sábado, 22 de abril de 2017

Duelo nas termas

21/04/2017 – Sexta-feira – 7º Dia de Trek Annapurna BC - Anna BC a Bamboo
O termômetro marca -1ºC às 6 horas quando acordo. O céu está azulzinho quando deixamos Anna BC às 6 e 40. Ao ver, caminhando no sentido contrário, um rapaz – descubro ser búlgaro - de cabelo pintado de amarelo, vestindo gorro, jaqueta e botas da mesma cor, não resisto e peço pra filmá-lo. Estilo é tudo! Fazemos em uma hora o percurso do Anna BC ao Macha BC e como estava tudo nublado quando vim pra cá há 2 dias, estou encantada não só de volver ao canyon – adoro canyons, prova disso minhas práticas de canionismo todos os fins de semana durante 3 anos – como admirar sua parte inicial sem cerração, visível à luz do sol. Exatamente, aqui, no acampamento-base do Machapuchare, o canyon do rio Modi tem seu início ou término, como queiram. Como descer, via de regra é bem menos custoso do que subir, estamos agora baixando, o que é deveras buenacho porque aquela sequência torturante de degraus que enfrentei na ida é o que os coitados dos turistas encaram neste momento enquanto cruzam por mim. Claro está que não chega nem perto do trek do Eve BC, mesmo assim a quantidade de gente impressiona ao longo da trilha. Dá pra perceber quem está cansado do ascenso pelo jeito com que se apoiam nos bastões. Um rapaz em particular chama minha atenção. Bem jovem, sentado num dos degraus de pedra, cabeça inclinada um pouco pra trás, queixo levemente erguido, com as mãos pousadas no bastão de trek, ele aproveita seu descanso e contempla embevecido a paisagem grandiosa do canyon. Às 10 quando paramos em Deurali para um chá, percebo nuvens vindas do sul adentrando a garganta. Às 11, quando chegamos em Himalaya Hotel onde almoçamos, a névoa já praticamente tomou conta do canyon, baixando bastante a temperatura mas não de forma agressiva, deve estar fazendo uns 13ºC. De Himalaia a Bamboo uma hora de descida na luxuriante floresta. Tão sortuda sou que vejo diversos langures, os lindos macacos de barba branca que habitam estas plagas. Eles não se aproximam mas ficam parados olhando curiosos pra mim. A menor tentativa de aproximação, eles fogem rapidinho, se embrenhando no mato. Quando chego em Bamboo às 14:00, a espessa cerração virou garoa. O dono do lodge parece um macaco babuíno. Gordo e baixo é o próprio macho alfa. Domina a conversa falando alto e, durante bom tempo, não dá espaço pra mais ninguém. Bishow quando pergunto o que falam com tanto entusiasmo, responde que discutem política, já que haverá eleições em algumas semanas. Quando fico sabendo da existência da tradicional aguardente feita de painço – raksi -, resolvo prová-la, por óbvio! Bishow explica que pode ser feita com arroz, porém raksi de milho, frisa ele, é bem melhor. Convido guia e porter pra me acompanharem e peço pipocas pra nossa happy hour. Nurbu recusa a bebida porque desde que entornou uma garrafa inteira de raksi não suporta mais bebidas alcoólicas mas a pipoca ele aceita. Durante a janta, um alemão conta que devido ao mal de atitude durante o trek do Everest BC não pode terminá-lo. Bah, sou abençoada por não ser dada a este tipo de doença. Só um dia não tive apetite e o máximo que senti foi dor de cabeça durante 3 dias ao longo do trek ao Eve BC.


22/04/2017 – Sábado – 8º Dia de Trek Anna BC – Bamboo a Jhinnudanda
Bamboo está praticamente à beira do canyon enclausurada na floresta motivo por que é tão úmida. Por isso, deixo sem saudades a vila às 7 e 10. Um dogue peludão, lindo, me acompanha até Sinuwa onde se encontra com seu filhote. Os dogues de montanha são um capítulo à parte: embora dóceis são pra lá de independentes. Não ladram pras pessoas, só entre eles quando há invasão de território. Daí é uma algazarra tribarulhenta, valha-me deus, até que o cachorro invasor seja expulso. Mesmo com o tempo nublado, o trecho entre Bamboo e Sinuwa continua encantador, lindamente decorado pela vibrante floração avermelhada dos rododendros. É uma floresta de conto de fadas, só faltam os gnomos e duendes saltando de folha em folha. Como sempre, paramos pra beber chá em Sinuwa. Peço o meu de limão com gengibre. Afora 2 subidas fortes, uma ao sair de Bamboo e outra, um pouco antes de chegar em Chomrong, o resto é íngreme descida até Jhinnudanda onde chegamos às 13 e 20. E lá vou eu com Bishow e Nurbu à hotspring, uma descida de 20 minutos, em meio a um belo bosque, até à margem direita do rio Modi onde há 2 piscinas de águas termais e 3 canos que servem de chuveiros. Há 8 dias sem tomar banho não só eu como todos que estão lá, os chuveiros são disputadíssimos (tem de se banhar neles antes de entrar nas piscinas). Tenho de defender meu banho, declarando em alto e bom som “let me take my shower in peace, I am too dirty, I am stinky.” Foi o que bastou pra galera não tentar ganhar meu chuveiro na mão grande, embora tenha escutado algumas risadinhas masculinas durante minha breve e veemente declaração. Agora 17 horas, limpinha, cheirosinha, com os pés pra cima, curto o final de tarde no terraço do lodge donde se descortina o canyon e a vila de Rambuk na encosta em frente. Daqui a pouco, é hora do ângelus, ou seja, happy hour. Pra tanto vou convidar meu parceiro de libação alcoólica, Bishow que gosta tanto duma pinga quanto eu pruma dose de raksi . E Nurbu pra compartir conosco as pipocas! Melhor que isso só 2 doses de raksi uhuuu!!

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Anfiteatro Rochoso

19/04/2017 – Quarta-feira – 5º Dia de Trek Annapurna BC – Macha BC a Anna BC
Acordo super cedo, por volta das 5 e depois de lavar rosto e escovar dentes me ponho a fotografar a linda paisagem ao redor. Como um poderoso refletor, o sol imprime à superfície nevada do Annapurna South uma viva coloração amarelada, ao passo que, nas sombras, do singular formato de cauda de peixe do Machapuchare resta apenas uma vulgar aparência triangular. E já tem gente indo às 5:30 pro acampamento-base do Annapurna. São aqueles que farão um bate-volta, preferindo pousar em Deurali, Himalaya ou Dovan. Saímos às 7 de Machapuchare rumo ao Anna BC caminhando ora pelo campo de neve ora por trechos de terra livres de gelo. Diante de mim, Annapurna South, gigantesco, mais parece um 8 mil. Um colar fino de nuvens envolve seu flanco oeste. A temperatura amena dispensa o uso da jaqueta de plumas, bastam camiseta e pulôver de fleece mais um par de luvas. Encontro as duas queridas chinesas caminhando a nossa frente. Como sempre tiram fotos uma da outra tendo como pano de fundo Anna South. Saúdo-as efusivamente e daí por diante a pernada vira uma alegre gandaia. Até filmezinho a magrinha faz comigo, fingindo que me fuzila com uma metralhadora (pra encarnar o papel, ela deve ter mentalizado que sou uma dissidente do camarada Mao). Quando caio na neve fingindo de morta, as duas vibram tanto que fazem eu repetir a cena pra filmar uma segunda vez. Às 8 horas baixa uma cerração. Da fúria do rio Modi no interior do canyon o que se vê agora é um manso córrego que vai abrindo seu caminho ao longo e sob a geleira. Tufos de capim amarelo crescem no terreno sem neve, intercalados por pequenos buquês de gencianas! E joaninhas, muitas joaninhas sobre a neve!! Isso a 4.000 metros!!! Os 430 metros de desnível entre o Macha BC e o Anna BC foi a subida mais fácil de todas, tanto que fiz com um pé nas costas, hehehe!! Quando atingimos os 4.130 metros onde foi construído o acampamento-base do Anna, às 9 e 20, o céu está limpo, sem vestígio de cerração. Fazemos um lanche ao ar livre oferecido pelas queridas chinesas pra comemorar o niver da gordinha: deliciosos snacks (tofu e um tipo de figo seco) from China! Lá pelas 10 e 30, quando as amiguinhas já tinham se mandado, baixa uma bruma cerradíssima. Como um passe de mágica, lá pelo ½ dia, clareia de novo e o sol mostra a cara. Contudo pras bandas de Machapuchare tá tudo nubladíssimo, não se avistando nenhuma daquelas montanhas situadas a leste. Aqui no Anna BC é difícil encontrar quartos porque na alta temporada os 5 lodges com 6 dormitórios cada não dão conta da demanda. Num deles, o dono nos disse que só poderia oferecer barracas. Acabamos conseguindo um lodge cujo único quarto vago é ao lado da cozinha. Acho muito tri o dormitório porque pra alcançá-lo tenho de atravessar a cozinha curtindo todo aquele bulício dos rapazes preparando as refeições. O quarto com 3 camas será compartilhado com um irlandês de Dublin, Adrian com quem converso rapidamente. Bishow e Nurbu, como os demais guias e porters, dormirão nos bancos do refeitório. Pensando ser trovões o barulhão que escutei há pouco descubro serem avalanches de neve. A cerração que se concentrava pros lados do Machapuchare veio pra cá e escondeu a esplêndida paisagem circundante. Sem condições de dar um rolê no exterior porque venta e chove bastante, fico no refeitório deitada num dos confortáveis bancos estofados que rodeiam o amplo salão. E são apenas 14 horas!! Muito tempo pela frente até a hora de dormir. E dale a chegar gente, a maioria jovens que estão nem aí pra chuva que enfrentaram na trilha e continua a cair. Sucede-se ao chuvaral uma vigorosa queda de neve que só termina no final da tarde. Novamente, a paisagem ressurge, com os picos mais brancos que nunca. Muitos hóspedes deixam o refeitório e vão pra fora curtir o belo cenário, inclusive uma mulher com aquele tipo de risada aguda que perfura os tímpanos. Meu deus, como sou perseguida por esse tipo de gente com risadas de galpão!! João Gilberto, o grande músico e cantor da MPB, não me acharia ranzinza, com certeza!! Até que nem faz tanto frio às 18 e 30 quando vou dar uma espiada no termômetro colocado no lado externo do lodge. 4º C já senti várias vezes na minha terra natal, o Rio Grande do Sul! Isso nem faz o cusco renguear de frio!!


20/04/2017 – Quinta-feira – 6º Dia de Trek Annapurna BC - Annapurna BC
O acampamento-base do Annapurna localiza-se no interior dum colossal anfiteatro montanhoso pertencente ao maciço do Annapurna. Com 55 km de comprimento, compreende um pico de 8 mil, 13 acima de 7 mil, e 16 acima de 6 mil. Assim, aqui no ABC temos uma amostra da grandeza desta cadeia de montanhas: a oeste, Hiunchuli (6.441 metros) e Annapurna South (7.219 metros); a noroeste, Bharha Chuli; ao norte, a vasta parede da face sul do Annapurna I (8.091 metros); já a leste, Ganga Purna (7.455 metros), Annapurna III (7.555 metros), Gandarba Chuli (6.248 metros) e Machapuchare (6.993 metros). É de tirar o fôlego. Fica-se girando enlouquecidamente 360º sem parar! Manhã brilhante e céu límpido permitem uma baita visibilidade deste complexo rochoso. Imperativo, entretanto, acordar cedo pra flagrar os primeiros raios solares dourarem as encostas nevadas do Anna South, Bharha Shirkha e Anna I porque tal show da natureza dura rapidinho. Assim, às 5 e 30 da manhã, os turistas já estão de pé, admirando o belíssimo espetáculo. Uns espanhóis ao meu lado tiram sarro do parceiro que não conseguiu levantar a tempo. O cara, sem se abalar, responde que curtirá o espetáculo olhando as fotos tiradas pelos amigos, hehehe. Hoje tiramos o dia pra descansar. A pousada até então lotada esvazia-se após o desjejum, restando somente eu e Flavio de hóspedes. Doente desde ontem, com diarreia e vômitos, o cara tá malecho. Provavelmente rebote do mal de altitude. Mas ele jura que foi da comida apimentada. Medico-o com os remédios adequados que tenho na minha pequena farmácia. Ele não trouxe nada a não ser aspirina. Os lodges do Anna BC estão localizados ao lado da grande borda direita da moraina do glaciar. Subindo até sua crista dá pra ver a geleira fluindo como um rio de pedra. Como a maioria dos glaciares himalaios, é coberto por espessa camada de pedras e cascalho na sua parte mais baixa e plana. Se não se sabe, de antemão, que é um glaciar se pensa que é um amontoado de areia e pedras porque quase nada se vê do gelo sob os detritos. Eu e Bishow subimos até a cumeeira da moraina pra fotografar a stupa erigida diante do Anna I em homenagem a Boukreev e Iñaki Ochoa que morreram escalando-o. Prosseguimos caminhamos ao longo da moraina onde mais stupas homenageiam outros montanhistas que pereceram tentando escalá-lo. Super dada a avalanches, a face sul do Anna I vem a ser, entre os 8 mil, um dos picos mais perigosos de se escalar. O tempo permanece bom até umas 10 horas quando nuvens vindas do canyon do rio Modi começam a abraçar o Machapuchare. Um fenômeno interessantíssimo assistir à espessa formação gasosa envolver em câmara lenta todas as montanhas da banda leste, como se fosse uma avalanche horizontal. Ao ½ dia a cerração se apodera também do acampamento-base do Anna. Eu me distraio observando dois empregados do nosso lodge, que têm pranchas de snow board, deslizarem pela encosta da colina em frente à pousada. E a temperatura até que está amena: 5ºC às 16 horas. No meio da tarde, chega um grupo grande de sul coreanos de ½ idade que quebra meu tedioso dolce far niente. Como aperitivo, antes da janta, comem peixinhos secos. Um dos coroas serve aos parceiros doses de bebida alcoólica cuja cor é a mesma da nossa cachaça. Não resisto e peço pra provar o peixe, bem saboroso. Já a bebida não me animo, desconhecendo assim seu sabor....que pena. Eles se tratam muito bem! Trazem cozinheiro que prepara comida coreana pra eles. A mesa fica coberta de diversos pratinhos que parecem ser muito apetitosos! Se eu fosse cara de pau, tinha mais é me escalado pra comer com eles, porém, nesta encarnação, infelizmente, nasci um ser tímido. 

terça-feira, 18 de abril de 2017

A lição de parceria das gurias chinesas

Nem bem 6 da matina, já estou levantada e no terraço a fotografar e filmar Machapuchare e seus dois cumes cujo formato é uma perfeita cauda de peixe. A lua ainda presente no céu exibe parcial brancura já que está decrescendo. E o barulhão da cachoeira caindo no leito do rio é ensurdecedor. Frio e sem nuvens no céu embora o sol só vá aparecer em torno das 9 horas. Experimento o pão gurung cuja textura de massa e sabor levemente adocicado lembra a guloseima gaúcha cueca virada. As duas chinesas, que comem no breakfast massa e arroz frito com vegetais, repartem entre si os pratos. Contam que são amigas desde a infância. Tá explicada tanta intimidade e parceria. Saímos de Dovan super cedo, às 7 horas, atravessando florestas com extensos bambuzais e pontes rústicas feitas de troncos de árvores sobre pequenos rios. Entre Himalaya Hotel, onde há 2 lodges, e Deurali, impossível passar despercebida a gruta, conhecida como Hinku Cave. No passado, essa baita reentrância rochosa protegida por um largo teto serviu de abrigo aos porters que trabalharam nas primeiras expedições nesta área. Atravesso um pequeno campo de gelo oriundo das avalanches de neve que forram os picos localizados acima do canyon. Com cuidado, piso no chão congelado porque é fácil demais escorregar nele. E há que passar o mais rápido possível, de preferência em silêncio, pois o risco de novas avalanches é iminente nesta época do ano em virtude da elevação da temperatura. Visível a mudança na paisagem após Himalaya Hotel: as paredes do canyon não são mais cobertas por espessa vegetação, sendo possível avistar a rocha nua cuja cor amarelada revela sua origem sedimentar. Grandes cascatas e córregos - resultado do degelo dos glaciares e campos de neve que se encontram sobre o canyon - jorram de ambas as encostas, engrossando o rio Modi cuja água de verde e límpida passa a ser turva. Escuto pela primeira vez o crocitar dos corvos e o troar dos helicópteros indo e vindo do Annapurna BC. Às 11 e 30 quando ainda estamos em Deurali almoçando, o tempo começa a virar: nuvens que vêm do sul apoderam-se do canyon e a friaca se faz sentir. Observo neve e dois grandes desmoronamentos de terra na encosta oriental da colossal garganta. Como saímos de Deurali quase ½ dia, Bishow cruza pra margem leste já que as chances de avalanches costumam ocorrer mais na encosta oeste do canyon devido à presença do pico Hiunchuli próximo à sua borda. Donde estamos, do lado esquerdo do rio, dá pra ver bem a enorme avalanche de neve que interrompeu a trilha na encosta direita donde também jorra do alto uma big cascata. Há gente que não dando bola pro risco de possíveis avalanches passa pela trilha super estreita escavada na neve limitada dum lado por uma rampa descendente duns 50 metros. Estou bem contente por ter vindo por esta via alternativa porque não curto nada esse tipo de via super exposta e escorregadia. Não tem como não se dar conta da profunda alteração na paisagem a partir de Deurali: os campos de neve começam a se amiudar, a cor verdejante da vegetação transforma-se em amarronzada, o bambuzal resiste ainda que seco, sem exibir seu peculiar verdor, apenas arbustos e árvores de pequeno porte despidas de folhas, tufos ressecados de capim amarelado, uma curiosa vegetação com folhas aveludadas que lembra uma couve-flor esverdeada, e, surpreendentemente, ramos de gencianas! Muitas cascatinhas continuam escorrendo pelas paredes do canyon. As duas travessias no Modi Khola são em precárias pontes metálicas não muito distantes da correnteza furiosa do leito do rio. Atravesso vários campos de neve e um deles provoca calafrios: a trilha, estreita, tem uma puta rampa que termina no rio Modi espumando agitadíssimo lá embaixo. Depois, só subida casca grossa até o acampamento-base do Machapuchare piorada pela presença da cerração que se torna cada vez mais densa, não permitindo se avistar coisa alguma. Chegamos às 14:20 em Machapuchare, caminhando dentro duma nuvem tão aquosa que sinto as minúsculas gotículas molharem roupa e rosto. Confesso que hoje bateu o cansaço porque de Dovan a Deurali o desnível foi de 600 metros e de Deurali (3.200 metros) ao acampamento-base do Machapuchare (3.700 metros) subimos mais 500 metros. O pior, contudo, foram os 40 minutos finais de subida antes de chegarmos a Machapuchare, um trecho matador cheio de degraus. Com aquela preguiça causada pela canseira de quem está nas altitudes, nem saio a explorar os arredores do acampamento-base de Macha, fico o restante da tarde até a hora de ir pro berço no refeitório quentinho, postando fotos no Face, lendo, escrevendo e curtindo os demais hóspedes. Vidinha boa essa, vale cada degrau e gota de suor destilado!!

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Nas entranhas do canyon do rio Modi

16/04/2017 – Domingo – 2º Dia de Trek Annapurna BC – Tolka a Chhomrong
Bishow, ao contrário de Nir, exige com seu jeito delicado de ser que partamos mais cedo dos lodges, assim, às 7:20 estamos já com o pé na estrada dando adeusinho à Tolka. A pernada de ontem foi facinha, só o tempo enevoado e úmido incomoda um pouco, mas é o preço que se paga por este clima subtropical além de estarmos a cada dia que passa nos afundando mais e mais nas entranhas do canyon do Modi Khola. Seguimos pelo flanco esquerdo do canyon e após atravessarmos Landruk, uma vila grande, com muitos lodges, a vegetação torna-se mais densa a ponto de a trilha apresentar em ambos os lados renques de samambaias. Nas encostas, terraços de lavoura de painço e arroz, alguns abandonados porque os homens se encontram trabalhando nos países árabes. Após Landruk, fácil perceber que estamos no interior dum canyon, tipo horizontal, daí a ausência de altas cachoeiras, apenas corredeiras espumam ao longo de seu leito. Suas paredes estão compactamente cobertas de árvores e arbustos. Um esplêndido verdor. Paisagem completamente diferente da do Everest. Estou adorando esse cenário luxuriante. Já dá pra se ver Annapurna South e Hiunchuli à direita apesar da onipresença de nuvens e névoa tentando escondê-los. Atravessamos a longa ponte metálica sobre o Modi Khola e passamos a caminhar em sua margem direita, logo, logo alcançando a acolhedora vila de New Bridge cujas fachadas das casas são enfeitadas com floridos vasos de gerânios. Sentamos a uma mesa ao ar livre e pedimos um chazinho. Escolho o de limão com gengibre, bom pra evitar resfriados. Bishow me conta que nessas selvas há uma diversidade riquíssima de fauna, destacando—se os belíssimos leopardos e os macacos com barba branca, conhecidos como landruk. Depois de New Bridge, a moleza de se caminhar em terreno plano termina e o enrosco da subida começa, atravessando inclusive trecho em que houve grande desmoronamento na trilha, tornando-a perigosamente estreita. Mas as coisas pioram mesmo após a travessia do rio Kimrong, dessa feita numa rústica ponte feita com troncos de árvore. Como Jhinudanda, vila onde almoçaremos, fica no cocuruto da colina, a ladeira, mega íngreme, foi calçada com os terríveis degraus de pedra que parecem nunca acabar. Nas encostas das montanhas, brilham ao sol os telhados das casas revestidos com pedra de mica. De repente, ebaaa, estamos em Jhinudanda, charmoso vilarejo, onde almoçamos. Compro aqui um par de brincos, em formato de peixe, lindésimo. Nesta região é impossível o trânsito de yaks e mulas porque as trilhas são muito estreitas. As plantações se estendem do sopé quase ao topo da montanha que se encontra do outro lado do rio Kimrong, onde sobressai uma vila no meio da encosta. Mas se eu estava reclamando do ascenso até Jhinu, situada a 1.710 metros, a subida até os 2.210 metros de Chhomrong foi impiedosa! Degrau após degrau a pequena distância me custou, sei lá, 2 horas? Se não foi tudo isso, chegou perto. Quando se pensa que termina continua, não acaba nunca, que merda. Pressinto, fingindo um otimismo que não tenho, que está por terminar o calvário, portanto, sebo nas canelas, Beatriz!! Chego ao ponto de sentir saudades dos degraus do trek Eve BC! Enfim às 15:30 entramos em Chhomrong, construída também numa crista de montanha, ocupando não só o largo platô como ainda se estendendo encosta abaixo além do rio Chhomrong. A vila é habitada pelos gurungs, um dos maiores grupos étnicos do país. Gurungs podem tanto ser budistas como hinduístas ao contrário dos sherpas e dos brahmins que apenas professam, respectivamente, a fé budista e hinduísta. A paisagem da vila é adorável, com vasos de flores enfeitando páteos e residências. Daqui do alto da vila se vê bem o canyon e as vilas existentes em ambas encostas: ao sul, Landruk, na encosta esquerda e ao norte Sinuwa, na encosta direita. Embaixo os telhados azuis da vila de Jhinu destacam-se em meio ao verdor da vegetação. O dia, ulálá, manteve-se agradável com a presença caliente do sol a partir das 10, assim permanecendo durante a tarde. Agora, 16 e 30, o sol se pôs e uma friaca se faz sentir. Exemplo inconveniente de modernidade é a enorme torre de telefonia móvel construída bem na frente do Annapurna South. Tem de se fazer malabarismos para evitar que ela saia na foto, tsk tsk tsk. Nurbu quando indagado se levaria presente pra esposa, responde de bate-pronto: “money”...... hahahaha. Não há dúvida de que Nurbu não só a conhece bem como sabe agradá-la!! Estou encantada com esta região. Pensei que fosse parecida com a do Everest. Qual o quê, é absolutamente desconcertante! Não só se vêem picos de 6, 7 e 8 mil bem de perto, como a presença constante deste soberbo canyon funcionando como um divisor entre o mundo gelado e árido das altas montanhas e a tepidez verdejante das zonas mais baixas. Que surpresa agradável este trek. E eu que não estava dando muito por ele, pode?!

17/04/2017 – Segunda-feira – 3º Dia de Trek Annapurna BC – Chhomrong a Dovan
A manhã, sem nuvens, permite que se vislumbrem em toda sua glória Annapurna South, Hiunchuli e Machapuchare. Me apaixono por Machapuchare. É a mais linda de todas as montanhas vista por mim. Seus dois cumes lembram cauda de peixe, daí ter sido denominada em inglês Fishtail. De Chhomrong, donde saímos às 7 e 10, descemos uma bela e longa escadaria até o fundo do vale onde corre o rio Chhomrong, cruzando a ponte metálica até a outra margem. Só de pensar na volta, subindo todos aqueles degraus, me arrepio, ui ui ui!! Enquanto estou descendo quem vejo subindo? A simpática vendedora de quem comprara bergamotas e maçã ontem durante a dura subida de Jhinudanda a Chhomrong. Ela, contente, de me rever, faz questão de parar, abraçando-me efusivamente. Tal atitude é pouco usual nos nepaleses, tanto que nos folhetos dados aos turistas há recomendação de se evitar manifestações públicas de afetos. Do celular duma jovem chinesa, que juntamente com uma amiga, hospedaram-se na mesma guest house que nós estávamos em Chhomrong, escuto música eletrônica em alto e bom som. Brincando, começo a dançar. Pra quê! Elas se encantam e começamos, então, a conversar enquanto caminhamos. Uma americana, ao meu lado, comenta que não é bem esse tipo de som que esperaria como trilha sonora no trek, hehehe. Ambas as chinesinhas vestem-se com roupas coloridas, estampas de desenho infantil, predominando a cor rosa. A magra, que parece ser a líder, é seguida pela amiga gordinha, que não demonstra tanta desenvoltura pra caminhar quanto a magrinha espevitada. Alegres, param frequentemente pra tirar fotos uma da outra. Quando a gorducha fica pra trás nas subidas, a magrinha aguarda até que a outra a alcance. De fato, há uma bela parceria entre as duas. Mas como as 2 caminham muito lentamente, porque param toda hora pra tirar selfies e fotos uma da outra, combino de vê-las em Dovan onde também vão pousar e sigo adiante. Da ponte sobre o rio Chhomrong até Sinuwa é só subida em degraus, onde paramos prum chazito. Do restaurante não canso de admirar os belos picos Annapurna South, Hiunchuli e Machapuchare. De Sinuwa a Bamboo não se leva mais que 2 horas, caminhando numa floresta onde predominam bambus e rododendros floridos. Parece bosque de contos de fadas, beleza pura! O terreno alterna trechos planos com descidas e subidas curtas sem grandes exigências. O Machapuchare é entrevisto o tempo todo, salvo quando paramos em Bamboo pra almoçar já que a alta parede da encosta esquerda do canyon o encobre. Peço dal bhat que vem acompanhado com batatas ao curry, deliciosas. Levamos uma hora e 15 minutos até Dovan porque faço Bishow parar diversas vezes encantada, ou melhor, deslumbrada que estou com a beleza da trilha, tanto que nem me importo com algumas subidinhas cascudas que tenho pela frente e com a exposição incômoda de grossas raízes aflorando no solo. Duas travessias em pontes feitas com troncos de árvore dão um clima delicioso à trilha! Tão bom se equilibrar nelas ao invés da segurança das pontes metálicas. Chego tão feliz em Dovan que me ponho a dançar, sem sequer tirar a mochila, na ampla esplanada construída na frente dos lodges. A música que toca no Ipod é uma esfuziante seleção de folclore interpretada pelo excelente percussionista pernambucano Naná Vasconcelos, infelizmente, já não mais entre nós. Poucos metros abaixo, o barulhinho bom do agitado rio Modi se faz ouvir. O movimento de turistas está tão forte, que os 3 lodges existentes na vila estão com lotação esgotada. Um dormitório com 4 camas custa 180 rupias por pessoa. As 2 chinesas, que viajam sem agência, carregando suas mochilas, ficam nesse. Eu e Flavio porque viajamos com agência dividimos um quarto com uma cama de casal e outra de solteiro. Cedo a de casal pra ele porque é maior que eu. Agora 15:30 baixou uma névoa encobrindo tudo ao redor. Nada se enxerga além de 50 metros, sequer a alta cachoeira que despenca da outra encosta do canyon, só se escutando o ruído de suas águas. O que têm de joaninhas e borboletas ao longo do caminho é incrível, considerando que estamos a 2.600 metros! Digo pra Bishow que no Brasil há também joaninhas e traduzo pra ele como “little joan”, hehehe. A eletricidade só não vai ao Annapurna BC, assim, ainda são visíveis postes e fios elétricos ao longo da trilha, muitas vezes se intrometendo no visual, quando se tira fotos. Graças a deus que se pode contar com o santo recurso do photoshop, porque vou ter de apelar pra ele quando editar minhas fotos. Arrancarei com o maior prazer poste por poste e apagarei toda a fialhada por mais trabalho que dê!

sábado, 15 de abril de 2017

E a indiada prossegue....eba!!!

11/04/ a 15/04/2017 – Terça-feira a Sábado – Lukla - Kathmandu - Pokhara
Terminado o trek ao Everest BC, partimos no dia seguinte de Lukla, bem cedinho, às 8 da matina. No avião de 2 turbinas, 20 lugares, que nos conduz a Kathmandu, a aeromoça oferece balas e pedaços de algodão pra se pôr nos ouvidos. Parece que estou num filme da década de 50, muito tri este vôo, hahaha. Chegamos na capital nepalesa às 9 e 30. Tento dormir um pouco após o almoço já que faz 2 noites que só prego olho por 3 horas, mas não consigo. A excitação de estar nesta cidade tão mal tratada quanto atraente me deixa muito ligada. O crocitar dos corvos (aqui também tem dessas aves aos milhares) mixado ao ruído dos motores de carros e das buzinas é a trilha sonora de meu fim de tarde enquanto aprecio o lento e magnífico pôr do sol. A bola de fogo bem desenhada exibe coloração róseo-alaranjada, uma belezura! Ao longe, longas e finas varetas de metal despontam verticalmente como troncos sem galhos dos prédios em construção, de modo a protegê-los dos efeitos dos terremotos. A estadia relâmpago em Kathmandu não me impede de visitar Pashupatinah, complexo religioso e santuário dedicado ao deus hindu Shiva, localizado em ambas as margens do rio Bagmati. Nos gaths (escadarias) em frente ao rio, os corpos são lavados e cremados em fogueiras a céu aberto. Eu curto vir a Pashupatinah não só pela oportunidade ainda de assistir às cerimônias de cremação. Pra nunca esquecer de que a vida é um piscar de olhos e um estalar de dedos. Bueno, na quinta-feira, 7 da manhã, sentados no desconfortável último banco do busão, começamos a fastidiosa e cansativa viagem de 9 horas até Pokhara. Paramos pra almoçar num restaurante enorme à beira do rio Trishuli, cujas águas de coloração amarronzada não são de molde a atrair olhares. No dia e meio em que permaneço em Pokhara, trato menos de conhecê-la e sim de descarregar o restante de fotos e vídeos pro laptop, organizando-os em pastas. Quando retornar do trek ao Annapurna BC ficarei aqui durante 5 dias e então poderei curti-la à la vonté.


15/04/2017 – Sábado – 1º Dia de Trek Annapurna BC – Kande a Tolka
Numa boa rodovia, rodamos de carro de Pokhara (800 metros) a Kande (1.770 metros) em 1 hora e 1/2 porque o motora pára à beira da estrada e nos mostra, orgulhoso, a guest house que está construindo. Em Kande, ponto de partida da pernada, sou assediada por vendedoras tibetanas querendo que eu compre suas bijus. Resisto bravamente e não me rendo. O guia que nos conduzirá nesta jornada chama-se Bishow. Nascido em Pokhara, o jovem homem, de boa aparência, é praticante do hinduísmo. Simpático, gentilíssimo, com boas maneiras, não tem contudo o jogo de cintura do guia anterior, o querido Nir, cujos modos eram mais toscos. Casado há pouco tempo, conta-me, radiante, que sua mulher está grávida de 3 meses. Seu inglês é rudimentar já que optou por estudar coreano de modo a obter ocupação mais qualificada na Coreia do Sul, país que acolhe estrangeiros pra trabalharem, temporariamente, nas indústrias automotivas. Lá permaneceu durante 1 ano, após o que, economizada uma grana, retornou a Pokhara. Cresce o número de guias nepaleses, que investem no aprendizado de japonês, mandarim e coreano, de olho na afluência de turistas - em especial os de meia idade que não sabem falar inglês -, oriundos desses países. Assim como Bishow, milhares de nepaleses vão trabalhar, além de na Coreia do Sul, na Índia, Qatar, Kuwait ou Emirados Árabes com a finalidade de fazer poupança e, assim, casar, investir num negócio ou construir casa própria. O nosso porter continua sendo Nurbu. Louco pra conhecer esta também afamada região do Himalaia, pediu pra Flavio que intercedesse junto a Narayan, dono da agência que organiza nossos treks, pra vir trabalhar pra nós. Assim, eis Nurbu Sherpa, super feliz em poder saciar sua inesgotável curiosidade, carregando nossas bagagens. Passando por pequenas vilas e atravessando florestas de sândalos vermelhos e de rododendros, ainda não floridos, o início da pernada é só subida, até o Australian Camp, vilarejo situado a 2.165 metros. Daqui já se tem a primeira visão dos picos Annapurna South (7.219 metros) e Machapuchare (6.993 metros), ao norte, e do vale de Pokhara bem como do lago Fewa, ao sul. Após, curta descida percorrendo novamente bosques de sândalos vermelhos até Pothana, situada a 1.890 metros onde almoçamos. Enquanto espero meu arroz frito com galinha e verduras, curto o modo como certo guia come seu dal bhat: sem pressa, entremeia a refeição conversando com >outros guias, ao final da refeição lambe cuidadosamente os dedos da mão direita, usada pra ingerir alimentos. Envoltos em nuvens e fina névoa, Annapurna South e Machapuchare parecem suspensas no ar. No início da caminhada estava tão quente que fiquei de camiseta de manga curta mas agora sinto que a temperatura caiu alguns graus o que me obriga a pôr camiseta de manga comprida enquanto estou sentada à mesa no restaurante. Terminado o almoço, voltamos a subir por entre bosques de rododendros e de sândalos vermelhos entremeados com áreas planas e abertas usadas como pastagens de búfalos. Em certos trechos, a trilha, tal qual uma passarela, foi cuidadosamente calçada com pedras de mica que brilham ao sol; em outros, é pura piramba, exigindo curta escalaminhada dentro dum bosque que lembra de leve a nossa mata atlântica. Em Deurali, vilazinha com 2 guest houses e um restaurante, descansamos 10 minutos pra recobrar fôlego da sofrida subida. O restante do caminho, percorrendo outra floresta é praticamente só descida. Um pouco antes de Tolka, ao atravessar um arroio, sai do mato um guri levando o tradicional cesto de palha às costas. Eu o cumprimento, ele retribui com aquela cordialidade nepalesa tão sem reserva e fala alguma coisa que não entendo. Pergunto a Bishow, achando que é o mantra “have you socolê?”(socolê leia-se chocolate) mas não!! Ele quer avisar que estou com o zíper da mochila aberta, correndo risco de perder algo. Mais adiante, na beira da larga estrada que conduz a Tolka, um homem sem pernas pede esmola. Um cartaz, em inglês, explica que ele perdeu os dois membros inferiores por congelamento quando trabalhava como porter. Assim que chegamos na pousada em Tolka (1.790 metros), por volta das 16 horas, começa a chover como ontem em Pokhara. Fazer o que se o clima subtropical úmido e a presença de densas florestas favorece o chuvaral, né? O bom é que a altitude dá uma boa maneirada na temperatura não permitindo que se eleve muito. À noite, durante a janta, os guias põem música e convidam os turistas pra dançar músicas nepalesas. Eu sentindo que vou ser tirada pra bailar me escapo de fininho pro quarto. Hoje não estou com espírito bailador.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Dramáticas Alterações na Paisagem

08/04/2017 – Sábado – 22º Dia de Trek Everest BC– Gokio a Phortse Tanga
Céu de brigadeiro e frio às 7:30 quando deixamos a vila. De volta ao sul, damos, então, às costas ao Cho Oyo, caminhando rente às margens do Gokio Cho e de mais duas pequenas lagoas pertencentes ao sistema de lagos Gokio. A trilha, inicialmente, plana, rodeia o pico Machermo. Uma hora após termos saído de Gokio, o Dudh Koshi volta a dar o ar de sua graça, sem, todavia, exibir aquela tonalidade esverdeada, presente de Phakding a Jorsalle. A coloração, nesta região, é esbranquiçada, merecendo por isso o apelido “rio do leite”. Embora a paisagem mantenha-se árida, o caminho na encosta da montanha é lindo demais embalado pelo baita dia. De quando em quando, no solo cresce um tipo de gramínea bem dura e, muito raramente, miniarbustos de juniper. O sendero se dá ao longo do Dudh Koshi que revoluteia nervoso pelo estreito vale por ele escavado. Após 3 horas de pernada subindo e descendo sem qualquer dificuldade sossegadas colinas, chegamos à vila de Machermo, enclausurada num vale cercado por altas montanhas, dentre elas o imponente maciço Machermo. Pouca demora, o suficiente prum chá, dessa feita sem biscoitos (suponho que o estoque de Nir tenha acabado), toca a pôr o pé na estrada. Agora, sim, a subida, embora curta, é de tirar o fôlego. O Dudh Koshi, à medida que se perde altitude, mais se distancia da trilha, serpenteando no fundão do estreito vale centenas de metros abaixo. No lado oposto do rio, em sua margem leste, várias vilas dependuram-se nas encostas das montanhas: algumas com lodges, outras apenas habitadas por proprietários de yaks. A estradinha que liga as vilas serve de rota alternativa quando Cho La fecha devido às fortes nevascas ou pra quem prefere emoções mais fortes pois a via é super mega estreita. À medida que Dole se aproxima, brusca e dramática mudança na paisagem. O árido cenário cede lugar - como num passe de mágica –a florestas de rododendros. Começa a ventar bastante, mas graças a deus o céu se mantém firmemente azulado com nuvens esparsas aqui e acolá. Durante bom tempo, dá pra enxergar Cho Oyo: basta virar pra trás e ei-lo coberto de neve tal qual bolo confeitado com glacê. A nossa frente, cada vez maiores Kangtega, Thamserku e Kusum Kangguru. Após Dole, onde almoçamos, o verdor do cenário se consolida em definitivo nos compactos bosques de coníferas que ocupam por completo os flancos de montanhas. Tais florestas são habitat dos preciosos veados almiscarados de cujas glândulas é retirada a essência usada em perfumes. Voltam, também, os velhos e temidos degraus de pedra. Uma surpresa verificar que há córregos e cachoeiras ainda congelados nesta época do ano. Na margem de lá do rio, num largo platô, onde a montanha faz a curva, avista-se uma vila grandota, chamada Phortse. Chego às 16 horas em Phortse Tanga, pequeníssima vila onde dormiremos. Bem acomodada no refeitório da guest house, admiro da janela do refeitório, a lua quase cheia iluminando o topo nevado do Thamserku e me dou conta - a la putcha - de que o trek terminará em 2 dias!!


09/04/2017 – Domingo – 23º Dia de Trek – Phortse Tanga a Jorsalle
Ouro sobre prata o tempo!! Quer coisa melhor que céu limpo e friaca matinal pra começar a caminhada? Delícia pura! Desde Phortse Tanga, situada a 3.680 metros, donde saímos às 7:30, avançamos apenas 2,2 km pois foi preciso vencer uma encosta muiiitooo íngreme e cheia de degraus, pra então atingir os 3.973 metros do Mong La. Daqui de cima dá pra ver, ao norte, as vilas de Phortse e Tengboche, ocupando platôs, separados por um vale formado por dois cordões paralelos de montanhas. Quem não sai de cena são Kangtega e Thamserku. O percurso de Mong La a Kyangjuma é uma novidade porque fomos ao Eve BC pela trilha que passa por Tengboche. Como as demais, trata-se de trilha estreita em encosta de montanha com suave descida, limitada à esquerda por precipícios de mais ou menos 400 metros de altura. Quando paramos em Kyangjuma pra tomar um chazito, dou a última espiada no Lhotse e Ama Dablam, que parece proteger com suas pétreas asas a encantadora vila. A quantidade de turistas indo pro Eve BC cresce a cada dia que passa, incrível! O ruído de helicópteros já se faz ouvir de novo. Se fechasse os olhos, teria a sensação de estar numa zona de guerra devido ao incessante tráfego dessas aeronaves sobrevoando o Solukhumbu. O trajeto de Kyangjuma a Namche Bazar é uma tranquilidade só. Almoço em Namche e visita ao gompa (monastério budista) porque quero ofertar lamparinas pra iluminar os caminhos de meu amado filho. Inobstante o fluxo constante de turistas, aceitos na boa pelos nepaleses, esse amável povo continua mantendo suas rotinas diárias, como a dum pai que retorna a Jorsalle trazendo da escola em Namche os filhos que permanecem ali estudando a semana inteira. Percorre-se a linda alameda sombreada de pinheiros, cruza-se o Dudh Koshi duas vezes e às 17:30 já estamos na pousada em Jorsalle. Tão agradável a guest house com seu refeitório envidraçado voltado pra margem direita do Dudh Koshi. Mobiliada no tradicional estilo sherpa, a sala é circundada por mesas que lembram escrivaninhas diante de longos bancos forrados com colchonetes cobertos por tapetes. O reflexo da lua cheia no leito do rio é um quadro delicioso que vislumbro da janela de meu quarto, tanto que fico um tempão curtindo a cena!


10/04/2017 – Segunda-feira – 24º Dia de Trek Everest BC – Jorsalle a Lukla
Considero-me abençoada porque o tempo tem sido impecável, melhor impossível! Meu quarto, de frente pro rio, permitiu que durante a noite eu fosse ninada pelo barulhinho bom das águas do rio escorrendo vale abaixo. A guria da pousada quando soube de minha idade, 64 anos, lascou “you seem so old but strong”. Como a inocente tem 18 anos, devo parecer centenária pra ela, hahaha. Flavio tem feito suas refeições na cozinha junto com guias e porters tal qual uma gata borralheira, hehehehe. Falando sério, o cara é deveras estranho. E Nir, coitado, fica correndo da cozinha pro refeitório, onde estou, dividindo sua atenção entre nós dois. Saímos às 7 e 45 de Jorsalle e o movimento na trilha, neste início de manhã, é absurdo. Chega a ter congestionamento humano nos trechos mais estreitos da estradinha. Hordas de turistas, porters e caravanas de mulas são obstáculos à caminhada porque quem está voltando – nós, no caso - tem de esperar quem vai pro norte já que eles sobem e nós descemos. É a regra não-escrita e obedecida pela maioria dos trekkers. Prímulas e gencianas, a beça, colorem de lilás as beiradas da trilha. Ao atravesar Phakding, encontro o querido Richard sentado à frente dum hotel, bronzeadíssimo, com aquela alegria de viver admirável. Pergunto se foi ao Eve BC e sua resposta afirmativa me deixa muito contente. Conversamos um pouco enquanto Nir não chega e tiramos fotos para a posteridade. Ele também voa pra Kathmandu amanhã. Tenho certeza que vou encontrá-lo na Thamel! Paramos em Gath, no mesmo restaurante onde almoçamos na ida. Flavio, que chegara antes de nós, comeu sozinho e se mandou terminada a refeição, sem sequer um alô de despedida. Dia desses, bolada com suas atitudes, perguntei se fizera algo que houvesse lhe ofendido. Respondeu que não era nada pessoal, que é assim mesmo, difícil de lidar. Baaahhh, em quem fui amarrar o cavalo, hein?!! Continuo cruzando com bandos de turistas rumo ao Eve BC. Há, inclusive, gente paralítica, caso duma mulher a cavalo. Atrás, um porter leva sua cadeira de rodas. Estou pasma, nunca imaginaria tanta gente assim. Sabia, claro, ser o trek mais badalado do planeta mas não que fosse assim tãoooo muvucado. Ainda bem que nossa pernada iniciou na primeira quinzena de março e não em abril, mês, pelo visto, procuradíssimo pela galera. De Gath a Lukla atravessamos as vilas de Cheplung e Mushey que, na ida, envoltas em cerração, não permitiram que se avistasse, do outro lado do vale, o tanto de vilas construídas nos platôs de montanhas. Eu pensando ser moleza a caminhada de Gath a Lukla em razão da perda de altitude, dou com os burros n’água, porque a trilha é só subida, calcorreando aquelas escadas de pedras feitas pra gigantes e não pra nanicas como eu. A rota, cercada por árvores em ambos os lados, exibe também lindas mani walls. Sopra um ventinho frio que levanta areia fina e sinto meu rosto levemente coberto de pó, que não é de arroz, hehehe. Quando menos se espera, eis Lukla em cuja entrada há um pórtico encimado pela estátua de Sagarmatha. Às 15:30, Nir está no check point dando baixa nas nossas carteirinhas TIM. Atravesso a vila e a encontro mudada. Novos lodges e outros em construção. Bom saber que Lukla está prosperando! Observo também que o meio da rua foi pavimentado ao contrário do chão batido de anos atrás quando aqui estive pra fazer Mera Peak. Ao final do mais longo trek de minha vida – 278 km em 24 dias -, estou dividida em dois sentimentos: alegria e tristeza. Contente por ter tido a oportunidade de admirar estonteantes paisagens, por ter conhecido pessoas bacanas, por ter ascendido ao topo de 3 picos de mais de 5 mil metros sem sofrer qualquer problema de aclimatação. O sentimento de tristeza resulta da saudade - precoce, por certo - dos bons momentos vividos, é o tal gostinho de “quero mais”. Dessa vez, o quero mais não vai demorar muito, em 4 dias, estarei em outra região pra conhecer novas montanhas do Himalaia......ebaaaa!!!

sexta-feira, 7 de abril de 2017

O admirável mirante Gokio Ri

06/04/2017 – Quinta-feira – 20º Dia de Trek Everest BC – Thangnak a Gokio
Localizado a 4.900 metros, o vale, ao redor de Thangnak, exibe aqui e acolá raríssimos tufos de gramínea germinando no solo pedregoso. À sombra dum enorme paredão rochoso, a vila é contemplada com o imponente maciço do Machermo. Dia lindo e frio quando saímos às 8 e 45 de Thangnak. Como a caminhada será curta, desnecessário partir mais cedo, como usualmente acontece. Os 30 minutos iniciais de pernada, numa zona plana, são barbada. Avisto ao norte, expressiva elevação compactamente coberta de neve: é Cho Oyo. Que lindo este 8 mil! Pra alcançar Gokio, vila onde ficaremos durante 2 dias, é preciso descer pela moraina esquerda do glaciar Ngozumpo, atravessá-lo e então subir sua moraina direita. Antes de baixarmos ao fundo da maior geleira do Nepal, paramos, no alto da moraina, pra admirar a paisagem: no lado oposto, na moraina direita, Machermo, o passo Renjo La e Gokio Ri em cuja encosta sul é perfeitamente distinguível a trilha que conduz ao topo. Ao sul, Cholatse, Taboche e Thamserku tornam-se visíveis novamente, enquanto ao norte, a constante alvura do magnífico Cho Oyo é um colírio pros olhos. As dificuldades começam ao descer a inclinada moraina cuja encascalhada trilha, embora curtinha, requer mais cuidado que o descenso do Cho La. Em certo ponto, sento e desço de bunda, vá que eu caia, né? Não tô a fim de me arriscar e torcer um pé ou coisa pior acontecer....valha-me deus! O cenário no interior do glaciar é cinza-claro devido aos detritos rochosos que cobrem seus blocos de gelo. O fantástico labirinto formado por estas colinas de pedras, cascalhos e seixos origina um sobe e desce contínuo durante a travessia. Exceto um que outro lago, a maioria, congelada, oculta a pálida coloração azul-esverdeada de suas águas. O movimento de turistas não é intenso, na verdade, muito de quando em quando cruzo com algum grupo indo ou vindo de Gokio. Os uniformemente nevados flancos do Cho Oyo dão aquele toque branco no panorama cinzento. Já bem próxima à moraina direita, escuto ruído de pedras que rolam pela encosta, levantando poeirenta nuvem em seu rastro. Começo meio que a surtar porque estamos perto da parede. Segundo Nir, o otimista, a travessia do Cho La é muito mais perigosa porque o tamanho das pedras são maiores enquanto aqui não passam de seixos, pode? Não sei se essa resiliência nepalina é invejável ou irritante. Tenho de refletir melhor sobre isso, mas noutro momento pois agora quero mais é escapar rapidinho desta armadilha medieval de pedras que caem a poucos metros donde estou passando. Por fim, breve caminhada, equilibrando-me numa estreitíssima trilha e a última subida, super verticalizada, até o topo da moraina direita. Daqui pra frente, a paisagem vai perdendo aspereza à medida que se desce um terreno coberto com boa quantidade de gramíneas até Gokio, situada a 4.750 metros de altitude, onde chegamos ao ½ dia. Da vila, descortinam-se, além da superfície congelada do Gokio Cho (Cho significa lago em nepali), o portentoso pico Machermo, à esquerda, e Gokio Ri, à direita (Ri significa pico em nepali), cuja encosta desta distância aparenta suavidade. No Nepal, contudo, nada é o que parece ser. Assim, só amanhã quando subi-lo comprovarei ou não tal impressão.


07/04/2017 – Sexta-feira – 21º Dia de Trek Everest BC – Gokio

Saímos às 8 rumo ao topo do Gokio Ri, subindo sua nada gentil encosta iluminada pelos raios solares. Como indicação da rota, centenas de pedras retangulares foram posicionadas verticalmente, parecendo arbustos sem folhas. Surreal atravessar esse pequeno bosque pétreo. Paro uma meia dúzia de vezes pra normalizar os batimentos cardíacos e beber água. Perto do topo, rajadas de vento baixam a sensação térmica e passo a sentir muiiito frio. Na errônea suposição de que vestir jaqueta de penas de ganso seria exagero, dispensei-a. Assim, visto uma ceroula por baixo da calça, 2 camisetas dry fit, blusão fleece e mais um casaco do mesmo material. O que me salva a pele foi improvisar com a segunda ceroula de fleece - retirada no início da jornada porque me sentia acalorada - um abrigo pra proteger e aquecer melhor a parte superior do tronco. Tão gratificante atingir o cume! Rio, alegremente, orgulhosa da façanha. Afinal, já é o terceiro pico com altitude superior a 5 mil metros alcançado em uma semana! Alegres e coloridas bandeirolas recheadas de mantras budistas enfeitam a finalera do Gokio Ri e seus 5.357 metros. Num nicho entre rochas, dentro duma gaiola amarela, uma estátua dourada de Buda mira seu olhar na vila. Daqui de cima, quatro oito mil - 4!! - são super mega bem avistados! Além dos notáveis Cho Oyo, Lhotse e Makalu, surpreeesaaa! Eis finalmente visível generosa porção do flanco sul do Everest e não mais aquela minúscula ponta, mesquinhamente entrevista tanto do Khala Patar quanto do Everest BC. Mirante admirável este do Gokio Ri! Se não bastasse vislumbrar tais gigantes, distingo ainda picos de 6 e 7 mil como Najumba, Lobuche, Nuptse, Cholatse, Taboche e Thamserku. Seria ouro sobre prata minha permanência no cume se não fosse o vento. Descida tranquila porque são poucos os trechos com areia e seixos. Ao contrário da subida, na cansativa concentração em dar um passo após outro, focando em chegar lá em cima, quando às vezes dá ganas de mandar tudo às favas e desistir, a descida é cheia de atrativos. Encantadora visão a superfície quase encoberta por fina camada de gelo do lago Gokio Cho, deixando a descoberto ínfima porção da bela coloração turquesa de suas águas. Também chamado Dudh Pokhari, é o principal manancial num sistema de 19 lagos, espalhados em 196 hectares, fonte permanente de água fresca. Avisto, ainda durante a descida, construída à margem oriental do lago, a pequena vila e o belo maciço de 6.237 metros do Machermo. Chegamos ao lodge às 13 e 30 e no variadíssimo cardápio constam não só culinária nepalesa como italiana, tailandesa, coreana e indiana. Escolho pro almoço minha dieta de veg fried rice. Descanso o restante da tarde no refeitório, aquecido que está pelos raios solares, razão por que os hóspedes preferem aqui aos seus gélidos quartos. Há gente de várias partes do planeta: japoneses, romenos, neozelandeses, irlandeses, norte americanos, australianos e ingleses. Dois jovens deitados nos bancos almofadados dormem placidamente. Em todos os lodges, os refeitórios são aquecidos durante o dia pelo sol e à noite pelas salamandras, sabiamente, posicionadas no centro da peça. Se eu pudesse, dormiria nos refeitórios. Não há guest house no Solukhumbu que não tenha à venda cervejas, em especial, a San Miguel, de fabricação nacional apesar do espanholado nome no rótulo. Incrível a quantidade de trilhas que riscam a encosta do Gokio Ri rumo ao cume. Durante a janta, senta à mesa, onde estou com Nurbu e Nir, simpático e jovem japonês. Acabou de escalar o Island Peak. Pretende, ainda, fazer cume no Mera Peak e pra lá se dirige amanhã. Após temperar sua massa com a forte pimenta nepali, o rapaz protagoniza cena hilariante. Na primeira garfada, começa a suar em bicas não parando de comer nem mesmo pra secar o suor que verte abundante do seu rosto. Esfomeadíssimo, pede outro prato, dessa feita sem pôr pimenta, hahahaha. Coitado de Nurbu, queixa-se de dor de cabeça provocada pelo aperto da fita em sua testa presa às nossas 2 mochilas pra melhor equilibrá-las. Vem carregando esse fardo há 20 dias. Não à-toa, considero os porters os verdadeiros super heróis da vida real! Noite escura, 19 horas, minha atenção é desviada pra pequena procissão luminosa que desce a encosta do Gokio Ri. São lanternas de testa usadas por turistas que foram mais tarde fazer cume de modo a poder assistir ao pôr do sol. Putz, invejável decisão!