domingo, 3 de julho de 2016

A Verdadeira Indiada

Há horas tinha vontade de fazer essa pernada de fim de semana pra conhecer uma reserva indígena guarani. Por motivos que não vêm ao caso e os quais até nem lembro mais, não conseguira até então. Sábado, cedinho, reúno-me a um grupo de 16 pessoas com predominância do sexo feminino. Somente 3 são homens! De guias, Edgardo e Dieni, o casal que toca a Rota Sul Adventure (http://www.rotasuladventure.com.br/), agência gaúcha de turismo de aventura. Embarcamos na van, saindo de Portinho às 7:15 da manhã, com breve parada em Santo Antonio da Patrulha, famosa pelos sonhos e fabricação de cachaça (tão pura que chega a ser azulada, segundo os nativos). Numa padoca, enchemos o pandulho pra enfrentar a pernada. Contudo não é de Santo Antonio que parte o passeio. Por isso rodamos mais um tantinho de kms até chegar a Caraá, uma daquelas cidades que, na febre das emancipações, passou de distrito de Santo Antonio a município, oferecendo não mais que uma rua principal e pouco mais de 7 mil almas. A caminhada tem início às 10 horas, cruzando, inicialmente, uma bamboleante ponte de arame sobre o rio dos Sinos, logo embicando num estradão de chão batido. Decorrida 1 hora de caminhada, Dieni chama minha atenção prum cemitério em cujo original pórtico de madeira foi agregada uma pequena casinha, provavelmente pra servir de moradia ao coveiro. É claro que fotografo, sou louca por cemitérios embora não queira ser enterrada e sim cremada. Até então plano, o relevo passa a mostrar suas garrinhas na forma dumas compridas lombas. Em ambos os lados da estrada há bergamoteiras vergadas de frutas. Colhemos algumas e as provamos. Deliciosas e sumarentas estão as frutas. Enquanto subimos uma das tantas ladeiras, Di e eu aprendemos, com a psicanalista Rita, uma memorável aula da visão lacaniana a respeito de desejo, gozo e pulsão. Após 2 horas de caminhada, ainda em Caraá, paramos na frente duma igrejinha azul e branca prum belisquete. A partir daí, a pernada é numa trilha por onde só motos ou 4x4 conseguem trafegar. O restante da caminhada, em torno de 1 hora e 30 minutos, já no distrito de Barro Branco, município de Riozinho, é marcada por fortes subidas num terreno super irregular. O que compensa é desfrutar do frescor da verdejante mata atlântica que ameniza os 28º C dum veranico intempestivo em pleno inverno. Num claro de floresta, avista-se um dos muitos vales que separam as dezenas de serranias da região. Uma pena termos de sair da trilha e voltar a caminhar noutro estradão. O bom é que, pouca demora, às 14 horas, cá estamos na Pousada Nhum Porã (Campo Bonito, em guarani). Somos recebidos pelo dono, Paulo Fernando, há mais de 10 anos auxiliando os guaranis que vivem nos arredores. A pousada é um grande galpão de madeira cujos quartos exibem portas à semelhança de baias de cavalos. No meio da ampla peça, uma baita lareira indica que se esfriar podemos contar com o conforto dum belo fogo. Apesar de rústico, o espaçoso cômodo, super acolhedor, arranca entusiasmados elogios do grupo. São servidos cachorros quentes, sucos e refrigerantes pra repor as energias consumidas em nem tão longa porém exigente caminhada devido à predominância de ardidas subidas. Terminado o almoço, vou com Arianne, Zé, Cris e Debora até o topo duma colina donde se avista parte do litoral cujos destaques são Tramandaí e as torres eólicas de Osorio. E ali permanecemos um tempinho curtindo a verde paisagem pespontada por picos de formatos variados: desde os bem pontudos, passando pelos femininamente arredondados até os desgraciosamente achatados. Tracejam o céu finas nuvens que quebram assim sua azulada monocromia. E ficamos de papo, uns dentro da casa, outros ao ar livre. É difícil dar conta de tanta gente. Adoraria participar de todas as rodinhas de conversas que se formam mas é impossível porque infelizmente não tenho o dom da ubiquidade. Às 17 horas, todos se mobilizam rumo ao morrão a fim de assistir ao pôr do sol. O sentimento de confraternização com a natureza torna as mentes, agradavelmente relaxadas, rolando uma energia gostosa entre nós. Na beira do penhasco, temos a frente uma encosta de serra e a magnífica cachoeira da Linha 7. Às 17:30, o espetáculo do sol poente tem ínicio. Momento encantador assistir à bola de fogo se esconder atrás das serras deixando um rastro de tonalidades alaranjadas sobrepostas umas as outras. Uma salva de palmas em louvor à natureza cala momentaneamente a animada conversação. Já na pousada, proclamo a abertura da hora do angelus. Em bom português, a empolada expressão nada mais é do que “gente, estão abertos os trabalhos, vamos ao tragoléu”. Garrafas de vinho são desarrolhadas, amendoins e pipoca quentinha são servidos de aperitivo. Tudo de bom esse happy hour rural!! Pra culminar o festerê, na janta, o prato principal são 3 travessas de lasanha mais salada de alface, tomate, beterraba e cenoura cruas raladas. Durmo na sala, deitada em rede ao lado da lareira. O único senão é o ronco poderoso do Ed....deus que me perdoe, mas que vontade de arrolhar aquela “boquinha”. Sorte dele que não sou psicopata!

Dia seguinte, graças a deus, não fico isolada na crítica aos roncos emitidos pela escandalosa garganta do Ed. Alguns companheiros também fazem coro aos meus reclamos......hahaha......toma, Mau Ed!! Terminado o café, nos despedimos de Paulo Fernando, um cara super zen, e às 10 horas pegamos um estradão de chão batido. Cacau e outro cachorrinho nos acompanham correndo faceiros a nossa frente. Volta e meia param e nos esperam sentados no meio da estrada. Graças a deus deixamos o estradão pra entrar em uma picada aberta na mata atlântica percorrendo 6 km em terreno fácil até à reserva indígena Mbyá. Bom Ed entra na aldeia e pede permissão ao cacique José. Eu que aprendera com Paulo Fernando duas frases em guarani, diante do afável índio, bem exibida, lasco “araporã (dia bonito)...jaudio (bom dia)”, no que sou corrigida por Jose quanto à pronúncia desta palavra. Imediatamente sou abraçada por sua filha que fala algo em guarani. Quando ela traduz a pergunta, que significa se estou bem, mais uma vez me abraça efusivamente quando respondo sim. Permissão dada, filmo e fotografo porém com moderação. Povoam a pequena aldeia cerca de 40 pessoas e as casas só lembram ocas pelo telhado coberto com fibras de palmeira. Artesanatos feitos da casca da imbira estão à venda. A maioria das pessoas, é claro, compra um ou mais itens. Um tal de cachorro, chamado Guri, de tanto incomodar, latindo e pulando em cima das pessoas, é preso numa casinha. Do lado de fora, um outro dogue fica, segundo interpretação de Jo, consolando-o....hahaha, essa é boa! Uma índia, fanática gremista, informa que o grenal está 1x0 pro Grêmio.....ebaaaa!!!! Percebo que este trek é a verdadeira indiada, tá ligado? Despedimo-nos dos índios e continuamos ao longo da mesma trilha na mata atlântica durante 3 horas e 30 minutos, alternando subidas e descidas suaves até alcançarmos um lindo lago. Sob um frondoso pinheiro, nos acomodamos e descansamos um pouco após beliscar algo. O dia está tão lindo quanto ontem e o calor ainda que atinja 28º C é suportável. Do lago em diante, mais 2 horas e 30 minutos numa trilha ladeira abaixo que se estreita à medida que vamos perdendo altitude. Os 45 minutos finais exigem atenção constante porque a descida, num terreno crivado de pedras, muitas delas resvaladiças pra caramba, é mega íngreme. Após um desnível de 900 metros desde a pousada, chegamos em Linha Pinheiro, Barra do Ouro, distrito de Maquiné às 16:00, suados, cansados pero mui felizes. O dia termina com uma festiva celebração no restaurante de Dodô, no morro da Borussia, em Osorio, comendo gigantescos pastéis e brindando com a indefectível cervejinha.....tintim e até a próxima!!