domingo, 28 de fevereiro de 2010

Manaus....um tédio!

Chegamos a Manaus na quinta à noite. Como Lili e Ely partem pra Sampa ainda hoje, e Marcelo, embora dormindo na cidade, embarque amanhã cedo pra Belo Horizonte, decidimos jantar os quatro no aeroporto. Um tanto melancólica nossa refeição, afinal, finalera de viagem é sempre assim, com cada um seguindo seu rumo. Promessas mis de manter contato. E todo mundo acreditando, piamente, anotando emails e telefones. Se durar uma semana a empolgação, é muito! Sexta-feira, a agência que eu contratara, quando aqui estivera, antes de ir a São Gabriel, envia um carro que me leva até o porto. Subo num barco, tipo gaiola, com dois passadiços, e navegamos até o ponto onde ocorre o famoso encontro das águas do rio Negro com as do Solimões. Tal fenômeno acontece em decorrência da diferença entre a densidade e temperatura das águas bem como da velocidade de suas correntezas. Não acho muita graça, sinceramente, nesse tal fenômeno das águas escuras do Negro não se deixar envolver pelas águas barrentas do Solimões. Sei lá se porque um aguaceiro despenca e lonas azuis são baixadas pela tripulação, reduzindo a visão a nesgas de paisagem. A bem da verdade, nem muita coisa se perde, porque o cenário é bem monótono. O fato é que nos encerram naquela cápsula azulada e lá permanecemos, tiritando de frio (frio, sim!), açoitados por um ventinho insidioso. O céu pesado, carregado de nuvens pretas, sinaliza sua má intenção de continuar mandando água. Passeio chato e convencional, pra inglês ver. Coincidência ou não, a maioria dos turistas que encontro no tal restaurante onde paramos pra almoçar, perto do lago Janauari, constitui-se duma inglesada de terceira idade, pra lá de entusiasmada com a selva amazônica. E a chuva continua a cair em bátegas incessantes, tanto assim que fazemos a caminhada até o lago, onde há milhares de vitórias-régias, sob forte chuvaral. O guia, um baixinho enfezadinho, de meia-idade, aumenta meus conhecimentos de zoologia, discorrendo sobre o jaçanã. Esta ave faz seus ninhos sobre as vitórias-régias, aproveitando-se da proteção oferecida pelos seus espinhos, localizados sob a superfície da água. Mas sua esperteza vai mais além. Zombeteira, busca resíduos de matéria orgânica, adivinhem, onde? Entre os dentes dos jacarés! Hahaha!! Que figuraças os jaçanãs. São as escovas de dentes aéreas das dentarolas desses lagartões boca abertas, hahaha!! Depois do almoço, num restaurante onde se acotovelam trocentos turistas (que balbúrdia desagrável, meu deus), o guia inventa outra navegação, dessa feita, numa pequena canoa pra conhecermos um igarapé. Coisa mais sem graça de se ver, se comparada à exuberante paisagem que desfrutei durante a expedição ao Neblina. Dou graças aos céus quando retornamos a Manaus. Se o passeio continuasse, com certeza, eu surtaria. No dia seguinte, sábado, uma visita obrigatória se impõe: conhecer o teatro Amazonas. O seu recinto, de fato, é bonito. Sua sala de espetáculos, enfeitada de dourado e vermelho, goteja a imponência pesadona dum certo estilo barroco-rococó. No salão nobre, impresso no teto, o lindíssimo afresco, obra de Domenico de Angelis, é realmente digno de admiração. Insistindo na minha vocação de turista convencional (que masoca estou me saindo!), saio do teatro e tomo assento num ônibus de dois andares, pronta pra fazer um city tour pela cidade. No andar superior, dois baianos, um casal e mais outro cara, solitário que nem eu. Minha impressão de Manaus não melhora. Continuo a considerá-la sem charme, despida de grandes atrativos. Nem mesmo a tal praia de Ponta Negra com seus espigões luxuosos me comove. Além do mais sou obrigada a ouvir os comentários entusiasmadíssimos do guia sobre o preço dos imóveis: “custa um apartamento aqui dois, três milhões”. E eu com isso, penso lá com meus botões! Sem sombra de dúvida, o Rio Negro, aqui em Manaus, não exibe a suntuosa beleza que exibe em São Gabriel. Meu coração foi fisgado, em definitivo, por aquela cidade. Ai, São Gabriel, que saudades! Termino o city tour, no largo São Sebastião, sentada num banco ao lado da barraca da Gisela, onde compro uma cuia de tacacá (caldo feito com tucupi, goma de tapioca cozida, jambu e camarão seco). O badalo do sino da igreja anuncia a hora do ângelus, conclamando os fiéis pra missa das 18 horas. De sobremesa, provo o maçudo porém gostosésimo bolo Luiz Felipe, uma mistura de farinha, côco e queijo. E à noite, vou atrás do incensado restaurante Waku Sese, onde provo uma costela de tambaqui embora a farofa, muito granulosa, deixe a desejar. E volto pro hotel de moto-táxi. Na cabeça, um capacete cor de rosa que o motora carrega pra uso dos passageiros! Agarrada na cintura do homem, me despeço das ruas de Manaus, com um suspiro de alívio.
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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Forrozeira no Boca Rica

Enquanto aguardamos Armindo, no paradouro Boca do Tucano, deitados nas redes, alinhadas sob uma armação de madeira cujo teto é protegido por uma palha caprichosamente trançada, jogamos conversa fora pra matar o tempo. Mosquiteiros nos protegem dos demoníacos insetos alados. O zum zum das abelhas zunindo ao redor não dá conta de competir com o enérgico trilar das cigarras cujo som lembra o dum reco-reco. O igarapé Tucano é um convite ao banho. Não me faço de rogada. Abandono o conforto da rede e mergulho em suas águas claras, de amena temperatura. Armindo chega por volta das 14 enquanto almoçamos. Partimos da boca do Tucano às 15 horas. O dia lindo se enevoa. Trovões ao longe denunciam a iminência da chuva que não tarda muito em despencar. Gotas graúdas açoitam de leve nossa pele. O chuvaral dura uns bons 20 minutos. Dessa vez, dispensamos o uso da lona e permitimos nos molhar. Coisa boa tudo isso! Desde então, o céu mantém-se encoberto, raramente, entrevendo-se nacos de azul. A quantidade de pássaros é de encher os olhos: mergulhões, curicas (um tipo de papagaio), andorinhas, garças, martins-pescadores, maguaris e mutuns voejam no céu. Incrível a variedade de formatos de ninhos, correspondendo cada tipo a espécies distintas de pássaros. Como se fosse um condomínio maluco, há os que se agrupam não só no sentido horizontal como no vertical, construídos por pequenos pássaros de vibrante plumagem amarela e preta. Já o japim os tece em longos pingentes, colocados, precavidamente, no topo dos galhos mais altos das árvores. Embora descendo o rio, a viagem até a Boca do Maturaká demorou uma hora a mais que na vinda. No decurso desses 7 dias, o rio mais seco ficou devido à habitual estiagem nessa época do ano. A canoa pára numa prainha, situada algumas dezenas de metros da boca do Maturaká. Já lá se encontram instaladas em duas redes três índias: uma jovem com sua filhinha, pouco mais que um bebê, com ar de permanente zanga, e outra mais velha, mãe da jovem e avó da criança. Armindo as trouxera da aldeia, largando-as aqui enquanto ia ao nosso encontro na Boca do Tucano nos pegar. Vão conosco de carona amanhã até São Gabriel. Nem bem chegamos, já passada em muito as 6 da tarde, Bosco atraca sua canoa na prainha onde vamos passar a noite. Acompanha-o seu filho, um menino, adoravelmente, encabulado. Traz artesanato pra vender, encomendado por Lili, Marcelo e Ely. Peço à jovem índia que faça uma demonstração com o arco e flecha que Marcelo adquirira de Bosco. Ela, meio envergonhada, empunha, entretanto, o grande arco e dispara com firmeza a seta que embica na areia alguns metros adiante. Nos tempos de antanho, nem tão longínquos assim, as mulheres yanomamis também participavam dos embates com tribos rivais. A noite cai e o céu permanece nublado. Resolvemos, Marcelo, Lili e eu dormir ao relento, enrolados em nossos sacos de dormir. Custo a pegar no sono o que me permite apreciar as nuvens cederem espaço a um céu estrelado e a uma já rechonchuda lua quase cheia. Hoje, terça-feira, partimos da Boca do Maturaká às 7 horas. Pepe, durante a navegação no Cauaburis, conta que do outro lado da fronteira, na Colômbia, uma pequena cidade, ainda controlada pela Farc, exige permissão do comandante da tão temida organização paramilitar pra ser visitada, pode? Agarradas nos galhos de certas árvores, sementes arredondadas lembram cogumelos. Enormes costelas de adão parasitam árvores sem dó nem piedade. Despontam entre o arvoredo jauaris, açaís, pupunhas, tucumãs, paxiúbas e inajás, dentre as muitas espécies de palmeiras existentes no verdor da mata amazônica. Já navegando no igarapé Yá-Grande, uma tabuleta indica o limite territorial entre as terras dos Yanomamis e aquelas pertencentes aos Tukanos. Dando adeus, então, ao reino dos Yanomamis, adentramos agora o reduto dos Tukanos, soberanos absolutos do pedaço, onde a comunidade Yá-Mirim, situada à beira do km 85 da BR 307, é o destino final de nossa navegação. Às 14 e 15, avistamos Branco. Depois de carregar todo o tralharedo da voadeira pro Bandeirantes, partimos rumo a São Gabriel onde chegamos às 17 e 15. Bem quisera eu estender mais a noite após a janta. Podre de cansada, não resisto e volto pro hotel. Embora hospedada em estabelecimento mais humilde que o anterior, este tem a seu favor a paisagem que se descortina dos quartos e do refeitório. O visual soberbo do rio Negro e da Bela Adormecida compensa a ausência de certos confortos materiais, não é mesmo? Os homens, cheios de planos safados, permanecem na rua do Badalo. Tramam entre eles uma noite de farra. Bom proveito, guris! Na quarta-feira, encontro Lili e Marcelo num restaurante, localizado em frente à praça, cujas proprietárias são Marinês e Teresa. A comida, anunciada numa tabuleta, é muiiito saborosa. Uma delícia de lugar. Afixada na parede, uma placa de publicidade anuncia: “Locadora Rio Negro à Alugamos carros, motos e pula-pula.” Essa é boa, hahaha!! Ficamos lá um bom tempo curtindo as estórias desfiadas pelas duas irmãs. Mulheres de garimpeiros, as duas toparam ir com seus maridos até a Venezuela na cata do metal precioso. Descoberto, o grupo de brasileiros, que ali cavoucava a terra ilegalmente - num total de 72 pessoas -, empreendeu uma espetacular e cinematográfica fuga, perseguidos durante semanas pela temível guarda nacional do país de Hugo Chávez que, desrespeitando fronteiras, se embrenhou em território brasileiro, na caça aos fugitivos. Escondidos na selva durante 4 meses e 14 dias, só 17 conseguiram escapar. Marinês conta que até canoa de tronco de árvore fizeram pra poder navegar. Certo dia, enquanto desciam um rio, Teresa caiu nas águas cuja forte correnteza quase a enguliu em seu vórtice feroz. Quem estava na canoa só se preocupou em resgatar a panela que Teresa segurava. Se não fosse a presteza de Marinês, agarrando-a pelos longos cabelos (sua salvação foi a cabelama), Teresa, a essa hora, estaria servindo de comida pros peixes. Dureza a fuga deles, tiveram de comer o que a floresta lhes oferecia e olhe lá. Sem espingarda, a caça era bem difícil de ser obtida. Há muita tensão nessa região do Parque Nacional do Pico da Neblina: entre os índios e garimpeiros, entre o exército e os índios e entre os garimpeiros e Polícia Federal. Corre o rumor de que a Polícia Federal está pressionando os índios pra entregarem os garimpeiros que extraem, ilegalmente, ouro no parque. Entretanto, muitos deles acobertam os garimpeiros em troca dum pedágio: pepitas de ouro, é claro. Segundo filosofa Negão, barqueiro e conhecedor da região, “o Neblina não é para os mais fortes nem para os mais fracos. É pra quem tem opinião.” Falou e disse, meu bom! No final de tarde, passeando à beira do rio Negro, curto a agitação na praia, enquanto o sol se põe. Crianças jogando bola, casais passeando de mãos dadas, homens correndo no calçadão e jovens, simplesmente, curtindo, sentados na branca areia. Canoas cruzando o rio, transportam os índios Kotiria Dow, tribo que vive na margem oposta. De pequena estatura e porte franzino dão ares com os pigmeus. A Bela Adormecida mal se entrevê ao longe, encoberta que está pela bruma vespertina. Encontro Lili sentada ao ar livre, no barzinho localizado na esquina do hotel. Escolho uma saborosa cachaça de cupuaçu com pera e a degusto com duas pedras de gelo. Supimpa este drinque. Como é véspera de nossa partida, comemoramos a rigor, na rua do Badalo onde jantamos dois tucunarés grelhados, regados a cerveja e caipirinha de goiaba (uma delícia!). E pra fechar com chave de ouro nossa expedição, nos tocamos, assanhados, pro Boca Rica (o nome, por óbvio, é uma alusão aos dentes de ouro que enfeitam a boca de muitos homens que vivem na região), cabaré situado a uns 4 km da cidade, onde o forró rola solto. Quisera permanecer mais tempo por aqui, infelizmente, meu voo parte amanhã à tardinha pra Manaus, lá permanecendo até domingo. Ai, São Gabriel, já tô com saudades antes de partir!
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domingo, 21 de fevereiro de 2010

Boca do Tucano

Nem bem saímos de Bebedouro Novo às 7 e 30, uma rápida e mansa chuvinha nos apanha em meio à trilha. A vegetação resplandece de tão molhada, uma beleza! A floresta, habitualmente escura devido à ínfima incidência de luz solar, agora, com o céu toldado de nuvens, mais escura se encontra. Porque volta e meia paro pra fotografar e filmar, o resto do grupo me ultrapassa. Decorrida meia-hora, alcanço o pessoal parado em fila indiana. Estranhando a situação, pergunto a Ely o que tá rolando. E sou inteirada de que Messias, que largara na frente, deu de cara com uma jararaca. Assustado, deu meia-volta, buscando refúgio junto aos outros membros da expedição. Lili comenta que o guri chegou a ficar branco de pavor quando se juntou a eles. Pepe, com um bastão, dá bengaladas no meio do mato procurando espantar a danada da víbora cuja picada, letal, é motivo de forte receio não só de índios quanto de garimpeiros que zanzam na floresta. Mais fácil morrer da peçonha destilada por esse réptil que de outro mal, considerando a rapidez com que o veneno se espalha na corrente sanguínea. As distâncias a percorrer e a lenta locomoção dos barcos - únicos veículos disponíveis nessas regiões – são impeditivos a um pronto atendimento, impossibilitando, via de regra, qualquer chance de salvação. Ééé.....dura a vida aqui no interior da floresta! Enfim, a fila anda. Eu, que até então estava na boa, agora, me torno deveras impressionada: vejo cobras e não lagartos em cada raiz de árvore fincada no solo. Após um bom trecho percorrido, solita, encontro Lili, escarrapachada no chão, enquanto Pepe, dando uma de sapateiro, improvisa, com pedaços de cipó, uma amarração em ambas as solas que se descolaram por completo do calçado. Lili deu azar com suas botas: um pé, já bem ruinzinho, desde a subida ao Neblina, se espandongou total e geral, o outro, se detonou não faz muito. Felizmente, a habilidade de Pepe funciona, e ela pode continuar caminhando com relativo conforto. Durante uma parte do trajeto, Pepe e eu nos mantemos afastados dos outros. Eu na frente, Pepe, atrás. Um longo e vigoroso silvo faz com que eu pare para apreciá-lo. O guia diz que o som é emitido pelo gogó do capitão do mato, ave pequena, difícil de ser vista nas árvores. Sua presença, acrescenta o bom Pepe Legal, indica a existência dalgum igarapé nos arredores. Mais adiante, sou, novamente, obrigada a estacar diante da belíssima coloração avermelhada dum cedro caído na trilha, cujo tronco mede bem uns 10 m. Na parada em Bebedouro Velho, Messias descola dois abacaxis plantados entre a vegetação e os descasca pra nós. A fruta, bem docinha, está uma delícia. Um alívio depois da ingestão maciça de carbohidratos durante esses seis dias. Outra chuvarada nos surpreende assim que deixamos Bebedouro Velho. Dessa vez é um pancadão de gordos pingos que desabam durante uns bons vinte minutos. Parada na Cachu do Tucano para almoço às 14:30, porque combinamos que não iremos pernoitar aqui e sim seguir adiante de modo a dormir na Boca do Tucano. E os ruídos da floresta seguem me acompanhando. Pra que ouvir mp3, se tenho a minha disposição o alarido cacarejante do cãocão, ave plumosa e de pouca carne, além dos pios mais suaves de aves que desconheço? Katehe (bonito, legal, beleza, em yanomami) demais esses sons! Adorei saber da tirada parcimoniosa de Delegado quando Ely, já no bagaço por causa de seus pés, perguntou quanto tempo faltava até a Boca do Tucano. O índio, lacônico, lascou “Falta mais.” Ahahahaha.....essa é boa! Esse yanomami embora não seja tucano, sabe bem se colocar em cima dum muro, hahaha!! Pepe, afobado, chega à Boca do Tucano, pra pegar com Messias uma lanterna, enquanto eu e o jovem descansamos das 11 horas de pernada, sentados no tosco banco construído num dos lados da palhoça onde fica o redário. Porque a escuridão se faz presente às 18:50, o restante do pessoal, que segue atrás, encontra dificuldade em se orientar no trecho restante até este paradouro. Enquanto rangamos, escuto Pepe e os índios exaltarem a excelência do sabor dum vinho feito da semente da bacaba (hoko). Indagando daqui e dali, acabo descubro que o tal “vinho”, na verdade é um suco extraído da polpa dessa fruta cuja coloração bordô é responsável por tal denominação. Embora tarde, 23 horas, os yanomamis embarcam em sua rabeta (pequena canoa com motor de 20 hp), com destino a Maturaká. Impossível dissuadi-los de viajar no breu da noite. Estão ansiosos pra chegar à aldeia e se juntar as suas famílias. A língua deles deve estar coçando, loucos de vontade de contar as novidades e esquisitices dos brancos com quem trabalharam, hehehe. Pepe repisa várias vezes o recado que devem dar a Armindo quando lá chegarem: que venha nos buscar de manhã cedo, sem esquecer de passar um rádio pra Branco, em São Gabriel, de modo que vá nos esperar antes do dia combinado no km 85. O plano, se tudo der certo, é partirmos, ainda no dia seguinte, pra São Gabriel. Suspirando de cansaço, me afundo na rede e não demoro muito a adormecer, embalada, como sempre, pela inefável trilha sonora dos sons de aves e insetos amazônicos. E eu lá quero outra vida?
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sábado, 20 de fevereiro de 2010

Os sons da floresta

Outra noite mal dormida. Se preguei os olhos foram apenas por umas 3 horas, se tanto. Brizola aparece enquanto estamos nos aprontando pra deixar o acampamento. Pede um analgésico pra Cobal, amigo seu. O motivo – bizarríssimo – deve-se à queda do garimpeiro que se estatelou de bunda, amassando as bolas nas pedras, pode? No acampamento-base, umas flores lindas, a semelhança de lanternas vermelhas, exibem, tais quais pingentes, nas extremidades, delicadas florações brancas . Partimos às 8 e 30 pra Bebedouro Novo, em meio a um céu nublado. Agora que já não tenho a ansiedade da vinda, curto mais a paisagem e os sons que povoam este rincão amazônico. A mudança na vegetação é nítida enquanto se vai perdendo altitude: as palmeiras rareiam, a variedade e quantidade de flores, que se concentram no trecho Neblina-Mirante, onde a forte incidência da luz solar permite uma intensa floração, deixam de colorir a paisagem e as exuberantes bromélias, cativas dos campos de altitude, são deixadas pra trás. À medida que penetramos no confinamento da zona escura e cerrada da floresta, torna-se mais audível a vibração dos seus sons. É algo indizível, só estando aqui pra saber. Raros os momentos de absoluto silêncio pois logo são preenchidos pelo matraquear das gritadeiras araras canindés; dos quase imperceptíveis ruídos de folhas que, num balé gracioso, evoluem no ar antes de pousar no chão; do estrondo de árvores desabando; de galhos partindo-se; do sonoro pio de aves e cricrilar de insetos; de cascas de árvores se soltando dos troncos. Uma sinfonia de barulhinhos bons. Não à-toa, Villas Boas pirou o cabeção e deu uma guinada de 360º, alterando sua concepção musical após uma estadia de alguns meses, embrenhado na mata amazônica. Alcançamos Bebedouro Novo às 15 horas. Suada e suja após quase 4 dias sem banho, vamos Lili, Marcelo e eu até o rio Cuiabixi. Lavo o cabelo, pedindo emprestados o xampu e o condicionador da companheira. Enquanto lá estamos, Messias aparece. Quando o jovem yanomami percebe minha nudez, vira, envergonhado (?!), os olhos, mantendo-se, durante o tempo todo de sua permanência no rio, de costas pra mim. Salvo quando vai buscar água pra encher as garrafas, num ponto mais acima do que nos encontramos, quando, então, arrisca um olhar fugidio em minha direção. Que malandrinhos esses guris. Não perdoam nem uma velhota como eu, hehehe. Limpinha e revigorada, retorno ao acampamento, mas a quantidade das miudinhas e ruivas abelhas aramãs, obriga-me a procurar refúgio dentro da nuvem de filó rosa que envolve a rede, onde estico o corpo com satisfação. E assim, fico ali, protegida daquelas pentelhudas, enquanto converso com Ely sobre fotografia. Nossos papos sobre o assunto são intermináveis. O pobre querido continua com os pés em frangalhos. Dá dó de olhar seus calcanhares inflamados. Nem sei como ainda consegue caminhar. Tem um quê de estóico essa criatura. Em seu lugar, eu há muito teria jogado a toalha. Lili, deitada na rede ao lado, com voz pausada, conversa com Marcelo sobre suas andanças por este mundão. Moça mais viajada não conheço. E segundo alardeia, deve ser uma cozinheira de mão cheia. Lili, me aguarde, viu? Ainda vou a Minas provar de teus quitutes! Marcelo, desde que iniciou a expedição, pegou no meu pé. Vira e mexe imita a personagem Bozena, do seriado Sai de Baixo, gozando de meu sotaque gaúcho com um “porque lá em Pato Branco”. E arremedando minha insaciável curiosidade (reconheço que atordoo um pouco os guias com perguntas mis), cria uma frase que vira bordão e motivo de hilariedade geral: “Pepe, uma flor é vermelha por quê? Por quê, Pepe a flor é vermelha?” E não pára por aí o espírito gozador do fofo. No decorrer de nossa convivência, simulou um flerte comigo, fazendo bico com os lábios, num simulacro de beijinho. Nem dá pra acreditar que esse palhaço, doutor em matemática, obteve seu grau, defendendo tese sobre a mecânica dos corpos celestes. Chique né? Orlando, um dos carregadores yanomamis, vermelho de febre, provávelmente, causada pela malária, pede um analgésico. Assim, forneço-lhe os últimos que trago comigo pra amenizar seu desconforto térmico. Pouco importa se eu fico sem. Ele é que tá precisado, não eu. É dureza a vida de quem habita esta floresta, podem crer! Após a janta, Pepe Legal, com seu bom humor habitual, narra algumas estórias de sua vida. Abandonando a casa paterna aos 14 anos, rodou pelo Pará fazendo biscates, quando, dois anos depois, foi trabalhar num garimpo no alto Tapajós, ele mais um irmão. Fincou raízes durante 6 anos até o assassinato desse seu mano. O motivo Pepe não revela. Presumo que tenha sido ou por desavenças de dinheiro ou por causa dum daqueles tragoléus tão comuns entre garimpeiros. Foi daí que abandonou a garimpagem a pedido de sua mãe. Descasado, suas duas filhas vivem com a ex-mulher em Manaus. O gesticulante guia, animado por nossa atenção, explica entre coçadas na cabeça, gesto bem típico seu, que o barco vindo de Manaus, quando o rio Negro tá cheio, demora três dias pra chegar a São Gabriel. “Um fandango só, música ao vivo, três refeições (enche a boca, satisfeito, ao falar do rango), camarote a 800 real. E quem tem pouca grana, usa o redário." Interrompo e indago quanto custa a rede. "240 conto", responde, ajeitando as bolas, naquele típico gesto tão ao gosto do povo masculino. E, ignorando a interrupção, prossegue, imperturbável, " no deque superior se joga cartas", acrescenta, com um sorriso levemente nostálgico. “Quanta gente, Pepe, cabe no barco?”, indago eu novamente, dando corda de modo a evitar que o papo esmoreça. “Ah.....acomoda bem umas 200 pessoas”, responde ele com seu sotaque gostoso de nortista, justificando que "quando o rio tá baixo, demora uma semana pois o barco à noite vai atracando nas praias”, finaliza ele, coçando pela enésima vez a cabeça. E me inteiro que, além das paradas noturnas, há as habituais: uma em Barcelos e outra em Santa Isabel, onde quem quer desce enquanto o barco descarrega mercadorias e pega nova carga. Bacana demais deve ser essa trip, né? Aos apressados - pra quem tem urgência urgentíssima, o lance é ir de avião mesmo - sempre resta o recurso da lancha expressa cujo trajeto leva 24 horas, ainda que esteja o rio na vazante. Tão bom saber disso tudo ao vivo e a cores! A robusta lua crescente ilumina a clareira situada adiante da armação onde nossas redes estão penduradas. Eu espicho o pescoço pra curtir melhor sua luminosidade enquanto me aninho no saco de dormir já que o frescor da noite exige tal aconchego. E o conversê perde seu vigor até cessar por completo. Que peninha....não me incomodaria nem um pouco de escutar Pepe Legal desfiar seu rosário de causos a noite inteira. Seria uma novena pra lá de interessante, hehehe. Infelizmente, até os pássaros obedecem ao toque de recolher, aqui, nas entranhas da mata amazônica, acabando-se o que era doce de ruidinhos bons....por enquanto!!
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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Cansados porém felizes

Depois duma noite mal dormida pra caramba, acordo às 6. O motivo é meu nariz entupidão, embora a garganta não mais me incomode, graças ao poderoso antibiótico ingerido ontem. Choveu e ventou durante quase toda a noite. Pinta uma preguicite de levantar pois o céu mantém-se nublado e a temperatura beija os 8º C. Mas nem tudo está perdido. Marcelo nos chama pra fora da barraca pra ver o rasgo vermelhão do nascer do sol, pintando na banda oriental. É....o dia está prestes a dar a cara a tapa. O agudo e espaçado som dum breve bipe chama minha atenção. Pepe, indagado, esclarece ser proveniente duma espécie de grilo que habita o Neblina. Seu som nada tem de estridente se comparado àqueles produzidos por seus primos gaúchos. Pesquisando, tomo ciência de que a cantoria é produzida pelo macho pra atrair a fêmea em época de acasalamento. O som origina-se do atrito dos pelos existentes em suas asas. Quanto mais barulhento é seu canto, mais afastada se encontra a fêmea, suavizando-se quando ela já se encontra acochadinha junto dele. Gesto delicado desse animal em baixar a bola quando já conquistou sua fêmea, hein? Tem muito homem que devia aprender com esses insetos tais requintes de sedução, não é mesmo? Os grilos do Neblina, por óbvio, ainda se encontram sozinhos, os queridos. Infelizmente, não deu pra visitar o pico 31 de março. Tudo tão nublado. Fazer o que lá, se impossível visualizar não só a paisagem circundante como um novo ângulo do Neblina visto duma perspectiva diferente? Só pra dizer que fomos? Nossa vaidade, nem tão miúda assim, nos desobriga da visita ao segundo pico mais alto do Brasil. Bom motivo pra retornar! Às 8 e 30, em meio a um denso nevoeiro que não dá trégua, iniciamos o caminho de regresso ao acampamento-base. A vegetação encontra-se branquinha de geada. Devido a pouca luminosidade, as teias de aranha são perfeitamente visíveis. À medida que perdemos altitude, as espessas brumas se dissolvem, podendo ser avistado, mais uma vez, o extenso maciço rochoso da serra do Ouro. Mais ao longe a do Gelo. A trilha do acampamento-base ao igarapé do Tucaninho, quando vimos, foi basicamente um declive. Agora, na volta, o que era descida, se torna subida. As pernas, cansadas pela exigência do dia anterior, acusam fadiga, mas nosso ânimo continua animadíssimo. Consigo, finalmente, ver a féerica coloração azul vermelha das araras canindés enquanto desço do Neblina...ulálálá!! Deveras bizarra a situação em que encontramos Ely quando chegamos às 14 e 15 no acampamento-base: como se houvesse sido congelado, sofrendo, ainda, o efeito daquela antiga brincadeira infantil de estátua, o grandalhão continua esparramado na rede, na mesma posição que ocupava ontem, quando dele nos despedimos rumo ao cume do Neblina. Próximos, sentados, no chão, eis o famoso Brizola e seu parceiro, Paisano, natural da Colômbia, dono de encovados olhos azuis. Circula à boca pequena um boato de que é fugitivo das Farc, motivo por que evita ir a São Gabriel pra não topar com membros dessa organização, que, volta e meia, descem o rio Negro pra fazer compras na cidade. Paisano, apesar de seus 70 anos, não se furta de carregar nos costados, mochila pesando mais de 30 kg. Não só a respeito do velho mineiro colombiano pipocam as fofocas. Brizola, também, leva no cangote, uma mochila de maledicências. Dizem as más (?) línguas que sua atividade no garimpo é tolerada por militares e polícia federal em troca de informações sobre a biopirataria na região. Olha, se for verdade mesmo, pela primeira vez, não me nego a admirar seu dedo durismo. Dedura, Brizola, dedura, sim, essa gentalha!! Ely, definiu, com acuidade a função de Brizola: síndico do Neblina. Tantas as estórias que se contam por aqui que vá lá discernir ficção de realidade! Ah, tal apelido deve-se à propaganda em favor do carismático político gaudério na eleição presidencial de 1989. O garimpeiro, sabiamente, não se deixou iludir, nadica de nada, pela verborragia arrogante de Collor. Ely troca duas lanternas, um tubo de Gelol e alguns analgésicos por quase 3 gramas de ouro (a cotação desse metal está em torno de 40 reais o grama) que Brizola trouxera da Venezuela. Aqui, nos cafundós da selva amazônica, o escambo, ainda, é moeda corrente! Normal garimpeiros trocarem ouro por objetos de que necessitem. Desde que se chegou ao acampamento-base, há 2 dias atrás, o tempo permanece nublado. Nem uma resteazinha de sol conseguiu furar o bloqueio da compacta massa gasosa que encobre nosso céu de anil. À tardinha, ventos de rajada, que se prolongam durante boa parte da noite, me deixam um tantinho preocupada, enquanto, deitada na barraca, tento dormir. Bate um receio de sair voando junto com a tenda. Enfim, vencida pelo cansaço, pego no sono, ninada pela adorável vibração dos tuque-tuques metálicos arrotados pelos sapos-martelos.
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