamento Salto Angel, onde nos aquerenciaremos esta noite. A caminhada durou exatas 2 horas! A mais rápida de todos os 7 dias de trek!! Completamente diferente do local onde pernoitamos ontem, este é uma grata surpresa. O rio Kerepa, só hoje fico sabendo, é quem nutre o Salto Angel, cujas águas desbordam do paredão oeste do Canyon Del Diablo. Portanto, não há do que se queixar em termos de visual já que estamos acampados num lugar ultra privilegiado. Uma pena que a essa hora da manhã, 11 horas, a cerração mal permite que avistemos a parede leste do canyon, contrária àquela por onde despenca o Salto Angel. Um alerta: quando chove muito, o terreno rochoso adjacente às margens do rio fica inundado, motivo pelo qual é aconselhável fazer trek aqui no período que vai de dezembro a abril. À tarde, vou com Antonio e seu sobrinho Wilson até o mirador, de onde se tem uma baita visão da monumental garganta,  do Salto Angel e do rio Churun. A famosa cachu, porque é verão, exibe mirrado jorro e não aquele colossal pé d’água que tanta atração exerce em qualquer vivente do planeta. No paredão oposto, mal se entrevê outra linda cachoeira, de sugestivo nome Cortina. No fundão do canyon, devido à estiagem, o escasso volume de água do Churun permite que sejam visualizados largos trechos empedrados de seu leito. Antonio faz questão de tirar uma foto comigo na borda do penhasco. Abraçados, assim posamos pra posteridade. Fico sabendo por ele que dos 18 porteadores, inicialmente, contratados só restam 5. Isso porque, ao longo do trek, os carregadores vão sendo dispensados à medida que os mantimentos vão sendo consumidos. Desse modo quando chegamos ao acampamento Dragon, 6 retornaram às suas aldeias e agora mais 7 foram daqui enviados de volta. Sobraram, portanto, ele, seu sobrinho e mais outros três que retornarão com barracas e outros utensílios prescindíveis de serem usados nos 3 últimos dias que restam pra acabar a aventura. Fred à tardinha revisa o equipamento de todos: cadeirinhas, mosquetões, freios, capacetes e luvas. À tardinha, nos acomodamos ao redor da fogueira, providencialmente, acesa pelos porteadores, já que um arzinho gelado sopra no topo deste tepui. Terminada a janta, os belgas e franceses permanecem mais um pouco ao lado da lona que serve de improvisada cozinha, trocando idéias, provavelmente, sobre a excitante aventura que nos aguarda amanhã. Os índios, como sempre, já se encontram recolhidos às suas redes, instaladas nos matinhos circundantes. Às 20 horas, reina o maior silêncio no acampamento. Das tendas, não se escuta um pio. Até os tagarelas europeus estão conscientes da necessidade de se concentrarem pra dormir bem, eis que amanhã temos de levantar às 4 horas pra enfrentar o 1º dia de rapelagem na parede de 1000 metros....baaah, que frio na barriga!
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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Além da 2ª Muralha

Embora tenha chovido durante a noite, o dia amanhece apenas nublado. O acampamento situado no encantador bosque entre a 2ª muralha e o Dragon, faz com que eu durma e acorde ao som do barulhinho gostoso da correnteza do rio situado a 20 metros de minha barraca! O Dragon é um dos afluentes do Churun, responsável pela formação do canyon del Diablo. A colossal garganta corta o tepui no sentido sul-norte, dando-lhe um formato de Y visto de cima.  A passarada assanhada não para de trinar. Deve estar, no mínimo, curiosa com nossa movimentação aqui embaixo, afinal Auyantepui não é point turístico bombado como o Roraima. Converso com Antonio, meu porteador, enquanto espero nossa partida. Com 23 anos, é casado desde os 16 e tem 2 filhos: uma guria e um guri. Trabalha desde os 8 e já  subiu ao Auyantepui 52 vezes porteando carga!! Orgulhoso, gaba-se de que pode carregar até 70 kg mas o normal é 30. Na aldeia de Uruyen, planta feijão, arroz e mandioca. Aponta pra uma palmeira e explica que se chama san pablo, usada nos tetos das casas e trançada tantos por homens quanto por mulheres. Também são usadas outras espécies de folhas de palmeiras como kukurito, ceja e moriche, durando os tetos em média 7 a 10 anos. Saímos bem cedo, 7:20, porque a pernada até o próximo acampamento é, segundo os guias, duríssima. A escalaminhada até o topo da 2ª muralha mostra-se, de fato, bem ríspida, encarando-se inclusive paredão bem exposto que a mim deu medinho. Mas a beleza do mundo encantado das pedras e dos musgos suplanta qualquer cansaço! Na metade da subida, a espetacular visão do rio Dragon e adjacências é emocionante. Inacreditável que possa existir tanta belezura no topo deste tepui. Quando terminamos o ascenso e alcançamos a tão sonhada (por mim) 2ª muralha, as dificuldades não param. Aí é que se tornam mais e mais exigentes, deveras cansativas. Tudo por que temos pela frente quilômetros de campos cobertos por pequenos arbustos e altas gramíneas. Embora seja terreno plano, em nada se compara com aquilo que pensáramos ser difícil só porque tinha que ser escalaminhado. O terreno coberto de areia e material orgânico é fofo tal qual um colchão o que torna super estafante a pisada. Mas o pior está por vir quando se adentra as zonas de bosques. O que era até então fofo mas seco se torna pantanoso. O coitado do espanhol enfia umas das pernas na lama até a altura do joelho. Por pouco a Cannon dele não é sugada por aquela meleca preta. É um outro mundo este, situado além da 2ª muralha. Não tem nada a ver com o que vimos há 2 dias atrás quando chegamos no topo do Auyan: colinas a perder de vista cobertas uniformemente por espessa vegetação, num emaranhado formado por diversos tipos de vegetação arbustiva. Dentre as flores, destaca-se pela delicadeza a carnívora heliamphora pulchella. Mais um bosque com solo pantanoso e outro campo sujo onde cruzamos o leito quase seco dum rio que exige cuidado porque o lajedo está escorregadio. Por duas vezes somos obrigados, por causa duma merda de chuva que não deslancha, a tirar os impermeáveis da mochila pra cinco minutos depois  recolocá-los de volta na bolsa. Caminhar no terreno fofo, puta que os pariu e deus que me perdoe, é pagar penitência tamanha a dureza do esforço exigido. Mil vezes preferível escalaminhadas, por deus! Ao meio-dia, já com quase 5 horas de caminhada, chegamos no acampamento Lomita à beira do rio de mesmo nome cujas águas são deliciosamente alaranjadas. Esta coloração se deve à reação do tanino contido nas plantas com a água. Exausta de enfrentar o tal terreno fofo até me permito descansar um pouco escorada numa parede rochosa enquanto espero o almoço ser preparado. Terminada a refeição, mais desafios a enfrentar na trilha: um tronco improvisado fazendo de ponte sobre um córrego demanda cautela. Eu sempre com medo de cair, fico toda orgulhosa quando consigo transpô-lo sem muita frescura. Após o almoço, o sol acena num vai e vem caprichoso entremeado pela persistente garoa. Contudo, predomina céu encoberto. Mais 1 hora e meia de pernada e chegamos, aleluia, a uma baixada onde se encontra o acampamento Neblina (1.820 msnm). Como sempre os acampamentos são preferencialmente escolhidos ao lado dum rio. Este não foge à regra porém suas águas são comumente escuras. O dia pode ser considerado duro: 8 horas lutando num terreno entre o fofo e o pantanoso cansa as pernuchas, tá ligado? Novamente improvisam um toldo de lona pra proteger cozinheiros e comida já que a intermitente garoa não dá folga. Fico conversando com Mario e descubro que sua mãe muito católica vai à igreja orar pela segurança dos filhos (ele tem um irmão gêmeo que também trabalha como guia) tanto quanto saem pra trabalhar como quando retornam. Não sou católica mas aprecio essas estórias de devoção. Pra repor as energias consumidas nas estafantes 8 horas de caminhada, é servida na janta massa al sugo e a indefectível porém gostosa sopa de legumes com queijo aos pedaços. Recolho-me cedo à minha “casinha”, porque o corpo implora, geme, pelo descanso na posição horizontal.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

O dourado Dragon

Aqui, no topo do Auyan, talvez porque menos distante do céu (hehe) há bem mais concentração de nuvens do que no vale, porém sem qualquer vestígio de cerração como ontem durante a manhã enquanto escalaminhávamos a parede sul buscando o topo do tepui. Terminado o desaiuno, saímos do acampamento El Oso, por volta das 8 horas, em direção ao Dragon, nosso próximo ponto de pernoite. Inicialmente caminhamos por uma superfície rochosa basicamente plana. Apenas dois trepa-pedras envolveram certas habilidades para transpô-los. Comparado a ontem, a pernada é trifácil, mamãozinha com açúcar como se diz na terrinha. O tempo meio caprichoso, ora se mostra ensolarado ora nublado. Se chover, tô nem aí, eu tô na paz, eu tô na boa!! Tão feliz me sinto que não resisto ao som que sai de meu IPod (Los Hermanos, adooorooo) e me ponho a dançar! À medida que avançamos mais visível é a 2ª muralha, avolumando-se a nossa frente enquanto a 1ª se amesquinha, tornando-se cada vez menos perceptível. Entramos numa mata fechada, cheia de sinuosas curvas, num sobe e desce ininterrupto conhecida como labirinto, motivo por que os guias advertem que devemos caminhar juntos uns aos outros, sob risco de nos perdermos. Colo atrás de Ricardo, bem coladinha...vá que algum fauno queira me sequestrar, hein?! De repente, não mais que de repente, numa dobra da mata, uma visão ex-ta-si-an-te: as douradas águas do rio Dragon cercado por margens cuja areia é ro-sa-da! Paralelo aos dois, bosque e rio, impõe-se a sombra poderosa da 2ª muralha. A floresta é linda com arbustos e árvores de mais ou menos 5 metros de altura. Hospedadas nos troncos das árvores diversos tipos de bromélias e no solo um tapete de folhas secas. Ao parar pro almoço, no acampamento Lecho, descemos à margem do Dragon. Os belgas ficam desconsertados diante desta senhorinha de ½ idade que sem pudores toma banho da forma com que veio ao mundo. Enquanto a francesa depila os sovacos e o padrasto faz a barba rola um bate-boca da parte dela, que se mostra indignada, sabe-se lá o motivo. No almoço, comemos salada de massa com atum, cebola e pimentão verde. Do rio avista-se a poucas centenas de metros o maciço paredão da 2ª muralha. Continuamos a pernada bosque adentro cuja beleza me deixa a cada curva da trilha mais e mais encantada quando então chegamos às 14 horas no acampamento Dragon (1.765 msn), como o Lecho, também situado às margens da alaranjada correnteza do Dragon. Organizo minhas coisas dentro da barraca e trato de matar o tempo até a janta indo passear ao longo do leito seco do rio, um extenso lajedo  entrecortado por largas gretas. Ao longe, os porteadores lavam louça. Agora 16:10 a chuva que estava de garoa apertou motivo por que interrompo a caminhada abrigando-me na barraca. Uma pena porque eu estava viajando com a visão da 2ª muralha diante de mim cujas rochas em seu topo assumem formatos que os olhos não cansam de inventar. Os guias na improvisada cozinha (uma lona segura por pedaços de pau) já iniciaram os preparativos da janta. Escuto daqui seu conversê mas nem eles tampouco os pemones fazem frente à tagarelice dos belgas, imbatíveis na charla! O dia de hoje foi o de mais curta distância e o menos fatigante tirando alguns trepa-pedras e uma que outra subida mais perrenguenta. Gente, tô decepcionado com o espanhol. Quando o conheci, fiquei toda contentinha supondo que daí resultaria uma parceria legal em razão da similaridade entre nossos idiomas já que os demais falam francês. Qual o quê! O cara prefere tentar se comunicar naquele seu inglês macarrônico com o resto do grupo, ao passo que comigo dispensa polido tratamento, é vero, mas super convencional do tipo “buen dia...buen apetite” e congêneres. Se bate papo 5 minutos por dia é muito!! E não estou exagerando, não!! Mais, nunquinha manifesta a mínima curiosidade sobre o Brasil. E sempre que tento contar algo sobre Pindorama, o espanhol, após prestar 10 segundos de atenção, se escafede junto a seus irmãos europeus! E nem se fale que a língua seja um empecilho, não é mesmo? Meu contato com os demais membros do grupo é superficial porque não falo francês. Somente Bernard e Antonio conseguem se comunicar relativamente bem em inglês. O coitado do Jean Jacques tenta recordar a duras penas o que aprendeu no colégio há mais de 30 anos. Apesar dessa limitação na comunicação não me sinto isolada porque quando quero conversar um pouco mais procuro a companhia dos guias. Os membros do grupo são bem diferentes entre si. Jean Jacques embora fale alto e fisicamente lembre um ursão devido a sua espessa barba, é fofo, o tipo do cara bom. Bernard, fisioterapeuta, é o líder, quem organiza as viagens e orienta os colegas nas passadas mais difíceis durante as escaladas, o típico doutor sabe tudo. Ed, cuidador de idosos, exibe aquele perfil de cara que entra mudo e sai calado. Padrasto de Cynthia, os dois, aparentemente, se dão bem e cuidam um do outro. Michel, militar, belos olhos azuis, é o bonitão da turma. Joaquim, policial civil, não consegue disfarçar a atração que sente pela francesa. Antonio, italiano de nascimento, vive na Bélgica desde criança. Fala com fluência inglês daí por que assume naturalmente a função de intérprete. Enfim, Cynthia, 28 anos, advogada, magra, bonitinha. Por isso, e por ser a única integrante feminina de seu grupo, é super paparicada. Tentei no início enturmar com ela mas ao cabo dos dias ela não demonstrou muita simpatia em confraternizar embora arranhe espanhol e inglês. A única vez que se dirigiu a mim foi pra perguntar minha idade. Fazer o quê, né? Em compensação, os homens são prestativos e bem agradáveis no trato....vive la différence!!
 

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

O mundo encantado na montaña del Diablo

Nem tão encoberto assim o céu que não possa revelar rasgos de azul às 7 da manhã quando saio da barraca pro desaiuno. São servidas panquecas e os recheios são os mesmo do dia anterior: geleias de pêssego e morango mais calda de chocolate. Café ou chá pra acompanhar. Ah, sempre tem queijo ralado para se pôr na arepa ou na panqueca. Nesta manhã estou super excitada porque hoje é dia de topo!! Enfim estamos nos dirigindo até o topo do tepui Auyan motivo por que saímos bem cedinho: 7:30. A trilha atravessa uma zona de mata cujo pedrario exige o uso constante das mãos, num trepa e desce pedras constante. Tal subida nem se compara com a do Roraima. Em retrospecto, aquela foi moleza mesmo!! Num dos breves descansos para recuperarmos o fôlego, Fred nos dá pra chupar um talo verde que vem a ser um tipo de palmito. Aborrecido um trecho coberto com troncos de arbustos caídos na trilha à semelhança dum manguezal seco. Como estamos escalando a base da parede sul do tepui, é pedra sobre pedra cercado de mata por todos os lados. Por isso, até a base do paredão é só subida dura: pura escalaminhada, quando então o terreno se aplaina numa estradinha de areia branca ladeada pela muralha que faz parte da face sul do tepui. Fazemos uma pausa e Fred aproveita pra praticar um pouco de boulder na pedra, imitado pelo espanhol e belgas. Fico só admirando a precisão e elasticidade dos movimentos feitos pelo guia a cada lance. Tanta flexibilidade lembra certos passos de balé, motivo por que o apelido de Nureyev de las rocas! Durante o descanso, a neblina dá uma pausa e permite que se avistem, finalmente, o que mal entrevíamos quando aqui chegamos: os gigantescos totens de pedra que guardam a trilha. Um baita indício das maravilhas que teremos pela frente! A partir do paredão as escalaminhadas exigem corda. O tempo nublado não permite que se desfrute completamente da beleza das torres mal entrevistas através da névoa. A partir daqui foram mais de 7 ascensos usando cordas até o topo do tepui. Brutal o esforço físico dispendido, como observa certeiramente o espanhol, não todavia para os porteadores que passam agilmente por nós como se fossem salamandras de 2 pernas. Sensação inebriante caminhar entre blocos gigantescos de rocha onde nasce densa vegetação cujos destaques ficam por conta  de exuberantes bromélias, palmeiras, samambaias e arbustos de médio porte. Essa parte lembra um canyon, confinada que está entre os impressionantes rochedos. Quando a névoa se dissipa um pouco, se avistam espaços vazios entre as torres de arenito. Num desses, apelidado de Callejón de las Palomas, Fred pede um pouco de silêncio aos tagarelas belgas e franceses de modo que se possa escutar o arrulhar dessas aves que fazem do buracão seu ninho. A fatigante subida entre as colossais agulhas acaba de repente com Fred avisando que já estamos no topo. Ele nos recebe com um sorriso e um abraço de boas vindas. Minha alegria me faz rir igual criança. Refeita da emoção, percebo então as 2 muralhas dispostas perpendicularmente uma a outra. Ignoram os guias qualquer informação sobre a 1ª porque lá nunca estiveram. A que importa é a 2ª, velha conhecida deles porque necessário subi-la e cruzá-la até alcançar o paredão por onde despenca Salto Angel. Justamente por essa parede iniciaremos nossa descida de retorno. É um mundo totalmente inédito o topo do Auyantepui que, na língua pemon, significa montanha do diabo. Ao contrário do Roraima, surpreendente a  densa cobertura vegetal com matas de galeria ao longo dos rios que riscam de amarelo o solo do Auyantepui. A coloração mais clara dos maciços rochosos (um me lembrou as Prateleiras, do Parque Nacional de Itatiaia) colabora também pra tornar o ambiente menos opressivo . O céu mantém-se nublado embora a neblina tenha se dispersado. Em certos trechos mais expostos de rocha, precisamos lançar mão, de novo, do uso de cordas mas nada que se compare à excitante aventura que encaramos até o topo. Andamos uns 10 km até às 13 horas quando paramos para almoçar à beira do rio Naranja cuja coloração caramelo da água é estupenda! Uma pena que esteja quase seco devido a pouca precipitação pluviométrica durante o verão mas nada que impeça os belgas de se banhar.  Restam, ainda, algumas poças que permitem que se abasteçam d’água as garrafas. Sedenta do jeito que estou bebo até doer a barriga. O almoço supera as expectativas. Fred serve lau lau (peixe de água doce) defumado, abobrinha, berinjela e abacaxi desidratados, cebola e pimentão crus. Fred conta que ao invés de cursar faculdade, preferiu estudar culinária, fotografia e técnicas hospitalares. Chegamos no acampamento El Oso (2.165 msnm) às 15:30 quando as nuvens começam a se dissolver revelando, enfim, a face azulada do céu. El Oso, também, é um acampamento que aproveita o baita teto formado por uma reentrância na rocha. Na janta, é servido arroz com linguiça. Pena que o arroz esteja meio duro. Talvez isso se deva ao fato de a comida ter sido preparada pelos guias Mario e Ricardo, uma vez que Fred, super indisposto, foi obrigado a se recolher a sua rede lá ficando o coitado, ajojado, o resto do dia.  Às 20 horas faz-se silêncio no acampamento, após a algazarra habitual dos belgas e franceses. Ponho a cabeça pra fora da barraca e sou recompensada com o espetáculo de zilhões de estrelas piscando no céu.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

O paraíso e a serpente

A ascensão, no meio da estreita picada, aberta na floresta é dura, íngreme pra caramba. Os 2 km de subida dão a impressão de ser muitíííssimoooo mais! Ainda bem que os providenciais troncos, galhos e raízes ajudam na rude caminhada. Por entre o emaranhado dos galhos de árvores, avisto, a extensão uniforme da savana espalhada no vale de Kamarata. Fazemos uma parada pra repousar porque o cansaço amoleceu o povo que carrega mochila cargueira. O guinchar dos macacos é perfeitamente audível, assemelhando-se, pasmem, a rajadas de vento. Ao longo do caminho, uma bela flor branca com miolo amarelo é presença constante na trilha. Os guias ignoram seu nome...uma pena! Adoraria ter bons conhecimentos de botânica para saber melhor nomeá-las. Decorridas 4 horas e 8 km de muita subida, chegamos no topo da 2ª plataforma donde se tem uma visão estupenda da face sul do Auyantepui. Sua coloração avermelhada deve-se à presença do arenito na composição das rochas. Embaixo dum rebordo de rocha que proporciona excelente sombra, já que é ½ dia e o sol está a pino, paramos pra almoçar. A refeição oferecida é wrap recheado com verduras e atum mais suco de limão. Terminado o ranguinho, retornamos à trilha. Continuamos subindo porque hoje vamos até a metade da 3ª plataforma onde se as subidas são  amenizadas por curtas descidas, bem como intercaladas por breves trechos planos. Continuamos embrenhados numa mata não tão cerrada quanto aquela percorrida antes do almoço, já que predominam arbustos de médio porte. Degraus esculpidos na macia e clarinha rocha calcárea, lembram vagamente àqueles da rampa que conduz à base da parede do Roraima. Mais uma vez trechos de exigente escalaminhada. Aqui, contudo, o cuidado duplica porque há largas gretas entre as pedras. Chegamos a um córrego onde abasteço minha garrafa. Diante de tanto esforço, suo em bicas, razão pela qual tenho de repor o líquido perdido sob pena de me desidratar rapidinho. Chegamos às 14:40 ao acampamento El Peñon (1.870 msnm) que leva este nome graças à proteção natural proporcionada pelo grande teto de rocha onde as barracas são instaladas. Em certos locais, o teto é tão baixo que tenho de me abaixar pra não bater com a cabeça na pedra. Por uma sinuosa picada, desce-se até o riozinho cujo leito apresenta degraus de pedras bem lisinhas, muitas delas forradas pelo aveludado e verde musgo, formando pequenas quedas d’água. Encantador o lugar! Por volta das 17 horas, o sol se põe, colorindo de dourado a avermelhada parede do tepui. Show la puesta del sol! Lá embaixo, na savana, reluzem braseiros resultantes de focos de incêndio que, felizmente, não se propagaram demasiadamente. Rajadas de vento levantam desagradáveis ondas de poeira. Mario, embora jovem, exibe tom de voz que soa como se fosse um ancião. Não importa o tema que esteja discorrendo, entremeia com pausas profundas a conversa. Pode tanto ser algo sério quanto uma observação jocosa ou irônica. Pra onde vai carrega consigo um pequeno banco de campanha onde se senta quando paramos. Linus com seu cobertor e Mario com sua silla, hehe. Como sempre, a refeição, feita no capricho pelo competente Fred, consta de prato principal - massa carbonara - e a nutritiva sopa de legumes com pedaços de queijo. De postre, banana caramelada. Agora 19:30 o maior silêncio no acampamento, exceto o alegre murmúrio de alguns porteadores refestelados nas belas e coloridas redes tecidas em três dias pelas índias nos rudimentares teares de suas aldeias. Já em frente ao acampamento, os pirilampos fazem a festa inundando a mata de inúmeros pontos luminosos. Mazaaahh, vidão!! 

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Auyantepui e suas plataformas

Dessa vez, não farei trek solita, como de costume, mas acompanhada por 8 europeus: 5 belgas, 2 franceses e um espanhol. Contrariando a regra de seres frios e mal humorados, (por acharem que a civilização européia é superior?!! Será?!), os membros da expedição, exceto a francesa (infelizmente, a moça faz por merecer o estereótipo), são prestativos e bem humorados. Os belgas e franceses são amigos e costumam viajar juntos, alguns inclusive pedalando mundo afora. Sobraram de avulsos, eu e o espanhol. Feliz estou porque há alguém falando idioma que entendo bem. Quando se apresentou fez questão de frisar “yo soy catalán”......hummmm, já vi esse filme com os bascos quando fiz o trek na cordilheira Huayhuash no Peru. Bueno, afora nós, os clientes, há 3 guias e 18 porteadores pemones que transportam bagagens e equipamentos, acondicionados em cestas de vime e palha, chamadas guayares (para os ianomâmis brasileiros é jamachi). O guia-chefe é o infatigável Fred Espinoza, cujos dotes culinários foram muito elogiados por Henry. Vamos ver se ele faz realmente jus ao elogio. Os outros dois guias, Mario Osorio e Ricardo Navas, ficam na maior parte do tempo contemplando Fred cozinhar, limitando-se a picar algum alimento ou ralar queijo. Ao contrário do grupo, contratei um personal porter, Antonio, porque não tenho condições de carregar mochila cargueira nos costados. Quando saímos da aldeia Uruyen, às 9:20, neste 1º dia de trek, o tempo permanece nublado embora a névoa que escondia o Auyantepui tenha se dissipado. Ainda bem que o leve chuvisco, quando levantei às 7, não se manteve. Trilhamos um sendero bem demarcado na savana cujo destaque em matéria de vegetação é a Bulbostyle Paradoxa, com florescência similar à da sempre-viva. Resistente ao fogo lembra em muito nosso candombá. Ao cruzarmos o rio Ocoiñe, paramos para um mergulho refrescante pois o sol conseguiu se livrar da tela de nuvens, elevando exageradamente a sensação térmica. Uma pena que o rio, devido a pouca chuva na região, esteja tão raso. Aproveito e encho a garrafa de 600 ml e a água se mostra cristalina tal qual água mineral. Deixamos para trás a planura das pastagens verde-amareladas da savana, iniciando então a ascensão. Circundando a face sul do Auyan há 3 extensos platôs rochosos, formando como que gigantescos degraus que antecedem o topo do tepui. Hoje subiremos, contudo, somente até a 1ª plataforma. Percorremos uma mata relativamente cerrada pra desembocar no espaço aberto do cobiçado platô, após a árdua subida de 3 km que durou 2 horas, penando no calor escaldante do verão venezuelano!! A recompensa é a encantadora visão dum mundo de pedras cobertas por musgos e líquenes, arbustos e flores, sombra e água fresca. Almoçamos no alto da plataforma tendo aos nossos pés o vale de Kamarata delimitado pelo cada vez mais onipresente Auyantepui. Fred prepara sandus com kani kama, queijo e abobrinha regados a suco. Descansamos brevemente terminada a refeição e, quando reiniciamos a caminhar, São Pedro nos presenteia com um céu nublado....coisa boa!! Muitas flores ao longo do caminho: begônias, brincos de princesa, caliandras, entre outras cujos nomes  desconheço. Grande extensão da parede do tepui exibe-se esbranquiçada devido à ação dos líquenes. O caminho agora se torna moleza: uma suave descida sucedida por um trecho plano até o acampamento. Na trilha, a areia branquinha e as dezenas de arbustos queimados por combustão natural, faz-me recordar demais do cerrado da Chapada dos Veadeiros. Considerando que Uruyen está a 497 msnm e o acampamento Guayaraca a 1.011 até que o desnível não foi dos maiores já enfrentados. O Garmin registra 10 km vencidos em 5 horas e 30 minutos quando, por volta das 15:30, chegamos ao acampamento. Mais uma vez, o céu volta a desanuviar. No local do acampamento há um singelo galpão aberto, onde alguns índios amarram suas coloridas redes nas pilastras que sustentam o teto de palha. Já outros preferem o recato da mata, pendurando suas hamacas aos troncos de árvores. Cumprida a tarefa da montagem das barracas, os porteadores deitam-se nas redes e só se levantam no dia seguinte quando então lavam a louça da janta e do café da manhã. São totalmente relax! Feitos os necessários exercícios de alongamento, vou ao rio, que corre a 100 metros donde estamos acampados, e tomo um banho na água agradavelmente fresca. Pronto, eis restaurada a energia perdida. Beleza pura este recanto do planeta! Às 17:30 com a escuridão já quase instalada, tem início o show das luzinhas emitidas pelos pirilampos. No céu, novamente encoberto, vez por outra, as nuvens se dissipam e permitem que se admirem trechos crivados de estrelas. A janta gourmet está dos deuses: sopa de legumes (cenoura e mandioca), costeletas de porco ao molho shoyo com mostarda, purê e bananas fritas. De fato,  Fred é um cozinheiro de mão cheia! Às 19 horas, graças a deus, o silêncio se instala no acampamento, já que belgas e franceses, recolhidos às suas barracas, param, enfim, de conversar. Eu nunca vi gente tão tagarela, por deus!! Detalhe: dos 8, 7 são homens! Causa espécie que queiram ver animais na trilha não sabendo manter silêncio. Tá na cara que nunca os verão, porque os bichos, apavorados com o incessante falatório, devem estar cuidando de se proteger de tal escarcéu, se escondendo mata adentro, hehehe. Entretanto, as  risadinhas e o conversê, em tom baixo, dos porteadores naquela algaravia estranha, que é seu idioma, me delicia. Portanto, só me resta dizer por hoje au revoir!

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Curtindo Uruyen, aldeia indígena pemone

Mucha moneda, poca plata, assim é a moeda venezuelana, o bolívar. Ao câmbio oficial 1 dólar vale em torno de 230 bsf. Porém no câmbio paralelo pagam 550 bsf por una doleta. É um horror transacionar com esta moeda. Só são emitidas cédulas de 50 e 100 bsf. Tanto que o papel-moeda vale mais que seu próprio valor nominal. Não há cédulas velhas, são todas bem novinhas, porque o governo está sempre emitindo mais e mais grana. Dessa forma, um bolo de dinheiro com uma altura de 5 cm compra apenas uma dose de rum! Tem de se andar com uma sacola grande pra acomodar a dinheirama que pouco vale diante da odiosa inflação. A política cambial venezuelana (leia-se chavista) é absolutamente perversa, tanto que sou advertida para evitar compras com cartão de crédito. Isso porque, aqui, ocorre a proeza bíblica da multiplicação dos pães: por exemplo, uma compra de 1.600 bolivares (equivalente a 3 dólares) feita no cartão de crédito, resulta num valor próximo aos 130 dólares a ser debitado na tua fatura mensal! E, nas duties free da área internacional do aeroporto de Caracas, dólares não são aceitos, apenas bolivares, alcunhados pelo falecido Chaves de "fuertes"....seria cômico se não fosse trágico! Bueno, essas recomendações são feitas por Henry, no sábado, durante o almoço num restaurante especializado em arepa, tradicional prato regional. A comida consiste num pão de milho, recheado com vários tipos de carnes, legumes e queijos. Escolho uma arepa com carne mechada (carne desfiada com molho picante), abacate e queijo branco. Às 15 já estamos na ala nacional do aeroporto embora o voo saia somente às 19 horas. A cautelosa antecipação é pra evitar a prática do overbooking, feita na cara dura pelas companhias aéreas. Aguardam-se 4 horas num aeroporto bem xinfrim (se fosse bacana até compensaria a longa espera) para voar 1 hora até Puerto Ordaz onde pernoitamos. Cedinho, 7:30, já estamos no busão em direção a Ciudad Bolivar onde pegamos 3 avionetas do tempo de Saint Exupery. Aqui já começa a aventura! Na nossa, há 6 assentos. O piloto, Carlos, maneja com perícia o balouçante veículo. As turbulências, quando as há, são leves. O céu alterna corredores nublados com espaços abertos donde vejo enquanto nos afastamos de Bolívar as casas diminuindo de tamanho e o rio Orinoco passando ao largo desfilando suas águas amarronzadas. Voando a >uns 1.000 metro de altura, dá pra distinguir bem a paisagem. Relevo, inicialmente, plano, monótono, com vegetação predominantemente arbustiva. Impactante a desfiguração provocada pela construção da gigantesca usina hidroelétrica de Guri, no limiar da floresta amazônica. Após 50 minutos de voo, a espessa vegetação da floresta amazônica começa a dar pinta. Aqui e ali, pontos amarelos e rosados quebram o predomínio do verde. Ao passar pelo rio Carrao, a devastação causada pela mineração é desoladora. De repente, na paisagem plana, os tepuis começam a aflorar, espocando tal pipoca no solo. Majestoso é pouco pra descrever a belezura desse tipo de elevação, em forma de meseta, com paredes verticais, cuja altura varia de 2 mil a 2.900 metros. Paramos na aldeia Kamarata para deixar 2 caixas de papelão com comida (o cheiro é muiiitoooo bommm). O piloto desce e as entrega a um índio que, juntamente, com sua mulher, estão esperando a encomenda sentados em sua motocicleta. Quando aterrissamos, em Uruyen, até eu bato palmas!! Que deu um pouco de medo de voar na tal avioneta, ah, isso deu! Uruyen é uma das tantas aldeias indígenas pemones, localizadas no setor ocidental do Parque Nacional Canaima. O lugar conta com 8 ou 9 casas de adobe em formato de oca, feitas pela comunidade cujos tetos de palha exibem elaborados trançados. A paisagem que se desfruta de qualquer lugar onde se esteja é a da magnífica face sudeste do Auyantepui e de suas encostas revestidas de vegetação. Com altas muralhas formando recortes variados, sua superfície alcança 700 km², motivo por que é de longe o maior de todos tepuis existente no globo terrestre. Daqui da aldeia, já dá pra perceber a maravilha que vai ser essa pernada. Atrás de nossa casinha, corre o rio Yurwan de águas cristalinas. Esta região onde estamos chama-se vale Kamarata, rodeado por dezenas de outros tepuis além do Auyan. A Venezuela detém a maioria dos tepuis do planeta:  115!  A maioria localiza-se aqui no Parque Nacional Canaima. O restante – 140 - estão distribuídos pela Colombia, Brasil, Africa e Australia. O mais alto tepui do planeta é o Roraima onde já estive há um par de anos. No almoço, preparado pela pemone Dulce, é servido arroz, peixe e salada. E um tempero muito apreciado pelos pemones, o kumate. O molho é obtido mediante um complexo processo em que se misturam aji e yuka. Dependendo da tribo, são acrescentados, cupins, formigas ou peixes. Pura proteína, tá ligado? Eu adorei o ardido tempero. Os pemones que habitam o vale Kamarata pertencem à tribo Kamarakoto. Na dinâmica política dos pemones, o líder máximo é chamado capitão-general (?!!), já nas comunidades, o manda-chuva tem a patente de capitão (por tupã,  não entendi e também não conseguiram me explicar o motivo de os índios terem adotado a hierarquia militar dos brancos). Conversando com um dos pemones, comento sobre os efeitos deletérios causados pela mineração. Ele conta que tal atividade econômica foi estatizada, porquanto eles próprios se indignaram com o impactante sistema de extração do ouro usando máquinas e mercúrio. Exigiram do governo a proibição desse tipo de garimpagem. Atualmente, os indígenas continuam a exploração aurífera mas no sistema antigo de bateia  que não polui o ambiente. Um breve descanso após almoço (meu descanso foi arrumar e desarrumar minhas tralhas num frenesi compulsivo que nem 20 anos de terapia têm conseguido resolver) e tocamos rumo ao canyon do rio Yurwan. Calor na medida certa, céu pintalgado de nuvens fofas, tipo flocos de algodão, usufruo da visão desbundante do poderoso Auyantepui durante toda a pernada. O paredão cheio de pontas irregulares em seu topo lembra uma muralha, sobressaindo entre a compacidade rochosa algo semelhante a um gigantesco portão, como aqueles dos castelos medievais. À esquerda, outra escultura nas rochas remete às torres de vigia. Resguardado está o pétreo feudo! Depois de atravessar um trecho de savana, penetra-se numa mata que tem como limite a superfície lindamente amarelada do rio Yurwan. Não há como resistir a um tchibum nas águas frescas onde, infelizmente, a pulseira de prata que enfeita meu pulso direito é reivindicada por alguma entidade.....será? Se for Yara, que faça bom proveito....arghhh!! Atravessamos o rio e continuamos a caminhar ao longo do verdejante bosque até um brete de tirar o fôlega cujas paredes bem próximas uma da outra tornam o local escuro como aquelas antigas igrejas católicas (lembrei demais da garganta Kaigangue, localizada em Praia Grande/SC). O brete desemboca num lago circundado por paredes rochosas de 20 metros de altura donde despenca uma cachu cujo jorro d’água retumba no anfiteatro de pedra. Fico desbundada, nunca tinha visto algo igual. A pernada de retorno se dá quase ao entardecer, motivo por que apuro o passo já que não trago lanterna na mochila. Vou pro meu quarto assim que termina a janta, dessa feita, preparada pelos guias. Não demora muito chegam os dois belgas com quem divido o quarto. São tranqüilos e custo um pouco a dormir porque minha cama sem mosquiteiro não me protege das baratas que insistem em dar rasantes sobre meu rosto. Não resta outra alternativa, a não ser sair a cata dum filó pra me proteger das cucarachas.....hehe.