sexta-feira, 21 de março de 2008

Enfim, montadas no Laskar

Sete da manhã e já estou bem desperta. Dormir em barraca sobre um isolante térmico fininho não é nada confortável. Passo a noite toda acordando a cada vez que viro de lado. Com Paola também se passou o mesmo. Abro a cortina da tenda e raios de sol já colorem de vermelho o cume dos cerros. Excitada com a perspectiva da minha primeira ascensão a um vulcão, levanto e saio. O frio é.....muiiiiito frio!! Pego meu livro e entro na camionete. Distingo pras bandas da laguna Lejia as luzes dos faróis de um carro que se aproxima. O carro passa ao largo de nosso acampamento se dirigindo ao Laskar. Coisa de meia hora mais tarde, Val, Felipe e Paola saem de suas barracas e começa a função de desarmar o acampamento. O desjejum é servido. Misturo aos sucrilhos uma banana em rodelas e, como acabou o leite, rego tudo com suco de futas. Após, bebo um chá de coca bem quente. Ainda está bem frio embora o sol já ouse espichar com mais generosidade seus raios sobre o vale Amarillo. Entramos no carro, e Felipe explica que o Laskar, com 5.672m, é o mais ativo dos quatro vulcões que se situam no norte dos Andes chilenos (os demais são Putana, San Pedro e Chiliques), e sua forma estratovulcânica contém seis sobreposições de crateras em seu cume. A mais recente e impactante erupção ocorreu em 1993, cuja intensa produção de fluxo piroclástico (corpos fluidos compostos de gases quentes, cinzas e pedras) espalhou-se numa distância de 8,5 km, e, pasmem, até com quedas de cinzas em Buenos Aires!! Após 20 minutos, estacionamos o carro próximo ao início da trilha, aberta no flanco oeste do vulcão, nitidamente demarcada. Os ocupantes do carro (um casal de paulista e o guia), que eu vira há duas horas atrás, já estão bem adiantados na subida. Somos informadas de que o desnível até o cume perfaz 800 metros num percurso de 14 km ida e volta. Olho o relógio e os ponteiros marcam exatamente 8:30, hora em que iniciamos a subida. Tiro da mochila o saquinho com folhas de coca que comprara no mercado de San Pedro, na segunda-feira, e ponho um punhado delas na boca. Pra mim, mascá-las funciona às mis maravilhas. Foi assim no Peru, quando fiz a trilha de quatro dias a Machu Pichu. Aqui, a índia, que as vendeu, aconselhou que eu as engolisse. Só paramos duas vezes durante o ascenso. Uma quando ultrapassamos o grupo que estivera até então na dianteira, e outra um pouco antes de alcançar a cratera. Começo a sentir fadiga após 3 horas e meia de caminhada. Daí pra frente, o cansaço nas pernas começa a pegar porque a trilha se torna bem íngreme, com muito cascalho. O solo é cinza escuro, sem qualquer vestígio de vegetação. Os dois carros já são pontos minúsculos na imensidão do vale Amarillo. Respiro fundo e sigo adiante, me apoiando nos bastões, sem procurar olhar muito pra cima. Dá desânimo, e desabafo pros meus botões: "ânimo, mulher! não falta muito pra alcançar o topo do vulcão". E nem passa pela minha cabeça a possibilidade de o Laskar repentinamente entrar em erupção. Já pensou se acontecesse?! A manhã é linda e o céu despejado de nuvens. Às 13 horas, finalmente, alcançamos a cratera. Do enorme buraco, com aproximadamente 1 km de diâmetro e 300 metros de profundidade, saem fumarolas que confundi ingenuamente com nuvens enquanto estivera no vale. Enquanto me recupero, sentada numa pedra, e espero que meus batimentos cardíacos voltem ao normal, sem ânimo, de tão cansada, esqueço inclusive de tirar fotos ou filmar. Contudo, passados quinze minutos já estou restabelecida. Serelepe, me aproximo daquele vasto bocão fumegante. O cheiro de dióxido sulfúrico é bem forte, motivo pelo qual não é aconselhável permanecer mais que trinta minutos aqui em cima. Chego quase na borda apesar de Felipe ficar me enchendo o saco pra não me aproximar demais, e distingo grandes manchas amarelas produzidas pelo enxofre na superfície das paredes internas da cratera. Entretanto nos aguardam mais 70 metros pra atingir o cume do nosso Laskar. E lá vamos nós. Emocionada, choro incontrolavelmente quando atinjo o topo, sem pudor algum, por uns bons cinco minutos. Muitas as emoções....muitas!! Guardo as lágrimas, ainda, copiosas, afinal, tenho a minha frente o lindo perfil do vulcão Águas Calientes quase ao alcance da mão. Lá embaixo o salar de mesmo nome e, ao lado, a laguna Lejia compõem um cenário que pra sempre guardarei em meu coração. Às 13:30, iniciamos a descida que dura não mais que uma hora, ao passo que a subida se fez em 4 horas e meia! Durante o regresso, novo pranto escapa e deixo rolar....fazer o quê? Não é todo dia que se sobe num vulcão, uai!! De volta a San Pedro, mal temos tempo de tomar um banho e comer um almoço às pressas já que temos de estar em Calama, à tardinha, de onde pegaremos nosso avião até Santiago. Chegamos na capital chilena às 22 horas e, adrenadíssimas, ainda, nos sobra ânimo de fazer uma sauna no hotel. Cansadas mas felicíssimas, convido Val pra tomar uma taça de champanhe no bar do hotel. Faço um brinde: "Valzinha, ao que já era e ao que virá....tintim!!"
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Aos pés do Laskar

O roteiro inicial previa que nós, após o desjejum, seguiríamos direto ao vulcão Laskar onde acamparíamos para, no sábado, ascendermos ao seu cume. Infelizmente, há uma alteração nos planos que nos obriga a regressar a San Pedro em vez de ir direto pra lá. Merda, resmungo eu cá com meus botões! Acontece que o saco de dormir e isolante térmico que Val trouxera do Brasil foram insuficientes pra aquecê-la e a pobre amargou um frio danado que a impediu de pregar olho durante quase toda a noite. Eu, que alugara um de Edison, não tive tal infortúnio, cheguei a suar tão quente o saco de dormir e, assim, dormi bem aninhada. Por isso Felipe precisa retornar a San Pedro pra pegar outro mais quente pra Val. Após desmontadas as barracas e colocados os equipamentos na caminhonete, deixamos Tara. Chegamos em San Pedro e cada um toma seu rumo: Val vai com Felipe tomar um banho na pousada onde ele mora e Paola até sua casa fazer alguma coisa, não sei bem o quê, porque nem prestei lá muita atenção.
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Minha cabeça ainda estava em Tara. Combinamos de nos encontrar na agência às 14 horas e de lá almoçarmos no La Soleña, na calle Toconao. Como são 13:30 e tenho ainda meia hora, aproveito e vou tomar um expresso na mesma cafeteria onde estivera há dois dias atrás. Desta vez não veio o tal biscoitinho...que pena!! Avisto Felipe com seu caminhar gingado se aproximando. Pago a conta e vou ao seu encontro. As gurias já estão na agência Planeta Aventura nos esperando. Val revigorada por seu “banho de verdade”, comenta radiante com seu chiado carioca “estou limpinha Bia, limpinha”. Esta é asseada mesmo!! Como o tempo que tínhamos em San Pedro era escasso, tive de escolher entre descarregar minha máquina ou tomar banho. Nem hesitei, preferi a primeira opção. Afinal, ficar dois dias sem banho não é o fim do mundo! Chegamos no restaurante onde nos é servida uma cazuela de marisco, gostosinha, com arroz e alguns legumes. Terminado o almoço, embarcamos no carro e nos mandamos. Do rádio, vem uma música que não podia ser mais chata: meio fúnebre, tudo porque hoje é sexta-feira da paixão e as AM e FM chilenas respeitam a santa data....ai jesus cristinho, dai-me paciência!! Reclamo pra Felipe e ele coloca no cd player o único disco que tem: o tal som de heavy metal alemão que vem nos acompanhado desde quinta-feira....humpf! Rodando estrada afora, já tenho na cabeça a trilha sonora das imagens que filmo. Será alguma das canções da minha atual cantora preferida: Amy Winehouse. Pois não é que numa entrevista, a destrambelhada criatura deu uma fina mostra do humor inglês temperado com molho judaico? (sim, sim, ela pertence ao povo de David). Disse que ficava muito preocupada se o namorado, quando ia pra casa da outra namorada, seria bem alimentado. Que hilária essa inglesa!! Ahahahahaha!!! Após passarmos ao largo da Quebrada de Tumbres e do povoado de Talabre, já dé possível distinguir, perfeitamente, na clara tarde ensolarada, o Laskar. À sua direita, o cerro Corona exibe bem no meio de seus encostas o cume, à semelhança de um peitinho de adolescente. Ao lado do Corona, o Tumisa, formato mais irregular, onde se destacam dois topos tais quais corcovas de camelo. A estrada é pra lá de ruim, puro areião, e os meus ouvidos já sentem aquele zumbido característico de quem está subindo. Tapo o nariz e faço força pra respirar de modo a diminuir a pressão causada pela altitude. Tou nem aí, me sinto tão feliz de estar longe da civilização que suporto isso e o que mais vier! Passamos ao largo da laguna Lejia e paramos num lindo vale atapetado pela vegetação dourada dos coirones. Felipe indagado sobre como se chama o lugar, responde que não tem nome. Daí batizo-o de vale Amarillo. De onde estamos, o Corona apresenta outra forma. Não parece o mesmo que eu avistara da estrada. Também pudera, demos a volta e estamos avistando agora sua face leste. Ao norte, o cone perfeito do vulcão Águas Calientes e a forma esparramada do Laskar de onde saem fumarolas de sua cratera, me deixam extasiada. O lugar é sen-sa-cio-nal. Amo cada vez mais o deserto. Enquanto Felipe fica descarregando o carro e montando o acampamento, Paola, Val e eu iniciamos a subir a encosta do Corona. Estamos a 4.700m. Devido a noite mal dormida, Val não se sente bem e resolve voltar ao acampamento de modo a se preservar, amanhã, pro Laskar. O sol está se pondo quando chegamos ao alto do Corona com seus 5.200m. Deu pra cansar, afinal, foram mais ou menos 500 metros de desnível. Como não me abriguei adequadamente sinto bastante frio. Ademais o vento está bem forte aqui em cima. Por isso pouca demora no cume no cume. Logo estamos baixando. Quando chegamos, a janta está quase pronta e não demora muito estamos comendo uma galinha assada com salada de abacate e tomates. Pra beber nada melhor que um revigorante chá quente. Como o frio está pegando e ainda é cedo, um pouco mais de 20 horas, entramos no carro e lá ficamos conversando. Porque preciso ir ao "banheiro" - localizado atrás de uma rocha grande - saio e percebo deslumbrada surgir, detrás de uns cerros situados a leste, enorme e ainda meio avermelhada pelos últimos raios solares, a lua. Começo a gritar - às vezes até pareço louca - e abro a porta do carro - os coitados até levaram um susto - conclamando o pessoal a admirar tal espetáculo. E sabem o que Felipe faz? Pega o carro e dirige até a laguna Lejia pra que a gente possa contemplar a lua refletida na superfície de suas águas. Sensível ele, não é mesmo? Olha, tá difícil conciliar o sono. Minha vontade é ficar no lado de fora da barraca curtindo o luar deste vasto altiplano atacamenho! Infelizmente, tenho de dormir, e desconsolada entro na barraca. Tchau lua!!
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quinta-feira, 20 de março de 2008

Tarde - Las Catedrales

Chegamos no início da tarde à laguna de Tara, alimentada pelo rio Zapaleri cuja nascente se encontra na Bolívia. Naquela imensidão do deserto, espassa vegetação, em forma de tufos, desponta circundando o espelho d'água. No mais, a coloração clara da areia dá o tom. Vejo bandos de flamengos com os longos bicos dentro da laguna à cata de alimento. De uma beleza sensacional, dispõem-se, paralelos às margens da laguna, dois gigantescos maciços rochosos escarpados situados um em frente ao outro. Assemelham-se a um castelo medieval com suas torres e ameias, recebendo contudo o nome de Las Catedrales. Indescritível o impacto do cenário. Um extâse! À oeste, além da laguna, entrevêem-se os topos nevados dos cerros Poquis, Balcón e Bayo. Felipe, além de guia, é nosso cozinheiro e prepara um almoço rápido e nutritivo com rodelas de tomate, fatias de abacate, batatas cozidas, atum e pão. De bebida, suco de frutas. A mesa é armada e nos refestelamos nas cadeiras para saborear a comida e a paisagem. Nem pinta de vento....eba! O céu, até então azulão, cede espaço a nuvens cinzas e pesadas que surgem detrás dos cerros. "Vai chover?" é a grande indagação. Vamos pras barracas descansar um pouco, as siestas são sempre bem-vindas, por supuesto! Claro está que nem penso em dormir, aproveito pra ler mais um pouco do Poeta, um bom romance policial cuja leitura iniciara ainda no Brasil. Às 16 horas, Felipe nos chama e lá vamos nós quatro fazermos um trekking leve. Pegamos o rumo oeste passando ao largo daqueles monumentos colossais que são as Catedrales. Felipe nos conduz cerro acima até que atinjamos seu topo. É pouca coisa a subida, cerca de 200 metros de desnível. A visão da laguna lá embaixo é linda embora espessas nuvens escuras e baixas ainda toldem de cinzento o horizonte, deixando entrever, contudo, aqui e acolá nesgas de azul no céu. Pra variar, tiro fotos e filmo enlouquecidamente. Portanto, sou deixada pra trás. Nem me incomodo. Até melhor, assim posso com calma apreciar a paisagem e filmar este lindo lugar. A descida é bem chatinha, muita pedra solta, sorte que estou com bastões, caso contrário escorregaria com facilidade pelo íngreme terreno. Avisto lá embaixo, mais à frente Val e Paola, caminhando lado a lado. Felipe há muito se mandou porque queria chegar a tempo de preparar o jantar. O céu desanuvia-se e a tarde torna-se clara embora já passe das 19 horas. Bom sinal, só assim vai dar pra ver bem a lua cuja face branca aponta à oriente da laguna. O frio se faz sentir, nada mais natural, estamos a 4.300 m. Sem pressa, volto pro acampamento, quando de repente um flamengo quebra a quietude da tardinha ruflando a beleza estonteante de suas asas rosa-forte debruadas de preto. Que barulhinho bom! E seu corpo branco e rosa pálido passa uns poucos metros acima de minha cabeça. Fico em estado de graça. A janta é singela: massa com creme de milho. Entretanto, Felipe nos surpreende e saca uma garrafa de vinho tinto. Paola e eu, as pinguças do grupo, esfregamos as mãos de satisfação. Terminamos a bebida dando risadinhas e satisfeitíssimas porque Val e Felipe pararam na primeira taça. Assim sobrou mais pra nós. Felipe fazendo um certo estilo sargentão, anuncia o toque de recolher. Poxa, que droga, quisera prolongar mais a noitada. Resignada, entro na barraca não sem antes abrir uma ponta da cortina pra ver a lua cheia refletindo na laguna seu brilho prateado. Que noite...que noite!!
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Manhã - Salar de Pujsa e Monjes de Lapacana

Pontual, Felipe, que será nosso guia pelos três dias restantes da viagem, chega ao hotel, juntamente com Paola às 7 da matina. Embarcamos na camionete carregada de tralhas e rodamos durante algum tempo pela ruta 27. Durante o trajeto, o contorno do majestoso vulcão Licancabur sobressai no escuro da teimosa madrugada que se nega a recolher. Entretanto, já se percebe, no horizonte rastros dum tom violáceo anunciando o despertar da manhã. O carro abandona o asfalto e dobra à direita, ingressando numa estrada de areia. Val e eu estamos felizes com a perspectiva de acamparmos, o ambiente dentro do carro é descontraído, rola um som maneiro no cd e a conversa flui leve. Rio à toa. À medida que andamos vamos ganhando altura. Felipe informa que já estamos a 4.000 metros. Daqui pra frente, os 2.400 m de San Pedro são fichinha perto do que iremos enfrentar. Fazemos uma parada pra conhecer o salar de Pujsa, zona também pertencente à Reserva Nacional dos Flamengos. Percebo, encantada, tal qual miniaturas de icebergs, consideráveis pedaços de rochas de sal boiando na azulada água. Caminhamos à margem da resplandecente laguna e por lá ficamos um certo tempo, sentados, admirando os flamengos que, indiferentes à nossa presença, fazem seu desjejum. Seus grasnidos são o único som na manhã ensolarada. Felipe nos leva até o alto de uma colina. A vista aqui de cima é estupenda: conforme a incidência da luz solar, a superfície da laguna mostra-se ora pontilhada por manchas amarelas ora esverdeadas. Tal coloração é causada graças à presença de enxofre depositada nas rochas vulcânicas. Ai meu deus, quanta beleza! Embarcamos no carro e já estou a mil. Pensando bem, nem é preciso muito pra que eu fique neste estado, murmuro eu pros meus botões. Embora o sol já se encontre alto no céu, faz frio, coisa de 10º, segundo Felipe. A paisagem durante o trajeto é linda. Os coirones preenchem de verde e dourado as encostas cinza-escuras dos cerros até sumirem por completo. Mais uma vez a paisagem cede espaço às sutis variações do ocre. Há pessoas que acham monótono esse tipo de cenário, eu, no entanto, não canso de admirá-lo. Vem da infância, esse gostar, Ainda meninota, era fascinada pelo Saara que, à época, supunha ser o único deserto do mundo. Santa ignorância! Felipe pára o carro num dos setores do Salar de Tara onde se erguem pilares rochosos distantes uns dos outros por centenas de metros. São conhecidos como Monges ou Guardianes de Lapacana. As impressionantes figuras de pedra se elevam solitárias na planura do deserto. Algumas lembram pênis gigantescos. Comento com Val tal semelhança. Ela, com sua malícia carioca, apelida o lugar de Jardim dos Falos. E não é que pra reforçar o caráter erótico do lugar, os benditos monges situam-se perto da laguna Águas Calientes II ?!
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quarta-feira, 19 de março de 2008

Tarde - Lagunas Cejar e Tebinquinche

Cansada, afinal, dormira pouco mais de três horas, chego no hotel e deito um pouco pra ler. Sinto sono pero osso duro de roer não entrego os pontos e resisto tal qual criancinha birrenta à sonolência. Resolvo ir até a piscina dar um mergulho antes que venham nos buscar às 16 horas para novo passeio. Paola nos apelidou as muchachas ritalínicas devido a nossa grande energia....essa é boa!! A tarde está linda, algumas nuvens aqui e ali sem contudo embaçar o brilho quente do sol. Entro na água com cuidado - tá fria demais pro meu gosto - e fico nadando algum tempo. Como ainda quero tomar um café na cafeteria que se localiza perto do hotel, tomo uma ducha e vou até lá. Val prefere ficar. Pretende descansar um pouco mais. Sento-me a uma mesa, no lado de fora do simpático estabelecimento situado na calle Caracoles com a Domingo Atienza e peço um expresso. Vem acompanhado por um tubinho de massa crocante recheado com chocolate. Trigostoso! Permaneço preguiçosamente, por um tempo, escrevendo. De vez em quando levanto a cabeça do caderno e observo o movimento das pessoas que passam pra lá e pra cá falando aquela babel de idiomas variados. Retorno ao hotel, está quase na hora de partirmos. Vamos conhecer outras lagunas situadas no Salar de Atacama e distantes de San Pedro 30 km. Rodamos um pouco pela rodovia 27, a mesma que leva a Toconao, e logo embarafustamos por uma estrada de areião deveras sacolejante. Val, no final do passeio, ganhou uma super dor nas costas, a coitada. A primeira laguna onde paramos é a Cejar, de coloração esmeralda, cuja concentração de sal é tão intensa que impede que afundemos. Outros turistas, também, encantados, brincam e tiram fotos uns dos outros. Ficamos, eu e Val, flutuando sem fazer força alguma. Percebo rastros brancos de sal nos meus braços e pernas. Afora, isso, minha camiseta, dura de sal, parece uma armadura. Sem exagero, até pesa um pouco. Não queria uma balança por perto de mim nessa hora. Forte coisa a salinidade dessas águas. Pegamos o carro e, em dez minutos sacudidésimos, percorrendo a péssima estradinha, alcançamos Ojos Del Salar. Nem tão salgada quanto a de Cejar, esta laguna, pequena e redonda, apresenta coloração escura. Aqui tiro o sal que me cozinha a pele. Tudo vapt vupt. Esses passeios relâmpagos....tsktsktsk!! Tudo porque há nova laguna a visitar um pouco mais adiante. Tornamos a embarcar na caminhonete e chegamos em pouco mais de cinco minutos à Laguna Tebinquinche. Mas por que não caminhar, meu jesus cristinho? Tão curtas as distâncias entre as três lagunas! Uma certa irritação começa a surgir mas logo cede quando paramos em frente à Tebinquinche. É de cortar o fôlego! Sei lá se por que a lua, quase perfeitamente redonda, desponta branca e pequena no céu acima da Cordilheira dos Andes, ou se pela coloração rósea, vermelha e amarela do sol poente. À medida que me aproximo da laguna, percebo a transformação de suas águas azuis em esverdeadas. Rodeia-a uma grande margem branca de bordas cristalizadas de sal. Um espetáculo! Em frente, a Cordilheira dos Andes exibe o contorno pastel de seus vulcões: Licancabur, cartão postal da região, ladeado, à esquerda pelo Sairecabur e Putana; à sua direita, percebem-se Juriques, Toco, Águas Calientes, Chiliques, Miscante e Miñiques. E a lua lá no alto!! E o sol se pondo! Santo Deus, não sei pra onde olho, fico bem baratinada girando a cabeça de um lado pro outro. O guia e motorista monta uma mesa e nos serve um lanchinho básico: suco de frutas e biscoitos. Reflito, um tantinho ainda irritada enquanto retornamos a San Pedro que este tipo de passeio não me agrada muito não. Duas de suas quatro horas foram rodando de carro e apenas duas, duas apenas, reservadas à contemplação dos belos lugares visitados. Eu teria gostado - isso sim! - de ter permanecido mais tempo em Tebinquinche até que a noite, em definitivo, se instalasse. Imaginem só ver a lua iluminar o branco salar e o reflexo de seu brilho espalhando-se nas águas da laguna? Não teria sido, concordam, qual-quer coi-sa de bom??!! Ah...sei lá, este tipo de tour não faz mesmo minha cabeça, só não!!
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Manhã - Geisers del Tatio

Hoje é dia de conhecer os Geisers Del Tatio. Partimos do hotel quase 5 da matina. Embora a distância seja de apenas 87 km e a atividade dos geisers inicie às 7 horas (prolonga-se apenas até às 10 horas quando cessam por completo), a estrada é tenebrosa. Se o motorista não for hábil e pouco familiarizado com o trajeto, periga derrapar o veículo, caindo numa das grandes valas que margeiam a estrada. Embarcamos no ônibus, Val ainda tenta dormir. Eu, que não quero perder nenhum detalhe, estou de olho arregalado curtindo, no céu, a lua quase cheia. Tão linda.....tão branca quanto os salares da região. Depois de rodarmos por quase 2 horas, paramos para apreciar a noite: miríades de estrelas e constelações, são claramente visíveis, ao contrário de outros dias em que o céu apresentara-se encoberto por nebulosas. Quando chegamos ao local onde se situam os geisers, ainda está escuro. O guia nos leva até a zona que nos toca conhecer. Tudo é muito organizado. O frio é de bater queixo.....brrrrrr!!!! Também pudera, estamos a 4.300m e ainda nem amanheceu por completo. A barra do dia mal é entrevista atrás dos cerros que circundam o planalto de Tatio onde se localiza esse campo geotérmico. Quando tiro a luva pra trocar as pilhas da câmera, meus dedos sentem o impacto dos –2º C. Bah, que frio, meu deus! De alguns buracos, situados no solo de lava vulcânica, são expelidas colunas de vapor cujo efeito visual lembra aqueles filmes de terror, à Conde Drácula....no caso, infernizando turistas no Atacama! De outros, entretanto, um manso e tímido ploc, ploc anuncia incipientes borbulhas até que, subitamente, jatos de água quente, com mais de 10 metros de altura, jorram enérgicos do interior da terra, permanecendo assim por alguns minutos. É qualquer coisa, um espetáculo e tanto! Fico alucinada e não paro de filmar. É servido um desjejum bem legal. Pego um copo de chá e sinto que os dedos de minhas mãos, até então duros de tão gelados, tornam-se menos rígidos em contato com a superfície aquecida do recipiente. A manhã já despontou em definitivo e o contorno das montanhas torna-se perfeitamente nítido. Vislumbro ali um cume nevado, acolá as diversas camadas de substratos de rocha que formam os cerros numa mistura de tonalidades que variam do ocre ao cinza chumbo. Caminhamos por entre os geisers. O ambiente é surreal! O sol, agora forte, e o céu claro são um convite ao banho que nos aguarda na piscina de águas termais circundada caprichosamente por um murinho de pedras. Nem hesito, por supuesto! Entro e, bem refestelada, curto a paisagem, mergulhada em suas águas calientes. Mas tudo o que é bom dura pouco, já é hora de partir. Há dois caminhos para se retornar a San Pedro: um que passa pelas termas de Puritama enquanto o outro conduz a Machuca. É por este que iremos. Acho super legal, afinal, basta de termas por hoje, senão vai dar uma leseira daquelas! O ônibus pára e o guia pergunta quem quer ir a pé até o vilarejo. Eu não me faço de rogada e, junto com mais três turistas, desço a encosta da colina que conduz a única rua de Machuca onde se erguem, em ambos os lados, as indefectíveis casinhas de adobe, com teto baixo coberto de palha, assentadas no chão vermelho arenoso. A pequena igreja, caiada de branco, destaca-se no azul quase sem nuvens do céu. Habitada por seis famílias, perfazendo um total de 50 pessoas, a atividade principal do lugarejo baseia-se no pastoreio de lhamas. Há um pequeno restaurante onde são vendidos alguns petiscos regionais, como empanadas recheadas com queijo de cabra e sopaipillas (um pastel chato e redondo, feito com farinha e abóbora, sem recheio e frito). Do lado de fora, o marido da simpática dona do restaurante assa, numa churrasqueira de metal, brochetas de lhama entremeadas com pedaços de cebola. Provo tanto a sopaipilla quanto as brochetas. Gosto do sabor e da textura da carne desse animal e mais contente fico quando sou informada por uma turista colombiana de que é livre de colesterol. Bem alimentados, embarcamos novamente rumo a San Pedro. Durante o trajeto, são freqüentemente avistáveis alguns animais das estepes altiplânicas como guayata, chinchilas e ñandus. Na breve parada no rio Putana, cujas águas provêm do degelo das neves existentes no vulcão de mesmo nome, observo outra espécie de tagua, a grande. Do simpático jovem sentado ao meu lado no ônibus (natural de San Pedro, estuda turismo), recebo informações das quatro espécies de camelídeos existentes no Chile. As vicuñas - explica ele - possuem a lã mais cara, acessível para poucos bolsos, porque, além da textura finíssima, a quantidade obtida é de apenas 250 gramas. Dos demais, a alpaca, o guanaco e a lhama - continua o rapaz - este é o mais generoso: fornece, em média, a cada tosquia, cerca de 4 kg. Qualquer um pode comprá-la. O ônibus atravessa a quebrada de Puritama, outro oásis a impor, na paisagem monocromática do deserto, o verde de sua vegetação. Dentre as várias plantas, chama a atenção a cola de raposa: das finas hastes verdes, chamadas cortadeiras, brota, no topo, uma espessa e macia plumagem de coloração amarelo-palha. Os cactus gigantes dominam certo trecho da paisagem. Ingressamos no asfalto – que lástima - adoro estradas, ainda que péssimas, de chão batido. Não demora muito e logo avisto um cenário que se está tornando familiar: o perfeito cone do Licancabur à esquerda, a Cordilheira do Sal à frente, e o cerro Kimal à direita. De San Pedro, já avisto algumas casas. São 13:10. Quão rápida passou a manhã!
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terça-feira, 18 de março de 2008

Reserva Nacional dos Flamingos

Dia de longo passeio. E de carro ainda por cima. Curto mesmo são as caminhadas. Talvez por isso, embora os lugares que haja visitado sejam lindos, não são os que guardo com mais afeição. Javier, desta feita, será nosso guia. Apelidei-o de professor. Didático, é muito preciso em suas informações. Engenheiro, com mais de 50 anos, abandonou sua vida em Santiago e ei-lo aqui em San Pedro trabalhando como guia. Sinto que gosta deveras do que faz. Divorciado, preza sua liberdade. Invejo-o pela ousadia em trocar sua antiga vida confortável pela incerteza da nova escolha. O veículo roda sem pressa estrada afora. Javier conversa pausadamente, informando-nos sobre as peculiaridades dos lugares por onde passamos. Daí se torna fácil entender seu espanhol. Na camionete, além de Val, um casal de bascos e sua filhinha, ainda bebê, mais um amigo. O ambiente, dentro do carro é gostoso, cálido, afinal somos todos latinos. Ao tom ocre da paisagem um aditivo a mais suaviza o contorno da Cordilheira dos Andes e seus vulcões: a misteriosa bruma que paira sobre a região. À direita, impõe-se a Cordilheira de Domeyco e seu maior cerro, o Kimal. Sua coloração escura contrapõe-se à coloração clara da Cordilheira do Sal. O dia continua lindo. Céu azul, sem nuvens, uma luminosidade extraordinária. Meus olhos já ardem. Vamos conhecer alguns dos lugares que fazem parte da Reserva Nacional dos Flamingos: os bosques de Tambillo formados por milhares e milhares de tamarugos plantados em ambos os lados da ruta 27, rodovia que liga Calama a Toconao, nossa primeira parada. Com 550 habitantes, o pueblito situa-se no vale de Jere, outro oásis a enfeitar de verde o deserto do Atacama. Banhada por rios menos salobres, torna-se possível a plantação de frutas, legumes e verduras. Percorremos algumas de suas ruas de chão batido, com casas de adobes, semelhantes às de San Pedro, antes de rumarmos a Socaire. No pueblito situado a 3.400m, habitam-no apenas 180 almas. Deixamos o asfalto e ingressamos numa estrada de chão batido cujo destino são as lagunas Miscanti e Miñiques, também pertencentes à Reserva Nacional dos Flamengos. Meus ouvidos zumbem, o efeito da altitude já se faz sentir. Continuamos a subir até que alcancemos 4.200 m onde se localizam as lagunas Miscanti e Miñiques. Ao longo do caminho, contemplo a linda planície altiplânica, cuja vegetação típica de estepe caracteriza-se pelos tufos de coirones. O solo arenoso, a esta época do ano, encontra-se atapetado de dourado. Rodeadas ambas as lagunas por vulcões, exibe o vulcão Miscanti uma coloração escura enquanto o Miñiques (significa, podem crer! mindinho), lindo, muy rico, apresenta matizes cinza chumbo, bege e verde. Javier diz que a coloração dos cerros depende do tipo de mineral que jorra dos derramamentos de lava, geralmente, vermelhos. Mas às vezes respinga na terra uma lava de um verde acobreado. Avisto às margens das duas lagunas, de águas placidamente azuladas, pescando, algumas aves características desta região: taguas cornudas (pretas) e guayatas (brancas). A areia, ao redor das lagunas, distantes uma da outra menos de 1 km, porque coberta de sal, é branca, bem branquinha. Chama atenção por sua forma cônica, ao lado do vulcão Miscanti, o belíssimo vulcão Chiliques. Salve-se quem puder deste vulcão quando dá seus xiliques, hehe!! Na volta, almoçamos em Socaire no restaurante de dona Palmenia, uma índia simpática e gorda. Javier traz uma comprida mesa pro lado de fora do restaurante. Aplaudo tal iniciativa. Muito sensível nosso guia-chauffeur! Comer ao ar livre é bem mais agradável. A comida simples é saborosa: sopa de legumes (uma delícia), frango assado, quínua e arroz (nem precisava deste cereal já que a quínua nutre bem melhor). De sobremesa, maçã vermelha. Ficamos um tempinho conversando e fumando cigarrinhos, enfim, fazendo a digestão – pressa foi riscada do vocabulário de Javier – até que embarcamos na camionete em direção à Laguna de Chaxa, outro sítio da Reserva Nacional dos Flamengos. Situada no salar do Atacama, o lugar deslumbra não só pela brancura de seu chão atapetado de sal como pelas duas espécies de flamengos que a habitam: o chileno e o andino. Este último, lindo, lindíssimo, com asas pretas, corpo branco e rosado. Voam sobre nossas cabeças emitindo, alguns, grasnidos agudos. Mais adiante, um bando deles de bicos n'água alimentam-se de algas e crustáceos. Mestre Jávier explica o funcionamento da cadeia alimentar: as algas, que produzem uma película de betacaroteno com três cores, vermelha, verde e laranja, são comidas por crustáceos existentes na laguna. Os flamengos alimentam-se tanto das algas (daí a cor de suas penas) quanto dos crustáceos. Por sua vez, os zorros tratam de papar os flamengos que, se não houvesse os cuidados dos ambientalistas, estariam ou sendo assados em restaurantes de carnes exóticas ou enfeitando jardins suburbanos. Pela primeira vez desde que saímos do Brasil, Val e eu decidimos comer algo que não sejam os indefectíveis lunches boxes. À noite, então, escolhemos jantar no La Estaka. Iluminado por luzes de vela e lampiões, o lugar é escuro. Ambiente de boate, bom pra namorar, infelizmente, inadequado à degustação de comida. Restaurante que se preze deve oferecer uma boa iluminação para que se possa apreciar com nitidez o que é servido. Pra mim o ato de "comer com os olhos" é anticlímax do que vou degustar. Bem irritante esses restaurantes de luzes esquálidas. Mais servem pra esconder do que pra revelar. Entretanto, como não sou de toda injusta, reconheço: o salmão está ao ponto.
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segunda-feira, 17 de março de 2008

Passeio na Cordilheira do Sal

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Paola, bióloga marinha, santiaguina, residente há um ano em San Pedro é quem nos guiará em nosso city tour pelo povoado. Simpática, de voz macia, a tranqüila pisciana nos busca no hotel e lá vamos nós, as três, animadíssimas, caminhando despacito pelas ruas ensolaradas do povoado. A bem da verdade, nem precisaríamos de guia porque o pueblito é tão pequeno que nem cego nele se perderia. San Pedro tem uma população de 2.500 habitantes. Até dezembro do ano passado, sua iluminação era desligada a partir das 22 horas. Não só nas ruas como em todos estabelecimentos comerciais e residenciais. Black out total, só luzes de velas e lanternas. Deveria ser bem legal. O dia pra variar está ma-ra-vi-lho-so, um sol quente aquece minha alma e meu corpo. O comércio tem em mira os forasteiros. Uma agência de turismo ao lado da outra. Todas oferecem praticamente o mesmo preço, variações são mínimas. Lojas de artesanato e armazéns de víveres. Há até uma loja Rockford. Ao longe o imponente Licancabur exibe seu cume nevado. A indefectível igrejinha em estilo colonial espanhol caiada de branco situa-se num dos quadriláteros da praça. Em frente, a intendência municipal com as típicas arcadas, herança arquitetônica do antigo colonizador. Num bequinho, o mercado, um galpão comprido e estreito exibe mercadorias regionais, destacando-se aquelas feitas de cactus. Reconheço algumas peças peruanas. O Chile é pobre em artesanato indígena, já Bolívia e Peru preservam zelosamente a marca de seus povos autóctones. Enquanto passeamos, Paola nos explica que San Pedro é um dos diversos oásis existentes no deserto do Atacama e quatro são as árvores que aqui nascem: do algarrobo se faz uma bebida alcoólica, alahoa, oferecida a Pacha Mama; do chanar, farinha e mel. Tamarugo e pimiento servem de alimentos aos animais. Terminado o breve passeio, alugamos bicicletas pra conhecer Pukará de Quitor (significa oásis na língua kunza, falada pelos índios atacamenhos), situada a 3 km de San Pedro. Esta fortaleza pré-inca foi construída pelos atacamenhos numa encosta da Cordilheira do Sal para se defenderem da invasão dos incas. Posteriormente, por ironia do destino, serviu de abrigo a esta civilização contra o ataque dos espanhóis. Há dois setores: o militar onde se encontram as ruínas do sítio arqueológico ao passo que, no segundo, um portal de rocha sedimentar conduz a uma série de cavernas. Duas cabeças de índios esculpidas na rocha de bela coloração avermelhada destacam-se no azul do céu. Bem eu quisera explorar as cavernas mas o tempo urge. Como se não bastasse o episódio do atraso do vôo pro Rio, sabem o que mais me acontece? O pneu da bike estoura mal eu saio de Quitor. Não me resta outra alternativa senão carregá-la no muque. Fico aflita porque tenho novo passeio marcado pras 16 horas e só me sobram quinze minutos pra chegar em San Pedro. Bufando estrada afora, amaldiçôo o dono da bicicleta até sua terceira geração. Felizmente, aparece uma camionete, faço sinal, e o gentil motorista põe a bike na carroceria e lá me vou sã e salva até o povoado. Uuufaaa!!! E lá vamos nós estrada afora. Só mulheres: Claudia, a motorista, uma linda morena de olhos verdes, Paola, nossa meiga e paciente guia, Val e Euzinha vamos conhecer o Vale da Morte, a Pedra do Coiote, a Quebrada de Kari e o Vale da Luna situados na Cordilheira do Sal. Dominando a paisagem, de oeste a leste, avultam as Cordilheiras de Domeyco, a do Sal e a dos Andes. Entre as cordilheiras de Domeyco, a mais antiga das três, e a dos Andes situa-se a do Sal, a caçula, com 7 milhões de anos. Entre esta e a dos Andes, onde se situa a maioria das montanhas e vulcões com mais de 5.000 metros de altura, localiza-se o Salar de Atacama, uma depressão com 100 km de extensão e 50 km de largura. A maior salina do Chile, oriunda provavelmente de um lago que secou, constitui uma das mais importantes fontes econômicas do país porque abriga a maior reserva mundial de lítio, além de outros minerais como potássio e bário. Primeira parada no Vale da Morte onde se pratica sandboard em suas dunas. Após uma rápida caminhada, embarcamos no carro. Próximo destino: pedra do Coiote de onde iniciamos um leve trekking de duas horas percorrendo, primeiramente, Las Cornijas, um vale rodeado de dunas até adentrarmos na Quebrada (canion) de Kari. Os vestígios de sal são evidentes: o chão apresenta-se branco, branquinho. Numa das cavernas por onde passamos podemos vê-lo solidificado tal qual cristal de rocha! Pros desavisados assemelha-se a quartzo branco. Totalmente diferente esta paisagem. Coisa de louco. Claudia está nos esperando no carro, e lá vamos nós felizes rumo ao Vale de la Luna admirar la puesta del sol. Dunas e mais dunas. Querem saber duma coisa? Foi o lugar de que menos gostei. Nem se discute sua beleza. Exatamente por ser cartão postal da região atrai tanta mas tanta gente que pra tirar fotografias tem se fazer acrobacias, de forma a evitar a presença de cabeças e outros membros humanos nas fotos....tsktsktsk. De volta a San Pedro descarrego a memória da digital numa loja de internet em frente a praça. Nem janto, sei lá, estou tão excitada que perdi o apetite....coisa rara! A dor de cabeça, não muito forte, incomoda um pouco. Nada que um bom analgésico não resolva. De Valéria não escuto nem um ai. Ressona tranqüila a amiga. Durmo embalada pelo ruído das vagens de tamarugo que caem no chão......ploct.....ploct.
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domingo, 16 de março de 2008

Retorno ao Chile

Meu retorno ao Chile foi meio inesperado. Não planejava voltar tão cedo a esse país, talvez no final do ano. Entretanto Valéria, uma carioca, que eu conhecera ano passado durante a viagem à Chapada dos Veadeiros me pôs uma pilha pra subirmos a um vulcão e, claro, isso bastou pra que meu lado aventureiro aflorasse assanhado. Devido ao pouco tempo – feriado de páscoa - optei por contratar uma agência que organizasse nosso roteiro descartando o improviso que as viagens solitárias proporcionam. A companhia aérea, desta feita Lan Chile, sairia do Rio de Janeiro às 2 da manhã do dia 15. Havíamos decidido permanecer sábado em Santiago pra fazer compras nas diversas lojas especializadas em roupa de trekking existentes na cidade. O vôo à cidade maravilhosa sairia às 20 horas, com tempo de folga de modo a permitir que eu pegasse o avião pra Santiago. Qual o quê!! Sei lá por que sempre que vou ao Chile dá uma urucubaca nos aeroportos embaçando minha viagem. Dessa vez, meu vôo não foi cancelado, contudo o atraso em decorrência de fortes chuvas na cidade dita, arghhh!! maravilhosa foi tanto, tanto que quase perco o avião pra Santiago. O que eu sofri até embarcar no avião após quase três horas de permanência no aeroporto em Porto Alegre foi um misto de aflição e irritação controladas. Pura tortura. Só desejo pro pior inimigo, tá?! O avião da Gol sai às 22:40 com previsão de aterrissagem às 00:20. Eu a essa altura já estou entrando em desespero, até de suores frios sou acometida. Val com quem me comunico a cada 10 minutos por celular me diz que a Lan Chile me espera até à 01:30. Embora o avião alcance o Rio às 00:20 não pode aterrissar porque não a torre não lhe dá ordens pra pousar. Tudo em decorrência dos atrasos provocados pela chuva. Ficamos sobrevoando a cidade por 20 minutos! Então finalmente pousamos às 00:40. Penso com alívio: Biazinha, ainda há tempo....mas qual o quê! O bus que deveria levar os passageiros até o terminal 1 não chega....é mole ou quer mais?!! Demora bem uns 15 minutos pra chegar à porta da aeronave e leva mais 10 até alcançar o dito terminal. Já são 01:05 quando descemos do ônibus e lá me vou esbaforida até a esteira onde as malas vão ser descarregadas. Pra aumentar minha ansiedade as malas que são colocadas pertencem à outra companhia aérea. À 01:20, as malas da Gol surgem na esteira. Torço pra que a minha seja uma das primeiras!! Mas que nada, meus nervos continuam a ser testados. Olho incessantemente o relógio e à 01:30 a porra da mala aponta na esteira. Já meio sem esperança, saio em desabalada carreira em busca da escada rolante que conduz ao segundo piso onde se faz o check in da Lan Chile. Estão me esperando embora o relógio já marque 01:40. Val nos diversos telefonemas que trocáramos só dizia com aquele sotaque mole de carioca “Bia, tenho certeza, tudo vai dar certo”. Num desses últimos telefonemas, a vontade que tive depois de escutar seu mantra otimista foi de enviá-la à merda. Caracas, penso com meus botões, é fácil ser esperançosa quando se está na sala de embarque livre de imprevistos. Enfim, a salvo, dentro do avião, pouco dormi. Também pudera, depois de toda aquela provação estou tão excitada que só uma marretada na cabeça ou um Rohypnol me põem a nocaute. Chegamos, dia 15, em Santiago, às 07:30, e nos hospedamos no hotel Kennedy, situado em Vitacura, um belo bairro habitado pela classe média alta santiaguina. Deixamos as malas no quarto e nos tocamos alegríssimas pro shopping Arauca onde há boas lojas de roupas esportivas, como a Rock Ford, a Columbia e a North Face. O dia está lindo, um calor gostoso. Fazemos algumas compras e pegamos um táxi em direção ao shopping Alto de las Condes avistando ao longe o belo cume nevado do cerro Colorado com seus 3.049m. Compramos num supermercado duas garrafas de vinho branco e uma tábua de queijos pra comermos no hotel. Uma delícia nossa ceia. Fazemos uma sauninha básica e depois cama.Dia 16, acordamos cedo resolvidas a fazer um city tour pela bela capital dos chilenos. Embarcamos num daqueles típicos ônibus de turismo que há em todas as capitais do planeta e rodamos pelas ruas de Santiago, desertas, como sói acontecer nos dias de domingo. A bela manhã aumenta a curtição da paisagem sempre encoberta por uma leve névoa cujo efeito suaviza o perfil dos cerros que rodeiam a cidade situada num vale da Cordilheira dos Andes. O vôo de Santiago a Calama dura três horas. Chegamos às 19:30. Javier já está a nossa espera no aeroporto segurando um cartaz com meu nome impresso. Embarcamos na van rumo a San Pedro distante apenas uma hora e quinze minutos e situada a 2.400 m. Javier é pai de Edson, dono da agência Planeta Aventura, responsável pelo nosso receptivo em San Pedro. Mostra-se um excelente guia, dirigindo sem pressa enquanto nos informa sobre as características do lugar. Como toda região desértica, o ar é seco e quente durante o dia. Já a noite esfria, mas não muito nesta época do ano porque mal iniciou o outono. Embora eu já tivesse visto fotos na internete do pequeno povoado, mesmo assim me surpreendo. Com ruas de chão batido, a maioria de suas casas são feitas de adobe, sem pintura e com pé direito baixo. Muitos turistas passeiam nas ruazinhas e a algaravia das línguas revela diversos idiomas, em especial alemão, francês, inglês e......português! O hotel onde nos hospedamos, o Kimal, também em adobe, tem suas habitações interligadas por pequenas vielas, imitando um pueblito. Bem charmoso, conta com piscina e jacuzzi térmica ao ar livre. Entro na água quentinha e do céu a lua quase cheia faz, bah! olho branco pra mim....pode?!
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