sábado, 8 de fevereiro de 2020

Trek no PN Peneda-Gerês

O meu super guia Rui me leva de carro até a Pousada da Juventude Vilarinho das Furnas, onde me hospedarei durante 2 dias. Situada na freguesia de Campo do Gerês, com 300 habitantes, distante apenas 45 km de Braga, a vila está compreendida nos limites do Parque Nacional Peneda-Gerês onde farei 2 trilhas. Situado ao norte de Portugal, o PN Peneda- Gerês é único parque nacional do país, fronteiriço à Galícia. Com área de 70 mil hectares, é formado pelas Serras da Peneda, do Soajo, Amarela e do Gerês e considerado Reserva Mundial da Biosfera pela UNESCO. Seu relevo acidentado, entremeando colinas e vales, cortadas por rios e córregos, exibe flora variada, escasseando no topo das serras devido ao clima e à ação do homem. Na fauna, destacam-se exemplares de veados, lobos ibéricos e águias-reais. Ainda guarda marcos de pedra, sinalizando a existência de antiga estrada romana – geira - que ligava Braga a Astorga, na Espanha. Rui me pega no albergue que, diga-se de passagem, é bem confortável, localizado em amplo jardim pontilhado por coníferas. Nos dois dias de caminhada, explica Rui, andaremos somente em trilhas na Serra do Gerês. Hoje, 1º dia de trek, a pernada será em velhos caminhos de pastoreio entre a Portela de Leonte e a vila de Caldas do Gerês, resume Rui. Vamos, então, de carro até a antiga casa florestal Portela de Leonte. Ali, às 9 de la matina, temperatura beirando 12º C, tem início a caminhada sob um céu densamente acinzentado, salvo curtos momentos em que se vislumbram pequenos trechos azulados. Trotando, inicialmente, num terreno calçado de pedras, atravessa-se um trecho da mata de Albergaria numa subida constante. Rui aponta alguns exemplares da flora, discorrendo sobre suas características. Conheço ao vivo e a cores, por fim, arbustos e árvores que até então só habitavam minha imaginação da leitura de livros, como o azevinho, arbusto largamente utilizado na decoração natalina em razão de seus frutinhos vermelhos e folhas dum verde escuro. Atualmente, seu uso é proibido. Mais adiante, sou apresentada ao teixo, cujo bosque é chamado teixeira. Árvore de lento crescimento e idade vetusta, pode bem alcançar 300 anos de idade. Os esquálidos carvalhos, despidos de folhas, parecem figuras espectrais no meio da mata. Dentre as raras flores, destaca-se o delicado miosótis. Quando chegamos ao topo do morro, descortina-se lá embaixo o vale da Teixeira, belíssimo anfiteatro rochoso, embora o nevoeiro impeça a visualização de vários picos ao seu redor, nesta região chamados Pés. Começamos a descida, percorrendo um terreno coberto por largas lajes até o Curral do Junco. Mais adiante, num prado, destaca-se antiga construção de pedras, chamada forno pastoril, antiga moradia dos pastores durante a viseira, o deslocamento do gado em busca de pastagens entre a primavera e outono. Ao lado, cavalos selvagens pastam indiferentes à nossa passagem. Bem fraturadas, as rochas que circundam o vale, mostram coloração esbranquiçada já que despidas de pouca ou nenhuma vegetação. Pequenos pilares de pedras sobrepostas umas às outras, apelidadas mariolas, no linguajar local, indicam o rumo da trilha ao longo do Prado de Teixeira. Um córrego de águas limpas segue seu curso em direção ao fundo do vale. Enquanto comemos nosso lanche, abrigados num telheiro de pastores, escuto singular estória narrada por Rui. Nesta região do norte de Portugal, inicia ele, as gentes dos campos, despidas de delicadezas devido à rudeza das lides campesinas, contratavam um homem pra abreviar a vida de familiares moribundos. Não se sabe com exatidão a data em que parou de existir tal personagem, se no início ou metade do século XX, prossegue Rui. Dou asas à imaginação, concebendo-o como um tipo atarracado, bem parrudo, haja vista que o método de morte empregado, asfixia, exige força. Não à-toa, a sutil alcunha “abafador”. À semelhança dum padre, conversava com o moribundo, caso este se encontrasse consciente (Rui não soube precisar se para tranquilizá-lo ou abençoá-lo), abafando-o a seguir com 1 travesseiro, finaliza meu guia. Ala putcha, que relato fascinante esse, de uma “eutanásia” à moda do Minho!! Com a estória circulando na minha cabeça, enfrento, com redobrado ânimo, curta subida, atravessando outro belo bosque cujo chão está coberto de folhas secas de pinheiros. Segue-se então o traçado da Grande Rota da Peneda-Gerês, descendo ao vale onde se encontra a vila de Caldas do Gerês, mimoso balneário termal onde encerramos nosso trek de modestos 11 km. 



Dia seguinte, no meu 2º dia de trek, vou conhecer as Minas de Carris. A caminhada inicia às 8:30 na Portela do Homem onde Rui estaciona seu carro. Caminhamos breve trecho no asfalto até a ponte sobre o rio Homem, donde inicia, paralela ao seu curso, antiga estrada de chão batido onde, até a década de 70, trafegavam veículos indo e vindo das minas. Com dezenas de corredeiras em seu leito de águas claras, desaguam no rio os córregos Ribeira do Mudorno e Cagarouço e outros de menor expressão formando pequenas cascatinhas à direita da estrada. Largas extensões de lajes afloram à margem esquerda do rio. O dia exibe-se tão acinzentado quanto ontem, pairando uma neblina sobre o vale. Embora não haja grandes subidas, o chão, coberto de pedrinhas, torna cansativa a pernada. Ao longo da via, pequenas bicas de água potável são alimentadas por riachos que escorrem do alto da serra. Árvores e pedras cobertas de musgo denunciam o alto teor de umidade na região. Após 5 km, destaca-se, no paredão rochoso, na margem direita do rio, os 70 metros da Água da Laje do Sino
. Antigamente no Gerês, água ou fexa significava cachoeira. Se o caminho até então era exigente face à irregularidade do terreno pedregoso, pior se torna a partir do momento em que a trilha se estreita. O solo não mais coberto por pedregulhos, agora reveste-se ininterruptamente de pedras de bom tamanho. Dura pouco, entretanto, tal martírio, porque 0 final do vale do rio Homem já se aproxima. Ao lado da estrada, despontam delicadas flores cor de rosa. Escorre por pequena ribanceira o córrego Águas Chocas, assim chamado porque no auge do inverno o solo congela. A estradinha torna-se agora larga e plana. A paisagem de colinas arredondadas revela horizontes não mais confinados pelas altas barrancas do rio Homem. A partir de Abrótegas, o vale dá lugar a prados embelezados por elevações de puro granito. Rui ao apontar um solitário forno pastoril, esclarece que estou diante dum autêntico exemplar, enquanto os de ontem são construções mais recentes e, portanto, menos rudimentares. O autêntico, bem menor, tem uma porta super baixa, a fim de impedir o acesso de animais no seu interior. Conforme nos aproximamos das Minas de Carris, a garoa fica confinada no vale, o céu desanuvia e grandes claros de azuis competem com nuvens cinza-claro. Decorridos 11 km, começo a avistar dezenas de esqueletos de edifícios: são as Minas de Carris localizadas a uma altitude de 1.440 metros. O conjunto mineiro passou por três fases de exploração: a 1ª ocorreu durante a II Guerra Mundial, liderada por uma empresa portuguesa que servia de fachada a concessionários de origem alemã; a 2ª correspondeu aos 3 anos que durou a Guerra da Coreia, nos idos de 1950 e a 3ª e última fase foi durante a década de 1970. A lucrativa exploração de tungstênio contava com cerca de 400 pessoas vivendo e trabalhando nas minas, população esta superior a de diversas vilas das redondezas! Atualmente do pujante complexo mineiro restam escombros à semelhança duma cidade fantasma. O local, um verdadeiro mar de granito, é moradia do ponto mais alto da Serra do Gerês, o pico da Nevosa (1.545 metros), e o segundo mais elevado de Portugal. A leste, no vale, Pitões da Júnia, com 160 habitantes!! Pena que não há tempo pra visitá-la. Chegamos à barragem, construída pra fornecer água à antiga cidadela mineira, hoje um lago onde se pode banhar no verão. Um grupo de portugueses, vindos de Pitões da Júnia, ali se encontra e pretende passar a noite acampado. Às 16:50 estamos de volta ao ponto de partida. Embora cansativa, afinal foram 22 km, a pernada foi ótima. Adorei conhecer mais um pouco deste parque nacional com recantos tão inusitados. Dia seguinte, domingo, volto de trem a Lisboa. Super resfriada, com uma baita sinusite, aplico o velho e bom Vick Vaporub pra desentupir as narinas. Saio à rua me arrastando porque preciso me alimentar. É foda estar sem energia pra bater perna pela adorável capital portuguesa. Na segunda, um pouco melhor, consigo dar um pequeno rolê pelas estreitas e sinuosas ruas onde os elétricos se sacodem ruidosos. Marca registrada de Lisboa, roupas secam penduradas nas sacadas. Na mala, alguns queijinhos, 4 latinhas de patês de sardinha e uma caixeta de ovos moles de Aveiro. Uma forma de prolongar Portugal depois do regresso a casa.....adeuzinho!

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Norte de Portugal Revisitado

Num voo de uma hora, vindo de Madri, chego ao aeroporto do Porto, preferindo ônibus ao metrô até o local onde me hospedarei já que o trem exige baldeação. O estúdio por mim reservado é bem legal, localizado na rua das Fontainhas, a dois passos do rio Douro e da Ribeira e a 2 km da Estação São Bento. Fontainhas significa, no delicioso linguajar do português de Portugal, fonte pequena. Bueno, o estúdio ou suíte além de fogão elétrico, geladeira e louça oferece máquina de lavar roupa, o que vem a calhar porque certas roupas minhas necessitam duma boa lavagem! Tais irmãs siamesas, separadas por um curso d'água, chamado Douro, assim são Porto e Vila Nova de Gaia. Como a corda e a caçamba não dá pra visitar uma sem conhecer a outra. Conheci ambas em 2006 quando visitei o norte do país com minha mãe. Retorno, agora, não exatamente pra rever as cidades mas pra reencontrar um casal de Caxias do Sul, que conheci de vários pedais feitos naquela região serrana. Aproveito a curta estadia em Porto - não mais que um dia e meio - pra já na tarde de minha chegada dar um rolê pelo seu centro histórico e comer apetitosas castanhas assadas vendidas por ambulantes nas calçadas enquanto admiro a obra prima do séc. XVIII, que é o exterior todo azulejado da Capela das Almas de Santa Catarina. Encerro a noite, jantando filetes de robalinho grelhados, no Majestic Café, uma joia do estilo arquitetônico art nouveau. No dia seguinte, saio a bater perna na Ribeira curtindo as várias pontes sobre o rio Douro que unem Porto a Vila Nova de Gaia e vice-versa. Dentre as 6 pontes, destaca-se a portentosa estrutura metálica em dois passadiços da Ponte Dom Luiz I, construída no século XIX. As escunas turísticas quando não dão o ar da graça singrando o Douro, quedam atracadas às margens do rio aguardando nova leva de turistas. Cruzo a ponte Dom Luiz I pelo passadiço inferior e chego à Vila Nova de Gaia donde se tem uma visão incrível da Ribeira do Porto, suas casinholas coloridas de 2 e 3 pavimentos e as torres da Sé do Porto. Subo após o almoço até a colina onde foi construído o Mosteiro da Serra do Pilar. Na praça em frente ao prédio, dezenas de pessoas curtem o radiante sol da tarde. Clima perfeito embora estejamos em pleno inverno europeu! Retorno ao Porto pelo passadiço superior da ponte Dom Luiz I, apreciando, creio eu, o único vestígio da antiga muralha que protegia a cidade. À noite, a convite de Maria Leonor e Ricardo, vou jantar na residência do casal, pertinho da foz do Douro. Já noitinha, com a iluminada ponte de Arrábida a frente, eu e Maria Leonora nos encontramos no meio do caminho. Os fortes abraços trocados demonstram nossa alegria pelo reencontro. Um gostoso bacalhau preparado pelo anfitrião é o prato principal acompanhado de bons tintos portugueses, pois pois. Ricardo está cursando pós-doutorado em Porto e adorando morar neste cantão português, Por ele fica pra sempre aqui, ao passo que Maria Leonor, no início, sentiu maior dificuldade em se adaptar já que veio acompanhar o marido. Mas como boa gringa da serra gaúcha, soube fazer do limão uma limonada. E dale a frequentar cursos que, por falta de tempo quando estava no Brasil, não se permitia fazer. A janta transcorre agradavelmente, num bate papo animadíssimo porém a boa comida e os vinhos fazem seu efeito. Assim, despeço-me dos anfitriões, não só de pancinha cheia mas com o coração aquecido pela calorosa acolhida dos queridos amigos. Dia seguinte, pego o comboio pra Braga em São Bento, a linda estação de trens cujo átrio é decorado em ladrilhos azuis e brancos com narrativas de cenas da vida portuguesa de antigamente. A viagem demora cerca de 1 hora, parando em diversas estações, algumas decoradas com os famosos azulejos portugueses. Rui Barbosa está a minha espera na gare de trens. Conheci-o, quando estava a trabalhar como optometrista em Bissau, assim que cheguei ao país africano em dezembro. Decidiu trocar aquela profissão por outra que mais lhe apraz: a de guia turístico. Não por outro motivo estou em Braga: pra fazer trek no Parque Nacional Peneda-Gerês, que Rui conhece profundamente. Como ele precisa cumprir certos compromissos, após o almoço fico sozinha e não perco tempo em dar um rolê pela cidade. Rolê bem diferente daquele de 14 anos atrás mas igualmente prazeroso. Embora a cidade esteja a 50 km do Atlântico ainda se vêem gaivotas voando aqui e acolá. Fotografo a traseira do antigo palácio, agora museu dos Biscainhos, e atravesso a Porta do Arco Novo, resíduo da antiga muralha que cercava a então medieval Braga. Entro na Sé da cidade e me deleito com seu coro onde está instalado um magnífico órgão. No pátio da catedral, há vestígios de máscaras esculpidas em pedra, segundo o guia da catedral, possivelmente de origem celta. Numa mercearia, onde entro para comprar água, me encanto com réstias de tomates bem vermelhinhos. Continuo o passeio ao longo da rua principal passando pelo Largo do Paço. Mais adiante sou surpreendida ao escutar dois brasileiros, há anos em Portugal, tocando Galos, Noites e Quintais do inesquecível Belchior. Como ainda me sobra tempo até o encontro com Rui, continuo o tour passando por uma avenida cujos canteiros são decorados com couves ornamentais!! Na praça de Almeida Garrett, sobressai, entre dois prédios a frontaria da Igreja dos Congregados. Num largo, entre duas ruas, se impõe a solitária Igreja da Senhora-A-Branca. A super católica Porto, é assim: seja numa dobra de esquina, no meio ou fundo de ruas, as indefectíveis igrejas aguardam tanto os culpados quanto os inocentes fiéis. Quando os ponteiros dos relógios encostam nas 18 horas, parto de Braga ao som dum heavy metal pra lá de cristão: o bimbalhar dos sinos das igrejas bracarenses. 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

As cidades medievais de Segovia e Toledo

Após um mês flanando por Marrakech, Gran Canaria e Santiago de Cabo Verde, retorno a Bissau, já que Raul tem de pegar no batente. Permaneço mais 10 dias na cidade frequentando religiosamente, salvo um fim de semana em Bubaque, o bar Longe N’Batonha ao entardecer. Ali sempre aparece gente dos 4 cantos do globo, particularmente europeus, o que acho ótimo pois embora meu inglês seja meio trôpego, consigo trocar uma ou outra idéia com eles. Porém o que me leva mesmo ao bar é desfrutar a companhia de meu filho, gerente do estabelecimento. O primeiro impacto, ano passado, quando aqui estive pela primeira vez, foi negativo, considerando que Bissau não é nem bonita tampouco limpa. Contudo, se ultrapassarmos o aspecto meramente estético, oriundo por óbvio, duma impressão objetiva contra a qual não se pode refutar, percebemos quão atraente é a cidade. Ao libertar do convencionalismo meu olhar limitado por padrões de beleza ocidental, passei a ver Bissau com outros olhos e compreender que o belo está no detalhe do alfaiate pedalando sua máquina de costura instalada sob uma marquise da rua principal. O belo está, principalmente, no povo tão gentil, alegre e curioso, ainda mais quando percebe que você é brasileiro. O belo, ainda, é escutar, quando passo pelas esquinas, as vendedoras de frutas, entoando melodiosamente "banana, banana", sentadas nas calçadas embaixo dum sol inclemente. O belo é o engenhoso pedinchar do moleque ao dizer "ofereça-me 500 francos, tenho fome". O belo é também ouvir os guineenses falando vários idiomas conforme a etnia a que pertencem. E são tantas! Quão bela, sem sombra de dúvida, é a paradisíaca ilha de Bubaque. O belo é passear por Bissau Velha e ver nos decadentes prédios o fim duma era que, felizmente, acabou: o jugo português. O belo, graças a deus, é saber que o brasileiro tem no povo africano uma das matrizes de sua cultura. O belo, por fim, é repelir a “realidade” introjetada pelos critérios subjetivos oriundos dos preconceitos e aceitá-la tal qual é. E pensar que há 2 anos atrás a África nem fazia parte da minha lista de desejos! Refletindo sobre tais assuntos parto de Bissau rumo a Madri onde em Barajas Michele está me esperando. Dos 6 dias em Madri, reservo solamente 2 pra curtir a cidade. Afinal, ano passado dei um rolê legal pelos seus principais atrativos. Por isso, na sexta revisito o templo de tapas, que é o Mercado de San Miguel, e, no sábado, Michele me leva a um autêntico boteco madrilenho, chamado Bodeguilla, perto do antigo estádio Santiago Bernabeu. Pequeno, tem poucas banquetas rente ao balcão e mesas na rua. E, como não poderia faltar, uma enorme tv de tela plana sintonizada num canal de futebol. Costume na Espanha, o cliente ter direito a cada copo de bebida alcoólica um pincho, assim chamados os tira-gostos. O simpático dono nos serve torresmos, mini bocadillos e salgadinho de pacote pra acompanhar nossas taças de vinho. Nos 2 últimos dias, vamos eu e Michele visitar duas cidades históricas perto de Madri: Sevilha e Toledo, ambas consideradas patrimônios da humanidade pela UNESCO. O clima tem sido generoso e no ensolarado domingo, antes de pegarmos o bus no terminal rodoviário localizado na estação de metrô Moncloa, compro castanhas assadas muito comuns nesta época do ano. O trajeto de 90 km dura 1 hora dentro do confortável ônibus com wifi. Segovia tem como principal atrativo um dos monumentos antigos mais importantes e bem preservados na Península Ibérica: o aqueduto construído com pedras de granito sem utilização de argamassa pelos romanos, remontando ao século I DC. Sua finalidade era a condução ao longo de 15 km das águas do manancial de Fuenfria, na Serra de Guadarrama, a Segovia, cujo abastecimento durou até meados do século XIX. Caminhando pela avenida do Aqueduto ladeada em ambos os lados por restaurantes com mesas ao ar livre, a espetacular obra de engenharia hidráulica vai aumentando de tamanho à medida que dela me aproximo, revelando no final da artéria a grandiosidade de sua construção. Ao contrário do aqueduto, pouco restou em Segovia das muralhas que as cidades medievais costumavam construir a fim de se proteger. Por uma escadaria, sobe-se até o topo do aqueduto onde é possível mirar os picos nevados das serras circundantes. Passeando por sua parte antiga, situada numa pequena colina, onde se encontram vários prédios históricos, passamos diante da Casa de Los Picos, construída no século XV. O curioso edifício tem suas paredes externas decoradas em pontas de diamante com finalidade tanto decorativa quanto defensiva. Tortuosas e estreitas ruas levam à Catedral de Santa Maria, elegante prédio em estilo gótico, fronteiriça à plaza Mayor, outro ponto de grande concentração de restaurantes, bares e cafeterias. Nas ruas, músicos se exibem para entretenimento da turistada. Aliás, o fluxo de turistas vagueando pela cidade é intenso. Difícil tirar uma foto sem alguém diante dum prédio ou caminhando pelas calçadas das ruelas. Continuando nossa peregrinação, vamos dar no Alcázar de Segovia, palácio fortificado que serviu de moradia a diversas gerações da realeza espanhola. Dali se tem ampla visão dos arredores de Segovia. As muralhas do enorme prédio são revestidas com a decoração chamada esgrafiado, que vem a ser, simplificadamente, um tipo de alto relevo. A culinária típica servida na cidade é porco (cochinillo) e cordeiro, assados em forno à lenha. Escolhi comer o primeiro e me foi servida uma baita perna, um tanto quanto gordurosa, acompanhada por batatas. Enquanto Segovia fica ao norte de Madri, Toledo está ao sul, a 75 km. Acompanhada por Michele, pra lá vamos dia seguinte. Adoro cidades medievais, suas estreitas e escuras ruas que desembocam em pequenos largos ensolarados. Seus castelos fortificados cujas altas e grossas paredes impõem admiração reverencial. O ambiente austero que envolve a medievalidade me atrai muito. Toledo não foge à regra, é muito mais rica que Segovia, sem sombra de dúvida. A antiga cidade, cercada por muralhas intactas, localiza-se no topo duma colina, à beira do rio mais extenso da Península Ibérica, o Tejo, aquele mesmo que banha Lisboa. Toledo guarda mais de dois mil anos de história: já foi ocupada por romanos, visigodos, mouros e, por fim, em definitivo por cristãos quando da Reconquista da Península Ibérica. A cidade ganhou fama de ser a “cidade das três culturas” porque à época conviveram ali cristãos, judeus e muçulmanos em harmonia por muito tempo. Prova disso é a existência de templos católicos, sinagogas e mesquitas espalhada pelas ruelas e becos. A marcante Toledo foi não só o lar escolhido pelo pintor El Greco, como ainda fascinava o autor de Dom Quixote, Cervantes, por seu cosmopolitismo. Em homenagem ao célebre escritor, há uma estátua sua perto do Arco de Sangre, exibindo algumas lojas diante de seus estabelecimentos réplicas em tamanho natural de Dom Quixote e seu fiel escudeiro, Sancho Pança. O passado medieval está sempre presente, caso das lojas que vendem armaduras, espadas e facas pois Toledo é famosa por este tipo de indústria desde o século I DC. O Alcázar de Toledo, castelo fortificado que serviu de residência aos reis de Espanha, queda, estrategicamente, sobranceiro ao rio Tejo. Só me resta vê-lo do lado de fora porque justo neste dia está fechado à visitação. Do outro lado do Tejo, chama a atenção o enorme prédio da Academia de Infantaria, centro de formação militar do Exército espanhol. No sobe e desce ladeiras, paramos num restaurante e provo carcamusas, prato típico toledano, feito com pedaços de carne de porco, presunto e linguiça, mergulhados em molho de tomate, acompanhado de batatas fritas. Delicioso pero um pouco pesado! Passeio na ponte San Martin, erguida sobre o Tejo, em cujas extremidades há dois grandes portões de pedra. Uma viagem no tempo passear pelos becos e vielas e, numa dobra de esquina, me deparar com a passagem aérea, feita de madeira entalhada, ligando os dois prédios do Real Colégio de Doncellas, construído no séc. XVI, que visava a educação de jovens pobres. Quando deixamos a cidade histórica pela porta de Cambrón ao entardecer, a lua crescente brilha no céu azul. Durante a caminhada até a rodoviária, vou admirando as grossas muralhas que cercam a cidade fortificada. A última visão que tenho daquela Toledo dantanho é a da Porta Nova de Bisagra, uma das 4 por onde se entra e sai da cidadela. Lastimo a maneira vapt vupt de visitar esta jóia medieval, ela merecia mais tempo pra ser melhor apreciada. Mesmo assim, saio contente porque tive a oportunidade de conhecer mais um pouco desta época da história, a fascinante Idade Média.

sábado, 18 de janeiro de 2020

Santiago de Cabo Verde

Finalizando nossa trip com chave de ouro, eu e Raul escolhemos conhecer Cabo Verde, situado no oceano Atlântico ao largo da África Ocidental. Pra tanto, voamos de Las Palmas a Casablanca onde se faz conexão, seguida de breve escala em Bissau, finalmente, aterrissando em Praia, situada na ilha de Santiago, no inconveniente horário das 4 da manhã. Santiago, a maior das 10 ilhas de origem vulcânica que formam o arquipélago caboverdiano, é super
montanhosa e cheia de platôs, aqui chamados achadas. Sua principal cidade, Praia, é também a capital do país. Estamos hospedados na Achada de Sto Antonio, no confortável Salav Guesthouse, a 200 metros da praia de Kebra Canela que se alcança descendo as Escadinhas de Sto Antonio, adornadas por azáleas magentas e rosadas. À tarde, sob um céu nublado, presencio, na avenida Jorge Barbosa, que contorna o mar, passeata de estudantes contra a bárbara morte do estudante caboverdiano Luís Giovani em Portugal, no final de dezembro. O assassinato adquiriu contornos racistas devido à origem africana do jovem. Concomitantemente, desfila num conversível vermelho, casal de noivos e daminhas, seguidos por um cortejo de carros buzinando alegremente. Estamos numa zona nobre de Santiago, com bons restaurantes nas redondezas desde o sofisticado Nice Kriola ao popular Rola Festa com preços razoáveis e cardápio regional, além de saborosas sobremesas. O almoço sai por 450 escudos (4 euros), a cachupa 300 escudos (2,70 euros) e a jarra de vinho 250 escudos (2,25) euros. Cachupa é um prato típico à base de milho e feijão, cujos acompanhamentos variam do peixe, chamada cachupa pobre, à carne, conhecida como cachupa rica. Nas regiões agrícolas de Cabo Verde, como alimento forte que é, servem-na ao pequeno almoço pra energizar o corpo antes de enfrentar a roça. No sertão do Piauí e Pernambuco, temos uma versão da cachupa, o pintado. Da praça Cruz de Papa, em frente ao nosso hotel, avistam-se o Monte Vermelho, o Pico da Antônia (+ alto da ilha) e Monte Babosa. Na manhã seguinte a nossa chegada, quando olho pro mar da sacada do hotel, vejo tudo enevoado. Soube depois, conversando com a amável e prestativa Erica, gerente do Salav, que estávamos no meio da "bruma seca", fenômeno atmosférico em que poeira e areia são trazidas do Sahara pelos ventos harmattan, nesta época do ano. Com exceção de dois dias, o restante foi ensolarado, bom pra ir à praia de Kebra Canela e desfrutar dum refrescante mergulho nas suas mansas e claras águas. Nas cidades africanas situadas à beira mar, sempre há vendedoras oferecendo peixes frescos nas calçadas das ruas. Aqui em Praia se concentram no mercado do Sucupira, que visitamos à tarde após um rolê pela cidade. Pra mim, Sucupira foi meio decepcionante porque se dedica a vender maciçamente roupas e sapatos baratos. Nem o pastel de milho, um quitute típico ilhéu, serviu de consolo porque tinha acentuado gosto de peixe. Em compensação, uma alegria conhecer o Farol de Dona Maria Pia. Funcionando desde 1880 quando de sua construção, tem 59 metros. Seu zelador, Jorge do Farol, orgulha -se da boa forma física, adquirida pelas diversas subidas diárias até o topo da torre. No almoço, num restaurante frente ao mar, pedimos de entrada o saboroso pão com alho e queijo, que vem a ser uma pizza com massa super fina, tipo biscoito. Praia é uma cidade moderna com prédios novos e largas avenidas exibindo faixas de pedestres respeitadas pelos condutores de veículos. Não à-toa, considerada patrimônio mundial da UNESCO desde 2009, a Cidade Velha é especial, tanto que a visito duas vezes. Foi nesta parte da ilha, no século XV, que os navegadores portugueses desembarcaram quando descobriram Cabo Verde. Pra ir lá tem que se dar 1 pernada de 3 km atė Sucupira, onde se concentram os iaces, transportes coletivos, tipo van, com lotação pra 18 pessoas, cuja passagem custa, dependendo do trajeto, até 100 escudos (1 euro). Aos iaces só é permitido o embarque de passageiros em Sucupira, vedando-se ao motorista pegar ou largar passageiros ao longo do trajeto, exceto em alguns pontos predeterminados. Além de iace e ônibus, reservados às longas distâncias, são usados nos trajetos curtos pequenos caminhões com bancos de madeira em suas carrocerias. Roda-se por 13 km numa ótima rodovia passando por Palmarejo, um dos bairros mais populosos de Praia. Na metade do caminho, junto à rodovia, está sendo construído campus da Universidade de Cabo Verde financiado pela República Popular da China. Digno de menção, o maciço investimento dos chineses em Cabo Verde, alcançando várias áreas, entre elas o turismo. Pouco antes da entrada na Cidade Velha, no topo duma colina, encontra-se a Fortaleza Real de São Felipe, construída no século XV e restaurada no século XX. A vista dali é linda, avistando-se a Cidade Velha ao pé do morro. Descendo por uma antiga estrada, entro naquilo que foi um dia a Catedral da Sé. Ao contrário da fortaleza, a igreja, construída em 1462, dois anos após a chegada dos portugueses, exibe poucas paredes ainda incólumes. Túmulos, como era costume à época, alinham-se no chão dos escombros das capelas laterais. Num deles, lê-se decorosa inscrição na lápide de Donna Ana da Luz Barradas advertindo “para ninguém mais se enterrar, senão seu marido, e depois nunca mais eternamente se poderá bullir nesta sepultura”. N0 Largo Pelourinho, bem no centro do pequeno lugarejo, ainda intacta a estrutura feita em pedra clara sustentando em seu topo ganchos de ferro onde os escravos eram pendurados e castigados. Passeio pela parte histórica da cidade cujas casas, construídas com pedra e cal, exibem pequenos jardins na parte da frente. Em uma de suas vias tranquilas e arborizadas, leio, na placa de porcelana branca, a inscrição Rua de Banana. Num restaurante à beira mar, almoço sopa de peixe à Cidade Velha: pescado inteiro, banana, batatas branca e doce mergulhados num caldo grosso com leite de côco. Enquanto espero o iace, converso com uma simpática vendedora de frutas, que veste saia com estampa da bandeira brasileira. Na volta a Praia, escuto, no rádio do iace, o alegre ritmo do funaná, que dá vontade de dançar ao contrário da dolente morna cujos sentimentos de dor e sofrimento são causados não só por males de amor, como àqueles infligidos nos tempos brutais da colonização portuguesa que durou em Cabo Verde até 1975. Sua representante máxima, Cesaria Évora, nascida na ilha de São Vicente, foi quem projetou a música caboverdiana no exterior. Além da morna, há outros gêneros musicais genuinamente nativos como o batuque (recentemente divulgado por Madona, em seu último trabalho musical), o colá, a coladeira, o funaná e a tabanca. Como não podia deixar de ser, reservo um dos dias de minha estadia pra dar uma pernada numa das 9 existentes no Parque Natural de Serra Malagueta, maciço montanhoso situado na parte norte da ilha. Pra tanto, pego um iace em Sucupira e percorro 55 km durante 1 hora e 15 minutos numa rodovia cheia de curvas e sempre ascendente. Como o mar neste trecho da ilha não é visível, encoberto por paredão de montanhas, fico boquiaberta com os formatos estupendos dos picos que avultam na paisagem serrana. Desço no escritório do parque onde já está a minha espera Gabe, meu guia, nascido na região. Da flora, chama minha atenção duas plantas em que florescem lindas flores amarelas: lacacan e caule de santo. O início da trilha é só descida até Mato Dentro, onde paramos na casa de João Carlos, amigo de Gabe, pra bater um papo. Lá pelas tantas, o simpático rapaz traz uma garrafa de grogue, a cachaça caboverdiana, pra eu provar. Saborosíssima, controlo-me pra não bebê-la às ganhas porque ainda tenho muito chão pela frente. Desce conosco Sheila, mulher de João Carlos, que carrega, à moda africana, sua pequena Raquel, às costas aninhada num pano colorido. A jovem vai a Tarrafal porque amanhã, dia de Santo Amaro, acontecerá grande festa em homenagem ao padroeiro da cidade. Enveredamos então num bosque de mangueiras pra então caminhar no leito seco e empedrado do rio até Ribeira de Principal onde finda a trilha. A paisagem é linda cercada pelas encostas verdejantes das montanhas que formam a Serra da Malagueta. No lugarejo de Chão d’Horta, provo o delicioso pastel de peixe, petisco típico caboverdiano. Após uma breve pernada, embarcamos um caminhãozinho. Na carroceria do barulhento e sacolejante veículo só nós de passageiros até Hortelão onde pegamos um táxi até Tarrafal, passando por encantadoras e pequenas baías cujas praias são cobertas por pedregulhos escuros. No mar, barquinhos coloridos balouçam ao sabor das ondas. Já Tarrafal, situada à beira mar, é praia de areias claras, convencionalmente bonita, o que não me entusiasma muito, ainda mais depois de ter curtido as belezuras serranas da Malagueta, que me deixou de olhos cheios. Despeço-me de Gabe que está indo ao barbeiro cortar a cabeleira em homenagem à festa de Santo Amaro, como bom católico que suponho seja. Retornando a Praia, distante 55 km, passo pelas cidades de Assomada e Picos. Em um pequeno outdoor fincado à margem da rodovia, me delicio com o português de Portugal avisando que “mais vale 1 pé no travão que 2 no caixão....hahaha!!! Dois dias após o trek na Malagueta, vou a Picos, distante 30 km de Praia, que me chamara atenção quando ali passei a caminho do parque. Sentada ao meu lado no iace, a amável Ariane, com quem entabulo conversa. Ela fornece preciosas dicas sobre duas das 6 ilhas de barlavento, assim denominadas aquelas situadas ao norte. Natural de Santo Antão, ela revela que perto de sua ilha, se encontra a linda São Nicolau, que devo conhecer. Tanto que liga pro tio que vive em Santo Antão pra saber horários dos barcos entre as ilhas. Durante a travessia, diz ela, comum a presença de baleias e golfinhos cabriolando no mar. Bem que eu gostaria de visitar São Nicolau mas não me sobra tempo já que Santiago é ilha de sotavento, localizada, portanto, ao sul. A cidade de Picos, em si, não tem nada de especial. Sua marca distintiva é ser cercada por estupendas montanhas em cujas arestas serrilhadas sobressaem picos longilíneos semelhantes a gigantescos dedos apontados pro céu. Destaca-se, no mar de pedras, o admirável monolito rochoso, apelidado Achada da Igreja, porque dependendo do ângulo e distância em que nos encontramos, se tem a impressão de que a gigantesca pedra jaz pespegada ao templo católico. Mera ilusão de ótica pois o intervalo entre elas é de cerca de 2 km. Pra melhor fotografar Chão da Igreja, peço licença e entro no quintal duma casa, nos arredores da cidade. Habitada por mulheres e filharada, todas parentes, a jovem Deise traz uma cadeira pra que eu possa sentar. Ficamos a conversar, salvo a avó, uma senhora idosa que só fala criolo. Continuando meu passeio, observo que não só nos quintais das casas como nas zonas rurais de Picos brotam plantações de milho, já revelando penachos dourados em suas espigas. Este cereal, importantíssimo na alimentação do caboverdiano, está presente em vários pratos tradicionais como a cachupa, cuscus, pastel e doces. Caminhando sem pressa pra pegar o iace, paro pra bater papo com uma comunicativa nativa na calçada. Mais adiante compro bolinho de milho duma menina que se encontra  diante de sua casa, vendendo guloseimas, provavelmente feitas pela mãe. Na volta a Praia, no iace, uma galera que trabalha no posto de saúde de Picos conversa animadamente. Claro está que me meto na conversa, trocando ideias com Bebeto, dono de agradável prosa. No entendimento de duas colegas, Bebeto é um mulherengo de 1ª grandeza. Seus colegas dão risada. Ele bem humorado se defende frouxamente da acusação. Quando desço em Sucupira, ganho dele uma caneta com as cores da bandeira de Cabo Verde. Parto de Santiago levando no coração apenas boas recordações não só de sua admirável paisagem como da gentileza e afabilidade do povo caboverdiano, em especial de pessoas como Bebeto, Erica, Gabe, Deise, João Carlos, Raquel e Sheila!!

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Novamente em Gran Canaria

Quanto mais conheço Gran Canaria mais gosto desta ilha. A um porque minha prima Maria Amalia vive aqui com sua família; a dois porque a ilha é linda com seus variados cenários que ora mesclam paisagens verdejantes ora áridos cenários num relevo montanhoso cercado pelas azuladas águas do Atlântico. Assim, vamos eu e Raul direto de Casablanca pra Las Palmas num voo de pouco mais de 3 horas. Maria Amalia este ano mudou para um sítio motivo por que, em conversa no Whatsapp, quis enviar seu filho Franco ao aeroporto pra nos receber. Consigo a caro custo dissuadi-la, combinando então que ele nos esperará no terminal San Telmo. Fácil de ser avistado, porque é um rapaz muito alto - puxou ao pai, Daniel -, Franco nos avisa que teremos de pegar outro bus que nos deixará a poucas quadras de nosso hostal. E lá vamos nós não sem antes pararmos num super pra comprar bebida e comida. O hostal é destinado pra galera do surfe, daí que 99% dos hóspedes são jovens. Nosso quarto, amplo e bem iluminado, fica no coração da casa, o terraço, onde os hóspedes costumam se reunir ao redor duma comprida mesa seja pra conversar, beber ou comer. O banheiro é compartilhado. Convido Franco pra beber uma copa de vinho. Há que celebrar nosso reencontro. Dia seguinte, vamos eu, Raul mais Richard, um canadense de 50 e tantos anos, dar um rolê na praia de Las Canteras, sentando em bancos de pedra diante do Auditório Alfredo Kraus cuja imensa parede de vidro volta-se pro mar. Ali, ficamos de bobeira, curtindo os surfistas fazendo suas evoluções nas águas azuis do Atlântico. Resolvemos almoçar num dos vários restaurantes que há na avenida Jose Mesa y Lopez, escolhendo dentre o menu do dia um prato típico chamado garbanzada, que vem a ser um ensopado parecido com o mocotó. Dia seguinte, sem Raul, que prefere ficar no hostal, alugo uma bici. Pedalo até San Cristóbal, antigo povoado de marinheiros, pra comer no restaurante Los Botes, famoso por sua culinária. Difícil escolher algo dentre o apetitoso menu, mas me decido por croquetes de espinafre com presunto serrano mais pulpo gallega, regando tais petiscos com vinho da Gran Canaria. O dia está lindo, céu azul e temperatura amena. Como é dia de Reis, 6 de janeiro, feriado na ilha, Daniel e Maria Amalia vêm nos buscar pra conhecer seu sítio Las Hormiguitas, situado no município de Santa Maria de Guia, distante 20 km de Las Palmas. Após rodarmos na GC 2, uma autoestrada à beira mar, enveredamos por estreitas e sinuosas estradas beirando precipícios. Belíssima paisagem até Las Hormiguitas! Amalia está animada, cheia de planos, bem diferente daquela mulher tensa e ansiosa com quem convivi ano passado. Revela que a aposentadoria permite que ponha em prática velho sonho acalentado há anos: o de se tornar uma agricultora. Conhecimento ela tem porque se formou em agronomia mas por circunstâncias alheias a sua vontade foi impossível seguir na profissão. A manhã passa rápido, enquanto curtimos um mate ao ar livre, seguido dum almoço com boa comida caseira feita pelo casal. Como é hábito em lares espanhóis, terminada a refeição, acompanhamos os donos da casa no ritual da sestea. Após a soneca, eles nos levam pra conhecer o parque Natural de Tamadaba, onde ainda há bosques de pinheiros nativos, destacando-se o avantajado Pico de La Bandera. Dali vamos até Agaete, situada no noroeste da ilha, passeando por suas ladeiras emolduradas por casas brancas, muitas delas encimadas por balcões de madeira. Algumas ruas ao entardecer estão ainda iluminadas com motivos natalinos. Descemos à encantadora vila de pescadores de Puerto de Las Nieves, onde se pode saborear peixe fresco junto ao mar. Falésias de rocha escura se prostram diante do mar e não muito distante, avista-se a ilha de Tenerife e o seu emblemático vulcão Teide com 3.718 metros. Dia seguinte, vamos eu, Raul, mais uma argentina, que trabalha no hostal, em sistema de permuta, dar um giro no lado sul da ilha. Pra tanto alugo um carro por dois dias. Pegamos a GC 1, a mesma que leva ao aeroporto, seguindo até a praia de Los Ingleses repleta de apartamentos, condomínios e hotéis todos voltados pra turistada europeia, sobressaindo-se os escandinavos que compram adoidados imóveis na Gran Canaria. Curiosa sobre a Reserva Natural Especial das Dunas de Maspalomas, pra lá vamos, estacionando o carro a 3 km de distância de modo a caminhar um pouco pelo calçadão. A reserva tem 404 hectares compreendendo além das dunas, oásis de palmeiras e uma lagoa salobra. Escolho pra conhecer a região das dunas, caminhando por suas douradas e fofas areias. Muita gente indo à praia empunhando guarda-sóis e pranchas de surf enquanto alguns praticam na areia kitesurf orientados por seus instrutores. Um que outro gato pingado posa, discretamente, de nudista aninhado entre cômoros de areia. Nossa próxima visita ainda no sul da ilha é Playa de Mogán. A paisagem até lá é lindamente árida com vários túneis cortando as encostas de montanhas já que esta parte da ilha é super montanhosa. Como várias cidades e vilas da Gran Canaria, as casas são brancas com aberturas coloridas. Tudo muito mediterrâneo. Dia seguinte, sem Raul que prefere ficar no hostal onde já fez várias amizades, pego o carro e acompanhada de Maria Amalia, a quem apelido meu GPS humano, pois conhece a ilha como a palma da mão (aqui vive há 20 anos), vou conhecer o município de Tejeda. A cidade, localizado no centro da ilha, encontra-se aninhada numa depressão vulcânica, rodeada por uma montanha coroada por vários monolitos basálticos, dentre os quais os famosos Roque Nublo e Roque Bentayga. Fazendo jus ao nome, pouco vejo do Roque Nublo porque a neblina obnubila este símbolo de Gran Canaria. Tanto que quando vamos conhecer o Pico de Las Nieves, a segunda montanha mais alta da ilha com 1.956 metros, mal descemos do carro porque além de fazer 4º C baixou uma pesada cerração envolvendo a paisagem. A encantadora Tejeda, além de seguir o padrão de casas pintadas de branco encimadas por balcões de madeira, conta com outro atrativo: amendoeiras. Plantadas ao longo das ruas, as árvores já revelam suas delicadas flores nesta época do ano. A cidade, por isso, é especializada em doces, bolos e biscoitos feitos com esta fruta. Maria Amalia me leva a uma confeitaria pra que eu prove duas iguarias típicas da região: pasta de amêndoas, chamada bienmesabe, e torta também feita com amêndoas. Uma chávena de chá vem a calhar com tais guloseimas! Com esta visita escoltada pela fina companhia da prima Maria Amalia, encerro minha estadia na Gran Canaria com a certeza de que retornarei, por supuesto!! 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Rabat

Terminado o trek ao Toubkal, retorno imediatamente a Marrakech pra pegar Raul que se encontra no hostal. Não só Marrocos como vários países que conheço não têm rodoviárias. O ponto de embarque e desembarque dos ônibus são nas companhias de transportes. Assim, nos tocamos pra CTM embarcando no busão que nos leva a Casablanca. Omar está a nossa espera no terminal. Mais uma vez ficaremos em seu ape mas será apenas por duas noites porque depois de amanhã estaremos viajando pra Las Palmas de Gran Canaria. Dia seguinte, nosso anfitrião nos leva a Rabat em seu carro. A viagem de 87 km transcorre na excelente rodovia A1 que liga as duas cidades. Rabat é a capital e a segunda maior cidade de Marrocos. Localiza-se igualmente na costa do Atlântico. Tem cerca de 1,6 milhões de habitantes. Como nosso anfitrião trabalhou durante a manhã vamos a Rabat no meio da tarde, motivo por que só conhecemos a Kasbah dos Oudaias, um dentre muitos lugares interessantes na cidade. Originalmente, foi uma pequena fortificação muçulmana, erguida a partir de 1150 pelo califa almóada Abde Almumine como defesa contra as tribos Berguata. Kasbah dos Oudaias foi território de piratas durante 200 anos. A fortaleza mantém-se até os dias de hoje, tendo sido restaurada pelos mouros no século XVI. Sua porta monumental chama-se Bab el Kebir. Com vista para a foz do rio Bu Regreg, avista-se no outro lado do rio a cidade de Salé e seu cemitério. O sol está se pondo deixando uma mancha alaranjada nas águas do Atlântico. Passeamos pelas estreitas e labirínticas ruelas da Kasbah cujas casas são pintadas de branco e azul anilina. Algumas exibem belas portas de madeira. Vasos com gerânios adornam paredes externas e janelas. O aviso na porta de entrada da velha mesquita adverte que está interditada a entrada pra não mulçumanos. O interior dos riads, como são denominadas as residências construídas em estilo arquitetônico árabe, exibem quartos e salas dispostos ao redor dum átrio central, geralmente com uma fonte no meio. Neste espaço a família se reúne pra conversar. No segundo andar ficam os quartos. Pequenas janelas com grades de ferro formam desenhos lembrando treliças. Serviam pras mulheres olharem pra rua sem serem vistas pelos homens. No terceiro andar o terraço. Quase no fim do passeio, o chamado dos muezins reverbera nas ruelas chamando os fiéis pra penúltima oração do dia. Quando saímos da Kasbah seus altos muros de 10 metros de altura e 2,5 metros de espessura estão iluminados.  Terminado o passeio, Omar nos leva ao restaurante Dar Naji que serve autêntica comida marroquina. A decoração é tipicamente árabe e não servem bebida alcóolica, apenas refrigerantes, sucos e chá. Um autêntico show a cerimônia do chá com o garçom fazendo malabarismos com o bule, despejando sem olhar o líquido fervente dum copinho pro outro numa altura de 1 metro sem derramar sequer uma gotícula fora dos recipientes! A comida, farta, consiste de Zaalouk: salada de tomates e beringela temperada com alho e especiarias e Taktouka: salada de tomates, alface, cebola e pimentão tostado regados a azeite de oliva mais cenouras marinadas, acompanhadas de pão. A última entrada é pastilla de galinha: massa folhada recheada com galinha (pode ser com frutos do mar) e polvilhada com açúcar e canela. De prato principal é servida Rfissa: massa, pedaços de galinha e molho mais Seffa Medfouna: massa cabelinho de anjo, pedaços de galinha, passas, amêndoas, canela e açúcar. Tal banquete foi uma despedida condizente com este país cuja cultura é riquíssima e não pode ser absorvida em uma viagem tão curta. Por isso, pretendo retornar e visitar outras cidades deste impressionante e espetacular Marrocos!

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Jbel Toubkal

Apesar da adulação, da insistência, Raul não topa me acompanhar na pernada de 3 dias até o cume do Jbel ou Pico Toubkal. Prefere ficar em Marrakech, no riad, onde já fez várias amizades. Eu teria curtido muito a sua companhia mas, enfim, não há como forçar um barbado a acompanhar sua mãe. Fã do princípio budista da impermanência às vezes gostaria de que os sentimentos se cristalizassem. Por exemplo, Raul, quando pequeno, se eu o convidasse pra ir ao inferno, iria feliz da vida. Agora nem pro céu aceita. Embora aparentemente pareça que me lamento, é só aparência. Cada qual no seu quadrado, vida que segue, e aceito na boa as mudanças que a vida me traz. Voltando, pois, ao Parque Nacional Toubkal. É o mais antigo dos 12 que há no Marrocos, fundado em 1942, situa-se no Alto Atlas. As montanhas do Atlas consistem em várias cadeias montanhosas que se estendem por 2.410 km desde a costa Atlântica de Marrocos até ao Cabo Bon, na Tunísia Oriental. No Marrocos, esta cordilheira exibe as maiores altitudes do norte da África, destacando-se o Jbel Toubkal com 4.167 metros, o segundo cume mais alto do continente africano, só perdendo pro Kilimanjaro, na Tanzânia. Assim, no dia seguinte a minha chegada do tour ao Sahara, parto de Marrakech sem meu filho levada por uma agência contratada pelo Whatsapp até Imlil Village. Contratos modernos são agora via celular! Imlil Village, a porta de entrada aos treks no PN Toubkal, encontra-se a 700 metros acima do nível do mar e distante 80 km de Marrakech. Há 3 vales no PN Toubkal: Imlil Valley, Imnan Valley e Azaden Valley. Nos 3 vales há 30 vilas assim divididas: Imlil Valley: 11 vilas, Imnan Valley: 10 vilas e Azaden Valley com 9 vilas. Em cada vila vive cerca de mil almas. Quando chego na vila Imlil de táxi, o dono da agência, que está me esperando, me conduz a um café onde me oferece chá. Lá sou apresentada ao guia Hassam e ao muleiro, também chamado Hassam, que acumula a função de cozinheiro. Antes da partida, alugo luvas e consigo emprestado um par de bastões porque quando saí do Brasil nem imaginava fazer alguma atividade esportiva desse tipo. Neste 1º dia, vamos fazer uma caminhada de esquenta visando o grande momento do trek: o ascenso ao Toubkal no 1º do ano!! Para tanto o guia escolhe a subida ao Tizi ou passo N’tmatert, situado a 2.267 metros dado o desnível de 1.500 metros desde a vila Imlil. Durante o caminho, cruzo bosques de coníferas sob um céu azul e sol brilhante. Ao chegarmos ao passo, o cozinheiro prepara almoço que como ao ar livre enquanto avisto, no distante vale Azaden, Tizi M'azik, outro passo de 2.445 metros; à esquerda despontam os 3.650 metros do Pico Agulzim e abaixo, no fundão de Imnan Valley, parecendo de brinquedo uma de suas vilas. Terminada a pernada, nos dirigimos pra Ait Souka, uma das 11 vilas do Imlil Valley, onde me hospedo num hostal super familiar, que vem a ser a casa do irmão do dono da agência que contratei em Marrakech. O canto do muezin chamando pra prece ecoa na vila à tardinha. Meu quarto é bom e tem banheiro privativo. O sinal do wifi é forte permitindo que eu veja filme na Netflix enquanto espero a janta. À noite faz frio pra caramba, afinal estamos a 1.500 metros de altitude. Dia seguinte, véspera de ano novo, deixamos Ait Souka, não sem antes o simpático dono do hostal fazer com que eu leve sua jaqueta, porque a minha está com um problema no fecho éclair. Que gentil esse bérbere!! Passamos pela vila Armed, maior vila do Imlil Valley onde o guia e muleiro nasceram, entrando no Mizane Valley onde o terreno começa a se tornar mais íngreme porque agora é só subida. Fazemos uma paradinha num armazém onde além de trocentas bugigangas, dentre elas carregador solar de celular, vende-se delicioso suco de laranja espremida na hora. A trilha é bem demarcada e dá pra se avistar as encostas das montanhas do Atlas cada qual, é claro, com um nome próprio. Nem me arrisco em perguntar os nomes delas porque a língua realmente é muito complicada de se entender. Quando chego aos 2.300 metros onde a vila de Sidi Chamarouch está localizada, sou agraciada com o som duma guitarra bérbere tocada por um jovem sentado num terraço. Mais adiante, o som dum tambor reverbera. Que beleza, meu bom Alá!! Estou encantada com tanta musicalidade em plena montanha do Atlas! Aliás, a música para os bérberes é algo muito natural e levada super a sério porque através das canções a história milenar deste povo guerreiro é passada de geração em geração. A vila Sidi - significa santo - Chamarouch é ponto de peregrinação pros mulçumanos e seu santuário fica no interior duma grande rocha arredondada pintada de branco. Há lojas vendendo artesanatos, pousadas e restaurantes com terraços. Num deles, sou acomodada, sendo-me servido o almoço. Sem muita fome devido à altitude, belisco alguns pratos, embora sejam apetitosos. A partir de Chamarouch, neve e gelo começam a dar pinta, mantendo-se o terreno, assim, bordado de branco até o refúgio. O tempo está excelente, sol radioso e temperatura agradabilíssima. Chego às 16 e 30, após 7 horas de caminhada, no lugar onde foram construídos 2 feios prédios de alvenaria escura que vêm a ser os dois refúgios de montanha do Jbel Toubkal. O mais antigo, com 100 anos chama-se Clube Alpino Francês, o segundo, bem mais novo, tem apenas 14 anos. Chão e encostas de montanhas ao redor cobertos de neve. Segundo meu guia tive sorte de ter sido acomodada no Clube Alpino porque o outro, comenta ele, não é tão bom. Lotadaço de jovens o refúgio, a maioria europeus, uns poucos africanos, e um que outro asiático. Os coroas são raros, não preenchem uma mão. Meu quarto no primeiro andar deve ter uns 12 beliches cabendo 24 pessoas. À noite, um casal, integrante dum grande grupo russo, se fantasia de papai noel e mamãe noel pra diversão de seus conterrâneos. Aliás, os russos destacam-se do restante dos demais hóspedes devido à sua animação: gargalhadas e gritaria reverberam por bom tempo num dos salões onde se faz as refeições. Protagonizo um bate boca com uma marroquina e seu namorado que “furtaram" meu beliche enquanto eu estava no refeitório, tudo porque queriam dormir lado a lado durante a noite. Ela se queixa dos meus modos ao dizer vous n'est pas gentil, ao passo que eu pego pesado e solto you are thief of bed. O namorado não dá um pio durante nossa discussão. Na madrugada do 1º do ano, saímos eu e meu guia às 5 e 15 do refúgio. A temperatura está em – 5º C. Calço crampons desde o refúgio, numa subida forte, até o Tizi N’Toubkal, quando então os sapatos de metal são retirados pois o terreno daqui pra frente é super pedregoso com enormes rochas ladeando a trilha. A 100 metros do cume o terreno se torna “plano”, livre de qualquer rochedo, já se avistando a estrutura metálica que sinaliza a reta final, ou seja, os 4.167 metros do Jbel Toubkal. É assim que às 9 da manhã, adentro 2020 não só com o pé direito como com o esquerdo pisando no topo da montanha mais alta do Marrocos. E com direito à trilha sonora The Wall, do Pink Floyd, que está rolando do celular dum britânico. Pouco depois, dois marroquinos põem pra tocar um jazz super sensual cantado por uma cantora bérbere. Uma farra musical toma conta do cume do Toubkal. Um casal de belgas oferece chocolates e o britânico me passa sua garrafinha de uísque pra eu dar um gole. Alá meu bom Alá, que baita entrada de ano me proporcionaste....shukraan lak!!