terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Guiné Bissau

Há 3 rotas aéreas pra ir a Guiné Bissau com conexões em Marrocos, Cabo Verde e Lisboa. Escolho a última não demorando mais que 4 horas no aeroporto português. No voo Lisboa-Bissau, sentada ao lado dum homem cuja cor retinta de tão preta, como dizia minha vó, revela sua inequívoca origem africana, trato de puxar assunto. Conversa-vai, conversa-vem, quando pergunto se a mãe dos filhos mora em Bissau, o simpático guineense declara não sem uma ponta de malícia que está desbloqueado (?!) hahahaha. Inquieta, com câimbras nas pernas, trato de passear no avião, terminando a caminhada na fila do toalete, bom lugar pra se bater um papo. A mulher, que lá se encontra, comenta que vem de 2 costelas, lançando mão dessa imagem pra explicar sua ascendência guineense-cabo verdiana. Falante, esclarece com autoridade que “os homens são uns malandretes, uns safados.” Um rapaz, também aguardando sua vez de ir ao toalete, confirma, sorridente, a observação. Mas o que fazes, senhorinha, metida num avião a caminho da quase desconhecida Guiné Bissau, hein? Indo ao encontro de Raul que vive e trabalha em Bissau, capital do país! O que não se faz por um filho, não é mesmo? Nunca em meus planos ou sonhos cogitei visitar a África. O foco sempre foram as altas montanhas, motivo por que considerava até então os Andes na América do Sul e o Himalaia na Ásia suficientes pra me proporcionar toda a dose de aventura desejada. Só terminada a viagem, já no Brasil, foi que senti às ganhas a importância de ter conhecido uma parte do continente africano....valeu, Raul Luar!! No pequeno aeroporto de Bissau, Raul me espera juntamente com Frederico e Carlos, vice-cônsul brasileiro. Tenho apenas vislumbres de ruas ora escuras ora iluminadas enquanto sou conduzida até o apartamento onde ficarei hospedada, gentilmente, cedido por outro amigo de Raul, o Jorge, português que trabalha como optmetrista numa ótica 6 meses por ano. Nesta noite, conversamos deitados lado a lado na cama de casal, eu e Raul até quase amanhecer: o filho, animadíssimo, cheio de assuntos, tem muito a me contar. Não consigo ainda atinar porque Raul preferiu vir pra Guiné Bissau, onde 2/3 da população vive abaixo da linha da pobreza. Pouco maior que Alagoas, sua população não supera 1 milhão e oitocentas mil pessoas. Situado na costa ocidental da África, banhado pelo oceano Atlântico, seu relevo, predominantemente plano, revela savanas no interior, ao passo que o litoral, formado por planícies pantanosas, é constituído por cordões de ilhas denominadas Bijagós. O clima tropical exibe duas estações: a chuvosa e a seca. Estamos agora no período da seca, com dezembro e janeiro sendo os meses mais frescos. Mesmo assim, as temperaturas se mantêm elevadas devido aos ventos quentes vindos do deserto do Sahara que enchem a atmosfera de poeira. Meu primeiro dia em Bissau é impactante!! Grave problema detecto de cara em Bissau: sem lixeiras e aterro sanitário, o lixo é jogado ao léu nas ruas e ali mesmo queimado! Tal desleixo, gravíssimo, mais do que o feio impacto estético causado envolve riscos à saúde pública. Apesar disso abstraio (fazer o quê, né?) e deixo a cidade e seu ritmo alegre me envolver enquanto passo ao longo das ruas de chão batido, poucas com calçamento. Embora localizada no estuário do rio Geba, impraticável banhar-se em suas águas pois é zona de mangue...uma pena! Não canso de admirar a coloração de pele dos guineenses: tal qual pérola negra (licença, viu, Luiz Melodia?), brilha, sedosa, sem mescla alguma. Movimentada, a zona central da cidade, chamada praça, é ocupada por dezenas de vendedoras de comida envoltas em seus trajes coloridos que, sentadas às calçadas, apregoam em voz alta seus produtos: mariscos, polvos, lulas, camarões, peixes, carnes, galinhas vivas, fatias de côco, bananas, laranjas já descascadas, mamões, abacaxis em rodelas, ovos cozidos, castanhas de caju, amendoim. Homens, escarrapachados em cadeiras, trocam euro por franco CFA a um preço um pouco melhor que nos estabelecimentos bancários. Compro uma banana e uma fatia de abacaxi que vem a ser meu café da manhã. Mulheres passam por mim carregando comida em bacias de plástico aninhadas sobre as cabeças. Como vim a descobrir mais tarde, foram elas que utilizando este expediente astucioso conseguiram repassar armamento e munição aos soldados guineenses que lutaram na guerra contra os portugueses no século passado. Guiné Bissau, como entidade soberana, é um bebê ainda: apenas, em 1973, logrou declarar sua independência de Portugal! A população pode ser dividida nos seguintes grupos étnicos: fulas (por serem nômades se espalharam por toda África) e os povos de língua mandinga, que compõem a maior parte da população; há ainda os mandjacos e balantas (2 primeiras etnias guineenses a estudarem no exterior), mancanhas, saracules, pepel e bijagós. As crenças tradicionais africanas convivem bem com o islamismo professado por metade da população. A economia do país depende principalmente da piscicultura e da agricultura, destacando-se as culturas da castanha de caju e amendoim, principais produtos de exportação. Almoço nos dias em que permaneço em Bissau no restaurante Bayana, lugar aprazível, com caramanchão feito de vegetação artificial e mesas de pneus. O menu com pratos típicos é bem gostoso, destacando-se mancara com citi (galinha com creme de amendoim). Provo os sucos de veludo e cabaceira e os acho meio sem graças. Bueno, o plano é passar o natal em Bubaque, uma das 20 ilhas habitadas das 88 pertencentes a Bijagós, não ultrapassando a população do arquipélago 33 mil pessoas. Devido à sua biodiversidade, desde 1996, Bijagós foi declarada pela UNESCO Reserva Ecológica da Biosfera. Há 2 parques nacionais espalhados pelo arquipélago: o de Orango e o Marinho de João Vieira e Poilão. Pousadas apenas em Bubaque, Rubane, João Vieira, Orango e Kere. Embora o estilo musical predominante em Guiné Bissau seja o gumbé, em Bijagós reina o kundere. Na ilha de Orango, o sistema matriarcal faz com que as mulheres escolham seus homens. Pra tanto, preparam um prato à base de peixe, deixando-o à porta das tabancas onde eles vivem. Se for comido, significa que o cara aceitou. Então, dia 21, nos mandamos pra Bubaque num barco que, além de comportar nos 2 deques pessoas e suas bagagens, carrega cachorros, galinhas, porcos e carneiros!! Até todos se acomodarem a bagunça é grande mas quando o apito soa indicando que o barco está prestes a zarpar todos estão sentados em seus lugares. Um pequeno bar, no deque inferior, vende batatas fritas de saquinho, a apreciadíssima sande (sanduíche) recheada com fígado ensopado, refris e cerveja. Há passageiros, contudo, que levam viandas, geralmente com peixe e arroz, pra comer durante a travessia. Pouquíssimos turistas, além de mim e Raul. Normalmente, os 73 km de Bissau a Bubaque é feito em 4 horas, entretanto devido à avaria em um dos motores, a viagem arrastou-se durante 6 horas!! Ao longo da travessia, na vastidão do Atlântico, enxergo 2 ilhas, a grandota das Galinhas e outra bem pequena em que pontões rochosos afloram à beira d’água. Ao entardecer, dois espetáculos: a oeste, o pôr do sol torna o céu deliciosamente incandescente, ao passo que, a leste, a lua cheia brilha no céu sem qualquer respingo de nuvem. Chegamos à noite, no porto há muita gente esperando parentes e amigos. Apesar de todo mundo ansioso pra desembarcar, por o pé em terra firme há bem pouco empurra-empurra. Vamos direto à pousada Cruz Pontes onde ficamos hospedados durante os 5 dias de nossa permanência em Bubaque. Simples, os quartos têm banheiro e ventiladores. Os com ar condicionado custam mais caro. O café da manhã é básico: pão, margarina, geléia, nescafé, chá, leite em pó e água quente numa térmica. O dono, Seu Paulino, embora de poucas falas, sempre sorri quando o cumprimento. Algumas ruas em Bubaque são ladrilhadas com conchinhas de modo a evitar a erosão. No mercado, diante do porto, mulheres vendem coquinhos de dendê, mariscos, mexilhões e outros frutos do mar. Agitação intensa enquanto cargas são transferidas do cais ao interior das pirogas. Aos desavisados parece que as pessoas vão brigar, contudo é o jeito de ser dos guineenses, falando alto, de forma enérgica, cuidando pra que seus pertences sejam acomodados em segurança. Quando partem, a calmaria se instala no porto restando apenas o bailado leve das gaivotas voando sobre a água esverdeada do canal que separa Bubaque de Rubane. O ar refresca um pouco à noite, já durante o dia é deliciosamente cálido. Dia seguinte, vamos eu, Raul e Antonia, uma brasileira, naturalizada alemã, que conhecemos durante a viagem de barco, pedalando até Bruce, linda praia, localizada na ponta sul da ilha. São 15 km de estrada plana, chão batido, cercada por densa vegetação. Dentre as variedades de árvores, destaca-se a palmeira do dendê, donde além do óleo é extraído vinho. Esta bebida, conhecida como vinho de palma, pode tanto ser consumida fresca quanto fermentada, adquirindo assim certo teor alcoólico. Ao longo do caminho, em ambos os lados da estrada, despontam aldeias, chamadas tabancas, com suas moradias de adobe e teto de palha. Em Bubaque há 7 tabancas, cada uma com 2 mil pessoas, sendo, portanto, a ilha mais populosa do arquipélago. Crianças saem correndo das casas gritando “branco, branco” quando nos vêem passar. São encantadoras e não se negam em ser fotografadas ao contrário de suas mães que fazem gestos negativos quando percebem que estou apontando a câmera em suas direções. Homens em bicicletas carregam nos guidões galinhas vivas e varas com peixes. Ao chegar a Bruce, o mar verde, calmo, levemente morno, convida a prolongados mergulhos em suas águas onde balouçam barcos coloridos ancorados a 100 metros da praia. Almoçamos no restaurante de Mana Fatu 1 garoupa inteira com batatas fritas e salada, regada a refeição a Cacho Fresco, um branco português bem geladinho. No terreiro da propriedade, desenvolvem-se os preparativos pra inauguração da pousada de Manu Fatu. Ao ar livre, sobre trempes, onde abaixo a lenha, já em brasas, arde, enormes tachos contendo arroz com carne, dobradinha e chep jhed (molho feito com pedaços de cebola, pimenta, cenoura e pimentão) cozinham. Vez por outra mulheres com compridas varas de madeira remexem o interior dos panelões donde saem fumarolas e bons odores. Como temos horário pra entregar as bicis alugadas, não podemos ficar pra festa que terá apresentação de música e dança kundere!! Mas o que é do homem o bicho não come hehehe!!! Na véspera de natal, eu, Raul, Antonia mais 2 dinamarqueses vamos de lancha a Rubane onde, no resort Ponta Anchaca, almoçamos e assistimos ao cair da noite sabem ao quê? Show de kundere!!! Durante a dança, os dançarinos carregam chocalhos feitos com tampinha de refrigerantes que ecoam agradável som metálico em contraponto à batida seca dos tambores executados pelos percussionistas. Costurados às vestimentas das dançarinas objetos de metal e vidro mais pulseiras de madeira atadas aos tornozelos complementam a percussão. Emocionante reconhecer a origem do samba no batuque dos tambores e nos passos de dança!! Entretanto, a complexidade e variedade dos movimentos corporais dos dançarinos de Kundere, em especial dos pés, superam em muito os de nossos sambistas, exigindo extraordinário vigor e preparo físico. Claro está que retornei a Bubaque em estado de graça!! Dia de natal, Melchior, dono da Saldomar, rústica e charmosa pousada, prepara lauto almoço para hóspedes e não-hóspedes. O catalão adora contar a bruta e complicada relação com o pai, terminando a narrativa com a dramática revelação de que seu viejo, um homem duro, que nunca chorara, desmanchou-se em lágrimas, pouco antes de morrer, pedindo-lhe perdão pelo fato de ele, Mechior, ser gay. Finaliza dizendo em alto e bom som “tengo cojones” enquanto bate no peito, pra provar ao interlocutor que embora homossexual é macho pra caramba. Escutei 3 vezes essa estória sem que houvesse qualquer floreio a mais ou a menos, até os socos no peito foram 3! Manhã seguinte, retornamos a Bissau, alugando uma lancha que vence em 1 hora e 20 minutos o que demoráramos 6 horas na viagem de vinda!! Temos pressa, amanhã bem cedinho estamos indo pra Dakar passar o ano novo!

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Los Macho...Cados

Bueno, lá vou eu junto com Fernando no carro de Raul, amigo do guia, rumo à Bolívia. Após rodarmos 60 km deixamos pra trás a província de Salta, penetrando na província de Jujuy. A partir de Volcán, a paisagem começa a mudar porque já se pode perceber melhor a quebrada de Humahuaca, um vale profundo e estreito por onde corre o rio Grande, nesta época do ano apenas um fio de água. Paramos na estrada pra curtir o belíssimo cerro de Los 7 Colores situado em frente a Purmamarca, vilarejo fincado a 2.130 metros. Como não podia deixar de ser, entramos na pitoresca e turística vila cujas casas, algumas de arenito rosado, dão um toque caliente às ruelas. Aproveito, enquanto os demais amigos de Fernando não chegam, pra dar um rolê pelo pueblito. Lojas, cafeterias e restaurantes, além de dezenas de bancas, onde as índias expõem seus artesanatos, circundam a praça. No canto leste, cercada por um muro branco, a igrejinha de Santa Rosa de Lima, igualmente caiada de branco, registra em sua frontaria a data da construção: 1648. Subo ao mirador El Porito donde se avistam de perto os multicoloridos cerros e a vila abaixo. Encontro então no restaurante onde iremos almoçar os homens que irão também subir o Licancabur. Pertencentes à conservadora sociedade saltenha, economicamente muito bem de vida, todos são sessentões salvo um, de 40 anos, chamado Manoel, que se revela o engraçadinho do grupo. Chega falando em voz alta, tratando os amigos "carinhosamente" de pelotudos e disparando no me rompan los huevos quando contrariado. Consciente de que falar mal das mulheres arrancará riso fácil, em especial se for da sua, é o que faz assim que senta à mesa, garantindo dessa forma a atenção geral. Autodenomina-se un pentejo gracioso, quando na verdade não passa dum tipo vulgar. A partir de Purmamarca, seguimos pela ziguezagueante e empinada Cuesta de Lipán onde do alto de seu mirador, a 4.170 metros, posso admirar a linda e sinuosa RN 52 que liga a quebrada de Humahuaca a puna de Jujuy. A caminho de Alfarcito, a paisagem econômica, composta por gramíneas espinhentas comíveis apenas por lhamas e vicunhas, é abruptamente interrompida pela brancura da planície de Salinas Grandes, um deserto de sal explorado por particulares. Situada no altiplano, a 3.600 metros, Alfarcito de la Puna ou San Francisco de Alfarcito, embora não conte com mais que 150 almas espalhadas em casas de pedra, palha e barro, tem - eba! - wifi coletivo, pousada e restaurante. Venta pra caramba o que não me impede de subir ao mirador de La Cruz donde avisto a laguna Guayatayoc em cujas margens as aves saciam a sede, em especial, após as chuvas intensas que caem no verão, amenizando assim o teor de salinidade de suas águas salobras. Domingo, rumo a Paso de Jama, entramos brevemente em Susques, pueblo maior que Alfarcito, em cuja arborizada avenida destaca-se, além do busto dum general, a simpática igrejinha com telhado de palha. Mulheres aproximam-se do templo para assistir à missa matutina. Os demais homens do grupo, em número de 3, vão na camionete pertencente a Manoel. Decorridos 106 km, rodando ainda pela RN 52, alcançamos os 4.200 metros do Paso de Jama, fronteira da Argentina com Chile. Muito rápido os trâmites burocráticos de saída da Argentina e de entrada no Chile porque tanto aduana quanto imigração são compartilhadas, localizando-se no mesmo prédio, em guichês contíguos. Andamos mais 120 km até Hito de Cajon, outro passo da cordilheira dos Andes, que divide dessa feita Chile da Bolívia. A obsoleta Bolívia não adota o compartilhamento de fronteiras, motivo pelo qual, após carimbarmos nossa saída do Chile, temos de rodar alguns kms até o posto boliviano, finalizando – ufa! - nossa entrada na Bolívia. Na aduana, em frente ao refúgio Laguna Verde, se paga 25 dólares a título de entrada na Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Avaroa onde se situam vários vulcões, destacand0-se Sairecabur e Putana a oeste, já do Licancabur, que iremos subir amanhã, só se vê seu cume escondido pelo flanco norte do Juriques. De alguns vulcões inativos, como Suzana, é possível a extração de enxofre. O refúgio Laguna Verde, situado a não desprezíveis 4.450 metros de altitude, em realidade, se queda diante da laguna Blanca, separada por estreita faixa de terra da laguna Verde, mais ao sul. Às suas margens, flamingos e outras aves aquáticas dão o ar de sua graça. No meio da tarde, o vento começa a se fortificar e a poeira levantada tal qual uma echarpe bege esvoaça pelo ar. O espetacular pôr do sol, colorindo a paisagem dum rosa metálico, me consola um pouco do ataque que sofrera de Manoel durante o almoço. Abruptamente, o homem virara-se pra mim e declarara solene Beatriz eres divina (pausa sádica) cuando quedas de boca cerrada. Impactada, a pateta não enfrentou a ofensa, deixando prevalecer, infelizmente, a baixa autoestima inculcada em nós, mulheres, pelo depreciativo e velhaco discurso masculino de menos valia desde tempos imemoriais. Confesso que ainda sinto raiva de mim – olha só que loucura! - por ter deixado passar em brancas nuvens a grosseria gratuita daquele boçal que queria se fazer de humorista, a minha custa, pros amigos. À mulher, na perspectiva dos macho...cados, como denomino este tipo de homem, só é permitido abrir a boca pra dizer como o pau deles é gostoso, como são geniais e maravilhosos. Então sim, ella es hermosa hablando. Consigo agora entender às ganhas porque muita mulher apanha e nem consegue denunciar seus agressores. O baixo autoquerer-se, adquirido em séculos de submissão, reforça os laços de aceitação da violência masculina. Pensam que alguém na mesa reagiu? Nem percebi se sorriram ou riram tão atordoada me senti. Todos permaneceram calados, inclusive Fernando. Mas a implicância não parou porque pouco depois, em comentários sobre futebol, o homem observa que o Brasil está liquidado neste esporte. Ele realmente estava a fim de me provocar duma forma sórdida tanto é que o golpe final foi desferido quando ele grita “Bolsonaro, Bolsonaro”, sabedor de minha aversão ao então candidato a presidente do Brasil. Finalmente, esboço uma reação e levantando da mesa, num tom indignado, brado basta, tudo tem limite!, conseguindo enfim calá-lo. Porra, viajara até o país deles pra participar do que imaginara ser uma agradável aventura e estava sendo gratuitamente maltratada, atacada de forma covarde. Foram todos omissos e, portanto, cúmplices desse ataque misógino e, porque não, xenófobo que sofri. Prevalece, mais uma vez, o tal "espírito de corpo", inventado pelos homens de modo a arranjarem álibis fajutos pros seus desmandos. A viagem perdera a graça. Tanto que, dia seguinte, enquanto estou subindo a face norte do Lica, lá pelos 5.100 metros resolvo descer. Não foi por cansaço físico, já que me mantinha sempre à frente de todos, atrás apenas do guia. Acontece que fiquei enojada, farta até os gorgomilhos de conviver com essa gente. Enfatizo, contudo, que o pior de todos foi o Senhor Fernando Santamaria. O papel desempenhado por ele, ou melhor, que não desempenhou como guia, foi desprezível. Explico. Quando decido não mais continuar a subir o vulcão, ele todo pimpão segue com os amigos ao invés de descer comigo, sua cliente! Abraça-me todo emocionado e elogia minha generosidade de permitir que continue a caminhada rumo ao cume (espertamente, ele se antecipou a qualquer reivindicação que porventura eu pudesse fazer, tornando meu silêncio atônito como sinal de consentimento). Mas sua atitude descortês não tem limites. À noite, quando estamos em San Pedro de Atacama me deixa ir jantar sozinha porque prefere acompanhar Seus Amigos! E no dia seguinte, durante o café da manhã, se eu não o tivesse chamado, ele teria se sentado a outra mesa com Seus Amigos!! E eu pagando por isso!! 300 dólares pra que o chupaculos desfrute do convívio dos a-mi-gos, esquecendo-se de que está a trabalhar!! Tô me sentindo a otária. A cara de pau desse senhor é inigualável. Bueno, nada como uma boa noite de sono pra restaurar a autoestima abalada por tanta rejeição. Assim, na terça, no retorno a Salta, até porque seria uma imbecilidade de minha parte deixar que essa gente me impedisse de desfrutar a beleza do cenário durante o trajeto de San Pedro a Paso de Sico, mergulho deliciada o olhar na paisagem. São dezenas e dezenas de vulcões, alguns com os cumes nevados, sobressaindo no árido altiplano chileno. Numa curva de estrada, eis que surge o lindo salar de Talar tendo diante de si uma fulgurante laguna de coloração turquesa. Pouco antes de Sico, Las Barrancas, impressionantes paredões rochosos, semelhantes aos muros dum castelo medieval. A partir da Argentina, a paisagem continua exibindo a aridez da puna entremeada aqui e acolá por salares, destacando-se o de Rincon. Em Abra Chorillos, situada a 4.475 metros, começa-se a descer uma fantástica estrada de chão batido com curvas deliciosamente fechadas até a empoeirada San Antonio de los Cobres onde paramos pra almoçar no restaurante Huayra Huasi em cujo cardápio o destaque são empanadas fritas. Chego enfim a Salta e, dia seguinte, quarta-feira, pico a mula de volta pro Brasil. Durante a viagem chego à conclusão que com esse grupo de argentinos pra lá de pelotudos pari uma montanha mais alta que o Licancabur! 

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Retorno a Salta, La Linda

Ahhhh guria, de novo pegando a estrada?!! Mal esquento assento em casa e me mando pra Argentina. Por qual fronteira entrar, hein senhorinha? Unidunitê, salame, minguê, a escolhida é você São Borja. Afora 60 km rodando pela BR 386, o restante transcorre na BR 287. Tanto uma rodovia quanto a outra apresentam asfalto deteriorado em largos trechos, exigindo atenção redobrada desta motorista que vos escreve, já que o perigo é constante ao dirigir em estradas tão precárias. Uma vergonha a maneira como nossos impostos NÃO estão sendo bem empregados em infraestruturas básicas como as vias terrestres. E deixo passar o motivo de o sistema ferroviário ter sido impiedosamente desmontado no país! Desculpem o desabafo, sei que este blogue não se presta a tal tipo de reivindicações, mas às vezes sinto muita raiva pelo modo como os governantes tratam mal o Brasil...arghhh!!! Bueno, à medida que me aproximo de São Borja, o relevo pontuado por leves ondulações, exibindo horizontes a perder de vista, indica a presença do pampa. Ocupando inacreditável porção do território gaúcho - 63%!! –, o RS é o único estado brasileiro, juntamente com Uruguai e Argentina, em abrigar tal bioma no planeta Terra! A pequena São Borja, com pouco mais de 60 mil habitantes, situa-se à margem do rio Uruguai, sendo considerada o 1º assentamento dos 7 Povos das Missões. Nos dias que correm, vive mais das memórias dos ilustres nativos Getulio Vargas e Jango Goulart, emblemáticos presidentes brasileiros. Apesar de modesto o hotel é limpo e tem garagem. Todo cuidado é pouco nestes tempos violentos em que vivemos no Brasil onde os assaltos à mão armada não são mais exceção. Dia seguinte, sábado, após o café da manhã, atravesso a ponte Internacional da Integração sobre o rio Uruguai que liga o Brasil à Argentina. O pedágio é caro, 50 reais! Pode-se pagar em reais ou pesos. Resolvi fracionar os 1.800 km até Salta em 3 dias. Ontem foram 585 km de POA até São Borja, hoje será o dia mais longo, 650 km até Pampa del Infierno onde vou dormir. Sigo pela Ruta Nacional 12 até Corrientes, cidade grandota com 320 mil habitantes vendo de relance ruas arborizadas, muitos edifícios e uma praia cheia de gente à margem do Paraná quando cruzo a ponte sobre o rio. Após Corrientes, a Ruta Nacional passa a ser a 16. Bem boas as rodovias e embora tenham apenas uma pista, a velocidade máxima permitida é 110 km. Bastante controle da gendarmeria, tanto que me param 2 vezes para revistar o carro. Buscam drogas. Pampa del Infierno pertence à província de Chaco e sua alta temperatura justifica porque é assim chamada. Os poucos hotéis são modestos e o escolhido por mim hospeda em sua maioria trabalhadores braçais. Dou um rolê na cidade em busca de algo pra comer já que o hotel não tem restaurante. Uma gracinha Pampa del Infierno com sua calmaria de cidade pequena e ruas arborizadas. Encontro uma panaderia cheia de gostosuras salgadas e doces onde compro algumas delícias engordantes. Retorno ao hotel e na recepção peço um copo. Já no quarto encho pela metade o copo com vinho que trouxera de POA acompanhado pelos petiscos comprados há pouco. Durmo que nem uma angelita! No domingo, saio cedinho de Pampa, às 8, e após Mato Quemado tanto a RN 16 quanto a paisagem mudam. A rodo fica esburacada num trecho de 40 km. Já o cenário mostra uma natureza mais áspera com toques de aridez, afinal estamos na região do chaco, constituída por distintos climas e ecossistemas que vão do pampa, passando por florestas e compreendendo também o semiárido. Cartazes advertem “atese a la vida use cinturón de seguridad”. Paro em Quebrachal e almoço deliciosas empanadas num despretensioso quiosque. Viva alma nas ruas, pudera, o calor é de antecâmara de inferno. No final da RN 16 já avisto o perfil de alguns picos da cordilheira dos Andes. Ao dobrar na RN 9 constato com alegria ser uma via duplicada e piso forte no acelerador, chegando em Salta às 15 e 45 depois de 574 km. Pego um hotel perto da Plaza 9 de Julio, centro da cidade, onde há diversos restaurantes com menu turístico cuja comida é bem ruinzinha. Nem o torrontés se salva, tanto que deixo um tanto de vinho na taça. Desapontada volto ao hotel e pouca demora pego no sono tão cansada estou depois de 3 dias viajando. Na segunda-feira, descanso no hotel até umas 11 horas, afinal, o tirão de 3 dias na estrada está cobrando seu preço. Resolvo ir a pé ao cerro San Bernardo cuja distância é ninharia. Resolvo subir até o topo do cerro de teleférico donde desfruto duma visão legal de Salta. A cidade situa-se no vale de Lerma, rodeado pela cordilheira dos Andes cujos picos nesta região não ultrapassam os 4 mil metros. Compro uma salada de frutas deliciosa e desço as escadarias mastigando devagarinho a refrescante iguaria. Durante a descida vejo muita gente subindo. A maioria, caminhando, enquanto um e outro galgam correndo os degraus. Haja fôlego pra tal façanha! Almoço num restaurante em frente ao convento de San Bernardo cujo wifi é uma boa bosta. Salta com suas ruas arborizadas, lindas igrejas, rodeada por cerros andinos e clima ameno, realmente, faz jus ao apelido La Linda. Retorno ao hotel no meio da tarde onde permaneço o resto do dia vendo televisão e bebendo, agora sim, um torrontés saltenho de boa qualidade, comprado no supermercado. Enquanto beberico o vinho assisto ao programa de variedades apresentado por Moria Casán, setentona, super plastificada, cujas feições envoltas por compridos e lisíssimos cabelos lembram Morticia Adams. Divirto-me a beça com a argentina que encerra a atração convocando as convidadas a que “levanten las patitas”, o que elas fazem erguendo as pernas como se estivessem num show de cancan. Moria, por sua vez, dirige-se até a câmera como se fosse adentrar no dispositivo, despedindo-se com o alegre bordão “estoy ahora salindo de sua casa”.....hahahaha....muito hilário!!! Quando estive em Salta em 2016 fazendo o trek de Las Nubes contratara como guia, Fernando, mendocino, aquerenciado há anos aqui já que é casado e tem um filho com uma saltenha. O argentino me agradara bastante por sua gentileza e conhecimento da região. Quando vi no Face que ele estava organizando uma expedição ao Licancabur, resolvo ir junto também. Por que não subir aquele vulcão, onipresente em todos os pontos onde se esteja em San Pedro de Atacama, cidade que conheci em 2007 escalando o Laskar, não é mesmo? Como estou meio fora de forma, combino com ele, antes de partirmos pra Bolívia, caminhadas pelos morros dos arredores. Então na terça, a primeira pernada é o ascenso ao cerro Elefante (1.910 metros) e desnível de 466 metros com 3,5 km de trilha situado na Quebrada de San Lorenzo. A trilha até o topo percorre a yunga, mata nativa com centenas de variedades de vegetação, destacando-se orquídeas, bromélias e cáctus. Dia ensolarado, sem nuvens no céu e temperatura atingindo picos de 34ºC, o que deixa a caminhada bem pesada considerando não só a acentuada aclividade como o terreno coberto com pedrinhas soltas, tipo cascalho. Do alto do cerro se enxerga o centro de Salta e seus diversos bairros constituídos por condomínios públicos e privados. À direita, o cerro San Lorenzo e à frente, abraçando o vale de Lerma, a Cordilheira dos Andes. Lá no fundão, o cerro San Bernardo onde ontem estivera. Na quarta-feira, lá vamos nós, subir o cerro San Lorenzo situado na quebrada de mesmo nome. A temperatura mudou completamente: céu coberto de nuvens e temperatura em torno de 22º C. Com 2.220 metros e desnível de 893 metros, o cerro San Lorenzo tem distância de 10 km. A trilha, paralela ao agora minguado San Lorenzo, rio que somente no verão exibe volume considerável, também percorre a yunga, Contudo, não é tão exposta e íngreme quanto a do cerro Elefante porque se dá praticamente dentro da mata e 60% do percurso se desenrola em terreno de suave aclividade. Apenas perto do cume rola uma subida um pouco mais exigente mas nada que se compare à do dia anterior. Chega-se a um platô donde se avistam os cerros Lajas, Lesser, Medano e Yacones. Após uma subidinha amena de 15 minutos, pronto, eis o cume! Caminhamos até a outra ponta do cerro donde se avista Salta. Ali almoçamos, nos demorando pouco porque começa a esfriar e a ventar o que nos obriga a descer. Terminamos o trek comendo no Kiosco La Quebrada, situado no início da trilha, deliciosas empanadas feitas pelo atencioso dono. A caminhada mais linda inegavelmente é a do canyon do rio Lesser, realizada na quinta-feira, apesar da garoa e do céu totalmente nublado. Uma parte da trilha se dá em terreno plano cruzando potreiros. Na vegetação da yunga, destacam-se os ceibos, árvore nacional da Argentina, cujas flores fazem um contraponto vermelho entre a verdejante e farta copa. Há variedades de pequenas e delicadas flores, cuja coloração ora se mostra branca, ora lilás ou então amarela. E renques de copos de leite!! À medida que se avança, as flores rareiam e já se veem os paredões do canyon. No início, ambas as margens do rio apresentam-se recobertas de pedras miúdas. Bastante musgo nos troncos das árvores e poucas flores quanto mais se penetra no canyon. É necessária uma travessia no rio e logo se entra num bosque cerrado ganhando-se altura. Lá embaixo o rio começa a se estreitar e as pedras vão se tornando matacões. As subidas são suaves debaixo dum dossel formado por luxuriante vegetação. São 4 as travessias até se alcançar a cascata cuja altura não ultrapassa 50 metros com pouca água despencando paredão abaixo porque a estação chuvosa ocorre no verão. E o céu nublado se mantém na sexta durante o curto passeio de 5,5 km a Las Costas. As retamas, arbustos de cheirosa floração, estão a mil, atapetando o chão com suas pétalas amarelas. O terreno plano cede lugar a subidas amenas terminando no topo da colina onde mais uma vez me deparo, dessa feita, com a visão enevoada de Salta, esparramada no vale abaixo.

terça-feira, 31 de julho de 2018

Abraçasso no Brasil: Retorno ao Sul

O Abraçasso começou pelo centro-oeste porque queria visitar alguns amigos e parentes que moram nesta parte do Brasil, penetrando, a seguir, o canto inferior da região norte, já que sonhava com o Jalapão. Na continuidade da trip, entro no nordeste, percorrendo durante 1 mês, encantada da vida, Maranhão e Piauí. Permaneço larga temporada em Fortaleza, daqui regressando ao sul pelo litoral, motivo por que escolho a BR 101, paralela ao Atlântico, salvo pequenas escapadas em outras rodovias, como o trecho de 850 km na BR 116. Dispondo de 15 dias pra chegar a Porto Alegre, escolho algumas cidades do litoral brasileiro, desconhecidas por mim e Osnilde, salvo Natal onde já estivera há anos atrás. Escolho na capital potiguar uma pousada na Ponta Negra, cujo quarto apesar de ser estilosinho, exala insuportável cheiro de cachorro molhado. Contratamos um tour ao litoral sul do estado que inclui visita à Base de Lançamento de Foguetes da América Latina, a chamada Barreira do Inferno, localizada no município de Parnamirim. De lá, vamos dar um rolê nos 8.500 m² ocupados pelo maior cajueiro do planeta, cujo gigantismo se deve a uma anomalia genética, em Pirangi do Norte. A seguir, breve paradinha num mirante donde se vêem as avermelhadas falésias na praia do Cotovelo. Almoçamos na praia de Camurupim onde se avistam recifes de coral a menos de 50 metros da faixa de areia. Terminada a refeição, embarcamos no busão e vamos fazer a digestão à beira da lagoa de Arituba. O passeio é bem padrão, com guia comentando sobre os lugares frequentados, estabelecendo tantos minutos ou horas pra se curtir os lugares. Mais se sobe e desce do bus que outra coisa. Canso só de pensar. Os companheiros de tour nada a ver comigo. Osnilde, uma santinha, só ri quando, ranzinza que sou, reclamo do povo. Na quarta-feira, com a concordância de Osnilde, saltamos Paraíba e de João Pessoa vemos apenas sua linha de arranha-céus da BR 101. O mesmo se passa com Recife: vejo de relance seus altos edifícios, aliás uma marca que caracteriza a maioria das capitais nordestinas. Mas o que me impressiona é a periferia pobre da enorme cidade cujas construções se dependuram sobre barrancos encobertos por lonas pretas pra evitar que desmoronem quando chega a época das chuvas. Como o objetivo é evitar praias badaladas, escolho a dos Carneiros, super tranquila nesta época do ano pra descansarmos 1 dia. Como chegamos cedo, conseguimos desfrutar do calmo balneário e dar uma banda à beira mar. Ao longo da praia, uma extensa linha de recifes, algumas com vegetação nascendo sobre os corais. Dia seguinte, passeio num catamarã ao longo do rio Formoso. Um vistaço no manguezal e na linda igrejinha de São Benedito, construída a 30 metros d’água. O visual é lindo: coqueirais em ambas as margens do rio de águas verdes, céu azul e temperatura caliente temperada por suave brisa. Durante a navegação, surge um magrinho fantasiado de Michael Jackson que se põe a imitar os passos de street dance do icônico pop star americano. Terminada a patética apresentação, o artista passa o chapéu entre a turistada. Paradinha ao lado duma barreira de recifes onde vendedores de comida se aproximam pra vender petiscos e batidinhas em suas canoas. A última etapa do passeio é navegar a outra margem do rio onde há uma lama dita medicinal. Mal se desce do barco, vêm uma penca de mulheres vendendo sabonetes feitos de lama enquanto outras se oferecem pra passar a tal lama no teu corpo. Eu e Osnilde nos entreolhamos, agradecemos e rapidinho escapulimos dali. Preferimos caminhar ao longo da praia durante os 20 minutos em que ali é autorizado permanecer. À noite, jantamos no Tapera do Sabor, em Tamandaré. Escolho filé de peixe grelhado servido ao creme de maracujá e guarnecido com batata sauté e arroz de alho....uma delícia! Sexta, damos tchau pra Pernambuco e, pouca demora, já estamos em Alagoas onde almoçamos em Paripueira, tranquilo balneário já próximo de Maceió. Passamos batidas pela capital alagoana, porque fôramos convidadas pra ficar na casa de Marilene, amiga de Osnilde, na pacata Marechal Deodoro. A poucas quadras da residência, se encontra a praia do Francês em cujo canto norte rolam os agitos com restaurantes à beira mar, cadeiras e guarda-sóis de aluguel. Caso se queira sossego, a pedida é o canto sul da praia. A caminho de Aracaju, entramos em Penedo, situada na margem esquerda do rio São Francisco, pertíssimo de sua foz. Fundada no século XVI, foi a primeira povoação de Alagoas. Seu bem conservado centro histórico exibe tesouros como o Paço Imperial, a belíssima igreja em estilo barroco Nossa Senhora da Corrente, datada de 1765, e a Pousada Colonial, prédios construídos ao redor da Praça 12 de Abril, a poucas dezenas de metros do rio. Subindo as ladeiras, encontramos o Convento e Igreja Santa Maria dos Anjos, a Igreja São Gonçalo Garcia dos Homens Pardos e o Teatro 7 de Setembro. Almoçamos uma saborosa moqueca no Oratório, restaurante debruçado sobre o Velho Chico, como é carinhosamente chamado o São Francisco pela população ribeirinha. Lástima não provar as cachacinhas da casa mas quem dirige tem o ônus de se manter abstêmia. Saímos de Penedo, cruzando de balsa o rio até sua margem oposta  onde se encontra Neópolis, cidade já situada em Sergipe. Em Aracaju onde chegamos à tardinha, escolho hotel na praia de Atalaia. Na bem cuidada orla, com 5 km de extensão, foram construídos parques, lagos, pistas de bici e corrida, praças de alimentação com excelente iluminação noturna que nos fez sentir, eu e Osnilde, super seguras de lá caminhar. Ainda rodando em Sergipe, somos paradas por 2 membros da Polícia Militar. Alegam 3 irregularidades. Concordo com tudo que dizem, inclusive com a que não procede, a de que no interior de veículos de passeio não podem ser transportadas bicis - hahahaha - mas do lado de fora, pode, né?! Claro que nem rio ou argumento com o sisudo sargento ou tenente, sei lá sua patente, tão atarantada estou com o atraque. Daí o sargento ou tenente empurra pro soldado a decisão (?!) que devolve, constrangido, pro superior. Durante um par de minutos, ficam nesse pingue-pongue - parece filme de suspense - decidindo por fim não aplicar a multa, com a justificativa de que eu fora humilde ao me declarar culpada. A verdade, Osnilde descobre assim que deixamos o posto policial: eles queriam propina, os safados!! Eu, inocente, nem percebi o golpe. Bueno, decido enfrentar os 1 mil km do litoral da Bahia em 2 etapas. Rodando pela Linha Verde, um tapete de rodovia, vou até Camaçari, onde nos perdemos num emaranhado de rodovias mal sinalizadas até encontrar - ufa! - a BA 324, regressando enfim à BR 101. Após rodarmos 500 km, chegamos a Santo Antonio de Jesus, nossa primeira parada em terras baianas, pernoitando num hotel de beira de estrada bem legal. Dia seguinte, enfrentamos trecho de relevo ondulado que, embora lindo, exige bastante cuidado porque rasgado pela intensamente movimentada e curvilínea BR 101 ao longo dos 550 km até Itamaraju. Nesta cidade, nos hospedamos em outro simpático hotel de beira de estrada, donde do jardim se avista o Pico do Pescoço, um desbundante monolito rochoso. No outro dia, na altura de Itabatã, ao fazermos uma pausa pra esticar as pernas, encontramos, no restaurante dum posto de gasolina, mesa posta com café, chá e petiscos, tudo grátis, em homenagem ao 25 de julho, dia dos motoristas! Nos lavamos eu e Osnilde comendo aquelas gostosuras! Já no Espírito Santo, à margem direita da BR 101, é de enlouquecer a abundância de formações de granito espetaculares, destacando-se a Pedra do Frade e o baita boulder encimado por uma capelinha branca e azul. Chegando em Vitória à tardinha, na hora do rush, foi um sufoco achar a casa de Barbara, amiga a quem conhecera fazendo o trek no monte Roraima. Ela fez questão, quando soube que eu passaria por lá, de que ficasse em sua casa. Vitória, ilha fluvial-marítima, banhada pela baía de mesmo nome, é uma bela cidade cercada de morros. Do ape de Barbara, localizado na ilha do Boi, em frente à baía, se avista a extensa 3ª ponte que liga a capital à Vila Velha onde se destaca, entre vários morros, o do Moreno. Jerome, marido de Barbara, nos espera com deliciosa janta regada com vinho português. Osnilde relembra seu francês aprendido no ginásio conversando com o marselhês Jerome. No dia 26, cruzamos os 3,3 km da ponte e vamos conferir o Convento da Penha em Vila Velha, encarapitado no alto dum outeiro. A igreja é linda, pena a multidão de turistas na frente do altar impedindo que eu tire fotos decentes do recinto. Ato contínuo, voltamos a Vitória para, no bairro das Goiabeiras, visitar o espaço onde são fabricadas de forma artesanal as famosas panelas de barro. Claro está que compro uma, linda, com agarrador na tampa em formato de peixe! E almoçamos torta capixaba num restaurante da orla, prato típico da culinária do estado, composta por bacalhau, siri desfiado, sururu, camarão e palmito fresco, coberta com claras batidas em neve. Pra finalizar a alegre estadia em Vitória, nossos gentilíssimos anfitriões nos levam ao tradicional restaurante Dona Vilma pra provar a moqueca, considerada pelos capixabas como a mais autêntica da culinária brasileira, porque segundo eles o "resto é peixada." Depois dessa folga de 2 dias em Vitória, na sexta, voltamos a encarar a estrada. Já no estado fluminense, paramos num restaurante à beira da BR 101 em Campos dos Goytacazes, cujo cartaz anuncia comida mineira. Tudo muito feito feitinho, destacando-se a rabada... ótima. Achamos sem muitas delongas a praia de Jaconé, no balneário de Saquarema, onde ficaremos até domingo na casa da prima Anna Vitoria. No sábado, Vic nos leva pra dar um rolê por Saquarema onde almoçamos e visitamos a branquíssima igreja de Nossa Senhora de Nazaré situada no alto de uma colina com vista pra linda paisagem marítima cercada de morros. E no domingão, eis nós, mais uma vez na BR 101, atravessando a ponte Rio-Niterói, enveredando pela linha Vermelha (nenhuma bala perdida nos atingiu, graças a deus) e seguindo agora pela BR 116, neste trecho conhecida como Via Dutra até São Paulo. Perrengue cruzar a capital paulista porque o GPS me mandou ir pela marginal Pinheiros ao invés de ir pelo Rodoanel. Ainda bem que é domingo porque se assim não fosse eu acho que estacionava o carro no meio fio e me punha a chorar. Escolho pra pernoitarmos Registro onde já se nota certa mudança no clima, contudo a temperatura se mantém caliente ma non tropo. Não dá outra, ao ingressar na região sul, sou recepcionada no Paraná por um céu homogeneamente gris e uma chuva tão fina quanto persistente, tanto que as palhetas do pára-brisa do carro param nunca de funcionar. E a friaca já se faz sentir em Santa Catarina tanto que a porção nordestina de minha alma se rebela e exclama "ixe, sou pinguim, não, sou brasileira, tche!" Pernoitamos em Garopaba num hotel bem legal, dessa feita, cada uma em um quarto. Levo Osnilde pra dar uma banda no centrinho histórico do badalado balneário e depois vamos até a praia do Rosa já que ela desconhece esta parte do litoral catarinense. Merda o céu nublado mas sul é assim mesmo no inverno. Dia seguinte, depois de percorrermos 5.100 km, chegamos sãs e salvas a Porto Alegre, no último dia do mês de julho. E já na ponta dos cascos, como uma boa gauderia, digo: tô pronta pra outra indiada!

domingo, 15 de julho de 2018

Abraçasso no Brasil: Ceará

Saímos de Caracol, sábado, cedinho, percorrendo o bom asfalto da BR 020 até Santo Antonio do Piauí quando então a pista se revela esburacadíssima nos 25 km até Simplicio Mendes. Cumpre observar que este trecho foi o único senão nas rodovias piauienses pelas quais transitei. Não sei se foi desarranjo mental em nossos cérebros causado pela buraqueira da rodo ou se ausência de adequada sinalização num trevo, o fato é nos perdemos indo parar em lugar algum. Consultando nativos, mapas e google, demos um basta à desorientação e seguimos pela BR 230 até Campos Sales, já no Ceará, passando então a trafegar pela CE 292, quando enfim chegamos a Juazeiro do Norte após percorrer 700 km! Permanecemos em Juazeiro de sábado a terça, no ape de Halana, irmã de Alu. Juazeiro, juntamente com os municípios de Barbalha e Crato, faz parte do triângulo CRAJUBAR, situados na região do vale do Cariri. Dos três, Juazeiro é o mais desenvolvido e também a mais importante cidade do interior do Ceará, com quase 300 mil habitantes. No domingo, visita à Barbalha, situada aos pés da chapada do Araripe. Percorremos seu bem preservado centro histórico cujos casarios datam dos séculos XVIII e XIX. Enfeitada pras festas juninas, que duram 15 dias, os festejos em Barbalha iniciam com o dia do pau da bandeira, tradição local com mais de 100 anos de existência. Neste dia, o primeiro da Festa de Santo Antônio, os homens devotos vão às cinco horas da manhã em busca do mastro, previamente escolhido e preparado em um sítio, localizado no pé da serra, a 6 km de distância do centro da cidade. Acompanhados por uma multidão de pessoas, os homens trazem o pau da bandeira nos ombros até a frente da Igreja Matriz de Santo Antônio para hastear a bandeira do padroeiro e anunciar a abertura da festa. É festividade que mescla o sagrado e o profano tanto que, no momento em que se hasteia o Pau da Bandeira, as portas da Matriz são fechadas. Em qualquer lugar do planeta, o povo gosta de se proteger do mau olhado, lançando mão de objetos simbólicos na tentativa de afastá-lo. Aqui no nordeste, colocam cáctus coroas de frade ao lado das portas de entrada das residências, enquanto no Butão pintam falos nas paredes externas das casas. Cada qual com seu cada um. Vamos a Nova Olinda na segunda-feira e tenho o prazer de visitar o museu e a oficina de Espedito Seleiro, pertencente à quarta geração de seleiros da família. Foi seu pai quem fabricou as famosas sandálias quadradas encomendadas por Lampião de modo a despistar as volantes. Não resisto e compro uma sandália Maria Bonita em couro tingido de vermelho! Em visita ao museu Casa Grande, me delicio  com curiosa observação sobre ausência de janelas na fachada lateral sul da antiga residência, assim descrita: "a casa foi construída sem as janelas do quarto de casal devido a procriação e no quarto das moças para não serem roubadas." Também conhecemos as dependências da fundação Casa Grande situada nas traseiros do museu. A instituição além de abrigar uma escola onde crianças e jovens estudam e posteriormente se profissionalizam, disponibiliza às famílias dos estudantes meios de geração de renda. Muito legal o trabalho desta ONG. Na terça, a caminho de Fortaleza, na altura da BR 116, a paisagem é embelezada pela Chapada do Apodi que corre paralela à rodovia. Dentre as diversas cidades por que passamos me chama a atenção Jaguaribe, terra de queijos e pistolagem, uau!! Já decidida a me aquietar um pouco, escolho Fortaleza por 2 motivos: tenho outras amigas queridas, além de Alu, morando na cidade e quero conhecer mais um pouco deste estado onde já estive 2 vezes porém naquele esquema vapt vupt de 3 ou 4 dias quando ainda trabalhava. Permaneço quase um mês na cidade, salvo rápidas incursões ao interior pra conhecer determinados sítios de meu interesse. Hospedada na casa de Gorete, mãe de Alussandra, sinto-me à vontade rapidinho tamanha a hospitalidade com que sou acolhida. A residência fica em Maraponga, bairro de classe média, repleto de bom comércio, e longe, graças a deus, da muvucagem turística da orla! Dando uma banda pra conhecer as redondezas, encontro sem exagero uma banda de forró em cada esquina: no super quando vou ali fazer compras e na farmácia que está sendo inaugurada!! A matriarca da família, cozinheira de mão cheia, durante o tempo de minha permanência em sua casa, esmerou-se em apresentar deliciosos quitutes regionais, entre os quais o infalível baião de dois. E vários tipos de peixes, grelhados, fritos, ensopados, porque eu comentara em um de nossos conversês na cozinha que aqui no nordeste me nego a ingerir carne de vaca....essa deixo pra quando retornar ao sul. À janta, o ranguinho são sopas, feitas com o maior capricho, como tudo que Gorete põe a mão. Embora haja uma boa sala de estar, as reuniões sociais são no umbigo da casa, a ampla cozinha onde reina Gorete. E ela é dona de casa ciumenta, não gosta de que fiquem fuçando em seus domínios. Chega a dispensar ajuda inclusive na lavagem da louça. Gorete não tem preguiça de pôr a mão na massa, rala côco pra obter o leite, produz biomassa usada em bolos e cupcakes entre outras habilidades culinárias!! Gosto de cara dos irmãos de Alu, a sorridente Halana, professora, cujo nome é trabalho, sobrenome demais e o falante Ortega e sua cocker spaniel Aika. Todo final de tarde, os dois sobrinhos de Alu passam na casa da vó e por ali permanecem brincando um par de horas com as tias. É uma casa que sabe ser tranquila e movimentada. Um lar, por isso adorei a casa Brandão! Bueno, no findi, sou convidada por Nara pra ficar em seu ape situado próximo à orla. Ela e Camila, excelentes anfitriãs, me levam no sábado de manhã pra remar no rio Pacoti, em Eusebio, município límitrofe à Fortaleza. À noite vamos assistir no Centro de Eventos do Ceará ao Festival Vida e Arte que rola de 2 em 2 anos. Dá de tudo: peças, forró, rock, música eletrônica, enfim, variadíssimas manifestações culturais, com ênfase no regionalismo nordestino, dentre elas, o até então, pra mim, inédito, maracatu. Domingo, pedal light de 18 km, ida e volta do bairro Meireles à praia do Futuro, parando numa das dezenas de barracas construídas na faixa de areia, diante do mar, pra tomar água de côco. Na segunda, Alu e eu percorremos os 160 km da excelente CE 040 até o litoral sul onde se localiza Canoa Quebrada. A praia e suas famosas falésias, entretanto, não me arrancam ohs de admiração. Ao contrário, interessantíssimas são as de Morro Branco, em meio a dunas e formando labirintos que desembocam nas águas verdes do oceano. E pra aumentar a emoção do passeio, nada como a cascuda descida ao longo dum estreito e super íngreme brete até a minicaverna escavada pela ação da água, situada à beira mar. Nas palavras de nosso guia, os abundantes urubus e cáctus são, respectivamente, os drones e as cercas elétricas cearenses hahahaha. Eis uma boa mostra do famoso senso de humor dos cearenses! Na terça, a convite de Cristina e Iva (irmã de Nara), vamos eu e Lulu almoçar na casa delas. No almoço, sumpimpa, há lagostas, casquinhas de siri, saladas e carne de gado assando na churrasqueira. Iva serve, pra abrir o apetite, uma cachaça cearense de estalar a língua. Em tempo de Copa do Mundo, o tragoléu deve ser forte pra rebater a forte descarga de adrenalina do campeonato! Infelizmente, não podemos ficar pra ver o jogo Brasil x Costa Rica, na casa delas porque já nos havíamos comprometido em assistir à partida na casa de René, amigo de Lulu. E daí foi só alegria com o placar de 2x0, rodeada de gente bacana motivo por que continuei comemorando, aí já no vinho. O pileque foi tão bom que quando cheguei em casa, abracei Gorete e a chamei de mamãe embora ela seja da minha idade! No sábado, mais festa! Desta vez, junina organizada pelas irmãs Brandão, Gorete, Socorro e Teresa. As comidinhas preparadas pelas 3 incitavam a gente a pôr o pé na jaca. Na mesa, bolos de tapioca e de pé de moleque, cocada, rapadurinha de milho, vatapá, paçoca, baião de 2, canjica e aluá, bebida típica à base de pão. Como resistir a essa orgia gastronômica hein?! Pra gastar a bomba calórica ingerida na véspera, domingo, eu, Lulu e Nara mais outras pessoas, acompanhadas por um guia, fazemos trilha na serra de Aratanha, no município de Pacatuba, distante não mais que 30 km de Maraponga. Embora a distância não seja pesada – 6 km – o desnível de 605 metros é bem puxado ao longo da luxuriante mata atlântica. Nem bem iniciou julho, e já estamos com o pé na estrada again pra conhecer o Parque Nacional de Ubajara. Ao longo dos 302 km da BR 222, avistamos, na altura de Itapajé, a belíssima serra de Uruburetama destacando-se, entre as formações rochosas, a notável Pedra do Frade. O parque situado na serra de Ibiapaba estende-se de Tianguá a Ubajara, situando-se a portaria nesta cidade. Escolhemos por isso pernoitar ali, no sítio do Alemão, distante nem 2 km da entrada do parque. Pra se chegar a Ubajara tem de se atravessar Tianguá onde na rua principal salta aos olhos uma igreja católica de arquitetura indefinível, em cuja fachada despontam janelas em estilo árabe. Arrematando toda essa bizarrice, paira, no topo da torre, um cristo à semelhança do redentor do Corcovado. Tanto Ubajara como Tianguá são pequenas e simpáticas cidades. Em Viçosa, onde também demos um rolê, o grande atrativo é seu centro histórico. O PN de Ubajara é o mais antigo dos parques brasileiros. Embora inserido no bioma caatinga, exibe ainda trechos de mata atlântica. Super bem cuidado, disponibiliza 3 trilhas de variados níveis de dificuldade, além duma single track para a galera da bici. Fizemos a trilha mais longa, de 7 km, chamada Ubajara-Araticum que leva à gruta de Ubajara, a única aberta à visitação. As outras 10 destinam-se a estudos científicos. No início da caminhada, paramos no mirante da Gameleira onde o riacho de mesmo nome forma uma alta cachu que despenca no canyon abaixo. No outro lado da parede da garganta, visíveis as cachoeiras do Cafundó e Gavião. Descemos, em meio a mata atlântica, ladeira calçada de pedras, passando aos pés da cachoeira do Cafundó que avistáramos do alto do mirante da Gameleira situado na parede oposta do canyon. Cruzamos o rio das Minas e nos banhamos nele na volta quando paramos pra comer o lanche-almoço. A gruta conta em certos sítios com refletores que fornecem parca iluminação. E a quantidade de morcegos dentro da gruta emitindo ciciante sonido é interessante de escutar. Como todo buraco de calcário, a gruta exibe as indefectíveis estalactites e estalagmites espalhadas em diversos salões. Na volta, vamos até a borda da cachoeira do Cafundó, lugar belíssimo donde se descortina o distrito de Araticum situado no final do canyon, já no vale. Nosso guia de nome Wesley quando observo que, embora não seja o Safadão, deve praticar suas marotices, sorridente, confessa “vira e mexe, vira e mexe.” Esses homens hahaha!!  Nem bem chegamos na quinta a Fortaleza, e já estamos, no sábado, deitando cabelo e subindo a serra do Baturité pra conhecer 2 cidades. Como meu carro foi pra oficina por problemas mecânicos, vamos eu, Alu, Halana e Tatiana no de Nara. Em Pacoti, pernoitamos, porque vamos participar dum arraial junino comemorado anualmente no sítio São Luís, situado a 2 km da cidade. Muitos comes e bebes vendidos em barracas, quadrilha e banda tocando ao vivo clássicos do forró. Como nenhum cavalheiro nos tira pra dançar, eu, Alu e Halana dançamos sozinhas na pista. Dia seguinte, o mulherio se toca pra Guaramiranga onde chuvisco aliado à friaca me obriga a apelar pro xale que - graças a deus - sempre levo na mochila. É...o Ceará continua me surpreendendo: frio, chuvoso e cinzento na Serra de Baturité em contraste com seu litoral solarengo. Não adianta, não consigo sossegar o pito, quero conhecer muita coisa no Ceará! Assim, como resistir a uma visitinha ao litoral norte onde mora a avó de Alu? Segunda-feira, lá estou eu, feliz, voando as tranças, estrada afora, juntamente com Alu, Gorete e Halana, direto e reto a Itarema, cidade natal da família materna de Alu. Nos hospedamos na chácara da simpática e hospitaleira dona Judite, mãe de Gorete, onde micos estrelas perambulam de galho em galho nas árvores do jardim que circunda a casa. Dia seguinte, aproveitamos que estamos distante apenas 86 km da badalada Jericoacoara e pra lá nos mandamos. Até a arredia Gorete que, até então recusara todos os convites de passeios feitos por mim, aceita ir conosco. E pra tudo ficar melhor ainda, Halana larga seus orientandos do pós-graduação à distância e vai também conosco. Tsktsktsk....de Jericoacoara gostei menos ainda do que Canoa Quebrada. Tá, sou bem ciente do charme dos restaurantes e bistrôs maneiros, de suas pousadas elegantes em estilo rústico, das ruas de chão batido, mas Jeri não me desperta nenhum encantamento, não bate como se diz. Desde a árvore no meio das dunas cujos galhos fustigados pelo vento se inclinam paralelos ao solo à famosa Pedra Furada, cartão postal do litoral cearense, pra tudo tem de se enfrentar fila pra tirar uma simples foto. O que vale a pena, além da fina companhia das Brandão, é a divertidíssima “cavalgada” ida e volta na tal carroça, chamada Expresso Jeri, à Pedra Furada. Em compensação, Itarema eu amo! Na quarta de manhã, Alu e Gorete me levam pra conhecer a barra, paraíso de kite surf e a praia de Almofala onde a linda igreja Nossa Sra. da Conceição, construída em 1712, ficou totalmente soterrada de 1900 a 1945 pelas dunas. E Gorete faz questão de que eu conheça o colégio frequentado pela comunidade Tremembé, etnia indígena que habita estas paragens. Depois do almoço, voltamos a Fortaleza porque à noite minha caríssima amiga Osnilde tá se mandando do frio do RS pra se encontrar comigo em Fortal!! Vai me acompanhar na perna final da viagem, no retorno ao sul. Devido à breve permanência em terras cearenses, eu e Lulu organizamos criteriosamente os passeios. Assim, na quinta, de manhã levo Osnilde à praia do Futuro onde bebemos caipirinha e comemos um peixe grelhado no almoço. Vir a Fortaleza e não curtir forró é como ir a Roma e não ver o papa! Portanto, à noite, a pedida é o restaurante com pista de dança onde uma banda toca animado forró. Comum nesses lugares, a contratação de dançarinos profissionais que cobram por dança R$ 2,50 enquanto a noite inteira sai por R$ 150. Osnilde tampouco eu nos fazemos de rogada, convidando cada uma um profissional com quem nos esbaldamos revoluteando pelo salão. Na sexta, pela manhã, vamos ao Parque Estadual do Cocó, onde exponho meu torso desnudo às lentes da amiga Nara que está produzindo ensaio fotográfico a ser exibido num evento artístico em Parati. À tardinha, eu e Osnilde velejamos no Philosophy por 2 horas ao longo da orla de Fortaleza. Quero que minha amiga conheça a cidade tanto por terra quanto por mar. No sábado de manhã, mercado Central onde Osnilde enlouquece diante da variedade de vestidos, batas, sapatos, bolsas, toalhas de mesa, trilhos, lençóis, tudo no mais puro estilo nordestino, percorrendo os 5 pavimentos e vasculhando, se não as 560 lojas, 1/3 delas. O mercado oferece bufes de comidas típicas cearenses pra repor as energias depois de tanta bateção de perna. Num deles, almoçamos um ranguinho assaz gostoso!! À noite, mais festa junina, dessa feita nos subúrbios de Fortaleza pra onde vamos de van porque o grupo é composto de 12 senhoritas, amigas de Iva e Cristina. E Iva contrata ainda o dançarino profissional, Chaveirinho, pra riscar a pista conosco!! Pois não é que o rapaz consegue dar conta do recado, se alternando no dancerê com 5 mulheres?! Domingo, tem um baita almoço de despedida preparado e oferecido por Gorete já que amanhã estamos partindo! Afora pratos típicos, a Ortega coube assar a carne do churras, tarefa que executou como se gaúcho fosse, ala putcha! Já sentindo saudades antecipadas, palavras faltam pra agradecer tratamento tão cordial e carinhoso dispensado pelos Brandão, durante o período em que me hospedaram. Por isso, apenas digo: valeu, minha querida família nordestina!!