segunda-feira, 8 de março de 2021

Remando aqui e acolá

Até minha aposentadoria só tinha olhos pra atividades esportivas como trek, montanhismo, canionismo, ciclismo e breve passagem pela escalada. Já aposentada, fiquei pensando no que faria nas longas tardes de ócio que tinha pela frente. Conversando com meus botões, concluí que seria bom remar por causa dum certo medinho de água. E das coisas que tenho medo, tipo altura e dirigir, acabo por enfrentar, bem ou mal. Morando em Porto Alegre, localizada à margem esquerda do lago Guaíba, comecei experimentando stand up paddle porém foi relâmpago minha atividade na prancha já que exige muito da lombar, a esta altura da vida, bem baleada, a coitada. Assim, pouca demora, passei a remar caiaque. Tanto gostei que comprei um Pro Fish, sem leme, no final de 2016, estimulada por Jayme Fonseca, professor de vela e remo, que largou a engenharia pra se dedicar aos esportes náuticos. Embora pesadão, bom pra iniciantes, porque difícil de virar, considerando sua excelente estabilidade. Descolei um lugar pra guardar o caiaque, a guarderia do Peter, dono de um casarão na vila Conceição, lugar super aprazível com amplo jardim repleto de plantas e árvores à beira do Guaíba. Acompanhada de outros remadores, fui num ensolarado sábado de pouco vento à ilha das Pedras Brancas, vulgarmente conhecida como ilha do Presídio, porque durante quase 30 anos serviu como prisão tanto a presos comuns quanto aos oponentes da ditadura durante o regime militar.


Do edifício restam escombros e 2 guaritas encarapitadas nos topos de 2 enormes matacões, uma ao norte, outra ao sul. Pequena, rochosa, exibe ainda pequena extensão de mata nativa. É um pequeno oásis no meio do lago. Pena que não seja explorada turisticamente. Completado o passeio, vi no Strava que a distância ida e volta entre a ilha e a vila Conceição alcançou 6 km. Me senti orgulhosíssima do meu feito, pois até então me limitara a remar no chiqueirinho, o assim chamado trechinho de 1,5 km, distante 50 metros da faixa de areia, compreendido entre a guarderia e o morro do Sabiá. Não demorei muito a me dar conta de que caiaque sem leme é dose pra remar, tem de ter muito muque pra mantê-lo no rumo e como já sou uma senhorinha de ½ idade, fui atrás de algo mais leve. Assim, vendi o caiaque de polietileno e adquiri um de fibra de vidro com leme de pista, um Surf Ski V7 que só não voa na água porque barco não tem asa! Que diferença, santo deus!! Mal comparando, seria como sair dum Fusca e dirigir um Audi. Por óbvio, é caiaque bem menos confiável, no sentido de que se houver muito vento ele vira com facilidade. Mas é só não sair em dias ventosos e não dá nada. E passei a frequentar com assiduidade a guarderia sempre que o tempo permitia, consultando pra isso o WindGuru, site que fornece infos sobre ventos, sua velocidade e direção, usado tanto por surfistas quanto por remadores e velejadores.

Conheci assim a galera que curte esportes náuticos, bem diferente do povo montanhista e ciclista que até então convivera. Remadas a Guaíba, cidade situada na margem oposta do lago, distante 5,5 km, só pra comer pastel. Os 7 km de bate e volta a Ipanema, bairro contíguo à Vila Conceição, curtindo os nervosos biguás que levantam voo mal me aproximava das pedras que afloram à superfície da água. E nunca cansando de admirar a esbeltez das garças pousadas sobre os galhos das árvores plantadas rentes à praia. Às vezes, colocava os fones de ouvido plugados ao celular e escutava músicas de minha preferência enquanto mandava bala nos remos. Nos fins de semana, os barulhentos jet skis riscam o Guaíba enquanto diversos tipos de veleiros singram graciosamente suas águas marrons rumo à Ponta Grossa. Navios indo ou vindo de Rio Grande passam ao largo pelo canal formando ondas em seus deslocamentos. À medida que ia adquirindo confiança, retornei diversas vezes sozinha à ilha do Presídio. Certo domingo, encarei os 15 km ida e volta entre Vila Conceição e Ponta Grossa, bairro também localizado na zona sul da cidade. Há dias que gosto de ir além de Ipanema, remando até os arcos do Espírito Santo. Se tenho tempo estendo o passeio à Serraria. Cansei de contornar a ilha do Jangadeiros, só pra passar sob a pequena ponte que liga o clube ao continente.

Fiz algumas remadas noturnas, algumas na lua cheia. À noite, a iluminação noturna da cidade de Guaíba cintila tal qual um longo colar de pedras coloridas na outra margem do lago. No verão de 2019, conheci o casal Leticia e Ramon que administram, em Barra do Ribeiro, a ONG Biguá, destinada a ensinar crianças e adolescentes a remar. Com eles fiz um bate e volta até Areia Branca, distante 8 km de Barra do Ribeiro. A pequena praia de areias claras é um oásis encravado à margem direita do Guaíba não só pra quem rema quanto pra quem veleja, que ancoram ali seus barcos nos finais de semana. Com Leticia fui fazer um curso de remo no fim de semana, no sítio de Leo Esch, à beira do rio Maquiné. No final de 2019, fui a Rio Grande com meu amigo Pedro Emilio prum encontro de pesca e canoagem. Acampados no Grêmio Náutico Almirante Barroso, fomos super bem recebidos pelos riograndinos, aliás meus conterrâneos. A remada se deu no sábado no estuário da lagoa dos Patos e não rendeu muito porque o vento sudeste castigava os remadores com rajadas de 15 nós. No carnaval de 2020, mais uma vez me uni à galera da Biguá pra realizar uma remada com direito à camping. Guaíba 1 espelho quando saímos de Barra do Ribeiro, se manteve assim até a Ponta do Salgado onde fizemos uma parada pra comer algo e descansar os braços. Depois do Capão das Pedras, assim chamado um amontoado de rochas que afloram à superfície d’água, entrou 1 vento sul de 11 nós que dificultou o restante da remada até nosso destino final, o Saco do Pinho. Acampamos na praia da Faxina, infelizmente suja de detritos deixados por gente mal educada que também costuma acampar no local.

Dia seguinte, remamos de volta a Barra do Ribeiro, parando na Areia Branca pra almoçar. A aventura somou 40 km, e meu carnaval, sambando no caiaque com parceiros muito gente fina, foi qualquer coisa de bom! Depois dessa curta expedição passei adiante o Surf Ski e comprei um oceânico com leme retrátil. Menos veloz que o anterior, exibe, contudo, maior estabilidade, sendo assim mais confiável em dias de vento com velocidade superior a 10 nós, além de ter 2 compartimentos que acomodam tralha pra caramba. Ainda não tive oportunidade de fazer uma expedição mais longa com o Inuit porque chegou a pandemia e botou por terra todos os planos que estava tramando. Tem importância, não, qualquer hora, volto às aventuras náuticas. E com a benção das entidades aquáticas, podicre!!


 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Vila Boa de Goyaz

Em setembro de 2020, rumo ao Tocantins, resolvo conhecer Goiás Velho que já me chamara atenção em 2019 quando, voltando de Palmas, vi a placa indicativa da cidade à beira da rodovia. Apressada em chegar ao sul, deixei pra lá. De Cuiabá, onde pernoito 2 dias na casa de meu afilhado espiritual, o hospitaleiro Oswaldinho, filho de minha amigona Osnilde, a Goiás Velho são 760 km que faço, por óbvio, num dia. Saio às 5 e meia da manhã e tenho de esperar até as 6 no posto pra abastecer o carro porque eles só abrem a partir deste horário. Após rodar 140 km em 2 rodovias estaduais, pego então, a partir de Campo Verde, a BR 070 que me deixa à beira da histórica cidade goiana, antiga capital do estado de Goiás. Habitada ainda no século XVII pelos índios goiases, - daí a origem do nome -, a existência de minério de ouro provocou diversas incursões de bandeiras paulistas. Foi então fundado o arraial de Sant’Anna, alçado, posteriormente, à condição de vila administrativa, com o nome de Vila Boa de Goyaz. Entretanto, no final do século XVIII, tal riqueza acabou por se esgotar face à sanha expropriatória dos colonizadores portugueses. Com o esgotamento da extração aurífera, a atividade econômica voltou-se à agropecuária. Mesmo assim, cultural e socialmente, a cidade mantinha-se sintonizada com as modas do Rio de Janeiro, então capital do Império, mantendo intensa atividade cultural e artística com apresentação de saraus, jograis, exposição de artes plásticas e produção literária, além de um ritual único no Brasil: a Procissão do Fogaréu, realizada na Semana Santa. O município foi reconhecido em 2001 pela UNESCO como sendo Patrimônio Histórico e Cultural Mundial por sua arquitetura barroca peculiar, suas tradições culturais seculares e a natureza exuberante da região. Pois bem, nesta linda cidade, cuja preservada arquitetura colonial barroca se deve muito à mudança da capital para Goiânia, no início do século XX, fico 2 dias flanando por ruas revestidas com pedras irregulares, bonitas de ver mas ruim de caminhar, especialmente pra quem esteja usando salto alto (não é meu caso), deveras desafiante. Rodeada pela Serra Dourada e os Morros de São Francisco, Canta Galo e das Lages, Goiás Velho é cortada pelo rio Vermelho com lajedos aflorando de seu leito desmilinguido de água já que se está na estação seca. Unem ambas as margens 3 pontes sendo 2 de madeiras com passarelas destinadas aos pedestres. Na margem direita, percebe-se que os casarios, estreitos e compridos, são mais modestos se comparadas àqueles construídos na margem esquerda. Nas construções predomina o branco com esquadrias em azul, abrindo-se raras exceções ao marrom e amarelo nas aberturas. Justamente na margem direita, assenta-se a casa de Cora Coralina, importante poetisa brasileira, cujo 1º livro foi publicado quando ela tinha 76 anos de idade, embora escrevesse versos desde a adolescência. Sua obra poética tem como tema principal o cotidiano da vida simples de uma mulher do interior brasileiro. Doceira de profissão, engrossava o orçamento doméstico fazendo doces pra fora. A goiana alimentava, assim, não só a mente como o corpo das pessoas. De seu casarão, só pude conhecer o frondoso quintal cheio de frutíferas do cerrado, protegido por baixo muro de taipa. Na margem oposta, na avenida beira rio, sentada sobre uma mureta de pedra, eis Cora vendo a vida passar. Não há turista que não pare pra tirar fotos e selfies junto à estátua da poetisa- doceira. Em homenagem a ela, a trilha de 300 km destinada a caminhantes e ciclistas, interligando cidades históricas goianas, foi intitulada Caminho de Cora Coralina. Em Assim Eu Vejo a Vida, Cora Coralina resume seus 95 anos de idade neste impressivo e breve poema, abaixo transcrito:

A vida tem duas faces:

Positiva e negativa

O passado foi duro

mas deixou o seu legado

Saber viver é a grande sabedoria

Que eu possa dignificar

Minha condição de mulher,

Aceitar suas limitações

E me fazer pedra de segurança

dos valores que vão desmoronando.

Nasci em tempos rudes

Aceitei contradições

lutas e pedras

como lições de vida

e delas me sirvo

Aprendi a viver.

Já na margem esquerda, sobressae a verdejante praça Brasil Caiado, rodeada por casarões imponentes, onde se destacam o Museu das Bandeiras e o Chafariz de Cauda. Mais perto do rio, a praça do Coreto, construção arredondada, cujas amuradas em madeira exibem caprichadas filigranas pintadas de branco. Deliciosos picolés de frutas do cerrado são vendidos no bar situado na parte inferior do prédio. Numa das pontas desta praça, a igreja Nossa Senhora da Boa Morte, hoje museu, infelizmente fechado, como tantos outros atrativos turísticos por conta da maldita praga do Covid 19. Nas ruas, o chilrear da passarinhada é fundo musical constante, uma algaravia sonora gostosa de se escutar enquanto caminho sem pressa ao longo de ruelas perfumadas por umbuzeiros em flor, na tarde que finda. No mercado público, restaurantes, lancherias, casas de artesanato e armazéns onde são vendidos doces da região e cachaças de alambique sen-sa-cio-nais, destacando-se as de murici e arnica do cerrado. Não só Minas Gerais faz boa cachaça, sô!! Num simpático boteco de esquina, almoço empadão goiano, quitute recheado com galinha e legumes. Também provo bolo de arroz que não tem nada a ver com aquele feito aqui no sul, já que aqui, no centro-oeste, se usa farinha de arroz. Como não podia deixar de ser, destaca-se rente à margem direita do rio Vermelho, uma casa de polvilho, característico comércio das regiões centro-oeste e nordeste do Brasil, impondo-se, graça a deus, este tão saboroso e nutritivo legado indígena. A igreja de São Francisco de Assis destaca-se não só pela alegre coloração branca, azul e amarela de suas paredes como pela torre vazada de madeira que guarda o sino, apartada da construção de pedra. Quer saber duma coisa? Gostei muito mas muito mais de Goiás Velho do que de Pirenópolis que conheci ano passado. A Vila Boa de Goyas encanta pela riqueza de seu conjunto arquitetônico, exalando ainda fortíssimos ecos do passado colonial. Conseguia sentir a vibração daquele passado enquanto zanzava pela cidade. Sem falar na presença imaterial mas constante da doce e poética Cora Coralina!!

 

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Trek no PN Peneda-Gerês

O meu super guia Rui me leva de carro até a Pousada da Juventude Vilarinho das Furnas, onde me hospedarei durante 2 dias. Situada na freguesia de Campo do Gerês, com 300 habitantes, distante apenas 45 km de Braga, a vila está compreendida nos limites do Parque Nacional Peneda-Gerês onde farei 2 trilhas. Situado ao norte de Portugal, o PN Peneda- Gerês é único parque nacional do país, fronteiriço à Galícia. Com área de 70 mil hectares, é formado pelas Serras da Peneda, do Soajo, Amarela e do Gerês e considerado Reserva Mundial da Biosfera pela UNESCO. Seu relevo acidentado, entremeando colinas e vales, cortadas por rios e córregos, exibe flora variada, escasseando no topo das serras devido ao clima e à ação do homem. Na fauna, destacam-se exemplares de veados, lobos ibéricos e águias-reais. Ainda guarda marcos de pedra, sinalizando a existência de antiga estrada romana – geira - que ligava Braga a Astorga, na Espanha. Rui me pega no albergue que, diga-se de passagem, é bem confortável, localizado em amplo jardim pontilhado por coníferas. Nos dois dias de caminhada, explica Rui, andaremos somente em trilhas na Serra do Gerês. Hoje, 1º dia de trek, a pernada será em velhos caminhos de pastoreio entre a Portela de Leonte e a vila de Caldas do Gerês, resume Rui. Vamos, então, de carro até a antiga casa florestal Portela de Leonte. Ali, às 9 de la matina, temperatura beirando 12º C, tem início a caminhada sob um céu densamente acinzentado, salvo curtos momentos em que se vislumbram pequenos trechos azulados. Trotando, inicialmente, num terreno calçado de pedras, atravessa-se um trecho da mata de Albergaria numa subida constante. Rui aponta alguns exemplares da flora, discorrendo sobre suas características. Conheço ao vivo e a cores, por fim, arbustos e árvores que até então só habitavam minha imaginação da leitura de livros, como o azevinho, arbusto largamente utilizado na decoração natalina em razão de seus frutinhos vermelhos e folhas dum verde escuro. Atualmente, seu uso é proibido. Mais adiante, sou apresentada ao teixo, cujo bosque é chamado teixeira. Árvore de lento crescimento e idade vetusta, pode bem alcançar 300 anos de idade. Os esquálidos carvalhos, despidos de folhas, parecem figuras espectrais no meio da mata. Dentre as raras flores, destaca-se o delicado miosótis. Quando chegamos ao topo do morro, descortina-se lá embaixo o vale da Teixeira, belíssimo anfiteatro rochoso, embora o nevoeiro impeça a visualização de vários picos ao seu redor, nesta região chamados Pés. Começamos a descida, percorrendo um terreno coberto por largas lajes até o Curral do Junco. Mais adiante, num prado, destaca-se antiga construção de pedras, chamada forno pastoril, antiga moradia dos pastores durante a viseira, o deslocamento do gado em busca de pastagens entre a primavera e outono. Ao lado, cavalos selvagens pastam indiferentes à nossa passagem. Bem fraturadas, as rochas que circundam o vale, mostram coloração esbranquiçada já que despidas de pouca ou nenhuma vegetação. Pequenos pilares de pedras sobrepostas umas às outras, apelidadas mariolas, no linguajar local, indicam o rumo da trilha ao longo do Prado de Teixeira. Um córrego de águas limpas segue seu curso em direção ao fundo do vale. Enquanto comemos nosso lanche, abrigados num telheiro de pastores, escuto singular estória narrada por Rui. Nesta região do norte de Portugal, inicia ele, as gentes dos campos, despidas de delicadezas devido à rudeza das lides campesinas, contratavam um homem pra abreviar a vida de familiares moribundos. Não se sabe com exatidão a data em que parou de existir tal personagem, se no início ou metade do século XX, prossegue Rui. Dou asas à imaginação, concebendo-o como um tipo atarracado, bem parrudo, haja vista que o método de morte empregado, asfixia, exige força. Não à-toa, a sutil alcunha “abafador”. À semelhança dum padre, conversava com o moribundo, caso este se encontrasse consciente (Rui não soube precisar se para tranquilizá-lo ou abençoá-lo), abafando-o a seguir com 1 travesseiro, finaliza meu guia. Ala putcha, que relato fascinante esse, de uma “eutanásia” à moda do Minho!! Com a estória circulando na minha cabeça, enfrento, com redobrado ânimo, curta subida, atravessando outro belo bosque cujo chão está coberto de folhas secas de pinheiros. Segue-se então o traçado da Grande Rota da Peneda-Gerês, descendo ao vale onde se encontra a vila de Caldas do Gerês, mimoso balneário termal onde encerramos nosso trek de modestos 11 km. 



Dia seguinte, no meu 2º dia de trek, vou conhecer as Minas de Carris. A caminhada inicia às 8:30 na Portela do Homem onde Rui estaciona seu carro. Caminhamos breve trecho no asfalto até a ponte sobre o rio Homem, donde inicia, paralela ao seu curso, antiga estrada de chão batido em que, até a década de 70, trafegavam veículos indo e vindo das minas. Com dezenas de corredeiras em seu leito de águas claras, desaguam no rio os córregos Ribeira do Mudorno e Cagarouço e outros de menor expressão formando pequenas cascatinhas à direita da estrada. Largas extensões de lajes afloram à margem esquerda do rio. O dia exibe-se tão acinzentado quanto ontem, pairando uma neblina sobre o vale. Embora não haja grandes subidas, o chão, coberto de pedrinhas, torna cansativa a pernada. Ao longo da via, pequenas bicas de água potável são alimentadas por riachos que escorrem do alto da serra. Árvores e pedras cobertas de musgo denunciam o alto teor de umidade na região. Após 5 km, destaca-se, no paredão rochoso, na margem direita do rio, os 70 metros da Água da Laje do Sino
. Antigamente no Gerês, água ou fexa significava cachoeira. Se o caminho até então era exigente face à irregularidade do terreno pedregoso, pior se torna a partir do momento em que a trilha se estreita. O solo não mais coberto por pedregulhos, agora reveste-se ininterruptamente de pedras de bom tamanho. Dura pouco, entretanto, tal martírio, porque 0 final do vale do rio Homem já se aproxima. Ao lado da estrada, despontam delicadas flores cor de rosa. Escorre por pequena ribanceira o córrego Águas Chocas, assim chamado porque no auge do inverno o solo congela. A estradinha torna-se agora larga e plana. A paisagem de colinas arredondadas revela horizontes não mais confinados pelas altas barrancas do rio Homem. A partir de Abrótegas, o vale dá lugar a prados embelezados por elevações de puro granito. Rui ao apontar um solitário forno pastoril, esclarece que estou diante dum autêntico exemplar, enquanto os de ontem são construções mais recentes e, portanto, menos rudimentares. O autêntico, bem menor, tem uma porta super baixa, a fim de impedir o acesso de animais no seu interior. Conforme nos aproximamos das Minas de Carris, a garoa fica confinada no vale, o céu desanuvia e grandes claros de azuis competem com nuvens cinza-claro. Decorridos 11 km, começo a avistar dezenas de esqueletos de edifícios: são as Minas de Carris localizadas a uma altitude de 1.440 metros. O conjunto mineiro passou por três fases de exploração: a 1ª ocorreu durante a II Guerra Mundial, liderada por uma empresa portuguesa que servia de fachada a concessionários de origem alemã; a 2ª correspondeu aos 3 anos que durou a Guerra da Coreia, nos idos de 1950 e a 3ª e última fase foi durante a década de 1970. A lucrativa exploração de tungstênio contava com cerca de 400 pessoas vivendo e trabalhando nas minas, população esta superior a de diversas vilas das redondezas! Atualmente do pujante complexo mineiro restam escombros à semelhança duma cidade fantasma. O local, um verdadeiro mar de granito, é moradia do ponto mais alto da Serra do Gerês, o pico da Nevosa (1.545 metros), e o segundo mais elevado de Portugal. A leste, no vale, Pitões da Júnia, com 160 habitantes!! Pena que não há tempo pra visitá-la. Chegamos à barragem, construída pra fornecer água à antiga cidadela mineira, hoje um lago onde se pode banhar no verão. Um grupo de portugueses, vindos de Pitões da Júnia, ali se encontra e pretende passar a noite acampado. Às 16:50 estamos de volta ao ponto de partida. Embora cansativa, afinal foram 22 km, a pernada foi ótima. Adorei conhecer mais um pouco deste parque nacional com recantos tão inusitados. Dia seguinte, domingo, volto de trem a Lisboa. Super resfriada, com uma baita sinusite, aplico o velho e bom Vick Vaporub pra desentupir as narinas. Saio à rua me arrastando porque preciso me alimentar. É foda estar sem energia pra bater perna pela adorável capital portuguesa. Na segunda, um pouco melhor, consigo dar um pequeno rolê pelas estreitas e sinuosas ruas onde os elétricos se sacodem ruidosos. Marca registrada de Lisboa, roupas secam penduradas nas sacadas. Na mala, alguns queijinhos, 4 latinhas de patês de sardinha e uma caixeta de ovos moles de Aveiro. Uma forma de prolongar Portugal depois do regresso a casa.....adeuzinho!

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Norte de Portugal Revisitado

Num voo de uma hora, vindo de Madri, chego ao aeroporto do Porto, preferindo ônibus ao metrô até o local onde me hospedarei já que o trem exige baldeação. O estúdio por mim reservado é bem legal, localizado na rua das Fontainhas, a dois passos do rio Douro e da Ribeira e a 2 km da Estação São Bento. Fontainhas significa, no delicioso linguajar do português de Portugal, fonte pequena. Bueno, o estúdio ou suíte além de fogão elétrico, geladeira e louça oferece máquina de lavar roupa, o que vem a calhar porque certas roupas minhas necessitam duma boa lavagem! Tais irmãs siamesas, separadas por um curso d'água, chamado Douro, assim são Porto e Vila Nova de Gaia. Como a corda e a caçamba não dá pra visitar uma sem conhecer a outra. Conheci ambas em 2006 quando visitei o norte do país com minha mãe. Retorno, agora, não exatamente pra rever as cidades mas pra reencontrar um casal de Caxias do Sul, que conheci de vários pedais feitos naquela região serrana. Aproveito a curta estadia em Porto - não mais que um dia e meio - pra já na tarde de minha chegada dar um rolê pelo seu centro histórico e comer apetitosas castanhas assadas vendidas por ambulantes nas calçadas enquanto admiro a obra prima do séc. XVIII, que é o exterior todo azulejado da Capela das Almas de Santa Catarina. Encerro a noite, jantando filetes de robalinho grelhados, no Majestic Café, uma joia do estilo arquitetônico art nouveau. No dia seguinte, saio a bater perna na Ribeira curtindo as várias pontes sobre o rio Douro que unem Porto a Vila Nova de Gaia e vice-versa. Dentre as 6 pontes, destaca-se a portentosa estrutura metálica em dois passadiços da Ponte Dom Luiz I, construída no século XIX. As escunas turísticas quando não dão o ar da graça singrando o Douro, quedam atracadas às margens do rio aguardando nova leva de turistas. Cruzo a ponte Dom Luiz I pelo passadiço inferior e chego à Vila Nova de Gaia donde se tem uma visão incrível da Ribeira do Porto, suas casinholas coloridas de 2 e 3 pavimentos e as torres da Sé do Porto. Subo após o almoço até a colina onde foi construído o Mosteiro da Serra do Pilar. Na praça em frente ao prédio, dezenas de pessoas curtem o radiante sol da tarde. Clima perfeito embora estejamos em pleno inverno europeu! Retorno ao Porto pelo passadiço superior da ponte Dom Luiz I, apreciando, creio eu, o único vestígio da antiga muralha que protegia a cidade. À noite, a convite de Maria Leonor e Ricardo, vou jantar na residência do casal, pertinho da foz do Douro. Já noitinha, com a iluminada ponte de Arrábida a frente, eu e Maria Leonor nos encontramos no meio do caminho. Os fortes abraços trocados demonstram nossa alegria pelo reencontro. Um gostoso bacalhau preparado pelo anfitrião é o prato principal acompanhado de bons tintos portugueses, pois pois. Ricardo está cursando pós-doutorado em Porto e adorando morar neste cantão português, Por ele fica pra sempre aqui, ao passo que Maria Leonor, no início, sentiu maior dificuldade em se adaptar já que veio acompanhar o marido. Mas como boa gringa da serra gaúcha, soube fazer do limão uma limonada. E dale a frequentar cursos que, por falta de tempo quando estava no Brasil, não se permitia fazer. A janta transcorre agradavelmente, num bate papo animadíssimo porém a boa comida e os vinhos fazem seu efeito. Assim, despeço-me dos anfitriões, não só de pancinha cheia mas com o coração aquecido pela calorosa acolhida dos queridos amigos. Dia seguinte, pego o comboio pra Braga em São Bento, a linda estação de trens cujo átrio é decorado em ladrilhos azuis e brancos com narrativas de cenas da vida portuguesa de antigamente. A viagem demora cerca de 1 hora, parando em diversas estações, algumas decoradas com os famosos azulejos portugueses. Rui Barbosa está a minha espera na gare de trens. Conheci-o, quando ele estava a trabalhar como optometrista em Bissau, assim que cheguei ao país africano em dezembro. Decidiu trocar aquela profissão por outra que mais lhe apraz: a de guia turístico. Não por outro motivo estou em Braga: pra fazer trekking no Parque Nacional Peneda-Gerês, que Rui conhece profundamente. Como ele precisa cumprir certos compromissos, após o almoço fico sozinha e não perco tempo em dar um rolê pela cidade. Rolê bem diferente daquele de 14 anos atrás mas igualmente prazeroso. Embora a cidade esteja a 50 km do Atlântico ainda se vêem gaivotas voando aqui e acolá. Fotografo a traseira do antigo palácio, agora museu dos Biscainhos, e atravesso a Porta do Arco Novo, resíduo da antiga muralha que cercava a então medieval Braga. Entro na Sé da cidade e me deleito com seu coro onde está instalado um magnífico órgão. No pátio da catedral, há vestígios de máscaras esculpidas em pedra, segundo o guia da catedral, possivelmente de origem celta. Numa mercearia, onde entro para comprar água, me encanto com réstias de tomates bem vermelhinhos. Continuo o passeio ao longo da rua principal passando pelo Largo do Paço. Mais adiante sou surpreendida ao escutar dois brasileiros, há anos em Portugal, tocando Galos, Noites e Quintais do inesquecível Belchior. Como ainda me sobra tempo até o encontro com Rui, continuo o tour passando por uma avenida cujos canteiros são decorados com couves ornamentais!! Na praça de Almeida Garrett, sobressai, entre dois prédios a frontaria da Igreja dos Congregados. Num largo, entre duas ruas, se impõe a solitária Igreja da Senhora-A-Branca. A super católica Porto, é assim: seja numa dobra de esquina, no meio ou fundo de ruas, as indefectíveis igrejas aguardam tanto os culpados quanto os inocentes fiéis. Quando os ponteiros dos relógios encostam nas 18 horas, parto de Braga ao som dum heavy metal pra lá de cristão: o bimbalhar dos sinos das igrejas bracarenses. 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

As cidades medievais de Segovia e Toledo

Após um mês flanando por Marrakech, Gran Canaria e Santiago de Cabo Verde, retorno a Bissau, já que Raul tem de pegar no batente. Permaneço mais 10 dias na cidade frequentando religiosamente, salvo um fim de semana em Bubaque, o bar Lounge N’Batonha ao entardecer. Ali sempre aparece gente dos 4 cantos do globo, particularmente europeus, o que acho ótimo pois embora meu inglês seja meio trôpego, consigo trocar uma ou outra idéia com eles. Porém o que me leva mesmo ao bar é desfrutar a companhia de meu filho, gerente do estabelecimento. O primeiro impacto, ano passado, quando aqui estive pela primeira vez, foi negativo, considerando que Bissau não é nem bonita tampouco limpa. Contudo, se ultrapassarmos o aspecto meramente estético, oriundo por óbvio, duma impressão objetiva contra a qual não se pode refutar, percebemos quão atraente é a cidade. Ao libertar do convencionalismo meu olhar limitado por padrões de beleza ocidental, passei a ver Bissau com outros olhos e compreender que o belo está no detalhe do alfaiate pedalando sua máquina de costura instalada sob uma marquise da rua principal. O belo está, principalmente, no povo tão gentil, alegre e curioso, ainda mais quando percebe que você é brasileiro. O belo, ainda, é escutar, quando passo pelas esquinas, as vendedoras de frutas, entoando melodiosamente "banana, banana", sentadas nas calçadas embaixo dum sol inclemente. O belo é o engenhoso pedinchar do moleque ao dizer "ofereça-me 500 francos, tenho fome". O belo é também ouvir os guineenses falando vários idiomas conforme a etnia a que pertencem. E são tantas! Quão bela, sem sombra de dúvida, é a paradisíaca ilha de Bubaque. O belo é passear por Bissau Velha e ver nos decadentes prédios o fim duma era que, felizmente, acabou: o jugo português. O belo, graças a deus, é saber que o brasileiro tem no povo africano uma das matrizes de sua cultura. O belo, por fim, é repelir a “realidade” introjetada pelos critérios subjetivos oriundos dos preconceitos e aceitá-la tal qual é. E pensar que há 2 anos atrás a África nem fazia parte da minha lista de desejos! Refletindo sobre tais assuntos parto de Bissau rumo a Madri onde em Barajas Michele está me esperando. Dos 6 dias em Madri, reservo solamente 2 pra curtir a cidade. Afinal, ano passado dei um rolê legal pelos seus principais atrativos. Por isso, na sexta revisito o templo de tapas, que é o Mercado de San Miguel, e, no sábado, Michele me leva a um autêntico boteco madrilenho, chamado Bodeguilla, perto do antigo estádio Santiago Bernabeu. Pequeno, tem poucas banquetas rente ao balcão e mesas na rua. E, como não poderia faltar, uma enorme tv de tela plana sintonizada num canal de futebol. Costume na Espanha o cliente ter direito a cada copo de bebida alcoólica um pincho, assim chamados os tira-gostos. O simpático dono nos serve torresmos, mini bocadillos e salgadinho de pacote pra acompanhar nossas taças de vinho. Nos 2 últimos dias, vamos eu e Michele visitar duas cidades históricas perto de Madri: Sevilha e Toledo, ambas consideradas patrimônios da humanidade pela UNESCO. O clima tem sido generoso e no ensolarado domingo, antes de pegarmos o bus no terminal rodoviário localizado na estação de metrô Moncloa, compro castanhas assadas muito comuns nesta época do ano. O trajeto de 90 km dura 1 hora dentro do confortável ônibus com wifi. Segovia tem como principal atrativo um dos monumentos antigos mais importantes e bem preservados na Península Ibérica: o aqueduto construído com pedras de granito sem utilização de argamassa pelos romanos, remontando ao século I DC. Sua finalidade era a condução ao longo de 15 km das águas do manancial de Fuenfria, na Serra de Guadarrama, a Segovia, cujo abastecimento durou até meados do século XIX. Caminhando pela avenida do Aqueduto ladeada em ambos os lados por restaurantes com mesas ao ar livre, a espetacular obra de engenharia hidráulica vai aumentando de tamanho à medida que dela me aproximo, revelando no final da artéria a grandiosidade de sua construção. Ao contrário do aqueduto, pouco restou em Segovia das muralhas que as cidades medievais costumavam construir a fim de se proteger. Por uma escadaria, sobe-se até o topo do aqueduto onde é possível mirar os picos nevados das serras circundantes. Passeando por sua parte antiga, situada numa pequena colina, onde se encontram vários prédios históricos, passamos diante da Casa de Los Picos, construída no século XV. O curioso edifício tem suas paredes externas decoradas em pontas de diamante com finalidade tanto decorativa quanto defensiva. Tortuosas e estreitas ruas levam à Catedral de Santa Maria, elegante prédio em estilo gótico, fronteiriça à plaza Mayor, outro ponto de grande concentração de restaurantes, bares e cafeterias. Nas ruas, músicos se exibem para entretenimento da turistada. Aliás, o fluxo de turistas vagueando pela cidade é intenso. Difícil tirar uma foto sem alguém diante dum prédio ou caminhando pelas calçadas das ruelas. Continuando nossa peregrinação, vamos dar no Alcázar de Segovia, palácio fortificado que serviu de moradia a diversas gerações da realeza espanhola. Dali se tem ampla visão dos arredores de Segovia. As muralhas do enorme prédio são revestidas com a decoração chamada esgrafiado, que vem a ser, simplificadamente, um tipo de alto relevo. A culinária típica servida na cidade é porco (cochinillo) e cordeiro, assados em forno à lenha. Escolhi comer o primeiro e me foi servida uma baita perna, um tanto quanto gordurosa, acompanhada por batatas. Enquanto Segovia fica ao norte de Madri, Toledo está ao sul, a 75 km. Acompanhada por Michele, pra lá vamos dia seguinte. Adoro cidades medievais, suas estreitas e escuras ruas que desembocam em pequenos largos ensolarados. Seus castelos fortificados cujas altas e grossas paredes impõem admiração reverencial. O ambiente austero que envolve a medievalidade me atrai muito. Toledo não foge à regra, é muito mais rica que Segovia, sem sombra de dúvida. A antiga cidade, cercada por muralhas intactas, localiza-se no topo duma colina, à beira do rio mais extenso da Península Ibérica, o Tejo, aquele mesmo que banha Lisboa. Toledo guarda mais de dois mil anos de história: já foi ocupada por romanos, visigodos, mouros e, por fim, em definitivo, por cristãos quando da Reconquista da Península Ibérica. A cidade ganhou fama de ser a “cidade das três culturas” porque à época conviveram ali cristãos, judeus e muçulmanos em harmonia por muito tempo. Prova disso é a existência de templos católicos, sinagogas e mesquitas espalhada pelas ruelas e becos. A marcante Toledo foi não só o lar escolhido pelo pintor El Greco, como ainda fascinava o autor de Dom Quixote, Cervantes, por seu cosmopolitismo. Em homenagem ao célebre escritor, há uma estátua sua perto do Arco de Sangre, exibindo algumas lojas diante de seus estabelecimentos réplicas em tamanho natural de Dom Quixote e seu fiel escudeiro, Sancho Pança. O passado medieval está sempre presente, caso das lojas que vendem armaduras, espadas e facas pois Toledo é famosa por este tipo de indústria desde o século I DC. O Alcázar de Toledo, castelo fortificado que serviu de residência aos reis de Espanha, queda, estrategicamente, sobranceiro ao rio Tejo. Só me resta vê-lo do lado de fora porque justo neste dia está fechado à visitação. Do outro lado do Tejo, chama a atenção o enorme prédio da Academia de Infantaria, centro de formação militar do Exército espanhol. No sobe e desce ladeiras, paramos num restaurante e provo carcamusas, prato típico toledano, feito com pedaços de carne de porco, presunto e linguiça, mergulhados em molho de tomate, acompanhado de batatas fritas. Delicioso pero um pouco pesado! Passeio na ponte San Martin, erguida sobre o Tejo, em cujas extremidades há dois grandes portões de pedra. Uma viagem no tempo passear pelos becos e vielas e, numa dobra de esquina, me deparar com a passagem aérea, feita de madeira entalhada, ligando os dois prédios do Real Colégio de Doncellas, construído no séc. XVI, que visava a educação de jovens pobres. Quando deixamos a cidade histórica pela porta de Cambrón ao entardecer, a lua crescente brilha no céu azul. Durante a caminhada até a rodoviária, vou admirando as grossas muralhas que cercam a cidade fortificada. A última visão que tenho daquela Toledo dantanho é a da Porta Nova de Bisagra, uma das 4 por onde se entra e sai da cidadela. Lastimo a maneira vapt vupt de visitar esta jóia medieval, ela merecia mais tempo pra ser melhor apreciada. Mesmo assim, saio contente porque tive a oportunidade de conhecer mais um pouco desta época da história, a fascinante Idade Média.

sábado, 18 de janeiro de 2020

Santiago de Cabo Verde

Finalizando nossa trip com chave de ouro, eu e Raul escolhemos conhecer Cabo Verde, situado no oceano Atlântico ao largo da África Ocidental. Pra tanto, voamos de Las Palmas a Casablanca onde se faz conexão, seguida de breve escala em Bissau, finalmente, aterrissando em Praia, situada na ilha de Santiago, no inconveniente horário das 4 da manhã. Santiago, a maior das 10 ilhas de origem vulcânica que formam o arquipélago caboverdiano, é super montanhosa e cheia de platôs, aqui chamados achadas. Sua principal cidade, Praia, é também a capital do país. Estamos hospedados na Achada de Santo Antonio, no confortável Salav Guesthouse, a 200 metros da praia de Kebra Canela que se alcança descendo as Escadinhas de Sto Antonio, adornadas por azáleas de cor magenta e rosada. À tarde, sob um céu nublado, presencio, na avenida Jorge Barbosa, que contorna o mar, passeata de estudantes contra a bárbara morte do estudante caboverdiano Luís Giovani em Portugal, no final de dezembro. O assassinato adquiriu contornos racistas devido à origem africana do jovem. Concomitantemente, desfila num conversível vermelho, casal de noivos e daminhas, seguidos por um cortejo de carros buzinando alegremente. Estamos numa zona nobre de Santiago, com bons restaurantes nas redondezas desde o sofisticado Nice Kriola ao popular Rola Festa com preços razoáveis e cardápio regional, além de saborosas sobremesas. O almoço sai por 450 escudos (4 euros), a cachupa 300 escudos (2,70 euros) e a jarra de vinho 250 escudos (2,25) euros. Cachupa é um prato típico à base de milho e feijão, cujos acompanhamentos variam do peixe, chamada cachupa pobre, à carne, conhecida como cachupa rica. Nas regiões agrícolas de Cabo Verde, como alimento forte que é, servem-na ao pequeno almoço pra energizar o corpo antes de enfrentar a roça. No sertão do Piauí e Pernambuco, temos uma versão da cachupa, o pintado. Da praça Cruz de Papa, em frente ao nosso hotel, avistam-se o Monte Vermelho, o Pico da Antônia (+ alto da ilha) e Monte Babosa. Na manhã seguinte a nossa chegada, quando olho pro mar da sacada do hotel, vejo tudo enevoado. Soube depois, conversando com a amável e prestativa Erica, gerente do Salav, que estávamos no meio da "bruma seca", fenômeno atmosférico em que poeira e areia são trazidas do Sahara pelos ventos harmattan, nesta época do ano. Com exceção de dois dias, o restante foi ensolarado, bom pra ir à praia de Kebra Canela e desfrutar dum refrescante mergulho nas suas mansas e claras águas. Nas cidades africanas situadas à beira mar, sempre há vendedoras oferecendo peixes frescos nas calçadas das ruas. Aqui em Praia se concentram no mercado do Sucupira, que visitamos à tarde após um rolê pela cidade. Pra mim, Sucupira foi meio decepcionante porque se dedica a vender maciçamente roupas e sapatos baratos. Nem o pastel de milho, um quitute típico ilhéu, serviu de consolo porque tinha acentuado gosto de peixe. Em compensação, uma alegria conhecer o Farol de Dona Maria Pia. Funcionando desde 1880 quando de sua construção, tem 59 metros. Seu zelador, Jorge do Farol, orgulha -se da boa forma física, adquirida pelas diversas subidas diárias até o topo da torre. No almoço, num restaurante frente ao mar, pedimos de entrada o saboroso pão com alho e queijo, que vem a ser uma pizza com massa super fina, tipo biscoito. Praia é uma cidade moderna com prédios novos e largas avenidas exibindo faixas de pedestres respeitadas pelos condutores de veículos. Não à-toa, considerada patrimônio mundial da UNESCO desde 2009, a Cidade Velha é especial, tanto que a visito duas vezes. Foi nesta parte da ilha, no século XV, que os navegadores portugueses desembarcaram quando descobriram Cabo Verde. Pra ir lá tem que se dar 1 pernada de 3 km atė Sucupira, onde se concentram os iaces, transportes coletivos, tipo van, com lotação pra 18 pessoas, cuja passagem custa, dependendo do trajeto, até 100 escudos (1 euro). Aos iaces só é permitido o embarque de passageiros em Sucupira, vedando-se ao motorista pegar ou largar passageiros ao longo do trajeto, exceto em alguns pontos predeterminados. Além de iaces e ônibus, reservados às longas distâncias, são usados nos trajetos curtos pequenos caminhões com bancos de madeira em suas carrocerias. Roda-se por 13 km numa ótima rodovia passando por Palmarejo, um dos bairros mais populosos de Praia. Na metade do caminho, junto à rodovia, está sendo construído campus da Universidade de Cabo Verde financiado pela República Popular da China. Digno de menção, o maciço investimento dos chineses em Cabo Verde, alcançando várias áreas, entre elas o turismo. Pouco antes da entrada na Cidade Velha, no topo duma colina, encontra-se a Fortaleza Real de São Felipe, construída no século XV e restaurada no século XX. A vista dali é linda, avistando-se a Cidade Velha ao pé do morro. Descendo por uma antiga estrada, entro naquilo que foi um dia a Catedral da Sé. Ao contrário da fortaleza, a igreja, construída em 1462, dois anos após a chegada dos portugueses, exibe poucas paredes ainda incólumes. Túmulos, como era costume à época, alinham-se no chão dos escombros das capelas laterais. Num deles, lê-se decorosa inscrição na lápide de Donna Ana da Luz Barradas advertindo “para ninguém mais se enterrar, senão seu marido, e depois nunca mais eternamente se poderá bullir nesta sepultura”. N0 Largo Pelourinho, bem no centro do pequeno lugarejo, ainda intacta a estrutura feita em pedra clara sustentando em seu topo ganchos de ferro onde os escravos eram pendurados e castigados. Passeio pela parte histórica da cidade cujas casas, construídas com pedra e cal, exibem pequenos jardins na parte da frente. Em uma de suas vias tranquilas e arborizadas, leio, na placa de porcelana branca, a inscrição Rua de Banana. Num restaurante à beira mar, almoço sopa de peixe à Cidade Velha: pescado inteiro, banana, batatas branca e doce mergulhados num caldo grosso com leite de côco. Enquanto espero o iace, converso com uma simpática vendedora de frutas, que veste saia com estampa da bandeira brasileira. Na volta a Praia, escuto, no rádio do iace, o alegre ritmo do funaná, que dá vontade de dançar ao contrário da dolente morna cujos sentimentos de dor e sofrimento são causados não só por males de amor, como àqueles infligidos nos tempos brutais da colonização portuguesa que durou em Cabo Verde até 1975. Sua representante máxima, Cesaria Évora, nascida na ilha de São Vicente, foi quem projetou a música caboverdiana no exterior. Além da morna, há outros gêneros musicais genuinamente nativos como o batuque (recentemente divulgado por Madona, em seu último trabalho musical), o colá, a coladeira, o funaná e a tabanca. Como não podia deixar de ser, reservo um dos dias de minha estadia pra dar uma pernada numa das 9 trilhas existentes no Parque Natural de Serra Malagueta, maciço montanhoso situado na parte norte da ilha. Pra tanto, pego um iace em Sucupira e percorro 55 km durante 1 hora e 15 minutos numa rodovia cheia de curvas e sempre ascendente. Como o mar neste trecho da ilha não é visível, encoberto por paredão de montanhas, fico boquiaberta com os formatos estupendos dos picos que avultam na paisagem serrana. Desço no escritório do parque onde já está a minha espera Gabe, meu guia, nascido na região. Da flora, chama minha atenção duas plantas em que florescem lindas flores amarelas: lacacan e caule de santo. O início da trilha é só descida até Mato Dentro, onde paramos na casa de João Carlos, amigo de Gabe, pra bater um papo. Lá pelas tantas, o simpático rapaz traz uma garrafa de grogue, a cachaça caboverdiana, pra eu provar. Saborosíssima, controlo-me pra não bebê-la às ganhas porque ainda tenho muito chão pela frente. Desce conosco Sheila, mulher de João Carlos, que carrega, à moda africana, sua pequena Raquel, às costas aninhada num pano colorido. A jovem vai a Tarrafal porque amanhã, dia de Santo Amaro, acontecerá grande festa em homenagem ao padroeiro da cidade. Enveredamos então num bosque de mangueiras pra então caminhar no leito seco e empedrado do rio até Ribeira de Principal onde finda a trilha. A paisagem é linda cercada pelas encostas verdejantes das montanhas que formam a Serra da Malagueta. No lugarejo de Chão d’Horta, provo o delicioso pastel de peixe, petisco típico caboverdiano. Após uma breve pernada, embarcamos num caminhãozinho. Na carroceria do barulhento e sacolejante veículo só nós de passageiros até Hortelão onde pegamos um táxi até Tarrafal, passando por encantadoras e pequenas baías cujas praias são cobertas por pedregulhos escuros. No mar, barquinhos coloridos balouçam ao sabor das ondas. Já Tarrafal, situada à beira mar, é praia de areias claras, convencionalmente bonita, o que não me entusiasma muito, ainda mais depois de ter curtido as belezuras serranas da Malagueta, que me deixou de olhos cheios. Despeço-me de Gabe que está indo ao barbeiro cortar a cabeleira em homenagem à festa de Santo Amaro, como bom católico que suponho seja. Retornando a Praia, distante 55 km, passo pelas cidades de Assomada e Picos. Em um pequeno outdoor fincado à margem da rodovia, me delicio com o português de Portugal avisando que “mais vale 1 pé no travão que 2 no caixão....hahaha!!! Dois dias após o trekking na Malagueta, vou a Picos, distante 30 km de Praia, que me chamara atenção quando ali passei a caminho do parque. Sentada ao meu lado no iace, a amável Ariane, com quem entabulo conversa. Ela fornece preciosas dicas sobre duas das 6 ilhas de barlavento, assim denominadas aquelas situadas ao norte. Natural de Santo Antão, ela revela que perto de sua ilha, se encontra a linda São Nicolau, que devo conhecer. Tanto que liga pro tio que vive em Santo Antão pra saber horários dos barcos entre as ilhas. Durante a travessia, diz ela, comum a presença de baleias e golfinhos cabriolando no mar. Bem que eu gostaria de visitar São Nicolau mas não me sobra tempo já que Santiago é ilha de sotavento, localizada, portanto, ao sul. A cidade de Picos, em si, não tem nada de especial. Sua marca distintiva é ser cercada por estupendas montanhas em cujas arestas serrilhadas sobressaem picos longilíneos semelhantes a gigantescos dedos apontados pro céu. Destaca-se, no mar de pedras, o admirável monolito rochoso, apelidado Achada da Igreja, porque dependendo do ângulo e distância em que nos encontramos, se tem a impressão de que a gigantesca pedra jaz pespegada ao templo católico. Mera ilusão de ótica pois o intervalo entre elas é de cerca de 2 km. Pra melhor fotografar Chão da Igreja, peço licença e entro no quintal duma casa, nos arredores da cidade. Habitada por mulheres e filharada, todas parentes, a jovem Deise traz uma cadeira pra que eu possa sentar. Ficamos a conversar, salvo a avó, uma senhora idosa que só fala criolo. Continuando meu passeio, observo que não só nos quintais das casas como nas zonas rurais de Picos brotam plantações de milho, já revelando penachos dourados em suas espigas. Este cereal, importantíssimo na alimentação do caboverdiano, está presente em vários pratos tradicionais como a cachupa, cuscus, pastel e doces. Caminhando sem pressa pra pegar o iace, paro pra bater papo com uma comunicativa nativa na calçada. Mais adiante compro bolinho de milho duma menina que se encontra  diante de sua casa, vendendo guloseimas, provavelmente feitas pela mãe. Na volta a Praia, no iace, uma galera que trabalha no posto de saúde de Picos conversa animadamente. Claro está que me meto na conversa, trocando ideias com Bebeto, dono de agradável prosa. No entendimento de duas colegas, Bebeto é um mulherengo de 1ª grandeza. Seus colegas dão risada. Ele bem humorado se defende frouxamente da acusação. Quando desço em Sucupira, ganho dele uma caneta com as cores da bandeira de Cabo Verde. Parto de Santiago levando no coração apenas boas recordações não só de sua admirável paisagem como da gentileza e afabilidade do povo caboverdiano, em especial de pessoas como Bebeto, Erica, Gabe, Deise, João Carlos, Raquel e Sheila!!

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Novamente em Gran Canaria

Quanto mais conheço Gran Canaria mais gosto desta ilha. A um porque minha prima Maria Amalia vive aqui com sua família; a dois porque a ilha é linda com seus variados cenários que ora mesclam paisagens verdejantes ora áridos cenários num relevo montanhoso cercado pelas azuladas águas do Atlântico. Assim, vamos eu e Raul direto de Casablanca pra Las Palmas num voo de pouco mais de 3 horas. Maria Amalia este ano mudou para um sítio motivo por que, em conversa no Whatsapp, quis enviar seu filho Franco ao aeroporto pra nos receber. Consigo a caro custo dissuadi-la, combinando então que ele nos esperará no terminal San Telmo. Fácil de ser avistado, porque é um rapaz muito alto - puxou ao pai, Daniel -, Franco nos avisa que teremos de pegar outro bus que nos deixará a poucas quadras de nosso hostal. E lá vamos nós não sem antes pararmos num super pra comprar bebida e comida. O hostal é destinado pra galera do surfe, daí que 99% dos hóspedes são jovens. Nosso quarto, amplo e bem iluminado, fica no coração da casa, o terraço, onde os hóspedes costumam se reunir ao redor duma comprida mesa seja pra conversar, beber ou comer. O banheiro é compartilhado. Convido Franco pra beber uma copa de vinho. Há que celebrar nosso reencontro. Dia seguinte, vamos eu, Raul mais Richard, um canadense de 50 e tantos anos, dar um rolê na praia de Las Canteras, sentando em bancos de pedra diante do Auditório Alfredo Kraus cuja imensa parede de vidro volta-se pro mar. Ali, ficamos de bobeira, curtindo os surfistas fazendo suas evoluções nas águas azuis do Atlântico. Resolvemos almoçar num dos vários restaurantes que há na avenida Jose Mesa y Lopez, escolhendo dentre o menu do dia um prato típico chamado garbanzada, que vem a ser um ensopado parecido com o mocotó. Dia seguinte, sem Raul, que prefere ficar no hostal, alugo uma bici. Pedalo até San Cristóbal, antigo povoado de marinheiros, pra comer no restaurante Los Botes, famoso por sua culinária. Difícil escolher algo dentre o apetitoso menu, mas me decido por croquetes de espinafre com presunto serrano mais pulpo gallega, regando tais petiscos com vinho da Gran Canaria. O dia está lindo, céu azul e temperatura amena. Como é dia de Reis, 6 de janeiro, feriado na ilha, Daniel e Maria Amalia vêm nos buscar pra conhecer seu sítio Las Hormiguitas, situado no município de Santa Maria de Guia, distante 20 km de Las Palmas. Após rodarmos na GC 2, uma autoestrada à beira mar, enveredamos por estreitas e sinuosas estradas beirando precipícios. Belíssima paisagem até Las Hormiguitas! Amalia está animada, cheia de planos, bem diferente daquela mulher tensa e ansiosa com quem convivi ano passado. Revela que a aposentadoria permite que ponha em prática velho sonho acalentado há anos: o de se tornar uma agricultora. Conhecimento ela tem porque se formou em agronomia mas por circunstâncias alheias a sua vontade foi impossível seguir na profissão. A manhã passa rápido, enquanto curtimos um mate ao ar livre, seguido dum almoço com boa comida caseira feita pelo casal. Como é hábito em lares espanhóis, terminada a refeição, acompanhamos os donos da casa no ritual da sestea. Após a soneca, eles nos levam pra conhecer o parque Natural de Tamadaba, onde ainda há bosques de pinheiros nativos, destacando-se o avantajado Pico de La Bandera. Dali vamos até Agaete, situada no noroeste da ilha, passeando por suas ladeiras emolduradas por casas brancas, muitas delas encimadas por balcões de madeira. Algumas ruas ao entardecer estão ainda iluminadas com motivos natalinos. Descemos à encantadora vila de pescadores de Puerto de Las Nieves, onde se pode saborear peixe fresco junto ao mar. Falésias de rocha escura se prostram diante do mar e não muito distante, avista-se a ilha de Tenerife e o seu emblemático vulcão Teide com 3.718 metros. Dia seguinte, vamos eu, Raul, mais uma argentina, que trabalha no hostal, em sistema de permuta, dar um giro no lado sul da ilha. Pra tanto alugo um carro por dois dias. Pegamos a GC 1, a mesma que leva ao aeroporto, seguindo até a praia de Los Ingleses repleta de apartamentos, condomínios e hotéis todos voltados pra turistada europeia, sobressaindo-se os escandinavos que compram, adoidados, imóveis na Gran Canaria. Curiosa sobre a Reserva Natural Especial das Dunas de Maspalomas, pra lá vamos, estacionando o carro a 3 km de distância de modo a caminhar um pouco pelo calçadão. A reserva tem 404 hectares compreendendo além das dunas, oásis de palmeiras e uma lagoa salobra. Escolho pra conhecer a região das dunas, caminhando por suas douradas e fofas areias. Muita gente indo à praia empunhando guarda-sóis e pranchas de surf enquanto alguns praticam na areia kitesurf orientados por seus instrutores. Um que outro gato pingado posa, discretamente, de nudista aninhado entre cômoros de areia. Nossa próxima visita ainda no sul da ilha é Playa de Mogán. A paisagem até lá é lindamente árida com vários túneis cortando as encostas de montanhas já que esta parte da ilha é super montanhosa. Como várias cidades e vilas da Gran Canaria, as casas são brancas com aberturas coloridas. Tudo muito mediterrâneo. Dia seguinte, sem Raul que prefere ficar no hostal onde já fez várias amizades, pego o carro e acompanhada de Maria Amalia, a quem apelido meu GPS humano, pois conhece a ilha como a palma da mão (aqui vive há 20 anos), vou conhecer o município de Tejeda. A cidade, localizado no centro da ilha, encontra-se aninhada numa depressão vulcânica, rodeada por uma montanha coroada por vários monolitos basálticos, dentre os quais os famosos Roque Nublo e Roque Bentayga. Fazendo jus ao nome, pouco vejo do Roque Nublo porque a neblina obnubila este símbolo de Gran Canaria. Tanto que quando vamos conhecer o Pico de Las Nieves, a segunda montanha mais alta da ilha com 1.956 metros, mal descemos do carro porque além de fazer 4º C baixou uma pesada cerração envolvendo a paisagem. A encantadora Tejeda, além de seguir o padrão de casas pintadas de branco encimadas por balcões de madeira, conta com outro atrativo: amendoeiras. Plantadas ao longo das ruas, as árvores já revelam suas delicadas flores nesta época do ano. A cidade, por isso, é especializada em doces, bolos e biscoitos feitos com esta fruta. Maria Amalia me leva a uma confeitaria pra que eu prove duas iguarias típicas da região: pasta de amêndoas, chamada bienmesabe, e torta também feita com amêndoas. Uma chávena de chá vem a calhar com tais guloseimas! Com esta excursão escoltada pela fina companhia da prima Maria Amalia, encerro minha estadia na Gran Canaria com a certeza de que retornarei, por supuesto!!