quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Pedaladas uruguaias

Na terça, deixamos Colônia com pesar. A encantadora e charmosa cidade bem merece estadia mais longa pero temos de chegar no balneária La Pedrera ainda hoje onde vamos nos aquerenciar durante 8 dias. Situada a 125 km a sudoeste do Brasil, esta pequena praia se recosta sobre um costão rochoso, cordão este que se estende ao longo de todo o litoral uruguaio, tanto o do Atlântico quanto o do rio de La Plata. Uma amureta branca divide o passeio da faixa de areia. Na calçada, bancos de cimento permitem que se curta confortavelmente a orla marítima desde La Paloma, situada ao sul, até Cabo Polônio, mais ao norte. A maioria dos veranistas é predominantemente uruguaia embora se vejam carros com placas argentinas. Aqui em La Pedrera, a invasão argentina pegou leve. Em compensação, no restante do litoral uruguaio, quem domina são los hermanos argentinos. A praia, com mar de tombo, é excelente pro surfe, apesar de não o ser para as longas caminhadas por causa do terreno super desnivelado e da areia fofa e grossa misturada de conchinhas miúdas que machucam os pés se descalços. Por conta disso, se fui à praia três vezes foi muito. No mais aproveito as manhãs, ora lendo, ora colhendo margaridas, hortênsias e rabos de raposa num terreno baldio perto de casa. De posse dos ramalhetes de flores, distribuo-os nos vasos que há na sala. Aproveito assim bem meu ócio matutino e trato, motivada pelo meu pendor tragolístico, de aprimorar meus dotes de bartender. Resultam saborosas caipirinhas de vodka e rum misturadas com limão e laranja. Salvo o dia em que pedalamos até Cabo Polônio, o sol manteve-se firme e forte, irradiando com gana seu calor durante nossa estadia em terras uruguaias. Nas noites agradavelmente frescas, as estrelas prenunciam bom tempo pro dia seguinte. Dum modo geral, os motoras respeitaram-nos nas duas rodovias por onde pedalamos, as ruta 15 e 10. Somente dois dos pedais foram em chão batido, os demais deslizaram alegres e fáceis sobre o asfalto. Pedalei quase todos os dias, tanto que meu velocímetro contabilizou, desde o primeiro pedal em Livramento, 200 km! O primeiro giro ciclístico que fazemos em La Pedrera é um passeio a La Paloma, distante 12 km. À tarde, depois da siesta, nos tocamos em direção a esse balneário, bem maior que La Pedrera, com amplas avenidas, ruas calçadas e altos edifícios. Vamos até a praia e como não podia deixar de ser subimos os 30 m de escada que conduzem ao topo do lindo farol, cartão postal do lugarejo. No dia seguinte, uma quinta, a cereja do pedal: passeio a Cabo Polônio, que exige que madruguemos. Mal pintara a barra da manhã no horizonte, quando passamos levantando poeira na rua principal. Pra surpresa minha e de Lili, uma pequena multidão de jovens vagueiam pra lá e pra cá, semi-embriagados. Evidente a dificuldade que têm em se despedir da noite e ir pra casa dormir, hehe. O pedal, tranqüilito, pois a Ruta 10 se mostra praticamente livre de tráfego àquela hora do dia. Infelizmente, o tempo não colabora enquanto permanecemos em Cabo Polônio. Chuviscos, céu nublado e vento não tornam nada aprazível nossa estadia na praia que imagino seja, por supuesto, atraente com bom tempo. A centena de casinhas brancas, estilo mediterrâneo, confere um certo quê de despojamento elegante ao lugar. No pedrario em frente ao farol, bandos de lobos marinhos travam um conversê animado entre si. No dia seguinte, apenas eu me animo a pedalar frugais 10 km. O suficiente pra desentorpecer as pernas. Lili prefere ficar em casa descansando e pondo a leitura em dia, que inclui, além dum romance, revistas sobre celebridades do cone sul que eu comprara quando estivéramos em La Paloma. Excelente terapia, magazines tipo Caras, Holas e similares desanuviam de forma notável a cabeça. Ler sobre casais de artistas que se casaram após uma semana de relacionamento, jurando amor eterno porque encontraram sua alma gêmea, restabelece na criatura mais pessimista e incrédula novo alento na humanidade. Recomendo sua leitura, preferencialmente, após as refeições. Por quê? Elementar, meu caro leitor! Graças aos seus assuntos invariavelmente levianos, não há interferências malsãs no processo digestivo. No dia seguinte, vamos pedalar numa zona cuja paisagem assemelhava-se um pouco à lunar, em razão de crateras abertas no solo, evidentemente, causadas por algum processo erosivo. Embora o pedal seja curto - não ultrapassa os 12 km – é bem intenso. Tudo por conta duns barrancos que nos obrigam a subir e descer com as bicis no manotaço. Afora isso, a areia fofa faz com que as bicis derrapem pra lá e pra cá. À noite, La Pedrera ferve. Restaurantes e bares cheios. A garotada, sentada ora no meio fio, ora de pé no meio da rua, transmite uma energia vibrante. Artistas de rua exibem-se ao longo da rua principal. Afinal, a noite é uma niña! Na segunda-feira, já com a tarde avançada, Lili e eu decidimos fazer um tour à Laguna de Rocha. Vale a pena pedalar 35 km, misto de asfalto e chão batido, pra conhecê-la. Suas águas mornas convidam ao banho e à contemplação. Vez por outra um pio de pássaro e um longínquo grito de criança quebram o silêncio do lugar. Durante o dia, com sorte e paciência, entre diversas espécies de aves migratórias, se avistam flamingos e cisnes de pescoço negro em busca de alimento, nesta zona permeada de lagunas. Dia seguinte, colocamos as bicis no carro e rumamos pro norte. Almoçamos em Manantiales, sofisticada praia, onde milionários e astros internacionais competem pra ver quem tem a mais espetacular mansão ou quem oferece a melhor festa da temporada. Em passant por Punta del Este, só nós detemos na famosa Casa Pueblo, uma bizarra construção em estilo mediterrâneo, construída por Juan Vilaró, um ícone da pintura abstracionista sulamericana. Retornando sem pressa a La Pedrera, escolhemos Jose Ignácio, prainha gostosa, pra dar a pedalada do dia. Vamos então à Laguna de Garzón onde praticantes de wind surf desfraldam suas velas vermelhas, amarelas e verdes contra o azul do céu. Um fim de tarde perfeito! Na quarta-feira, pé na estrada de novo. Dessa feita, retornando ao Brasil, via Chuí. Assim, fazemos pequenas paradas ao longo do dia como a navegação no arroio Balizas, embarcadas num pequeno catamarã que nos conduz até a bela propriedade particular onde crescem impressionantes bosques de umbus. Lili e eu retomamos a viagem, almoçando em Castillo, pequena cidade sonolenta com ruas arborizadas pelos onipresentes plátanos. No restaurante La Strada provo uma das melhores refeições da viagem: linguado ao alho. Como queremos chegar ao Chuí ainda a tempo de fazer compras nos free shoppings, o resto da viagem é vapt vutp. Assim, raspamos Punta del Diablo e La Coronilla. Embora La Pedrera seja agitada, é forçoso reconhecer que se trata duma praia charmosa, ao passo que Punta del Diablo deve ter sido estilosa há 20 anos atrás; atualmente, não passa duma praia muvucada, sem grandes atrativos. Já La Coronilla, ah, essa sim, agrada-me muito. Tranqüilita, suas ruas lembram as de uma cidade quase-fantasma: raros carros e transeuntes nas ruas. Claro está que reservamos um tempinho pra entrar no Parque Nacional de Santa Teresa. Este magnífico parque, repleto de atrativos, conta com uma infraestrutura de camping e cabanas, supermercado, restaurante e pronto socorro. Suas trilhas conduzem a praias semi-desertas onde é possível pescar ou surfar. Nas amplas avenidas, delimitadas por palmeiras, pacas em bando passeiam livremente. Neste lugar encantador, faço o último pedal da viagem, atravessando bosques de eucaliptos até alcançar o belo forte, uma construção de granito vermelho, construída no topo duma colina. Hasta la vista Uruguay y que sea temprano!
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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Desfrutando Uruguay

Mal retorno a Porto Alegre, depois da pernada de 12 dias, em que conheci recantos encantadores da Chapada Diamantina, estou de partida pra mais uma aventura. Permaneço em Poa, o tempo necessário pra transferir da máquina pro computador fotos e vídeos, organizá-los, nomeá-los e iniciar o esboço das escrevinhações sobre a recente pernada em terras baianas. Aproveito ainda a breve estadia na cidade pra lavar roupa, pagar algumas contas, molhar plantas e três dias depois estou no aeroporto onde pego minha amiga Lili Docinho, que se junta a mim nesta indiada cicloturística ao Uruguai! Assim, sem lenços, com documentos e bicis no suporte traseiro do carro, saímos de Porto ainda dia claro, embora o relógio já marque 20 horas. Bendito horário de verão! Escolho como porta de entrada no país vizinho, Livramento, porque quero conhecer ao vivo e a cores alguém que, como eu, pratica esportes de aventura, curte a natureza e tem também o gosto por escrever: a Miriam Chaudon que reside na cidade limítrofe à uruguaia Rivera. Percebo nesta carioca radicada na zona da campanha há mais de 20 anos, uma vibe de simplicidade e generosidade que vêm despertando minha curiosidade. Pra confirmar se minha percepção, até então adquirida apenasmente do mundinho virtual (trocas de email, mensagens no Face Book e pela leitura de seu blogue), não passa duma ilusão. E conheço a guria!! A conservada e bela cinquentona me espia, alegre, através duns claríssimos olhos azuis. Não dá pra não gostar da meiga pero firme, Miriam! Me conquistou assim que abriu a porta de sua casa! Escolhemos pra almoçar um excelente restaurante, especializado em parrilla, o Lo de Beto, localizado em Rivera. Por deus, o entrecot com alho estava um troço de bom. E a tal da batata frita? Crocantezinha por fora e macia por dentro, a melhor que comi até hoje, sem exagero, gente!! Passamos nós as três praticamente o dia juntas, exceto por um intervalo após o almoço em que o corpo reclamou uma siesta após a lauta refeição. Terminamos o dia no cerro Palomas, pra onde vamos eu e Lili pedalando, enquanto Miriam vai de carro já que é uma sem-bici....ainda! Do topo dessa emblemática elevação, curtimos a vastidão da paisagem pampeana já imersa nas sombras da noite onde os únicos rasgos de claridade são as luzes da cidade e a luz avermelhada duma queimada devastando um campo não muito distante de onde estamos. Por indicação de Miriam, provo o delicioso sorvete da Heladeria Martinez. Aliás, qualquer coisa de bom sorvete uruguaio! Sei lá se pela qualidade do leite ou devido a algum segredo partilhado nacionalmente, todos os que provei, seja o de La Cigalle em Montevideo, o da Arco Iris em Colônia, o da Popi em La Pedrera e, por último, o do cucurucho (cone de biscoito) recheado com yema quemada, comprado na heladeria La Strada, em Castillos, todos me deixaram com água na boca e vontade de “quero mais”. Só não repeti porque o medo de engordar funcionou, graças a deus, como um poderoso freio no pecado da gula. Dia seguinte, seguimos viagem, riscando o asfalto ao longo da planíssima Ruta 5, direto a Montevideo onde chegamos à tardinha. Como as duas avoadas nem tinham se antenado em fazer reservas, batemos com o nariz na porta de vários hotéis, até encontrar um bem furreca, numa transversal da 18 de Julio, onde largamos as malas de qualquer jeito no quarto e, ávidas por exercício, montamos nas magrelas felizes da vida, pedalando pelas quietas calles montevideanas. Nas largas ruas, sombreadas por frondosos plátanos, pouco movimento de carros e transeuntes. Uma tarde, linda, solarenga. Olho pra cima e quando vejo aquele céu, dum azul impecável, suspiro de prazer. Curtir um pedal domingueiro em Montevideo é tudo de bom, gente!! Aconselho!! Guio Lili até a rambla, uma extensa avenida ao longo do rio de La Plata com início na Ciudad Vieja e finalera em Carrasco. Separando o largo passeio da faixa de areia, uma amurada, construída com granito rosado, serve de descanso pra quem quer curtir os últimos reflexos do sol mergulhando seu esplendor amarelo-avermelhado nas águas marrons do rio. A rambla é point obrigatório pra quem deseja conhecer um pouco a alma da cidade. Dezenas de pescadores empunham caniços enquanto, pacientemente, aguardam as fugidias corvinas. Descubro, assim, que a pesca é uma paixão nacional. E o amor paira no ar! Trocando beijos e carícias, jovens exibem seu desejo aos quatro ventos, ao passo que os veteranos casais passam o mate de mão em mão, ora proseando animados, ora em confortável silêncio. Uma festa a rambla, ainda mais quando a estação é o verão e o dia, domingo! Dia seguinte, pegamos a Ruta 1, rodovia que liga a capital à Colônia porque Lili deseja muito conhecer esta linda cidade. Pra variar, não fizemos reserva. Assim, depois do almoço, caminhamos à-toa pelas arborizadas ruas do centro da cidade procurando hotel. Lili descobre um bem charmoso a dois passos do centro histórico. Com um sol de rachar, sem obedecer à siesta, nos tocamos a visitar a parte antiga de Colônia, tombada como patrimônio histórico da humanidade pela UNESCO. Da antiga fortificação fundada pelos portugueses no século XVII, restam belos casarios coloniais bem conservados, transformados alguns em sofisticados restaurantes, outros em charmosas pousadas. Embora o sol estivesse a pino, curto demais passear pelas estreitas vielas engalanadas por arcos de buganvílias em flor. No final de tarde, pegamos as bicis e saracoteamos ao longo da Costanera, larga avenida que bordeja o rio ao longo de 10 km. Um mergulho em suas tépidas águas e depois um merecido espumante geladinho pra coroar o dia enquanto curtimos o sol desaparecer lentamente no rio de La Plata.
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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Ladeira do Império, o abre-alas de Andaraí

Infelizmente, a segunda-feira amanhece nublada e com cerração....droga. Saímos sem pressa às 10 e 20 da casa de seu Jóia, com Doinha nos guiando ladeira do Império acima numa pernada cuja duração mal ultrapassa 1 hora. A subida, que de longe parecia tenebrosa, revela-se fácil, fácil. A rampa, calçada com pedras polidas até o topo da serra do Ramalho, tem 3,5 km de extensão e sua construção, nos idos de 1940, visou facilitar o acesso das mulas que, nas bruacas, transportavam mercadorias de Andaraí ao vale do Pati e vice-versa. Durante o ascenso, posso admirar, dum lugar chamado mirante, aquilo que ontem curtira lá embaixo: nada mais que o Cachoeirão, encravado entre as serras do Cotiguiba e do Sobradinho. Muito tri essa visão longínqua do portentoso anfiteatro!! Mais adiante o Castelo! É muita pedra....que doidera!! Adoro tudo isso!! E o calor hein? É bom demais!! Clima quente pra mim significa aconchego, hospitalidade climática das boas!! Bueno, quando chegamos ao topo da serra do Ramalho, Doinha que conhece a trilha como a palma da mão, segue por uma estreita estradinha, que só ela percebe no meio daquele matagal. Tem início então a descida até Andaraí. A jovem, que mal completou 18 anos, não conversa comigo tampouco com Marcelo. Não porque seja antipática! Muito pelo contrário. Apenasmente envergonhadíssima, a baianinha, de pernas longas e finas, é pura timidez. Se não dirigíssemos a ela a palavra, a mocinha teria entrado na trilha muda e saído calada. À medida que a manhã escoa, o nuvaredo se dissipa, as brumas se derretem e o dia vai-se tornando límpido que nem os pedacinhos de quartzo branco que vez por outra despontam no solo. Salvo uma que outra nuvem pairando ali e acolá, o céu mantém-se firmemente azul, permitindo que o generoso sol de verão irradie com fartura suas calientes temperaturas sobre a região. A exuberância da mata atlântica cede lugar ao minimalismo e à rudeza dos campos rupestres. A descida pela serra do Ramalho é só alegria. Flores colorem os galhos das árvores. A estradinha coberta de areia branca, em certos trechos, é substituída por amplos lajedos de pedra que confundem quem desconhece o caminho. Perceptível já daqui de cima o alagado de Marimbus, pra mim apenas uma poça brilhante, ao passo que o casario de Andaraí aponta seus telhados vermelhos à direita, no horizonte. Merendamos à beira dum córrego. Continuando a pernada, um surpreendente jardim, repleto de candombás e canelas de ema, exibe estonteante floração branca e lilás. Dentre as inúmeras extrusões rochosas, uma com formato de poltrona faz com que eu saque minha câmera do bolso da calça. Peço, então, à tímida Doinha que sente ali. A guria, toda envergonhada, não sabe pra onde dirigir o olhar: se pro lado, se pra frente, se pra baixo ou se pra cima, tão sem jeito a pobre se encontra. E eu só prestando atenção na pedra e na pose dela!! Chegamos às 14 e 30 em Andaraí onde deixamos Doinha na casa que seu Jóia mantém na cidade. Feito isso, fretamos, eu e Marcelo, duas motos, ao custo de 2,50 por pessoa, e lá vamos nós atravessando Andaraí na boleia das motocas, hahaha, num rolê trilegal pela cidadezinha. Repleta de barzinhos com mesas colocadas sob frondosas mangueiras, bem que me dá vontade de parar e bebericar algo gelado. Um monte de gente sentada nas soleiras das portas, com aquela indolência típica dos climas tropicais, joga conversa fora. Depois de deixar a mochila na pousada, Marcelo e eu vamos até a empresa de ônibus comprar passagens até Salvador. Ele vai à noite, eu no dia seguinte, bem cedinho, pois meu vôo de volta pra casa será à tardinha. Depois de bater perna pela rua da Gloria, com Marcelo ao lado, meu instinto avisa que achei o lugar ideal pra almoçar. Chama-se Restaurante da Bila. Especulando o interior da estreita casa, vejo um escuro e comprido corredor que desemboca num pequeno pátio onde, encostadas em paredes caiadas de azul piscina, estão dispostas três mesas de plástico alaranjadas. Um negro bem preto, com a cabeça coberta por um chapéu igualmente escuro, se encontra sentado a uma das mesas. Sem hesitar, comando: “entremos aqui, guri”. Nem se discute que estamos famintos, eu e Marcelo. Afinal já passa há muito das 4 da tarde!! Mas a comida, justiça seja feita, faz por merecer meus elogios!! Bila, uma negona de poucas palavras, quando vê minha cara de fome, marcha até as panelas e, na hora, sapeca na frigideira um frango à passarinha. A pelezinha crocante revela na primeira mordida a carne suculenta que se desmancha na boca. De complemento, a sensível cozinheira, serve um arroz branco bem soltinho, feijão e salada. Depois desse saboroso ranguinho, não tem como não dar uma passadinha na Apolo. Claro está que escolho duas das especialidades da casa. Uma é o sorvete de rapadura, a outra...adivinha! O de cachaça, ô xente! Que pinguça estou me saindo nessa viagem, hahaha!! Mas cá entre nós, vir a Andaraí e não provar o sorvete da Apolo é como ir a Roma e não ver o Papa!
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domingo, 1 de janeiro de 2012

Cachoeirão: o anfiteatro de pedras!

Desapontando os maledicentes, acordo sem ressaca. E olha – hein - que misturei ontem cachaça com vinho tinto, hahaha! Localizada em pleno coração do Parque Nacional da Chapada Diamantina que, por sua vez, fica bem no centro do estado da Bahia, a pousada do Império encontra-se mais precisamente no, assim chamado, Pati de Baixo, em contraponto ao Pati de Cima. Medeia as duas regiões o Pati do Meio onde se localiza a imponente formação rochosa do Castelo com suas diversas grutas de quartzito!! Pois no primeiro dia de 2012, nosso guia nos brinda com um passeio até as entranhas do Cachoeirão, lugar que, em 2006, quando em visita ao Pati do Meio, tive a oportunidade de conhecer de cima. Às 10 da matina, já estamos com o pé na trilha, um carreiro estreito que rasga a mata de galeria, situada às margens do riacho Cachoeirão. Antiga, portanto super batida, em certos trechos a trilha ainda guarda vestígios dum velho muro de taipa. Nubladíssimo, o dia não dá qualquer indício que vá melhorar. Brumas envolvem os paredões rochosos da serra do Cotiguiba, criando um cenário espectral naquele leque de rochas avermelhadas. Segundo Dmitri, vamos enfrentar uma aclividade de 250 m entre a pousada e o nosso destino final. Quando entramos na gargantinha, que leva ao Cachoeirão, as pedras ganham volume. Passamos a perambular sobre matacões exigentes, com vários lances de escalaminhada. O cuidado se faz necessário porque as pedras estão escorregadias devido ao excesso de limo. A curta garganta desemboca numa gigantesca reentrância circular escavada ao longo de milhões e milhões de anos nos paredões que sustentam as serras do Cotiguiba e do Sobradinho. Ao longo das altíssimas paredes que formam o espetacular anfiteatro rochoso jorram, quando chove muito na região, quase duas dezenas de cachus. No momento, só duas exibem modestas quedas d’água, tudo por conta da estiagem atípica na região. Da mais alta, daí o nome Cachoeirão, com 250 m de altura, nem pinta de água, infelizmente. Gaviões pé de serra circulam no topo da serra. Uma lapa enorme destaca-se no fundão do anfiteatro, lembrando aquelas capelas laterais, construídas ao longo das naves das grandes igrejas. Das pedras revestidas de musgo verte água, tornando o lugar úmido e frio, tanto que nós puxamos das mochilas jaquetas e camisetas a fim de nos agasalharmos. Num pequeno lago, admiro o reflexo de galhos e folhas dum intenso verdor na superfície de coloração caramelada. Na volta, entramos na casa super maneira de seu Eduardo. Xereto com seu filho se não há uma pinguinha à venda. A de Dª Edileuza, infelizmente, c’est fini!! No terreiro da casa desse nativo, dou de cara com uma planta super bizarra cujo caule exibe ao final um arredondado pedúnculo esverdeado donde brotam macios espinhos. Devido à semelhança com o saco escrotal, sua denominação popular passou a ter o bem merecido e maroto apelido de bago de velho. Quando chegamos na pousada, com a tarde pela metade, trato de largar minha mochila no quarto e corro até o rio pra me refrescar. Sara, Marcelo e Dmitri já lá se encontram, sentados num lajedo, situado em frente a um dos inúmeros remansos que as águas do Pati formam ao longo de seu leito. Tão delicioso o banho que se torna difícil sair do rio. Já sentada ao lado de Sara, indago como está o joelho que machucou ontem ao descer a ladeira do Império vindo de Andaraí. Por conta disso, a moça nem pôde nos acompanhar no passeio até o Cachoeirão, preferindo poupar o joelho pro resto da caminhada que ainda tem pela frente. Não dá pra ficar muito tempo à beira do rio porque as sempre esfomeadas mutucas picam nossos braços e pernas sem qualquer pingo de piedade. Ao passar pelo pátio da casa de seu Jóia, Dª Edileuza e sua filha, Doinha, sentadas na soleira da porta, oferecem pedaços de jaca que colheram há pouco da árvore. A fruta, deliciosa, deixa, contudo, uma desagradável gosma que esfregação alguma dá jeito. Água e sabão? Faz-me rir! Tento esponja e até bombril, por fim, desesperada, apelo e esfrego areia nas palmas das mãos. Nada!! Começo a ficar aflita e vou em busca da ajuda da única pessoa que sei que pode me ajudar: Dª Edileuza. Não dá outra. Ela quando vê minhas mãos daquele jeito, todas melecadas, sorri, divertida. Pega óleo de cozinha e despeja um fio em cada uma de minhas mãos, mandando esfregar. Pois não é que a cola sai rapidinho? Detergente igual à gordura pra retirar da pele gosma de jaca não há!! Uma beleza. Mangangás, em vôos rasantes, tiram fininho de minhas orelhas.....ala putcha!! Pois não é que a boa Dª Edileuza descobriu um tanto de cachaça? Sem perda de tempo, colho maracujás caindo de maduros e faço aquela caipirinha. Afinal, há que se festejar a sagrada hora do ângelus, vulgarmente conhecida como happy hour, cuja tradução livre passa a ser “pausa prum tragoléu”. Hoje é meu último dia com o grupo que segue viagem até Capão. Adoraria ir com eles porém nova viagem programada ao Uruguai com o objetivo, dessa feita, de pedalar com duas amigas, exige meu retorno a Porto Alegre até o final da semana. Assim, eu mais Marcelo, guiados por Doinha, iremos até Andaraí amanhã. Na cozinha de Dª Edileuza, Dmitri, auxiliado por Vini, Marcelo e Andre, prepara a janta, enquanto nós, as mulheres, ficamos na maciota, curtindo o macharedo envolvido com as prendas domésticas. A noite estrelada promete bom tempo, de modo que me deito feliz da vida com a perspectiva de fazer a última pernada de meu trekking debaixo de bom tempo.
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