terça-feira, 27 de novembro de 2007

Inté Brasília!

Parto de Alto Paraíso no ônibus das 7 da matina e chego às 10:30 em Brasília. Claudia me espera na rodoferroviária. Vamos pra sua casa onde vou pousar porque amanhã embarco de volta pra Porto. Ela no caminho me mostra alguns cartões postais da capital federal, como o Parque da Cidade, rebatizado Parque Ana Lídia, em homenagem ao brutal assassinato de uma menina, nos idos de 1970. Tal crime, infelizmente, até hoje permanece sem solução. Estou começando a gostar muito de Brasília. Quando aqui estive na década de 70 a cidade não era tão ricamente arborizada: tinha pouco mais de 10 anos. Canteiros decorados com variadas espécies de flores e flamboyants orgulhosamente floridos de vermelho enfeitam as ruas e amplas avenidas. Almoçamos no jardim de um restaurante de comida natural no setor sul, comida deliciosa, onde numa mesa comunitária pode-se trocar idéias com quem está ao lado. Converso um pouco com uma mineira casada com um goiano. Nesta cidade, a gente encontra pessoas de toda parte do Brasil e ainda de outros países do planeta. Trilegal! Claudia, seu pai e sua mãe, dois goianos encantadores! levam-me pra conhecer o Memorial Juscelino Kubitschek, uma construção em concreto branco, onde estão depositados os restos mortais do mineiro, simplesmente, conhecido como JK. Fico chocada quando subo ao primeiro piso e encontro um ambiente escuro, em cujo centro há uma construção em pedra, também, preta onde jaz o esquife, mais uma vez o preto, gente!! contendo os restos mortais do presidente. Meu deus, pobre JK! não merecia esse ambiente lúgubre, homem solar que era, amante da boa música (o fundo musical lá dentro deveria ser ou de um alegre samba ou de uma macia bossa nova, uai!!), da risada fácil e dos amplos espaços - afinal não foi à toa que escolheu o planalto central pra construir a nova capital dos brasileiros -, hoje confinado a esse mausoléu soturno, de arrrepiar os pelinhos dos braços. Será uma vingança da viúva, magoada por suas sucessivas escapadas?! Saio de lá contente por estar novamente a céu aberto. Reflito com meus botões que, se existe mesmo vida após a morte, o pobre Juscelino não deve estar lá muito satisfeito de se ver encerrado naquele ambiente tão solene quanto fúnebre. Que homenagem.....ou será castigo? Meu périplo continua e seguimos em direção ao Lago Paranoá. Seu Alfredo me pergunta se conheço o Palácio da Alvorada. “Só de fotos e filmes”, respondo ao bom goiano.
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Residência oficial dos presidentes da república, este edifício foi o primeiro prédio construído em alvenaria por Niemayer e inaugurado em 1958, dois anos antes, portanto, da inauguração do Distrito Federal. Descemos e seu Alfredo pergunta se eu não vou fotografar o palácio. Pra ser gentil, faço-lhe a vontade, mas não tenho lá muitas ganas de. Enfim, não me custa nada. Faço um clique apenas e não é que a foto até que sai boa? Circundamos o lago pra conhecer a Ermida Dom Bosco, situada na margem posterior à do Palácio. Excepto por nós e um casal de namorados sentados num banco em frente ao lago, não há mais ninguém no local. Tranqüilo, tranqüilo. Os raios do sol poente refletidos na superfície das águas colorem-na de prata. O silêncio da tardinha é quebrado pelo rumorejar macio das pequenas marolas quando batem na areia. Nuvens pesadas se fazem presentes no céu. As luzes ao longe já evidenciam os preparativos da cidade para a noite prestes a cair. Deixamos os pais de Claudia em casa e vamos jantar num dos muitos restaurantes bacaninhas que abundam na cidade. Tão agradáveis, a maioria com mesas no exterior aproveitando o clima quente da região. Adoro estar ao ar livre, começo a desgostar cada vez mais de ficar presa entre quatro paredes, basta de ares gelados, afinal quem gosta de frio é pingüim! Quero morar aqui!! Brasília me aguarde! Au revoir!!

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Vadiando em Alto Paraíso

Hoje, segunda-feira, só vou ficar na vadiagem em Alto Paraíso. Nada de trekking, apenas dar uma banda pela cidade sem pressa, filmando e fotografando. Como com prazer, devagarinho, meu delicioso desjejum (que alívio poder mastigar sem pressa, sem ter de ficar olhando o relógio de 10 em 10 segundos!) enquanto Lucia conversa comigo. Dona de meu tempo, saio sem rumo. As ruas ainda apresentam-se molhadas da chuvarada que caiu durante a madrugada, e lá vou eu bem satisfeita explorando dessa vez as ruas laterais – basta da avenida principal! Fico até um pouco envergonhada de tantos pontos de exclamação, mas fazer o quê? Eu gosto desta cidade! O sol se mantém até 10 da manhã. Aproveito pra filmar um pouco enquanto caminho. Do pátio de um colégio escuto o rumor de vozes de crianças brincando durante o recreio, mulheres com sombrinhas se protegem do sol e um cavaleiro, a trote largo, aponta no fundo da rua, apressado; o colorido prédio da prefeitura, e os terrenos baldios exibindo enormes cupinzeiros de altura chamam minha atenção. Que astral o desta cidade! Tomo o rumo da avenida já que preciso descarregar o cartão da máquina. Entro numa das duas lan house existentes na cidade, quando então começa uma chuva fraca pra logo depois virar pancadão. Diminui um pouco, aperta, e quando a gente pensa que vai estiar, fica naquele chuvisco enjoado estendendo-se até quase 2 da tarde. Fico ilhada na lan house quando adentra o estabelecimento Mina. Com sua voz metálica e grossa, característica de todo fumante inveterado, pede “tou com fome, o que tem pra comer?”. Saímos pra rua e nos sentamos a uma das mesinhas dispostas na varanda. Ficamos de bate papo até que ela, descontente com a coxinha de galinha que comera, me convida pra almoçar no restaurante do Hotel Central situado justo ao lado. Freqüentado por uma galera que não tem muito tempo ou não gosta de cozinhar, serve bufet de comida caseira sem grandes pretensões, preço modesto. Pra mim, é um luxo ficar ali, com tempo de sobra, na varanda, apreciando o movimento do meio dia na avenida Ari Valadão Filho. Depois do almoço, atravessamos a rua e entramos no Telinus Scotch Bar, logo em frente. É um bar ao estilo pé sujo com dois recintos: um pequeno com algumas mesas e cadeiras de latão onde há um balcão e a indefectível televisão sempre ligada; já no outro, amplo, mesas de sinuca onde nos findis rola um dancerê de forró regional, animadíssimo. Pachequinho está ali bebericando sua cerveja junto com uns amigos. Sento e peço uma dose de conhaque. Como não tem Domecq, me resigno e bebo o que há: Presidente....trinco os dentes e engulo, fazer o quê?! Fico na boa batendo um papinho até perceber que a chuva deveras estiou. Dou tchau pro pessoal e vou visitar Marcela que costuma almoçar em casa. Conversamos um pouco e vamos pro jardim onde um pé de jabuticabeira carregado de frutas implora que as provemos. Como até fartar a frutinha, está doce, docinha, uma delícia! Saímos juntas, Marcela de volta pro trabalho, eu retomando minha andança pela cidade. Passo por lojas cujo comércio de venda de quartzo me chama a atenção. As pedras sejam elas preciosas, semipreciosas ou simplesmente pedras me fascinam! Não resisto e compro uma bem grandona, de quartzo amarelo. Um barulhinho bom se faz ouvir produzido por sinos de vento feitos de quartzo polido. Tudo tão sossegado! Sinto fome e entro no Empório Paraíso dos Pândavas, uma lanchonete com menu de comidinhas integrais e orgânicas super apetitosas. O wrap escolhido, de berinjela e tomates grelhados, muzarela de búfalo e cream cheese, acompanhado por uma salada de folhas verdes, não só é de bom tamanho como me deixa pra lá de satisfeita. A massa, de panqueca, finíssima e com bordas crocantes, é muito bem feita! Encontro, quando estou saindo, com a italiana com quem viajara, no ônibus, vindo de Brasília pra cá. Abraça-me efusivamente. Trocamos algumas palavrinhas e volto pra rua. Os arcos de pedra construídos na entrada da cidade clamam pra serem filmados. Como toda pequena cidade brasileira, é de saltar aos olhos a quantidade de gente andando de bicicleta. Homens, mulheres, crianças, todos pedalam aqui! Típico de povo pobre. Mas não é só em Alto Paraíso, viu? Na China também; já na Holanda - reflito com meus botões - deve ser puro charme, pois o país não é nada pobrinho, não! Desço a avenida e resolvo ir até o estádio de futebol. É uma surpresa e das boas! A paisagem é linnnnndaaaa!! Avista-se o Morrão e as serras onde se situam as cachoeiras do Cristal e da Água Fria. Um belo cartão postal da cidade!! Pena que descobri no último dia!! É bom demais ficar ali apreciando o fim de tarde. Jovens atletas treinam correndo ao redor do campo. Tô na boa, melhor impossível. À noite, pizza na Ocalila com Marcela e Misael. Um bom vinho, pizza excelente, bem fininha e crocante. As estórias, de prender o fôlego, contadas por Misa fazem as horas passar voando. A da chegada de Jesus patrocinada por um grupo de estrangeiros, dentre os quais se destaca, além de Ringo Star, um sobrinho da Margareth Tatcher, é qualquer coisa de boa! Eu escuto, num misto de incredulidade e encantamento, a bem contada narrativa de Misa sobre aquele grupo de milionários que, numa noite de 1987, bate à porta de sua casa e contratam-no para construir um anfiteatro. O objetivo? A descida (ou a subida) à Terra de Jesus ET. “Eram uns seis ou sete carros, todos caminhonetões poderosos, um deles com placa da embaixada da Inglaterra”, conta Misa. O templo, segundo as instruções recebidas, deveria ter 5 metros de pé direito e tamanho suficiente para abrigar 3 mil pessoas. O chão seria coberto de quartzo branco da melhor qualidade. Pagaram a ele, à época, o equivalente a 20 mil reais pra iniciar o trabalho. Foi construído um acampamento onde o tal grupo ficou por 30 dias ajudando Misa, sendo que um deles era o baterista dos Beatles.
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Foram embora com promessas de voltar em breve. Passado dois meses, um dos chefes retorna dizendo que a obra acabara porque o ET Jesus, desgostoso com a briga pelo poder entre os membros do grupo, achara por bem interromper o projeto de construção do templo. “Além do mais”, acrescenta o homem, “Alto Paraíso está carregada de energias negativas”. Misa finaliza a estória acrescentando que essa teria sido a quinta tentativa de construírem o tal templo!! Mas pensam vocês que a coisa pára por aqui? Só não!! Como estou, deveras, me alongando, só vou dar uma palhinha: Misa estava trabalhando nos arredores da cidade quando viu - essa é pra pasmar mesmo!! - pousando no cocoruto de um morro em pleno meia dia!! dois discos, um maior, outro menor, ambos de cor branca e achatados! Pra quem não crê em estórias de carochinha, comecem a acreditar, sim! homens de pouca fé: há VI-DAS em outros planetas!!

domingo, 25 de novembro de 2007

Atravessando o Portal do Sertão Zen

Da outra vez em que aqui estivera, Marcela me falara a respeito do Sertão Zen, mas como eu resolvera terminar minhas férias permanecendo em Macaquinho, deixei pra lá. Desta vez encaro o passeio, até porque o trekking é bom demais, são mais ou menos 22 km. Tudo do que preciso: esticar as pernas numa boa caminhada! E lá vamos eu mais Pacheco rumo ao famoso Sertão Zen. Saímos da cidade como se fossemos em direção a Loquinhas, nos esquivamos, contudo, pra leste, entrando em uma estradinha rumo a uma das tantas encostas da Serra Geral do Paranã, localmente denominada Serra da Baliza. Após um desnível nada difícil, em torno de 200 metros, alcançamos o Morrão, belo mirante, situado a mais de 1.400 metros de altitude de onde se tem uma visão panorâmica não só de Alto Paraíso como das serras da Baleia, do Buracão, da Almécega, da Conceição, da Boa Vista e do Morro do Papagaio. Trato de me proteger do sol colocando protetor, pena que dure pouco o bom tempo, porque não tarda muito, ecoam trovoadas, ao longe. Nuvens escuras ao norte e outras mais claras ao sul, deixam entrever algumas nesgas de céu azul. Atravesso um campo rupestre cheio de bonsais de mimosas. Sou apresentada à famosa arniquinha com a qual se faz a gostosa cachaça da região. As canelas de ema floridas exibem suas flores roxas. Arnicões já engalanados de flores rosa-claro, chapéus de couro e muricis pontuam o solo de amarelo e vermelho. As mimosas dão o ar de sua graça com seus pompons rosados. Margaridas e estrelas colorem de branco o pasto. Os trovões continuam se ouvindo, agora mais fortes, das bandas da região da serra de Santa Rita. Chegamos ao famoso Portal, assim chamado porque descortina uma outra paisagem, conforme informa Pacheco. Como não consigo perceber grandes diferenças, indago ele. Pacheco então explica que se eu olhar pra trás nada mais consigo enxergar: nem Alto Paraíso tampouco as serras da Baleia, do Buracão, Conceição, Boa Vista, Almécegas e Morro do Papagaio que até então vínhamos admirando. Muito observadora eu, hein?! Um pouco mais adiante, Pacheco indica, escondida numa mata de galeria mais a frente, a cabeceira do córrego Ferreirinha, nascente do rio Macacão. De fato, ingressa-se em outro mundo. Agora o que predominam são os campos de altitude. Lembram as savanas africanas com seu alto capim amarelado que só conheço de fotografias e filmes. Ali e acolá despontam árvores repletas de folhas verdes. A chuva, fraquinha, começa a pingar, e logo aperta. Escuto algo semelhante a latidos de cães. Intrigada, questiono Pacheco. Ele responde que o tal ruído vem a ser o coaxar do sapo-cachorro. Mas não é que parece mesmo um au-au?!! Coisa mais gozada, hehehehe!!! A chuva mantém-se miudinha quando então reingressamos de novo nos campos rupestres com suas formações pedregosas e dou de cara com o córrego Ferreirinha e suas sucessivas cascatas. Piro de alegria! É claro que me ponho a clicar a paisagem. Apesar da chuva, estou nem aí se a máquina estragar. Sinto fome, sei lá que horas são, estou sem relógio, sem lenço e sem documento, hehehehe. Paramos próximos a uma cascatinha onde aproveito pra encher minha garrafa com a água do córrego. Cada um retira de suas mochilas seus lanches passando, então, a compartilhá-los fraternalmente. Daqui pra frente a paisagem é deslumbrante!! Sobre um extenso lajedo escorre o Ferreirinha em cujas margens avultam formações rochosas impressionantes formando um longo corredor de pedras cujo término situa-se abaixo da cachoeira do Sertão Zen. Pacheco aponta outra cascata, denominada, por um amigo, de Banho Inca. Regularmente dispostas umas sobre as outras, as pedras, de fato, assemelham-se àquelas construções encontradas nas ruínas de Tambomachay. A chuva reinicia forte. Sem condições de continuar filmando, me resigno e guardo a máquina na mochila. Droga!!! Andamos mais um pouco e as pedras que ladeiam o córrego Ferreirinha aumentam de tamanho lembrando totens gigantescos. A paisagem é puro delírio, estou deslumbrada! É lindo demais, está sendo o mais lindo passeio dentre os muitos que fiz aqui na Chapada dos Veadeiros. Sem sombra de dúvida! Quando chegamos em cima da cachoeira do Sertão Zen, a chuva não dá trégua. Avisto o vale do Macacão lá embaixo. É de perder o fôlego. Suspiro sem parar. É tudo muiiiiitoooo lindoooo!! Pacheco conta que já acampou várias vezes aqui. Fico apavorada pois, de onde estamos, a distância até a queda d'água do Sertão Zen, com 175 metros de altura, é de apenas 20 metros. Apesar da chuva, continuamos nosso passeio atravessando o Ferreirinha pra alcançarmos um mirante de onde poderemos ver a cachoeira de frente. É uma visão impactante, nem tanto pela altura, eu diria, mas por todo o conjunto de pedras gigantescas que a circundam. Amo de paixão este lugar e não barganho elogios e exclamações de encantamento. Deixo a timidez de lado e fico de boca aberta, bem deslumbrada admirando tão assombrosa paisagem! Adoraria ficar aqui mais tempo, poder acampar e explorar melhor seus inúmeros recantos mas, infelizmente, temos de voltar. No caminho de volta, Pacheco me diverte desfiando estórias hilárias sobre figuras
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que deram com os costados em Alto Paraíso. Rio sem parar, às gargalhadas, com seu jeito sério de contá-las. Esse cara é muito engraçado mesmo! Sorte nossa que a chuva estia em definitivo, assim nosso retorno se faz sob bom tempo. Andreza telefona pra Pacheco e nos pega de carro num ponto da estrada que conduz à trilha do Morrão. Pra comemorar o lindo dia, convido-os pra beber algo e lá vamos nós pra pizzaria Joshua tomar um drink. Quer coisa melhor do que uma boa taça de vinho tinto depois dessa caminhada?

sábado, 24 de novembro de 2007

Retorno ao cerrado goiano na época das chuvas

Pois não é que acabo retornando a Alto Paraíso por conta de um curso que fiz em Brasília?!! Como ainda tinha créditos de horas no serviço, aproveito pra dar uma esticada e me toco pra lá com intenção de fazer outros passeios. Esperam-me na rodoviária Marcela e Misael. Abraços e beijos são trocados, é bom, tão bom a alegria do reencontro! Vamos pra Pousada Jardim do Eden largar minha mala onde Lucia me aguarda com aquela sua delicadeza encantadora. Dessa vez, reserva-me o quarto Mil Folhas (da outra vez fora o Verbena); explica que a cada vez que eu lá retornar vou sempre ficar num quarto com nome diferente, "pra provar de todas as ervas", acrescenta alegre. Vamos eu, Marcela e Misa pro Alquimia. Com três ambientes, este bar apresenta uma parte interna envidraçada com balcão e banquinhos ao redor mais um estrado, ao fundo, servindo de palco onde na sexta e sábado rola som ao vivo. No alpendre, mesinhas e cadeiras de plástico brancas, afora uma reluzente mesa de sinuca. Nas traseiras, uma danceteria cuja função só acontece nos findis. Chego na pousada e basta deitar a cabeça no travesseiro que logo adormeço. Hoje, sábado, levanto animada, vou conhecer a cachoeira do Cristal. Ah, Lucia e seu desjejum!! Coisa mais boa voltar a provar seus quitutes preparados com todo capricho. Pergunta se eu quero uma panqueca quando chega Eduardo, seu marido, músico, tranqüilo que nem ela. Batemos um papo legal sobre energias positivas e crescimento espiritual, mas infelizmente é tempo de partir. Vou até a casa de Marcela que já estava atrás de mim. Me convida pra ir com ela de carro até Cristal, declino do convite, prefiro ir a pé com Pacheco, o guia da vez nesses dois dias de trekking na região. Aliás, tenho de registrar que esse paulista radicado há quase 20 anos em Alto Paraíso foi considerado o melhor guia de ecoturismo do ano de 2006! E tenho ele só pra mim, hehehehe....oba!!! O dia está legal embora nuvens grossas prenunciem chuva, pois a temporada da seca já era. Daqui pra frente até abril, chuviscos, chuvas e pancadões, podendo durar horas ou até dias. Na saída da cidade, pergunto o quem vem a ser um muro de taipa rodeando uma propriedade. Pacheco explica que é a ONG Oca Brasil cuja finalidade é o ensino de técnicas de preservação ambiental do cerrado. Me convida pra conhecer, acrescenta que Andreza, sua mulher, uma catarinense meiga, dona de belos olhos castanhos rodeados de fartos cílios, trabalha ali. Aceito o convite e me encanto com o que vejo: tucanos voando pra lá e pra cá, tudo muito bem cuidado, os prédios embora rústicos, feitos de pedras da região, são confortáveis, sala de cinema e refeitório. A comida servida é toda integral utilizando produtos plantados sem agrotóxicos. Reencontro, agradável surpresa! uma velha conhecida, a Mina, gaúcha como eu, que conhecera por ocasião de umas férias na Guarda do Embaú. Foi aquela alegria, ficamos recordando aquele verão de 99 em que ela arrendara um barzinho, localizado às margens do rio Da Madre, que explorou junto com o marido, levando a reboque três de seus filhos. Mas, infelizmente, não dá pra ficar mais tempo, Marcela nos espera no Cristal. E lá vamos nós estrada afora, inclusive Andreza que já terminara seu expediente. A caminhada é curta, coisa de uma hora, fácil, avistando-se durante o trajeto as serras que fazem parte do complexo da Serra Geral do Paranã, limite leste da Chapada dos Veadeiros. Eu pasmo diante da mudança na paisagem, ao contrário de setembro, quando as árvores se apresentaram pardacentas e despidas de folhas e o campo crestado pela ação inclemente do fogo das queimadas, tudo isso agora se tranformara como num passe de mágica. Parece outro lugar, entretanto é o mesmo: bastam algumas chuvas e o solo cobre-se de grama! As árvores exibem seus brotinhos verdes. No meio do caminho, começa um chuvisco. Ainda chove um pouco quando chegamos ao Cristal, pequeno balneário com restaurante, quiosques e camping, aproveitando as diversas quedas d'água e os poços formados pelo rio de mesmo nome. Lugar aprazível é muito freqüentado pelos moradores da cidade e turistas já que oferece uma boa infraestrutra pra receber visitantes, explorado pelo simpático Fernando, cujo apelido Tatu deve-se à sua parença com o personagem Tatoo, o anãozinho da Ilha da Fantasia, aquele do famoso seriado do final da década de 70 e início da de 80, lembram? Confesso que nem achei ele tão parecido assim com o tal artista, afinal nem muito baixo é!! Mas enfim... O fato é que sou super bem recebida, como uma galinhada trigostosa preparada por Mara, mulher dele, outra queridésima também. Peço uma dose de conhaque já que não sou lá muito chegada em cerveja e assim bem hidratada – hehehehe - vou com Pacheco até a cachoeira da Água Fria. No caminho ele vai me mostrando algumas plantas como a orelha de carneiro, macia, macia ao toque. Quando chegamos no alto da cachoeira, Pacheco me aponta uma linda queda d´água situada em frente conhecida como cachoeira dos Órfãos com 175 metros de altura. A paisagem lá de cima é esplêndida, dá pra avistar o vale do Moinho, que abriga uma pequena comunidade com pouco mais de 40 casas e as escarpas leste da serra do Pouso Alto. Continuamos o passeio até a ravina que conduz à Água Fria, esta já menor, com apenas 135 metros de altura. Essa trilha já requer mais cuidado: trata-se de uma descida até o poço formado pelas águas do rio da Água Fria. Atravessa-se o rio umas três vezes e isso me lembra por demais os meus queridos canyons de Praia Grande! Muito incrível a semelhançal! Pacheco mostra-se um guia interessantíssimo, contando "causos" divertidérrimos de suas aventuras na região. Rio muito messsmooo!! Ficamos por lá um pouco apreciando a imponente cachoeira cujas águas caem em volutas caprichosas pelo ar. Quando retornamos, vejo o quê?!! Um arco íris!! Poxa, muito bacana isso, é o segundo que me aparece este ano, o outro foi nas Torres del Paine em abril. Saco a máquina do bolso da bermuda e filmo bem doidinha, torcendo pra que saiam boas imagens. Sei lá se vou conseguir, desconfio que a luz do final de tarde e a câmera ruinzinha não vão colaborar muito.
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Quando chegamos no quiosque já está rolando o maior churras patrocinado por Fernando em agradecimento à ajuda que Misa e seus empregados estão lhe dando. Foi assim: o camping do balneário foi queimado na época da seca, então, Misa pediu a seus empregados pra dar uma força pro Fernando cedendo dois sábados de descanso deles pra fazer um mutirão e reconstruir o alpendre. O ambiente, alegre, a peonada de Misa toda feliz bebendo cerveja, comida à farta (o feijão mexido com ovo duro é de lamber os beiços!), carne bem assada, suculenta e macia (olha, não é só gaúcho que faz bem churrasco, não!), todos alegríssimos. Beleza pura!! Marcela animadíssima com minha presença. Eu mais ainda....poxa, coisa boa a gente ser querida! A noite já se anuncia, mais uma vez não aceito a carona de carro da Marcela. Retorno eu, Pacheco mais Andreza a pé. A noite é de lua cheia e eu, com certeza, não deixaria por nada desse mundo de passear sob a luz do luar!! O campo iluminado tá clarinho, clarinho. Vez por outra nuvens abafam o brilho da lua, mas Pacheco usa sua lanterna e avançamos tranqüilos escuridão a dentro. O coaxar dos sapos, vez por outra o pio de uma ave apressada em direção ao seu ninho, quebram o silêncio da noite. Ao longe as luzes de Alto Paraíso apontam, eis-nos de volta à civilização....peninha. Eu por mim passava a noite toda caminhando!!