sexta-feira, 11 de maio de 2018

Abraçasso no Brasil: Região Norte - Jalapão - Sobre Abenita e outras estórias

Em 4 dias de Jalapão, hoje o céu está nublado porém não se mantém cinzento por muito tempo, pouca demora o azul volta a imperar no firmamento jalapenho. A vegetação predominante é campos limpos com veredas de buriti e cerrado ralo, embora haja mata ciliar ao longo dos rios que banham a região. É tudo muito bonito, em especial as flores que crescem nos arbustos em ambas as margens da estrada. Saímos da fazenda Progresso já manhã adiantada e seguimos pela estrada principal que vai dar em Mateiros. Eu por mim teria ficado mais tempo desfrutando da fascinante companhia de Antonio e Milma porém percebo que Douglas não é de esquentar muito assento nos lugares. Paramos na comunidade Rio Novo onde há um bar com mesa de sinuca. Provo picolé de buriti, a deliciosa fruta presente na palmeira que abunda no cerrado. O óleo extraído de seu côco é rico em caroteno, daí sua coloração alaranjada. É utilizado pelos povos tradicionais do cerrado como vermífugo, cicatrizante e energético natural. Afora isso, suas folhas se bem trançadas servem de eficiente cobertura nos tetos das casas. Atravessamos uma ponte sobre o rio Novo com pedras visíveis em seu leito. Algumas crianças brincam em sua margem fazendo de trampolim um galho de árvore. Na paisagem, à esquerda, destacam-se as serras da Jalapinha, do Espírito Santo e o morro do Saca-Trapo. O evidente desgaste na encosta oeste dessa serra é o responsável pela formação em seu sopé das famosas dunas não só por sua coloração amarelo-rosada quanto pelo inusitado lugar onde estão localizadas tão longe do oceano. À direita, outros planaltos com o topo achatado, destacando-se a do Cinzeiro tão extensa quanto a do Espírito Santo. O calor está fodasticamente tórrido merecendo o Jalapão a fama de ser considerada uma das mais quentes regiões brasileiras. Nosso plano é conhecer as dunas situadas no Parque Estadual do Jalapão que, entretanto, só abre às 14. Em assim sendo, paramos na Abenita, cujo restaurante se encontra defronte à entrada do parque e distante poucos quilômetros do famoso atrativo turístico. A princípio, a mulata de carnes fartas é reticente, meio desconfiada, não se abre de cara nem faz o estilo simpaticona. Custa a entregar banais informações. Longos silêncios pontuam as frases que saem apertadinhas, com evidente má vontade. Depois que ela te manja e sente firmeza daí se abre, exibindo uma irreverente comunicatividade. Enquanto ela fuma um baseado, escarrapachada na única confortável cadeira de plástico da bodega, eu sentada num banco sem encosto provo e gosto da cachaça feita com um tipo de tubérculo chamado jalapa, daí a origem do nome da região. Abenita agora mais generosa com as informações revela que há as jalapas de cerrado e as de vereda. Mas não me dá mole quanto peço que explique a diferença como se explicar o óbvio fosse um pé no saco. O almoço preparado por ela no fogão a lenha é simples e saboroso: arroz, feijão e galinha. Pra nossa surpresa, o carro de Douglas estraga bem na hora que estamos saindo pra ver as dunas. Proponho que peçamos carona aos carros que passam na portaria do parque mas ele prefere ficar fuçando no veículo. Consigo que uma caminhonete pilotada por um guia e um casal de turistas paulistanos me leve até as dunas. São 5 km de puro arenal. Vejo 2 carros atolados embora sejam caminhonetes 4x4 o que confirma a máxima de que não adianta nada ter carro traçado se o motorista não manja como dirigir nesse tipo de terreno. A coloração amarelo-rosada das dunas realçada que está pelo pôr do sol é realmente deslumbrante. Dali de cima dá pra ver toda a serra do Espírito Santo, desde o morro do Sacatrapo ao sul até a última ponta do maciço ao norte. O que tem de gente no cocuruto das dunas me tira o tesão, porque se torna difícil tirar fotos ou filmar em ter bandos de criaturas ou tirando selfies adoidadas ou fotografando uns aos outros. O que menos fazem é curtir o belo espetáculo da caída do sol tingindo de dourado o lugar. Muita falação e pouca contemplação. Acho que tô ficando levemente misantropa, cada vez gosto menos de ajuntamentos humanos. Quando retorno, encontro Douglas embaixo do carro tendo já desmontado o tanque de gasolina, segundo ele o provável causador da pane veicular. Ao redor, alguns curiosos olham o gringo naquela fuçação, sem nada dizer. Pernoitamos, então, na Abenita armando nossas redes entre as árvores no terreiro atrás da casa. Sábado de manhã, o mecânico Elias vem de moto de Mateiros pra ver o que tá rolando com o carro do Douglas. Enquanto os dois se entretêm com o carro (homens...homens e seus brinquedinhos!), eu converso com Abenita que muito bem humorada enrola um charo de maconha. Desconfio que tá de olho no jovem guarda-parque que mora na frente de sua casa. Quando ele passa por ela, Abenita solta uivos (de loba?!) como se avisasse que está no cio. Conta que as 2 filhas vivem em Mateiros. Uma lhe deu 3 netos, a outra, solteira, mora na casa por ela alugada na cidade. Se gaba do namorado de 27 anos (ela tem 51), um desgosto pra filha, o que ela não dá a mínima. “Hoje vou pra rua (cidade) dançar forró porque se deixo o sujeito muito solto, ele se engancha noutra”, declara entre uma baforada e outra do baseado. Moram com Abenita 2 sobrinhos, o Robermario e o Ricardo. No seu entendimento, o 1º é sonso demais, o 2º mulherengo. Pois não é que este guri fica me lançando uns olhares compridos quando passo por ele?! Este Jalapão tá fazendo muito bem pro meu ego, valha-me deus! O céu sem nuvens embora soprem fortes rajadas que levantam polvadeiras de terra avermelhada. E uma quizomba agita o recinto. Tudo porque Robermario não acha seu cartão de memória, desconfiando que tenha sido levado por 2 sujeitos que pararam no bar pra beber cerveja. Roga praga pros 2, desejando que morram antes de chegarem a Ponte Alta. Após procura ali, procura acolá, ele enfim acha (até eu ajudei na busca do tal cartão), e Abenita recomenda-lhe que retire a praga, no que ele virtuosamente responde “já retirei”. Mas a diversão é infindável na casa de Abenita. Lá pelas tantas, tia e sobrinhos conversam sobre tamanho de pênis. Desde que eram pequenos, comenta ela, percebeu o bom tamanho das genitálias dos parentes. Ela, Abenita, não curte muito, não, pau grande. Ricardo, o mais quieto, não fala muito sobre o assunto (será recato? pra me olhar de cantinho, até que não!!), já Robermario ensina que tem de tratar com amor, que daí a mulher vai gostar, sim! Que família!! Finalmente, conseguiram o mecânico mais Douglas fazer o carro funcionar. Deixamos Abenita pra trás e pegamos o rumo de Mateiros onde damos um rolê na cidade onde não há nada interessante a não ser uma rua principal cujas placas indicam que se está perto tanto das divisas da Bahia quanto do Piauí. O único atrativo da feia cidadela é o Paraíso, a sorveteria onde são vendidos deliciosos picolés feitos com frutos do cerrado. Pernoitamos Na Beira da Mata, pousada e camping a uns 5 km da cidade, preferindo entretanto amarrar as redes nas árvores do grande jardim. Depois de 6 dias sem internet, aleluia, a pousada tem wifi, se bem que não muito bom. Enfim, é o que se tem e consigo postar algumas fotos no Facebook dos dias anteriores. Domingo, saímos de Mateiros após comermos o bom café incluso na diária do camping. Pegamos a estrada pra São Felix distante 80 km. Dobramos à esquerda numa estrada que vai a Mumbuca, vilarejo distante da estrada principal 10 km. O antigo quilombola resume-se a 10 casas de adobe, uma igrejinha branca e azul mais uma casa de artesanato onde são vendidos artefatos feitos com capim dourado. Nada me encanta, tanto que só compro uma tiara, mais pra ajudar a comunidade. Vejo uma sorveteria na frente da praça e vou até lá onde peço um picolé de buriti, uma das minhas frutas preferidas do cerrado. Lá mora Mauricio, compositor e tocador de viola de buriti. Ele dedilha algumas canções no belo som emanado do tosco instrumento. Indago se tem CD e ele traz alguns. Compro um sem hesitar! Dali vamos até a praia do Mumbuca banhada pelo rio Sono, uma delícia de lugar cujo dono é o pastor evangélico Tocha. Como é cedo, nem ½ ainda, tomamos banho e fazemos sandus que comemos à beira do rio. Terminando o frugal almoço, continuamos a trip, entrando noutra estrada que acaba no lugar chamado Encontro das Águas, assim chamado porque aqui se juntam os rios Sono e Formiga. Há um fervedouro, pequeno poço de águas cristalinas que impedem a criatura de afundar devido à pressão exercida pela água que jorra do lençol freático. Embora límpidas as águas, saio com 250 g de areia nos fundilhos do biquíni. Vamos então tirar a areia onde os rios se encontram a 200 metros dali. O rio Formiga de águas esverdeadas é calmo mas o Sono, contrariando seu nome, mostra-se bem agitadinho. Como ali não tem onde acampar seguimos até o fervedouro do Buritizinho, uma área de camping, contando com espaçoso alpendre e fogão a lenha, ao lado do rio Formiga. Está vazio porque a alta temporada ainda não começou. O fervedouro é muito lindo, uma poça de água azulada rodeada por bananeiras. Gosto muito mais deste do que o anterior porque não tem aquele alvoroço de areia entrando biquíni adentro. No Buritizinho cabem apenas 6 pessoas por vez, sendo que o tempo de permanência na alta temporada é de 20 minutos, chegando a ter fila de espera....que horror!! De que boa nos livramos vindo nesta época do ano!! Os donos de fervedouros são geralmente negros, pobres até o momento de começarem a explorá-los. Este faz 6 anos que foi aberto ao público e as terras pertencem à família de Artun desde o tempo que os negros fugiram das mãos perversas dos fazendeiros. Sua mulher, Marilene, 38 anos, tem 7 filhos, e no parto da mais moça fez laqueadura. A filha mais velha com 21 anos faz faculdade de Biologia à distância em Mateiros. Fazemos uma comidinha gostosa a quatro mãos eu e Douglas no fogão a lenha: galinha com batata doce assada. As redes são armadas no interior do alpendre o que foi bom porque choveu a noite inteira. A segunda-feira amanhece linda com raras nuvens no céu, e continuamos a viagem até São Felix do Tocantins, distante 50 km. A estrada se comparada às outras é “ótima”. Percebo que esta zona do Jalapão é mais habitada tanto que há algumas construções à beira da estrada, destacando-se pela singeleza um ranchinho feito de folhas de buriti com 2 redes feitas do mesmo material. Mais adiante, uma casinha de adobe chama minha atenção. Paro e antes de fotografar pergunto ao jovem que está entrando pelo portão se posso fotografá-la. Ele aponta a senhora vestida de preto com um terço branco fazendo de colar. Dirijo-me a ela e peço sua permissão. A velhinha reclama que não há respeito algum porque as fotos são tiradas às escondidas e nenhum retorno advém disso. Aborrecida acrescenta que há pessoas que fazem mal uso das fotos. Se for pro bem, ressalva ela, não se incomoda. Soube inclusive que uma delas já foi parar em Araguaína, veja só. Depois duns 10 minutos de conversê ela consente que fotografe a residência. Pergunto seu nome, Alzira e, na despedida, peço pra lhe dar um abraço. Contentes as 2 nos despedimos como boas amigas. Pena que não dei conta de fotografá-la também!! São Felix é bem mais ajeitada que Mateiros, contando com uma praça arborizada, bancos, quiosque e uma igreja. Paramos pra almoçar, estacionando o carro em frente do tal quiosque. E o carro pifa outra vez. Sorte que é na cidade e não no meio do mato. Conversa dali conversa daqui com uns homens que estão fazendo um churrasco na praça, descubro a existência dum mecânico (banco a tradutora do Douglas porque se seu espanhol com forte acento ingês é difícil de entender pior ainda sua canhestra tentativa de falar português). Um dos homens pega sua moto e vai até casa do mecânico de nome Índio chamá-lo. Exceto pelos homens assando a carne na praça, não há quase movimento nas ruas. A condição de cidade-fantasma se deve ao ponto facultativo decretado pelo precavido prefeito, ciente que os efeitos do tragoléu tomado no dia anterior, na comemoração do dia das mães, iria deixar 80% da cidade de ressaca. A cidade permanece quase vazia até o final da tarde, o que confirma a intensidade da bebedeira. Um sol de rachar e a internete nem pega, um tédio só. Quando vou dar uma caminhada pra me entreter, vejo 4 homens esparramados em colchões, dormindo ao lado da igreja onde há sombra. Estamos há mais de 3 horas parados na praça debaixo dum baita calor com um carro de som aos berros irradiando canções sertanejas cujos versos entoam baboseiras como “menina da aldeia, pegava sua mochila só pra vê-la chorar” ou então “lembro dos dias que erámos crianças pensando que a vida era favo de mel”. Bueno, o conserto do carro durou do ½ dia até às 5 da tarde. O problema continua a ser a tal bomba da gasolina. Índio a trocou por uma dum Audi que nas suas palavras vai dar muito bem conta do recado. Cobra uma boa grana de Douglas que paga sem chiar. Índio, sujeito generoso, vai até o armazém em frente e traz 2 cervas pro Douglas e uma guaraná pra mim hahahaha. Vamos até um super e lá compramos algo pra cozinhar, ou melhor, Douglas porque é ele quem se encarrega de fazer almoços, jantas e desjejuns. Eu lavo louça e faço caipirinhas que ele bebe avidamente. Como os gringos gostam desta nossa bebidinha! Acampamos no balneário na praia do Alecrim a 2 km da cidade às margens do rio Sono nesta parte mais tranquilo. Choveu durante a madrugada de terça-feira e tivemos de sair das redes e montar a barraca. No que terminamos, a chuva parou...tsktsktsk. No retorno a Palmas, passamos pela Catedral, um impressionante monolito rochoso, que pertence ao dono do Eco Lodge, um empreendimento não só turístico mas visando à preservação ambiental. Almoçamos lá enquanto conversamos com José Raimundo que trabalha no lugar. As estradas de chão batido no Jalapão são horríveis salvo a que liga São Felix a Novo Acordo. Daí em diante, 100 km de asfalto até Palmas embora o trecho entre Santa Teresa do Tocantins e a capital esteja horrível, cheio de buracos-crateras. Ficamos 2 dias em Palmas de modo Douglas consiga encontrar e comprar a tal bomba do tanque de gasolina. Aproveito a quarta-feira pra dar altos rolês de bici e conheço assim o belo memorial feito por Niemayer em homenagem aos 18 do Forte. Retorno a Luzimangues, atravessando mais uma vez a ponte Fernando Henrique Cardoso sobre o rio Tocantins e provo o melhor pastel da minha vida no food truck estacionado num recanto arborizado ao lado da bela avenida JK. Há até redário pro cliente descansar! E a coisa não pára por aqui não, amanhã seguimos pro Maranhão a fim de conhecer a Chapada das Mesas, um dos sítios que está há muito na minha lista de desejos!!

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Abraçasso no Brasil: Região Norte - Jalapão - Num Paraíso de Fazenda

Pra variar chego novamente à noite em Palmas dirigindo desde Alto Paraíso de Goiás. Acontece que gosto de parar pra fotografar e filmar, bater papo com os nativos, comer e, claro, fazer xixi. Estou aprendendo a não ter pressa em chegar. Douglas, sessentão, radicado há anos na Venezuela onde tem uma agência de turismo de aventura, me aguarda num restaurante na esquina do hotel onde está hospedado. Conheci o bem humorado britânico (como faz questão de frisar), em São Jorge, acampado no mesmo Canto da Coruja onde eu também ficara. Descobrimos conversa vai, conversa vem, que estivéramos tanto no Nepal quanto no Paquistão e aí então a conversa fluiu mais animada ainda. Ele como eu está viajando de carro pela América do Sul tendo já percorrido 35 mil km. Genuinamente aventureiro, foi dono de escola de inglês em Caracas, enchendo o saco de estar preso entre 4 paredes e começou a fazer guiadas a serviço de agências inglesas em especial pra monte Roraima e Auyantepui. Quando lhe proponho que viajemos juntos em sua caminhonete pro Jalapão e dividamos o combustível, topa sem hesitações. Too nice tratar com gente descolada . Combinamos partir na segunda. Gosto de cara de Palmas, cidade construída à semelhança de Brasília e com população de apenas 300 mil almas!! O tráfego de carros é super calmo porque a cidade não está atulhada de gente! À tarde, lá pelas 16 horas, aproveitando que refrescou um pouco já que Palmas é deveras quente, embora eu adore cidades-fornos, aproveito o restante do domingão e dou uma pedalada até Luzimangues cruzando a ponte sobre o Tocantins. Num trecho protegido por redes de arame devido à existência de piranhas, tomo banho nas águas mornas do rio, após o pedal porque fiquei com o rosto cheio de teias de aranhas devido ao matagal que cresce na passarela de pedestres ao longo da ponte. Como o pedal não foi suficiente pra minha sede de atividade física, alugo um caiaque remando nas águas calmas e sem vento do rio, com o sol se pondo num entardecer sedosamente avermelhado....lindão demais! As barcas turísticas com seus tombadilhos iluminados por luzinhas coloridas donde ecoam músicas com uma pegada de carimbó, retornam à praia da Graciosa trazendo uma galera super animada depois dos passeios na outra margem do rio. Numa das barcas, com palmeiras no convés, uma banda toca ao vivo fazendo as pessoas dançarem animadíssimas alegres músicas bregas. Jet skis seguem atrás.....tudo muuiiitooo divertido! Dá vontade de seguir no caiaque dançando também hahaha. Saímos de Palmas às 10 rumo ao Jalapão uhuuu há tempos na minha mira!! Escolhemos entrar por Ponte Alta (pode-se entrar também por Mateiros ou São Felix do Tocantins) onde paramos pra comprar mantimentos no armazém da cidadezinha, passando antes por Santa Teresa de Tocantins. Entre essas duas cidades, em um bom trecho da rodovia, o asfalto quase inexistente expõe enormes buracos exigindo que se dirija prudentemente despacito. A agradável descoberta do pequeno canyon do Sussuapara um pouco depois de Ponte Alta já é um prenúncio dos belos cenários que viremos a conhecer no decorrer dos 9 dias que passaremos no Jalapão. Poderíamos ter chegado na fazenda que pertenceu a Pablo Escobar bem antes das 18 mas Douglas teimou em seguir por uma estradinha que deu em lugar algum embora eu tenha avisado que a estrada era outra. Homens sempre acham que sabem mais que mulheres em questão de navegação, ainda mais esse que se gaba de se qualificar guia (acho que o ascendente dele é leão hahahaha!). Na propriedade do famoso traficante, foram construídas várias casas de alvenaria ainda em bom estado (devem ter sido construídas na década de 80), algumas exibindo requintes como portas francesas e enormes vasos enfeitando seu exterior. O lugar onde armamos nossas redes, uma grande varanda com balcões e pias conduz a um corredor com vários quartos em ambos os lados, todos com banheiro e espera de ar condicionado. O céu sem nuvens, estreladíssimo, um colírio pros olhos quando acordo às 2:30 pra fazer xixi. Embora já minguante a lua ilumina perfeitamente o terreiro em frente à construção onde estamos instalados. Na terça pedalo da fazenda até à cachoeira da Velha enquanto Douglas segue em sua caminhonete. Recém terminada a época das chuvas, que se iniciou em outubro, rios e cachus estão bombando como a esfuziante cachoeira da Velha. A cachu, espetacular, apresenta 2 saltos e dali pode se fazer raft que nesta época do ano é nível 4 neste trecho do rio Novo. Guilherme, Sara e Rafael que se encontram lá trabalham com turismo no Jalapão e dão boas dicas pra nós. Da Velha se vê a serra do Jalapinha, uma pequena extensão de planalto com o topo achatado que lembra os tepuis venezuelanos. Até hoje salvo os quilombolas, ninguém se arriscou a subir até o cume porque o acesso é difícil devido às veredas de buriti. Há outras serras com formatos similares à do Jalapinha sobressaindo na paisagem do Jalapão onde savanas, matas ciliares e cerrado se alternam. O céu é coalhado por gordas e brancas nuvens que vez por outra lançam sombras aliviando um tantinho o forte calor tropical da região. As estradas de chão batido são verdadeiros testes pros motoristas e carros, que têm de ser 4x4, traçados como são chamados aqui tais veículos. Quando não são esburacadas com enormes valas mostram-se verdadeiros arenales. Imagina só elas na época das chuvas, o lamaçal que não devem ser, atolando carro a 3 por 4! Sorte minha que vim no carro de Douglas porque no meu talvez não tivesse dado conta. Minha habilidade na direção é limitada nesse tipo de terreno. Da Velha vamos até a Prainha onde tomamos um refrescante banho no rio Novo. O calor é maravilhooosoooo.....bafão demais, coisa boa!! Quando saímos dali, Douglas começa a passar mal. Obrigado a parar o carro amiúde pra vomitar, o coitado ainda pede desculpas pelo transtorno! Estou um pouco aflita, proponho inclusive voltarmos pra Palmas mas ele se recusa embora seja evidente que está passando mal. Pra nossa sorte, vemos na estrada uma tabuleta de madeira indicando um camping a 9 km. Embarafustamos na arenosa trilha e assim chegamos no lugar, um verdadeiro paraíso. Os donos não se encontram o que não nos impede de armamos nossas redes. O homem cai que nem um saco de batatas, esgotado de tanto vomitar. Antes de jantar, tomo um banho no rio Novo. Aos 2 dogues que aqui se encontram, mansos e super sociais, dou os ossos da galinha que usei no preparo da canja pro pobre enfermo. Não dá outra, os 2 não me largam mais, dormindo ao lado da rede, como autênticos guarda-costas! Já deitada, escuto um barulho metálico e levanto assustada. Pra minha surpresa, é um dos cachorros tentando furtar da panela a canja! Durmo embalada pelo delicioso rumorejar das pequenas corredeiras do rio Novo que corre a 20 metros donde estou deitada. Aliás é um rio de forte correnteza e não dá pra se arriscar muito além de sua margem. À noite faz uma friaca respeitável tanto que apelo pro meu saco de dormir porque só com a canga que faço de lençol não deu pra aguentar. Na quarta achamos melhor aqui permanecer porque Douglas continua ruinzinho; me conta acabrunhado que vomitara durante a noite. Do outro lado do rio Novo, as terras pertencem ao Parque Estadual do >Jalapão onde brilham ao sol as areias douradas de pequenas praias. O trinar dos pássaros é constante. Agora mesmo um beija-flor veio me visitar, me olha enquanto bate suas asas naquele ritmo frenético e depois se vai. Uma preguiça gostosa toma conta de meu corpo. Quando não estou na rede lendo, estou no rio me refrescando e assim o dia vai findando sem eu sentir. À tardinha, chega o casal proprietário da terra, Antonio e Milma. Lá pelas tantas depois das apresentações ele pergunta pro Douglas “já parou com a vomitação?”. O casal é goiano, ela do signo de touro, ele, de aquário. Convidam apenas eu pra jantar. Douglas foi obrigado por Milma a comer mingau de fubá por ela preparado, que o coitado detestou. Escondido, deu pros cachorros a paçoca devorada em 10 segundos hahahaha. Assim, na sala-cozinha-copa- despensa, nós 3 de pratos nas mãos comemos uma delícia de comida caseira, feita por ele já que Milma tem problema no braço em decorrência duma fratura no ombro. Durante a refeição cada um se auto-elogia e tasca a falar mal um do outro. Enquanto ele tece loas às qualidades de seu signo, ela faz sinais para mim denunciando que o marido é dinheirista embora ele alegue que não é materialista, tanto que só lê livros sagrados. Indago se é a bíblia, ele diz que são os espíritas, hahahaha. Milma me ensina a ser esperta com os homens. Assegura que traz o seu no cabresto, inclusive com tornozeleira. “Mas ele não sabe disso, né?” pergunto eu. “Nem sonha, sou muito esperta, inteligente, observadora, os olhos bem abertos. Tem de se tratá-los assim com rigor, eles são muito sem-vergonhas. Esse come na minha mão”, revela Milma. Na quinta, Antonio me leva até a palhoça-restaurante com a desculpa de me oferecer uma prova de cachaça com murici. Na verdade, quer me contar que tivera uma namorada antes de casar, a melhor mulher com quem já transara (isso depois de ter sabido que eu como ela sou de escorpião, signo - pobre signo!! - que carrega um estigma de sexualidade insaciável....eu hein!!). Acrescenta, pra ver se eu me enterneço (hahahaha, engraçadinho demais esse senhor!), que Milma não é carinhosa, quando quer sexo se faz de bruta, sem finesse alguma, aponta pra ele e diz na lata, “quero transar”. Mas ele – tsk tsk tsk, não! - é sujeito muito carinhoso, sabe fazer dengos numa mulher (tô me contendo pra não cair na gargalhada diante da cantada do velhote que apesar de seus 77 anos se mantém em boa forma). As feministas que me perdoem mas não consigo ficar indignada. Aceito na boa a canhestra cantada de Antonio, que de certa forma me deixa envaidecida....bom se sentir desejada, não é mesmo? Fico sabendo por Milma depois de ter dormido na rede distante 200 m da de Douglas (além de estar doente como o homem poderia me acudir se tão longe de mim, né?) que as onças não fazem barulho algum, nem quando andam sobre folhas secas....putz, bem melhor ter passado sem essa...santa protetora é a ignorância! Como é imperioso ter cachorros nessa região porque dão aviso quando se aproximam predadores, Antonio trouxe mais um dogue. O baita animal, de pé, tem meu tamanho: 1.53 m, ao contrário dos outros dois, uns nanicos. Esse sim ombreia com uma onça, sô! Dorme à noite embaixo da minha rede não sem antes fazer aquela folia com os nanicos. É novinho, bruto e afetuoso. Hoje, quinta-feira permanecemos aqui embora Douglas já esteja recuperado de sua intoxicação alimentar. Dou uma banda até a belíssima praia da Carioca também pertencente a Antonio e vejo na areia fofa e branquinha diversas marcas de patas de animais, podendo inclusive que alguma seja de onça. Bah! como gostaria de ver uma onça pintada, estes belíssimos gatões selvagens. Na sexta quando estamos indo embora, Milma muda o discurso e declara que o marido é o esteio de sua vida, que teme que ele morra antes dela porque sabe que os filhos não vão cuidá-la. Ele, que está escutando, manifesta a mesma preocupação em relação à mulher. O curioso é que na hora do pega pra capar eles se protegem....que dupla!

domingo, 15 de abril de 2018

Abraçasso no Brasil: Região Centro-Oeste

Quando resolvi fazer a viagem de carro por algumas regiões do Brasil bem que eu gostaria de ter saído sem lenço e sem documento como canta Caetano em Alegria Alegria, mas não rola, né?! Então levo lenços umedecidos, bem úteis em certas circunstâncias. Há muito tempo eu vinha planejando essa trip pra conhecer certos lugares ícones do Brasil, guardando-os contudo pra quando me aposentasse. Foi assim que sem afobação deixei em banho-maria Jalapão, Chapada das Mesas, Lençóis Maranhenses e Serra da Capivara. E quando a tão aguardada aposentadoria estava iminente comecei a traçar qual seria meu itinerário, se iria pelo litoral ou se pelo centro-oeste. Decidi pela segunda alternativa, passando a chamar a trip de Abraçasso no Brasil. Pra minha satisfação, Osnilde, amiga desde os 11 anos quando nos conhecemos no 1º ano do ginásio (assim chamado o 6º ano do ensino fundamental) no Colégio Municipal Pelotense, resolve me acompanhar já que eu iria passar por Cuiabá e me hospedar na casa de seu filho Oswaldo. Decido então partir de Pelotas, não só porque ali mora Osnilde, como tenho no sábado um baita casamento, o de minha prima Thaís. Um dia após as bodas, domingo, melhor dia pra viajar impossível, eu e Osnilde, com uma caixa abarrotada de docinhos do casório, pegamos a estrada passando por Canguçu, Caçapava do Sul, Santa Maria, Cruz Alta, Palmeira das Missões dormindo então em Iraí.O pit stop, no pacato balneário termal, super arborizado, cujo atrativo são piscinas de águas termais, vem bem a calhar depois de eu ter dirigido 610 km. Tudo de bom relaxar nas cálidas águas da piscina do simpático hotel onde nos hospedamos. Dia seguinte após percorrer a curta extensão oeste de Santa Catarina cujas estradas cortam sinuosas e verdejantes serranias, entramos na paisagem aberta dos campos gerais paranaenses e dormimos em Mundo Novo no Mato Grosso do Sul, num hotelzinho bem legal de beira de estrada. O pôr do sol no rio Paraná, divisor natural entre os estados do Paraná e Mato Grosso do Sul, foi qualquer coisa de espetacular. A região oeste do Mato Grosso do Sul exibe boas rodovias e seu relevo plano, pontilhado por suaves ondulações, lembra um pouco os campos de cima da serra gaúchos. Não à toa, a gauchada foi pra lá plantar milho e soja! Na entrada das cidades, gigantescas estátuas homenageiam a fauna local. Somente quando se está chegando em Bonito desponta na paisagem uma linha de serranias. A badalada cidade, um dos principais pontos turísticos brasileiros, tem uma rua central com lojas e restaurantes e uma praça ostentando dentro dum lago duas baitas estátuas representando dois dourados, peixe de carne saborosíssima, abundantes nos rios da região. Durante os 2 dias que permanecemos em Bonito, fazemos flutuação nas águas absolutamente transparentes do rio Sucuri onde se visualizam nitidamente peixes como piraputangas, piracanjuba e corimba. Conhecemos também a caverna da Gruta Azul cuja escadaria com 320 degraus leva a salas donde pendem impressionantes estalactites. Vemos apenas duas espécies de aves: seriemas, típicas da região do cerrado, e uma família de mutuns de penacho. Consigo até praticar atividades esportivas durante a breve estadia na cidade: no balneário da Figueira, remo tanto num caiaque como numa prancha de stand up e pedalo um pouco na ciclovia que liga a cidade ao balneário municipal. Claro está que não deixamos de provar, no restaurante da Juanita, o regionalíssimo pacu na brasa acompanhado por batatinhas, brócolis, pirão, arroz e farofa de banana da terra. De lamber os beiços. Durante o almoço, Germano, um virtuose da harpa paraguaia, toca desde guarânias a rock'n roll. No nosso entendimento, meu e de Osnilde, Bonito não foi toda aquela maravilha que cantam em verso e prosa as reportagens sobre turismo porém nos brindou com belos pores do sol, de fazer eu parar o carro pra apreciá-los! Bueno, de Bonito a Cuiabá o “mardito” GPS do carro me deu um balão e fiz desnecessariamente 300 km a mais percorrendo 1.100 km. Até por estrada de chão batido rodamos eu e Osnilde!! Após 15 horas de viagem, beirando as 22 horas, chegamos na capital do Mato Grosso....ufa!! Com população em torno de 600 mil habitantes, Cuiabá impressiona pela imponência de seus altíssimos arranha-céus e largas avenidas. O parque Mãe Bonifácio tem 77 ha exibindo vegetação e fauna típicas do cerrado com várias trilhas para prática de atividades esportivas. Osnilde que viveu em Cuiabá 30 anos me leva sábado pra passear na orla do porto do rio Cuiabá onde há reproduções dos antigos casarios que ali existiram no início do século XX. Domingo, seu filho mais velho, Oswaldinho, meu afilhado espiritual, nos leva pra almoçar em Bom Sucesso, comunidade ribeirinha do rio Cuiabá. O almoço, supimpa, é recheado de comida regional como ventrecha de pacu (costela do peixe), mujica de pintado (tipo de moqueca com aipim), salada temperada com coentro (delícia), arroz e farofa de banana da terra. De sobremesa, Oswaldinho compra cocadas moles dum senhorzinho que vende os doces de mesa em mesa. São deliciosas. Fico de sexta a terça em Cuiabá quando então retomo a viagem agora sozinha. Osnilde fica mais alguns dias desfrutando da companhia de seus filhos (tem 4, todos homens), retornando de avião pra Pelotas. Resolvo rever a Chapada dos Guimarães, onde estive em 2005. Foi minha primeira visão do cerrado brasileiro e aqui começou um sério caso de amor por essa "exuberante” vegetação. A visão dos colossais paredões de arenito avermelhado quando se está indo pra Chapada é impactante. Distante 60 km de Cuiabá, a pequena e charmosa cidade, exibe a linda igreja de Nossa Senhora de Sant'Ana do Santíssimo Sacramento, datada do século XVIII, localizada na praça central onde em seu entorno há barzinhos, restaurantes e lojinhas de artesanato vendendo produtos indígenas. A tranquilidade da Chapada dos Guimarães e seu clima agradável faz da cidade um ponto muito procurado pelos acalorados cuiabenses. Provo dos deliciosos picolés da Delícias do Cerrado feitos com frutas do cerrado como bocaiúva, pequi, gabiroba, jatobá, araticum entre outras. Dia seguinte, cedinho pedalo na ciclovia até o mirante geodésico e depois de carro vou até o Parque Nacional da Chapada dos Guimarães onde faço um pequeno trek até as cachus Cachoeirinha, dos Namorados e Véu de Noiva. Terminado o curto passeio pego a estrada. Entre Primavera do Leste e Barra do Garças, há dezenas e dezenas de placas sinalizando a entrada e saída de aldeias indígenas. Não é conveniente parar por qualquer motivo nessa >região porque os índios são dados a assaltar os desavisados. Almoço rapidinho de tapioca com carne seca e creme de pequi comido à beira da BR 070. Barra do Garças onde pernoito situa-se aos pés da serra Azul, banhada pelo rio Araguaia e conta com piscinas de águas quentes. As plantações de milho pontuam ambos os lados das rodovias desde o Mato Grosso do Sul até Goiás arrasando com boa parte do cerrado. Fazer o quê, né? O povo tem de comer. Já em Goiás, observo que a paisagem goiana pontilhada de serras é bem diferente da do MS e MT. De Goiânia, só vejo o perfil dos milhares de arranha-céus riscando o céu do cerrado e chego em Brasília sob forte chuvaral às 21 horas. Não tenho conseguido evitar de chegar à noite nas cidades, o que não gosto muito: a um, porque a visão < noturna te prega peças e, a dois, porque por cautela procuro não correr muito. Estou contentíssima de estar mais uma vez na capital federal. Curto demais seu ar cosmopolita. A babel de idiomas que se ouve aqui e acolá, os grandes espaços ajardinados, as largas avenidas e ruas ligadas por rotatórias dispensando quase que inteiramente semáforos mais a prática disposição do setor comercial diante dos blocos residenciais faz de Brasília fodástica. Minha decisão de incluir a capital federal em meu roteiro deveu-se a um desejo de resgatar uma parte da família paterna que meu pai apreciava demais que aqui vive: o casal de primos Jorge Otávio e Sonia a quem não via há muitos e muitos anos. Os dois fofos velhinhos, na casa dos oitenta e tantos anos, abriram a porta de sua casa com a gentileza que bem caracteriza a família Armando. Não cheguei à conclusão se Jorge Otavio é um rabujento < light ou se finge sê-lo. Mesmo se assim for, lhe assenta bem esse viés ranzinza porque levíssimamente leve; ela, uma pequena e delicada mulher, exibe curtos cabelos brancos emoldurando o rosto onde brilham discretos olhos azuis. Embora tenham sido breves os dias que lá fiquei, saio renovada da convivência, devido à alta energia recebida em forma de carinho e cuidados que me dispensaram. Revejo ainda Marcia Veronica com quem pedalara há muitos anos no vale dos vinhedos na região da serra gaúcha. Tomamos um café da manhã na cafeteria Franz repleta de delícias engordantes. Após o encontro, me mando pra Chapada dos Veadeiros, parando à beira da GO 118 pra comprar outras gostosuras calóricas como curau, empadão goiano, pamonha de queijo com pequi e cocada preta mole. Quando passo por São Gabriel de Goiás, dou carona pra uma moça e seu filhinho de colo. Ela uma morena bonita, com o contorno dos olhos pintados de escuro, é de poucas falas porém educada. Deduzo que se mostra um pouco intimidada, por que não sei. Afinal sou mulher como ela. Depois de dobrar à esquerda na GO 239 rumo a São Jorge, onde vou ficar alguns dias pra me encontrar com a ala jovem da família Armando, os primos Luciano e Clarissa, que lá já se encontram pra curtir o feriadão de 1º de maio, meu carro pifa. Sem sinal de celular pra chamar o resgate disponibilizado pela seguradora, a sorte é que carrego, num suporte acoplado na traseira da caminhonete, a chinfrim verde amarela, a primeira bicicleta por mim adquirida quando resolvi pedalar há coisa de 7 anos atrás. Abandono assim o carro no acostamento e com ela me toco pra São Jorge. Nunca mais vou viajar sem levar a bici no carro, por deus, é uma mão na roda!! Localizados os primos que estão acampados no Canto da Coruja cujos donos, Kelly, egressa do MST, e Cristian, são completamente voltados pro lance de preservação ambiental, monto minha barraca no terreiro da pousada. Super agradável os 4 dias que lá me arrancho. No domingo, assisto com Clarissa e seu namorado a aulas de percussão e dança dadas por um pessoal da Guiné Conacri no Centro Cultural Cavaleiro de Jorge, noutro dia Kelly me convida pra ir de Kombi com ela e a família até o Paraíso das Águas, distante 25 km de São Jorge banhado pelo rio São Joaquim. Lá comemos no singelo restaurante cuja dona faz deliciosa refeição: galinha caipira com açafrão e coentro acompanhada por angu de milho, quiabo salteado na manteiga, arroz, feijão e salada. Como estou com meu ciático super dolorido de tanto ficar sentada dirigindo, na terça faço um singelo passeio ao Raizama de bici, uma beleza de canyon cortado pelo rio São Miguel cujas cachus estão super bombadas porque a temporada de chuva recém está acabando. A bela serra de São Miguel pode ser vista durante todo o pedal. A trilha que leva ao canyon exibe mimosas, sennas e sempre vivas além de milhares de árvores típicas do cerrado. Retorno na quarta a Brasília, eu na cabine com o motora do caminhão e bem amarrado na carroceria a caminhonete, sendo ambos conduzidos até a concessionária pra averiguar que defeito tem afinal a Pajero (foram as velas que pifaram, segundo os mecânicos, porque de motor de veículos entendo bulhufas!). Aproveito e vou ao hospital Home levada pelo meu primo Jorge Otavio onde sou super bem atendida, confirmando o ortopedista o que eu já suspeitava: o ciático se ressentiu e voltou a me incomodar às ganhas. Devidamente medicada posso pegar novamente a estrada o que faço no dia seguinte, aproveitando mais uma vez a amável hospitalidade dos queridos primos Jorge Otavio e Sonia. Passo por Alto Paraíso e já estou a uns 5 km da cidadezinha quando resolvo voltar e procurar Marcela a quem conheci quando aqui estive há 11 anos atrás. Encontro a esfuziante guria saindo de casa. Ela vibra quando me reconhece embora me chame de Estela até que eu a corrija hahahaha. Ao saber que estou de passagem, só pra lhe dar um abraço se indigna e lasca “nem deveria então ter vindo, assim não vale”. Com tal afetuosa pressão não resisto e cedo ao seu apelo passando a noite em sua bela casa de madeira construída por Misael, seu companheiro. O plano é na sexta rumar então pra Terra Ronca. Mas quando sei que rolará uma janta a que Pacheco e Andreza comparecerão (ele foi meu guia nas duas vezes em que estive em Veadeiros, nos idos de 2007), não me faço de besta e me convido pra ficar. Como resistir às iguarias feitas pelo bruxo da culinária que é Misael e ao prazer de reencontrar o casal Pacheco e Andreza de quem guardo boas recordações, sem falar na energética companhia de Marcela?!! Comemos um risoto de funghi delicioso com vagens salteadas e confit de tomate cereja, tudo regado a vinho e caipirinha. Sábado retomo a viagem decidindo entretanto desistir de Terra Ronca porque a estrada de chão batido que dá acesso ao parque está detonadíssima. Temo que os sacolejos piorem o ciático recém começando a melhorar. Vou então direto a Palmas. De um modo geral, as rodovias por onde tenho andado são boas mas quando são ruins são terríveis, com buracos que mais se assemelham a crateras. A paisagem de Alto Paraíso até Teresina de Goiás é deslumbrante com uma serrania verdosa em ambos os lados da GO 118. Uma bela surpresa me aguarda ao atravessar a ponte sobre o rio Paranã: no lado esquerdo, a serra do Kalunga e à direita, a do Arapuá, nomes fornecidos por um simpático senhorzinho sentado diante duma casa a algumas centenas de metros além da ponte. Deixo então o centro-oeste, ingressando no estado do Tocantins. Ao longo da TO 050, gigantescas pedras exsurgem das matas como se fossem os ossos da própria terra. Emocionadíssima em estar na região norte...sozinha...de carro!!

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Conhecendo a selva nepalesa

01/05/2017 a 04/05/2017 – 2ª a 5ª feira - Chitwan
Curiosa por conhecer um Nepal pouco frequentado por montanhistas, galera que só quer saber de subir e descer montanhas, resolvo desfrutar os poucos dias que ainda tenho no Nepal, não em Pokhara. Por isso, me mando pro sul do país, pra Chitwan, distante 150 km. Dou adeus à adorável Pokhara e lá vou eu sacolejando 7 horas num daqueles desconfortáveis busões nepaleses, sem toalete, tudo pra visitar o Parque Nacional Chitwan. Considerado o mais antigo do Nepal, ocupa 932 km² de área e sua vegetação, tropical e subtropical, entremeia savanas e florestas. A jungle como eles dizem não se parece nem com nossa mata atlântica tampouco com a amazônica. Reduto de fauna e flora riquíssimas destacam-se 600 espécies de aves, macacos, 5 tipos de veados, crocodilos, rinocerontes, leopardos, tigres de bengala e elefantes. O clima nesta época do ano, primavera, é quente e úmido. Pago pelo pacote de 4 dias, com hotel, refeições, passeios e traslado Pokhara-Chitwan-Kathmandu 150 dólares. Acho o preço justo e o hotel embora nada luxuoso é confortável: meu quarto amplo com ar condicionado, tv de plasma e banheiro privativo, tem um lindo mosquiteiro cor de rosa sobre a cama. Entro pela parte leste do parque onde, à beira do rio Rapti, situa-se a vila de Sauraha cuja etnia local é a tharu. Apesar de suas águas cálidas e rasas, o Rapti não é confiável para banho devido aos crocodilos que vivem em suas margens, imóveis, se confundindo com a lama. Eu adoro essa incursão na selva nepalesa, porque até então só conhecia a região do Himalaia. Óbvio que não cai no meu gosto o tal safari num jeep com outros turistas. As 4 horas sacolejando no desconfortável veículo na tentativa de avistar animais são cansativas, e afora bandos assustadiços de veados tipo bambi, alguns macacos guinchando nos galhos das árvores e 3 rinocerontes, tudo meio encoberto ora pelo alto capim ora pelos galhos das árvores, nada mais excitante como um tigre de bengala (eu queria tanto ver esse gatão!) cruza nosso caminho. Já a pernada no meio da floresta, com todos em silêncio, de biquinho calado pra não afugentar os animais, curto bastante. Uma delícia também, no final da tarde, o passeio de canoa no rio cujas plantas aquáticas floridas colorem de lilás a superfície da água. Atrás das colinas de Someshwar, o sol se põe preguiçosamente deixando um rastro violáceo no horizonte. E um cheiro bom de erva-doce paira no ar exalado pela vegetação. Contudo, o ponto alto dos meus 3 dias em Sauraha, o fecho de ouro da minha estadia no Nepal é o passeio que faço no lombo do elefante levado por seu mahaut (treinador e cuidador) seguido dum banho no rio. Bem refestelada no dorso do paquiderme, ele, a uma ordem do mahaut, enche a tromba de água e a borrifa sobre mim. Dou gritinhos de pura felicidade, tal qual uma criança deslumbrada. Mas não pára por aí o prazer proporcionado por esse meigo animal. O modo como ele olha pra mim é impressionante: o pequeno olho ornado por ralos e longos cílios me encara, me inspeciona, profundamente, como se quisesse gravar minha fisionomia forever em sua retina!! Comprovo, assim, pessoalmente, a incrível capacidade de armazenar informações dos elefantes pela mirada raio-x com que fui agraciada. Agora, tenho a certeza de que ele sempre se lembrará de mim! Como eu dele! Namaste Nepal!! Danebad por tudo!!

sábado, 29 de abril de 2017

Casamento Hindu

25/04/2017 a 30/04/2017 – Terça-feira a Domingo - Pokhara
Pokhara, capital da região oeste do Nepal e a 200 km de Kathmandu, é a terceira cidade mais populosa do país, com mais ou menos 400.000 habitantes. Tem um próspero parque industrial fora da vista dos turistas que se aglomeram nas áreas turísticas de Damside e Lakeside onde há restaurantes, lojas e hotéis pra todos os gostos e bolsos. Retorno à Guest House North Star, porque gostei do ambiente familiar, em especial de Namrata e Mina, respectivamente, cunhada e mulher de Narayan, dono da pousada e da Trek Around Nepal, agência responsável pelos meus 2 treks. O preço convidativo de 10 dólares também influi na escolha. Dessa vez, Mina me acomoda numa suíte com dormitório, sala, cozinha e banheiro. Embora pertíssimo das agitadas ruas do Lakeside, a pousada fica numa tranquila rua, longe da zueira. Pra meu delírio, Mina me convida no meu último dia na cidade pra um autêntico casamento hindu duns amigos dela. A cerimônia religiosa dura 4 horas e eu enlouquecidamente fotografo e filmo tudo!! Pokhara tem temperatura agradabilíssima, calor durante o dia e, à noite, uma bem-vinda friagem por estar situada a 800 metros acima do nível do mar. Durante os 5 dias em que permaneço nesta agradável cidade cujos ares de balneário se devem a sua preciosa localização à beira do lago Fewa, estabeleço certos hábitos. Desfruto meu desjejum num café diante do lago em companhia de Silvia, a italiana que conhecera durante o trek do Everest, e Richard, um americano de ½ idade, aproveitando o dolce far niente dos aposentados. Lá permaneço o resto da manhã jogando conversa fora e curtindo o movimento dos nepaleses que passam de lá pra cá e de cá pra lá. Destacam-se entre as colegiais uniformizadas, os cabelos das meninas caprichosamente trançados e enfeitados com laçarotes de fita branca, o insistente vendedor de côco em fatias, as vendedoras de verduras carregando as mercadorias em cestos de palhas às costas, duas tibetanas sempre sorridentes oferecendo bijuterias que tiram das mochilas, mulheres com saris coloridos empunhando sombrinhas pra se protegerem do sol, enfim, um mundaréu de gente que caminha na avenida à beira do lago, e como não poderia deixar de ser, cachorros e vacas desfilam também diante de meus olhos encantados com tanto exotismo. Foram dias de céu limpo, sem vento, salvo dois dias de rápidas e fortes chuvas antecedidas por nervosas ventanias. No lago, barcos movidos a remo e a motor transportam não só turistas como nepaleses dum ponto a outro da cidade. Paraglidings colorem o céu balançando ao sabor das térmicas sobre o lago Fewa. Mulheres lavam roupa à beira do lago ao lado de homens que pescam. Não vejo nenhuma mulher dirigindo carro, mas em compensação são umas divas manejando suas scooters pelas ruas de Pokhara. Vontade deu de pedir pra dar uma banda com uma delas! Descubro a rua das bancas de frutas e de grelhados e lá me esbaldo, comprando suculentas mangas e maçãs além das deliciosas uvas sem sementes. Me torno fã de tandoori chicken acompanhada de espetinho de batatas assadas, levemente crocantes por fora. As comidas nepalesas são um capítulo à parte. Provo jery (doce frito feito com farinha de trigo) mas acho sem graça, adoro o panipuri (crocante casquinha de trigo recheada com pedacinhos de batata), mas não arrisco no patota chup (bolinho de batata empanado com farinha de trigo) porque não posso alimentar em demasia meu colesterol, contudo o chat (bolo salgado feito com feijão branco e batatas acompanhado de fatias de cebola, tempero verde, açúcar e mel) aprovo porque bem mais saudável. Embora fritura, não há como resistir à samoza (pastel cuja massa é feita com farinha de trigo e recheado com batata) que vai bem com uma cerva geladinha. E claro me esbaldo nos momos (trouxinha de farinha de trigo que pode ser frita ou no vapor, recheada com verduras ou galinha) que mergulho naquele picante molho de pimenta. À noite, as águas do lago refletem as luzes verdes, amarelas e vermelhas que enfeitam muitas das residências cujo estilo é pra lá de cafona, com colunas imitando troncos de árvores. Passear pelas ruas tanto de dia quanto à noite é uma tranquilidade. O máximo de assédio se manifesta na curiosidade de alguns nepaleses perguntando o inevitável "where are you from". Quando sabem, contentes com seu conhecimento sobre o Brasil, exclamam "football, Ronaldo, Pelé" e por aí vão citando nomes de jogadores que nem eu conheço. Uma cidade que exibe num restaurante a inscrição “being happy is a habit. Choice is yours!” só pode proporcionar bem estar, não é mesmo?

terça-feira, 25 de abril de 2017

Um Jardim Nepalês

23/04/2017 a 25/-4/2017 – Domingo a Terça-feira – 9º ao 11º Dia de Trek Annapurna BC – Jhinudanda – Landruk – Pothana – Kande - Pokhara
Saímos às 7:30 de Jhinudanda com tempo nublado que assim permanece até a Tibete Guest House, em New Bridge onde paramos prum chá. Viciada na combinação de limão com gengibre, peço esta deliciosa mistura. Como estamos retornando pelo mesmo caminho não há novidades ao longo da trilha. Minha atenção se prende então a pequenos detalhes: duas cascatas e densíssimas touceiras de samambaias em ambos os lados da trilha já que na ida nossa visão é monopolizada pela visão frontal dos monumentais Annapurna South e Hiunchuli. Um rebanho de cabras – como são lindos esses animalitos!! - descansa no gramado rente à estradinha enquanto os pastores, numa barraca improvisada com lona, comem algo. A pernada não dura nem 3 horas porque às 11 já estamos na pousada, em Landruk. Sua dona é alegre, rechonchuda e comunicativa ao contrário do marido, homem de poucas falas. Percebo que ela é hindu e casada pelo ponto vermelho pintado no meio de sua testa. Ela mesma prepara as refeições dos hóspedes e seu dal bhat acompanhado por 2 tipos de verduras, batata ao curry e casquinha feita com trigo é muito gostoso, talvez o melhor de toda a minha estadia no Nepal. Produtora de raksi, ela faz questão de mostrar seu alambique, explicando orgulhosamente todo o processo de fabricação. O tempo continua nublado e chuvisca vez por outra. No lado de lá do rio diversas vilas, uma delas com um monastério budista, espalham-se pelo flanco da montanha. A então fina garoa que caia, mansa e timidamente, vira chuva da grossa e pouca demora a espessa cerração encoberta toda a paisagem. O tamborilar da chuva no telhado de zinco ora mais pesado ora mais leve, o movimento de vai e vem dos galhos das árvores denunciando a força do vento, faz com que eu me congratule por estar abrigadinha neste lodge tão simples quanto acolhedor e não na trilha enfrentando tal intempérie. Assim como veio, a chuva e a cerração somem, como num passe de mágica. Restam apenas nuvens pairando em meio às encostas. Saio do refeitório onde estava até então, protegida do mau tempo, e começo a curtir o lindo jardim da pousada. Na frente da longa varanda onde os quartos estão voltados, vasos rentes ao chão e outros pendendo de ganchos do teto contêm variedade de flores de encher os olhos. Algumas existem no Brasil como cravinas, gerânios, brincos de princesa e begônias. Outras, entretanto, nunca vira antes. Os nepaleses adoram flores motivo por que é muito raro as casas não terem vasos de flores diante de suas fachadas. Convido Bishow pruma rodada de raksi e Nurbu pra comer pipocas. Meu adorável guia, que exala pura gentileza, liga o rádio do celular numa estação de música nepalesa. A melodia da canção e as luzes acesas das casas na vila de Syauli iluminam a encosta em frente como se fosse uma gigantesca árvore de natal. Putz, bom demais estar aqui!! Vontade de largar tudo e morar no Nepal! Os dois últimos dias do trek, pra ser sincera, não deixaram muita impressão nesta senhorinha. A um porque a paisagem espetacular vislumbrada, em especial, de dentro do canyon do rio Modi ficara pra trás, só restando agora os sensacionais contornos de South Anna e Hiunchuli, localizados não mais diante de nós porém na nossa retaguarda; a dois, porque fim de viagem retornando por lugares já conhecidos não surpreende mais pelo ineditismo. Por mim, teria abreviado o trek em um dia, retornando direto de Landruk a Pokhara considerando o baixo nível de dificuldade da trilha que poderia ser feita em tranquilas 6 horas. Entretanto, pernoitamos em Pothana e de lá descemos a Kande, retornando a Pokhara onde permaneci deliciosos 5 dias, mas sobre isso discorrerei em nova postagem. Se me perguntarem qual trek é o mais lindo, respondo: ambos são belíssimos, contudo do que mais gostei, sem hesitação, digo, foi este, o do Annapurna. Por quê? Devido à variedade de paisagens que vai da exuberância das florestas subtropicais à gelidez nevada das altas montanhas. Hasta la vista montanhas, me aguardem, voltarei, com certeza!!