Pretendo com este blog descrever viagens que fiz e farei por este tão lindo planeta, resgatando da memória as impressões armazenadas, algumas já esmaecidas pelo tempo, outras prudentemente registradas pelo olho mágico das lembranças fotográficas.
O Piauí, estado pouco conhecido e subvalorizado no cenário turístico brasileiro, tem monumentos naturais surpreendentes. Em seu território, há 3 dos mais importantes parques nacionais, a saber: PN das 7 Cidades, PN da Capivara e PN das Confusões. O 1° fica ao norte do estado, situado entre Piracuruca e Piripiri, já os 2 últimos no sul, próximos às cidades de São Raimundo Nonato e Caracol, respectivamente. Todos os 3 foram por mim visitados em 2018. Retorno agora pra rever Osiel, vulgo Curiólogo, guia do 7 Cidades, homem nascido neste fundão de Piracuruca e profundo conhecedor da fauna e flora do cerrado nesta região. No assim chamado quintal do Curiólogo, casinhas construídas sobre rochas por seu irmão Edemar servem de moradia aos interessados em ali passar uns dias. É o que faço, assim me aquerencio por 5 dias, me hospedando numa casinha construída em cima duma pedrona bem alta por onde se chega através duma escada de madeira. As refeições faço na casa de Curiólogo, preparadas por sua mulher, a afável Laiane. Eles têm trigêmeos, chamados Uriel, Osiel e Calhandra. Como gosto de levar minha bike no carro, aproveito pra pedalar até 7 Cidades, distante sua entrada norte não mais que 500 metros onde revejo e conheço novas esculturas sedimentares criadas pela ação erosiva do tempo, como a Pedra do Triunfo, o mapa do Brasil, os 3 Reis Magos, só pra citar alguns. As pinturas rupestres aqui também se fazem presentes enfeitando as paredes das rochas claras de arenito. Mais que o conjunto escultórico rochoso foi a estória de Catirina que mais me encantou, despercebida quando ali estive em 2018. Parente de Osiel, por parte de mãe, José Ferreira do Egito se enfurnou numa gruta da Quinta Cidade pra proteger Martinho, filho epilético. Naquela época, segundo a crença, a epilepsia era considerada doença feia pelas gentes. Os ataques convulsivos, segundo eles, eram manifestações demoníacas se apossando do corpo de alguém. Pra remediar tal mal, deveria se matar o vivente pra expurgá-lo do capeta. Catirina é apelido dado à alguém que passa a viver numa gruta, aos ermitões em geral. Deixo o quintal do Curiólogo já com saudades de todos com quem convivi, como a falante Rose, sobrinha de Oziel, e a prestativa Maria, irmã de Osiel. Com elas, me banhei na piscina dos Milagres, situada próxima à portaria norte do parque. Resolvo, depois duma conversa com Osiel à noite, enquanto bebemos vinho, mudar meus planos e não mais ir pro litoral piauiense, por mim já conhecido em 2018, e conhecer novos atrativos. Assim, me mando pra Pedro II onde vou amarrar meu burro - hahaha, meu carro - na comunidade Caranguejo, mais exatamente no recanto do Dino. O lugar é muito maneiro, com um lindo jardim, piscina e construções feitas com pedras da região, lembrando as edificações italianas meridionais. Quando elogiei o lugar, Dino lascou "fui abençoada por ter nascido baitola, daí meu dom pra arquitetura". Fico 2 noites, comendo delicioso leitãozinho assado no forno de barro e bebericando excelentes caipirinhas. Aproveito pra conhecer a cachoeira do Urubu Rei, cujo acesso nem é tão cansativo por seus 14 km de ida> e volta mas pela trilha crivada de pedras. Vale a pernada, só não fico mais tempo me refrescando em seu poço porque eis que chega um grupo que confunde alegria com gritaria. O retorno a Pedro II subindo a estreita e sinuosa estradinha foi um tantinho tenso porque caminhões carregados de gente desciam a serra pra aproveitar o feriadão. E lá vou eu pro Castelo de Piauí em busca do canyon do rio Poti, viajando bons kms em estrada de chão batido, chegando na cidade a tempo ainda de fazer a navegaçao no canyon se não fosse a atitude mesquinha duma guia com quem tentei colher infos. Em sendo assim, durmo num hotel mequetrefe - não há bons hoteis na cidade - e a tarde vou conhecer o canyon. E lá vou eu num barco com mais 11 pessoas (o passeio em grupo sai 90,00 cada um), onde somos deixados numa prainha, ali ficando em torno de 1 hora e pouco nos banhando no rio, enquanto os 2 barcos existentes iam e vinham buscando os demais turistas no cais porque chegou uma excursão com 2 ônibus lotadaço de gente. Passada uma hora e tanto, nosso barco, nos apanha e nos leva por mais 4 km rio adentro onde os paredões se estreitam e se tornam mais imponentes. Gostei do passeio até porque o grupo era tranquilo e nao ficava berrando de alegria, só levantavam os braços vez por outra pra tirar fotos. Nao me perguntem o porquê, não entendi bulhufas. A próxima meta é conhecer os canyons do Viana, no sul do Piauí, motivo por que terminado o passeio me mando estrada afora, parando a 20 km de Castelo do Piauí pra conhecer a Pedra do Castelo, um conjunto de grutas e cavernas impressionantes. Dentro de seus salões, há dezenas de ex-votos deixados por romeiros que ali vão pagar promessas. É um lugar de peregrinação religiosa. Considero os salões onde estão as oferendas católicas lúgubres. Num deles, há o túmulo da antiga proprietária. Gostaria de tê-lo explorado melhor mas como tenho de continuar a viagem, foi vapt vupt. Paro pra dormir em Demerval Lobão, em outro hotelzinho furreca. O que vale são os donos, uma senhorinha e um senhorzinho muito queridos. Vale registrar a quantidade de cabras vagando pelas margens das estradas piauienses....hahaha. Bueno, de Demerval a Bom Jesus a viagem é um tanto demorada, chegando ali por volta das 15 horas. Após, visitar alguns hoteis, escolho um melhorzinho com piscina e tal. Dia seguinte, após reforçado desjejum, coloco o gps rumo aos canyons do Viana. A partir de sua entrada, é chão batido em bom estado, qualquer carro pode percorrê-lo. A travessia é impressionante: dezenas e dezenas de formações rochosas arredondadas, de cor amarelada, formam desfiladeiro donde emanam várias ramificações em ambos os lados. O trecho mais impressionante é de apenas 10 km,com paredões que variam de 20 a 120 metros de altura. O restante não apresenta muito impacto visual, já que é uma zona de catinga, bem esquálida. A vegetação é rasteira, salvo algumas árvores despidas de folhas e um que outro ipê florido de amarelo colorindo a paisagem. A parte de cima do cânion, inacessível, faz parte do Parque Nacional das Confusões. As gargantas secundárias são apelidadas goelas pelo povo da região. No meio do caminho, paro numa casa (tem wifi e servem refeicões) pra pagar o acesso à gruta do Viana que fica uns 500 metros adiante. Na entrada da trilha, há bancos, balanços e redes. Pra chegar na gruta, se percorre um estreito brete que desemboca na pequena concavidade que é a gruta. Sigo a viagem até a galinhada da Claudina onde paro pra almoçar, totalizando desde Bom Jesus 74 km. O lugar tem wifi e é bem aprazível, muito melhor que o anterior. Me divirto com a preocupação de Eramos, pai do Carlitos, marido de Claudiana, por eu viajar sozinha. Quando ele viu da casa dele que eu chegara, se tocou de lá mais a mulher pra curiar (assuntar). "Moça", diz ele, "uma andorinha não faz verão". Gostaria de ter ficado mais tempo conversando com eles, em especial Erasmo, gente fina, bom de papo, porém pretendo chegar hoje ainda no Tocantins. Assim, me mando estrada afora, agora, sim, enfrentando uma estrada ruim, com areia fofa que formava uma nuvem de poeira na frente docarro, impossibilitando a visão. E as queimadas rolando soltas! Dum lado da estrada o ceu bem azulzinho, doutro o ceu acinzentado pelas queimadas. Vencida a péssima estrada, passo por um lugar com um nome incrível: Morro Cabeça no Tempo!! Sigo estrada afora, já em rodovia bem asfaltada, atravessando Corrente e deixando, definitivamente, Piauí pra entrar na Bahia. Passo ao largo de Barreiras e Luiz Eduardo Magalhães, portento do agronegócio, baita duma cidade repleta de altos edifícios vistos de longe, da estrada. E fecho com chave de ouro a trip chegando à tarde no Tocantins pra dormir no Vale dos Pássaros, antes de retornar a Palmas uhuuu!!
Embora com feição típica de cidadezinha do interior, Taquaruçu é apenas distrito de Palmas, um bairro afastado 30 km da capital tocantinense, assentado nas encostas da serra do Lajeado; sendo assim seu clima é mais ameno. Além de suas óbvias atrações turísticas, as cachoeiras, exibe recantos pitorescos como o aprazível largo onde se localizam o Centro Cultural Circo Os Kaco e a Esfiharia Sahara, cujo dono, o Bruno, quando provocado, senta-se a mesa do cliente, mostrando ser bom de papo. E, claro, a praça Maracaípe circundada por casinhas coloridas com ares coloniais onde se instalaram botecos e restaurantes, point da galera taquaruçuense. A convite de Samuel, guia da região, me mando sexta de manhã pra Taquaruçu. O tempo nublado já dá pista de que a temporada da chuva está se aproximando. Observo, contudo, que, por ainda se estar na época da seca, as cachoeiras não se mostram exuberantes, exibindo a maioria minguado volume d'água. Samuel mais eu vamos almoçar no simpático Mandala, restaurante despretencioso que serve bufet de gostosa comidinha caseira. À tarde, a pedida é visitar algumas cachoeiras. Todas estão em propriedades particulares, daí a cobrança de ingressos que variam de 30 a 15 reais. Começamos pelas cachoeiras Escorrega Macaco e Roncadeira, ambas na mesma propriedade, à beira da TO 030, por isso é a mais visitada pelas agências de turismo. Na Roncadeira há possibilidade de rapelar os seus 70 m. A trilha, inicialmente, um tantinho íngreme, tem uma escadaria em declive, em meio à floresta de cerrado. Há bancos pra descanso ao longo do caminho. Não tem área de camping tampouco espaço pra almoçar, apenas um quiosque na entrada oferecendo algumas guloseimas e sanitários. A seguir, simbora pras cachoeiras do Evilson e Bugio, a leste de Taquaruçu. Continuando ainda pela TO 030 por algun kms, se quebra à esquerda, rodando uns 10 km por uma estradinha de chão batido até o Evilson. O lugar conta com restaurante, sanitários, redário e chalés. A trilha ida e volta às 2 cachus é de 1400 m e o seu nível é mediano. Embora não haja placa, a do Bugio começa um pouco antes de se chegar ao poço do Evilson e sua trilha é um tantinho mais perrenguenta. No final da tarde, encerramos a visitação nas cachoeira das Araras e da Bela Vista. Para tanto, retorno pela estradinha rumo à TO 030 e num encruzo, dobramos à direita rumo às cachoeiras das Araras e Bela Vista. A trilha até Araras é quase plana exceto o trecho final com degraus que conduz ao poço. Concordo com Samuel, é a mais linda em disparada de todas as que visitamos. Há um restaurante na propriedade. A Bela Vista é a que tem a trilha mais curta e de seus 2 mirantes se avista Palmas e o lago Tocantins. O por do sol ali é espetacular! Uma passarela de madeira conduz ao largo poço rodeado por espessa vegetação. Tem churrasqueiras e área de camping. No sábado, a pedida é dar um rolê nas cachoeiras Sambaíba e Vai quem Quer, mas antes paramos pra degustar na avenida Belo Horizonte, caldo de cana no Pau da Mentira, banquinha do seu Erotildes que, além do suco de limão misturado à garapa, acrescenta gengibre ralado, raiz esta cultivada em sua chácara. Uma delícia de caldo!! A primeira queda d'água pra onde vamos é a Sambaíba. Para tanto, pegamos a TO 030, como se estivéssemos retornando a Palmas, e alguns poucos kms rodados, dobramos à esquerda. Após 12 km, chegamos na Sambaíba. O lugar é top, ao contrário dos demais balneários cuja estrutura simples é despida de qualquer traço de sofisticação. Conta com bar e sanitários no lounge superior. À medida que se desce pela escadaria de madeira há um pequeno deck de madeira com poltronas e mesinhas donde já se vislumbra a cachoeira. Lustres de vime pendem das árvores. Continuando a descer a escadaria, se chega diante da cachoeira onde num grande deck de madeira estão espalhadas sofás, poltronas, mesas e banquinhos, além doutro bar. Tudo visa ao conforto de quem o frequenta. Vale ressaltar o atendimento solícito de Cowboy, o gerente do local. Pra encerrar a tarde, seguimos por mais 4 km até o vale do Vai Quem Quer, banhado pelo rio São João - afluente do rio Tocantins - que forma pequenas quedas d'água e poços, terminando a curta trilha de 300 metros na cachoeira Veu de Noiva. Ao largo do rio, quiosques com bancos e mesas espalham-se sob a sombra das árvores, sendo permitido aos frequentadores levar bebidas e comida, apenas pagando o ingresso, embora haja restaurante com comida self service. Obviamente, há sanitários. No sábado à noite, vamos dar um rolê pelo centrinho de Taquaruçu. Sentamos à mesa do Biroska debaixo duma frondosa mangueira. A noite está fraca, pouco movimento nos bares. Pra não dizer que a noitada passou em branco, eis que aparecem desfilando, bem garbosos, 3 cavaleiros montados em seus cavalos. Foi o máximo de agitação que rolou no sabadaço!
Rumo ao norte do Tocantins, a caminho de Lajeado, distante 50 km de Palmas, pego a TO 010, que segue paralela ao rio Tocantins, o que proporciona um cenário vistoso ao longo de quase todo o trajeto. Com dezenas de sítios particulares à beira d'água, alguns são abertos ao público como o Casca Grossa, do lado esquerdo da rodovia, pertinho de Lajeado, cujos donos são o amável casal de gaúchos que fabrica cerveja artesanal. O município conta tão-somente com quase 4 mil almas e sua importância turística, mal divulgada pelas autoridades competentes, apresenta inúmeros atrativos como praias de águas doces, cachoeiras nas encostas da serra do Lajeado e sítios arqueológicos de Canuto e Caititu, que abrigam paredões com pinturas rupestres. Morros como o do Segredo, do Leão e do Luau têm trilhas que conduzem ao seus topos donde se pode admirar vistas panorâmicas da região. Foi em Lajeado que construíram a barragem da usina hidroelétrica de Luís Eduardo Magalhães, transformando mais duma centena de quilômetros do curso do rio Tocantins em lago, começando em Ipueiras, passando por Brejinho de Nazaré, Porto Nacional, Palmas e terminando em Lajeado. Tal usina promoveu a independência energética do Tocantins e transformou o estado de importador a exportador de energia elétrica. Dentre os locais de lazer, um imperdível, não só porque entrada e estacionamento são gratuitos, é a praia do Segredo. Com uma estrutura que oferece quiosques, restaurantes, banheiros públicos, duchas e um píer de madeira, além de águas calmas e cristalinas, tem como cenário de fundo o imponente Morro do Segredo e as serras adjacentes. A cidade, em si, é agradável, tem alguns prédios antigos bem conservados como a Casa da Memória de Lajeado. O casarão de aspecto colonial, pintado de amarelo vibrante com aberturas brancas, abriga o passado histórico lajeadense. Vale uma visita à cachoeira Viva a Vida ainda no perímetro urbano. Atravessando a ponte dos Imigrantes que une margem direita à esquerda do Tocantins, distante 10 km de Lajeado, há dois outros balneários, Paredão e Funil, situados, porém, em Miracema, município vizinho à Lajeado. Paredão é sui generis: sua faixa de areia embora pequena é circundada por paredões com 30 metros de altura, tanto que se desce até a praia por uma longa escadaria de madeira. As bebidas e a comida - deliciosamente caseira - feita no restaurante, situado lá em cima, são levadas até embaixo por um engenhoso sistema de roldanas que impulsiona uma gaiolinha onde são colocados os pratos. Há barracas, mesas e cadeiras para se alugar. Também há acomodações para se passar a noite. Canoas, cujo preço varia conforme o trajeto, fazem passeios ao longo do rio. Já no Funil as acomodações são mais confortáveis pois suas cabanas, bem menos rústicas, imitam chalezinhos em formato triangular. O restaurante oferece café da manhã, almoço e janta com inúmeras opões no cardápio. Na temporada de verão - julho - há shows em que se apresentam bandas e artistas não só locais como de outros estados. Nos quiosques à beira d'água, vendem-se bebidas e tira-gostos. As águas claras e mornas do Tocantins exigem, entretanto, cuidado especial: a presença de arraias cujo pranchaço de suas caudas causa ferimentos bem profundos aos desavisados. Não à toa, há um movimento mortal no jogo da capoeira chamado "rabo de arraia". Claro que a região, no entorno de Lajeado, não se limita apenas aos atrativos catalogados como oficiais, alguns sem necessidade de guias, outros, contudo, exigindo a companhia de condutores credenciados pelo município. Lajeado, portanto, oferece tesouros secretos no seu interiorzão como sítios donde partem trilhas que descortinam a admirável paisagem das colinas que compõem as serras do Lajeado, como as da Fenda e do Vale do Sol, guiadas pelo tagarela guia Ezequiel. Já na trilha do córrego do Facão, cujo guia foi Natan, se caminha por trechos bem perrenguentos, exigindo alguns o auxílio de corda pois é bem íngreme, mas o objetivo é conhecer 3 cachus...enfim, tudo vale a pena quando a alma não é pequena!! O que pensaria Fernando Pessoa sobre essa sua frase ser usada por daqui e dacolá hein?! Outra pernada legal é a das cachoeiras Manaim, Tronco e Valadares, guiada pelo Alexandre, que faz parte de um dos muitos grupos de trekkers que há em Palmas. A do Tronco em minha opinião é a mais linda porque antecede à sua queda um apertado brete exibindo densa vegetação. Contudo, há controvérsia, porque muitos preferem a Valadares, talvez pela altura já que é mais alta que àquela. Não muito longe de Palmas, na estrada que conduz à Aparecida do Rio Negro, há um sítio administrado por uma figuraça, de apelido Zé Japão, que leva a gente pelo Circuito das Águas, caminhando por trilhas que atravessam grutas, uma delas impropriamente chamada de Caverna, onde figuras rupestres bem conservadas dão uma ideia do cotidiano de nossos antepassados, que viveram há mais de 10 mil anos, apelidados homens das cavernas. Mais adiante, o rio Macacão escava outra cachoeira, a da Capitu, desaguando suas águas no poção onde nos banhamos pra nos refrescar da árdua pernada e do sol escaldante. Noutro point, a estância Garra, nascem as cachoeiras do Mirante e das Raízes, assim chamada porque inúmeras raízes formam como uma cortina diante da queda d'água, seguida das 3 Quedas e Pau Ferro, terminando o passeio na pista donde saem os parapentes que sobrevoam a região. A trilha da Tartaruga, nos arredores de Palmas, pertencente ao Parque Estadual do Lajeado, foi guiada por Queiroz, experiente trekker, que dedica seus fins de semana a conduzir grupos de amigos e conhecidos pelas trilhas da região, juntamente com Alexandre e Luciano, este infelizmente, já falecido e profundo conhecedor da região. A trilha é bem exigente, tem que ser feita cedinho porque o sol castiga se sai tarde, queima como se você estivesse dentro duma fornalha tamanha a sensação de quentura envolvendo o corpo. Aliás, Palmas em certos dias, é a própria antecâmara do inferno hahaha. Ademais, a trilha, bem íngreme, já te faz suar mesmo que calor não houvesse! Como esquecer a cachoeira dos Degraus, das Três Quedas, cada uma mais linda que a outra. E atravessando a ponte FHC, eis a lagoa Azul, escondidinha nos arredores de Luzimangues. Este point é para poucos, quem quiser conhecê-lo que vá atrás das infos. Eu já nem lembro direito como chegar lá, assim, infelizmente, não posso ajudá-lo, caro leitor!
Após minhas andanças pela Galícia voltei à Guarda onde passei mais uns dias curtindo Mariatu e família. Como meu retorno ao Brasil está se aproximando, resolvo conhecer Salamanca, distante cerca de 160 km da Guarda e 200 km de Madri onde pretendo dar um pulo pra rever Michele, amiga querida que vive na capital espanhola há mais de 4 anos. Pois quase não perco o bus porque, equivocadamente, penso que a estação de camionagem fosse a mesma de onde partem os ônibus da Alsa?!! Pois não é!! Como o bus estava demorando pra chegar, fui perguntar no guichê da informação, e daí o rapaz disse que era na gare da avenida Joao de Ruão, na saída da cidade. Tive de pegar um táxi e numa corrida frenética - instando o motora a ir mais rápido e mais rápido, bem nervosa - consegui chegar a tempo graças ao atraso do ônibus...ufa!! Dia nublado, afinal, estamos no outono. Como sempre, sigo rodando em excelentes rodovias. A estação rodoviária de Salamanca, mais uma vez perto do hostal onde reservara meu quarto. Veja só, pura sorte que todos os hostels onde tenho me hospedado até então sempre fiquem perto da estação dos ônibus, dando pra ir a pé, embora eu nem sempre tenha me antenado pra esse detalhe. Meu hostal, a bem da verdade, é um pequeno hotel com um quarto super confortável, cujo preço é o mesmo dos hostels pelos quais passei, 25 euros. E bem perto do centro histórico!! Deixo minha mochila no quarto e me toco pra lá. Atravesso ao largo duma praça com muitos plátanos, alguns já com as folhas amarelecidas. Ingresso na cidade velha dando de cara com os prédios da igreja da Puríssima e o convento das Agustinas, construídos em arenito. Aliás, muitos dos prédios da cidade velha são feitos com esse tipo de pedra o que lhes conferem uma aura luminosa. Daqui pra frente, só prédios antiquíssimos como a igreja de São Martinho, em estilo românico, datada do século XII, bem perto da plaza Mayor, uma das maiores existentes na Espanha, lindamente iluminada à noite, horário em que bares, restaurantes e confeitarias ficam lotados tanto por turistas como moradores locais. Reservo 2 dias para explorar Salamanca porque me encantei com o que pesquisara na internete sobre a cidade. Portanto tive tempo de visitar e não apenas passar na frente de alguns pontos turísticos super interessantes como a Casa das Conchas, construída no final do século XV, cuja singularidade está em sua fachada decorada com aproximadamente 300 conchas, daquelas que os peregrinos recebem ao fazer o caminho de Santiago de Compostela. A caminho da Plaza Mayor, a vetusta fachada da Universidade de Salamanca, primeira da Espanha, fundada no século XIII. Diante da igreja de São Benito, uma estátua estilizada feita numa chapa metálica prateada homenageia na figura dum frade a tradição e o papel das confrarias na vida cultural e religiosa de Salamanca. Pago a visita às catedrais Nova e Velha de Salamanca, unidas uma a outra como se fossem siamesas. A primeira foi construída entre os séculos XVI e XVIII basicamente em dois estilos: gótico e barroco. Já a segunda, construída entre os séculos XII e XIV exibe estilos românico e gótico. A catedral Nova tem diversas capelas laterais ricamente adornadas e um baita órgão no meio da nave-mor. Na plaza Mayor, escolhi o restaurante Meson del Cervantes, situado no 1º piso. Os bocadillos são de encher os olhos, por mim provava todos mas impossível tanto pro bolso quanto pro estômago, assim acabo escolhendo 4 e peço uma taça de tinto pra acompanhar. Não me desapontaram, realmente, tanto o vinho como os canapés estavam muito bons. A culinária espanhola é deveras saborosa! Como eu chegara na cidade pelas 3 da tarde, não deu para visitar tudo o que eu planejara. Cansada de tanto bater perna pelo centro histórico, fui pro hotel descansar. Dia seguinte, passo diante da fachada de vitrais coloridos da Casa Lis, construída sobre as colunas da antiga muralha que cercava Salamanca. No seu interior, há um museu de art nouveau e art decó que, infelizmente, não visitei porque já estava curta de dinheiro. Atravesso a ponte romana que cruza o rio Tormes, donde da margem oposta posso desfrutar a bela visão de vários prédios da cidade velha, dentre os quais as torres das catedrais Nova e Velha. À tarde, pago ingresso para visitar as Torres de Clerezia no edifício da Universidade Católica donde se tem uma visão panorâmica do centro histórico. Valeu a subida até onde estão seus sinos embora íngreme e longa!! À noite, instalada numa mesa ao ar livre, protegida por amplo ombrelone, na plaza Mayor, com direito a estufa de gás porque tá batendo uma friaca, bebo uma taça de cavas, tipo de espumante existente na Espanha, curtindo a efervescência do lugar e o espetáculo de suas luzes acesas. Amanhã, estou embarcando pra Madri onde ficarei 3 dias curtindo a companhia de Michele, ulálá!!
Durante a viagem me toco que hoje estou fazendo 73 anos!! E me aventurando ainda por este mundão, e sozinha. Fico até emocionada com, enfim, minha trajetória de vida, e os olhos se enchem de lágrimas que eu, discretamente, enxugo. Chego na estação Sur às 16:30, Michele me aguarda, firme e forte, a querida. De lá vamos direto prum barzinho onde algumas colegas do trabalho irão nos encontrar. O tal bar é um autêntico botequim espanhol. Peço cavas e uns tapas. Pouca demora chegam as coleguinhas: Gabriela, brasileira, e Lucia, espanhola, todas muito simpáticas e festeiras, com aquela gana que as criaturas têm nas sextas-feiras. Ficamos bebendo, conversando sei lá até que horas, porque, Mi mais eu, saímos do bar já bebaças. Eu filmando e narrando nossa corrida de táxi....hahaha. Sábado ficamos em casa, já que meio ressaqueadas do tragoleu da noite anterior. Bem comportadas, vendo tv e conversando à toa....coisa boa!! Daí domingo, já recuperadíssimas, pegamos o metrô e descemos na plaza de Cólon onde, ao longo do Paseo de La Castella, estão instaladas estátuas estilizadas representando as Meninas de Velazques. E pra minha alegria dou de cara com o Real Jardim Botânico de Madri! Que beleza de lugar, o espaço reservado aos bonsais é interessantíssimo, existindo variadas espécies de árvores em exposição. Muitas árvores nas alamedas exibem a coloração laranja-avermelhada típica do outono. Mas não dá pra estender muito a visita porque vamos visitar o museu do Prado com direito a ingresso gratuito. Bah, cada obra de arte de tirar o fôlego, fico literalmente, embasbacada. Até então só tinha visto reprodução de As Meninas de Velazques em livros, hoje estou curtindo o original!! Quadros de Goya, Caravaggio, Bosch e tantos outros pintores famosos que saio de lá em estado de graça. Na segunda-feira, combinamos que irei buscar Michele à tardinha no seu emprego. Fico boa parte da manhã deitada, assistindo tv, e saio de casa perto do 1/2 dia. Pego o metro e desço, seguindo as instruções de Michele, na mesma plaza Cólon onde descerámos ontem. De lá retorno ao Jardim Botânico porque o passeio de ontem não me satisfez, quero curtir mais ainda daquela maravilhosa vegetação ali existente. Saciada minha vontade de estar no meio da natureza em plena urbe madrilenha, saio em busca dum local pra almoçar mas quero algo leve porque vamos no final da tarde ao mercado de San Miguel. Fico batendo perna e comprando lembrancinhas pra presentear algumas pessoas até o momento de ir encontrar Michele. Subo até o escritório onde a amiga trabalha e espero que ela conclua seu expediente. De lá vamos até San Miguel. É de lei pra mim, vir a Madri e não ir a este mercado, é como ir a Roma e não ir ao Vaticano. Escolhidos os tapas e bocadillos, sentamos cada qual com uma taça de vinho jogando conversa fora até o momento de regrassarmos à casa. Terça, então, pego um voo até o Porto donde sai meu voo de regresso ao Brasil. Nem bem saí da Espanha e já estou com saudades de tudo, da Mariatu, Bibi, Jean, Gaudencio e Michele....adios, adeuzinho, queridos e queridas, hasta la vista, até mais ver, pois pois!!
Conversando com Enrique (lembram do mexicano hospedado no mesmo hostal onde eu estava em Valença?), mudo de ideia e resolvo conhecer além de Vigo também Pontevedra, ambas cidades localizadas na Galícia, (província autônoma espanhola) à beira do Atlântico. De Valença a Vigo são apenas 20 minutos por uma autoestrada excelente. A cidade de cara já dá uma noção de quão grande é, afinal tem cerca de 300 mil habitantes. Fico meio atordoada caminhando por ruas com trânsito intenso de veículos já que as cidades por onde andara tinham em média 40 mil criaturas. Depois de deixar a mochila no hostal onde reservara um quarto, - o pior de todos os que eu estive: um ape escuro com uma vibe estranha....gostei nadica de nada dele - me mando pro centro histórico e me deparo ao longo do caminho, com um canteiro no meio da rua, onde várias bananeiras foram ali plantadas!! Nada de notável na Cidade Velha, a não ser o enorme porto, um dos melhores portos naturais do mundo que deu origem a esta cidade rodeada de montanhas. Depois dum almojanta num restaurante perto da Catedral, volto pro hotel já noite e paro num bar com mesas nas calçada onde peço uma taça de vinho branco. As ruas molhadas da garoa que caíra há pouco refletem as luzes dos postes já acesos. Dia seguinte, cheia de boas expectativas sobre Pontevedra, pego o busão na grande rodoviária de Vigo e em 20 minutos estou lá. Embora o tempo também esteja nublado como em Vigo, após deixar minha bagagem no hostal bem maneiro que reservara, vou bater perna pela cidade animada com sua boa vibe que senti assim que desci do ônibus. Passo por uma delicatessen que vende apetitosos pratos como carnes, saladas, empadões, croquetes (comprei 4: deliciosos), sobremesas, enfim, você monta uma refeição completa pra levar pra casa. Pernis de presunto pata negra pendurados de ganchos no teto e outros embutidos além de queijos completam o acervo de víveres do lugar. Mais adiante uma peixaria exibe em bandejas cheias de gelo desde gordos badejos a frutos dos mar como camarão, polvo, calamares, berbigão, vieiras, ameijoas e outros bivalves que eu nem suspeitava da existência. E pra completar meu delírio por vitrines de comidas, uma confeitaria me deixa babando com as variedades de doces à mostra, destacando-se as cristinas, uma espécie graúda de bomba recheada com nata e frutas e o bolo de Santiago, feito de amêndoa, enfeitado com a espada do Peregrino. Passo ao largo da interessante construção arredondada do Santuário da Peregrina, prédio rodeado de andaimes, pois está em processo de restauração. Pra tirar fotos é uma pena que tal esteja acontecendo. Chego no centro histórico onde diante duma praça está a igreja de São Francisco, estilo gótico, enfeitada com altares laterais; ao lado o convento dos franciscanos que atualmente é sede da Secretaria da Fazenda, apenas no último andar, ainda, vivem alguns monges. Continuando meu rolê vou até o Mercado Muncipal de Abastos onde são vendidos frutas, verduras, queijos, peixes e variados frutos do mar. No andar de cima, pequenos quiosques preparam na hora pratos com os produtos locais. Dois barcos pendurados do teto enfeitam o imenso salão onde se espalham mesas e cadeiras. Escolho calamares empanados na farinha de trigo (delícia pura) e uma taça de verdejo. O mercado foi edificado propositadamente diante do rio Lérez de modo a facilitar o desembarque de pescados e outros produtos marítimos oriundos do Atlântico. O rio é pouco largo e une-se a outra margem pela ponte do Burgos, construção datada da Idade Média. Depois da pausa pro almoço, continuo a bateção de perna no emaranhado de pequenas ruas, onde as fachadas costumam ter balcões envidraçados, alguns graciosamente ornamentados e pintados de branco. Casualmente, me encontro na Plaza de las 5 Calles onde cinco ruas se encontram num pequeno largo. Em frente a casa onde viveu Ramon del Valle Inclán, escritor galego, precursor do realismo mágico. Dizem as boas ou más línguas, que sei eu, que ele se mudou pra cá pra poder fumar seu baseado em paz, combustível inspirador, talvez, de sua prosa fantástica. Atravesso a plaza Espanha, marco inicial da cidade velha, rodeada de vários prédios imponentes. Apesar do tempo úmido e nublado, os pontevedrinos curtem seus cafés e bares, seja em mesas nas calçadas ou nos interiores dos estabelecimentos. Vou até o hostal descansar um pouco, afinal, bati perna pra caramba. Alojado num prédio moderno, conta com um enorme quarto onde se dispõem 20 beliches. Cortinas diante das camas fornecem a necessária privacidade. A área comum tem geladeira, microondas, fogão. Bons banheiros masculinos e femininos. As toalhas são alugadas a 1 euro. Como é baixa temporada, o hostal não tá lotado. A maioria dos hóspedes está fazendo o caminho de Compostela. Quando a noite cai, saio na cata dum bom lugar pra jantar e encontro a pulperia Casa Fidel. Ali peço, de entrada, zamburinas a la plancha, que vem a ser vieiras; de prato principal o clássico pulpo a feira: cozido em água, cortado em pedaços, são postos sobre uma táboa de madeira e temperados com azeite, sal grosso e páprica, acompanhado de batatas cozidas na mesma água onde ferveu o polvo. É de comer suspirando de...prazer!! Pra arrematar a refeição, um flan gelado imerso em calda de frutas. Acompanha a refeição, um alvarinho geladinho! A noite pontevedrina está fervida, os bares cheios de gente, não sei se porque é sexta-feira ou se é assim todos os dias. Fico vagando um pouco pelas ruas estreitas do centro histórico com suas construções feitas de granito o que lhe confere um certo quê austero em razão da coloração escurecida da pedra. Numa pequena praça, uma linda fonte na frente dum café, noutra maior, eis a estátua de Ramón del Valle Inclán, com fraque, óculos de aro arredondado e bengala, diante dum restaurante com as mesas quase todas ocupadas. Arcadas marcam a passagem de certas ruas conferindo um ar misterioso às vias. Imagino donzelas apressadas, saindo furtivamente de alguma taverna, escondendo os rostos nos capuzes largos das longas capas que cobrem seus vestidos. Aaahhh...essa Idade Média que gostaria tanto de tê-la conhecido pra espreitar sua vida cotidiana. Como não há um túnel do tempo, só me resta imaginá-la!
Convido Enrique, o peregrino mexicano, também hospedado no hostal, pra dar um rolê em Tui. Ele aceita prontamente e lá nos tocamos pra margem direita do rio Minho onde se localiza aquela cidade espanhola. Saimos pela porta da Gaviarra, empunhando, prevenidamente, eu, um guarda-chuva, ele, a capa de plástico de peregrino. A travessia entre Valença e Tui pode ser feita pela antiga ponte de ferro onde transitam veículos e pedestres ou pela moderna ponte ferro-rodoviária. Escolhemos a de ferro por ser mais interessante com sua estrutura metálica que lembra uma comprida gaiola. Quando chegamos no início da ponte, começa a chover às ganhas. Ainda tentamos avançar, pero se torna impossível continuar tamanho o volume de água que desaba sobre nós. Damos meia-volta, ambos frustrados, fazer o quê, né? Pois quando estamos nos aproximando da porta da Gaviarra, para de chover e uma réstea de sol aparece no ceu! Olho pra Enrique e digo "vamos voltar!". Ele fica, assim, meio indeciso porém diante de meu tom enfático, me segue e mais uma vez rumamos em direção à ponte. O rio Minho exibe na margem esquerda, a portuguesa, árvores com folhas de uma tonalidade lindamente amarelada. Da ponte, já dá pra observar o contorno da enorme catedral espanhola pois se ergue sobre uma colina. Ao chegar a Tui, uma placa azul indica Espanha, outra a Comunidade de Galícia e a terceira que esta é a província de Pontevedra. Portanto, já estamos pisando em terras de Espanha...olé!! Seguimos por uma rua paralela ao rio e a imponente e maciça catedral torna-se mais e mais avistável. Fácil de achar o centro histórico, basta seguir rumo às torres do templo católico. Aliás, torres de igrejas são uma bússola pois, geralmente, são edificadas a boa altura pra que o bimbalhar dos sinos se faça ecoar claramente ao redor. A origem de Tui remonta a tempos romanos, demonstrando, assim, o poderio e alcance daquele império. A partir da catedral amuralhada, a cidade cresceu, tornando-se um centro cultural, econômico e militar. Suas ruas, como todas as cidades medievais, seguem traçados sinuosos e estreitos, um dos motivos por que foi declarada conjunto histórico-artístico. Conta, entre seu patrimônio arquitetônico, além da catedral de Santa Maria em estilo românico-gótico, com outras igrejas. Destaco apenas a de San Francisco, porque foi a única onde entrei. O belo templo neoclássico surpreende por lindas estátuas de santos que adornam nichos espalhados pelas naves laterais. Tui, assim, como Valença, conta com uma pequena população em torno de 18 mil habitantes. Como venho a descobrir, estou numa zona que faz parte do traçado do Caminho Português da peregrinação a Santiago de Compostela. E Tui vem a ser um dos pontos de partida desta rota já que a distância até Santiago de Compostela perfaz apenas 120 km, ao contrário se o ponto de partida for Lisboa (600 km) ou Porto (280 km). Ideal pra quem não quer ou não pode demorar muito em chegar à Santiago. Embora o Caminho Português seja a segunda rota mais popular para Santiago de Compostela, continua a ser relativamente pouco concorrido. Pra receber a Compostela, o documento que atesta que você fez a peregrinação, tem de ter andado o mínimo de 100 km. Existem várias rotas para Santiago de Compostela, mas as mais conhecidas e percorridas são o Caminho Francês (o mais famoso e lindo, saindo da França), o Caminho Português, o Caminho do Norte (pela costa norte da Espanha), o Caminho Primitivo (o mais antigo, saindo de Oviedo), o Caminho Inglês, a rota marítimo-fluvial e a Via de la Plata (do sul ao norte da Espanha, é o mais longo). Cada um oferece paisagens e desafios diferentes, mas todos levam ao mesmo destino: a Catedral de Santiago. Depois dessa enxurrada de infos históricas, vamos às minhas impressões pessoais sobre Tui. Pouco me agrada o centro histórico, pesado, em especial, a catedral, construída como uma fortaleza, que intimida e não acolhe como as igrejas em Valença. Batemos um pouco de pernas pelas ruelas atravessando passagens cobertas que desembocam em outras ruazinhas onde se tem, aí, sim, a bela visão do rio Minho. Vamos conferir o restaurante que Ernan indicara ontem à noite. Chegamos casualmente ao Viejo Caballo Furado cujo amplo salão é bem simples. Semelhante a muitos restaurantes europeus, oferece menu do dia que consiste numa entrada, prato principal, sobremesa e bebida. Escolho de entrada "boquerones en vinagre" e de prato principal "merluza la plancha", de sobremesa "tarta de santiago" e um tinto pra acompanhar a refeição. A garçonete demonstra má vontade ao explicar, quando indagada, em que consistem certos pratos, como se eu tivesse a obrigação de saber a sua composição. Só demonstra simpatia ao trazer a conta. Não dou gorjeta pra rapariga! Após o almoço, vamos a cata duma loja China pra eu comprar uma usb pro meu carregador de celular pois esquecera a minha em Aveiro. Acho caro e retomamos a caminhada de retorno a Valença, eu mais Enrique. Pois não é que a chuva retorna com certa intensidade?! Ao passar por uma loja, tipo armarinho, vejo penduradas na porta as tais capas de plástico usadas pelos peregrinos. Entro e compro uma azul, cor do meu Grêmio. Como vou ficar mais alguns dias viajando e o tempo só promete chuva, preferível ter, além de guarda-chuva, uma capa que melhor protege da chuva. Enquanto atravessamos a ponte, retornando a Valença, abaixo, no rio, dois remadores conduzem seus caiaques acompanhados por um barco....devem estar treinando. Adios, Tui!!
Pesquisando roteiros pra continuar minhas andanças pela península ibérica, me interesso pela Galícia, não especificamente pela galega Santiago de Compostela, destino final dos peregrinos, pero pela localização daquela comunidade autônoma espanhola à beira do Atlântico. Deve, por isso, oferecer variedades de pratos à base de frutos do mar que curto à beça. Como Valença fica fronteiriça à Espanha, a poucos kms de Vigo, parto de Aveiro rumo ao norte. Decorridas quase 4 horas de viagem de bus, tendo visto de revesgueio Porto e Viana do Castelo, chego a Valença ou Valença do Minho. A histórica cidade, fincada no norte de Portugal, tem apenas 16 mil habitantes. Saio da estação de camionagem e sigo o google maps que indica estar meu hostal a 2 km de distância. Não tenho a mínima ideia do que irei encontrar, apenas sei que o hostal fica próximo à cidade histórica. Sigo firme e forte seguindo a orientação da bússola digital, atravesso um parque onde numa das várias bolas coloridas dispostas ao longo do caminho, lê-se a inscrição "Pedras no Caminho" (deve ser referência à peregrinação). De repente, eis-me na frente duma muralha que antecede outra muralha onde uma baita porta encimada por um brasão desemboca numa praça cujo chão está f0rrado das folhas caídas das árvores... afinal, estamos em pleno outono. No lado direito, a capela de São Sebastião. Estou boba de tão feliz!! Uma cidade histórica super preservada com uma muralha a guardá-la por inteiro!! Não são só ruínas daquela época medieval!! Mas todo um magnífico conjunto arquitetônico datado de séculos atrás! Continuo caminhando pelo que parece ser a rua principal, com lojas de roupas em ambos os lados das 2 calçadas. Num largo, a igreja de São Teotônio, padroeiro da cidade, rodeada por restaurantes. Meu hostal, um prédio antigo, construído em granito, fica numa viela perpendicular à principal. Pra entrar, o dono envia um código que digito no porteiro eletrônico e a porta se abre com um clique. Muito tri o hostal, parece casa de vó, super aconchegante. No 1° piso, sala e cozinha, tudo novo e bem equipado. No aparador de madeira, produtos para o desjejum estão à mostra, juntamente com louças, talheres, cafeteira e torradeira. Chocolates, vinhos e cervejas estão à venda. Sofá e poltronas num canto da sala além de enfeites nas paredes e sobre prateleiras. Um ambiente colorido e moderno num prédio que deve ter, sei lá, centenas de anos. No piso superior, um quarto com 5 beliches e 2 banheiros. No piso térreo, outro quarto com mais 5 beliches e 2 banheiros. O dono, argentino de Buenos Aires, radicado há muitos anos em Tui, pede que a gente não suba de sapatos pros dormitórios. Homem agradável, falante como um bom hermano que é. Guardo minha mochila no armário que fica no 1° piso e trato de explorar a cidadela. Famosa por suas impressionantes muralhas medievais que protegem um centro antigo rico em história, comércio e arquitetura, Valença situa-se na margem esquerda do Rio Minho, baliza geográfica entre Portugal e Espanha. O acesso pode ser feito a pé à espanhola Tui, bastando cruzar o Rio Minho pela ponte de ferro. Ao longo da rua principal, muitas lojas vendendo roupas de cama, banho e infantis além de artesanatos em palha e cerâmica. A maioria dos prédios antigos foram recuperados, incluido aí o do hostel onde estou hospedada. Só quero conhecer de Valença seu centro histórico e mais não me interessa porque a cidade me pareceu desinteressante durante o trajeto que fiz da estação de camionagem ao centro histórico. Tenho um mundo a explorar, a começar pelas estreitas ruelas assim construídas pra dificultar a passagem dos exércitos inimigos. Naquela época, Portugal e Espanha estavam divididas em reinos que viviam peleando entre si. Daí as cidades serem fortificadas. A maioria foi destruída, contudo esta se manteve intacta...aleluia!! Os seus 5 km de muralhas, que remontam ao século XVII, formam um complexo militar formado por expressiva rede de baluartes e de áreas que se comunicam entre si por meio de fossos, pontes e passagens inferiores, exibindo ainda bastiões e guaritas. Todo o conjunto permitia uma grande área de visibilidade e de fogo, constituindo-se assim uma “obra maior” da história militar portuguesa. A fortaleza divide-se em duas áreas interligadas pela denominada Porta do Meio. A área norte, chamada Magistral, envolve o núcleo medieval da vila e a área sul, menor e mais aberta, com função meramente militar, denomina-se “Coroada”, dá vista para o rio Minho e Tui. Há várias portas como a da Coroada, a do Sol, a da Vila, a da Gaviarra, a da Cadeia. Atravesso algumas delas e me delicio ao passear por seus corredores escuros desembocando em áreas claras como num passe de mágica. Ao ver a famosa concha dos peregrinos insculpida no chão da rua principal, diante da Porta do Meio, cai a ficha que Valença faz parte da rota portuguesa do Caminho de Santiago de Compostela, atraindo centenas de peregrinos. Aliás, conheço dois, um mexicano, pessoa agradável e de fácil trato, o outro, argentino também de Buenos Aires, é um tipinho arrogante que resolve implicar comigo. Por eu ser mulher, por ser brasileira? Ou pelos dois? Volta e meia faz questão de frisar que não entende nada do que eu falo em português. Comenta o boçal que também não entende o falatório da sua mulher, uma portuguesa, daí os 2 se comunicarem em inglês. Se diz professor de inglês mas não sabe o significado de bulwark (nome do hostal) tampouco de trendmill. Pode um profe de inglês ignorar o significado dessas 2 palavras no idioma de Shakespeare? Eu hein? Ronca que nem uma serra a noite toda, tanto que o mexicano na primeira noite me confessa que mal pode dormir por causa dele. Eu, na segunda noite, mesmo curtindo uma série na Netflix com meus fones de ouvidos, custo a pegar no sono por causa do roncador!! Fico 2 dias na cidade, um pouco porque chove e não adianta seguir viagem já que em toda a região o mesmo acontece, outro porque estou adorando a cidade e o hostal. Ah, a única coisa boa que deu pra aproveitar do argentino pelotudo foi que fico sabendo que há mais de 20 caminhos de peregrinação a Santiago de Compostela. Pela primeira vez, me interesso em fazer umas das caminhadas. No primeiro dia na vila, apenas passo pela frente da pequena e atraente capela do Bom Jesus, entretanto entro não só na igreja Matriz de Santo Estevão como na de Santa Maria dos Anjos que remonta ao século XIII. Bem preservado o marco miliário, construído pelos romanos e datado do século I DC, indicava a distância entre cidades. Na rua principal, uma das tantas lojas de roupas chama atenção pela sua fachada adornada com ricos azulejos: é a Casa Azul. Vagueio a esmo e numa das andanças, entro num bar e peço uma taça de vinho, sendo atendida pelo simpático garçon colombiano. Como tem gente deste país aqui em Portugal! Amanhã, se o tempo permitir, vou conhecer Tui e já tenho dica dum restaurante que me foi dado pelo Ernan, dono do hostal.