sábado, 18 de junho de 2016

Enfim, las Yungas

Acordo às 5 da manhã com o galo cocoricando a milhão, tarefa que ele cumpre diligentemente até 8 horas quando então levanto e saio da barraca. Nem acredito no que vejo: após 2 dias de céu nublado eis o sol exibindo-se meio sem graça, mas não importa, tudo é melhor do que aquele ambiente cinzento que nos acompanhou durante 2 dias inteiros!! No desaiuno, liquidamos o resto do queijo que sobrara da janta. Os dois cachorros de Feliciana espertamente estão sempre enrodilhados diante do fogo de chão. Volta e meia ela ralha com Peluce, hilário! Aproveito que a fofa da velhinha está quietinha, mateando, pra puxar conversa. Queixa-se de que o dedo envolto em curativo lhe dói. Indago, então, como conseguiu se machucar. Ela responde que rasgou o dedo num prego que prende a ferradura à pata do cavalo tentando sei lá se tirá-la ou se tentando raspar o casco do animal.....coitadinha! Partimos sem que eu consiga me despedir de Jose porque ele está buscando mula e cavalo campo afora, descuidadamente, deixados soltos ontem à noite. E sabemos, depois, quando o arriero telefona pra Fernando, que a demora foi bem mais duma hora até resgatar os 2 bichos! Feliciana nos leva até o final do páteo e, na despedida, lembra Fernando – pela décima vez, haja paciência - que não se esqueça de transmitir ao filho as encomendas que o guri deve lhe trazer quando vier visitá-la. Já afastados da casa, ouvimos sua vozinha fazendo as mesmas recomendações: "pilhas pro rádio, que o filho não esqueça de trazer". Um amor essa Feliciana! Às 9:30 já nos encontramos subindo o morro e à medida que ganhamos altura, aparece com nitidez a Quebrada Cuesta Grande e mais adiante a Quebrada Calderilla. A manhã, embora muito fria, está estupenda, céu claro e um charmoso colar de nuvens rodeia os cerros em frente. Paramos na Abra Sarapura onde há outra casa pertencente à Feliciana. Um lindo gato cinza e branco, super carinhoso, arqueia o lombo e se esfrega em mim, miando. Não deve estar mal de ratazanas nesta banda porque o bichano se mostra bem nutrido. O visual daqui de cima é estupendo, o mais bonito pra mim de todo o trek. Dá pra visualizar o trajeto feito desde o 2º dia a partir da Abra de la Cruz e os cerros que se sucedem, alguns deles formando outro tanto de pequenas quebradas. Porque distantes os mananciais de água, não se acampa neste posto. O que é uma pena porque seria beleza pura acordar e dar de cara com tal cenário! Do posto Sarapura,  percorremos, não por muito tempo, suaves colinas onde preponderam gramíneas. Um mar de cerros verdejantes é o que tenho diante de mim. Adentramos, finalmente, na famosa yunga, que vem a ser bosques nebulares característicos das montanhas andinas. Tão úmido este ambiente que pedras, troncos e galhos de árvores estão fartamente cobertos por musgos.  Paralelo à trilha, escuto vindo do estreito córrego, pontilhado de minicascatinhas, o incessante e agradável rumorejar da correnteza batendo nas pedras. Nada fácil caminhar nesta trilha aberta em meio à cerrada vegetação, o que me traz à lembrança nossa mata atlântica. A maioria das pessoas temem subidas, eu, entretanto, me cago nas baixadas. Esta, além de íngreme, tá cheia de pedras soltas. Como tem chovido muito, graças ao El Niño, o terreno em diversos trechos revela-se bem enlameado. Entre um bosque e outro, zonas descampadas onde domina descolorido capinzal. Aproveitamos pra comer algo quando chegamos ao posto de Calixta, abandonado após sua morte. Numa das janelas, o costume regional de desenhar a giz uma cruz rodeada por corações indica o recente falecimento da proprietária. Dramática mudança de tempo a partir do posto de Calixta. O céu nubla repentinamente e a neblina toma conta da atmosfera. Sucede-se a uma curta e áspera subida nova descida que desemboca numa clareira. Aqui acontece o imbróglio onde Fernando se perde e não encontra a continuidade da trilha. Começa então uma sucessão de entra-e-sai no que ele supõe seja a trilha principal. Triste engano: revelam-se apenas picadas abertas pelo gado, super fechadas, porque pouco transitadas, maior chatice percorrê-las, galhos barram o caminho e espinhos se agarram à roupa. Nada paciente, começo a me irritar com aquela galharia infernal e não vejo a hora de terminar o trek. Após uma hora perdidos saltando dum filo a outro filo, como fala Fernando, acertamos o rumo e engrenamos lomba abaixo, avistando, finalmente, San Lorenzo e mais adiante Salta....ebaaa! Devido a outra desorientação de Fernando damos não em San Lorenzo, conforme o programado, e, sim, em Las Costas, um de seus distritos. Tadinho de Fernando, mais uma vez, se perde, nos fazendo descer por uma piramba do outeiro de La Cruz Blanca. Eu, pensando que a aventura terminara, percebo, louca de medo, que posso num vacilo despencar e quebrar o pescoço. Enfim, às 17 horas, após 14 km de pernada, alcançamos a estrada onde Pancha nos resgata. Hospitaleira, a mulher de Fernando, trouxe café (graças a deus não adoçado) e um delicioso pão feito em casa, receita de família. Estou super cansada razão por que recuso o amável convite de meu guia pra comermos empanadas regadas a cerveja preta numa bodega de San Lorenzo. Dou minha missão por cumprida e o que quero é singelo: um banho quente e caminha assistindo televisão, hehehe!

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Mulheres

Choveu durante a noite. Quando acordo, as gotas de chuva cristalizaram em cima da barraca. Faz um frio como há muito não sentia. Os homens encilham os cavalos, animadíssimos, preparando-se para a iminente cavalgada. Juan alvoroçado já está num alegre tragoléu. Mistura numa garrafa de 1,5 litro de refri vinho e coca cola guardando-a num dos alforjes que Fernando lhe trouxe. Ontem quando o guia lhe entregou o par de bolsas, ele se mostrou tão encantado como criança em dia de aniversário. Agora 10 horas as nuvens que encobrem o cerro Verde dispersaram-se  um pouco embora o céu continue nubladíssimo e o frio não dê trégua tanto que os dedos das mãos ardem de dor embora eu use luvas. Terminados os preparativos, os rapazes despedem-se cerimoniosamente estendendo as mãos ao passo que João me pespega uma beijoca na bochecha. E lá vão eles descendo o cerro rumo ao rio Calderilla numa animação juvenil. Pergunto a Pascoala se não se sentirá só sem o marido. De pronto, responde "me hace falta en las tareas domesticas", e trata de entrar no curral onde se encontram as ovelhas, ordenhando-as para com o leite fazer queijos. No desaiuno, ela coloca à mesa um belo naco de seu queijo de coloração branca e sabor suave. Enquanto bebo meu chá com leite, lembro do que Berta contou hoje pela manhã quando me convidou pra ver as ovelhinhas recém paridas. De que há ovelhas-mães que se recusam a alimentar suas crias, o que obriga o dono a apartá-las do rebanho, encerrando-as juntamente com os recém-nascidos num espaço à parte de modo a forçá-las a alimentá-los. Neste posto também o rádio fica dia e noite ligado porque pode algum parente de Juan ou Pascoala enviar alguma mensagem. Entretanto, a notícia que o locutor transmite é um pedido prum tal de Calixto levar 2 cordeiros pro velório duma senhora de nome Modesta. Vai ter festão pelo visto no bota-fora da defunta! Deixamos o posto Reinaga às 10:45 percorrendo por 2 horas uma baixada. Durante a descida, dá pra ver perfeitamente o rio Vuelta Grande serpenteando pela quebrada homônima formada pelos cerros Verde e Loma Grande. A paisagem perdeu bastante sua aridez, e a vegetação toma conta dos campos donde brotam gramíneas e coirones. Cruzamos um pequeno bosque de alisos, árvore de médio porte e tronco fino, cujos galhos a esta época do ano se encontram desfolhados. Abre-se no céu uma pequena janela de azul que nos dá esperança de que o tempo irá melhorar. Pouca demora, o olho azulado cede espaço novamente ao insosso acinzentado. Maldade das grossas esse falso alarme de bom tempo, ala putcha! Paramos na outra casa que Juan tem à margem do rio Calderilla onde se encontra uma de suas filhas. A moça mais os 3 filhos está se preparando pra subir o morro e visitar a mãe durante o fim de semana. Aproveito e retiro minha calça impermeável porque desconfio que se não choveu até agora não choverá mais. Como este tipo de calça esquenta muito o corpo, fazendo com que eu transpire em abundância, é melhor me precaver da perda de fluído corporal. O nevoeiro se dissipou de vez, o que restam são flocos esparsos de nuvens apesar de o céu permanecer com aquele aspecto pesado, como se tivesse com gana de encostar na terra. Caminhamos, então, por uma estrada onde é possível veículos transitarem. Segundo Fernando é a parte menos atrativa da jornada. Encravado no alto duma colina, o guia aponta o que parece ser um cemitério. Explica que os nativos da região constroem cemitérios em lugares altos de modo a perpetuar costume herdado dos incas em deixar os espíritos dos mortos mais perto do rei sol. Ao chegarmos a uma encruzilhada, Fernando indica o lugar não só como ponto de resgate se necessário como o término da versão de 3 dias do Trek de las Nubes. Saímos da estrada e passamos a caminhar no irregular terreno da margem coberta de pedregulhos do rio Calderilla. Como temos de passar pra sua outra margem, cruzamos a correnteza se equilibrando numa improvisada ponte feita de tronco de árvore. A partir daqui a paisagem muda radicalmente: não há mais vestígio algum daquele descampado árido que percorri durante 2 dias consecutivos, a vegetação é onipresente, forrando de verde os cerros do cume ao sopé. E surgem arbustos com delicadas e pequenas flores amarelas e vermelhas. Nem bem ultrapassamos o Calderilla, temos de cruzar outro rio, o Cuesta Grande, sem sinal de tronco ou pedras improvisados de ponte. Fernando procura no rio uma passagem que seja rasa >porém não encontra nenhum trecho onde possamos cruzar sem molhar os pés. O jeito foi arrastar um pedaço de tronco e jogá-lo sobre o leito empedrado do rio. Paramos pra almoçar e assim que terminamos de comer recomeçamos a andar. Com este tempo úmido, o frio se faz sentir assim que se fica muito tempo parado. Mais uma hora e 30 minutos de caminhada em terreno plano seguida duma subida leve duns 40 minutos ao longo do rio Cuesta Grande, quando então passamos a enfrentar um íngreme ascenso de curta duração morro acima. O que compensa é parar vez por outra e apreciar o rio lá embaixo confinado na quebrada Cuesta Grande. Após 5 horas e 20 minutos de pernada, calcorreando em torno de 12 km, estamos finalmente no posto Sarapura pertencente à Feliciana, ostentando recente viuvez. Há duas versões sobre a causa mortis do marido. A oficial declara infarte. Já as más ou boas línguas (depende do ponto de vista) apontam asfixia por ingestão de folhas de coca, morte nada incomum nestes ermos. Isso ocorre porque os homens, que passam o dia mascando coca, lá pelas tantas se embriagam e deitam esquecidos do que levam na boca, se engasgando com a maçaroca de erva durante o sono.  Mora com Feliciana uma vizinha, menina duns 13 anos. Tímida em nossa presença, a guria só fala quando algo lhe é perguntado e mesmo assim por monossílabos. A anciã é magrinha, de pequena estatura, e seus pequenos olhos escuros miram profundamente o interlocutor. Fala sozinha enquanto faz as tarefas domésticas. Irrequieta, nem bem senta já levanta pra fazer sei lá o quê. Sua risada, contudo, é surpreendente: forte, alegre, contagiante. Na igualmente enfumaçada cozinha de Feliciana, enquanto Jose prepara uma janta supimpa - massa com chuletas de porco ao molho barbecue - degustamos uma picada do queijo de ovelha que Fernando comprara da querida velhinha, regado com o delicioso tinto saltenho. Que happy hour!!

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Brumas na Quebrada Vuelta Grande

Quem dorme em barraca, sabe bem quão entrecortado é o sono. Cada vez que me viro, acordo, mas graças a deus volto a dormir rapidinho. Por causa desse dorme-acorda-dorme, escuto fortes rajadas de vento durante a noite. Quando acordo, o dia continua bonito como ontem: céu azul com fiapos de nuvens que não empanam o brilho do sol.  Jose veste-se com os trajes típicos de vaqueiro: uma proteção de couro que cobre a parte anterior de ambas as pernas, tipo uma saia sem a parte de trás. É um homem alto e forte com uma bela pança. Já Fernando é mignon e magro. Vaidoso, queixa-se de que está com sobrepeso na região abdominal. Eu, também, digo pra ele, hehe. Berta, quando chego na cozinha pro desaiuno, está escutando rádio. Como aqui não pega celular, o rádio é o meio com que as pessoas se comunicam entre si nestes ermos. Em sendo assim, Berta, a sorridente, tem como companhia o radinho de pilha enquanto lava a louça. Não para de sorrir nem quando conta que o marido a abandonou por uma paraguaia. Fala um bom espanhol porque viveu em Buenos Aires trabalhando como doméstica durante 20 anos. O fogo de chão já está aceso de modo a esquentar a água pro café. Saímos às 11:00 e o trajeto é praticamente plano até a Abra de la Cruz.  Quando lá chegamos, me viro pra apreciar o vale onde fica o posto de Berta e a  Quebrada Incahuasi;  bem ao fundo os nevados Acay e San Miguel de la Poma, dois cerros de 5 mil metros muito procurados por montanhistas. A partir da abra uma pequena descida até a paragem Vuelta Grande onde há uma casinha e um curral feitos de pedras onde dois cavalos nos miram com olhares sossegados. A partir dali entendo porque o nome do trek é de las nubes. Não só o vale de Lerma como a cidade de Salta, se não fosse por isso, dariam pra ser vistos daqui de cima das montanhas, contudo, se encontram encobertos por uma massa compacta de nuvens. Uma pena que não dá pra se distinguir nadica de nada sob a espessa bruma. Parece um gigantesco lago branco suspenso no ar! Dois grandes cerros que não se deixaram ainda envolver pela neblina se defrontam, o da esquerda é cerro Loma Grande em cuja encosta é visível um sendero por onde subiremos; já o da direita chama-se cerro Verde. Ambos formam a quebrada Vuelta Grande cuja abra recebe o nome de Planchones. Quando iniciamos a subida do Loma Grande, a cerração se instala de vez na paisagem, Caminhamos praticamente o resto do tempo dentro de nuvens, tanto que Fernando em tom jocoso observa “estamos dentro de un gigantesco nebulizador, Beatriz”. Parada para almoço quando então, inevitavelmente, discutimos sobre o clima. Fernando adverte-me que se chover forte amanhã será obrigado a pedir resgate via telefone satelital com o que será enviado um 4x4 até uma estradinha cujo acesso está a 15 km. Consultado, Jose, um pessimista, opina, é claro, pela possibilidade de chuva no decorrer do período. Eu, absolutamente desencanada quanto à questões meteorológicas – pode estar cinzentézimo o céu e até garoando que nada disso me afeta ou impede de fazer as coisas -,  assevero que San Pedro não vai nos deixar na mão. Jose limita-se a me lançar um olhar descrente sem nada comentar. Rebanhos de ovelhas ao longo do caminho são cuidados por cães vigilantes que rosnam pra nós quando passamos. Basta, contudo, um gesto de mão e um xô xô pro animal recuar. Ainda em meio à forte cerração, o que baixou muito a temperatura, só descida até o posto Reinaga onde chegamos às 14:30. Pelos meus cálculos devemos ter caminhado uns 6 km. O destaque na paisagem são pedaços ainda sangrentos da ovelha recém carneada pendurados em ganchos presos nos galhos duma árvore. Sobre o muro de taipa, que rodeia a residência, um conjunto de 3 casas de pedra em formato de U, a pele da ovelha jaz estendida exibindo o couro branquinho. Juan, o proprietário, é um setentão baixote, gorducho e alegre. Já sua mulher, Pascoala, é séria e mal consigo entender seu espanhol. Não rola entre nós a mesma química que rolou com Berta. Possui outro temperamento a roliça senhora cuja idade, 74 anos, aparenta menos. Ali já se encontram oito jovens, amigos de Juan. Vieram a cavalo de San Lorenzo para amanhã buscarem um gado. Sentados ao redor duma mesa, embaixo dum telheiro, o frio é acabrunhante menos pra eles que bebem pra caramba. Num caldeirão, um dos jovens acendeu um braseiro que transmite um pouco de calor ao ambiente aberto. Uma caneca passa de mão em mão. Não resisto e peço pra provar a beberagem, resultado de erva mate e água, coada, mais um tanto de graspa. Taí, gostei! Jose, num fogãozinho de 2 bocas, prepara uma panela de lentilhas com batatas e linguiça. Com fome e porque o prato está saborosíssimo, peço bis. Juan, já bem altinho de tanto beber uma mistura de vinho com coca cola, nos oferece assado de ovelha. Macia e suculenta, a carne está nota 10. E, mais uma vez, Fernando enche meu copo com aquele tinto saltenho muito bem vindo pra acompanhar tão agradável ceia. Eu adoraria ficar mais tempo usufruindo de tão alegre companhia mas o frio está mesmo de renguear cusco. Por isso, me despeço desejando boa noite a todos e me toco pra minha barraca, armada um pouco adiante das casas, abrindo alas em meio à névoa e à escuridão das nove da noite. Como foi super tranquila a pernada sem nenhuma subida ou descida forte, leio algumas páginas de Fundação, livro escrito pelo mago da ficção científica, Isaac Asimov. A voz alta de Juan se destaca entre as demais seguindo-se estrondosas gargalhadas. Ala putcha, vidinha bem boa esta!

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Sendero de las Nubes

Saída da estação rodoviária às 08:00 com o guia Fernando, um mendocino, sessentão como eu, que se estabeleceu em Salta após ter sido guia de montanha na região do Aconcágua, após ter acumulado a marca de 10 cumes na mais alta montanha das Américas. Inicialmente, iria fazer o trek com uma família porteña mas sei lá o motivo de eles terem adiado pra julho o programa. Entramos no busão e percorremos 70 km ao longo da Ruta 51 até o ponto donde iremos começar a caminhada. Esta ruta, super transitada, em especial por caminhões, termina no Paso Sico fronteira com Chile, daí continuando com outro nome até o porto de Antofagasta, motivo de sua importância pros argentinos. Excitada com a aventura, dormira pouco a noite, daí porque cochilo quase todo o trajeto perdendo a bela paisagem oferecida pela Quebrada del Toro, garganta com aproximados 90 km de extensão. Tanto que lá pela tantas escuto Fernando chamando minha atenção para ver os trilhos suspensos do famoso Tren de las Nubes. O busão nos larga na frente da Finca Incamayo às 10:15 onde o arriero Jose já ali se encontra. Irá transportando a bagagem uma mula (o bicho suporta em seu lombo até 60 kg), ao passo que ele irá a cavalo. Enquanto os homens finalizam os preparativos de prender as sacolas no animal, curto o impressionante barranco ocidental, uma das paredes que forma a Quebrada del Toro, e a coloração avermelhada de sua rocha permeada de canaletas como se fossem minigargantinhas.  O Trek de las Nubes por mim rebatizado Sendero de las Nubes (soa mais simpático, não é mesmo? afinal, estou num país onde o idioma é espanhol), erroneamente apontado como um recorrido na pré-cordilheira andina, em realidade, percorre serras subandinas. Fernando, como não me conhecia, tomou a decisão de não iniciar a caminhada a partir do posto da gendarmeria Ingeniero Maury, como é costume, desistindo de entrar pela Quebrada del Toro, e, sim pela paragem da Finca Incamayo, 18 km antes, penetrando via Quebrada Incamayo. Por quê? Quis com isso me poupar 200 metros a menos de desnível. Andamos pouco tempo dentro da Quebrada de Incamayo porque logo se torna impraticável caminhar ali dentro: estreita, tem saltos que não se pode contornar. Assim, começamos a subir seu flanco oeste, bem íngreme e com muita pedra solta. Alcançamos sua crista percorrendo-a por bom tempo enquanto à esquerda avistamos a sinuosa Ruta 51, a Quebrada del Toro e vários cerros de 4 mil metros que se situam além como Bayo, Redondo, Camara e Manzana. À direita, o Cerro Pacuy domina a parede oposta da Quebrada Incamayo. A paisagem é árida, predominando cactus (coirones), alguns com quase 5 metros de altura. Em toda esta zona há muitas ruínas incas como corrales e uma antiga mina explorada pelos incas e posteriormente pelos espanhóis. Contudo, remonta a 600 anos e, portanto, pré-incaica, a bem conservada pukara, localizada estrategicamente entre as Quebradas del Toro e Incamayo, para o exato propósito de servir como torre de vigilância. Embora friozinho, o dia está lindo, céu azul cujas nuvens baixas emolduram as encostas dos cerros.  São mais de 2 horas de intensa subida até que pelas 14 horas paramos para almoçar. O menu é um baita sandu com tomate, alface, queijo e frios mais bolachinhas doces e salgadas. Após mais 2 horas ganhando altura, enveredamos a leste, iniciando a descida e retomando a caminhada pelo interior da Quebrada de Incamayo. Cruza-se diversas vezes o leito mirrado e estreito do córrego Incahuasi e, como num passe de mágica, a paisagem muda, passando a se exibir mais verdejante. Abundam arbustos de pequeno porte e chama a atenção a interessante yareta, planta que chega a ter até 3 mil anos de existência. Ignorante em Botânica quando olho penso que se trata duma pedra recoberta de musgo, hehe. Logo a vegetação mais "abundante" cede novamente lugar à aridez. E sobre uma colina, outras ruínas, estas declaradas monumentos históricos, o chamado sítio arqueológico Incahuasi. Destaca-se pela boa conservação a Silla del Inca. Trata-se duma casa de banhos onde os incas construíram um sistema de encanamento, puxando água dum córrego, de modo a que pudessem se banhar sob um cano que lhes servia de ducha. Pensa que eles, os incas, tomavam banho de pé? Hahaha, só não!! Sentadinhos confortavelmente num banco de pedra, daí a origem do nome silla del inca. Também dura 4 horas a segunda metade da pernada, a da baixada, porém sinto um cansaço incomum. E me queixo pra Fernando que estou realmente começando a sentir o peso dos anos. Ele põe os pingos nos "is", esclarecendo a razão: ascenso de quase 1000 metros já que da Finca Incamayo, situada 2.400 metros estamos agora a 3.370, aqui, no posto de Berta.....ufa, que alívio, nem me tocara dos efeitos da altitude!! Foram 8 horas de atividade com poucas e breves paradas: saída às 10:45 e chegada às 17:45, percorrendo bem uns 14 km!! O local de nosso acampamento tem até algumas árvores, desfolhadas, todavia, nesta época do ano. Mais adiante, 3 edificações de pedra com tetos e portas feitas de cardones secos, técnica de construção herdada dos antepassados incas. A falante e simpaticíssima Berta, nascida Bernabia, vive mais solita neste ermo que acompanhada porque o sobrinho sempre que pode se manda pro vilarejo mais próximo. O falante Jose, além de arriero atua também como cozinheiro. Prepara uma galinha deliciosa, super bem temperada, na grelha ao passo que Fernando se encarrega da salada e Berta cozinha papas andinas, pequenas e saborosas. De bebida,  o guia apresenta uma garrafa de vinho salteño...que requinte...uau!! A única coisa que estraga um pouco a ceia é a fumaça desprendida pela yareta, usada como combustível pra alimentar a fogueira acesa no chão batido da pequena cozinha. Arde pra caramba os olhos. A única que não se abala é a sorridente Berta. A noite, iluminada por uma quase lua cheia, está super estrelada, tanto que nem preciso usar lanterna pra me locomover.  Cansada, janto e me mando pra barraca, nem vontade de ler tenho. A temperatura está fria mas não o suficiente pra que eu precise dormir de gorro ou de luvas...ebaa!!

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Salta la Linda!

O projeto inicial das curtas férias que programo para junho é pedalar no vale de Calchaquies, situado na província argentina de Salta. Contudo, por falta de quórum (tem de ter no mínimo 2 pessoas) não rolou. Ainda assim, minha curiosidade sobre essa região da Argentina se manteve e consegui me encaixar num grupo pra fazer o Trek de las Nubes. Contatos estabelecidos com a MTB Salta (http://mtbsalta.com/), deixo Porto numa segunda ao ½ dia rumo àquela cidade com conexão em Buenos Aires. Por causa da alta do dólar, a brasilerada trocou Miami e Nova York por Montevideo e Buenos Aires. Embora saia mais em conta viajar a estas capitais, ainda assim a vantagem não é lá muito grande por conta da carestia que inflaciona o preço dos bens e serviços em ambos países platinos. Em frente ao posto do Banco Nacional, no Aeroparque, forma-se uma longa fila de compatriotas ansiosos por trocar seus desvalorizados reais pelos igualmente depreciados pesos. Espero quase uma hora até que chegue minha vez porque, apesar de haver dois caixas, um deles raramente dá o ar da graça. Aliás, os ditos funcionários exibem certo desprezo enquanto contam as cédulas a serem cambiadas. Será que se eu entregasse millones, eles perderiam essa pose? Nem esquento pela demora porque me sobra tempo até embarcar no avião que me levará a Salta. Portanto, trato de me distrair puxando conversa com um casal de paulistas enfileirados atrás de mim. Não dá nem 10 minutos e outros brasileiros se juntam a nós em animado conversê. Via de regra, se passa mais tempo esperando conexão do que voando. No meu caso, o tempo total de voo entre Salta e Poa deveria durar 4 horas se fosse direto. Como há a tal troca de aeronaves (tecnicamente, chamada conexão) em Buenos Aires, ali demoro igual tempo à soma dos 2 voos, ou seja, chego em Salta 8 horas após ter partido de Porto Alegre!! Bueno, a bem da verdade, meu conhecimento sobre Salta foi superficial porque passei mais tempo explorando suas serranias distantes 70 km. O dia de minha chegada nem conta porque aterrisso em Salta às 20 horas da segunda-feira. Sobram então dos 8 dias de férias pra curtir a city, o dia seguinte, mais domingo e segunda posteriores ao trek. Na terça, então, vou à sede da MTB Salta e acerto com Nacho o Circuito Yungas, pedal de meio dia que inicia às 10 horas. Embarcamos numa flamante 4x4 e passamos num hostal pra pegar mais gente. São duas moças, gêmeas, e um rapaz, namorado de uma delas, naturais da Irlanda. Simpáticos, pedalam bem embora não sejam praticantes assíduos do esporte. Pena que o pesado sotaque irlandês me impeça de socializar mais com o trio. Rodamos de carro uns 15 km até Finca de Las Costas, situada em San Lorenzo, município limítrofe à Salta. O pedal de 12 km é super light. Dura com intervalo pra lanche 2 horas. Percorrem-se estradinhas de chão batido com subidas e descidas suaves, algumas delas ladeadas de plátanos exibindo bela coloração avermelhada, típica do outono. Nesta região chamada Yungas, a vegetação existente é formada por compactos bosques que crescem nas encostas das serranias que circundam o vale de Lerma. Terminada a atividade, almoço num restaurante em frente à Plaza 9 de Julio que tá valendo como janta porque já são 16 horas! A fome é tanta que devoro 2 suculentos medalhões de filé au poivre. Aprovo o vinho tinto produzido na região de Calchaquies que pedi pra provar. Afinal, não são só nos parreirais de Mendoza que frutificam boas videiras. Nos 2 dias posteriores ao trek, fico praticamente todo o domingo no hotel, deitada, assistindo aos incrivelmente cafonas programas da televisão argentina. A uma porque quadríceps e panturrilhas estão bem doídos dos vários descensos durante o trek. E a dois pela justificada preguiça resultante da exaustiva atividade física. Pra não dizer que não saio, vou almoçar num restaurante em frente à Plaza 9 de Julio, ponto central da cidade onde destacam-se o Cabildo, a catedral e o museu de Alta Montanha. Neste, o único prédio por mim visitado, são expostos, um por vez, os 3 meninos incas encontrados mumificados no vulcão Llullaillaco. Impactante se deparar com aquele pequeno ser, curvado sobre si, com a cabeça pendente entre os joelhos, como se estivesse escondendo o medo diante da iminência de seu sacrifício. Na segunda, reservo a manhã pra ficar na cama, lendo e curtindo os programas televisivos discutirem ad nauseam a notícia que mesmeriza os argentinos: a prisão de Jose Lopez, ex-secretário de Obras Públicas do governo de los K – como os argentinos se referem aos Kircherner -, pego com a boca na botija tentando enterrar mais de 8 milhões de dólares no jardim dum convento abandonado. Mas as notícias sensacionalistas não param por aí: a também espetacular detenção do procuradíssimo narcotraficante Perez Corradi, no Paraguai, merece igual atenção porque dizem as "más  línguas oposicionistas" que sua atividade ilegal bem pode ter recebido uma forcinha do antigo governo dos K. Como tenho de almoçar, sou obrigada a sair e escolho o tradicional Criollita, famoso por suas empanadas. Mais que as empanadas, me delicio mesmo com os tamales. Caprichosamente enrolados em palha de milho, lembram no formato pequenos bombons. Pra não dizer que sou nojenta, decido à tarde passear num daqueles busões de 2 andares mas quando chego no quiosque o raio do veículo já havia saído. Faço então um city tour numa van cuja única estrangeira sou eu, o restante, argentinos de diversas províncias do país. Santo deus, o apelo comercial prepondera sobre o cultural, de tal modo que, em quatro paradas, 3 exibem as infalíveis tendas de artesanato regional. Mesmo assim, a narrativa do guia durante as 3 horas e o giro pela cidade e seus arredores, como a bela quebrada de San Lorenzo, valem o preço quando não se tem muito tempo pra conhecer um lugar. Apesar da breve permanência em Salta, percebo que em dias ensolarados os cerros ao redor da cidade revelam a plenitude de seus verdejantes perfis. Que em algumas de suas praças e ruas foram plantadas laranjeiras, nesta época do ano, carregadinhas de frutas!! Que Salta la Linda, como seus habitantes orgulhosamente a chamam, se situa no noroeste da Argentina, aos pés da pré-cordilheira dos Andes, a 1.187 metros acima do nível do mar, espalhando-se pelo vale de Lerma. Que vivem em seu perímetro aproximadamente 500.000 habitantes. Que do alto do cerro São Bernardo se tem uma visão panorâmica de seu entorno. Que em La Linda foram construídas diversas igrejas, algumas pintadas em vibrantes tonalidades rosa e ocre, destacando-se a Nuestra Señora de la Candelaria de la Viña e sua magnífica e arredondada cúpula ladrilhada de azul. Que a cidade é movimentada com tráfego intenso de carros cujos motoristas desrespeitam, à semelhança do Brasil, as faixas de pedestres! Que há garçons simpáticos e outros mal humorados. Que há mais restaurantes servindo menu turístico do que ranguinho regional. Porém o mais importante: dá pra andar nas calles sem medo de ser assaltada. A bandidagem, aleluia, ainda não descobriu Salta!!