domingo, 13 de março de 2011

Primeiras impressões sobre a paisagem roraimera

Durante minha permanência no Monte Roraima, está gravada em minha retina um ambiente em preto e branco deveras sombrio. Essa impressão talvez se deva àquela tonalidade acinzentada dum céu atordoado de nuvens. E às esculturais formações rochosas cobertas por espessas crostas de escuros líquenes. Suponho que, mesmo com sol, a paisagem se mantenha sóbria. A chuva miúda, durante os três dias sobre o tepuy, lembrou-me confete, o que conferiu, vá lá, um toque de prateado ao estranho carnaval que desfrutei no alto desse platô descolorido. Emburrado, o céu permaneceu sem dar pinta de seu azul durante os 6 dos 7 dias que percorri as terras venezuelanas. De volta à casa, sinto ganas de ler Lost World, de Conan Doyle. Temo, porém, a influência da palavra certeira do grande contador de estórias. Vá que tente imitá-lo e resulte solamente una pífia versão da indiada por mim protagonizada. Não suportarei a humilhação de tal comparação. E, procurando músicas que sirvam de trilha sonora a certos vídeos que pretendo editar sobre o trekking, escolho, casualmente (?), Piazzolla. A melodia derramada, dramática, tem tudo a ver com o desolador cenário roraimero, agora, tão distante, geograficamente, pero freqüentador ainda assíduo das minhas recordações. Salvo alguns laivos coloridos de vegetação que brotam parcimoniosos aqui e acolá, sobressai soberana a infindável sobreposição escura de pedra sobre pedra. Suas superfícies duras e ásperas ao toque remetem aos estéreis amores desfeitos e às intermináveis noites insones amargadas por quem foi destratado.
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sábado, 12 de março de 2011

Retorno à civilização

Contrariando minha otimista previsão feita ontem, o clima não melhorou. E assim saímos do acampamento Sucre debaixo duma chuvinha de molhar bobo que não dá mole durante as 3 horas e ½ de descida até o acampamento base. Enquanto estou baixando, encontro pessoas subindo. Não resisto à curiosidade e faço a indefectível pergunta “where are you from?”. Conheço, assim, um casal de alemães, um irlandês, um belga, um chileno e uma indiana. Legal né? Nem bem chego ao acampamento-base, às 10 e 45, quando desaba uma chuvarada de respeito, daquelas de encharcar o vivente até os ossos. Graças a deus, estou abrigada no paiol onde fazemos uma pausa pro almoço. Breve, porque a pernada continua até o acampamento Tek onde, então, poderemos descansar já que ali pernoitaremos. E, como sempre, Zartur, Simone e Valeria largam na frente. Estes três parece que têm um bando de onças em seu encalço. Bizarras criaturas que privilegiam a performance física à contemplação da natureza. Mas quem sou eu pra falar deles hein? É o roto falando do esfarrapado, ala putcha!! Quantas e quantas vezes não caminhei em passo acelerado? Tanto é verdade que no ascenso ao topo deste tepuy que acabo de descer, resolvi subi-lo em menos de 3 horas e meia. Portanto, deixa de ser linguaruda, respira fundo e trata de diminuir o passo. Pra que pressa? Vai tirar o pai da forca é? Às 11 e 30 (essa neura estatística, de registrar horários de partida e chegada, é incontrolável), a caminho do Tek, já vislumbro as ondulações dos campos de savana enquanto desço por uma linda crista de montanha. Ultrapassado o acampamento militar, o aguaceiro retorna furioso, tornando super resvaladiça a descida feita no terreno argiloso. E minha nova bota, com seu solado grip deveras eficiente, segura o tranco que é uma beleza. E olha que desci rápido, tangida pela chuva, sem que ela escorregasse nadica de nada! Quando chego ao local onde serão feitas as travessias do Kukenan e do Kamaiwa, constato que os dois rios estão bombando! Bem mais cheios que há 4 dias atrás, na passada do Kukenan, é necessário o uso de corda pra atravessá-lo, devido à forte correnteza. E cada rio exibe uma coloração diferente! Verde a do Kukenan e marrom a do Kamaiwa. Chegamos ao Tek, às 14 e 45, debaixo dum toró de respeito. Famintos, molhados e com frio, temos de esperar que a chuva cesse, de modo a permitir que os carregadores possam montar as barracas. Decorridos 45 minutos, a chuva pára, assim, de supetão. Viva o clima tropical!! E nosso acampamento, finalmente, é montado. Nesse meio tempo, somos inteirados de que um grupo está ilhado na outra margem do Kamaiwa. O rio, engrossado por uma cabeça d’água oriunda de sua nascente, subiu rapidinho 3 metros. E quase acontece uma desgraça! Uma mulher por pouco escapou de ser tragada pela correnteza. A sorte dela foi que pôde ser puxada de dentro d’água pra terra firme porque estava quase próxima à margem. Segundo os indígenas, os rios demorarão de 2 a 3 horas pra baixar. Só então esse grupo conseguirá cruzá-los. Dou um doce se vocês adivinharem o que foi servido na janta!! Hahaha...isso mesmo!! Massa!! Mas com salsichas, dessa vez!! Ahmmm....tudo de bom molho de “salchicha” como diz um amigo meu, hehe. Chico oferece caxiri. Provo e não gosto da tal aguardente feita de mandioca, motivo por que mal molho o bico. O acampamento Tek está cheio de turistas, incluídos aí alemães e poloneses com quem bato um papinho. Os três são jovens e fortes, em especial a mulher que considera o trekking “very easy”. Declara isso soltando sonoras risadas, no que é secundada por seus dois companheiros que lhe fazem coro. Bem alegres os polacos da Cracóvia. Mas qual turista não é alegre, não é mesmo? Tudo é festa quando se está de férias!
Sexta-feira, último dia de pernada, o dia acorda nublada, pra variar. E quando já estamos na trilha, tendo deixado pra trás o acampamento Tek, vemos Barbara e Betina sendo resgatadas de helicóptero!! Siiimmm!! A primeira, já no segundo dia de topo no Roraima, sentiu um incômodo no olho que foi se agravando a cada dia que passava. Vermelhíssimo e inchado, o olho vertia lágrimas que nem aquelas duas cachus do Roraima. Barbara, inicialmente, supôs que fosse um cílio a causa de tanta irritação. Agora, o palpite é que talvez seja seratite. E isso feito por mim!! Que não sou médica, pode? Bárbara, embora médica – infectologista -, se entregou nas mãos dos curandeiros, hehe, de tão baratinada está! Já Betina fez bolhas nos pés e de nada adiantou o quase sempre infalível método de costurá-las. Inflamaram a tal ponto que a pobre coitada mal consegue andar. Um helicóptero vindo de Santa Elena levará as duas queridas até esta cidade onde uma van as conduzirá a Boa Vista onde já tem até oftalmo aguardando Bárbara. Vou rezar pra Santa Luzia proteger essa guria!! Caminho quase o tempo todo com Brigitte. Alto astral, a alemã, filha duma gaúcha, revela-se uma agradável companhia. Lastimo não ter convivido mais com outros membros da expedição, como os discretos coreanos Chang e Sung Mi. Infelizmente, quando o grupo é grande, impossível curtir bem todo mundo. Há que se escolher. Optei pela companhia dos solteiros ou desacompanhados como eu, deixando um pouco de lado os casados. E não é que São Pedro se condoeu de nós e só largou o chuvaral quando já estávamos bem baixados em Paraytepuy, bebericando a geladésima cerva que Magno, o dono da Roraima Adventure, gentilmente, nos enviou? Durante a viagem de retorno a Boa Vista, seu Ananias, o motora de nossa van, conta que chove não só na Venezuela, como em todo o Brasil, com inundações no Rio Grande do Sul!! Pobre de meu estado! Em São Francisco, paramos pro almoço. Escolho uma comida típica venezuelana chamada Pabellion. O PF, uma mistura de arroz, feijão, carne desfiada mais banana verde frita, é o tipo da comida que meu pai chamava de engasga-gato. Farta, boa e barata, hehe!! Nova parada em Sta Elena onde compro numa bodega duas garrafas do excelente rum venezuelano, comparável, em qualidade, aos famosos cubanos. Chegamos em Boa Vista às 20 e 30. Após um banho rápido, nós, as solteiras do grupo - Val, Lili, Brigitte e eu – vamos jantar no Peixe Mania. Dourados e tambaquis grelhados, regados a caipirinha, são devidamente saboreados por nós!
No sábado de manhã, Brigite e eu damos uma banda até as margens do rio Branco, onde descobrimos um centro de artesanato. Lá, uma simpática vendedora discorre sobre a utilidade do tipiti, o tubo de cipó usado na extração do tucupi e da goma da mandioca. Dos resíduos sólidos é feita a farinha - aqui no norte – bem amarela cujos grãos duros e graúdos exigem cuidado na mastigação. E fico sabendo pela mesma vendedora que os macuxis, etnia indígena dominante na cidade, são muito temperamentais no trato. Com um traçado urbano planejado, Boa Vista, capital de Roraima, conta com uma população que não alcança 400 mil habitantes. Esteticamente, a capital de Roraima, é desprovida de charme, embora seus moradores - a maioria com sotaque nordestino - afirmem ser tranqüila demais. “Você pode caminhar desassombrada à noite, moça, sem medo de assalto, viu?” Temperatura agradável, impregnada dum calor bom. Por telefone, Bárbara, ainda na cidade – seu avião parte à tarde – conta que seu olho fez uma úlcera, causada não só pela altitude quanto pela recente cirurgia de miopia a que se submeteu. À tarde vou até o mercado do produtor, lugar sujo e sem grandes atrativos. Uma grande feira de hortaliças e frutas. O bom do passeio foi tomar água de côco e lamber um sorvete de banana trigostoso. A tardinha, me despeço de Rio Branco, bebericando uma caipirinha num restaurante ao ar livre. Como meu vôo sai às 2:25 da madrugada de domingo, hay muito tempo pra gastar até lá!
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quarta-feira, 9 de março de 2011

Flora Roraimera

Cinco de nós foram alojados numa “ala” dos fundos do “hotel” Sucre, úmida a beça. Uma aventura alcançar os nossos “quartos”. Pra lá se chegar, há de se enfrentar dois obstáculos: um robusto tronco de árvore atravancando uma estreita passagem situada entre dois matacões rochosos, o que demanda altos malabarismos, e um pântano de lama pretésima, cujos únicos pontos sólidos são ou tufos de plantas ou minúsculas pedras, onde cabem apenas os dedos dos pés. E, à noite, um pequeno barranco exige um cuidado especial, cuidado esse desnecessário durante o dia. Assim, depois da janta, nós cinco voltamos pras nossas acomodações em bando, um iluminando o outro de modo a evitar que alguém despenque barranco abaixo. De fato, uma peripécia a travessia entre a ala nobre do hotel e a nossa. Pode-se dizer - mal comparando - que, enquanto as nossas acomodações se enquadrariam num padrão standard, as da frente seriam consideradas de luxo. Compartilham comigo o “tugúrio do subúrbio”, como apelidei a biboca onde estamos acampados, além de Bárbara e Brigite, o casal Betina e Reinaldo, companheiros super bem humorados. A manhã exibe um clima idêntico ao do dia anterior: um chuvisqueiro manso, céu cinzento e cerração nas bordas do perau. Durante o café da manhã, grudo em Chico. Sou pior que carrapato quando quero informações. Só largo o vivente depois de ter minha curiosidade satisfeita. E, assim, fico sabendo que, no pedaço brasileiro do Roraima, há apenas um hotel, com o sugestivo nome Coati. Já no lado venezuelano, abundam os lugares onde se pode armar acampamento, a saber: Basílio, São Francisco, Jacuzzi, Uno, Bolívar, Arabopô, Principal, Índio e Arenal, sem contar o Sucre, onde estamos hospedados. E além do Kukenan e do Roraima, há nesta área do Parque Canaima mais cinco tepuys cujos nomes são Ilu, Tramen, Karaurin, Wadakapiopué, Yuruani. Contudo esses platôs são pequenos em extensão se comparados àqueles dois. Hoje vamos enfrentar a pernada mais dura de todo o trek. Serão 21 km! E a caminhada tem início sobre um terreno, em sua maioria, coberto por uma imensidão de rochas escuras. Vez por outra, apontam trechos de areia cuja coloração se apresenta ora avermelhada ora esbranquiçada. Chico mostra um encantador sapinho: o minúsculo Oreophrynella, habitante endêmico dos tepuys. Lembra muito aquele outro, o flamenguinho, que conheci no Itatiaia. A vegetação, escassa, é quase toda ela rasteira, salvo pela existência dos arbustos Schifronela e Bonetia roraimae. Dentre as variedades de bromélias, não há como deixar de reparar nas onipresentes stegolepis, de cuja florescência, formada por pequenos bagos, brotam delicadas flores amarelas pendendo dum longilíneo caule. Eu dou conta só de duas espécies de orquídeas: uma bem delicada, amarela, e outra, mais graúda, de vibrante coloração fúcsia, que recebe o pomposo nome de Utricularia Quelchii....cróissss!! E gencianas e azáleas cujos nomes científicos - que me desculpem os botânicos - não fazem jus à formosura de suas pétalas e pistilos. Porque difíceis de pronunciar, não à-toa, os leigos as apelidam com mais propriedade que os doutos entendidos. Não sei se por causa da garoa e do céu nublado, não me deslumbro nem um pouco com os decantados “pontos turísticos”. O primeiro por que passamos é o Ponto Tríplice, onde há um monumento em forma piramidal pra assinalar o encontro das fronteiras brasileira, venezuelana e guianense. Quer saber duma coisa? Se fosse eliminado do passeio não faria falta alguma! Depois conhecemos o Fosso, um baita poço situado a uns cinco metros abaixo do nível do solo, seguido pelo Jardim dos Cristais, assim chamado porque o terreno se apresenta crivado de quartzo branco. E por último atravessamos o desolado brejo onde, confinado entre paredões rochosos, se situa o Vale do Arabopô. Tudo isso foi visto num ritmo frenético, semelhante ao daquelas excursões “conheça 15 países europeus em 10 dias”. Ao retornar do passeio, sinto-me exausta. E não sem motivo. Afinal, foram 11 horas de pernada, gente!! Desabo dentro da barraca. Preciso, urgente, descansar, nem que sejam 10 minutos, antes de encarar o lamaçal que leva ao refeitório-cozinha. E, pra finalizar o dia, despenca aquele chuvaral. Sem essa daquela garoinha que nos perseguiu durante o dia todo. É pancadão mesmo! Tanta água chove que nem penso em sair pra jantar “fora”. Morro de fome mas não molho minha roupa. Até porque não tenho mais nada seco, só aquilo que visto sobre o corpo. Óóó, mas deus é pai, e o eficiente guia Marcelo, sempre ligadão, aparece na porta de minha barraca e faz a pergunta tão sonhada: “Vieja (sei lá porque cargas d’água me chama assim...será pelos meus cabelos grisalhos?!), quieres ceñar en la cocina o que tragas tu plato acá?" Sou breve na resposta: “Acá y apurate, por favor, estoy hambrienta, Marcelino!”. Rápido que nem um raio, o querido rapaz, auxiliado por dois carregadores, me entrega um PF com arroz, feijão e galinha desfiada. Desvairada de fome, devoro tudo, nem dando bola pro arroz meio duro e a ausência de sobremesa. Que deve ser.....go-ia-ba-da, hahahaha!!! A fome é o melhor tempero, como dizia minha abuelita, a sábia. Nosso roteiro, na quarta-feira de cinzas, é convenientemente light. Apenas 6 km de pernada, destinados a conhecer outras atrações turísticas roraimeras. Por isso, saímos do hotel quase 10 da matina. O céu continua nublado e uma leve garoa obriga a vestir capa de chuva, a peça do vestuário mais requisitada durante o trek. A caminhada, em grande parte sobre o pedrario, exige, vez por outra, que se pule fendas entre as rocha. Divertido. Quando chegamos à primeira ventana, a do Roraima, situada entre a Venezuela e a Guiana, avista-se o enorme paredão que se projeta ao final da parede oeste, apelidado, justamente, de Proa. Esta big wall foi conquistada após duas tentativas por Eliseu Frechou, no início de 2010. Uma caminhada de 10 minutos, rumo ao sul, conduz à Ventana do Kukenan, onde se enxerga a parede leste deste tepuy, oposta àquela de onde verte a grande queda d’água vista do acampamento Tek. Realmente impressionante o cenário que essas duas Ventanas proporcionam! Imaginem em dia claro, então! E, nas Jacuzzis, piscinas de águas transparentes onde o pessoal se esbalda, fotografando e tomando banho, eu fico só curtindo as estripulias aquáticas do grupo. Água fria e céu sem sol não me apetecem nem um pouco. Eu fora, portanto, das límpidas pocinhas, hehe!! Após uma demorada pausa nas Jacuzzis, vamos ao encontro das Catedrais, lugar deveras sem graça. As tais rochas que, segundo Chico, guardam semelhança com aqueles templos religiosos são apenas um amontoado disforme de pedras. Por fim, conhecemos o Maverick, maciço rochoso cuja forma alongada remete àquele arrojado sedã americano, sucesso automobilístico na década de 70. E sem querer nasce a blague “o carro onde não se entra, só se sobe no capô”, começada por Marcelo – não o guia, mas um colega de expedição - e finalizada por mim. Considerado o ponto mais alto do Roraima, com 2.875 m, a subida até o topo deste cerro é bastante íngreme, compensada, entretanto, pela exuberante vegetação ao longo da trilha. Comparado com o que tenho observado durante esses três dias de permanência neste tepuy, pode-se considerar esse enclave, realmente, um opulento jardim. Até musgo clarinho, daquela espécie que lembra espuma do mar, brota no chão encharcado. O motivo de tanta umidade no solo é o incessante chuvaral que vem castigando, atipicamente, esse setor do parque durante o mês de março. Bárbara, coitada, quase perde uma bota quando, inadvertidamente, afunda o pé no terreno pantanoso. Não resisto e deixo escapar sonoras gargalhadas. E, olha, não sou de rir desse tipo de situação. Mas que foi engraçado, foi! Tudo porque a coitada que, até então, vinha evitando, cuidadosamente, os pontos críticos, de repente, num vacilo, ploft, enfia o pé na lama! Não deu pra resistir, hahaha!! Pra mim, a subida ao Maverick foi o ponto alto, literalmente, de todo o trek! A visão lá de cima é esplêndida! Dá pra se avistar, num ângulo de 180º, toda a imensidão e finitude, também, daquele que é o segundo maior tepuy da Venezuela, perdendo em tamanho apenas pro Ayantepuy, onde se situa o Salto Angel, com imbatíveis 90 km² de área. Um tímido sol aparece enquanto estamos aqui em cima. Contudo, alegria de pobre dura pouco, porque não dá 20 minutos, e sobem do paredão ocidental vagarosas e inelutáveis nuvens, que circundam de neblina o tepuy. A garoa, até então intermitente, cai agora, continuamente, durante o trajeto de retorno ao hotel, onde chegamos às 16 e 30. Durante o almoço, Luca oferece lascas de queijo gran padano, prontamente, aceitas por todos nós. Trato de unir à julieta o romeu. Tudo de bom queijo com goiabada. E, aleluiaaa, surge, enfim, no meio do céu cinzento, por pouco tempo, é claro, uma breve janela de azul, avisando que estamos na lua crescente.
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segunda-feira, 7 de março de 2011

Paisagem de fim de mundo

Durante a madrugada, a insônia de Valéria e de Luca foi premiada com estrelas cadentes no céu estrelado, segundo contam durante o café da manhã. Por falar em Luca, o veneziano, radicado no Rio de Janeiro é um capítulo à parte. Carrega na sua mochila pessoal um guarda-chuva, lembrando uma versão masculina de Mary Poppins. Acompanha-o seu sorridente filho, Marquito, piá de 11 anos, super bom de perna. O italiano trouxe na bagagem um eito de guloseimas que vez por outra divide conosco. Assim, salamitos, queijos, biscoitos e até um providencial conhaquito surgem do fundo da sacola pra delírio do grupo, submetido a uma dieta de massa, sopão e goiabada. No café da manhã, descubro que a cozinheira se chama Maria. Índia, pertence à tribo Pemon. De arrasto traz a família: filhos, marido, noras e genros. Enfim, uma pequena tribo nos acompanha. Maria prepara, além de mingau de aveia, arepa, prato típico indígena, obrigatório nas mesas venezuelanas, colombianas e panamenhas. Trata-se duma espécie de pão de milho, sem fermento na massa, por isso, achatado. Pode-se prepará-lo frito, assado, ou fervido. Os recheios mais comuns são carne, galinha ou queijo. E quando não se tem nada pra recheá-lo, se come purinho. Mesmo sem recheio, é bem bom, pode crer! Às 8 e 20, deixamos o acampamento-base sob um céu toldado de cinza. E debaixo duma chuvinha miúda, começamos a pernada. Embora o desnível ao topo do Roraima perfaça apenas 850 m, a distância quintuplica e vira 4,5 km. Inicialmente, faremos uma caminhada até a base da big wall, quando então quebraremos à esquerda e passaremos a contorná-la até atingir o topo do grande platô. Já de cara, tem de se encarar 200 m de degraus, escavados na rocha calcária, resultado da erosão das águas que escorrem continuamente montanha abaixo. O solo de coloração clara exibe aqui e ali tons avermelhados, denunciando a existência de quantidade significativa de ferro nesse tipo de rocha. Superada a escadaria, a ingremidade do aclive continua cada vez mais punk com uma inclinação que deve beirar os 45º. Vários obstáculos obstruem o caminho ao longo da trilha: robustas e avantajadas pedras exigem uma certa escalaminhadazinha básica, além de troncos e raízes de árvores caídos que obrigam a uma contínua ginástica das pernas. Após alcançar a parede, o que era super mega íngreme torna-se apenas íngreme e assim continua até o topo. A chuva não dá arrego: fininha e contínua deixa minhas roupas encharcadas já na metade do caminho. O trajeto é quase o tempo todo dentro duma mata ombrofila cuja vegetação apresenta arbustos de médio e pequeno porte, destacando-se a schifronela rugosos, palmeiras como bacaba e tucumã, além de bromélias, orquídeas e outras espécies de flores. Sem esquecer o espesso musgo que aveluda os troncos das árvores devido ao alto índice de umidade. Um descanso no Mirador após 1 hora e 30 minutos de pernada. Segundo Chico "para um refrigério". Dessa feita com fatias de abacaxi. A fruta, bem docinha, está uma delícia. Uma pena, mas nada se vê dos campos de savana lá embaixo porque a névoa esconde completamente a paisagem. Raros e, quando os há, curtíssimos os trechos planos. Em todo o trajeto, apenas rola uma descida, situada entre o Mirador e as Lágrimas. Na passada, ao largo das Lágrimas, duas cachus duns 150 m, que despencam lado a lado do topo do Roraima, dão a impressão que chove canivete. Tanto assim que a única parte de meu corpo ainda seca - os pés - acaba se molhando devido à água que entra nas botas. A grande quantidade de pedras soltas, de coloração bem clarinha, evidencia um constante desmoronamento oriundo da parede quebradiça do tepuy. Degraus naturais esculpidos na rocha pela ação da água facilitam a subida mas exigem certo cuidado porque estão resvaladiços da água que verte das Lágrimas. Após as Lágrimas, as pedras tornam-se maiores e, um pouco antes do topo, um monolito rochoso anuncia a presença de Macunaíma, o deus criador do universo, conforme crêem os povos indígenas que habitam tanto a Venezuela quanto o Brasil. No Roraima, Macunaíma fez sua morada, explica Marcelo, o outro guia, um venezuelano muito tranquilo. Numa boa performance, alcanço o cume em 3 horas e 15 minutos. Assim, às 11 e 35, estou eu empoleirada em cima desse vasto platô, apreciando, nos seus espalhados 34 km² de área, esse mundaréu de rochas a perder de vista. Percebem-se, nitidamente, os vários extratos que as compõem, se sobrepondo uns aos outros. Lembram aqueles castelos que as crianças fazem à beira mar com areia da praia. As pedras exibem formatos os mais variados possíveis: cogumelos, tartarugas, elefantes e o que mais o seu olho conseguir captar ou imaginar. A caminho do nosso acampamento, um helicóptero caído. O acidente ocorreu há uma semana, causado por um vento na hora da aterrissagem. Felizmente, ninguém se machucou seriamente. Após 40 minutos de pernada, pulando pedras e evitando os charcos onde abundam stegolepis e bonetias sessilis (bromélias), além de droseras roraimae e heliamphoras nutans (plantas carnívoras), chegamos ao acampamento Sucre, chamado curiosamente de “hotel”. No almoço, sabem o quê é servido? Massa!! E, de sobremesa, pequenos pedaços de goiabada, dessa feita, cobertos com respingos de creme de leite. Deve ser pra dar uma variada no “original” cardápio, hehe. A chuva continua e a bruma potencializa a descolorada e sombria paisagem constituída por rochas enegrecidas devido à coloração escura dos líquenes que as recobrem. O verde da escassa vegetação rasteira em nada altera esse tom lúgubre do cenário. Cenário de fim de mundo e não de mundo perdido, isso sim!
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domingo, 6 de março de 2011

Travessia de rios

Acordo durante a noite, com o toc toc da chuva a tamborilar no teto da barraca. Lembro então do sonho com meu filho, declarando à queima-roupa que tá casando. Rapidinho, contudo, mergulho de volta num sono, dessa feita, sem sonhos. Também pudera, virada de sexta pra sábado, o período de 24 horas sem dormir conseguiu derrubar esta senhorinha de 58 anos que vos escreve! Merda....merda, acordo inchada. Mesmo a 1.100 m, a altitude já dá barato, sim!! As pálpebras intumescidas me tornam mais velha. Duplicada, a película sobre as órbitas lembra a de velhas tartarugas centenárias....arghhhh!!! Embora a caminhada até o acampamento-base não seja superior a 8 km, terminado o desjejum, deixamos o acampamento Tek às 8 e 10, já que o desnível até o base perfaz 770 m. Manhã nublada, contrariando os bons prognósticos daquele céu estrelado de ontem à noite. Ao longe, o Roraima apresenta nuvens em seu topo, ao passo que, no Kukenan, as nuvens começam a apoderar-se de sua base. Nem bem caminhamos 50 m, enfrentamos a primeira das duas travessias do dia: a do rio Tek. O rio não está cheio e o único cuidado que se deve ter é evitar uma topada nas muitas pedras que forram seu leito. De repente, destaca-se isolada no meio da campina uma pequena igreja feita de pedras com telhado vermelho. Chama-se Santa Maria de Todos Nós. A essa altura, o Kukenan e o Roraima já se encontram quase envoltos pelas brumas que cercam somente o local onde ambos estão plantados. Sei lá....tá me batendo um mau pressentimento a respeito do tempo. O que me distrai dos maus presságios é um arbusto, o murici, em cujo caule brota uma vistosa flor amarela. Paro, portanto, para fotografá-lo. Após subir uma colina, avista-se de seu topo, lá embaixo, o rio Kukenan perdendo-se de vista entre as dobras suaves da savana. Uma descida íngreme leva à margem direita do Kukenan (rio de água suja), que se junta ao Kamaiwa, rio que desce do topo do Roraima, formando a imponente queda d’água de idêntico nome, já visível bem antes do acampamento Tek. O resultado da fusão desses rios desemboca por sua vez no Orinoco, com o nome de Kukenan. Do Roraima (monte verde azulado) jorram ainda vários outros afluentes responsáveis pela alimentação de mais duas bacias hidrográficas: a do rio Branco, no Brasil, e a do rio Ezequibo, na Guiana. Enquanto a travessia do Kukenan não oferece grandes dificuldades, a do rio Kamaiwa complica um pouquinho porque há um ponto em que a correnteza forma um pequeno vórtice dificultando a passagem. Tirso, percebendo minha atrapalhação, aproxima-se e estende sua mão forte me socorrendo. Já os índios pemones cruzam o rio, sem esforço algum, levando às costas os pesados guayares (cesto de cipó ou palha onde é carregado o tralharedo das expedições; é o equivalente dos jamachis dos yanomamis). Terminada a travessia, a maioria do pessoal relaxa, tomando banho no rio. Alguns, não de forma recreativa, mas já fazendo uso do sabonete. Há um evidente exagero nessa ânsia do grupo pela higiene pessoal, cá entre nós. Um banho por dia me parece suficiente. Eu, por exemplo, já me molhei na travessia. Pra que mais banho? Refrescados, retomamos a caminhada, enfrentando uma lomba na estradinha sulcada de buracos formados pelo chuvaral típico dos climas tropicais. Após uma 1 hora de caminhada, alcançamos o acampamento-militar, onde paramos prum refrigério. Trata-se refrigério dum termo venezuelano que significa descanso pra se comer fruta. A de hoje são fatias de melão que Chico, nosso guia brasileiro, corta com destreza e distribui entre os membros do grupo. Retomamos o passeio, agora, sim, enfrentando uma trilha que não dá mole. A subida com duração de 75 minutos só termina no acampamento-base, onde chegamos às 12 e 50, debaixo duma chuva miúda que já vinha caindo fazia uns 40 minutos. Do Roraima mal se entrevê sua parede ocidental escondida pelo nuvaredo que dela já quase se apossou por completo. Pois não é que o pessoal que se havia banhando no Kamaiwa, resolve tomar outro banho num rio próximo ao acampamento? Será a terceira lavagem do dia!! Estou estupefata, por deus, com essa obsessão pelo asseio excessivo. Será que eles não sabem que banho demais retira a oleosidade natural da pele? Daqui a alguns anos essas damas tão caprichosas estarão prematuramente enrugadas e não atinarão com o motivo. Valeria chega a reluzir tão limpinha está. Bueno, faminta, acho o almoço tudo de bom: feijão, arroz e galinha desfiada com batatas. Sobremesa: goiabada. Abrigados sob um paiol improvisado, aguardamos que a chuva dê uma trégua pra podermos ir pras nossas barracas. A cerração agora envolve por completo não só o Roraima como o Kukenan, impedindo que se veja qualquer vestígio de seus fabulosos paredões. Como continua a chover, ponho minha capa e vou pra barraca onde me refestelo, improvisando um travesseiro, de modo a tornar mais confortável a leitura do 3º volume de Millenium, trama de suspense, escrita por Stieg Larsson. Envolventes os livros, não nego. Entretanto, a trama é mirabolante demais, resvalando em lances inverossímeis. Até os defeitos dos personagens principais viram qualidades. Por pouco, a tal hacker não adquire contorno de super-heroína tamanho os poderes com que é dotada. No meu entendimento, são inferiores aos policiais escritos por outro sueco, Henning Mankel, que considero um dos mestres do moderno romance policial. Seu personagem principal, cheio de conflitos e ambigüidades, é um homem comum e por isso excepcional. À tardinha, a chuva miúda, enfim, cessa e assim ao longo da parede oeste do Roraima, livre da neblina, surgem gigantescas fendas e grotões. Quedas com mais de 300 m vertem água desde o topo. A cachu Kamaiwa, lindíssima, despeja suas águas, verticalmente, sem interrupção, até a base dum platô, pra retomar sua queda, dessa feita, escavando outros platôs até atingir o solo. Consigo distinguir a trilha que amanhã nos conduzirá ao cume. Vejo nitidamente a rampa, logo após as Lágrimas, duas cachus enormes embaixo das quais deveremos passar. Parece impossível que esse paredão vertical ofereça trechos de caminhada, prescindindo da escalada. Amanhã, até que enfim, conhecerei o mundo perdido de Sir Conan Doyle!
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sábado, 5 de março de 2011

Acampamento Tek

Após viajar desde a tardinha de sexta-feira até as 2 da madruga de sábado, chego a Boa Vista, capital de Roraima, cheia de dor nas pernas de tanto ficar sentada naquelas poltronas apertadas de avião. E olha que tenho pernas curtas! Aguardo no aeroporto, porque nem vale a pena ir prum hotel já que a expedição ao Monte Roraima, lugar escolhido por mim pra desfrutar o feriado de carnaval, parte da capital roraimense às 5 da manhã. Pego o último tomo (gostaram do sinônimo pra volume?) de Millenium e cochilo sentada naquelas cadeiras de plástico duro que todo aeroporto que se preza não deixa de ter. Às 4 e 30, um cara altíssimo, com pinta de jogador de basquete, se aproxima e pergunta se não sou quem eu sou, hehehe. Identifica-se como o guia Francisco e me convida pra tomar assento no minibus que já se encontra estacionado em frente ao aeroporto. Valéria, amiga que restou dentre as muitas juras de amizade trocadas, em 2007, num trek na Chapada dos Veadeiros, acaba de chegar no voo das 4 e 30. Embarcamos e vamos buscar o restante do pessoal nos hotéis onde se encontram hospedados. Lili, outra amizade, resultante do trek ao Pico da Neblina, adentra o veículo e espalha seu sorriso luminoso e olhar caloroso em minha direção. Faço aquela algazarra, saudando minha amiga. Eita...bom demais rever amigos e tê-los ao lado nas trilhas. O minibus está lotado. Afinal, nosso grupo nem tão pequeno é: são 16 pessoas. No início de qualquer viagem, quando a turma é grande, não me preocupo muito em conhecer de imediato os colegas de pernada. À medida que vou caminhando, emparelho com um e outro de modo a trocar idéias e saber seus nomes. Eu e Valeria, aceleradas pela noite sem dormir, não paramos de falar, super animadas que estamos pelo reencontro e pela perspectiva da aventura que nos aguarda. Lili, mais comedida, entabula papo com uma moça, sentada ao seu lado. Que já vai se identificando de cara: é médica, paulista, atendendo pelo nome de Bárbara. Após uma hora de viagem, pit stop no Bob, restaurante de beira de estrada. As atrações gastronômicas são o pão de queijo e a paçoca (carne de sol socada com farinha). Ambos os petiscos, recém feitos, estão quentinhos, deliciosos. Após uma hora rodando na péssima rodovia brasileira, mal conservada a beça, cheia de buracos, inclusive, com alguns trechos já desencapados, ingressamos na rodovia venezuelana, muito bem conservada, graças ao asfalto de boa qualidade embora tenha sido construída em 1984, ao contrário da nossa que data de 1996. Controlada pela Guarda Nacional, composta de jovens soldados de metralhadora em punho, ingresso num país que me remete àquela época dos anos de chumbo brasileiros. Meu país no tuve mucho sol, durante duas décadas, percebes? Apesar do forte aparato militar, os trâmites burocráticos nessa fronteira transcorrem tranqüilos e rápidos. Em 20 minutos, estamos em Santa Elena de Uairén onde trocamos de veículo. Decorrida uma hora e meia de viagem, a maioria em estrada de chão batido, eis-me, finalmente, chegando na comunidade indígena Paraitepuy, cujo significado na língua taurepang é, literalmente, chinelo da montanha, já que se localiza aos pés de diversos tepuys espalhados na área de 30.000 km² do Parque Canaima, considerado o 6º maior do planeta. Tão extenso esse parque que não se limita apenas à fronteira brasileira, sendo lindeiro, igualmente, da Guiana Britânica. Dessa comunidade partem os treks ao Monte Roraima, localizado no setor oriental do parque. Mais soldados armados até os dentes. São eles e não os funcionários do Inparques quem farão a revista nas mochilas. Buscam, pra apreender, bebidas alcoólicas já que foi decretada lei seca durante o período de carnaval. Deixamos Paraytepuy às 13 e 30, percorrendo uma estradinha onde vez por outra passam zunindo índios conduzindo bicis. Coisa estranha, não estou sentindo nessa pernada aquela vibração que costumo sentir a cada trek que faço. Falta um certo entusiasmo que, sei lá por quê, aqui não bateu ainda. E, espantando tais reflexões, trato de apurar o passo já que a distância de hoje será uma das mais longas dos 7 dias de pernada: 15 km. Como a altitude em Paraytepuy é de 1.400 m e a do acampamento Tek é de 1.100 m, a caminhada faz-se praticamente descendo os campos de savana. Enfeitados por colinas suavemente arredondadas, lembram um pouco o pampa gaúcho com aqueles coxilhões a perder de vista. E quando avisto o tepuy Matawi, mais conhecido como Kukenan, o gigantesco platô remete-me ao Castelo, outra formidável formação rochosa, encravada nos confins dos Gerais do Vieira, Chapada Diamantina. Familiar a paisagem. Talvez por isso a ausência daquela vibração sentida em outras expedições, essas sim, repletas de paisagens inéditas aos meus olhos ávidos de novidades. E, de repente, um arco-íris debruça-se sobre o céu, estendendo sua fita multicolorida do Kukenan ao Roraima. E permanece na atmosfera, saudando os viajantes, por um bom tempo. Situados um em frente ao outro, os colossais paredões das duas montanhas exibem aquela coloração rosada peculiar às rochas sedimentares. Visível, no Kukenan, apesar de ainda distante, a espetacular cachu de 610 m que despenca do alto de seu topo. Esse tepuy, menor e menos alto que o Roraima, tem 20,63 km² de área e 2.650 m de altitude. Chego às 17 e 15 ao acampamento Tek, encravado às margens do rio de mesmo nome. O lugar pertence à tribo Pemon que ali vive, alojada em meia dúzia de casas de adobe cujo teto é coberto de palha. O dia ensolarado e quente é um convite a um banho de rio. E já está decidido: será meu primeiro e único banho durante o trek. Sigo à risca a salutar máxima “quem gosta de frio é pinguim”. Daqui pra frente, devido ao ganho de altitude, a temperatura da água dos rios passará de fria a geladésima. Assim, hábitos fanáticos de higiene pessoal devem ser evitados e cumpridos com muita, mas muita moderação. A água, límpida, está muito gostosa. Tanto é verdade que nem emito aqueles gritinhos estridentes de quando entro em temperaturas menos tépidas. Não demoro muito no banho, todavia, devido àqueles mosquitinhos que parecem uma pulguinha e cuja picada comicha pra caramba, causando feridinhas purulentas nas pernas. No sul do Brasil, os danados são conhecidos como “polvinha”. Após a janta, macarrão à bolonhesa, não resisto ao cansaço duma noite sem dormir, muito embora o conversê esteja bem animado, e dirijo-me à barraca sob um céu estrelado. Ebaaa, o tempo vai dar bom amanhã!!
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