segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Vulcão Chachani

Saímos de Arequipa às 08 e ½, numa 4x4 guiada por Afonso. Proprietário do carro, ele é um tipo irrequieto, falante, mas nada simpático. Quando sabe que sou brasileira, revela que namora uma paulista. E eu com isso, uai. O guia é Alberto, um cara que sorri até quando tu fala de coisas tristes. Dessa feita, Adrián vai apenas porteando minha bagagem porque ainda não tem permissão pra guiar solo em alta montanha. Como lhe falta concluir o curso de Profissional Técnico de Guia Oficial de Montanha, ministrado pela Associação de Guias de Montanha do Peru, afiliada a UIAG, cuja duração são 3 anos, só lhe é permitido ser guia de caminhada, daí porque no Colca pôde me acompanhar. Espera, com a grana que está juntando nessa temporada de turismo, poder pagar as taxas e se mandar pra Huaraz em setembro, onde será realizada a parte final do curso, constante somente de práticas. O último componente do grupo é Mikael, um belga duns 30 anos, espantosamente fluente no espanhol, graças a 2 semestres de engenharia florestal cursados no Chile. Tece comentários perspicazes acerca do relacionamento homem x mulher que me arrancam sorrisos, tipo “ela (se referindo à namorada, uma espanhola, mais um motivo porque é tão bom no espanhol) não concebe que eu possa me divertir sem estar ao seu lado”....hahahaha. Pior que a arguta observação resume acertadamente um tipo de mesquinhez emocional que estraga tanto as relações amorosas. Afonso, a meu pedido, pára o carro pra eu poder fotografar o Misti. E Alberto me indica a trilha pedalável na encosta nordeste do Chachani. Pra quem gosta de boas descidas, esse down hill é bem irado: desnível de 1.200 m, com largada a partir de  4.800 m. Quando atingimos os 5.074 m, às 11 e 30, Afonso nos deixa e retorna a Arequipa. Voltará amanhã pra nos buscar. Quase toda a caminhada, até o acampamento, é ao longo duma trilha bem demarcada, exceto por um trecho constituído duma selva de pedras, provável resquício dalguma morena. Durante a pernada, a única vegetação que se destaca, na coloração ocre da paisagem semi-árida, é a yareta. Recobrindo as rochas, esta planta almofadada e resinosa serve de combustível, comumente usado em fogões. Embora o aclive seja suave, já sinto os efeitos da altitude. Afinal, 5.000 m não são os 2.300 m de Arequipa que tiro de letra. A caminhada dura pouco mais de 1 hora e eis nós já no lugar onde vamos acampar. Situado na encosta norte do Chachani, a uma altitude de 5.157 m, o acampamento permite avistar, em todo seu esplendor, a linda face sul do vulcão Nokarane, quase inteiramente coberta de neve. Ao norte, já bem visíveis os vulcões Ampato e Sabancaya. Mais além, o Coropuna. Os guris montam as barracas enquanto dois zorrinhos, atraídos pela movimentação, surgem dentre as pedras, olhando pra nós, com ar sestroso. A coisa mais linda, ambos têm pelagem ruiva. Quando jogamos guloseimas em sua direção, largam de ser tão ariscos e se aproximam cautelosamente. Nada como a boa e velha armadilha da gula pra amansar o temor deles em relação ao bicho homem. Me esbaldo, sacando um monte de fotos e também filmando-os. Os dois são irmãos e, à tardinha, a mamãe zorra dá pinta para ver o que tá rolando com os filhotes. Como sobrou muita massa da janta (porque estava bem ruinzinha), tudo é jogado pros zorrinhos que a devoram. Digno de nota: eles não disputam o rango. Aquele que alcança primeiro a comida, come sem ser incomodado pelo outro, que se limita tão-somente em torcer pra que sobre algo. No final da tarde, a lua - falta só um tantinho pra ser cheia -  brilha lindaça num céu que lembra aquele celofane azul que envolvia antigamente as maçãs. Vejo, pela primeira vez em 9 dias na região de Arequipa, gordas nuvens atrás do Nokarane. Coisa duns 200 metros adiante do nosso acampamento, distingue-se bem o sinuoso zigue-zague que se desenha ao longo da rampa arenosa que dá acesso ao cume do Chachani. Será o que enfrentarei na madrugada....bah! Às 20 horas já estou deitada, dormindo sem muita delonga após ingerir um relaxante muscular. Acordo antes que Adrián me chame e, às 3 e 30, já estamos subindo a tal rampa que vira durante o dia. O céu está coalhado de estrelas e da lua nem sinal.  A noite ainda tem o mando de campo, hehe, o que convenhamos não dá pra ver bulhufas da paisagem. Além do mais, a concentração em caminhar exige atenção e muito esforço físico. Lá pelas 5 e 15, percebo pequeno clarão a leste. Curto muito a ambiguidade dessa hora, em que a noite hesita em ceder espaço à claridade da manhã. Apenas se percebe o suave contorno da paisagem ao redor. Numa das dobras da montanha, distingo brevemente o perfil azulado do Nokarane. Sinto muito frio nos pés e cansaço também. Paro seguidamente a fim de restaurar minhas energias. O belga segue atrás de mim e Alberto e Adrián à frente. Se não fosse a altitude, a caminhada seria tranquila porque não passa dum trilho bem demarcado na arenosa encosta norte do vulcão. Lá pelas tantas, um pequeno trecho crivado de rochas, nada contudo que exija escalaminhadas, apenas cuidado pra não se pisar em pedras soltas. Peço novamente que paremos. Tenho de descansar. Lanço, então, a pergunta que não quer calar: "quanto falta pro cume, Adrián?" Quando o guia responde 2 horas, a decisão já está tomada. Há alguns anos atrás, me esgualepava mas ia. Atualmente, quero que minhas caminhadas sejam prazerosas mesmo que tenha de sacrificar cumes. Essa pegada de parar, frequentemente, porque as forças são escassas, me deixa humilhada. Eu queria poder caminhar com relativa fluidez. Se já me sinto super cansada aos 5.750 m, onde agora me encontro, insistir em subir os 300 metros restantes até o cume vai acabar comigo. Sinto um baita alívio quando desisto de continuar. Já vinha me intimando há um bom tempo com a repetitiva ladainha de “e aí minha querida, qual é?” Quando se pensa em abortar ascensos aos cumes, bate uma nóia que a gente é fraca. Isso faz com que se fique adiando a decisão pra ver até onde se aguenta. Vá que essa procrastinação leve ao tão sonhado cume, né? Depois que voltei pra casa, comecei a fazer questionamentos tipo "por que não te esforçaste mais hein Beatriz?" Mas daí já era e se punir assim não leva a nada! Bueno, despedimo-nos de Mikael e Alberto e começamos a descida por outro caminho cuja areia bem fofa levanta nuvens de poeira, tanto que minhas botas e calças ficaram branquinhas! Quando chego ao acampamento, lá pelas 8 e 30, deito na barraca e tiro um gostoso cochilo até as 10. Em torno de 11 horas, os homens retornam do cume. Acho bem estranha a atitude do belga, o cara nem comemora o feito (e olha que foi seu 1º seis mil!), tampouco máquina levou pra tirar fotos. Quando pergunto pra ele porque não carrega uma consigo, ele responde que guarda tudo na memória. Entretanto, anota seu email em meu diário e pede que eu envie as fotos que tirei dele...pode? Já em Arequipa, sinto que realmente estou cansada porque nem sinto vontade de sair à noite pra beber um pisco sour, hehe!! O Chachani cobrou seu preço! No dia seguinte, retornando ao Brasil, enquanto sobrevoo a região de Arequipa, decido que meu próximo vulcão bem que pode ser o Misti.....afinal, ele só tem 5.800 m, hehe

sábado, 17 de agosto de 2013

O mundo encantado do Convento Santa Catalina

Dia seguinte, temos, finalmente, a oportunidade de nos conhecermos, eu e Vevê! Adooooro o Face Book. Ele permite esse tipo de aproximação. Depois de trocas de msg (e nós estávamos a uma ou duas quadras de distância), eis que a moça surge no hotel. No jardim do piso térreo, divido uma mesa com uma alemã que ensina a filha francês (bizarro demais!! por que não espanhol?). Distraída, transferindo fotos da máquina para o computador, escuto “oi Beia”. Olho pro lado e vejo a moça acompanhada por 3 rapazes. Um deles é seu namorado, Marcelo. Os outros dois são Denni e Max. Este último é meu conhecido. Da internete, é claro! Trata-se de Maximo Kausch, escalador de alta montanha, mais cultuado no Brasil que no seu país de origem, Argentina. Transformou sua paixão pelas montanhas em profissão. Atualmente é guia duma agência inglesa que opera no Himalaia. Admirado por uma galera brasileira, fãzaça de suas façanhas, o cara, realmente, merece: é um aventureiro nato.  Faz costumeiramente aquilo que a maioria das pessoas só curte nas férias ou em fins de semana. Saímos do hotel e me admiro quando escolhem um prosaico restaurante especializado em massas com mesas de plástico e bancos fixos (parecia restaurante de shopping). Sei lá por quê, viagem minha, por supuesto, achei que curtiriam comidas típicas, tipo ceviche, rocoto relleno ou um chupe de camarones. Terminado o almoço, nos tocamos prum café na calle Mercaderes. Além dum menu cheio de comidinhas gostosas, dentre as quais deliciosas tortas e sorvetes, o lugar tem wifire. Os cinco têm pela frente uma longa espera já que partem pra La Paz de madrugada. Tanto me senti à vontade com eles que lá permaneci das 11 até as 23. E olha que sou meio arredia. Há em mim um tantinho de misantropia, embora não me furte em conhecer pessoas. Sei que soa meio contraditório mas é assim mesmo! O papo entre mim e Vevê flui como se fôssemos velhas conhecidas. Apenas eu e ela não estamos plugadas em notebooks, porque os 3 marmanjos só querem saber de navegar na web. Max, que acabara de culminar 59 montanhas acima de 6.000 metros, na Cordilheira dos Andes, se queixa quão difícil é ver reconhecido seu recorde pelo Guiness. Sinceramente, dou a menor pelota pra esses recordes. Reconheço porém que prum cara como ele, que vive de ser guia, tal registro faz diferença em  seu currículo. Impressiona pra caramba as pessoas. Quando saímos do café os guris estão animados e partem em busca de outras distrações. Afinal, ainda têm mais 4 horas de espera pela frente. Dirigem-se então pra calle San Francisco, point fervido das baladas arequipenhas. Na frente duma boate, de nome Deja Vu, eles param, alvorotados. Ladeando a porta de entrada do estabelecimento, duas belas moças, cujos trajes colantes modelam mais ainda seus corpos provocativos, servem de chamarizes à clientela masculina. Quando vejo Max e Denni, num trelelê animado, percebo o que vai rolar noite adentro. Despeço-me, rapidinho, da trupe, desejando tudo de bom e retorno ao hotel. De folguedos noturnos já tive muita over dose ao longo de 30 anos. Eles que são jovens que curtam sua balada.....eu, tô fora. Sábado, acordo feliz em estar numa cidade tão linda. O que é esse clima? Desde que aqui cheguei, e já faz 1 semana, nenhuma nuvem embaça esse céu de brigadeiro!! Depois do desaiuno (hoje teve panquecas), trato de ir ao monastério Santa Catalina de Siena. Seus muros traseiros são vistos do hotel. Bastou dobrar a esquina, eis eu atravessando seu portão de madeira e mergulhando num inusitado ambiente. Adoro esse lugar. Tanto que é minha segunda visita. E retornarei pra visitá-lo tantas vezes vier a Arequipa. É um mundo à parte essa pequena cidadela religiosa que ocupa um quarteirão no centro histórico da cidade. Ruas com nomes de cidades espanholas como Granada, Toledo, Córdoba, Burgos e Sevilha desembocam em páteos pintados em cores vibrantes. A flor predominante são gerâneos, plantados em vasos, inúmeros vasos, espalhados por onde quer que se ande. O sol forte do ½ dia reverbera nas paredes pintadas de laranja, azul e branco. É tudo muito colorido! Os aposentos das monjas são pequenas residências: jardinzinho, quarto, sala e, nos fundos, uma pequena cozinha. Claro está que apenas as arequipenhas endinheiradas podiam bancar tais confortos porque viver num convento saia bem caro. Além do dote e dum enxoval completo, era necessário pagar uma tarifa anual para custeio da alimentação. Flexível, o convento, permitia o ingresso de mulheres tão-somente para exercerem virtudes cristãs, sem que fossem obrigadas a abraçarem a vida religiosa (provavelmente viúvas ou solteironas). Dos terraços, avistam-se os onipresentes vulcões Chachani e Misti. E durante a visita soam belas músicas sacras. Sento à mesa da agradável cafeteria e sonho, enquanto bebo uma limonada, que adoraria ter vivido num lugar assim! Fazendo doces, bordando, cuidando dos jardins e orando diante de tão belas imagens. Uma velha fantasia que acalento desde menina essa de ser freira. Saindo de tão altas platitudes, vou às compras. Pouca coisa, apenas uma que outra lembrancinha necessária para algumas pessoas queridas. E mais não faço nesse dia porque o domingão me reserva uma boa: vou subir o Chachani.....hahahaha!!

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Final de trek tem gostinho de "quero mais"

Saímos de Sangalle às 05 e 30 da manhã. Acompanham-nos Bliss e Fionnuala. Seu guia combinou de deixar a vila às 4 e 30 e as gurias quando souberam que nós sairíamos às 5 e 30, pediram pra ir conoco! Ainda escuro, ligo a lanterna de testa. Decorridos 40 minutos, desnecessário seu uso, já que a claridade da manhã se impôs. Fionnuala tão falante, ontem à noite, mantém-se quase muda durante a caminhada. Ah, nada como um tragoléu pra soltar a língua das pessoas e day after voltar a emudecê-las, hehe. Já Bliss mantém seu sorriso cheio de dentes. A trilha que, ontem, vista à distância tanto temor me inspirou, hoje não é tudo aquilo que eu imaginara. Essas perspectivas enganadoras...tsk tsk tsk! Não dá pra considerá-la fácil, afinal se trata dum desnível de 1.000 metros de ininterrupto ascenso, mas difícil não é. Sem maiores dificuldades técnicas, o bem marcado caminho exibe em seu lado direito o lindo visual do canyon onde se vêem, próximas uma da outra, as vilas de Malata e Cosñirhua, situadas no paredão oposto. Passam por nós alguns turistas montados em mulas. A subida deve tê-los amendrontado ou, então, mais provável, estão com as pernas esbagaçadas da descida de Cabanaconde a Sangalle. Encontro um grupo de brasileiros. Um deles, um gordão, enrolado na bandeira nacional, botando os bofes pela boca, só sabe dizer que está fudido, apontando pras pernas. Indago o óbvio ululante: “mas cara, por que tu não contratou uma mula?” E o gorducho, bem humorado (dificilmente um gordo não é bem humorado ou metido a engraçadinho....por que será?), responde que as mulas só aguentam até 80 kg, peso que ele tem em dobro, hahahaha!!! Hilária a situação do gordo, tadinho! A garotada está viajando pela América do Sul com a intenção de fazer um documentário tipo reality show pra tentar vendê-lo a um canal fechado de TV quando retornarem ao Brasil. Numa das tantas dobras da trilha, curtindo um rock transmitido por um aparelhinho de som, um casal, com ar cansado, sentado no chão, recupera as energias da íngreme subida. Em 2 horas e 50 minutos - poderia ter feito em menos tempos, mas paro toda hora pra fotografar e filmar – alcançamos o topo após 4 km de percurso. Ali, dezenas de jovens, felizes e orgulhosos de sua façanha, descansam após o cansativo ascenso. Mais uma caminhadinha de  1 hora e meia até Cabanaconde onde desaiunamos enquanto esperamos a van que nos levará de volta a Arequipa. Embora sempre seja servido o mesmo desaiuno - chá, geleia de morango, manteiga e pão – como com gosto, até porque é muito gostosa a singela refeição. Embarcamos na van onde já se encontra acomodado um bando de adolescentes franceses, todos magros e nada simpáticos. Em Maca, na rua principal, mulheres apregoam a sempre usual parafernália de produtos típicos: mantas, casacos, gorros e bonecas. Num poste, amarrados com um cordão, uma lhama e um gavião são alugados aos cliques fotográficos dos turistas em troca de alguns soles. Vejo uma sorridente Bliss com a ave pousada no ombro sendo fotografada por Fionnuala, hehehe. Quase caio na tentação de fazer o mesmo mas devido ao pouco tempo que o guia nos deu prefiro visitar a linda igreja pintada de cal, com o átrio murado! Curto demais fazer os 3 pedidos a que se tem direito quando se entra num templo pela primeira vez. Na rua ao lado da igreja, uma festa com banda e dançarinos usando máscaras de árabes está iniciando. Alguns homens fazem uma rodinha e se põem a dançar. Moças, exibindo lindos trajes típicos caprichosamente bordados, sentam-se à beira da calçada, bebendo refrigerante. Lamento não poder ficar porém a van já está quase partindo. Descemos rapidamente num mirador onde se avistam o nevado Quehuisha e, no vale abaixo, a vila de Madrigal. No fundão duma garganta, uma mina de prata abandonada. A próxima parada é Yanque onde curtimos deliciosas piscinas de águas termais. As melhores do trek, sem sombra de dúvida! Sem semelhança com as de Llhuar e Sangalle, são feitas de pedras, bem rudimentares. Relaxo feliz da vida nas cálidas águas. Em frente, dois vestiários feitos de carrizo com 2 chuveiros pra quem quiser tomar uma ducha, dessa feita usando sabonete. Rumamos então para Chivay onde almoçamos no mesmo restaurante onde desaiunamos há 5 dias atrás, quando o trek teve início. O bufê do Sumac Wasi oferece diversos pratos típicos e custa 25 soles. Sumpimpa a refeição, repeti 3 vezes!! Chego em Arequipa às 17 e 30. Cansada, saio e compro salteñas (prefiro às empanadas) mais uma tortinha de morango. Levo tudo pro hotel. Pego, então, um copo de chá na recepção e subo pro meu quarto. Muito a organizar já que daqui a 2 dias enfrento outro trek. E no maior vulcão da cordilheira Vulcânica, o Chachani, com 6.057 m. O objetivo é alcançar sua cumbre. Vamos ver no que dá! Qual não é minha surpresa quando abro o Face e dou de cara com o alegre convite de Vevê Mambrini, jornalista paulista, anunciando que está também em Arequipa. "Simbora tomar uma cerveja?" Pergunto onde ela se encontra mas fico sem resposta. Deve estar em algum lugar onde não há wirefire....que pena! Mas desencano rapidinho. Estou deveras cansada e minha pilha não ia durar muito. Melhor dormir e descansar pra amanhã estar 100% reenergizada! 

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Um oásis dentro do Colca

Acordo às 7 com ruidosas rajadas de vento. Quando saio para ir ao banheiro, um pouco mais tarde, o dia está radiante, sem pinta alguma de vento. Hoje vamos à Sangalle. Normalmente, não procuro saber muito sobre meu roteiro, por isso o pouco que sei sobre essa vila é que, à semelhança de Llahuar, também oferece águas termais. Mas bah gente, levo um susto Nada mais nada menos que um pratão com arroz, ovo frito e 3 rodelas de tomate! Tsk tsk tsk....não rola almoçar na hora do café, hehe. Peço então pão, geleia e chá, no que sou atendida. A filha de doña Nancy se desculpa em não poder servir manteiga. Por causa dos consertos na estrada que liga Cabanaconde ao paredão sudoeste do Colca, bem no trecho em frente a Llahuar, a entrega de víveres resta interrompida, tanto que os moradores de Fure já se ressentem da falta de alguns mantimentos. Às 8 e 30, deixamos a vila. Como estamos agora caminhando no paredão leste do canyon Huaruro dá pra enxergar muito bem o trajeto que percorremos ontem na parede oeste. Passamos pelas vilas de Llatica e Toruña, encravadas no sopé da montanha. Llatica está praticamente ao nível do rio Molloco enquanto Torunã localiza-se mais acima, talvez 200 metros acima do nível do rio. Pernada sem maiores percalços, nada que demande esforço. A trilha é feita praticamente à sombra já que o sol incide somente no paredão fronteiro do Huaruro. Decorridas 2 horas, alcançamos a parede nordeste do Colca onde passamos a trilhar. No fundão do adorável canyon Huaruro, despontam alguns nevados da cordilheira Chila. Por falar em Chila, o Colca é o divisor entre esta cordilheira e a Vulcânica. Na primeira, o vulcão mais representativo é o Mismi, trombeteado pela maioria dos guias como nascedouro do rio Amazonas, quando, na verdade, seu manancial advém do nevado Quehuisha. Já a segunda cordilheira, goza de mais popularidade porque ali se situam dois vulcões muito badalados: Chachani, o maior, com 6.057 m, e Misti que resguarda um perfeito formato cônico em razão de sua “juventude” em relação aos demais. Curto pra caramba o tanto de trilhas abertas no paredão fronteiro do Colca, possíveis devido à inclinação pouco abrupta de suas paredes. Paramos no mirador Apacheta que, com seus 2.400 m, é o local mais alto da região. Adrián conta que os incas chamavam seus pontos mais altos de apachetas, costumando neles depositar folhas de coca mastigadas. Tal gesto significava abandonar ali o cansaço para prosseguir com forças renovadas o restante da jornada. A partir do mirador, a trilha termina e tem início uma estrada de chão batido, larga e plana, cujo início é em Cabanaconde com término em Malata, uma das 14 vilas existentes no canyon. Passados 40 minutos, abandonamos a estrada e enveredamos por uma trilha cujo desnível de 500 metros leva a Sangalle. No trecho inicial, peço um help a meu guia (dame tu mano, Adrián!!) porque a passada exige certo cuidado. Mesmo com medo, eu vou!! Adooooro tudo isso!! Ultrapassada a íngreme descida, desembocamos num platô onde há uma plantação de cactus. Pregados em seus caules, envelopes de papel. Intrigada, pergunto a Adrián o motivo. Fico então sabendo que são cochonilhas fêmeas ali colocadas de modo a infectar os cactus pra produzir o tal corante. Lá embaixo as piscinas esverdeadas de Sangalle convidam ao relax. Chama-me a atenção o que parece ser, à distância, um espantalho. Quando estou quase perto, o que vejo, porém, é uma cruz. Igualzinha à de Fure, também coberta com flores vermelhas. À medida que me aproximo do paredão sudoeste, mais e mais se destaca a ziguezagueante trilha que leva a Cabanaconde. Tremo só de pensar em enfrentá-la amanhã. Vai ser osso subir essa íngreme aclividade! Finalmente, eis-me em Sangalle após 11 km de tranquila caminhada! No fundão do canyon, às margens do rio Colca, o vilarejo é um oásis em meio à aridez da paisagem. Várias pousadas, todas providas com piscinas de águas termais. Contudo, a temperatura é decepcionante. Fria, nem se compara à tepidez das piscinas de Llahuar. Na pousada onde estou, sou a única coroa. Dentre os hóspedes, destacam-se dois grandes grupos de estudantes secundaristas franceses. Observo que a garotada não fala muito alto, o que acho ótimo. Tenho horror a gritaria. A maioria dos turistas, que aqui se encontra, limita-se a descer a trilha de Cabanaconde, permanecendo no balneário por um ou dois dias, com rápidas incursões a Malata e ao Mirador Apacheta. Poucos incluem Llahuar no trajeto. Embora Sangalle e Llahuar estejam a mesma altitude - 2.200 m -, aqui faz frio. À noite, durante a happy hour, conheço Bliss e Fionnuala (se pronuncia Feniula). Com meu rudimentar inglês consigo entabular uma razoável conversa e obtenho informações sobre as duas moças. A primeira, uma californiana simpaticíssima, é terapeuta e trabalha com crianças autistas. Já a segunda, irlandesa, é professora primária e mora em Londres porque não descola um bom emprego em seu país. Católica, a guria frequenta missa aos domingos e morre de saudades da família que permaneceu na Irlanda.  A irlandesinha, após o terceiro pisco sour, fala pelos cotovelos. Sinto certa dificuldade em acompanhar seu conversê, também pudera, já estou igualmente na terceira rodada, hehe.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Nas entranhas do Canyon Huaruro

Acordo no meio da noite e penso: droga, está chovendo, sem me dar conta de que o ruído de água que escuto é o do rio em seu interminável desfile rumo ao Pacífico. Quando subo a íngreme e longa escadaria de pedra até o restaurante sinto que a descida do dia anterior está cobrando seu preço. A dor nas panturrilhas e nas coxas se faz sentir. E como! Adrián explica que o nome dos bambuzinhos com que são construídas as casas é carrizo. Nas cozinhas sua utilidade é providencial: permite que a fumaça escape dentre suas frestas. Enquanto espero o desaiuno, Saraí, a gerente da pousada, aponta o rio: que transformação!! Nem sinal da límpida e verde correnteza de ontem. Hoje o que vejo é a feia coloração amarronzada proveniente da explosão de rochas. Trata-se de consertos efetuados num trecho da estrada situada no paredão em frente. Nuvens de poeira pairam no ar. Simpática e bonita, Saraí faz questão de me pespegar uma beijoca quando estou de partida. Observo que também procede assim com os franceses ali hospedados. Saímos às 8 e 40 e abandonamos o  Colca, começando a percorrer as entranhas do Huaruro. Com 10 km de extensão, é uma miniatura de canyon se comparado ao Colca. Seu rio, Molloco ou Huaruro, serpenteia veloz entre os paredões cobertos de verde vegetação. Percorremos uma das tantas trilhas abertas na parede oeste. Sem qualquer nível de exigência, o único lance perrenguento vem a ser um trecho – graças a deus, curtíssimo - obstruído por um desmoronamento de terra. Fico com medo porque, à direita, uma baita rampa conduz ao rio situado 200 metros abaixo. Um escorregão e adiós, señorita Beatriz. Adrián então estende sua mão no crux da via (pra mim é claro) de modo a que eu possa atravessá-lo em segurança. Fazer o quê, se sou cagona, né! Ele observa que tais deslizamentos de areia e pedras têm sido causados pelo Sabancaya, vulcão que, ultimamente, vem se mostrando deveras indócil. Um pouco antes de chegarmos a Toruña, passa por nós um velhinho super afável, acompanhado de seu filho. Curioso, o senhorzinho pergunta donde venho e se vou visitar a cascata de Huaruro. Ontem não havia viva alma na trilha, hoje, no entanto, há um certo movimento. O que me agrada e muito. Curto demais bater papo com nativos. Ainda há pouco, cruzamos com alguns moradores de Llatica. Buenos dias, dizem eles amávies. Adrián comenta que estão indo pruma trilha, situada mais abaixo da nossa, a fim de repará-la. Tudo por causa dos maledetos deslizamentos de terra provocados pelo Sabancaya. Um pouco mais adiante, um arriero conduzindo duas mulas, dirige-se à pousada em Llahuar. Provavelmente, pra vender produtos agrícolas de seu sítio. Um trecho da canaleta que puxa água do rio corta a trilha, logo desaparecendo no meio da mata onde com certeza irá irrigar as plantações dos moradores do canyon. Um pessegueiro, à margem da estreita estradinha, exibe um solitário cacho de flores rosadas. Lindas. Fotografo, é claro! Embora só subida até Toruña, um ajuntamento de apenas 10 casas, o caminho continua facinho demais. Que dia glorioso! Temperatura de 25º C e céu imaculadamente azul. Vento? Nem sei o que é isso. Chegamos a Llatica, essa sim, uma vilazinha, contando inclusive com igreja e largo onde são realizadas festas em homenagem a virgem padroeira do lugarejo. E eletricidade! Evidenciada nos postes dispostos ao longo da rua principal. Uma rápida parada para comprar água numa venda. Entretanto, a casa está cerrada. Adrián observa que a dona deve ter ido para a lavoura. Pego então água da torneira que, inicialmente, se mostra dum branco opaco, possivelmente, devido a resíduos de calcário. Pouca demora, adquire a tão famosa transparência.  Adrián conta que, quando do boom nos preços do corante obtido dos parasitas nos cactus, a maioria dos adultos jovens foi viver nas cidades. Nessa época, valia 100 dólares o quilo, agora não passa de 30 dólares. Devido à grande quantidade de arbustos e árvores, esta pequena e adorável garganta oferece bem-vindas zonas de sombra. Até Llatica, sem gozação, é escada rolante a trilha. O enrosco começa após atravessar a ponte de cimento que leva ao paredão leste onde há a trilha que conduz a Fure. E nas 2 horas de pernada até esta vila, a moleza definitivamente acabou. Ainda bem que alguns muros de taipa, delimitando as propriedades, lembram as regiões serranas do meu Rio Grande do Sul, despertando lembranças agradáveis que me distraem da dureza que tenho pela frente. Num trecho bem íngreme, enfrento quase uma escalaminhada. Adoro tudo isso, hehehe. Duzentos metros antes de Fure, onde chegamos às 13 horas, outra travessia de ponte, dessa feita, sobre um rio praticamente seco. Dum paredão, medindo cerca de 100 m, despenca uma cascata de águas minguadas. Fure conta também com eletricidade. Gerada, é óbvio, pela energia fluvial. Ficamos numa pousada construída com adobe. Tudo de ruim essa coloração acinzentada de cimento. Nem me apetece sonhar de olhos abertos neste quarto. Num beco da vila, distante algumas dezenas de metros dos dormitórios, está o “restaurante do albergue”. Nada mais que uma mesa com dois longos bancos debaixo dum alpendre, no quintal dos fundos da casa de Doña Nancy, proprietária do estabelecimento. Caprichosa, ela veste a mesa com uma toalha amarela. Em 40 minutos, serve uma sopa de sêmola com ovos, seguida de papalisa ou olluco (espécie de batata) misturada com palillo (semente que moída resulta num tempero tipo colorau) mais uma porção de arroz com bucho de cordeiro. Pra compensar as acomodações sem vestígio algum de charme, a comida é, em disparada, bem mais saborosa que a servida em Llahuar. Após o almoço, vamos até a cascata de Huaruro. A caminhada é basicamente subida mas nada que se compare à que fizemos pela manhã até Fure. Localizada no fundão do canyon, explode, duma fenda estreita cavada na rocha, a impressionante massa líquida ao longo de 170 metros do paredão oeste. À tardinha, quando retornamos ao vilarejo, sinto frio. O desnível de 600 metros em relação à Llahuar - estamos a 2.800 metros - ocasiona uma mudança significativa na temperatura durante a noite. Há ovelhas e uns mandinhos brincando na rua principal. Atendendo a meu pedido, uma guriazinha com a boca pintada de vermelho, posa pruma foto, agarrando uma das peludas. Adrián explica que os jovens quando terminam o primário se mandam pra Cabanaconde, Chivay ou Arequipa, afim de terminar seus estudos. No povoado, só ficam crianças, adultos e velhos. Hoje foi uma caminhada de respeito. De Llahuar a Fure, o Garmim registrou 7 km em 4 horas e 10 minutos; de Fure à cascata (ida e volta), 7 km e 400 m em 3 horas e 15 minutos. Deu pra cansar tanto que dormi tão logo pousei a cabeça no duro travesseiro, logo após a janta. Nem bem 21 horas e eu já aconchegada nos braços de Morfeu.....hehehe.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Simbora caminhar!

Às 4 da manhã passam no hotel e embarco numa van ainda vazia. À medida que recolhe turistas de diversos países, em outros hotéis de Arequipa, vai ficando lotada. Adoro quando o guia explica que se sentirmos vontade de ir al baño basta pedir que o carro parará....na  beira da estrada, hahahaha!!! Durmo bastante e um pouco antes de passarmos pelo ponto mais alto da região, o Passo PataPampa com seus respeitáveis 4.900 m, acordo. Entretanto, não descemos, primeiro porque ainda está aquele lusco-fusco que antecede ao amanhecer (daí não dá pra tirar fotos, né!) e segundo porque está muiiito frio. Adrián aponta três vulcões que se vêem do lado esquerdo da estrada: são Ampato, Sabancaya e Hualcahualca bastante procurados por montanhistas mais experientes (não é o meu caso). Mais adiante, mostra-me o Mismi onde nasce o rio Amazonas. Vulcão aqui é mato! Chegamos às 7 horas a Chivay, capital de Caylloma, uma das oito províncias do departamento de Arequipa. Considerando sua altitude - 3.600 metros - e horário tão matutino, faz frio pra caramba quando descemos pra desaiunar num dos restaurantes da cidade. Nas mesas, caprichosamente postas, cestas com pães frescos, achatadinhos, já que sem fermento. Manteiga, queijo e geleias, aqui chamadas, marmeladas, deliciosas, em especial a de fresa (morango). Simples e saboroso. Até então vínhamos trafegando por uma estrada asfaltada. Alguns quilômetros após Chivay,  o piso vira chão batido e os dois túneis que cortam as montanhas nem revestimento têm. Gosto da sobriedade desta paisagem, diferentíssima da luxuriante vegetação existente em grande porção do território brasileiro. Picos nevados despontam aqui e ali numa cenário cuja coloração é dum verde-pálido. Só estranho em meio à grande quantidade de cactus, planta nativa destes ambientes semi-áridos, a existência de eucaliptos. Árvore exótica que é, provavelmente, deve ter sido trazida pelos conquistadores espanhóis. Nos vales, há pequenos povoados habitados ainda por índios descendentes dos huaris, povo pré-inca.  Seguindo a milenar técnica herdada de seus antepassados, os peruanos, irrigam seus terraços com águas desviadas dos rios para canaletas caprichosamente construídas ao longo das plantações. Este tipo de cultivo obedece ao critério climático: nas encostas das montanhas, cereais, nos vales, hortaliças. No Mirador dos Condores, encontro aquele frenesi tão característico dos points de alta demanda turística: uma multidão de criaturas falando uma babel de línguas e disputando um lugar junto a mureta no intuito de fotografar as imensas aves. Porém os condores não estão hoje para muita exibição, não. Os que dão as caras são jovens e seu tamanho não se encaixa nas impressionantes imagens anunciadas pelas agências turísticas. Da família dos abutres, são chamados, aqui nos Andes, de basureros, ou seja, lixeiros. Graças a esses queridos, tudo que é bicho morto é por eles devorados. Sem corpo morto, podicre, não há fedor! Os filhotes, ao contrário dos seres humanos, adquirem sua independência, aos 3 anos, quando são considerados definitivamente aptos a voar. Longevos, a média de vida destes pássaros chega fácil aos 50 anos. Fico bem contente quando recomeçamos a viagem, estou na ponta dos cascos pra começar meu trek. Por mim dispensava visita nesse lugar tão atrolhado de gente. Enfim, eis-me em Cabanaconde, ponto de partida deste primeiro dia de pernada. Pequeno, o pueblo, situado a 3.200 m, como é tradição nestas terras, conta com uma Plaza de Armas em frente a qual há uma igrejinha branca cuja torre do sino não faz parte do corpo central do edifício. Pausa pruma reflexão. Pensando bem, no Brasil, também temos em cada cidade, seja grande, média ou pequena, uma praça (só não recebe a denominação de Armas) com uma igreja em frente. Deve ser coisa de países imperialistas católicos, como foram Portugal e Espanha à época. Pra compensar a intensa atividade vulcânica, causadora de sismos, ou seja, de tremedeira no solo, há, aleluia, muitas nascentes de águas calientes. Empezamos o trek às 10:30 rumo a Llahuar onde pernoitaremos. Decorrida 1 hora e 30 minutos, já nas entranhas do canyon, começo a visualizar perfeitamente os dois paredões. Amo canyons!! Até porque um dos meus primeiros esportes de aventura foi canyonismo, praticado nas belas gargantas do sul catarinense. No fundão, distingo o brilho do rio, rio este que deságua no Pacífico, distante apenas 200 e poucos quilômetros a oeste. Na sua parte mais profunda, esta colossal garganta de 100 km de extensão atinge 3.600 m de profundidade. Adrian explica que, nas tunas (cactus), habitat das cochonilhas, é extraído um corante usado em alimentos, roupas e maquiagem. Há 20 anos atrás, esse parasita enriqueceu dezenas de famílias que viviam na região; atualmente, com a descoberta de corantes sintéticos, perdeu, entretanto, muito de seu valor econômico. Aprendo ainda que a catuba, um arbusto de pequeno porte, produz, pra se defender dos insetos predadores, uma resina altamente corrosiva. Se inadvertidamente tocada, causa sérias queimaduras. Mais adiante, meu guia aponta uma árvore esguia de galhos finos e desfolhados, de nome pichan, cujo fruto semelha-se à banana. As encostas dos paredões são cheias de trilhas mostrando a intensa atividade entre os vilarejos. Há lugares que não passam dum ajuntamento de 5 ou 6 casas enquanto outros contam com 40 ou 50 residências, mais escola primária e pousadas. Tudo duma simplicidade franciscana, é claro. Batidíssima, pois é rota frequente entre Cabanaconde e vários vilarejos situados no interior do canyon, a trilha não é nada dura, inobstante o desnível atinja a marca de 1.100 m. Contudo, o aparentemente árduo descenso é facilitado, em alguns trechos, por providenciais zigue-zagues. Basta, apenas, certo cuidado com os pedregulhos de modo a evitar escorregões. Só está sendo mais “difícil" por causa do calor excessivo. Também estou preocupada com o baita torrão nos meus braços...herança do pedal de ontem em Arequipa. Tanto que fui obrigada a passar o protetor facial na ausência do corporal, este, invariavelmente, por mim esquecido em viagens. Atravessamos uma ponte de cimento sobre o rio Colca que liga o paredão sudoeste ao nordeste da garganta, caminhando agora por uma estrada. Continuamos cozinhando debaixo do sol esturricante, ingressando, graças a deus, na única zona sombreada do percurso. Pena tenha sido no final do trek porque, pouca demora, chegamos em Llahuar. Meu relógio Garmim, registrou 11 km feitos em 4 horas e 30. Llahuar nem pode ser considerada uma vila, pois não passa duma pousada, pertencente a uma família que há 12 anos resolveu investir no turismo. Com vários chalés e um amplo refeitório construído no topo duma escarpa, as habitações são bem rústicas mesmo: a parte inferior, construída com pedras à semelhança de nossos muros de taipa, enquanto, na superior, utilizaram taquarinhas cujas frestas permitem que, à noite, a luz da lua brilhe no interior dos quartos. Tudo de bom!! De mobília, um colchão de casal disposto num leito de pedras. Como não faz frio à noite, é total a despreocupação com a vedação das casas. Lá embaixo, junto ao rio, três piscinas de águas calientes esperam os turistas e seus fatigados músculos!! Um luxo este lugar!! Sua localização é estratégica, já que se encontra justamente na confluência dos canyones Huaruro e Colca. Sendo o canyon Huaruro, neste ponto, dotado de abundante vegetação, a pousada tem não só uma quantidade abundante de gerâneos avermelhados como outros tipos de plantas que lhe confere um diferencial em relação à seca paisagem no seu entorno. Descubro, então, que o segundo rio que atravessamos se chama Molloco ou Huaruro desaguando no Colca, bem na frente da pousada. Depois da imersão em uma das piscinas de águas cálidas, subo a íngreme escadaria até o restaurante. Quero escrever um pouco sobre meu dia. Vasos de garrafa pet cheio de flores nos banheiros e sobre a grande mesa do refeitório são detalhes requintadamente simples. Ecologicamente correta, a pousada oferece eletricidade oriunda de painéis de energia solar. No bar, uma lousa, iluminada com luzinhas coloridas, anuncia os preços camaradas da happy hour. Não me faço de rogada e peço um pisco sour. Bem feitinho, considerando a falta de gelo. Isso porque a energia elétrica gerada basta somente para lâmpadas, carregadores de máquinas digitais e TV’s, excluindo, porém, o uso de geladeiras. À noite dá uma refrescada. Nada contudo que um casaquinho de tecido leve não resolva. O amplo refeitório, praticamente sem janelas, debruça-se sobre o rio Colca e o murmúrio de suas águas é música aos meus ouvidos. Quando me retiro pro quarto, no céu, completamente limpo, as milhares de estrelas prenunciam o belo dia que será amanhã....podicre!

domingo, 11 de agosto de 2013

Regressando a Ciudad Blanca

Deixo Portinho na madrugada dum sábado chuvoso. Com breve parada em Guarulhos pra troca de aeronave, toca pra Lima onde há mais uma vez outra conexão (oh, não!!). Meu destino? Arequipa, por supuesto! Em Lima, um brevíssimo encontro com Sergio, proprietário duma agência em Huaraz, por mim contratada há um par de anos atrás quando fiz a Cordilheira Huayhuash. Um mês antes da viagem, enviei email, pedindo-lhe que se encarregasse do meu roteiro. Como é comum em todo o Peru, dois cães da Polícia Nacional farejam as bagagens quando desembarco em Arequipa. Pra minha surpresa, no desembarque nem sinal do cara que estaria a minha espera com a tal placa com meu nome. Em sendo assim, não tenho outra alternativa senão pegar um táxi, ordenando ao motora que me conduza ao hotel. Situado na traseira do Monastério Santa Catalina, eis-me hospedada no coração do centro histórico da cidade. Assim que chego, telefono pra Sergio já meio puta da cara. Pouco depois, surge Ivan, dono duma agência na cidade, a quem Sergio, como é usual nesse ramo de negócio, transferira responsabilidade da execução dos passeios. Tentando justificar o injustificável (a ausência de alguém no aeroporto), corto sua  explicação com certa rispidez. Acabamos nos acertando ao cabo de certo tempo, até porque estou de sangue doce e meu espírito belicoso tá de férias também. Como o trekking ao Colca só iniciará na segunda, combino um passeio de bici pro dia seguinte. Pedal domingueiro, em qualquer lugar, é tudo de bom, ainda mais aqui em Arequipa cuja altitude - 2.300 m acima do nível do mar - é o desafio. Ah.....essa Arequipa! Uma pedrinha nas minhas botas que vem de longe magoando um de meus pés. O que aconteceu foi o seguinte: em 2005, estreei no montanhismo, percorrendo, em 4 dias, a famosa trilha até Machu Picchu. Terminada a pernada, o plano era conhecer Arequipa, visitar o canyon Colca, dar uma passadinha em San Pedro do Atacama, terminando a viagem em Santiago, curtindo um bom hotel 4 stars. Dei, entretanto, um baita azar!! Fui premiada com a tal síndrome de piriforme. Pra quem não sabe, trata-se duma inflamação no nervo ciático. As dores são excruciantes. Resultado: minha viagem foi na cama dum hotel em Arequipa onde permaneci durante 8 dias deitada, vendo 24 horas por dia, na TV, programas de culinária peruana, mexicana e chilena. Meu espanhol, diga-se de passagem, melhorou consideravelmente. Entretanto, a dor na bunda e na perna esquerda era tanta que não suportava ficar sentada nenhum minuto. O seguro de saúde só liberou meu retorno ao Brasil quando o médico arequipenho me deu alta. E de 1ª classe, na saudosa Varig, regressei pra casa. Primeira e última vez que usufrui tal benefício. Os anos se passaram, outras viagens realizei, mas a frustração de não ter conhecido Arequipa, como desejara, volta e meia me azucrinava. Não deu outra, este ano, aproveitando 10 dias de férias que ainda me restavam de 2012, resolvi regressar à Ciudad Blanca, como é conhecida a segunda maior cidade peruana, situada ao sul do país. Esta denominação deve-se à coloração clara de muitas de suas igrejas e casas, construídas com pedra de cantaria, aqui conhecidas como sillar. Terminado os acertos burocráticos com Ivan sobre meu tour, trato de dar um pequeno rolê pelas redondezas. Lembro que, em 2005, já sentindo bastante dor, no terraço dum restaurante, situado na encantadora viela entre as calles Santa Catalina e San Francisco, provei pela primeira vez ceviche. Curiosa, gosto sempre de experimentar pratos típicos. Escolho na Plaza de Armas um dos diversos restaurantes que ali se oferecem. Peço, é claro, ceviche misto. De bebida, una copa de pisco sour! Uma decepção o ceviche: moluscos duros e sabendo excessivamente a limão. O pisco? Razoável. Como sou, às vezes, meio-poliana, trato de me consolar curtindo o visual feericamente iluminado que se tem da Catedral e da Plaza de Armas. Os restaurantes, localizados sobre as arcadas dos edifícios que circundam a praça, também exibe profusa iluminação. Impera no quadrilátero um eterno ar natalino! Os arequipenhos curtem, alegres, a noite de sábado, inundando de risos e conversê as ruas. Eu, no entanto, bem mal dormida, acordada desde as 4 da manhã, passando mais de 10 horas espremida numa poltrona da classe econômica, retorno ao hotel vencida pelo cansaço. Durmo com a TV ligada em programas de culinária, por supuesto!


No domingo, acordo assanhada porque o progama é um pedal na cidade. Será um rolê de aproximadamente 20 km, percorrendo alguns distritos – os nossos bairros - emblemáticos da cidade. Conheço, então, o bem cuidado distrito de Selva Alegre e seu parque. Após uma suave subida, deixa-se pra trás o asfalto e segue-se por uma estreita estradinha de  chão  batido até o Mirador de Carmen Alto. Atrolhado de carros e ônibus com turistas, o local oferece uma panorâmica dos vulcões Chachani e Misti. A única coisa boa do lugar é que  não há – graças a deus - a maldita interferência dos fios de eletricidade que sujam a paisagem do centro da cidade. Do Mirador, voltamos ao asfalto e seguimos até o Santuário da Virgem de Chapi, padroeira de Arequipa. Situado no vale de Chilina, às margens do rio Chili, no local, pratica-se rafting e escalada. Turistas e arequipenhos mostram suas habilidades no paredão de arenito cuja maior graduação alcança um desafiante 7B. Em dois botes de borracha, outra leva de turistas pratica rafting no rio que, nessa época do ano, de tímidas chuvas, não ultrapassa o nível 3. Dia supimpa, calor de 23º C, sem nuvem alguma no céu, o que evidencia o gostoso clima seco, tipo semi-árido da região. Com fome – já são 13 horas - peço a Adrian, meu guia, que me leve a uma picanteria onde são preparadas comidas típicas. Dirigimo-nos pois ao distrito de Cayma, pedalando ao longo da larga avenida dividida ao meio por canteiros arborizados. Sinto vontade de cantar a plenos pulmões, tão contente estou! Entramos no Pataccala, restaurante popular, famoso pelos bons preços e fartura de comida. O espaço, embora simples, é simpático e limpo. A garçonete, uma mocinha, risonha e gentil. Sentamos ao ar livre curtindo as esverdeadas águas do rio Chili. Dessa vez, além do Misti e do Chachani, posso apreciar ainda o Pichu Pichu, localizado à direita do Misti. Reza a lenda que este vulcão por ser o guardião de Arequipa é considerado o vulcão mais importante da região embora não seja o maior nem o mais difícil de ascender. Do interior da casa, ouve-se um rádio tocando uma música criolla, interpretada pela tradicionalíssima cantante limenha Carmencita Lara. Particularmente, acho a música peruana bem chata, com muita lamúria sobre desamores e traições. Melhor voltar à comida, que é bem melhor. De entrada, oferecem, em todos os lugares, um potinho com graúdos grãos de milho torrados com um pouco de sal. Peço uma jarra de chicha, uma bebida fermentada do milho cuja coloração é vermelha. Do menu, escolho um Americano, mais PF impossível. Acomodados no prato, rocoto relleno (pimentão recheado com pedaços de carne), pastel de papas (rodelas de batatas dispostas em camadas, cobertas por fatias dequeijo), chancho (porco), cuja pele exibe-se dourada e crocante, e um soltero de cuchicara (cebola roxa, cenouras, abas e fatias finas de porco, temperados com limão. À parte, uma salada de tomates com batatas. Gostosa barbárie de comida, embora pesada, tanto que nem consegui terminá-la tampouco jantar à noite. Retomamos o pedal, dirigindo-nos ao distrito de Janahuara pra conhecer seu famoso Mirador. Exibindo arcos redondos de sillar e, convenientemente situado no topo de uma colina, oferece uma ampla vista da cidade e, claro, a imagem do sempre onipresente vulcão Misti. Em frente à praça, o templo de San Juan Bautista, datado de 1750, cuja frontaria é caprichosamente esculpida, também, em pedra sillar. No regresso ao hotel, pedalamos por um trecho do distrito de São Lazaro, o bairro mais antigo da cidade, com ruas estreitas e vasos de gerâneos pendurados nos muros e peitoris das casas. Adorável meu dia. Embora não tenha tomado banho, dormi de alma lavada....hehe