sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Fazenda Macaquinho

Hospedada na pousada Jardim do Éden, cuja dona, a meiga Lucia Helena, cultiva um herbanário onde crescem as mais variadas ervas que se possa imaginar, somos, eu, Pece, Francisco e Ricardo mimados como filhos por ela que, entre várias gentilezas, deixa no nosso quarto sobre a cama uma erva cheirosa diferente a cada dia, juntamente com um texto de sua autoria repleto de mensagens otimistas e amorosas. Seu maravilhoso café da manhã cheio de comidinhas integrais de alta qualidade além de super nutritivas são enfeitadas com pétalas de amores perfeitos. Somos sempre recebidos quando voltamos de nossos passeios com um chá de ervas para combater o que ela chama de imperil, que vem a ser um cristal que se aloja no fígado e causa vários males à saúde. O tal de chá aliás torna-se uma sensação e o resto do pessoal que está alojado em outra pousada, vem no dia seguinte bebê-lo para também usufruir de seus efeitos benéficos. Pra variar, Pece, que não perde uma oportunidade pra gozar de tudo e todos que afrontam sua lógica cartesiana, funda a confraria Unidos do Alecrim. Até reza o diacho do homem inventa a partir de um texto da boa Lucinha: “A vida é bela, o mundo é perfeito, obrigado Alecrim!” Somos obrigados por ele volta e meia a repetir tal mantra, estendendo as palmas da mão pra cima e revirando os olhos. Meus deus, nem acredito que entrei nessa...porém entrei! Bueno, bem alimentada após o lauto desjejum, vou então conhecer a fazenda Macaquinho, situada no vale do Macaco. Rebatizada pelo seu proprietário, Fausto Souza Melo, de Santuário das Pedras, esta propriedade é um jardim do éden encravado em pleno cerrado da Chapada dos Veadeiros. Banha-a o ribeirão Macaquinho que forma várias cachoeiras como a do Sereno, Pedra Furada, das Andorinhas, da Caverna, cujo poço adentra uma funda gruta e a do Encontro, assim chamada porque os córregos Macaquinho e do Fundão confluem resultando na linda queda que despenca num poço de água verde-escura. A vegetação é de cerrado rupestre, conforme me explica Pacheco. A trilha, curta - não atinge 2 km - não oferece maiores dificuldades, excepto por um trecho em aclive calçado por troncos de madeira de cor amarela formando degraus encimados por um pórtico enfeitado com diversas mandalas. Bem cuidadoso o tal de dono. No retorno, paramos na cachoeira do Sereno e por lá ficamos um bom tempo tomando banho em suas águas, conversando e lagarteando ao sol deitados nos lajedos que circundam o poço. Saímos de Macaquinho, não sem antes o dono nos oferecer, gentilmente, uma arnica (acho que é a cachaça oficial da região, pois é servida em quase todos os lugares por onde andamos). Ao entardecer, retornando a Alto Paraíso, obrigamos Hugo, o motorista, a parar a van, de modo a apreciar o belo pôr do sol escondendo-se atrás das serras. Todos descem do veículo e as máquinas explodem em flashes ensandecidos. Não basta apenas reter na memória tal instante, a recordação tem de ser digitalizada, ora pombas!
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quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Arco-íris no rappel

Sentadas em um banco no jardinzinho da pousada em São Jorge enquanto esperamos pra irmos à Fazenda São Bento, Valéria que, desde ontem se sente mal do estômago, a conselho do massagista com quem na noite anterior havia entregue seu corpitcho sarado para relaxar das trilhas até então feitas, chupa compenetradamente uma laranja, daquelas azedas, usadas pra fazer doce em calda, fazendo horríveis caretas enquanto ouve as prescrições do paramédico- massagista que lhe aconselha entre outras coisas a não beber leite porém “um traguinho tá liberado”. Ora, Pece que vem chegando e se inteira do fato, não crê no que seus olhos estão presenciando. Indigna-se naquele seu jeito gozativo e começa a desancar o pobre homem. Não contente, o demolidor Pece desfaz da credulidade de Valeria a quem chama de tonta! Foi risada geral porque realmente a cena é muito engraçada. A pobre coitada penando pra comer toda a laranja enquanto Pece desfia sua lógica cartesiana de economista tentando convencê-la e a nós também da tremenda esparrela em que Val caíra. Descubro, tardiamente, um bar, quase em frente à pousada, cujo dono, seu Claro, vende uma cachaça de arnica dos deuses! Nem hesito, compro meio litro da pinga e o simpático velhinho deitado na rede armada no interior de seu comércio me avisa que a beberagem “é casadeira, moça”. Respondo que se não conseguir um marido, volto à São Jorge pra casar com ele. Ri deliciado da minha resposta, o seu Claro. Passamos a manhã na Fazenda São Bento rapelando a cachoeira Almécegas 1, uma queda d’água com 45 metros que termina num lindo poço de águas esverdeadas. Quando estou no fim da descida sabe o que me espera? Um arco-íris colorindo o poço! Terminado o rapel vamos pra outra cachoeira, situada um pouco mais adiante, a Almécegas 2, menor que a anterior, onde nos esbaldamos no seu lindo poço de largos lajedos. Por lá ficamos até o meio da tarde, quando então embarcamos na van e vamos conhecer outra propriedade, o Portal da Chapada. Nesta fazenda, foi construída uma trilha de 3.200 metros sendo 2.400 metros sobre uma passarela de madeira que atravessa uma mata galeria por onde flui o rio dos Couros. Pode-se observar durante o percurso uma grande variedade de árvores: copaíbas cuja resina serve pra fins medicinais (a casca que reveste o tronco é fina tal qual uma lâmina, de cor avermelhada), almécegas (sua resina é cheirosa e usada como incenso), angélicas, babaçu, murici cuja flor amarela é miúda, murtinha, peroba, quina branca e muitas outras variedades de vegetação típica do cerrado. Chama-me atenção a semente da peroba branca: fininha e meio amarelada é envolta por uma casca esverdeada com uma tessitura acamurçada. De volta ao aprazível restaurante dividido em dois grandes ambientes abertos e cobertos de folhas de indaiá, compro na lojinha de conveniências um livro super legal intitulado 100 Árvores do Cerrado.
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Consternada fiquei quando, ao retornar de Cavalcante, soube que uma queimada incendiara todo os recintos do Portal da Chapada. À tardinha, retornamos a Alto Paraíso e vamos almoçar no restaurante Bom Fass. Pacheco me assopra que o dono é gaúcho. Fico bem contente quando, em viagem, encontro um conterrâneo. Não perco tempo e logo entabulo um conversê com o Atila Damasceno, como ele se chama. Descubro que já vive há 15 anos na cidade. Conta-me que é primo-irmão do André Damasceno, humorista, a quem admiro por sua caracterização de magro do Bonfa, além de imitar várias personalidades famosas, destacando-se a hilariante imitação de Leonel Brizola. Este mundo é bem pequeno, pois não?

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros

Encontra-se o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros no vale do rio Preto delimitado a noroeste pela onipresente serra de Santana que se estende até Cavalcante, distante 100 km. São duas as principais trilhas no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, com cerca de 6 km cada uma: a que leva aos Canyons 1 e 2 conduz também à cachoeira das Cariocas. Os canyons em época de cheia ficam fechados à visitação porque o rio Preto apresenta grande vazão de água impedindo a sua travessia. A outra segue até as Pedreiras bem como aos Saltos 1 e 2.
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Foram estas duas últimas as percorridas por nós. Caminhando em meio a uma diversidade incrível de árvores e arbustos chamam a atenção as onipresentes moedas com suas delicadas e redondas folhas verdes, as mimosas, flores de cor rosa, compostas por pequenas pétalas tipo plumas, além dos buquês de noiva exigindo atenção com seu chamativo rosa pink. Os chuveirinhos e sombreiros dão seguido o ar da graça, alcaçuzes do cerrado com sua coloração azulada competem com o azul do céu e as poaias, lindas, avermelhadas, em forma de pingente, destacam-se em meio ao verde do cerrado. Das árvores, chama a atenção a quina branca com seu tronco recoberto por uma grossa camada de casca que serve de isolante contra as queimadas, a faveira do campo cuja resina, a rutina, cura problemas circulatórios. Os candombás e canelas de ema abundam, entretanto, ainda sem floração. Gudu me explica que, inobstante certas árvores produzirem frutos saborosos, lhes são atribuídos nomes pouco atraentes como marmelada de cachorro e cocô de arara. Ah! Esse imaginário popular! Pacheco pára e chama atenção para os grandes cupinzeiros que tanto são construídos no solo quanto sobre os troncos das árvores. Aponta um buraco na terra e conta que o garimpo iniciou na região no início do século XX e o quartzo extraído foi e é ainda muito usado na indústria eletrônica em razão da grande quantidade de silício em sua composição. O chão coalhado de pequenos pedaços de quartzito, alguns tão transparentes como vidro, faiscam à luz do sol. Chegamos ao Salto 2 ou cachoeira do Rio Preto, queda d’água com 120 metros. Paramos no mirante e alguns de nós sacam seus lanches das mochilas e por ali se ajeitam, tentando encontrar um local com sombra, mas está difícil. A trilha não apresenta maiores dificuldades, há um trechinho um tanto íngreme mas nada que faça a gente desanimar. As folhas estalam de tão secas quando se caminha sobre elas e muitas das árvores com seus galhos marrons e secos, aparentemente mortas porque despidas de folhas, tornam-se verdes quando inicia a temporada de chuva que neste ano está demorando a chegar. O calor se faz sentir com força total e quando chegamos no Salto 1 ou cachoeira do Garimpão, uma bela queda com 80 metros de onde o rio Preto despenca voluptuosamente, vou em busca de um lugar sombreado. Apesar da preguiça em ter de retirar as botas, short e regata, mergulho nas águas frias do rio e nado um pouco até que a fome bate e vou comer meu lanche. Mas ainda tem mais um lugar pra conhecer: as Pedreiras. E lá vamos nós em direção contrária à correnteza do rio, num local situado pouco acima dos Saltos, onde o rio Preto flui preguiçosamente em meio a grandes lajes de pedra formando poços e pequenas corredeiras turbulentas que cumprem seu papel de hidromassagem para gáudio do grupo. O dia não poderia ser mais perfeito, a estradinha de areia branca e fina, céu azul, sol, calor e paz, muita paz! Dispenso a van e volto a pé até a Vila, distante pouco mais de 1 km. Valéria e eu resolvemos explorar as ruazinhas de São Jorge antes de irmos almoçar no restaurante de Dona Nenzinha. À noite, aqueles do grupo que estão hospedados na Pousada da Trilha Violeta (a maioria, aliás) decidem prolongar a noitada e vamos à cata de um bareco pra tomar a saideira.
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E lá ficamos entre chistes e muitas risadas, bebendo caipirinha de laranja já que a dona, uma moça já bem grávida, nos informa que não há limão. A lua surge vermelha no céu, ohs e ahs de admiração substituem por minutos o falatório animado. Só faltava o bravo santo guerreiro passar zunindo e nos abençoar...pois é!

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Vale da Lua e Encontro das Águas

Louquinha pra conhecer o famoso Vale da Lua, embarco na van com meus companheiros. Na breve trilha que conduz ao local, avisto ao longe a serra do Segredo que se estende à oeste acompanhando o rio São Miguel cuja nascente se encontra na Serra do Buracão, passa pelo vale da Lua e desemboca no Tocantinzinho situado a cerca de 50 km. O vale, com uma extensão de pouco mais de 3 km, é um suceder de rochas acinzentadas, exibindo em sua superfície ondulações suaves cujas formas lembram o suave relevo de dunas. No interior das rochas, encontram-se piscinas de águas transparentes e pequenas cascatas surgem das dobras das pedras espalhando barulhentamente a água fria e branca. Minicavernas apontam em meio aos rochedos revelando-se um esconderijo ideal contra o forte sol da manhã. Raras nuvens aqui e acolá tingem o azul do céu. Besouros zumbem no ar. Quer coisa mais maravilhosa? Vou ao encontro do grupo que brinca, tal qual crianças arteiras, de escorregar num tobogã escavado nas rochas. Peço emprestado de Francisco seu snorkel e mergulho numa pequena piscina explorando as rochas que formam arcos sob a superfície d’água. Volto à tona meio engasgada e peço instruções a Gudu sobre o modo correto de usar o aparelho. Mergulho novamente e nado quase rente às rochas do fundo do laguinho tal qual uma cobra d’água, ou assim suponho. Já cansada de tanta atividade dentro d’água, sento perto do grupinho formado por Claudia, Valéria, Mari e Heidi que conversam sossegadamente como se fossem velhas conhecidas. Trato de prestar atenção e logo logo estou tagarelando bem animada com Valéria. Pacheco nos chama pra irmos embora e lá vamos nós de volta à Vila. Descansamos um pouco na pousada, antes de rumarmos à Fazenda Encontro das Águas, nosso próximo passeio do dia pra conhecer o local onde o rio São Miguel deságua no Tocantinzinho. Excepto o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, todos os passeios que fiz em Alto Paraíso, Vila de São Jorge e Cavalcante são em propriedades particulares, cujos ingressos custam em média R$ 7,00. As trilhas bem cuidadas e demarcadas, dispensam, portanto, a presença de guia, se a pessoa assim o preferir. Num certo trecho da trilha, um pouco mais longa que a da manhã, Pacheco chama nossa atenção para o ponto de encontro dos dois rios que se avista do alto da colina onde nos encontramos. Descemos até o rio São Miguel e o atravessamos andando por seus extensos lajedos de rocha. Até então o rio vinha fluindo em uma superfície plana quando então desaba abruptamente por um desnível nas rochas dividindo-se em duas quedas d’águas simétricas e paralelas. Avançamos até o lugar onde se pode admirar a sua confluência com o belo rio Tocantinzinho, assim chamado em Goiás, porque é um tributário do Tocantins cuja foz deságua na baía de Marajó. Suas águas até então mansas, quando entram num desfiladeiro formado por estreitos paredões, iniciam uma descida turbilhonante escorrendo espumosas pelo desnível de seu leito. Passeando por suas margens, leio em uma placa a advertência “siga em frente ----> quenio para banho. Perigoso para quem não sabe nadar”. Dou tratos a bola procurando entender o significado da palavra “quenio” até me dar conta de que é canyon. Às 5 da tarde, voltamos pra sede da fazenda onde nos é servido um almoço feita por Dona Odesia, dona do restaurante situado na propriedade. A comida bem caseira, aliás como quase todas as que nos foram servidas durante os passeios, é farta e saborosa: galinha caipira, carne ensopada, feijão tropeiro, arroz com açafrão, arroz branco, feijão claro, massa, saladas de alface e agrião, cenoura e beterraba, tudo plantado na horta cultivada ao lado da casa. O calor, delicioso, bate ainda nos 30ºC. Pra terminar o dia, estou agora mergulhada numa piscina de águas quentes situada na Fazenda Rio Vermelho, bebendo vinho tinto enquanto Gudu serve uns salgadinhos pra gente. A lua cheia já se avista no céu claro. Quer coisa melhor da vida? Pois teve mais, siiim! Como queria muito ver o Vale da Lua à noite, paguei um extra e fomos pra lá, eu, Hugo, motorista da van, Pacheco e Zói. Havia lido na internet que quando há lua cheia os seus raios incidem no quartzito incrustados nas rochas e tudo se torna fosforescente, irradiando um brilho intenso. Claro, que estava super a fim de ver tal espetáculo. A lua cheia iluminava as rochas com alta nitidez pero nada dos tais brilhos nas suas superfícies. Penso com meus botões que certas coisas que se lê na internete não são lá muito críveis. Mesmo assim está tudo tão lindo que nem me incomodo. Ficamos umas duas horas deitados, cada um na sua, pensando na vida, curtindo a paisagem meio lunar do vale até que tal qual uma Cinderela, vamos embora passada a meia-noite. Vá que o lobisomen chegue, não é mesmo? Ui, que medo! Caminhando pela trilha que leva ao estacionamento, paro pra fazer xixi e sei lá por que resolvo olhar pra baixo e o que vejo me surpreende: pois não é que desenhado na areia urinei o mapa do Brasil? Excitada, chamo Pacheco e Zói pra que testemunhem o estranho fenômeno produzido por mim. Boquiabertos, perplexos e mudos, eles apenas balançam a cabeça. Gente, eu que nunca tive queda pra desenho, ainda assim consegui fazer da minha bexiga um magnífico pincel! Até hoje estou pasma, acreditem!
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segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Poço do Segredo

Tenho como regra não participar de grupos, gosto de fazer os passeios só eu e o guia. Todavia resolvi abrir uma exceção, um pouco instada por Marcela, da Ecoturismo Travessia, agência de turismo de Alto Paraíso, argumentando que dessa forma sairia mais em conta, e outro tanto por curiosidade, pra ver no que vai rolar. Na noite anterior, na pizzaria Lua de São Jorge, o grupo se apresentara, destacando-se o bem humorado Pece, que logo se revelou o engraçadinho da turma. Em razão dos 10 anos da Travessia, cinco representantes de agência de ecoturismo de São Paulo foram convidados: Mari, Nuria, Mariana, Vivi e Isval. Um dia depois, se juntaram a nós, Virginia e Zói, baianos e guias na Chapada Diamantina, mais Claudinha, antiga funcionária da Travessia. Compõem, ainda, o grupo, Valéria, Paulo César, vulgo Pece, Francisco, Claudia, Ricardo e o único casal do grupo, os Galindo. Achei todos a princípio agradáveis e lá fomos nós então visitar a cachoeira do Segredo, o percurso mais longo dos oito dias em que permanecemos juntos. Pra se chegar lá, tem de se atravessar inicialmente o rio São Miguel (o mesmo que passa no vale da Lua) e, após, o córrego do Segredo 13 vezes, cheio de poços onde os banhos são freqüentes e necessários pra se refrescar da canícula, afinal a temperatura beira os 35ºC. Paramos várias vezes pra mergulhar em suas águas benvindamente geladas. Uma delícia!! Só não grito de prazer tal qual uma criancinha por medo de parecer ridícula. O solo, infelizmente, apresenta-se em alguns trechos colorido tristemente de cinza, resultado do fogo que perceptível ainda queima a vegetação em ambos os lados da trilha por onde estamos caminhando. O terreno calcinado dá pena. Como estas terras são particulares, os fazendeiros não estão nem aí, tascam fogo na vegetação de modo a poder alimentar seu gado. Vejo árvores lindas: a escorrega macaco, cujo tronco dum belo tom amarelado, já conhecera na Chapada dos Guimarães. Outras como murici, cedro, jatobá, aroeira, também típicas do cerrado, destacam-se, na paisagem, além das palmeiras buritis, indaiás e muricis. Começo a me aborrecer de estar com este pessoal e trato de ficar por último pra não ter de escutar seus conversês, alguns em voz tão alta que se ouve a quilometros...aiaiai, jesus cristinho, dai-me paciência!! Ao retornarmos à vila, o sol cai no horizonte exibindo um vermelho esmaecido. É tudo tão perfeito que deixo as ranzinzices antissociais de lado e me reconcilio com a idéia de pertencer a um grupo. Após a janta, no restaurante Buritis - um bufet de massas - sou vencida pelo cansaço: meu corpo reclama uma cama, hesito, remancho tal qual uma criança, não sem antes dar uma longa e demorada espiada na lua que avulta branca e linda no céu do cerrado goiano.
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domingo, 26 de agosto de 2007

Poço das Loquinhas

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Acordo alvoroçada, já com o pé que é um leque, louca pra dar uma caminhada, explorar o lugar. Por sugestão de Marcela, a quem encontro na recepção da pousada (pois não é que a guria já estava atrás de mim?), me toco pras Loquinhas. Como a minha visão de Alto Paraíso havia sido apenas a noturna, agora vejo-a com olhos diurnos e gosto do que vejo: na larga e comprida avenida principal, Ari Valadão Filho, há um canteiro central cheio de árvores, algumas já floridas. A cidade vazia, bem ao meu gosto, raras pessoas nas ruas, um carro lá que outro trafegando e quando passa é sem pressa. Também pudera, são 9 horas da manhã! Observo ruas com sugestivos nomes de Segredo, Moinho, Das Araras, Das Nascentes. Alto Paraíso de Goiás, com pouco mais de 5.000 habitantes, fica aos pés da serra do Paranã. Escolhida por uma comunidade mística que lá aportou na década de 80, supondo a cidade impregnanda de altas energias positivas (reza a lenda que devido a grande quantidade de cristais existentes em seu solo), é crivada de centros esotéricos das mais diversas linhas: os há para todos os gostos. Numa placa, em frente a uma casa, oferece-se a leitura do tarô em várias línguas. O turista, seja qual canto vier do planeta, não ficará a ver navios caso queira saber seu destino. Pego a estrada que conduz às Loquinhas e vou me afastando da cidade num percurso de talvez uns 4 km. Adoro este tipo de solidão, eu numa trilha ou estrada, solita, eu, somente eu. Em lá chegando, o simpático rapaz que cuida do lugar explica que Loquinhas significa furnas. Banhada pelo córrego Passatempo, é um complexo de sete poços: Curupira, Curumim, Seriema, da Vovó, Xamã, Pagé e Sol. Garante que, embora estejamos na época da seca, alguns poços ainda têm água suficiente pra eu tomar um belo banho. Foi construída, num determinado trecho da trilha, uma passarela de madeira que conduz aos poços. Me encanto com o segundo deles, o poço do Curumim. É lindo, as pedras cálcareas variam de uma tonalidade branca ao alaranjado. Conforme a luz incide na água, a pedra vai adquirindo um tom esverdeado, belíssimo. É ótimo de se banhar porque seu fundo é coberto por um lajedo de rochas largas e lisas. Daí por certo o nome. Bom pra banho de crianças! Fico embasbacada com a cor da água do poço do Xamã cuja tonalidade verde esmeralda é linda linda! Os outros poços são também encantadores mas tenho de retornar à cidade. Escolho o restaurante do Jatô, cuja comida é bem legal, tipo bufet, tem até perdiz. Prefiro, no entanto, comer um peixe chamado marpará. Bato um papinho com o dono, cujo nome é o mesmo do estabelecimento, enquanto aguardo o grupo que vem de Brasília e ao qual vou me reunir pra ir à Vila de São Jorge. Quando chegam sou apresentada pelo guia Pacheco às pessoas e nos tocamos pra Vila num trajeto de 46 km. No caminho, paramos para admirar o Jardim de Maitrea, lugar deveras bonito com veredas de buritis, destacando-se na paisagem a imponente serra da Baleia. Todos descem enlouquecidos da van pra tirar fotos. É um tal de clique pra lá, clique pra cá que se intensifica mais quando Pacheco aponta no topo de um buriti um ninho de araras. Chegamos então na vila de São Jorge, com cerca de 600 habitantes. Me decepciono um pouco, imaginava outra coisa.... enfim. Com uma boa infraestrutura de pousadas e restaurantes, ela vive de turismo. Excitada, largo a mala no quarto e desço pra encontrar Pacheco. Ele me leva pra beber uma cachacinha de arnica no restaurante Buritis. Realmente, agora se consolidou: a bebida será a arnica! À noite, o grupo decide jantar na pizzaria Lua de São Jorge. A decoração rústica é super transada, há recantos com sofás, futons e almofadas largados sobre o assoalho. A pizza é muito boa. Como eu havia lido na internete que à noite ocorreria o fenômeno das duas luas, me toco com Gudu, o outro guia, prum lugar afastado do centro do vilarejo, chamado Mirante, onde poderei observar Marte crescer no céu e se igualar à lua cheia que, aliás, ilumina a estradinha de areia branca e fina. É tudo muito encantador e o calor está a milhão! Esperamos, eu e Gudu, além da uma da manhã (estava marcado pra 00:30 o tal fenômeno) e nada de Marte se agigantar no firmamento. Desiludida, convido Gudu pra irmos embora. No dia seguinte, algumas pessoas do grupo zoam de mim por ter acreditado nas patranhas divulgadas pela internete. 54 anos e ainda ingênua, pode?!

sábado, 25 de agosto de 2007

Brasília

Saio de Porto Alegre às 08:00 com temperatura de 12ºC. Exceto alguns solavancos causados por uma breve turbulência pode-se dizer que o vôo é tranqüilíssimo. Chego à capital federal às 10:20 com temperatura batendo nos 28ºC. Ulálá. Estou como o diabo gosta, já que meu lema é “quem gosta de frio é pingüim"!
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Reflito quão estranha é Brasília: seus prédios, ainda tão futurísticos, fazem um contraponto bizarro à bagunça nordestina cuja expressão mais característica são as feiras ao ar livre com suas bancas de frutas, verduras, legumes e carne seca pendurada em ganchos. Nas vias expressas, caminhões oferecem cofres e fechaduras (sintomático, pois não?!), mais a frente, vendem-se estátuas de gesso, tipo anão de jardim, redes e colchas. O Brasil da modernidade convive sem nenhum constrangimento com sua face arcaica. Embarco num táxi e peço ao motorista me levar até a rodoferroviária onde embarcarei pra Alto Paraíso às 15:15. Como tenho um par de horas pela frente, proponho-lhe que me leve aos principais pontos turísticos. Ileiton topa e por R$ 30,00 vou conhecer a Oca, museu de arte moderna há pouco construído. Como a catedral é ao lado, aproveito e entro para fazer os tradicionais três pedidos. Passo de raspão pela Praça dos Três Poderes (não quero muito contato com tais ares) e sigo por suas largas vias expressas ladeadas por floridos ipês amarelos. Atravessando a belíssima ponte JK sobre o lago Paranoá vejo lanchas singrando suas águas. Simpático e educado, o taxista me conta que é brasiliense. O pai, baiano, e a mãe, mineira, vieram com 9 anos pra capital federal. O carro, me explica, é seu, a placa aluga por R$ 400,00. Já na rodoferroviária, aguardo o ônibus que me levará a Alto Paraíso.Parte pontualmente. Graças a deus não fiquei mais que um piscar de olhos nesta cidade. Nada contra a capital dos brasileiros, mas estou na ponta dos cascos pra ir pra Alto Paraíso e ficar em contato com a natureza, longe do barulho destes massacrantes centros urbanos. Ao longo do percurso de 310 km, sou assombrada pela quantidade de queimadas que castigam o cerrado goiano. Tal prática – soube depois – é provocada pelos fazendeiros e largamente aceita por uma uma boa quantidade de pessoas. Entendem em que assim agindo conseguem fazer com que nasçam rapidamente os brotos de plantas de modo a fornecer alimento ao gado....pois é. A estrada é um retão, a paisagem plana, sem grandes atrativos. Chego em Alto Paraíso às 18:50 e telefono pra Marcela, da agência de ecoturismo Travessia com quem já fizera contato em Porto Alegre. Gentil, ela envia Jair pra me buscar e conduzir à pousada. A noite é de quase lua cheia, não resisto e saio pra jantar. Informada de que há duas pizzarias na cidade, escolho a Ocalila, especializada em comida vegetariana, meio escondidinha, um lugar muito maneiro. A temperatura arrefeceu bastante, afinal estou a 1.200 metros de altitude, gente! no planalto central do Brasil! Peço uma massa à bolonhesa feita com soja. Bem feita, está apetitosa. Pra acompanhar, escolho uma caipirinha feita com cachaça, a mineira Seleta. Pronto, daqui em diante, sinto que esta será a bebida da minha preferência durante a minha estadia na Chapada dos Veadeiros...tintim!