terça-feira, 10 de abril de 2007

O retorno ao Valle del Francês

Como o tempo ontem não permitira que eu visse os cerros situados no valle del Francês, decidi que não iria fazer hoje a trilha até o glaciar Grey, motivo pelo qual não retornarei mais com Daniel, no dia seguinte, a Puerto Natales, permanecendo até sexta-feira aqui no refúgio Paine Grande. Decisão tomada, deixamos o refúgio às 9 horas refazendo a mesma trilha por onde havíamos caminhado no dia anterior: de um lado, o pequeno e tranqüilo lago Skottsberg cercado de lengas e ñires, do outro, a face sudoeste do cerro Paine Grande, e, à frente, os Cuernos Norte e Principal. Observo que um tiuque, ave de rapina tipo falcão, vem em minha direção tirando um rasante sobre minha cabeça, chego até a levar um sustinho da arremetida imprevista da ave. Cruzamos a balouçante ponte de arame sobre o nervoso rio do Francês para, logo em seguida, entrarmos nos encantadores bosques repletos de nothofagus cujas folhagens colorem a paisagem em tons de amarelo e vermelho. Caminho sobre um chão atapetado de folhas e cascas de faias, admirando troncos de árvores despencados no chão enfeitando-o com suas brancas cascas sedosas. O solo em alguns pontos apresenta-se coberto da neve que ontem caíra. Rodeada de tanta beleza, suspiro enlevada. Do acampamento Italiano até o mirador do glaciar do Francês, a trilha é bem íngreme, um aclive puxadinho. Dali em diante, torna-se mais suave e, praticamente, só se percorrem bosques. Apesar de o vale ainda continuar bem nublado, a visão do monumental Paine Grande e do glaciar del Francês é perfeita. Ocorrem freqüentes desmoronamentos de neve cujo ruído tonitruante soa como trovões anunciando uma tempestade iminente. Ora, todo esse barulhão, o céu pesadamente encoberto por nuvens cinzentas, a neve despencando em avalanches cerro abaixo, provoca-me uma sensação, não sei bem, se de medo, se de desamparo. Talvez ambas, diante da força inexorável desta estupenda e indiferente natureza, que está nem aí pros meus temores.E lá vou eu atrás de Daniel já liberta desses tolos receios, curtindo com plenitude aquela esplendorosa paisagem colorida de branco, verde, amarelo, vermelho e cinza, quando uma nevasca mais forte que a do dia anterior nos pega um pouco antes de nós alcançarmos o acampamento Britânico. Não resisto e inicio a filmar os grandes flocos de neve que caem suaves e silenciosos sobre as árvores e a terra. Putz grila, bonito demais, muiiito muiiito lindo o que está acontecendo: eu, vivendo a cores e ao vivo o que até então só havia visto em filmes! Logo chegamos num abrigo de lona improvisado onde já se encontram um casal de italianos, um chileno e um escocês, todos jovens, comendo seus lanches. A neve continua a cair em grande quantidade deixando cada vez mais branco tudo ao redor. Tá na cara, na minha, é óbvio, que sou a mais deslumbrada de todos ali, afinal, as demais pessoas estão acostumadíssimas a vê-la em seus países de origem. Deixamos o acampamento Britânico assim que a neve estia e, por breves momentos, as nuvens dão uma trégua, fazendo com que eu possa avistar os cerros Punta Catalina, Fortaleza, Cabeça de Índio, e, ulálálá, o Máscara, Hoja e Espada, fotografando-os louca de contente. Cercada por esta fantástica muralha de rochas, sinto-me pequena e forte, não me arrependo de haver retornado ao vale. É lindo, muiiiiito liiiindoooo. Não paro de suspirar......de felicidade, é claro! O dia cede lugar à noite e nós ainda na trilha, o silêncio absoluto só é quebrado pelo ruído de nossas botas pisando a trilha. Peço a Daniel que não acenda a lanterna. Tão bom curtir os últimos vestígios de claridade, as sombras caindo sobre a paisagem até que a escuridão impere em definitivo. Muito bacana tudo isso! Às 20 horas, entramos no refúgio, eu com as calças e as botas um tanto quanto molhadas da garoa que nos perseguiu desde o acampamento Italiano, já Daniel, porque usa as roupas corretas pra este tipo de clima, sequinho. Não dá nada, não, tou nem aí, tomo um banho bem quente e vou jantar. Compro uma garrafa de vinho pra temperar a refeição sem graça, afinal, Daniel e eu havíamos caminhado 11 horas, e fizemos por merecer. Sabe bem um vinhozito, o relaxante ideal para mimar nossos doloridos músculos do corpo. Tintim!

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