quinta-feira, 4 de maio de 2017

Conhecendo a selva nepalesa

01/05/2017 a 04/05/2017 – 2ª a 5ª feira - Chitwan
Curiosa por conhecer um Nepal pouco frequentado por montanhistas, galera que só quer saber de subir e descer montanhas, resolvo desfrutar os poucos dias que ainda tenho no Nepal, não em Pokhara. Por isso, me mando pro sul do país, pra Chitwan, distante 150 km. Dou adeus à adorável Pokhara e lá vou eu sacolejando 7 horas num daqueles desconfortáveis busões nepaleses, sem toalete, tudo pra visitar o Parque Nacional Chitwan. Considerado o mais antigo do Nepal, ocupa 932 km² de área e sua vegetação, tropical e subtropical, entremeia savanas e florestas. A jungle como eles dizem não se parece nem com nossa mata atlântica tampouco com a amazônica. Reduto de fauna e flora riquíssimas destacam-se 600 espécies de aves, macacos, 5 tipos de veados, crocodilos, rinocerontes, leopardos, tigres de bengala e elefantes. O clima nesta época do ano, primavera, é quente e úmido. Pago pelo pacote de 4 dias, com hotel, refeições, passeios e traslado Pokhara-Chitwan-Kathmandu 150 dólares. Acho o preço justo e o hotel embora nada luxuoso é confortável: meu quarto amplo com ar condicionado, tv de plasma e banheiro privativo, tem um lindo mosquiteiro cor de rosa sobre a cama. Entro pela parte leste do parque onde, à beira do rio Rapti, situa-se a vila de Sauraha cuja etnia local é a tharu. Apesar de suas águas cálidas e rasas, o Rapti não é confiável para banho devido aos crocodilos que vivem em suas margens, imóveis, se confundindo com a lama. Eu adoro essa incursão na selva nepalesa, porque até então só conhecia a região do Himalaia. Óbvio que não cai no meu gosto o tal safari num jeep com outros turistas. As 4 horas sacolejando no desconfortável veículo na tentativa de avistar animais são cansativas, e afora bandos assustadiços de veados tipo bambi, alguns macacos guinchando nos galhos das árvores e 3 rinocerontes, tudo meio encoberto ora pelo alto capim ora pelos galhos das árvores, nada mais excitante como um tigre de bengala (eu queria tanto ver esse gatão!) cruza nosso caminho. Já a pernada no meio da floresta, com todos em silêncio, de biquinho calado pra não afugentar os animais, curto bastante. Uma delícia também, no final da tarde, o passeio de canoa no rio cujas plantas aquáticas floridas colorem de lilás a superfície da água. Atrás das colinas de Someshwar, o sol se põe preguiçosamente deixando um rastro violáceo no horizonte. E um cheiro bom de erva-doce paira no ar exalado pela vegetação. Contudo, o ponto alto dos meus 3 dias em Sauraha, o fecho de ouro da minha estadia no Nepal é o passeio que faço no lombo do elefante levado por seu mahaut (treinador e cuidador) seguido dum banho no rio. Bem refestelada no dorso do paquiderme, ele, a uma ordem do mahaut, enche a tromba de água e a borrifa sobre mim. Dou gritinhos de pura felicidade, tal qual uma criança deslumbrada. Mas não pára por aí o prazer proporcionado por esse meigo animal. O modo como ele olha pra mim é impressionante: o pequeno olho ornado por ralos e longos cílios me encara, me inspeciona, profundamente, como se quisesse gravar minha fisionomia forever em sua retina!! Comprovo, assim, pessoalmente, a incrível capacidade de armazenar informações dos elefantes pela mirada raio-x com que fui agraciada. Agora, tenho a certeza de que ele sempre se lembrará de mim! Como eu dele! Namaste Nepal!! Danebad por tudo!!

sábado, 29 de abril de 2017

Casamento Hindu

25/04/2017 a 30/04/2017 – Terça-feira a Domingo - Pokhara
Pokhara, capital da região oeste do Nepal e a 200 km de Kathmandu, é a terceira cidade mais populosa do país, com mais ou menos 400.000 habitantes. Tem um próspero parque industrial fora da vista dos turistas que se aglomeram nas áreas turísticas de Damside e Lakeside onde há restaurantes, lojas e hotéis pra todos os gostos e bolsos. Retorno à Guest House North Star, porque gostei do ambiente familiar, em especial de Namrata e Mina, respectivamente, cunhada e mulher de Narayan, dono da pousada e da Trek Around Nepal, agência responsável pelos meus 2 treks. O preço convidativo de 10 dólares também influi na escolha. Dessa vez, Mina me acomoda numa suíte com dormitório, sala, cozinha e banheiro. Embora pertíssimo das agitadas ruas do Lakeside, a pousada fica numa tranquila rua, longe da zueira. Pra meu delírio, Mina me convida no meu último dia na cidade pra um autêntico casamento hindu duns amigos dela. A cerimônia religiosa dura 4 horas e eu enlouquecidamente fotografo e filmo tudo!! Pokhara tem temperatura agradabilíssima, calor durante o dia e, à noite, uma bem-vinda friagem por estar situada a 800 metros acima do nível do mar. Durante os 5 dias em que permaneço nesta agradável cidade cujos ares de balneário se devem a sua preciosa localização à beira do lago Fewa, estabeleço certos hábitos. Desfruto meu desjejum num café diante do lago em companhia de Silvia, a italiana que conhecera durante o trek do Everest, e Richard, um americano de ½ idade, aproveitando o dolce far niente dos aposentados. Lá permaneço o resto da manhã jogando conversa fora e curtindo o movimento dos nepaleses que passam de lá pra cá e de cá pra lá. Destacam-se entre os colegiais uniformizados, os cabelos das meninas caprichosamente trançados e enfeitados com laçarotes de fita branca, o insistente vendedor de côco em fatias, as vendedoras de verduras carregando a mercadoria em cestos de palhas às costas, duas tibetanas sempre sorridentes oferecendo bijuterias que tiram das mochilas, mulheres com saris coloridos empunhando sombrinhas pra se protegerem do sol, enfim, um mundaréu de gente que caminha na avenida à beira do lago, e como não poderia deixar de ser, cachorros e vacas desfilam também diante de meus olhos encantados com tanto exotismo. Foram dias de céu limpo, sem vento, salvo dois dias de rápidas e fortes chuvas antecedidas por nervosas ventanias. No lago, barcos movidos a remo e a motor transportam não só turistas como nepaleses dum ponto a outro da cidade. Paraglidings colorem o céu balançando ao sabor das térmicas sobre o lago Fewa. Mulheres lavam roupa à beira do lago ao lado de homens que pescam. Não vejo nenhuma mulher dirigindo carro, mas em compensação são umas divas manejando suas scooters pelas ruas de Pokhara. Vontade deu de pedir pra dar uma banda com uma delas! Descubro a rua das bancas de frutas e de grelhados e lá me esbaldo, comprando suculentas mangas e maçãs além das deliciosas uvas sem sementes. Me torno fã de tandoori chicken acompanhada de espetinho de batatas assadas, levemente crocantes por fora. As comidas nepalesas são um capítulo à parte. Provo jery (doce frito feito com farinha de trigo) mas acho sem graça, adoro o panipuri (crocante casquinha de trigo recheada com pedacinhos de batata), mas não arrisco no patota chup (bolinho de batata empanado com farinha de trigo) porque não posso alimentar em demasia meu colesterol, contudo o chat (bolo salgado feito com feijão branco e batatas acompanhado de fatias de cebola, tempero verde, açúcar e mel) aprovo porque bem mais saudável. Embora fritura, não há como resistir à samoza (pastel cuja massa é feita com farinha de trigo e recheado com batata) que vai bem com uma cerva geladinha. E claro me esbaldo nos momos (trouxinha de farinha de trigo que pode ser frita ou no vapor, recheada com verduras ou galinha) que molho naquele picante molho de pimenta. À noite, as águas do lago refletem as luzes verdes, amarelas e vermelhas que enfeitam muitas das residências cujo estilo é pra lá de cafona, com colunas imitando troncos de árvores. Passear pelas ruas tanto de dia quanto à noite é uma tranquilidade. O máximo de assédio se manifesta na curiosidade de alguns nepaleses perguntando o inevitável "where are you from". Quando sabem, contentes com seu conhecimento sobre o Brasil, exclamam "football, Ronaldo, Pelé" e por aí vão citando nomes de jogadores que nem eu conheço. Uma cidade que exibe num restaurante a inscrição “being happy is a habit. Choice is yours!” só pode proporcionar bem estar, não é mesmo?

terça-feira, 25 de abril de 2017

Um Jardim Nepalês

23/04/2017 a 25/-4/2017 – Domingo a Terça-feira – 9º ao 11º Dia de Trek Annapurna BC – Jhinudanda – Landruk – Pothana – Kande - Pokhara
Saímos às 7:30 de Jhinudanda com tempo nublado que assim permanece até a Tibete Guest House, em New Bridge onde paramos prum chá. Viciada na combinação de limão com gengibre, peço esta deliciosa mistura. Como estamos retornando pelo mesmo caminho não há novidades ao longo da trilha. Minha atenção se prende então a pequenos detalhes: duas cascatas e densíssimas touceiras de samambaias em ambos os lados da trilha já que na ida nossa visão é monopolizada pela visão frontal dos monumentais Annapurna South e Hiunchuli. Um rebanho de cabras – como são lindos esses animalitos!! - descansa no gramado rente à estradinha enquanto os pastores, numa barraca improvisada com lona, comem algo. A pernada não dura nem 3 horas porque às 11 já estamos na pousada, em Landruk. Sua dona é alegre, rechonchuda e comunicativa ao contrário do marido, homem de poucas falas. Percebo que ela é hindu e casada pelo ponto vermelho pintado no meio de sua testa. Ela mesma prepara as refeições dos hóspedes e seu dal bhat acompanhado por 2 tipos de verduras, batata ao curry e casquinha feita com trigo é muito gostoso, talvez o melhor de toda a minha estadia no Nepal. Produtora de raksi, ela faz questão de mostrar seu alambique, explicando orgulhosamente todo o processo de fabricação. O tempo continua nublado e chuvisca vez por outra. No lado de lá do rio diversas vilas, uma delas com um monastério budista, espalham-se pelo flanco da montanha. A então fina garoa que caia, mansa e timidamente, vira chuva da grossa e pouca demora a espessa cerração encoberta toda a paisagem. O tamborilar da chuva no telhado de zinco ora mais pesado ora mais leve, o movimento de vai e vem dos galhos das árvores denunciando a força do vento, faz com que eu me congratule por estar abrigadinha neste lodge tão simples quanto acolhedor e não na trilha enfrentando tal intempérie. Assim como veio, a chuva e a cerração somem, como num passe de mágica. Restam apenas nuvens pairando em meio às encostas. Saio do refeitório onde estava até então, protegida do mau tempo, e começo a curtir o lindo jardim da pousada. Na frente da longa varanda onde os quartos estão voltados, vasos rentes ao chão e outros pendendo de ganchos do teto contêm variedade de flores de encher os olhos. Algumas existem no Brasil como cravinas, gerânios, brincos de princesa e begônias. Outras, entretanto, nunca vira antes. Os nepaleses adoram flores motivo por que é muito raro as casas não terem vasos de flores diante de suas fachadas. Convido Bishow pruma rodada de raksi e Nurbu pra comer pipocas. Meu adorável guia, que exala pura gentileza, liga o rádio do celular numa estação de música nepalesa. A melodia da canção e as luzes acesas das casas na vila de Syauli iluminam a encosta em frente como se fosse uma gigantesca árvore de natal. Putz, bom demais estar aqui!! Vontade de largar tudo e morar no Nepal! Os dois últimos dias do trek, pra ser sincera, não deixaram muita impressão nesta senhorinha. A um porque a paisagem espetacular vislumbrada, em especial, de dentro do canyon do rio Modi ficara pra trás, só restando agora os sensacionais contornos de South Anna e Hiunchuli, localizados não mais diante de nós porém na nossa retaguarda; a dois, porque fim de viagem retornando por lugares já conhecidos não surpreende mais pelo ineditismo. Por mim, teria abreviado o trek em um dia, retornando direto de Landruk a Pokhara considerando o baixo nível de dificuldade da trilha que poderia ser feita em tranquilas 6 horas. Entretanto, pernoitamos em Pothana e de lá descemos a Kande, retornando a Pokhara onde permaneci deliciosos 5 dias, mas sobre isso discorrerei em nova postagem. Se me perguntarem qual trek é o mais lindo, respondo: ambos são belíssimos, contudo do que mais gostei, sem hesitação, digo, foi este, o do Annapurna. Por quê? Devido à variedade de paisagens que vai da exuberância das florestas subtropicais à gelidez nevada das altas montanhas. Hasta la vista montanhas, me aguardem, voltarei, com certeza!!

sábado, 22 de abril de 2017

Duelo nas termas

21/04/2017 – Sexta-feira – 7º Dia de Trek Annapurna BC - Anna BC a Bamboo
O termômetro marca -1ºC às 6 horas quando acordo. O céu está azulzinho quando deixamos Anna BC às 6 e 40. Ao ver, caminhando no sentido contrário, um rapaz – descubro ser búlgaro - de cabelo pintado de amarelo, vestindo gorro, jaqueta e botas da mesma cor, não resisto e peço pra filmá-lo. Estilo é tudo! Fazemos em uma hora o percurso do Anna BC ao Macha BC e como estava tudo nublado quando vim pra cá há 2 dias, estou encantada não só de volver ao canyon – adoro canyons, prova disso minhas práticas de canionismo todos os fins de semana durante 3 anos – como admirar sua parte inicial sem cerração, visível à luz do sol. Exatamente, aqui, no acampamento-base do Machapuchare, o canyon do rio Modi tem seu início ou término, como queiram. Como descer, via de regra é bem menos custoso do que subir, estamos agora baixando, o que é deveras buenacho porque aquela sequência torturante de degraus que enfrentei na ida é o que os coitados dos turistas encaram neste momento enquanto cruzam por mim. Claro está que não chega nem perto do trek do Eve BC, mesmo assim a quantidade de gente impressiona ao longo da trilha. Dá pra perceber quem está cansado do ascenso pelo jeito com que se apoiam nos bastões. Um rapaz em particular chama minha atenção. Bem jovem, sentado num dos degraus de pedra, cabeça inclinada um pouco pra trás, queixo levemente erguido, com as mãos pousadas no bastão de trek, ele aproveita seu descanso e contempla embevecido a paisagem grandiosa do canyon. Às 10 quando paramos em Deurali para um chá, percebo nuvens vindas do sul adentrando a garganta. Às 11, quando chegamos em Himalaya Hotel onde almoçamos, a névoa já praticamente tomou conta do canyon, baixando bastante a temperatura mas não de forma agressiva, deve estar fazendo uns 13ºC. De Himalaia a Bamboo uma hora de descida na luxuriante floresta. Tão sortuda sou que vejo diversos langures, os lindos macacos de barba branca que habitam estas plagas. Eles não se aproximam mas ficam parados olhando curiosos pra mim. A menor tentativa de aproximação, eles fogem rapidinho, se embrenhando no mato. Quando chego em Bamboo às 14:00, a espessa cerração virou garoa. O dono do lodge parece um macaco babuíno. Gordo e baixo é o próprio macho alfa. Domina a conversa falando alto e, durante bom tempo, não dá espaço pra mais ninguém. Bishow quando pergunto o que falam com tanto entusiasmo, responde que discutem política, já que haverá eleições em algumas semanas. Quando fico sabendo da existência da tradicional aguardente feita de painço – raksi -, resolvo prová-la, por óbvio! Bishow explica que pode ser feita com arroz, porém raksi de milho, frisa ele, é bem melhor. Convido guia e porter pra me acompanharem e peço pipocas pra nossa happy hour. Nurbu recusa a bebida porque desde que entornou uma garrafa inteira de raksi não suporta mais bebidas alcoólicas mas a pipoca ele aceita. Durante a janta, um alemão conta que devido ao mal de atitude durante o trek do Everest BC não pode terminá-lo. Bah, sou abençoada por não ser dada a este tipo de doença. Só um dia não tive apetite e o máximo que senti foi dor de cabeça durante 3 dias ao longo do trek ao Eve BC.


22/04/2017 – Sábado – 8º Dia de Trek Anna BC – Bamboo a Jhinnudanda
Bamboo está praticamente à beira do canyon enclausurada na floresta motivo por que é tão úmida. Por isso, deixo sem saudades a vila às 7 e 10. Um dogue peludão, lindo, me acompanha até Sinuwa onde se encontra com seu filhote. Os dogues de montanha são um capítulo à parte: embora dóceis são pra lá de independentes. Não ladram pras pessoas, só entre eles quando há invasão de território. Daí é uma algazarra tribarulhenta, valha-me deus, até que o cachorro invasor seja expulso. Mesmo com o tempo nublado, o trecho entre Bamboo e Sinuwa continua encantador, lindamente decorado pela vibrante floração avermelhada dos rododendros. É uma floresta de conto de fadas, só faltam os gnomos e duendes saltando de folha em folha. Como sempre, paramos pra beber chá em Sinuwa. Peço o meu de limão com gengibre. Afora 2 subidas fortes, uma ao sair de Bamboo e outra, um pouco antes de chegar em Chomrong, o resto é íngreme descida até Jhinnudanda onde chegamos às 13 e 20. E lá vou eu com Bishow e Nurbu à hotspring, uma descida de 20 minutos, em meio a um belo bosque, até à margem direita do rio Modi onde há 2 piscinas de águas termais e 3 canos que servem de chuveiros. Há 8 dias sem tomar banho não só eu como todos que estão lá, os chuveiros são disputadíssimos (tem de se banhar neles antes de entrar nas piscinas). Tenho de defender meu banho, declarando em alto e bom som “let me take my shower in peace, I am too dirty, I am stinky.” Foi o que bastou pra galera não tentar ganhar meu chuveiro na mão grande, embora tenha escutado algumas risadinhas masculinas durante minha breve e veemente declaração. Agora 17 horas, limpinha, cheirosinha, com os pés pra cima, curto o final de tarde no terraço do lodge donde se descortina o canyon e a vila de Rambuk na encosta em frente. Daqui a pouco, é hora do ângelus, ou seja, happy hour. Pra tanto vou convidar meu parceiro de libação alcoólica, Bishow que gosta tanto duma pinga quanto eu pruma dose de raksi . E Nurbu pra compartir conosco as pipocas! Melhor que isso só 2 doses de raksi uhuuu!!

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Anfiteatro Rochoso

19/04/2017 – Quarta-feira – 5º Dia de Trek Annapurna BC – Macha BC a Anna BC
Acordo super cedo, por volta das 5 e depois de lavar rosto e escovar dentes me ponho a fotografar a linda paisagem ao redor. Como um poderoso refletor, o sol imprime à superfície nevada do Annapurna South uma viva coloração amarelada, ao passo que, nas sombras, do singular formato de cauda de peixe do Machapuchare resta apenas uma vulgar aparência triangular. E já tem gente indo às 5:30 pro acampamento-base do Annapurna. São aqueles que farão um bate-volta, preferindo pousar em Deurali, Himalaya ou Dovan. Saímos às 7 de Machapuchare rumo ao Anna BC caminhando ora pelo campo de neve ora por trechos de terra livres de gelo. Diante de mim, Annapurna South, gigantesco, mais parece um 8 mil. Um colar fino de nuvens envolve seu flanco oeste. A temperatura amena dispensa o uso da jaqueta de plumas, bastam camiseta e pulôver de fleece mais um par de luvas. Encontro as duas queridas chinesas caminhando a nossa frente. Como sempre tiram fotos uma da outra tendo como pano de fundo Anna South. Saúdo-as efusivamente e daí por diante a pernada vira uma alegre gandaia. Até filmezinho a magrinha faz comigo, fingindo que me fuzila com uma metralhadora (pra encarnar o papel, ela deve ter mentalizado que sou uma dissidente do camarada Mao). Quando caio na neve fingindo de morta, as duas vibram tanto que fazem eu repetir a cena pra filmar uma segunda vez. Às 8 horas baixa uma cerração. Da fúria do rio Modi no interior do canyon o que se vê agora é um manso córrego que vai abrindo seu caminho ao longo e sob a geleira. Tufos de capim amarelo crescem no terreno sem neve, intercalados por pequenos buquês de gencianas! E joaninhas, muitas joaninhas sobre a neve!! Isso a 4.000 metros!!! Os 430 metros de desnível entre o Macha BC e o Anna BC foi a subida mais fácil de todas, tanto que fiz com um pé nas costas, hehehe!! Quando atingimos os 4.130 metros, às 9 e 20, onde está construído o acampamento-base do Anna, o céu está limpo, sem vestígio de cerração. Fazemos um lanche ao ar livre oferecido pelas queridas chinesas pra comemorar o niver da gordinha: deliciosos snacks (tofu e um tipo de figo seco) from China! Lá pelas 10 e 30, quando as amiguinhas já tinham se mandado, baixa uma bruma cerradíssima. Como um passe de mágica, lá pelo ½ dia, clareia de novo e o sol mostra a cara. Contudo pras bandas de Machapuchare tá tudo nubladíssimo, não se avistando nenhuma daquelas montanhas situadas a leste. Aqui no Anna BC é difícil encontrar quartos porque na alta temporada os 5 lodges com 6 dormitórios cada não dão conta da demanda. Num deles, o dono nos disse que só poderia oferecer barracas. Acabamos conseguindo um lodge cujo único quarto vago é ao lado da cozinha. Acho muito tri o dormitório porque pra alcançá-lo tenho de atravessar a cozinha curtindo todo aquele bulício dos rapazes preparando as refeições. O quarto com 3 camas será compartilhado com um irlandês de Dublin, Adrian, com quem converso rapidamente. Bishow e Nurbu, como os demais guias e porters, dormirão nos bancos do refeitório. Pensando ser trovões o barulhão que escutei há pouco descubro serem avalanches de neve. A cerração que se concentrava pros lados do Machapuchare veio pra cá e escondeu a esplêndida paisagem circundante. Sem condições de dar um rolê no exterior porque venta e chove bastante, fico no refeitório deitada num dos confortáveis bancos estofados que rodeiam o amplo salão. E são apenas 14 horas!! Muito tempo pela frente até a hora de dormir. E dale a chegar gente, a maioria jovens que estão nem aí pra chuva que enfrentaram na trilha e continua a cair. Sucede-se ao chuvaral uma vigorosa queda de neve que só termina no final da tarde. Novamente, a paisagem ressurge com os picos mais brancos que nunca. Muitos hóspedes deixam o refeitório e vão pra fora curtir o belo cenário, inclusive uma mulher com aquele tipo de risada aguda que perfura os tímpanos. Meu deus, como sou perseguida por esse tipo de gente com risadas de galpão!! João Gilberto, o grande músico e cantor da MPB, não me acharia ranzinza, com certeza!! Até que nem faz tanto frio às 18 e 30 quando vou dar uma espiada no termômetro colocado no lado externo do lodge. 4º C já senti várias vezes na minha terra natal, o Rio Grande do Sul! Isso nem faz o cusco renguear de frio!!


20/04/2017 – Quinta-feira – 6º Dia de Trek Annapurna BC - Annapurna BC
O acampamento-base do Annapurna localiza-se no interior dum colossal anfiteatro montanhoso pertencente ao maciço do Annapurna. Com 55 km de comprimento, compreende um pico de 8 mil, 13 acima de 7 mil, e 16 acima de 6 mil. Assim, aqui no ABC temos uma amostra da grandeza desta cadeia de montanhas: a oeste, Hiunchuli (6.441 metros) e Annapurna South (7.219 metros); a noroeste, Bharha Chuli; ao norte, a vasta parede da face sul do Annapurna I (8.091 metros); já a leste, Ganga Purna (7.455 metros), Annapurna III (7.555 metros), Gandarba Chuli (6.248 metros) e Machapuchare (6.993 metros). É de tirar o fôlego. Fica-se girando enlouquecidamente 360º sem parar! Manhã brilhante e céu límpido permitem uma baita visibilidade deste complexo rochoso. Imperativo, entretanto, acordar cedo pra flagrar os primeiros raios solares dourarem as encostas nevadas do Anna South, Bharha Shirkha e Anna I porque tal show da natureza dura rapidinho. Assim, às 5 e 30 da manhã, os turistas já estão de pé, admirando o belíssimo espetáculo. Uns espanhóis ao meu lado tiram sarro do parceiro que não conseguiu levantar a tempo. O cara, sem se abalar, responde que curtirá o espetáculo olhando as fotos tiradas pelos amigos, hehe. Hoje tiramos o dia pra descansar. A pousada, até então lotada, esvazia-se após o desjejum, restando somente eu e Flavio de hóspedes. Doente desde ontem, com diarreia e vômitos, o cara tá malecho. Provavelmente rebote do mal de altitude. Mas ele jura que foi da comida apimentada. Medico-o com os remédios que tenho na minha pequena farmácia. Ele não trouxe nada a não ser aspirina. Oxalá dê certo! Os lodges do Anna BC estão localizados ao lado da grande borda direita da moraina do glaciar. Subindo até sua crista dá pra ver a geleira fluindo como um rio de pedra. Como a maioria dos glaciares himalaios, é coberto por espessa camada de pedras e cascalho na sua parte mais baixa e plana. Se não se sabe, de antemão, que é um glaciar se pensa que é um amontoado de areia e pedras porque quase nada se vê do gelo sob os detritos. Eu e Bishow subimos até a cumeeira da moraina pra fotografar a stupa erigida diante do Anna I em homenagem a Boukreev e Iñaki Ochoa que morreram escalando-o. Prosseguimos caminhamos ao longo da moraina onde mais stupas homenageiam outros montanhistas que pereceram tentando escalá-lo. Super dada a avalanches, a face sul do Anna I vem a ser, entre os 8 mil, um dos picos mais perigosos de se escalar. O tempo permanece bom até umas 10 horas quando nuvens vindas do canyon do rio Modi começam a abraçar o Machapuchare. Um fenômeno interessantíssimo assistir à espessa formação gasosa envolver em câmara lenta todas as montanhas da banda leste, como se fosse uma avalanche horizontal. Ao ½ dia a cerração se apodera também do acampamento-base do Anna. Eu me distraio observando dois empregados do nosso lodge, que têm pranchas de snow board, deslizarem pela encosta da colina em frente à pousada. E a temperatura até que está amena: 5ºC às 16 horas. No meio da tarde, chega um grupo grande de sul coreanos de ½ idade que quebra meu tedioso dolce far niente. Como aperitivo, antes da janta, comem peixinhos secos. Um dos coroas serve aos parceiros doses de bebida alcoólica cuja cor é a mesma da nossa cachaça. Não resisto e peço pra provar o peixe, bem saboroso. Já a bebida não me animo em pedir, desconhecendo assim seu sabor....que pena. Eles se tratam muito bem! Trouxeram cozinheiro que prepara comida coreana pra eles. A mesa, coberta de diversos pratinhos, parece ser muito apetitosa! Se eu fosse cara de pau, tinha mais é me escalado pra comer com eles, porém, nesta encarnação, infelizmente, nasci um ser tímido. 

terça-feira, 18 de abril de 2017

A lição de parceria das gurias chinesas

Nem bem 6 da matina, já estou levantada e no terraço a fotografar e filmar Machapuchare e seus dois cumes cujo formato é uma perfeita cauda de peixe. A lua ainda presente no céu exibe parcial brancura já que está decrescendo. E o barulhão da cachoeira caindo no leito do rio é ensurdecedor. Frio e sem nuvens no céu embora o sol só vá aparecer em torno das 9 horas. Experimento o pão gurung cuja textura de massa e sabor levemente adocicado lembra a guloseima gaúcha cueca virada. As duas chinesas, que comem no breakfast massa e arroz frito com vegetais, repartem entre si os pratos. Contam que são amigas desde a infância. Tá explicada tanta intimidade e parceria. Saímos de Dovan super cedo, às 7 horas, atravessando florestas com extensos bambuzais e pontes rústicas feitas de troncos de árvores sobre pequenos rios. Entre Himalaya Hotel, onde há 2 lodges, e Deurali, impossível passar despercebida a gruta, conhecida como Hinku Cave. No passado, essa baita reentrância rochosa protegida por um largo teto serviu de abrigo aos porters que trabalharam nas primeiras expedições nesta área. Atravesso um pequeno campo de gelo oriundo das avalanches de neve que forram os picos localizados acima do canyon. Com cuidado, piso no chão congelado porque é fácil demais escorregar nele. E há que passar o mais rápido possível, de preferência em silêncio, pois o risco de novas avalanches é iminente nesta época do ano em virtude da elevação da temperatura. Visível a mudança na paisagem após Himalaya Hotel: as paredes do canyon não são mais cobertas por espessa vegetação, sendo possível avistar a rocha nua cuja cor amarelada revela sua origem sedimentar. Grandes cascatas e córregos - resultado do degelo dos glaciares e campos de neve que se encontram sobre o canyon - jorram de ambas as encostas, engrossando o rio Modi cuja água de verde e límpida passa a ser turva. Escuto pela primeira vez o crocitar dos corvos e o troar dos helicópteros indo e vindo do Annapurna BC. Às 11 e 30 quando ainda estamos em Deurali almoçando, o tempo começa a virar: nuvens que vêm do sul apoderam-se do canyon e a friaca se faz sentir. Observo neve e dois grandes desmoronamentos de terra na encosta oriental da colossal garganta. Como saímos de Deurali quase ½ dia, Bishow cruza pra margem leste já que as chances de avalanches costumam ocorrer mais na encosta oeste do canyon devido à presença do pico Hiunchuli próximo à sua borda. Donde estamos, do lado esquerdo do rio, dá pra ver bem a enorme avalanche de neve que interrompeu a trilha na encosta direita donde também jorra do alto uma big cascata. Há gente que não dando bola pro risco de possíveis avalanches passa pela trilha super estreita escavada na neve limitada dum lado por uma rampa descendente duns 50 metros. Estou bem contente por ter vindo por esta via alternativa porque não curto nada esse tipo de via super exposta e escorregadia. Não tem como não se dar conta da profunda alteração na paisagem a partir de Deurali: os campos de neve começam a se amiudar, a cor verdejante da vegetação transforma-se em amarronzada, o bambuzal resiste ainda que seco, sem exibir seu peculiar verdor, apenas arbustos e árvores de pequeno porte despidas de folhas, tufos ressecados de capim amarelado, uma curiosa vegetação com folhas aveludadas que lembra uma couve-flor esverdeada, e, surpreendentemente, ramos de gencianas! Muitas cascatinhas continuam escorrendo pelas paredes do canyon. As duas travessias no Modi Khola são em precárias pontes metálicas não muito distantes da correnteza furiosa do leito do rio. Atravesso vários campos de neve e um deles provoca calafrios: a trilha, estreita, tem uma puta rampa que termina no rio Modi espumando agitadíssimo lá embaixo. Depois, só subida casca grossa até o acampamento-base do Machapuchare piorada pela presença da cerração que se torna cada vez mais densa, não permitindo se avistar coisa alguma. Chegamos às 14:20 em Machapuchare, caminhando dentro duma nuvem tão aquosa que sinto as minúsculas gotículas molharem roupa e rosto. Confesso que hoje bateu o cansaço porque de Dovan a Deurali o desnível foi de 600 metros e de Deurali (3.200 metros) ao acampamento-base do Machapuchare (3.700 metros) subimos mais 500 metros. O pior, contudo, foram os 40 minutos finais de subida antes de chegarmos a Machapuchare, um trecho matador cheio de degraus. Com aquela preguiça causada pela canseira de quem está nas altitudes, nem saio a explorar os arredores do acampamento-base de Macha, fico o restante da tarde até a hora de ir pro berço no refeitório quentinho, postando fotos no Face, lendo, escrevendo e curtindo os demais hóspedes. Vidinha boa essa, vale cada degrau e gota de suor destilado!!

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Nas entranhas do canyon do rio Modi

16/04/2017 – Domingo – 2º Dia de Trek Annapurna BC – Tolka a Chhomrong
Bishow, ao contrário de Nir, exige com seu jeito delicado de ser que partamos mais cedo dos lodges, assim, às 7:20 estamos já com o pé na estrada dando adeusinho à Tolka. A pernada de ontem foi facinha, só o tempo enevoado e úmido incomoda um pouco, mas é o preço que se paga por este clima subtropical além de estarmos a cada dia que passa nos afundando mais e mais nas entranhas do canyon do Modi Khola. Seguimos pelo flanco esquerdo do canyon e após atravessarmos Landruk, uma vila grande, com muitos lodges, a vegetação torna-se mais densa a ponto de a trilha apresentar em ambos os lados renques de samambaias. Nas encostas, terraços de lavoura de painço e arroz, alguns abandonados porque os homens se encontram trabalhando nos países árabes. Após Landruk, fácil perceber que estamos no interior dum canyon, tipo horizontal, daí a ausência de altas cachoeiras, apenas corredeiras espumam ao longo de seu leito. Suas paredes estão compactamente cobertas de árvores e arbustos. Um esplêndido verdor. Paisagem completamente diferente da do Everest. Estou adorando esse cenário luxuriante. Já dá pra se ver Annapurna South e Hiunchuli à direita apesar da onipresença de nuvens e névoa tentando escondê-los. Atravessamos a longa ponte metálica sobre o Modi Khola e passamos a caminhar em sua margem direita, logo, logo alcançando a acolhedora vila de New Bridge cujas fachadas das casas são enfeitadas com floridos vasos de gerânios. Sentamos a uma mesa ao ar livre e pedimos um chazinho. Escolho o de limão com gengibre, bom pra evitar resfriados. Bishow me conta que nessas selvas há uma diversidade riquíssima de fauna, destacando—se os belíssimos leopardos e os macacos com barba branca, conhecidos como landruk. Depois de New Bridge, a moleza de se caminhar em terreno plano termina e o enrosco da subida começa, atravessando inclusive trecho em que houve grande desmoronamento na trilha, tornando-a perigosamente estreita. Mas as coisas pioram mesmo após a travessia do rio Kimrong, dessa feita numa rústica ponte feita com troncos de árvore. Como Jhinudanda, vila onde almoçaremos, fica no cocuruto da colina, a ladeira, mega íngreme, foi calçada com os terríveis degraus de pedra que parecem nunca acabar. Nas encostas das montanhas, brilham ao sol os telhados das casas revestidos com pedra de mica. De repente, ebaaa, estamos em Jhinudanda, charmoso vilarejo, onde almoçamos. Compro aqui um par de brincos, em formato de peixe, lindésimo. Nesta região é impossível o trânsito de yaks e mulas porque as trilhas são muito estreitas. As plantações se estendem do sopé quase ao topo da montanha que se encontra do outro lado do rio Kimrong, onde sobressai uma vila no meio da encosta. Mas se eu estava reclamando do ascenso até Jhinu, situada a 1.710 metros, a subida até os 2.210 metros de Chhomrong foi impiedosa! Degrau após degrau a pequena distância me custou, sei lá, 2 horas? Se não foi tudo isso, chegou perto. Quando se pensa que termina continua, não acaba nunca, que merda. Pressinto, fingindo um otimismo que não tenho, que está por terminar o calvário, portanto, sebo nas canelas, Beatriz!! Chego ao ponto de sentir saudades dos degraus do trek Eve BC! Enfim às 15:30 entramos em Chhomrong, construída também numa crista de montanha, ocupando não só o largo platô como ainda se estendendo encosta abaixo além do rio Chhomrong. A vila é habitada pelos gurungs, um dos maiores grupos étnicos do país. Gurungs podem tanto ser budistas como hinduístas ao contrário dos sherpas e dos brahmins que apenas professam, respectivamente, a fé budista e hinduísta. A paisagem da vila é adorável, com vasos de flores enfeitando páteos e residências. Daqui do alto da vila se vê bem o canyon e as vilas existentes em ambas encostas: ao sul, Landruk, na encosta esquerda e ao norte Sinuwa, na encosta direita. Embaixo os telhados azuis da vila de Jhinu destacam-se em meio ao verdor da vegetação. O dia, ulálá, manteve-se agradável com a presença caliente do sol a partir das 10, assim permanecendo durante a tarde. Agora, 16 e 30, o sol se pôs e uma friaca se faz sentir. Exemplo inconveniente de modernidade é a enorme torre de telefonia móvel construída bem na frente do Annapurna South. Tem de se fazer malabarismos para evitar que ela saia na foto, tsk tsk tsk. Nurbu quando indagado se levaria presente pra esposa, responde de bate-pronto: “money”...... hahahaha. Não há dúvida de que Nurbu não só a conhece bem como sabe agradá-la!! Estou encantada com esta região. Pensei que fosse parecida com a do Everest. Qual o quê, é absolutamente desconcertante! Não só se vêem picos de 6, 7 e 8 mil bem de perto, como a presença constante deste soberbo canyon funcionando como um divisor entre o mundo gelado e árido das altas montanhas e a tepidez verdejante das zonas mais baixas. Que surpresa agradável este trek. E eu que não estava dando muito por ele, pode?!

17/04/2017 – Segunda-feira – 3º Dia de Trek Annapurna BC – Chhomrong a Dovan
A manhã, sem nuvens, permite que se vislumbrem em toda sua glória Annapurna South, Hiunchuli e Machapuchare. Me apaixono por Machapuchare. É a mais linda de todas as montanhas vista por mim. Seus dois cumes lembram cauda de peixe, daí ter sido denominada em inglês Fishtail. De Chhomrong, donde saímos às 7 e 10, descemos uma bela e longa escadaria até o fundo do vale onde corre o rio Chhomrong, cruzando a ponte metálica até a outra margem. Só de pensar na volta, subindo todos aqueles degraus, me arrepio, ui ui ui!! Enquanto estou descendo quem vejo subindo? A simpática vendedora de quem comprara bergamotas e maçã ontem durante a dura subida de Jhinudanda a Chhomrong. Ela, contente, de me rever, faz questão de parar, abraçando-me efusivamente. Tal atitude é pouco usual nos nepaleses, tanto que nos folhetos dados aos turistas há recomendação de se evitar manifestações públicas de afetos. Do celular duma jovem chinesa, que juntamente com uma amiga, hospedaram-se na mesma guest house que nós estávamos em Chhomrong, escuto música eletrônica em alto e bom som. Brincando, começo a dançar. Pra quê! Elas se encantam e começamos, então, a conversar enquanto caminhamos. Uma americana, ao meu lado, comenta que não é bem esse tipo de som que esperaria como trilha sonora no trek, hehehe. Ambas as chinesinhas vestem-se com roupas coloridas, estampas de desenho infantil, predominando a cor rosa. A magra, que parece ser a líder, é seguida pela amiga gordinha, que não demonstra tanta desenvoltura pra caminhar quanto a magrinha espevitada. Alegres, param frequentemente pra tirar fotos uma da outra. Quando a gorducha fica pra trás nas subidas, a magrinha aguarda até que a outra a alcance. De fato, há uma bela parceria entre as duas. Mas como as 2 caminham muito lentamente, porque param toda hora pra tirar selfies e fotos uma da outra, combino de vê-las em Dovan onde também vão pousar e sigo adiante. Da ponte sobre o rio Chhomrong até Sinuwa é só subida em degraus, onde paramos prum chazito. Do restaurante não canso de admirar os belos picos Annapurna South, Hiunchuli e Machapuchare. De Sinuwa a Bamboo não se leva mais que 2 horas, caminhando numa floresta onde predominam bambus e rododendros floridos. Parece bosque de contos de fadas, beleza pura! O terreno alterna trechos planos com descidas e subidas curtas sem grandes exigências. O Machapuchare é entrevisto o tempo todo, salvo quando paramos em Bamboo pra almoçar já que a alta parede da encosta esquerda do canyon o encobre. Peço dal bhat que vem acompanhado com batatas ao curry, deliciosas. Levamos uma hora e 15 minutos até Dovan porque faço Bishow parar diversas vezes encantada, ou melhor, deslumbrada que estou com a beleza da trilha, tanto que nem me importo com algumas subidinhas cascudas que tenho pela frente e com a exposição incômoda de grossas raízes aflorando no solo. Duas travessias em pontes feitas com troncos de árvore dão um clima delicioso à trilha! Tão bom se equilibrar nelas ao invés da segurança das pontes metálicas. Chego tão feliz em Dovan que me ponho a dançar, sem sequer tirar a mochila, na ampla esplanada construída na frente dos lodges. A música que toca no Ipod é uma esfuziante seleção de folclore interpretada pelo excelente percussionista pernambucano Naná Vasconcelos, infelizmente, já não mais entre nós. Poucos metros abaixo, o barulhinho bom do agitado rio Modi se faz ouvir. O movimento de turistas está tão forte, que os 3 lodges existentes na vila estão com lotação esgotada. Um dormitório com 4 camas custa 180 rupias por pessoa. As 2 chinesas, que viajam sem agência, carregando suas mochilas, ficam nesse. Eu e Flavio porque viajamos com agência dividimos um quarto com uma cama de casal e outra de solteiro. Cedo a de casal pra ele porque é maior que eu. Agora 15:30 baixou uma névoa encobrindo tudo ao redor. Nada se enxerga além de 50 metros, sequer a alta cachoeira que despenca da outra encosta do canyon, só se escutando o ruído de suas águas. O que têm de joaninhas e borboletas ao longo do caminho é incrível, considerando que estamos a 2.600 metros! Digo pra Bishow que no Brasil há também joaninhas e traduzo pra ele como “little joan”, hehehe. A eletricidade só não vai ao Annapurna BC, assim, ainda são visíveis postes e fios elétricos ao longo da trilha, muitas vezes se intrometendo no visual, quando se tira fotos. Graças a deus que se pode contar com o santo recurso do photoshop, porque vou ter de apelar pra ele quando editar minhas fotos. Arrancarei com o maior prazer poste por poste e apagarei toda a fialhada por mais trabalho que dê!

sábado, 15 de abril de 2017

E a indiada prossegue....eba!!!

11/04/ a 15/04/2017 – Terça-feira a Sábado – Lukla - Kathmandu - Pokhara
Terminado o trek ao Everest BC, partimos no dia seguinte de Lukla, bem cedinho, às 8 da matina. No avião de 2 turbinas, 20 lugares, que nos conduz a Kathmandu, a aeromoça oferece balas e pedaços de algodão pra se pôr nos ouvidos. Parece que estou num filme da década de 50, muito tri este vôo, hahaha. Chegamos na capital nepalesa às 9 e 30. Tento dormir um pouco após o almoço já que faz 2 noites que só prego olho por 3 horas, mas não consigo. A excitação de estar nesta cidade tão mal tratada quanto atraente me deixa muito ligada. O crocitar dos corvos (aqui também tem dessas aves aos milhares) mixado ao ruído dos motores de carros e das buzinas é a trilha sonora de meu fim de tarde enquanto aprecio o lento e magnífico pôr do sol. A bola de fogo bem desenhada exibe coloração róseo-alaranjada, uma belezura! Ao longe, longas e finas varetas de metal despontam verticalmente como troncos sem galhos dos prédios em construção, de modo a protegê-los dos efeitos dos terremotos. A estadia relâmpago em Kathmandu não me impede de visitar Pashupatinah, complexo religioso e santuário dedicado ao deus hindu Shiva, localizado em ambas as margens do rio Bagmati. Nos gaths (escadarias) em frente ao rio, os corpos são lavados e cremados em fogueiras a céu aberto. Eu curto vir a Pashupatinah não só pela oportunidade ainda de assistir às cerimônias de cremação. Pra nunca esquecer de que a vida é um piscar de olhos e um estalar de dedos. Bueno, na quinta-feira, 7 da manhã, sentados no desconfortável último banco do busão, começamos a fastidiosa e cansativa viagem de 9 horas até Pokhara. Paramos pra almoçar num restaurante enorme à beira do rio Trishuli, cujas águas de coloração amarronzada não são de molde a atrair olhares. No dia e meio em que permaneço em Pokhara, trato menos de conhecê-la e sim de descarregar o restante de fotos e vídeos pro laptop, organizando-os em pastas. Quando retornar do trek ao Annapurna BC ficarei aqui durante 5 dias e então poderei curti-la à la vonté.


15/04/2017 – Sábado – 1º Dia de Trek Annapurna BC – Kande a Tolka
Numa boa rodovia, rodamos de carro de Pokhara (800 metros) a Kande (1.770 metros) em 1 hora e 1/2 porque o motora pára à beira da estrada e nos mostra, orgulhoso, a guest house que está construindo. Em Kande, ponto de partida da pernada, sou assediada por vendedoras tibetanas querendo que eu compre suas bijus. Resisto bravamente e não me rendo. O guia que nos conduzirá nesta jornada chama-se Bishow. Nascido em Pokhara, o jovem homem, de boa aparência, é praticante do hinduísmo. Simpático, gentilíssimo, com boas maneiras, não tem contudo o jogo de cintura do guia anterior, o querido Nir, cujos modos eram mais toscos. Casado há pouco tempo, conta-me, radiante, que sua mulher está grávida de 3 meses. Seu inglês é rudimentar já que optou por estudar coreano de modo a obter ocupação mais qualificada na Coreia do Sul, país que acolhe estrangeiros pra trabalharem, temporariamente, nas indústrias automotivas. Lá permaneceu durante 1 ano, após o que, economizada uma grana, retornou a Pokhara. Cresce o número de guias nepaleses, que investem no aprendizado de japonês, mandarim e coreano, de olho na afluência de turistas - em especial os de meia idade que não sabem falar inglês -, oriundos desses países. Assim como Bishow, milhares de nepaleses vão trabalhar, além de na Coreia do Sul, na Índia, Qatar, Kuwait ou Emirados Árabes com a finalidade de fazer poupança e, assim, casar, investir num negócio ou construir casa própria. O nosso porter continua sendo Nurbu. Louco pra conhecer esta também afamada região do Himalaia, pediu pra Flavio que intercedesse junto a Narayan, dono da agência que organiza nossos treks, pra vir trabalhar pra nós. Assim, eis Nurbu Sherpa, super feliz em poder saciar sua inesgotável curiosidade, carregando nossas bagagens. Passando por pequenas vilas e atravessando florestas de sândalos vermelhos e de rododendros, ainda não floridos, o início da pernada é só subida, até o Australian Camp, vilarejo situado a 2.165 metros. Daqui já se tem a primeira visão dos picos Annapurna South (7.219 metros) e Machapuchare (6.993 metros), ao norte, e do vale de Pokhara bem como do lago Fewa, ao sul. Após, curta descida percorrendo novamente bosques de sândalos vermelhos até Pothana, situada a 1.890 metros onde almoçamos. Enquanto espero meu arroz frito com galinha e verduras, curto o modo como certo guia come seu dal bhat: sem pressa, entremeia a refeição conversando com >outros guias, ao final da refeição lambe cuidadosamente os dedos da mão direita, usada pra ingerir alimentos. Envoltos em nuvens e fina névoa, Annapurna South e Machapuchare parecem suspensas no ar. No início da caminhada estava tão quente que fiquei de camiseta de manga curta mas agora sinto que a temperatura caiu alguns graus o que me obriga a pôr camiseta de manga comprida enquanto estou sentada à mesa no restaurante. Terminado o almoço, voltamos a subir por entre bosques de rododendros e de sândalos vermelhos entremeados com áreas planas e abertas usadas como pastagens de búfalos. Em certos trechos, a trilha, tal qual uma passarela, foi cuidadosamente calçada com pedras de mica que brilham ao sol; em outros, é pura piramba, exigindo curta escalaminhada dentro dum bosque que lembra de leve a nossa mata atlântica. Em Deurali, vilazinha com 2 guest houses e um restaurante, descansamos 10 minutos pra recobrar fôlego da sofrida subida. O restante do caminho, percorrendo outra floresta é praticamente só descida. Um pouco antes de Tolka, ao atravessar um arroio, sai do mato um guri levando o tradicional cesto de palha às costas. Eu o cumprimento, ele retribui com aquela cordialidade nepalesa tão sem reserva e fala alguma coisa que não entendo. Pergunto a Bishow, achando que é o mantra “have you socolê?”(socolê leia-se chocolate) mas não!! Ele quer avisar que estou com o zíper da mochila aberta, correndo risco de perder algo. Mais adiante, na beira da larga estrada que conduz a Tolka, um homem sem pernas pede esmola. Um cartaz, em inglês, explica que ele perdeu os dois membros inferiores por congelamento quando trabalhava como porter. Assim que chegamos na pousada em Tolka (1.790 metros), por volta das 16 horas, começa a chover como ontem em Pokhara. Fazer o que se o clima subtropical úmido e a presença de densas florestas favorece o chuvaral, né? O bom é que a altitude dá uma boa maneirada na temperatura não permitindo que se eleve muito. À noite, durante a janta, os guias põem música e convidam os turistas pra dançar músicas nepalesas. Eu sentindo que vou ser tirada pra bailar me escapo de fininho pro quarto. Hoje não estou com espírito bailador.