terça-feira, 17 de abril de 2007

Uma fortificação militar

Manuel, o guia da agência que eu contratara para me levar ao Fuertes Bulnes, foi me buscar no hostal de manhã, e lá fomos nós apesar do péssimo clima. Bah, o de sempre: chuva, vento, céu totalmente nublado e uma neblina encobrindo a Isla Grande de Tierra del Fuego. Separada do continente pelo estreito de Magalhães, a cidade mais próxima na ilha é Porvenir, distante apenas 2 horas de barco de Arenas. Sei lá por que não fui até lá, talvez o tempo tenha colaborado pra me deixar meio travada assim como o pouco tempo em que  permaneci nesta cidade. O Fuertes Bulnes, situado no topo de uma colina, à beira do Pacífico, é uma construção militar fundada em 1843 pelos espanhóis com o objetivo de proteger a costa sul chilena. As edificações existentes à época não sobreviveram aos desmandos dos tempos, portanto o que há são apenas réplicas das originais: rudimentares palhoças feitas com torrões de barro e grama enquanto em outras foram utilizadas grossas toras de lengas. Exceto pela pequena capela decorada com réplicas de mobiliário daquela época, todas as casas e alojamentos estão despidos de qualquer guarnição.O lugar lembra-me mais um forte americano do velho oeste apesar da esplêndida localização. Manuel me conduz até uma casa localizada um pouco antes da entrada do forte pra comermos e bebermos algo porque o frio está pegando, até aguanieve cai! No interior da cafeteria, uma construção simples, crepita na larga lareira um excelente fogo. O cardápio reduz-se a empanadas, sopa e sanduíches, afora, café, chá e chocolate. Peço empanada. Quentíssima, de queimar céu da boca, está recheada com uma generosa porção de queijo derretido. De bebida, chá. Exijo preto, não suporto os aromatizados com morango, maracujá, laranja e similares. Gosto mesmo é do bom e tradicional chá preto! Encontro lá quatro antropólogos chilenos, cujo chefe, o extrovertido e bem nutrido Nelson, me dá a dica de três restaurantes em Arenas. Além dele, faz parte do grupo, Clarina, Jaqueline e Silvia. Esta última, coitada, fica mortificada com a gozação de seus colegas ao lhe apontarem a troca do ‘s’ pelo ‘z’, quando, a meu pedido, grafara a palavra “sopaipillas” em meu caderno. Indagado, Nelson, categórico, confirma a tese da existência de apenas uma raça: a humana (considerando-se somente o planeta Terra...é claro!). Acabo provando da famosa sopaipillas, que vem a ser um tipo de empanada cujos ingredientes, além da farinha, podem ser enriquecidos ora com batata ora com abóbora, dependendo da região onde é feita. Pode-se comê-la ora salgada ora doce, bastando apenas acrescentar pebre ou geléia sobre ela. Fico sabendo mais tarde, por Manuel, que Jose, além de dono e cozinheiro da bodega, fora professor de História, detentor, portanto, de um cabedal de fatos históricos super interessantes a respeito da região. Pena que eu não tenha sido informada de antemão assim teria conversado mais com ele. Felizmente, Nelson atendeu minha curiosidade sobre vários assuntos. Por mim teria passado a tarde conversando com ele.
Lastimo ter de deixar o lugar e pessoas tão agradáveis e gentis, mas temos de regressar já que o passeio dura apenas meio dia e temos de percorrer outra vez os 60 km que nos separam de Arenas. Durante a viagem, sou informada por Manuel que a cidade tem quatro pontos fortes em sua economia: produção de gás metanol extraído do estreito de Magalhães, o comércio de pescados e frutos do mar, a criação de ovinos e bovinos e, por último, o turismo. O trajeto desenvolve-se ao largo deste canal do Pacífico, avistando-se cormorões, patos e até delfins mergulhando em busca de peixes. O chileno do sul é discretamente simpático, educado e atencioso, além de orgulhoso de ser magalhânico antes de ser chileno (vários prédios ostentam em suas fachadas a bandeira da Província da Última Esperanza....isso não lembra alguma coisa a vocês, hein, gaúchos?). Por outro lado, não afetam aquele vezo nacionalista arrogante dos argentinos tampouco a alegria ligeira dos peruanos. Talvez o frio mais o peso da ascendência oriunda da mescla de etnias indígena e européia o façam comedidos sem serem tão “frios” quanto esta última. Já na cidade, observo que tanto nas ruas de Puerto Natales quanto nas de Punta Arenas são plantadas, em suas calçadas e praças, ciprestes cujo trabalho em topiaria molda-os em variadas formas arredondadas. Seguindo a indicação de Nelson (o meu instinto em perguntar aos gordos sobre os bons restaurantes mais uma vez se confirma), vou ao Restaurante Sotitos. Retorno aos pescados e escolho um congrio com salsa margarida, agregado com frutos do mar. O agregado vem a ser ou purê de batata, ou batatas fritas, ou batata duquesa, a salsa (molho) vem enriquecida com pedacinhos de camarão, loco e ostione. O vinho, um Santa Digna, sauvignon blanc, vinícola Miguel Torres, safra 2004.O pescado, divino, mais ao ponto estragaria. O estabelecimento, como em todo o Chile - graças a deus! -, reserva um "local apto para fumadores” e “non fumadores” (tô de saco cheio dessa radicalização de banir o fumo como se fosse a pior droga da face da terra, copiada dos países “corretamente políticos”). Agora, 22 horas, o salão dos fumantes está cheio, todas as mesas ocupadas por homens, exceto três em que há casais. Observando as mulheres, percebo que, apesar do cabelo liso, os fios são grossos e sem muito brilho, confirmando-se a herança genética indígena. Esta minha conclusão não resulta de uma hipótese meramente fantasiosa. Sei, pois vi em fotos, que os índios (quase não os há mais aqui no sul do Chile, infelizmente) tinham-nos bastos e grossos, corroborando minha tese. Suponho que como defesa e proteção naturais contra o frio polar que grassa nesta região. Reflito enquanto janto o quão estranho e desafiador é ver-se sozinha, apenas você, num ambiente em que todos estão acompanhados. Às vezes me constranjo, outras nem penso sobre o desejo de ter ou não companhia, mas em geral, sinto-me satisfeita porque me considero corajosa em encarar solita uma viagem. Hoje, no entanto, eu bem que gostaria de dividir o vinho....mas fazer o quê?!

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