quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Rabat

Terminado o trek ao Toubkal, retorno imediatamente a Marrakech pra pegar Raul que se encontra no hostal. Não só Marrocos como vários países que conheço não têm rodoviárias. O ponto de embarque e desembarque dos ônibus são nas companhias de transportes. Assim, nos tocamos pra CTM embarcando no busão que nos leva a Casablanca. Omar está a nossa espera no terminal. Mais uma vez ficaremos em seu ape mas será apenas por duas noites porque depois de amanhã estaremos viajando pra Las Palmas de Gran Canaria. Dia seguinte, nosso anfitrião nos leva a Rabat em seu carro. A viagem de 87 km transcorre na excelente rodovia A1 que liga as duas cidades. Rabat é a capital e a segunda maior cidade de Marrocos. Localiza-se igualmente na costa do Atlântico. Tem cerca de 1,6 milhões de habitantes. Como nosso anfitrião trabalhou durante a manhã vamos a Rabat no meio da tarde, motivo por que só conhecemos a Kasbah dos Oudaias, um dentre muitos lugares interessantes na cidade. Originalmente, foi uma pequena fortificação muçulmana, erguida a partir de 1150 pelo califa almóada Abde Almumine como defesa contra as tribos Berguata. Kasbah dos Oudaias foi território de piratas durante 200 anos. A fortaleza mantém-se até os dias de hoje, tendo sido restaurada pelos mouros no século XVI. Sua porta monumental chama-se Bab el Kebir. Com vista para a foz do rio Bu Regreg, avista-se no outro lado do rio a cidade de Salé e seu cemitério. O sol está se pondo deixando uma mancha alaranjada nas águas do Atlântico. Passeamos pelas estreitas e labirínticas ruelas da Kasbah cujas casas são pintadas de branco e azul anilina. Algumas exibem belas portas de madeira. Vasos com gerânios adornam paredes externas e janelas. O aviso na porta de entrada da velha mesquita adverte que está interditada a entrada pra não mulçumanos. O interior dos riads, como são denominadas as residências construídas em estilo arquitetônico árabe, exibem quartos e salas dispostos ao redor dum átrio central, geralmente com uma fonte no meio. Neste espaço a família se reúne pra conversar. No segundo andar ficam os quartos. Pequenas janelas com grades de ferro formam desenhos lembrando treliças. Serviam pras mulheres olharem pra rua sem serem vistas pelos homens. No terceiro andar o terraço. Quase no fim do passeio, o chamado dos muezins reverbera nas ruelas chamando os fiéis pra penúltima oração do dia. Quando saímos da Kasbah seus altos muros de 10 metros de altura e 2,5 metros de espessura estão iluminados.  Terminado o passeio, Omar nos leva ao restaurante Dar Naji que serve autêntica comida marroquina. A decoração é tipicamente árabe e não servem bebida alcóolica, apenas refrigerantes, sucos e chá. Um autêntico show a cerimônia do chá com o garçom fazendo malabarismos com o bule, despejando sem olhar o líquido fervente dum copinho pro outro numa altura de 1 metro sem derramar sequer uma gotícula fora dos recipientes! A comida, farta, consiste de Zaalouk: salada de tomates e beringela temperada com alho e especiarias e Taktouka: salada de tomates, alface, cebola e pimentão tostado regados a azeite de oliva mais cenouras marinadas, acompanhadas de pão. A última entrada é pastilla de galinha: massa folhada recheada com galinha (pode ser com frutos do mar) e polvilhada com açúcar e canela. De prato principal é servida Rfissa: massa, pedaços de galinha e molho mais Seffa Medfouna: massa cabelinho de anjo, pedaços de galinha, passas, amêndoas, canela e açúcar. Tal banquete foi uma despedida condizente com este país cuja cultura é riquíssima e não pode ser absorvida em uma viagem tão curta. Por isso, pretendo retornar e visitar outras cidades deste impressionante e espetacular Marrocos!

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Jbel Toubkal

Apesar da adulação, da insistência, Raul não topa me acompanhar na pernada de 3 dias até o cume do Jbel ou Pico Toubkal. Prefere ficar em Marrakech, no riad, onde já fez várias amizades. Eu teria curtido muito a sua companhia mas, enfim, não há como forçar um barbado a acompanhar sua mãe. Fã do princípio budista da impermanência às vezes gostaria de que os sentimentos se cristalizassem. Por exemplo, Raul, quando pequeno, se eu o convidasse pra ir ao inferno, iria feliz da vida. Agora nem pro céu aceita. Embora aparentemente pareça que me lamento, é só aparência. Cada qual no seu quadrado, vida que segue, e aceito na boa as mudanças que a vida me traz. Voltando, pois, ao Parque Nacional Toubkal. É o mais antigo dos 12 que há no Marrocos, fundado em 1942, situa-se no Alto Atlas. As montanhas do Atlas consistem em várias cadeias montanhosas que se estendem por 2.410 km desde a costa Atlântica de Marrocos até ao Cabo Bon, na Tunísia Oriental. No Marrocos, esta cordilheira exibe as maiores altitudes do norte da África, destacando-se o Jbel Toubkal com 4.167 metros, o segundo cume mais alto do continente africano, só perdendo pro Kilimanjaro, na Tanzânia. Assim, no dia seguinte a minha chegada do tour ao Sahara, parto de Marrakech sem meu filho levada por uma agência contratada pelo Whatsapp até Imlil Village. Contratos modernos são agora via celular! Imlil Village, a porta de entrada aos treks no PN Toubkal, encontra-se a 700 metros acima do nível do mar e distante 80 km de Marrakech. Há 3 vales no PN Toubkal: Imlil Valley, Imnan Valley e Azaden Valley. Nos 3 vales há 30 vilas assim divididas: Imlil Valley: 11 vilas, Imnan Valley: 10 vilas e Azaden Valley com 9 vilas. Em cada vila vive cerca de mil almas. Quando chego na vila Imlil de táxi, o dono da agência, que está me esperando, me conduz a um café onde me oferece chá. Lá sou apresentada ao guia Hassam e ao muleiro, também chamado Hassam, que acumula a função de cozinheiro. Antes da partida, alugo luvas e consigo emprestado um par de bastões porque quando saí do Brasil nem imaginava fazer alguma atividade esportiva desse tipo. Neste 1º dia, vamos fazer uma caminhada de esquenta visando o grande momento do trek: o ascenso ao Toubkal no 1º do ano!! Para tanto o guia escolhe a subida ao Tizi ou passo N’tmatert, situado a 2.267 metros dado o desnível de 1.500 metros desde a vila Imlil. Durante o caminho, cruzo bosques de coníferas sob um céu azul e sol brilhante. Ao chegarmos ao passo, o cozinheiro prepara almoço que como ao ar livre enquanto avisto, no distante vale Azaden, Tizi M'azik, outro passo de 2.445 metros; à esquerda despontam os 3.650 metros do Pico Agulzim e abaixo, no fundão de Imnan Valley, parecendo de brinquedo uma de suas vilas. Terminada a pernada, nos dirigimos pra Ait Souka, uma das 11 vilas do Imlil Valley, onde me hospedo num hostal super familiar, que vem a ser a casa do irmão do dono da agência que contratei em Marrakech. O canto do muezin chamando pra prece ecoa na vila à tardinha. Meu quarto é bom e tem banheiro privativo. O sinal do wifi é forte permitindo que eu veja filme na Netflix enquanto espero a janta. À noite faz frio pra caramba, afinal estamos a 1.500 metros de altitude. Dia seguinte, véspera de ano novo, deixamos Ait Souka, não sem antes o simpático dono do hostal fazer com que eu leve sua jaqueta, porque a minha está com um problema no fecho éclair. Que gentil esse bérbere!! Passamos pela vila Armed, maior vila do Imlil Valley onde o guia e muleiro nasceram, entrando no Mizane Valley onde o terreno começa a se tornar mais íngreme porque agora é só subida. Fazemos uma paradinha num armazém onde além de trocentas bugigangas, dentre elas carregador solar de celular, vende-se delicioso suco de laranja espremida na hora. A trilha é bem demarcada e dá pra se avistar as encostas das montanhas do Atlas cada qual, é claro, com um nome próprio. Nem me arrisco em perguntar os nomes delas porque a língua realmente é muito complicada de se entender. Quando chego aos 2.300 metros onde a vila de Sidi Chamarouch está localizada, sou agraciada com o som duma guitarra bérbere tocada por um jovem sentado num terraço. Mais adiante, o som dum tambor reverbera. Que beleza, meu bom Alá!! Estou encantada com tanta musicalidade em plena montanha do Atlas! Aliás, a música para os bérberes é algo muito natural e levada super a sério porque através das canções a história milenar deste povo guerreiro é passada de geração em geração. A vila Sidi - significa santo - Chamarouch é ponto de peregrinação pros mulçumanos e seu santuário fica no interior duma grande rocha arredondada pintada de branco. Há lojas vendendo artesanatos, pousadas e restaurantes com terraços. Num deles, sou acomodada, sendo-me servido o almoço. Sem muita fome devido à altitude, belisco alguns pratos, embora sejam apetitosos. A partir de Chamarouch, neve e gelo começam a dar pinta, mantendo-se o terreno, assim, bordado de branco até o refúgio. O tempo está excelente, sol radioso e temperatura agradabilíssima. Chego às 16 e 30, após 7 horas de caminhada, no lugar onde foram construídos 2 feios prédios de alvenaria escura que vêm a ser os dois refúgios de montanha do Jbel Toubkal. O mais antigo, com 100 anos chama-se Clube Alpino Francês, o segundo, bem mais novo, tem apenas 14 anos. Chão e encostas de montanhas ao redor cobertos de neve. Segundo meu guia tive sorte de ter sido acomodada no Clube Alpino porque o outro, comenta ele, não é tão bom. Lotadaço de jovens o refúgio, a maioria europeus, uns poucos africanos, e um que outro asiático. Os coroas são raros, não preenchem uma mão. Meu quarto no primeiro andar deve ter uns 12 beliches cabendo 24 pessoas. À noite, um casal, integrante dum grande grupo russo, se fantasia de papai noel e mamãe noel pra diversão de seus conterrâneos. Aliás, os russos destacam-se do restante dos demais hóspedes devido à sua animação: gargalhadas e gritaria reverberam por bom tempo num dos salões onde se faz as refeições. Protagonizo um bate boca com uma marroquina e seu namorado que “furtaram" meu beliche enquanto eu estava no refeitório, tudo porque queriam dormir lado a lado durante a noite. Ela se queixa dos meus modos ao dizer vous n'est pas gentil, ao passo que eu pego pesado e solto you are thief of bed. O namorado não dá um pio durante nossa discussão. Na madrugada do 1º do ano, saímos eu e meu guia às 5 e 15 do refúgio. A temperatura está em – 5º C. Calço crampons desde o refúgio, numa subida forte, até o Tizi N’Toubkal, quando então os sapatos de metal são retirados pois o terreno daqui pra frente é super pedregoso com enormes rochas ladeando a trilha. A 100 metros do cume o terreno se torna “plano”, livre de qualquer rochedo, já se avistando a estrutura metálica que sinaliza a reta final, ou seja, os 4.167 metros do Jbel Toubkal. É assim que às 9 da manhã, adentro 2020 não só com o pé direito como com o esquerdo pisando no topo da montanha mais alta do Marrocos. E com direito à trilha sonora The Wall, do Pink Floyd, que está rolando do celular dum britânico. Pouco depois, dois marroquinos põem pra tocar um jazz super sensual cantado por uma cantora bérbere. Uma farra musical toma conta do cume do Toubkal. Um casal de belgas oferece chocolates e o britânico me passa sua garrafinha de uísque pra eu dar um gole. Alá meu bom Alá, que baita entrada de ano me proporcionaste....shukraan lak!!

sábado, 28 de dezembro de 2019

Rolê no Sahara

O deserto do Saara, um dos cartões postais do continente africano, ocupa perto de 8 milhões e 600 mil km². Cerca dum quinto é areia, o restante inclui vastas extensões planas de rocha, cascalho e algumas montanhas como a cordilheira de Hoggar, na Argélia. As culturas de vegetais e legumes crescem em 90 grandes oásis. Porém somente uma pequena parte do Sahara está no Marrocos, a maioria na fronteira com Argélia. Assim, no dia 27, vamos eu e Raul dar um bandaço naquela região, contratando para tal uma agência de turismo perto de nosso riad. O falante dono, machista como a maioria dos homens, quando lá vou sozinha me trata meio desdenhosamente, mudando o tom quando levo Raul. Ah, esses macho...cados!! A viagem de ida - 560 km - é dividida em 2 etapas: pernoite no primeiro dia na vila Ait Sedratejbel El Soufla, seguindo viagem no segundo dia até as dunas, ponto final da trip, quase na divisa com Argélia. Atravessamos diversas cidades de médio e pequeno porte, limpas e com boas construções. Marrocos, aparentemente, não é um país pobre, não!! Bueno, nosso grupo com gente de vários países é bem legal. No 1º dia, trafegamos inicialmente pela excelente Rota Nacional 9 (aliás todas estradas pelas quais circulamos foram boas) donde se vêem as montanhas do Atlas, algumas com as encostas nevadas, outras verdinhas de vegetação. Estamos atravessando um dos 12 estados marroquinos: Draa Tafilalet. Sua principal atividade econômica baseia-se na agricultura e na pecuária que, contudo, vem sendo impactada pela crescente desertificação da região. À medida que entramos em território bérbere, as casas se confundem com a paisagem ora de coloração ocre ora parda. Os bérberes chamam a si próprios Imazighen, que significa "homens livres" ou "homens nobres". Esta interessante junção de várias etnias, exclusivamente africanas, espalha-se pelas montanhas e desertos do noroeste da África donde é originária. Sua presença na região remonta há 5 mil anos. A população atual está em torno de 15 milhões de pessoas. Diz-se que 70% dos marroquinos descende deste povo. Nosso anfitrião, por exemplo, é bérbere pelo lado materno,ao passo que árabe pela linhagem paterna. Os tuaregues, o mais conhecido dos 3 principais grupos bérberes, são pastores nômades que ainda vagueiam pelo deserto do norte de África. Na sua maioria, são muçulmanos, mas conservam suas línguas e dialetos próprios que mudam conforme a região. Nossa primeira parada é Ait Ben Haddou, considerada Patrimônio da Humanidade, tornada famosa devido a dezenas de filmagens, destacando-se a série Indiana Jones e Game of Thrones. Constituída por um grupo de pequenas fortalezas (kasbahs ou alcáceres), com dez metros de altura cada uma, o primeiro alcácer foi fundado em 757 e começou como a residência duma única família. Em alguns alcáceres, há 4 torres destinadas cada uma a servir de habitação às 4 mulheres permitidas pelo Alcorão aos homens de posses. Simmm, tinha de ter grana pra ter mais duma esposa. Ao homem pobre só era permitido uma mulher. Oito famílias ainda vivem nos alcáceres; o restante dos habitantes mora agora numa aldeia mais moderna, no outro lado do rio Ounilla cuja água é inacreditavelmente salgada já que o oceano está a centenas de kms!! Subi até o alto duma colina donde se tem uma visão do altiplano marroquino com uma fileira de montanhas do Atlas pontuando a paisagem. Aqui a paisagem se torna cada vez mais árida prenunciando a área desértica que está por vir. E a viagem continua até Ouarzazate, cidade de médio porte, limpa e com boas construções, chamada "porta do deserto", já que se situa numa zona de transição entre as montanhas do Atlas e o deserto do Saara. A região em volta é um dos locais de Marrocos mais usados como cenário por realizadores de cinema de todo o mundo. Nos anos 1960, começou a ser um lugar de rodagem de filmes históricos, entre os quais o célebre Lawrence da Arábia. A cidade é sede dos estúdios Atlas Corporation e tem um museu do cinema onde são expostas peças dos cenários e vestuário usados em alguns filmes rodados na região. Após a breve parada em Ouarzazate, seguimos até a velha Kasbah de Todgha, situada no vale do rio Dades. Aqui, somos guiados por um guia, parecido com Al Pacino, metido a engraçadinho, que nos leva a visitar uma cooperativa de tecelãs bérberes. Fabricantes artesanais de tapetes, as mulheres trabalham apenas 3 horas, demorando de 5 a 6 meses pra finalizar 1 peça. Usam pelagens de camelo baby e adulto, bem como de ovelha. O do camelo baby parece veludo de tão macio. As técnicas de tecelagem são passadas de geração a geração. Vejo ao longo da rodovia placas de cooperativas femininas agrícolas e de artesanatos. Bom saber que as mulheres aqui também sabem se organizar. Seguimos então até a espetacular parte final do canyon Todgha, resultado do trabalho de erosão do rio Dades. Aqui a garganta se estreita de tal modo que em certo trecho tem apenas 10 metros de largura. Somente na estação da seca é possível atravessá-lo porque na época das chuvas a forte correnteza do rio impede sua visitação. Enfim, chegamos na vila Hassi la Bied, uma das portas de entrada às excursões no deserto Merzouga. Aqui deixamos a van e embarcamos numa 4x4 até nosso acampamento, um dos muitos situados entre dunas cuja coloração é avermelhada. Entretanto, não chegamos a passear em Erg Chebbi, o maior conjunto de dunas de Marrocos porque a agência, manipulando nossa ignorância, nos iludiu ao dar a entender que iríamos adentrar Sahara adentro. Assim, o que vimos foram dunas um pouco maiores que as da praia do Cassino e não aquela monumentalidade que vemos nos filmes e fotos. Raul e eu ficamos muito aborrecidos por termos sido enganados pelo esperto marroquino, dono da agência. Enfim, não foi de todo mal, afinal não é qualquer um que pode dar um rolê no lombo de camelos à tardinha no sol poente. À noite, show de música bérbere com homens tocando seus instrumentos tradicionais e cantando canções típicas ao pé duma fogueira pois a noite está muiito fria. Dia seguinte, acordamos cedo e após o desjejum, vamos dar outro rolê nos camelos. Faz um frio terrível, em torno de 4ºC!!, minhas mãos congelam porque estou sem luvas. Depois duma ½ hora, os guias param num lugar situado a 2 km do acampamento e fazem uma fogueira pra nos esquentar. Dali embarcamos no 4x4 e voltamos até a vila Hassi la Bied onde embarcamos na nossa van retornando a Marrakech. Embora tenha sido uma trip convencional, daquelas que a bunda achata de tanto ficar sentada dentro dum carro e parando 1 hora se tanto nos lugares, Raul e eu concordamos que valeu não só pelas lindas paisagens e vilas milenares visitadas como ainda por termos conhecido um pouquinho deste tão interessante povo bérbere!!

sábado, 21 de dezembro de 2019

Marrakech

Como faço há 2 anos desde que Raul, meu único filho, se mudou pra Bissau, capital de Guiné Bissau, vou no final do ano ter com ele. Aproveitamos então pra viajar por alguns países, africanos, de preferência. Assim sendo, só permaneço 2 dias em Bissau, justo pra renovar meu visto. Dia 20 de dezembro nos tocamos pra Marrocos, um dos países (os outros são Argélia e Tunísia) pertencentes ao Pequeno Magreb, situado no noroeste da África. Na época do Império Romano, era conhecido como África menor. Em 1956, Marrocos que, até então, era protetorado francês, tornou-se independente, constituindo-se atualmente numa monarquia constitucional. Nosso primeiro destino em solo marroquino é Casablanca onde nos hospedamos no ape de Omar, amigo de Raul. Embora não seja capital do Marrocos, é sua mais populosa cidade com cerca de 5,5 milhões de habitantes. Situada à margem do Atlântico, tem o maior porto do norte da África, sendo o centro financeiro e industrial do país. Moderna, com amplas avenidas, a cor branca prevalece nas construções, daí a origem de seu nome. Ao estilo mourisco entremeia-se o legado arquitetônico francês. A ampla variedade de restaurantes, cafés e bistrôs oferece, além da culinária marroquina, a de outros países, dando à Casablanca certa feição cosmopolita. Quando chegamos ao apartamento de Omar, sua mãe, a carinhosa e hospitaleira Zeina, nos espera com um tacho de cuscus, tradicional comida árabe feita com sêmola de trigo, ao contrário do nosso cuscus feito com milho. Dia seguinte à nossa chegada, vamos com Omar a uma cafeteria onde provamos um tradicional desjejum marroquino. Lá se encontram além da mãe de nosso anfitrião, Rabiaa e Ali, respectivamente, cunhada e irmão de Omar. O nome da moça significa primavera. Provo harira, a sopa nacional marroquina. Trata-se dum caldo de muita sustância feito com carne, tutano, lentilha, grão de bico, aletria temperado com diversas especiarias. Terminada a refeição, passeamos no boulevard La Corniche onde só é permitido ver o lado externo da Mesquita Hassan II, construída parcialmente sobre o mar, sendo a segunda maior mesquita do mundo islâmico. Com seu teto retrátil permite que os fiéis rezem tanto à luz do dia como sob a luz da lua e das estrelas. No retorno pra casa, vejo alguns mendigos nas calçadas. E o véu muçulmano, o hijab, continua sendo muito usado no país, tanto que Zeina só o retira quando Raul não se encontra no ape. Como é usual, em qualquer cidade muçulmana, os minaretes das mesquitas se sobressaem entre os prédios, ouvindo-se o chamamento dos muezins 5 vezes ao dia, convocando às preces os fieis. No terceiro dia, deixamos Casablanca num confortável ônibus rumo a Marrakech percorrendo uma excelente autoestrada. Marrakech, a cidade vermelha, assim chamada pela coloração de suas construções, situa-se no sopé da cordilheira do Alto Atlas. É a quarta maior cidade do país com cerca de 1 milhão de habitantes. Chegamos à tardinha na cidade marroquina que mais atrai turistas no Marrocos. A sua parte antiga, conhecida como Medina ou Almedina é cercada por muralhas com 19 km de perímetro, cujo propósito nos tempos dantanho era de proteger a antiga cidadela. Classificada como Património Mundial desde 1985, a Medina de Marraquech abriga o maior mercado (souk) tradicional bérbere, composto por um labirinto sinuoso de ruas estreitas, muitas delas cobertas por telhados de pedra ou madeira, exibindo centenas de lojas. Chatos vendedores de rua quase arrastam os turistas pra visitarem seus bazares...que pentelhagem....socorro Alá!! Aqui, são vendidos, desde os tradicionais produtos de couro e tapetes bérberes até eletrônicos de última geração. Em algumas tendas, a estonteante oferta de ervas aromáticas, destacando-se rosa, rosa mosqueta, pedra de granada, canela e macela. A oferta de doces tanto nas ruas quanto em confeitarias tira a gente do sério. Ali e acolá vendedores em cujos carrinhos espigas de milho assam em braseiros sempre acesos. Entretanto, um perigo o movimento incessante de motos nas apertadas ruas sem calçadas da Medina. Os motoristas tiram fininhos impiedosos dos pedestres. Aliás, os marroquinos não são lá muito bem educados no trânsito assim como os brasileiros. Além de laranjeiras e bergamoteiras, enfeitam as calçadas das avenidas centrais, canteiros com pés de roseiras em diversas colorações. De qualquer ponto da cidade se vê a Mesquita Koutubia, e nos seus arredores, vendedores de água paramentados com seus trajes típicos oferecem o líquido. Na praça Jamaa Lafna, coração da Medina, impera o comércio de comidas: tendas de frutas com romãs, caquis, laranjas, bergamotas, maçãs, melões e manga bem como de frutas secas. Mais adiante, tendas de carnes, peixes e frutos do mar. Competem lado a lado quiosques de comidas regionais. Se à noite o espetáculo das lamparinas acesas dispostas no chão da praça é de encher os olhos, durante o dia quem faz a festa são os macacos e as cobras oferecidos por seus amestradores para tirar foto com os turistas. Embora medrosa, pago pra tirar foto com uma cobra tipo naja. Adorei!! Igualmente, se paga se quiser filmar músicos tocando seus instrumentos típicos enquanto homens dançam ao som das melodias no interior da roda formada por turistas e nativos. E contadores de estórias desfiam as façanhas e lendas do povo bérbere. Pena que que eu não entenda patavina da língua. Disponíveis pra se dar um rolê na cidade há, a duas quadras da praça, caleças de aluguel conduzidas cada uma por 2 garbosos cavalos enfeitados com flores de plástico coloridas na cabeça. Estamos hospedados na Medina, num riad que vem a ser aquela construção árabe com pátios internos em seu interior. Nosso riad é um hostal bem legal, sendo que os hóspedes, em sua maioria, são jovens oriundos de várias cidades europeias, exceto uns pouquíssimos africanos. De seu terraço, ao final da tarde, dá pra curtir o canto dos muezins chamando pra penúltima prece enquanto o sol se põe no ocidente tingindo de rosa a neve acumulada no topo das montanhas do Atlas. Durante os 5 dias em que permaneci em Marrakesh conheci atrações turísticas super interessantes como Jardin Majorelle comprado por Ives Saint Laurent e seu companheiro, Pierre Berger. Restaurado, foi aberto ao público após a morte do casal. No jardim, além duma coleção de cactus trazidos de vários pontos do planeta, há o interessantíssimo museu bérbere mostrando a cultura deste povo que constitui 70% da população marroquina. Numa das muitas pernadas dentro da Medina, dei de cara com o maravilhoso Museu de Arte Culinária Marroquina onde, em duas salas voltadas para um dos jardins, há a exibição de 2 mulheres demonstrando como se faz cuscus e extração de azeite de oliva. Aqui desfruto um típico almoço com 3 saladas de entrada: tomate caramelado, pasta de berinjela e taktouka, mais briwat (tipo de pastel) de vegetais com queijo e sekare. Prato principal, tajine de frango com confit de limão. Sobremesa, pastilla au lait. Bebida, chá. Uma observação, o feijão com arroz dos marroquinos é tajine, que pode ser bem simples, apenas usando legumes e verduras, até os mais sofisticados que levam carnes e peixes. Perto dali fica a Kasbah, região movimentada, ainda dentro da Medina, pra onde me toco a fim de visitar as Tumbas Saadianas. Neste mausoléu coletivo estão sepultados cerca de 60 membros da dinastia saadiana, que reinou em Marrocos nos séculos XVI e XVII. Roseiras brancas e arbustos de camélias vermelhas foram plantados ao pé das sepulturas cavadas no chão, enfeitadas com ladrilhos coloridos. Um lugar muito tranquilo se se desconsiderar a quantidade de turistas assanhados em tirar fotos diante dos túmulos. Ainda na Kasbah, passo ao largo da mesquita Moulay El-Yazid a caminho da Porta Bab Al Agnaou, um imponente portão do século 12 em forma de ferradura, decorado com inscrições do Alcorão. O último lugar a ser visitado foi o Jardim Menara, casa construída por 1 sultão para seus encontros amorosos. Do jardim Menara se nesta época do ano tem uma bela visão das montanhas que abraçam Marrakech com seus picos ainda nevados nesta época do ano. Deixamos Marrakech, após o natal, porque estamos Raul e eu super a fim de fazer um tour no famoso Sahara....simbora pro deserto!!

domingo, 4 de agosto de 2019

Poeta, Camões do Jalapão

E lá vamos nós, eu mais Pedro Emilio, rumo ao destino final da trip: Jalapão. Hoje, segunda-feira, coincidentemente, 1º de julho, saímos cedinho da vila São João porque temos pela frente quase 600 km até Palmas. Embora curta muito a cidade, a permanência é vapt vupt. Jalapão me aguarda. Trato então de aproveitar muito bem o dia na capital do Tocantins, pedalando até Luzimangues, num solaço de 34º C. Banho-me nas águas mornas e transparentes do lago Tocantins, jantando à noite, eu e Pedro Emilio, saboroso tucunaré na praia da Graciosa enquanto assistimos Brasil x Argentina pela Copa América. Na quarta, constato com satisfação que a TO 130 que liga Palmas a Ponte Alta está boa ao contrário do ano passado quando se apresentava exasperantemente esburacada. A partir de Ponte Alta, o horror começa: a TO 255, de chão batido, cheia de costeletas, é uma provação física e emocional. Os 105 km até a sede da fazenda Progresso é como se estivéssemos dentro duma britadeira e não dum carro. Milma e Antonio ficam contentíssimos quando me vêem, se tornando amigões de Pedro Emílio instantaneamente. Penduro a rede perto da densa mata que se espalha ao longo do córrego Frito Gordo embora Antonio me alerte sobre o risco da passagem de onças à procura de capivaras que costumam se banhar no rio Novo, distante 30 metros. Pois certa noite, lá pelas 3 da madruga, escuto, após os latidos nervosos de Pluto, o ruído pesado das patas do felino correndo na mata. Santo deus, que medo! Chamo Pedro Emílio e peço-lhe “rápido, criatura, acende a fogueira!”, o que ele faz em 10 segundos. E de olhos bem abertos, acordadíssimos, esperamos ansiosos o dia clarear! Com tal cagaço, rapidinho, mudamos as redes de lugar! Bueno, meu objetivo ao retornar pra cá, não é turistar e sim construir uma tapera no talhão por mim adquirido ano passado quando cá estive. Pra tanto, vou a Mateiros, distante 70 km, enfrentando outro trecho tenebroso da TO 255, coberto de areia fofa. À medida que nos aproximamos das dunas, vai se agigantando o inconfundível formato de rolha de espumante do morro Sacatrapo. O movimento de veículos com turistas é intenso já que estamos no mês de julho, férias escolares. Em chegando a Mateiros, procuro Poeta, especialista na construção de taperas. Promete que, terminado o rancho que está construindo, começará o meu. Quando retorno à fazenda Progresso, vou dar um vistaço na minha chácara. Nem lembrava quão linda é, estou encantada. Com sua pequena praia de areias douradas à beira do rio Novo que, de tão limpo, ainda é reduto dos exigentes patos mergulhões, vislumbra-se além da mata ciliar extensa vereda de buritis onde o capim dourado já começa a dar pinta. Meus deus, que incrível, sou dona dum pedaço lindo de puro cerrado, nem acredito! Batizo a chácara de Vereda Dourada!! Antonio e Milma que venderam parte da fazenda Progresso prum deputado de Palmas se mandam, contentes, pra Porto Nacional onde começarão vida nova. Deixado pra cuidar do lugar Rubens. Natural de Ponte Alta, fala mansa, cuida com capricho do restaurante, preparando saborosos pratos caseiros, em especial peixes por ele pescados no rio Novo. Narra que, fugindo da aridez do sudoeste do Piauí, seus pais vieram pra cá em busca duma vida melhor. Montada em jumento a mãe e o pai em mula, o jovem casal alcançou após 5 dias de cavalgada Mateiros. Após descansarem dois dias, seguiram viagem, atravessando a serra da Muriçoca pra se estabelecerem duma vez por todas em Ponte Alta. Na década de 60, explica Rubens, Mateiros e Ponte Alta eram carentes de certos recursos, o que obrigava os nativos a longas incursões ao Maranhão, carregando nos lombos de mulas rapadura, toicinho e cachaça trocados por sal, querosene e outros víveres. Após a partida do casal Antonio e Milma, nós nos mudamos pra chácara vizinha cujo dono mora em Brasília porque o deputado e seus amigos promovem festas ruidosas quando vêm passar o findi aqui. Queremos sossego... xô som alto até as 3 da madruga tocando sertanejo sem parar. Enquanto aguardo a chegada de Poeta, os dias seguem deliciosa rotina: lavo louça e roupa à beira do rio Novo; sobre pequenas fogueiras improvisadas por Pedro Emilio no meio do terreiro, cozinho pros desjejuns mingaus de aveia com melaço de cana e sopões de legumes nos almoços e jantas; chapatis, feitos por Pedro, reforçam as refeições. Vez por outra, deliciosas fritadas de lambaris pescados pelo Xamã Sideral regados a cachaça da terra! À noite, uma raposa passeia blasé do outro lado da cerca olhando de canto de olho pra nós. Na escuridão, seus olhos luzem, no meio do mato, nos observando. Pedro Emilio não para de ver estrelas cadentes riscando o céu sem nuvens. Invejosamente, acuso-o de estar inventando, impossível tanta estrela despencando céu abaixo assim, caramba!! Hoje, 17 de julho, quarta-feira, vou pras Cariocas, praia distante 500 metros donde estamos, juntar-me ao pessoal da 4 Elementos que opera no Jalapão um combo de raft no rio Novo mais passeios pelos fervedouros e dunas. Conheci Galera, um dos sócios desta empresa de ecoturismo, através do Antonio, e me “convidei” pra fazer o raft. Quando chego ao acampamento, os guris da equipe chamam minha atenção pro eclipe parcial da lua que se delineia no azulado céu de fim de tarde. No 1º dia, parte-se das Cariocas e após 6 horas chega-se ao acampamento nos Buritis Pelados, após enfrentar dezenas de corredeiras cujos níveis variam de 1 a 4, destacando-se pelo grau de dificuldade Icion, Coice da Anta, Pata da Onça e 4 Elementos. Inúmeras praias de areia dourada ora ladeadas por densa mata ora descortinando a vastidão das veredas de buritis. Patos mergulhões flutuam na correnteza enquanto martins pescadores e biguás dão rasantes nas transparentes águas do rio. As queimadas são uma constante durante os 23 km do percurso. Embora curto o trajeto do 2º dia, o raft reserva emoções de tirar o fôlego e provocar frio na barriga!! Após os guias portearem o bote vazio até o remanso após a Velha, nós damos um balão nela caminhando por uma trilha que conduz à beira rio. Reembarcamos no bote e remamos em direção à gruta situada numa reentrância da cachoeira, que despenca sua espessa cortina d’água diante de nós. Agora sim, começa a verdadeira adrenalina: enfrentar as turbilhonantes corredeiras Frankstein, Índio e Éxtase que se sucedem vertiginosamente uma após a outra. Infelizmente, este curto e emocionante trecho de raft termina na prainha do rio Novo onde Pedro Emilio me aguarda. Como urge comprar mais víveres, dali vamos pra Ponte Alta onde nos hospedamos na Pousada Progresso cuja gerente, Vanda, narra sem pressa, a cabeluda estória de sua vida. Mulher guerreira sustentou os 9 filhos fazendo quitutes pra fora. Dos 3 maridos, apenas com o segundo foi feliz. Como alegria dura pouco, ele morreu, deixando-a viúva eternamente saudosa. A mando dum genro de olho nas suas terras, foi enviado pistoleiro contratado ao custo de R$ 1.500,00 pra matá-la. Mas não é que o cabra se encantou por Vanda e desistiu de dar cabo de sua vida, só não matando a peste do genro porque ela o impediu?! E os dias se sucedem tranquilos. À tardinha, costumo ir até Rubens pra carregar o celular porque onde Pedro e eu estamos não há energia elétrica. Contra a infernal mosquitama que ataca impiedosamente de manhã cedinho e ao pôr do sol, nada melhor que armar um fumacê feito com folhas secas. É tiro e queda! Finalmente, no dia 22, chega Poeta, pilotando sua motoca, cheio de energia, pronto pra fazer a tapera. Natural de Mateiros, o cinquentão, de físico aprumado, é trisimpático e muito falante ao contrário de seu ajudante, Jesuíno, do tipo que entra mudo e sai calado dos ambientes. O apelido Poeta se deve ao gosto de conversar em forma de repente, quando baixa a inspiração. Pedro, que se hospedou em sua casa quando estivemos em Mateiros, me conta encantado que Poeta antes de adormecer e ao acordar escuta música de ninar. Aproveito e acrescento ao Poeta Camões do Jalapão porque, assim como o bardo português, ele também é caolho. Perdeu seu olho direito numa emboscada armada por um cabra malvado que, despeitado por ter perdido 3 partidas de sinuca, o feriu gravemente, permanecendo 28 dias em coma. Embora o bandido não tenha sido punido pela justiça dos homens, morreu num acidente de carro, “com a espinha partida”, acrescenta Poeta sem qualquer pingo de triunfo. Poeta mais Jesuíno levam 1 dia derrubando a golpes de machado os sassafrás pretos e as pindaíbas que serão usadas na construção da tapera. No dia seguinte, esse material é arrastado, literalmente, não só pela minha camionete como pelas motos de Poeta e Jesuíno até a clareira onde será erguida a tapera. Acompanho dia a dia o processo de construção. Não há como não ficar apreensiva com o trabalho duro e arriscado de Poeta e Jesuíno quando escalam os 4 metros de buritis pra cortar do alto das palmeiras as folhas a serem usadas na cobertura do telhado. Em 6 dias, eis erguidíssima a “casinha”!! E Poeta se torna, além de Camões, o Niemeyer do Jalapão!! Pedro Emilio mais eu penduramos ali as redes, passando nossa última noite no Jalapão na tapera recém construída!! Paralela à construção da tapera, muito festerê com Igor e família que pra cá vieram desfrutar alguns dias na sua chácara, vizinha à minha. Com eles chega também o casal Maria Emilia e Lucas mais os filhos Antonio e Francisco. Aqui é assim, tudo muda quando menos a gente espera: da calmaria à agitação, num piscar de olhos. Antes de retornar a Palmas, vamos a Mateiros pela última vez onde tenho a oportunidade de conhecer a família de Poeta, comandada pela amorosa tia Maria. Matriarca da família, além das 2 filhas, criou um tanto de sobrinhas e sobrinhos, incluído aí Poeta. Em sua espaçosa residência, vive uma penca de parentes entre adultos e crianças. Hospitaleira, oferece talhadas de melancia pra quem chegue na casa. Após a breve permanência em Palmas, justo um fim de semana, em que me hospedo na casa de Maria Emilia, desfrutando boas conversas regadas a cachaça, muito pedal e pôres do sol inesquecíveis às margens do Tocantins, volto a toque de caixa pra casa, antes passando em Cuiabá pra pegar minha amiga Osnilde também retornando ao sul. Pra finalizar tal relato, confesso que durante os 30 dias vividos no Jalapão me senti tal qual sucuri em brejo....feliz demais!!!

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Explorando melhor Goiás

Na sexta, 14 de junho, com a Chapada dos Guimarães se distanciando no horizonte, o plano é dormir em Barra do Garças onde fiquei ano passado. Ao ali chegarmos, por sugestão dum frentista, enquanto abasteço o carro, seguimos pra Aragarças, já em solo goiano, procurando o balneário Água Santa por ele indicado. À beira do mítico Araguaia, o lugar conta com excelente estrutura de camping, restaurante e piscinas de águas termais. Como pano de fundo, a serra do Roncador que se estende por 800 km do Mato Grosso ao Pará. Baita dica a do rapaz, valeu, meu! Permanecemos até domingo de manhã, lastimando partir de tão agradável lugar. Contudo aproveitamos bem o sábado, pedalando por estradinhas de chão batido de manhã e navegando de voadeira no Araguaia à tarde. Durante o passeio, vejo dezenas de aves, destacando-se as lindas garças rosas, mergulhões e os fugazes botos cinza que mal dão pinta fora d’água. Super piscoso, o Araguaia é delírio da galera que gosta de pescaria, motivo por que se vêem, em plataformas projetadas sobre suas águas escuras, turistas empunhando sofisticadas varas de pescar. Enquanto rumamos pra Brasília, me dá na telha conhecer Pirenópolis motivo por que desvio então de rota. Pedro Emílio fica muito contente porque lá morara há 30 anos. O lindo e preservado centro histórico exibe antigos casarios pintados em cores vivas. Pernoitamos no Jardim Secreto, cujo dono Diogo, pertence também à tribo dos alternativos (diferente porém da do Xamã já que a sua é a de 1 homem só). Praticante de Daime, abandonou emprego público em Goiânia, se estabelecendo aqui onde toca sua pousada e camping. Dormimos em redes penduradas no quintal, contudo nosso objetivo é acampar em local não tão urbano, por isso nos mandamos pro camping Raízes, lugar adorável à beira do rio das Almas, no meio do mato, onde penduramos as redes. O dono, Fernando, super amável, deixa até lenha armada pra fogueira noturna. Foi tanto o frio nas duas noites em que lá pernoitamos que, na segunda, enchemos garrafas plásticas de 500 ml com água quente de modo a aquecer os pés. Em compensação, a lua cheia abrilhantava a escuridão cada vez que eu levantava, tiritando, na madrugada pra urinar! No último dia em Pirenópolis, contrato Carmem Cecília, tatuadora que vive na pousada de Diogo, pra nos servir de guia. Ela nos leva a lugares onde não é cobrada taxa de visitação. Assim conhecemos uma parte da cidade de Pedra e as belas cachus das Andorinhas e Sonrisal, sendo que nesta última sucessivas quedas d’água terminam em poços de esverdeada limpidez. A caminho da segunda cachoeira, paramos no mirante do Ventilador donde se avistam Pirenópolis e a chaga representada pela pedreira na encosta da serra dos Pirineus que rodeia a cidade. O passeio termina com a subida ao ponto mais alto da região, o pico dos Pirineus. Nem só às atividades físicas dedico minha estadia em Pirenópolis. Há também momento cultural quando descubro no museu do Divino, a sen-sa-cio-nal exposição de esculturas de terracota feitas pela nonagenária artista plática Safia que trabalha com o barro desde 0s 7 anos de idade. Na quarta, agora sim, a caminho de Brasília, passamos por Salto do Corumbá, lindíssima queda d’água à beira da BR 414. Etanol baratíssimo desde Mato Grosso do Sul, uma beleza. Em MT chega a 2,60. Na capital federal, ficamos no quitinete emprestado por minha amável prima Maria Luiza, pertinho do ape de Jorge Otavio e Sonia, outros primos queridos com quem na última noite nos divertimos muito jogando cartas os quatro na casa do casal. Conheço outra faceta de Brasília, invadida por frente fria que traz além de queda de temperatura rajadas fortes de vento....que merda! Durante os 5 dias na cidade, não descuramos de nossa rotina de exercícios físicos, pedalando todos os dias nas suas boas ciclovias. E a parte cultural foi preenchida por audições de MPB, em especial chorinho e forró, proporcionados por Clarissa, outra prima, que canta e encanta em vários bares da cidade. Era pra gente ter partido de Brasília no domingo mas como Pedro Emílio foi atropelado, ou melhor, atropelou de bicicleta um carro no sábado à tarde (a consequência foi que acabou no hospital de Base pra dar pontos na cabeça porque estava sem capacete, o tonto), somos obrigados a estender nossa estadia por mais um dia. Isso porque nosso próximo destino, Vila São Jorge, é carente de recursos hospitalares, e vá que nesse meio tempo tenha o Xamã alguma convulsão. Por precaução, partimos na segunda-feira, quando a caminho da Chapada dos Veadeiros, paro na Vovó Herminia prum lanche-almoço. O estabelecimento, especializada em quitutes goianos, tem como carros-chefes suco de milho, empadão goiano e pamonhas com diversos recheios. Ao chegar à Vila vou direto e reto pro Canto da Coruja sendo recebida pelo incansável Buba, pau pra toda obra no sítio. O camping sofreu melhorias significativas, passando a ter um setor de glamping, cozinha aberta com fogão caipira e centro de meditação na colina distante 200 metros da sede. Também ali se encontra Carlos, simpático catalão de Barcelona, permutando trabalho por hospedagem e comida. Veio pro festival de slack line já realizado em Cavalcante. Descubro a exótica cachaça de jambu, comprando além duma garrafa desta bebida, outra de arnica. Nos deliciosos 5 dias que ficamos na vila, muito pedal pelas redondezas, pernada ao mirante das Estrelas onde curto baita pôr de sol e 2 trilhas no PN Chapada dos Veadeiros: a do Carrossel, Saltos e Corredeiras, num dia e a dos Canyons e Cariocas, noutro. Almoços na Nenzinha, bufê de saborosíssima comida caseira. Na sexta, pé no acelerador: próximo destino, Terra Ronca que não consegui conhecer ano passado, mas neste, sim...uhuuu!!! Situado no nordeste de Goiás, o Parque Estadual de Terra Ronca abriga mais de 200 cavernas secas e 60 molhadas, sendo considerado um dos maiores complexos de cavernas na América do Sul. O local abriga 7 das 30 maiores cavernas do Brasil. Aliás, seu nome vem do som dos rios dentro das cavernas que ao reverberar pelas paredes lembra roncos. A maioria delas destina-se apenas a pesquisadores; ao turismo estão reservadas 17, sendo 11 delas grandes complexos de diferentes níveis de dificuldade. Quem parte de Brasília, têm 2 rotas pra visitar o parque. A primeira é pegar a BR 20 até Posse e depois seguir pela GO 108 até Guarani de Goiás. Já que estou em Alto Paraíso, escolho continuar pela GO 118, seguindo pela GO 112 que exibe ásperas formações rochosas em parte de seu trajeto. Após sua relativamente boa estrada de chão batido, enfrenta-se o poeirento e avermelhado terreno da GO 447, um martírio. Almoço em Vazante, distrito de Divinópolis, cuja comida caseira feita pelo dono (a mulher teve de sair) é de lamber os beiços! Xamã se serve 3 vezes! Atravessamos Divinópolis e logo estamos na pacata São Domingos onde dormimos. A simpática cidadezinha, localizada à beira do lago São Domingos, pede um pedal, é claro!! Assim, pedalo pelos arredores, curtindo a bela paisagem das rochas de coloração avermelhada que formam a serra Geral cujo destaque é o pontudo morro do Moleque. No sábado, enfrentamos os 41 km da GO 110, estrada de chão batido bem ruinzinha até a vila São João Evangelista. Trata-se duma pequena comunidade com algumas centenas de moradores. A rua principal, sem calçamento, é onde a maior parte da vila se assenta. Sua localização é estratégica considerando que as cavernas as quais são permitidas visitação se situam mais próximas desta vila do que de Guarani. São Vicente situada a 10 km da vila não está aberta à visitação pois necessita de rapel pra atingir seu interior e no momento não há guia que faça tal atividade. Angelica, a 25 km, também antes da vila, ao passo que Terra Ronca I e II, São Mateus e São Bernardo distam, respectivamente 13 km e 23 km depois da vila. O guia contratado, João Pedro, é um simpático e paciente rapaz de 22 anos. Seus pais, Laureci e Rubem, donos do camping onde estamos, são muito amáveis. Ela me presenteia com ovos de suas galinhas e oferece café adoçado quando, sentada à varanda de sua casa, aproveito o wifi inexistente no camping. Hoje vamos a São Mateus. Poucos são os dias nublados no centro-oeste, hoje, contudo, assim se encontra o céu, pouco importando já que vamos nos embrenhar nas estranhas da terra. Do interior do carro, vemos, além duma onça parda (pensei que fosse um cachorro rotweiler) cruzando a estradinha que dá acesso à caverna, duas seriemas que, assustadas, fogem campo adentro. Nada fácil percorrer a São Mateus. Temos de descer bastante até alcançar sua estreita boca, originada por sucessivos desabamentos, escondida por densa vegetação. Seu escorregadio e íngreme terreno calcáreo exige cuidado. A caverna cheia de altos e baixo, cortada pelas rasas e límpidas águas do rio São Mateus, conta com vários salões interligados por corredores, alguns bem estreitos. Os espeleotemas são interessantes: alguns lembram pela textura corais, outro um branco pássaro, num salão mais adiante, uma estalagmite representa com perfeição a Torre de Pisa! A bem da verdade, cavernas nem me atraem muito, exatamente pela ausência de luz em seus interiores, porém há vários anos, desde 2007, nutria curiosidade em conhecer a região. São 2 horas de intenso sobe e desce e quando saio da caverna respiro aliviada ao rever a luz do dia. Descubro que Xamã se sentiu oprimido, meio sufocado pela escuridão tanto que na volta deu um pique pra sair ligeirinho do breu, o coitado. Creio que foi o único passeio que ele não curtiu muito dos tantos que fizemos durante a trip. Se a manhã fora nublada, à noite o céu brilha coberto de estrelas. No domingo, vou só eu visitar as 2 Terra Ronca que em priscas foi uma só caverna. Com o desmoronamento de seu teto, restou dividida em duas, daí a denominação Terra Ronca I e Terra Ronca II. Quando estamos a 1 km da caverna, já é possível avistar a estrutura das rochas escuras que formam seu teto. Quando lá chego, deslumbro-me com sua gigantesca bocarra, que permite o vazamento de generosa porção de luz solar, de modo a permitir seja iluminado bom pedaço dos 800 metros de sua travessia. Me sinto literalmente uma formiga. Já de cara curto pra caramba a Terra Ronca I, exibindo, a alguns metros de sua entrada, rocha vazada no formato de coração, com o sugestivo nome de Pedra dos Namorados. O amplo e plano salão, cortado pelas claras e cálidas águas rio da Lapa, desemboca noutra abertura que sai na cerrada e verdejante mata conduzindo à segunda caverna. A trilha, linda, persegue o onipresente rio da Lapa que continua Terra Ronca II adentro. Recordou-me pelos perrengues das subidas e descidas os anos de canionismo em Praia Grande/SC. Desce-se até sua primeira entrada, pequena se comparada à I, pra após 100 metros, alcançar a segunda boca. Neste segundo salão, igualmente plano, já na escuridão total da caverna, quebrada pela fraca iluminação de nossas humildes lanternas, atravessamos até a margem oposta do rio cuja correnteza, neste ponto fortinha, exige que nos agarremos em providencial corrimão feito com corda. A água por pouco não bate no meu queixo. Cumpre esclarecer: sou de estatura mignon. Avisto de longe um pequeno rasgo de luz que aumenta à medida que me aproximo da claraboia, assim chamado o desmoronamento na parede final da Terra Ronca II. Tal espetáculo só acontece de abril a julho quando os raios de sol vazam pelo buracão iluminando os espeleotemas que ornamentam suas paredes. Que ignorante sortuda eu que desconhecia tal detalhe! Terra Ronca me reconciliou com as cavernas....adorei ambas!! A caminho do mirante, no teto da caverna, escuto o trinar do periquito guerreiro, ave em extinção, cuja plumagem alaranjada colore seu peito e cabeça. Dali de cima, se tem uma ampla visão da Serra Geral que tanto admirara quando estivera em São Domingos há 2 dias atrás. Encerro o domingão, curtindo o visual super lindo da cachoeira das Palmeiras, situada a 8 km das Terra Ronca I e II. Realmente, Goiás e Santa Catarina são, em minha opinião, os mais belos e interessantes estados brasileiros! Infelizmente há que deixá-lo porque o destino final da viagem é Tocantins...simboralelê!!

terça-feira, 28 de maio de 2019

Sob a proteção do Xamã Sideral

Diferentemente do ano passado, minha nova incursão Brasil adentro parte da catarinense Ponta do Papagaio, na praia da Pinheira, onde a família de Pedro Emílio, meu parceiro de trip, tem uma casa de veraneio. Permanecemos 2 dias pedalando além de uma deliciosa caminhada no vale da Utopia, na serra do Tabuleiro. O dia, mais bonito impossível: céu azul, poucas nuvens, temperatura amena. À noite, enquanto Pedro Emilio assa gorda tainha, cozinho batatas. Os assíduos leitores, curiosos, provavelmente, estão se perguntando “quem é esse tal de Pedro Emilio”? Tá tá, já tô abrindo parêntesis – bem grande, viram?! - pra explicar que conheço Pedruska há pouco tempo, remando numa guarderia, situada na vila Conceição em POA. À maliciosa pergunta duma amiga “teu love, Bia?” respondo que, no momento, dividimos apenas mesa, o futuro só a nós pertence. Bueno, voltando a Pedro Emilio: ele é o que meu filho chama de Biriri (maluco beleza) e regula de idade comigo. Repentista, faz versos poéticos quando vai com a cara da criatura. É um faz tudo por excelência, situação vantajosíssima, gente assim não se aperta em qualquer lugar do planeta pra ganhar o pão nosso de cada dia. Viver de bico exige culhão, inerente dos aventureiros raiz porque permite liberdade de movimento. Embora não tenha frequentado faculdade tem diplomas em diversos cursos, entre os quais estética automotiva, martelinho de ouro e permacultura. Até hoje, contudo, ainda não teve oportunidade de exercer tais ofícios. Mas tá na batalha. E quase esquecia o mais importante de todos os canudos: os 3 meses de sobrevivência na selva que, com justa razão, Pedroka, orgulhosamente, ostenta! Legal e sem frescuras, curte vida ao ar livre além de estar sempre pronto pra pedalar e remar comigo. Na quinta, 30 de maio, nos mandamos BR 376 afora, pernoitando na paranaense Marialva, num hotel bem legalzinho à beira da rodovia. Dia seguinte, percorremos breve trecho em São Paulo, logo adentrando Mato Grosso do Sul, com pernoite em Bandeirantes, pequena cidade à beira da BR 163, onde aproveitamos pra pedalar um pouco assim que chegamos. O bom em viajar de carro é que se pode levar bikes e caiaques pra se exercitar ao longo da viagem. Após 5 dias de estrada, chegamos em Cuiabá, no meio da tarde. O querido Oswaldinho, filho da amigona Osnilde, nos espera com sua sorridente cordialidade. Permanecemos na capital mato-grossense 3 dias, pedalando caminhando no parque Mãe Bonifácio e assistindo filmes no Netflix, convivência esta entremeada de muito conversê e risadas com nosso bem humorado anfitrião. Seguindo sugestão de Taci, namorado de Tiago, o caçula de Osnilde, vamos conhecer Tangará da Serra distante 240 km a noroeste de Cuiabá. A cidade com pouco mais de 100 mil habitantes é considerada a 5ª mais populosa do estado. Da. Maria, dona do hotel California, onde nos hospedamos, conta que quando lá se estabeleceu, há 44 anos, a luz era de gerador, sendo desligada às 22 horas. Casas de madeira e ruas sem calçamento. Não havia ainda plantações de soja ou de milho. Segundo os paus rodados (forasteiros), os cuiabanos não são de muito trabalho, se contentando com pouco, motivo por que foram os de PR, SC, RS e SP que introduziram, após correção do solo, as plantações em larga escala de soja e de milho, dando início ao agronegócio. As viagens eram demoradas em razão de as estradas chão batido, na época da chuva, virarem traiçoeiros atoleiros. Pra alongar as pernas, pegamos as bicis e pedalamos pela cidade conhecendo o bosque municipal, pequena área verde de mata de cerrado onde cotias circulam entre a vegetação. Dia seguinte, conferimos os Saltos Maciel e das Nuvens banhados pelo rio Sepotuba. Ao contrário do primeiro que não possui nenhuma infraestrutura, o segundo, conta com restaurante e pousada mais passarela para bem desfrutar a bela e larga queda d’água. Enquanto rodávamos pela boa estradinha de chão batido até o Salto das Nuvens, Pedro Emilio, rebatizado por mim Xamã Sideral devido ao temperamento avoado e estilo de vida alternativo, comenta “olha as vaquinhas ali, olha o olhar delas, que sutileza”...hahaha. O bom nesta parte do país é que se come peixe de rio pra caramba, tanto que no almoço pedimos ventrecha (costela) de pacu, delícia de pescado. Feita a digestão, nos tocamos pela igualmente boa estrada de chão batido até a cachoeira do rio Formoso. O passeio é uma roubada: 25 pilas pra ver uma queda d’água medíocre, em nada se comparando em beleza às anteriores. Minha pouca experiência com índios me leva a crer que eles não são lá muito simpáticos, sempre transparecendo leve desdém pelos brancos. Queriam nos cobrar 170 reais pelo camping!! Eu hein!! Claro está que nos mandamos da aldeia, preferindo dormir em Campo Novo do Parecis. Pra tanto enfrentamos desde Barra dos Bugres até início da MT 358 uma péssima rodovia cheia de buracos, um pesadelo. Em Itanorte, sou obrigada a comprar na beira da estrada, num restaurante, 11 litros de gasol por 70 pilas dum aproveitador, porque em 150 km de rodovia entre Tangará da Serra e Campo Novo do Parecis inexiste unzinho posto de combustível. Adoro hotel fuleiro à margem de rodovia. Assim, não dá outra, nos hospedamos num à margem da BR 364 em Campo Novo de Parecis. Na 5ª feira, 6 de junho, desistimos de conhecer Vila Bela da Santíssima Trindade, situada a sudoeste, trocando Campo Novo do Parecis por Nobres. Se Pedro Emilio já se embasbacara com as lavouras no Mato Grosso do Sul, ficou mais siderado ainda com as extensas lavouras, em ambos os lados da MT 010, de cana, soja, girassol, algodão e milho que tornam o Brasil uma grande potência do agronegócio. Pedro Emilio tanto se extasia com as plantações a perder de vista e seus silos gigantescos como com a beleza do cerrado nessa época do ano bem verdinho. Calor gostoso de 28º C e céu azul fazem com que eu me sinta muiiitooo contente! Chegamos a Nobres e encontramos, à beira do rio Nobres, um acampamento ideal, primeiro dos tantos que ainda teremos pela frente. À tardinha os banhos no rio são os melhores porque a água aquecida pela insolação diária apresenta-se com temperatura calidamente ideal. Sempre bom estar alerta, não em estado de pânico, pois aqui sucuris e onças podem dar pinta, portanto olho vivo. Esta parte do Brasil não perdoa desavisados, estamos na Disneylândia, não. Exceto o caseiro e sua família, só dá nós no sítio....ebaa!!! Depois de dias dormindo em camas, fazendo comida no conforto duma cozinha ou comendo em restaurantes, bom demais da conta fazer fogo de chão pra cozinhar e dormir em rede. A pequena Nobres é uma agradável cidadezinha, com larga avenida cortada por um canteiro central e casas confortáveis. Muita gente andando de bicicleta. Ligado por uma agradável estradinha de chão batido, o camping, onde estamos dista 5 km do centro da cidade, apelidado pelo povo do centro-oeste e norte "rua". Certa manhã, retornando ao camping, avistamos desengonçado animal de forma indefinida se arrastando em direção à estrada, prontamente identificado por Pedro Emilio como um tamanduá bandeira. Eita bicho deselegante! Com o passar dos dias, a família do caseiro revela-se muito pedinchona. Ora o homem pede que eu o leve de carro até a "rua" para comprar cerveja, ora a mulher querendo refri quando saímos à tardinha até o centro. Mas o guri, um dos 3 filhos do caseiro, é o campeão: tudo que vê quer, seja banana, bolacha ou o que mais tenha na nossa caixa de mantimentos pra onde espicha seus gulosos olhinhos. Lembra uma mosquinha varejeira rondando a gente, o pentelho. Na sexta, 07 de junho, passeio de bici ao longo da MT 241 até o encontro dos rios Cuiabazinho e Manso que formam o Cuiabá. Perfeito o céu nublado porque assim não se sofre muito pedalando já que o termômetro deve estar acima dos 30º C. De rango nesses dias só coisinha leve: salada de verdura e legumes misturada com atum além de salada de frutas. Esta ao ser finalizada atrai os filhos do caseiro que a devoram impiedosa e alegremente. À noite, batata doce mais pão tostado com azeite e ervas finas, regando a ceia o tinto português Periquita. E a água do rio emanando seu barulhinho bom a 30 metros da minha rede!! Entre os muitos pássaros, na mata ao redor, há um que se destaca pelo seu trinar semelhante a alarme de carro, tanto que ao ouvi-lo pela primeira vez pensei que fosse o da caminhonete que disparara!! No sábado, o dia lindo, sem nuvens, 34º C, organizamos um piquenique na cachoeira do Bananal, distante do camping 2 km. A trilha ao longo aa bela e verdejante mata se dá ao longo do acidentado rio Nobres cheio de pequenos saltos e jacuzis. À noite, a mulher bêbada, de soluçar, vem bater papinho comigo. Quer me levar até sua casa onde Pedro Emilio já se encontra com seu marido comendo carreteiro. Consigo convencê-la a caro custo que sozinha estou bem, obrigada pelo convite, até amanhã! Domingo, o dia pra variar segue lindo. Resolvemos explorar melhor os arredores de Nobres e acabamos descobrindo o sítio Vale das Águas, na Vila Roda d’Água, distante 40 km da cidade. Os donos, Luciano e Tati, consentem que nós acampemos embora o lugar ainda não esteja aberto a tal atividade. Ele nem quis cobrar mas fizemos questão de pagar a mesma diária de 20 pilas que pagáramos em Nobres. A 500 metros da sede passa o rio Salobra cuja nascente, na Gruta Azul, exibe transparentes águas azul-esverdeadas. Dá pra ver nitidamente piraputangas, piaus e pacus nadando rente ao leito do rio. Lugar paradisíaco. Nem só Bonito possui rios límpidos pra flutuação! Após almoço bem caseiro na Erlanda, encerramos o domingão, fazemos bóia cross no rio Quebó. Embora o percurso seja pequeno - 2 km -, 300 metros se dão no interior duma gruta em absoluta escuridão...sensacional! Claro está que nos dois dias de estadia no Vale das Águas, muito pedal nas estradas de chão batido de coloração avermelhada. As noites frescas exigem saco de dormir. Na terça, 11 de junho, a fim de pegar a barraca que eu esquecera em Porto Alegre e arrumar o som do carro, retornamos a Cuiabá. Pela MT 351 avista-se uma visão como se fosse “das costas” das famosas muralhas avermelhadas da Chapada dos Guimarães, diferente daquela que se tem da tradicional MT 251 que une a capital mato-grossense àquela cidade. Dia seguinte, quarta, ao deixarmos Cuiabá, resolvo fazer uma parada no Parque Nacional da Chapada dos Guimarães pra que Xamã Sideral conheça o lugar embora eu já o tenha visitado em 2007. Pra conhecer o parque todo tem de contratar guia que custa 200 pilas. Como ele não tá a fim de gastar toda essa grana, visitamos, já que não exige guia, as cachus dos Namorados, Cachoeirinha e Véu de Noiva. Terminado o passeio, resolvemos ficar na cidade e escolhemos o camping Paraíso Alternativo cujos donos, Tamara e Juninho mais o bebê Zaion, nos acolhem alegremente. Estendemos nossas redes no quintal e à tarde, vamos eu e Xamã pedalando até o mirante do centro geodésico. Na quinta, pedal urbano na super turística embora encantadora Chapada dos Guimarães quando conheço Leo Rocha, dono de loja de artesanato indígena, saindo do estabelecimento. Ficamos conversando por quase 1 hora sobre cobras, construção de telhados com folhas de palmeiras, plantas e seus usos medicinais e claro sobre Desafio em Dose Dupla em que ele participou. Revela que a Discovery exigia pra bem dramatizar as cenas que eles comessem minhocas pros episódios serem bem realistas. Esse mundo fake....tsk tsk tsk