sexta-feira, 15 de junho de 2018

Abraçasso no Brasil: Piauí - PN das Confusões

Sabendo que a maioria das pessoas tem equivocada ideia sobre a caatinga, abro esta postagem esclarecendo que este bioma, exclusivamente brasileiro, no período das chuvas, transforma-se numa exuberante floresta!! Das clássicas tonalidades de verde à ousada palheta laranja e vermelha, a vegetação exibe-se feérica. E como se não bastasse, matizes azulados e rosas nos arbustos floridos reforçam a explosão de cores. Quando as chuvas escasseiam, passa a ser mata branca denominada pelos tupis-guaranis caatinga. Uma lástima que este último cenário, o da vegetação seca, franzina, com domínio de cores neutras, tenha sido a preferência estética adotada pelo cinema novo e ainda insistentemente perpetuada em certas produções brasileiras da atualidade. Eu tive – aleluia - a benção de tê-la conhecido justo em sua feição colorida! Bueno, desfeito o preconceito sobre a caatinga, na sexta-feira, deitamos o cabelo (expressão nordestina que significa pé na estrada) pra Caracol, porta de entrada do pouco badalado Parque Nacional da Serra das Confusões, o maior do Piauí. Um horror a rodovia não porque tenha buracos ou outras deformidades e sim pelas malditas lombadas que infernizam com raras tréguas os curtos 88 km entre São Raimundo Nonato e Caracol. São muitos os povoados e cada um tem ½ dúzia desses calombos, alguns ilegais. Eu e Alu ficamos irritadíssimas porque a viagem que poderia ter durado nem 1 hora, levou 2!! E nem se fale em movimento porque se passavam outros veículos nem os notamos. Em Caracol, residem em torno de 10 mil almas. Seguindo a tradição nordestina, a pequena cidade se encontra toda engalanada pras festas juninas. Dessa feita, as bandeirolas, em verde-amarelo, são em homenagem à Copa do Mundo. Gosto de Caracol, ao contrário de São Raimundo, aqui me sinto aconchegada. No dia anterior, enviara um whats prum guia, recomendado pelo querido Curiólogo, acertando então a guiada. Marcamos encontro na praça. Só pelo jeito dele se aproximar do carro, sinto sua boa energia. E Jadiel foi outro que não me desapontou. Tranquilo, ficou encantado com a perícia de Alussandra no volante quando ela enfrentou certos trechos marca diabo da estradinha de chão batido. Ele nos leva até a pousada e restaurante da Edineia, onde vamos pernoitar. Neide, proprietária do estabelecimento, é bem falante. Conta que se divorciou do marido - nas palavras dela “um safado mulherengo” - e se tocou da Bahia pra cá onde montou seu negócio. Depois de deixar as bagagens no quarto, pegamos a estrada de chão batido que leva ao parque, parando antes numa casa de farinha onde ocorre o processamento da mandioca em seus principais derivados, farinha e goma. A mandioca juntamente com o caju é base de subsistência dos habitantes da região. A casa de farinha nada mais é que um espaço aberto coberto por um telheiro com poucas máquinas, todas rudimentares, cumprindo bem suas funções. A transformação do tubérculo em farinha e goma (os blocos de goma molhada parecem pedaços de argila) é totalmente artesanal. A primeira etapa consiste nas mulheres descascando as raízes uma por uma com a rapidez adquirida ao longo de décadas de prática. A última fase, a da obtenção da farinha, é cansativa e dura mais de 1 dia. Para tanto, pessoas se revezam enquanto mexem sem parar com uma comprida pá a goma espalhada sobre larga superfície ladrilhada aquecida na parte inferior por uma fornalha de modo que a goma perca toda umidade e se torne ultra fina. Iguaria apreciadíssima na mesa de qualquer nordestino pobre ou rico, notadamente, no café da manhã, os deliciosos beijus e tapiocas são o resultado final do processamento da mandioca. O Parna das Confusões, cujo bioma dominante é a caatinga, intercala ainda matas e cerrado. Seu relevo arrredondado formado pela Chapada dos Gerais é circundado por serras e vales cortados por desfiladeiros e canyons cujas paredes não alcançam alturas expressivas à semelhança do Parque da Serra da Capivara. Nas planícies, chamadas fundões, a vegetação abunda ao contrário da existente no topo das chapadas, como igualmente acontece na Serra da Capivara. Abriga também sítios arqueológicos com pinturas e gravuras rupestres, além de outros vestígios do cotidiano pré-histórico. Inicialmente, percorremos a trilha Cores da Caatinga, um bate-volta de 3 km, em meio a um bosque arbóreo-arbustivo cuja folhagem vermelha e amarela compete em colorido com dourado capinzal. O forte vento faz as folhas farfalharem de forma agradável enquanto caminhamos até o mirante Janela dos Sertões, extensa plataforma rochosa no topo duma chapada donde se avista extensa linha de serranias de coloração esbranquiçada separadas por capões ainda verdejantes. Jadiel explica que o nome Confusões se deve à desorientação provocada pela tonalidade uniforme das pedras. Isso fazia com que os tropeiros, confusos, se perdessem porque se tornava difícil identificar pontos de referência na paisagem. Vamos então visitar alguns sítios arqueológico, abrigados em baixões. No primeiro, as pinturas são “novinhas”, sua idade não passa dos 6 mil anos. O mais impactante de todos os sítios, pra mim, incluídos os da Serra da Capivara, vem a ser o cemitério na Toca Alto do Capim. Trata-se de pequena gruta, interior arredondado, distante 3 metros do solo, cujo acesso se dá por uma escada. No interior, em 4 ou 5 concavidades escavadas no solo, os pré-históricos depositavam seus mortos. Nas paredes ao redor das urnas funerárias, há desenhos de coloração avermelhada em formatos geométricos cujo significado ainda não foi desvendado pelos arqueólogos. Pra terminar a visitação com fecho de ouro, visitamos a deslumbrante Gruta do Riacho do Boi. Só a trilha que leva ao lugar já é um desbunde: começa no topo de ondulada e árida formação rochosa que mais parece um oceano de pedras! Como um passe de mágica, se desce por uma escada até um sítio super arborizado onde se localiza a impressionante abertura que na verdade é uma pequena caverna. Larga, com 100 metros de comprimento, a areia do solo é branquinha e fina que nem a de praia; de frestas no teto, escapam résteas de luz solar. Eu parecia criança pequena soltando ahs e ohs a cada passo que dava pelo encantador túnel. E me ponho a sonhar com essa gruta vazando luz em noite de lua cheia. Uma merda termos reservado apenas um dia pra conhecer a Serra das Confusões. Este parque merece mais tempo de visitação. Com certeza, voltarei, podicre!! Assim, no sábado, me despeço de Caracol porque é tempo de trocar Piauí por Ceará. Simbora, deitar cabelo de novo, Lulu!!

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Abracasso no Brasil: Piauí - PN da Capivara

A partir de agora não viajo mais só. Alussandra, vindo de Fortaleza participará desta etapa do abraçasso. Depois de me regalar com um lauto café da manhã, vou buscá-la na rodoviária em Teresina, longe paca do hotel, com direito a me perder graças ao maldito GPS do carro. Sinos de alegria bimbalham festivamente em minha cabeça quando vejo a amiga!! Sorrindo não só com a boca quanto com os olhos, Alu está radiante não só por me rever quanto pela aventura que nos aguarda! Nos abraçamos longamente após o que vamos visitar Iolanda, mãe de Polly, amiga comum, piauiense, residindo atualmente em Porto Alegre. Viúva recentíssima, Iolanda merece uma visita, um abraço de conforto. Embora eu não a conheça - chame a isso curiosidade - quero visitá-la. E não me desaponto, sua calorosa acolhida confirma as boas vibrações que eu intuía dela. Nos espera com um café que mais parece almoço, tantos os quitutes oferecidos: carne seca, queijo coalho, bolos, pães e frutas. E não contente em querer nos bem alimentar, ainda faz marmita pra comermos durante a viagem. Lastimo não ter podido ficar mais tempo usufruindo da companhia de Iolanda, mas a distância a São Raimundo Nonato, nosso destino, soma respeitáveis 580 km. A partir daqui, não mais pilotarei o carro, assim, cedo o volante à Alu, excelente motorista. Rodamos um bom tempo pela BR 343, vendo, vez por outra diante dos pórticos de algumas cidades, gigantescas e cafonas estátuas em homenagem às santas padroeiras das localidades. Seja em animadas conversas ou em confortável silêncio, sempre tá rolando uma boa trilha musical dentro do carro. Próximo a São Raimundo Nonato, já na PI 140, destacam-se, mais dourados ainda pelo sol poente, tufos de capim amarelo adornando ambos os lados da rodovia. São Raimundo Nonato situa-se no sudeste do Piauí e sua população não passa de 35 mil habitantes. A cidade, pequena, destituída de charme, não mereceu de nós especial atenção. Nos limitávamos apenas em cruzá-la a caminho dos passeios. Procuramos a casa da guia que se revelou não só de burocrático comportamento quanto despida de qualquer pingo de senso de humor. Foi o único senão dos 3 dias de visitação no Parque Nacional da Serra da Capivara. Acertados os passeios, enfrentamos mais 33 km até o Sítio do Mocó onde eu soubera, lendo num site da internete, a existência duma pousada e camping administradas por uma tal de Conceição, cuja descrição muito me agradara. Mais uma vez não me decepciono. Conceição ou Ceiça é desembaraçada, animada, safa demais em seus 70 e poucos anos. Remanescente do movimento hippie, Conceição é uma genuína dinossaura da era de Aquarius. Saiu cedo de São Raimundo e passou a maior parte de sua vida entre São Paulo, Rio e Bahia. Sobre um cara que conheceu avalia que "ele era fluídico sem ser dogmático." Conta estórias hilariantes sobre seu agitado passado, tendo conhecido vários famosos dentre os quais Raul Seixas e Novos Baianos, pra quem costurou trajes com que se apresentavam nos shows. E Conceição comenta que por serem todos aparentados no Sítio do Mocó, alguns moradores ou são deficientes físicos ou mentais, como o rapaz que volta e meia se põe aos gritos. Quando à noite, vamos eu e Alu em busca dum restaurante aberto, encontramos o comércio fechado e grande aglomeração diante duma casa. Alu menciona que alguém deve ter morrido. Dito e feito. O povoado parou pra homenagear um de seus moradores. Embora velando o defunto, Talita, uma loura magrinha e agitada, na faixa dos 30, aparentando 20, abre sua pequena pizzaria e prepara 2 pizzas pra nós. Sabemos então por ela que o finado, seu parente, com 88 anos, morreu de tristeza porque a esposa falecera há coisa dum ano. Segundo tradição nordestina, própria de famílias fervorosamente católicas, erguem-se ao lado das casas capelinhas com imagens de santos e santas. A da casa do falecido foi construída porque sua esposa, quando viva era, tinha dificuldade em se deslocar à igreja devido a problemas cardíacos. Como a sala onde o morto está sendo velado é pequena, as pessoas sentam em cadeiras na calçada em frente à casa. Sobre uma mesa coberta com toalha, térmica de café, garrafa d’água e copos. Dos homens, muito comedidos, não se escuta quase falação. As mulheres, quando não conversam em sussurros, rezam. Presentes no velório, além de toda a vila, parentes de outras cidades, incluindo Teresina. Velórios não deixam de ser acontecimentos sociais, porque ao reunir pessoas que não se encontram amiúde, oportuniza-se a renovação de laços parentais e de amizade. Após o enterro do sr. Valdemar, todas as noites a partir das 18, parentes, maioria mulheres, se reúnem pra rezar o terço durante 9 dias em sua homenagem. Na segunda noite, quando passo diante da casa onde cadeiras mais uma vez foram colocadas na calçada, sou convidada a participar das orações. Gentilmente, uma mulher cede seu assento, sentando-se no banco à frente. E não é que ainda me lembro do Pai Nosso e da Ave Maria?! Aliando-me ao coro feminino, recito um tantinho emocionada as orações.
Pouco sabia do Parque Nacional da Serra da Capivara a não ser por seu conjunto de belíssimas formações rochosas e por se localizar no Piauí, estado que vem atiçando minha curiosidade exatamente porque pouco badalado em termos turísticos. Motivo de orgulho descobrir que o parque é área de maior concentração de sítios arqueológicos pré-históricos do continente americano e Patrimônio Cultural da Humanidade. Contém a maior quantidade de arte rupestre do mundo! Estudos científicos confirmam que a Serra da Capivara foi densamente povoada em períodos pré–históricos. Os artefatos encontrados apresentam vestígios do homem há 50.000 anos, os mais antigos registros na América! O relevo do parque compõe-se de serras e planícies interrompidas por pequenas gargantas (boqueirões) e desfiladeiros. O clima semiárido é o par perfeito da vegetação dominante na região: a caatinga, bioma exclusivamente brasileiro. Incrível pensar que há 10 mil anos atrás o clima nesta região era tropical úmido com vegetação abundante e a existência de espécies da megafauna há muito desaparecidas como mastodonte, preguiça-gigante e tigre dente de sabre circulando daqui pra lá e dali pra acolá!! Atualmente, há onças pintadas, pretas, vermelhas e jaguatiricas, porém o que vejo são apenas dezenas e dezenas de mocós, roedor típico da caatinga, abundante no parque e seu entorno. Vem daí a origem do nome do sítio onde estamos hospedadas: do Mocó. O parque compreende 4 serras: Capivara, Vermelha, Branca e Talhada. Nesta última, onde fica o Sítio do Mocó, salta aos olhos, o motivo de assim ter sido denominada. As enormes rochas ao redor da vila, tais quais gigantescos e arredondados gomos de frutas, parecem ter sido esculpidos a cinzel! Rodeada de pedras, impossível existir melhores guarda-costas! Bueno, na terça-feira, iniciamos então a visitação ao PN da Serra da Capivara, começando no setor da serra Talhada. Visitamos durante a manhã o desfiladeiro da Capivara onde dezenas de sítios de pinturas rupestres representam cenas do cotidiano do homem pré-histórico, como a cena do parto em que - detalhe interessante - o parteiro é homem, além de cenas de sexo e de caçadas. Destaca-se entre as tocas a impressiva Toca do Inferno, um brete lindo e escuro formado por altos paredões rochosos que se fecham de modo a formar um elevado teto, restando pequenas aberturas no alto por onde escoam feixes de luz solar. Damos um rolê na Toca da Entrada do Baixão da Vaca onde na parte inferior há pequena garganta cujas paredes são de dimensões modestas, não ultrapassando 150 metros de altura. Na Entrada da Toca do Pajaú, somos surpreendidas com a presença duma cascavel com mais de 1 metro de comprimento cruzando languidamente a trilha! Chama atenção a coloração fortemente avermelhada das rochas, causada pela densa concentração de óxido de ferro. Esta a razão de a criança do sertão quando anêmica raspar a parede de adobe das casas no intuito de ingerir o ferro ali contido. Planta típica da caatinga, os cáctus dão o ar de sua graça espinhenta: elegantes xique-xiques cujos galhos lembram castiçais, altos mandacarus e gorduchas coroas de frade são figurinhas fáceis por onde se olhe. A bromélia macambira é o ninho preferido das pombas que, para proteger seus ovos de predadores, os colocam entre as folhas farpadas da planta. Já a bromélia caroá é fashion porque sua fibra é usada na fabricação de bolsas. Como estamos saindo do inverno, o verde predomina na caatinga e arbustos como camaratubas, jitiranas e juremas estão em plena florescência dando um toque azulado à paisagem. Almoço no albergue seguido de visita à fábrica de cerâmica Serra da Capivara onde são feitos belíssimos artefatos em cerâmica com pinturas imitando a arte rupestre. À tardinha, nos tocamos até a serra Vermelha pra assistir do alto do Baixão das Andorinhas ao voo de regresso destas aves até o fundo do desfiladeiro onde pernoitam. A garganta é ladeada por formações rochosas cuja ovalada e craquelada superfície lembra àquelas vistas no PN das 7 Cidades. Das andorinhas, contudo, não vimos qualquer risco no céu!
Na primeira metade do século XX, o Piauí viveu o auge da produção do látex, extraído da árvore da maniçoba, árvore característica da caatinga. A sua exploração estava relacionada ao desenvolvimento das indústrias automobilística e elétrica.A importância dessa borracha só ficava atrás da produção das seringueiras no norte do país. Em sendo assim, na quarta- feira, rumamos pra Serra Branca onde lá iremos conhecer o Caminho da Maniçoba. Um exemplo, na região, da existência de maniçobeiros ou seus descendentes, são os habitantes do Sítio do Mocó. E lá vamos nós mergulhar nessa peculiar comunidade de extratores de látex que viveram durante décadas em tocas antes ocupadas pelos pré-históricos, usando matérias primas encontradas na própria natureza. Embora os maniçobeiros não soubessem o valor desses sítios arqueológicos, deixaram-nos intactos. Deveriam, acho eu, curtir as figuras desenhadas nas paredes como se fossem quadros a enfeitar suas casas. Dentro das tocas, eram erguidas paredes, feitas duma mistura de pedra, barro e madeira, à semelhança de casas, algumas com portas entre os cômodos a conferir certa privacidade aos moradores. Comum os móveis e utensílios serem de pedras, como estantes, balcões, bancos, camas, potes e panelas. Um mundo na pedra feito de pedra. Os maniçobeiros de certa forma foram os Flintstones do século XX! Cada toca não deixava de ser uma pequena vila: na do Mulungu viveram 9 famílias. Visitamos a toca do Vento onde os maniçobeiros, aproveitando sua excelente ventilação, punham o latéx pra secar devido ao seu maior valor de venda. Na Toca do João Sabino, situada em zona elevada, os cáctus abundam e o visual panorâmico permite avistar ao longe as demais chapadas cuja coloração clara dá nome à serra. Nos baixões, subsistem ainda resquícios de mata atlântica como as costelas de adão e as copadas gameleiras que se desenvolvem junto às paredes de arenito ou próximas a olhos d’água como aquele existente nas proximidades da Toca do Juazeiro. Pra encerrar com fecho de ouro o dia, visitamos a Fundação Museu do Homem Americano cujo objetivo principal é a preservação e pesquisa dos mais de 700 sítios arqueológicos existentes no PN da Serra da Capivara.
De manhã cedinho, na quinta-feira, com Alu debutando numa estrada marca diabo, crivada de fundos buracos e coberta por espesso areal, vamos ao Caldeirão dos Rodrigues onde se espalham outros sítios rupestres. Até 9 horas o ar é bem fresco, depois, pura antecâmara do inferno. Em ambos os lados da estrada, forrada com brita ou piçarra, árvores formam densa alameda que roçam as laterais do carro. Caldeirões são profundas depressões onde em priscas eras se acumulavam águas das chuvas que posteriormente originaram rios. Atualmente, raríssimos vestígios de umidade são vistos nesses sítios. Do Caldeirão dos Rodrigues II conhecemos apenas o entorno de seu topo, descortinando ampla paisagem pontuada por zonas rochosas e áreas verdes. Já no Caldeirão dos Rodrigues I, descemos até seu fundão, desescalando estreitos e íngremes corredores de pedra onde foram instalados, para facilitar a descida, degraus de ferro, à semelhança das vias ferratas. Ali embaixo, encontram-se belíssimas pinturas gravadas nas paredes de tocas com nomes singulares como Xique-Xique de Cima do Fundo. Destaca-se pela plasticidade a cena da dança em que os troncos dos dançarinos arqueados para trás transmitem com tosca fidelidade fluidez à dança. Já em alguns desenhos de animais, observa-se a tendência de fugir da unidimensionalidade infantil do traço e preenchimento das figuras, com sugestivas introduções de bidimensionalidade às imagens retratadas. Após almoço no restaurante da Paula no sítio do Mocó, visitamos o boqueirão da Pedra Furada. Neste sítio, há a famosa cena do beijo entre um casal pré-histórico e desenhos pintados em branco, amarelo e cinza demonstrando a evolução dos pré-históricos que passaram a utilizar outros pigmentos que não apenas o vermelho. Quem sabe nossos longínquos antepassados não retiraram tais pigmentos do paredão de conglomerado, existente diante da Pedra Furada, cujas camadas superpostas exibem colorações bege, amarela, vermelha, cinza e preta? Não muito distante do boqueirão, eis-nos diante da Pedra Furada, extensa parede rochosa que sofreu milenar processo de erosão resultando na monumental abertura. Na frente dessa magnífica escultura, foi construído anfiteatro onde uma vez por ano, em julho, acontecem eventos artísticos. Conhecer os sítios arqueológicos deste parque, cuja presença humana remonta 10 mil anos, foi algo impactante. Emocionei-me profundamente ao ver estampado nas paredes de arenito o cotidiano de seres humanos cujas vidas giravam em torno de 2 eixos primordiais: a caça visando à sobrevivência e o sexo para perpetuar a espécie. Da primeira extraíam a fonte de sua sobrevivência, já da segunda, a perpetuação da espécie que registravam sem qualquer pudor. Que inveja desses antepassados tão autenticamente sem-vergonhas!

domingo, 10 de junho de 2018

Abraçasso no Brasil: Piauí - PN das 7 Cidades

Saio de Barra Grande cedinho na sexta-feira e quando chego ao trevo cuja placa indica Parnaíba à direita e Jericoacoara à esquerda, estaciono no posto de gasolina ali localizado. Como não tomei café ainda, entro no restaurante ao lado do posto e peço tapioca com chá. Entabulando conversa com um senhor, descubro ser ele caminhoneiro. Pergunto se não sabe duma rodovia que vai até Piracuruca sem ser a BR 402 (já soubera da existência desse atalho em Luís Correia). Ele me ensina como devo proceder e depois de terminar a comida, sigo na direção indicada. Vou sem pressa porque a distância é curta, são apenas 190 km. Super linda a região perto de Cocal, pequena cidade à beira da rodovia, com uma linha de serras de encher os olhos. Depois dum tanto dirigindo nessa via entro então na BR 343 só parando em Piracuruca, uma das portas de entrada do Parque Nacional das 7 Cidades, atrativo turístico recomendado por minha prima Sonia. Ela teceu tantos elogios ao lugar que decidi dar uma conferida. Pequena, Piracuruca tem em torno de 27 mil almas. Dou uma banda pela cidade e perto da feira, na frente duma loja, uma banda de forró toca animadas canções deste estilo musical tão típico do nordeste. Visito 2 igrejas antigas, a matriz de Nossa Senhora do Carmo e a de Santo Antonio. A cidade enfeitada de bandeirolas se prepara para as festas juninas, consideradas no Nordeste mais significativas que a de Natal. Depois de me informar com os nativos qual rumo seguir pra chegar ao parque, pego a estrada Piracuruçá-Sete Cidade. Após dirigir 14 km num bom chão batido, vejo uma placa anunciando uma pousada. O portão está cerrado mas não dá nem 30 segundos aparece uma magrinha de nome Marci me comunicando que o lugar se encontra fechado. Faço uma cara de desconsolo e ela diz pra eu esperar que vai falar com a gerente. Resumo da estória, a gerente, Marcilene, permite que eu me hospede no Oca Tacarijus Eco Resort, antiga residência familiar transformada em hospedaria. Sou instalada num quarto espaçoso com ar condicionado. Pergunto se não há nada pra comer porque estou com preguiça de retornar à cidade, donde acabei de chegar! Prontamente, improvisam um almoço com pratos típicos - o caseiro deles, diga-se de passagem - que provo com muito gosto. As duas são umas fofas, gentis pra caramba. Como o calor é intenso, aproveito uma parte da tarde pra descarregar fotos e vídeos no notebook, após o que pedalo até o portão norte do parque – são apenas 4 km - mas não entro porque o horário de visitação termina às 17 horas, faltando apenas 5 minutos pra inteirá-lo. Tento achar a casa dum guia que me fora recomendado não lembro bem se por Nonato ou pela Fran, recepcionista da pousada nas Canárias. Como já anoiteceu e a estrada tá um breu, desisto e envio um whats quando chego na Oca pedindo pra que ele me guie durante os 2 dias em que pretendo permanecer na região. De janta, Marci prepara tambaqui grelhado com pirão....eba!! Estou eu passando a limpo algumas anotações do caderninho ao notebook quando um rapaz fardado de guarda se apresenta e declara, solene “sou Cristiano e vim fazer sua segurança”. Não atino com o motivo de tanta precaução porque o lugar mais calmo impossível. Dia seguinte, descubro o porquê: faz 1 mês assaltaram 2 bancos na cidade, explodindo com os caixas eletrônicos. Deve ser por isso, só pode! Putz, nem aqui nos confins do Brasil, a gente se livra dessa onda de violência, ala putcha! Conforme combinado via whats, apareço sábado na casa do Curiólogo às 9 horas. O tour será de bici no PN das 7 Cidades. Curiólogo, como ele se autointitula, tem como nome de batismo Osiel. O apelido Curiólogo, explica ele, resulta da mistura de dois traços de sua personalidade: curiosidade aliada à prudência. Muito engenhoso, o rapaz tá na faixa dos 30 e poucos anos. Conhece todos os cantos do 7 Cidades pois sua família vive no entorno do parque há 4 gerações. Com orgulho, salienta que qualquer trilha por onde se ande tem o suor de seu pai e de seu avô. Acrescenta que o parque é a sua grande casa geológica. O 7 Cidades, cuja idade varia entre 400 a 450 milhões de anos, discorre ele, tem origem na bacia sedimentar do rio Parnaíba. A flora predominante é a do cerrado, coexistindo manchas de caatinga e matas ciliares. O solo, por vezes, branquinho, exibe laivos brilhosos que denunciam a existência de quartzito. Uma pequena extensão do parque foi reservada à visitação, sendo dividida em 7 zonas ou cidades. Em cada uma delas, há interessantes formações rochosas. Algumas fazem jus, indubitavelmente, às suas denominações como a águia alimentando o filhote, os mapas do Brasil e do Ceará, elefantes, tartarugas e cobras. Outras, de tão abstratas, podem ser admiradas por ser aquilo que são, apenas belas pedras, ou o que mais os olhos desejarem ou imaginarem ser. A maior das cidades é a 2ª, apelidada por Curiólogo de a Capital porque há muito o que conhecer, como o Portal dos Desejos, um lindo arco de arenito, que também toma a forma da cabeça e tromba dum mamute, os sítio rupestres da Mão dos 6 Dedos e do Camaleão e o Paço da Biblioteca coroado por extensa pedra semelhante a uma gigantesca cobra, entre tantas outras esculturas rochosas. Na 4ª Cidade, conheço a gruta do Catirina onde o ermitão e curandeiro José viveu décadas com seu filho epilético. Dono de prosa fluída, Curiólogo conta diversas estórias sobre as pétreas figuras. Algumas fazem parte das lendas da região, outras, ele retira de sua fértil imaginação. Uma delas é a do moah. A lisérgica narrativa trata de seu telebate-volta à ilha de Páscoa pra trazer a gigantesca pedra.....a cavalo!! Encontro durante a visitação dois animados grupos formados por jovens estudantes. Um é de Teresina, o outro de Tianguá, cidade cearense distante 90 km. Entre as várias pessoas que passeiam no parque, destaca-se a neta do casal de cangaceiros, Lampião e Maria Bonita, Vera Ferreira. Ela como eu curte cicloturismo já tendo também pedalado Chuí- Montevideo. Convidada por Curiólogo, à tardinha, vou até sua casa. Ele e seu irmão, Edmar, construíram casas tanto no alto de árvores quanto sobre enormes rochas que abundam na propriedade. Do alto da engenhosa construção, encarapitada entre os galhos de frondoso jacarandá, curto incendiário pôr do sol. Tenho a satisfação de conhecer os ciclistas Galeno, este cego, e Marcos que vieram pedalando de Parnaíba a fim de participar da 1ª Pedalada no PN das 7 Cidades. À noite vou de carro dar um rolê em Piracuruca e aproveito pra comer um xis na lancheria Velho Oeste. Quando o atendente traz o sanduíche, me entrega um par de luvas de plástico pra que eu não suje as mãos....hahahaha. No domingão, participo da 1ª Pedalada no PN das 7 Cidades. Curiólogo juntamente com os demais guias e o diretor do parque abriram no mato do cerrado uma trilha de 12 km exclusiva para o evento. Embora plana, a trilha é bem ruinzinha, tipo single track pra nenhum galo cinza fodástico do pedal botar defeito. Após 1 hora e 4 km duramente pedalados, desisto e pego a estrada principal, um belo chão batido retornando ao local da largada onde se encontra a administração do parque. O lugar está cheio de ciclistas vindos de cidades vizinhas, de mais distantes e ainda do Ceará. Agradável surpresa constatar o excelente estado de conservação e manutenção deste parque nacional. Oxalá, todos fossem tão bem cuidados assim! Retorno à Oca e vou almoçar na área de lazer que conta com restaurante e piscina. Enquanto espero meu almoço, mergulho na refrescante piscina onde alguns nativos de Piracuruca também usufruem do espaço, aberto não só aos hóspedes como ao público em geral. Refrescada e alimentada, despeço-me das queridas Marci e Marcilene e dou uma passada no Curiólogo pra me despedir. Marcos e Galeno ainda estão lá esperando o sol baixar um pouco pra começar a pedalada de retorno a Parnaíba. Pego então o estradão que atravessa o PN das 7 Cidades, saindo pela portaria sul que conduz a Piripiri, limitando-me a contornar a cidade. O percurso à capital piauiense não passa de 170 km, assim consigo chegar a Teresina ainda com luz do sol. Escolho um bom hotel onde passo o restante do dia escarrapachada na cama vendo TV. O cansaço venceu o desejo de dar uma banda na cidade, porém o que vi de relance me agradou: largas avenidas, pouco tráfego e muita área verde. Amanhã, nova etapa da viagem inicia, dessa feita não mais só e sim em fina companhia!!

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Abraçasso no Brasil: Piauí - Litoral

Dou adeus à Tutoia e voo as tranças, na segunda, direto e reto à Parnaíba. Afinal são apenas 120 km entre as 2 cidades. Paro rapidamente pra dar carona a 2 professoras, sendo uma bem falante ao passo que a outra se mantém em silêncio. Sempre que cruzo as fronteiras dos estados, me emociono. A oportunidade de experimentar outra realidade, novo sotaque e costumes diferentes, embora seja tudo muito brasileiro, me faz sentir animadíssima. Assim ocorre enquanto atravesso a ponte sobre o rio Parnaíba, divisor natural entre Maranhão e Piauí. Largas avenidas, tráfego aparentemente civilizado me agradam de cara quando entro em Parnaíba, segunda maior cidade do Piauí com aproximadamente 200 mil habitantes. Como tenho de repor a placa dianteira no carro (perdi sei lá onde talvez nas ruas alagadas de Barreirinhas), perco desagradáveis horas no shopping Parnaíba quando poderia estar dando uma banda de bici na cidade que conta com ciclovias. Resolvo, por sugestão da maranhense Aline, dormir em Luís Correia, distante 15 km de Parnaíba. Depois de deixar minha bagagem na pousada, dou um rolê de bici à beira mar. Já noitinha, eu, dentro d’água, sou abençoada com outro espetacular pôr do sol, que incendeia o canto oeste da praia como se fogueira de São João fosse. Baiano, uma espécie de factótum da pousada onde me hospedo, inaugura sua pastelaria esta noite, único restaurante aberto à beira mar já que a temporada de verão ainda nem começou. Com fome, peço dois que, pra meu azar, além de gordurosos, contêm recheios secos e sem traço de tempero. Baiano, no afã de agradar à freguesia, responde aos meus pedidos com obsequiosos “na hora, minha patroa”. Quando pergunta se gostei dos pasteis, piedosamente, minto “que sim, estão bem gostosos. Terça, retorno à Parnaíba, pois quero conhecer o delta do rio, conhecido também como delta das Américas na sua porção maranhense. O delta vem a ser a foz do rio Parnaíba que se abre em cinco braços, abarcando um arquipélago formado por 73 ilhas fluviais. Atravesso os 300 metros da ponte Simplício Dias que une o continente à Ilha Grande de Santa Isabel, a maior delas, linda, verdejante e abundante em carnaúbas, palmeira predominante na região. Paro na vila de Morros de Mariana onde compro bolo de goma com queijo da Raquel, quituteira que vende seus petiscos na praça. Entretanto, não pretendo permanecer em Ilha Grande e sim na ilha das Canárias. Como a lancha sai do Porto dos Tatus continuo a dirigir mais alguns kms até chegar à beira do rio. Pergunto a um dos homens sentados na calçada onde posso pegar um barco que me leve à ilha. Um deles mais que ligeiro diz “te levo por tanto”. Assim, conheço Didi, dono de 2 lanchas novas e velozes. Bom de negócio fecha um pacote comigo. Consigo a duras penas um descontinho além de estacionar, sem custos, o carro na garagem de sua casa. O ex-pescador se apresenta como aventureiro, nativo e batuqueiro. Quando indago se é namorador, ele não contesta muito pelo contrário, sorridente, confirma “estamos na disposição”. Esse Didi é muito cavalheiro.....hahahaha!! Ao zarparmos do cais, vejo 2 mulheres lavando roupas no rio. Didi elogia a mais velha pela excelência de seus lavados. Ele deixa de navegar no rio e conduz a lancha pelo igarapé dos Periquitos, em cuja margem direita elevam-se dunas de coloração mais amarelada que as de Lençois. Revela-se assim outro paraíso aos meus olhos. Devo ter sido muito boa na outra encarnação, porque continuo no céu e nem morta estou uhuuu!! Trinta minutos depois atracamos nas Canárias, a segunda maior ilha do delta, com 2 mil almas e 5 povoados: Canárias, Caiçara, Passarinho, Torto e Morro do Meio. A ilha não pertence ao Piauí como erroneamente se pensa e sim ao Maranhão. Aqui no delta nunca se sabe quando se está num estado ou noutro. Instalada na pousada Casa de Caboclo, à beira do rio, sou levada ao meu aposento. Depois das modestas hospedagens anteriores, o quarto me parece luxuoso. Naquele estilo enganadoramente rústico, tem uma cama de casal protegida por dossel coberto por farto mosquiteiro. Sinto-me como se fosse uma princesa de contos de fada deitada no espaçoso e confortável colchão entre macios travesseiros e rodeada por aquela nuvem de filó branco. Hoje quero só descansar, curtir a pousada, seus recantos e o amplo jardim. Mais uma vez me confundem com turista estrangeira. O fofo do garçom, no bar, pergunta em inglês “what do you want miss?” Eu em bom português, peço caipirinha de tamarindo feita com a cachaça Lira. E os piauienses são tão amáveis quantos os maranhenses, um pouco mais sérios talvez. Em torno das 16 horas, quando o sol está menos ardido, saio pra dar uma banda no povoado de Canárias. É o maior dos cinco. Todas as ruas são de areia fofa e, em ambos os lados da comprida rua principal, predominam boas casas de alvenaria, salvo uma que outra de adobe. Há um pequeno largo diante da igreja católica e no lado oposto o bar e pousada Delta. Tiro fotografias de 3 velhotes que ficam encantados, rindo muito enquanto lhes mostro as fotos. Escuto o conversê deles comentando entre si que sou bonita, hahaha...que fofos eles! Quando peço água de côco no bar, o dono pega uma vara comprida, vai até o coqueiro mais próximo, retira a fruta que me entrega pra que eu a beba. Volto pela praia e ao avistar 2 gurias pergunto de que brincam. “De turistas”, respondem, sorridentes. “O que é brincar de turista?” “É entrar no barco e falar inglês”, explicam, rindo, mais uma vez. “E vocês falam inglês?” É então que elas se torcem, encabuladas, fugindo pra ponta do cais. O céu se mantém sem nuvens e o calor é intenso embora a tarde já esteja bem avançada. Tentar se banhar no rio é tarefa impossível: afundo na lama preta até quase o joelho, afinal aqui imperam os manguezais. Na quarta, às 9 e 30, Francisco e não Didi vem me buscar para dar um bandaço no delta do Parnaíba pilotando a confortável lancha em que ontem viajara. Navegamos nas águas de coloração marrom avermelhada do rio e aprendo a diferença entre o mangue vermelho (raízes aéreas de cima para baixo) e mangue branco (raízes de baixo para cima). O dia, lindo, embora ventoso, céu azul, calor gostoso. Após 30 minutos, deixamos de navegar no Parnaíba e entramos no rio do Corte. Nas margens deste rio há milhares de aningas, planta de água doce cujo caule tem 2 utilidades: na feitura de balsas e como cicatrizante. Sua folha verde e a flor branca lembram a do copo de leite e seu fruto quando maduro se esfacela, caindo no rio de modo a servir de alimento aos peixes. Nas águas do delta há jacarés e sucuris, essas sim, perigosas, adverte Francisco. Aliás, na variadíssima fauna destacam-se ainda tartarugas, macacos de várias espécies, jacus, colhereiros, botos e peixes-marinhos. Só consigo ver iguanas que, quando a gente se aproxima da margem onde elas se encontram, se escondem assustadas entre o matagal. Entramos num igarapé estreito, sombreado em ambas as margens por um emaranhado manguezal vermelho. Suas raízes em certos trechos pendem dos troncos como se cortinas de contas fossem. Um mundo colorido de marrom e verde. Francisco me conta que a esposa o abandonou há anos. Ficou tão traumatizado que passou 5 anos sem olhar mulher “nem com o rabo do olho”. Agora novamente casado, está contente com a atual companheira com quem tem 2 filhos. Paramos numa prainha e Francisco faz uma demonstração de como se cata caranguejo. Enfia o braço até o ombro e daí pega o bicho. Se for macho, usa-se um longo pau com uma espécie de cunha de ferro porque cava tocas mais fundas que as fêmeas. A pesca das fêmeas é proibida de dezembro a julho porque durante 8 meses elas têm de cuidar dos 8 mil ovos que ficam enterrados nas tocas. Durante esse período, são alimentadas pelos machos que lhes levam folhas frescas. Há outros predadores além do homem como o bagre. Quando a maré alaga o mangue, este peixe entra e suga das tocas os bebês caranguejos cuja casca ainda mole está boa pra ser comida. Paramos pra almoçar no restaurante e pousada Aires, situado no povoado Morro do Meio, na ponta noroeste da ilha, cuja população é de apenas 15 famílias. O proprietário, Raimundo, conta que se tornou caçador de caranguejos aos 12 anos. Trabalhava das 9 às 13 horas. Nessas 4 horas, catava crustáceos caminhando, ou melhor, se equilibrando nos troncos e galhos dos mangues enquanto carregava dezenas de cordas (vem a ser uma enfiada de 4 caranguejos ligados entre si por fios feitos da fibra da carnaúba). No almoço, Maria, sua mulher, serve uma excelente pescada amarela assada na grelha. Sesteio de babar, na rede providencialmente pendurada no refeitório, um amplo e aberto avarandado. Continuamos o passeio, navegando por 15 minutos até chegar a uma praia lindíssima, repleta de dunas. Subo na mais alta delas donde tenho uma visão linda do rio e das ilhas ao redor. Pena que as lagoas entre elas estejam secas. Voltamos à lancha e navegamos nem 2 km até a pequena ilha dos Guarás, onde as aves, como de costume, vêm pernoitar após passarem o dia pescando seu alimento predileto: o caranguejo espera-maré de cor avermelhada, responsável pela coloração de sua plumagem. Como o guará tem um fino e comprido bico, encurvado na ponta, consegue assim cavar fundo a lama dos baixios, pinçando lá de dentro o crustáceo, após o que o lava a fim de retirar a lama preta que o cobre, comendo-o então bem limpinho. Um espetáculo o pouso deles nos galhos das árvores. São milhares que vêm em bandos manchando o verde matagal de vermelho como se flores fossem. Esta revoada dos guarás deu de 10 a zero à que assisti em Atins. Ótima decisão a de ter vindo passear no delta do Parnaíba que nem fazia parte dos meus planos. O bom de viajar de carro é que vão surgindo oportunidades de conhecer lugares pouco divulgados ou até então desconhecidos pra mim. Definitivamente, o delta do Parnaíba é outro pedacinho de paraíso terrestre com sua paisagem exuberante, cheia de dunas, mangues e ilhas fluviais! Didi quem me busca, quinta, na pousada retornando eu à Ilha Grande onde pego o carro. Resolvo antes de sair da ilha, conferir uma de suas praias que vejo anunciada numa placa porque acho sugestivo o nome: Pedra do Sal. Minha curiosidade é recompensada: a praia é um mimo com farol branquinho rodeado de pedras, barracas-restaurantes feitas de palha de carnaúba, uma praia brava e outra mansa, torres eólicas ao longe. Completamente pé na areia, nenhuma pousada chique, tudo muito rústico mesmo, vila de pescadores que não se descaracterizou ainda. Lamento não poder ficar mais pero desejo explorar outras praias do litoral piauiense. Ao longo da estrada paralela à costa, a paisagem alterna dunas, vislumbre dum mar verde e matas. Em Cajueiro da Praia, onde entro para dar um vistaço, homens dormem em redes penduradas entre árvores nas calçadas, em cima dos bancos e das mesas de praças. Vou então até Barra Grande, antiga vila de pescadores descoberta pela galera do kitesurf, cuja maioria dos proprietários dos estabelecimentos são estrangeiros. Na rua principal, de chão batido, iluminada com luminárias de conchas, há diversos restaurantes cujo estilo predominante é o inevitável rústico chique. Em julho, mês da alta temporada, deve ser uma muvucagem esta praia. Graças a deus vim antes, sem nem me dar conta dessa coisa de alta e baixa temporada. Como sou sortuda, a ignorância continua me protegendo. À beira mar, restaurantes feitos com folhas e caules de carnaúba. O mar não é tão quente quanto o de Atins, Tutoia e Luís Corrreia. Mesmo assim, acabo por mergulhar em suas águas repletas de algas marrons. Adoro as cercas feitas de galhos de árvores muito semelhantes às que encontrei na vila de Askole, Paquistão. O céu tem se mantido nublado desde a primeira hora da tarde. O tal caranguejo que peço no restaurante pé na areia exaure minha paciência, mal consigo extrair de suas carapaças um dedal de carne e me sujo toda tentando. Exasperante comê-lo, não tenho a manha necessária pra extrair a polpa do crustáceo. Quem sabe na próxima encarnação. Mal alimentada, dirijo-me até a praça e apelo para o PF do restaurante Sabor de BG. Tão fácil comer peixe serra, baião de 2, farofa e salada de cenoura!! À noite, a convite de Luiz, filho da dona da pousada onde me hospedo, assisto ao seu show no restaurante Manga Rosa, encerrando minha temporada no litoral piauiense com o excelente repertório de MPB cantado por ele!!

sábado, 2 de junho de 2018

Abraçasso no Brasil: 3º Dia de Travessia nos Lençois Maranhenses

Sou acordada por Nonato às 2:30. Ensonada indago dos meus botões “por que tu te metes nessas roubadas hein guria?” Pouca demora, feliz por estar de novo com o pé na trilha, já nem lembro mais o fugaz momento de revolta. Neste último dia de pernada, unimos os 2 grupos. Assim lá vamos nós, Rafa, Nina, eu, Nonato e Biziquinho, caminhando entre as dunas cuja aclividade e declividade é bem menos acentuada que a dos dias anteriores. As lagoas se sucedem amiúde, uma ao lado da outra. Pode ser impressão minha, mas tô achando que nesta parte do parque há maior concentração delas. Circundamos as lagoas das Emendadas que como o próprio nome diz são intercomunicantes, fruto daquele processo em que a água da lagoa escava a duna, terminando, nesse caso, por se unir a outra situada nas proximidades. Nonato liga seu celular em alto e bom som pra que a gente escute músicas e lá vamos nós dançando, alegres, sobre as dunas. Nem o tempo nublado – permanece acinzentado quase toda a manhã salvo raros claros quando o sol consegue furar o bloqueio espesso das nuvens – consegue empanar a beleza estonteante da travessia. Impossível descrever com fidelidade o visual dessas dunas que de tão brancas machucam os olhos se desprotegidos e das águas transparentes e coloridas das lagoas, impossível!! Inexistem adjetivos que façam jus à beleza desse espetacular cenário! Biziquinho leva Igor pra que ele aprenda o caminho e possa quando mais velho fazer guiadas solo. A pernada de 17 km tem seu fim na lagoa das Andorinhas. Conseguimos fretar um bandeirantes, evitando assim uns bons 15 km de caminhada até o centro de Santo Amaro. Desde as Andorinhas até a entrada da zona urbana, há dezenas de lindas lagoas. Às suas margens, turistas sentados em cadeiras sob a proteção de guarda-sóis, ao lado caixas de isopor contendo cervejas e refris, curtem o sabadão. Almoçamos no restaurante do Gordo à beira do rio Alegria. O estilo é sem estilo pero a comida farta, boa e barata. O arroz de cuxá com camarão é ótimo e a pescada frita deliciosamente crocante. Nosso grupo se dissolve com as gurias retornando a São Luís, Nonato com seu sogro, de quadriciclo, pro Canto do Atins; já Biziquinho e Igor pernoitam na cidade. Consigo com as cariocas do outro grupo uma carona até o trevo de Pedras donde pego outra até Barreirinhas porque lá deixei carro e bici na pousada de Assis. Não há como deixar de notar o número de igrejas evangélicas no Maranhão. Aliás, os evangélicos são os novos bandeirantes da fé. Não desprezam lugar algum, seja uma vila como Atins, pequenas cidades como Barreirinhas ou grandes centros urbanos. Termino a noite jantando num dos restaurantes situados defronte ao rio Preguiças com Benélia, uma fofa que conheci no trevo enquanto tentava pegar carona pra Barreirinhas. Lastimo não conseguir alongar mais a noite na agradável companhia da baiana, radicada em Sampa mas o cansaço da travessia tá cobrando seu preço. Guardo, todavia, a convicção de que nos encontraremos em outras quebradas, podicre!! Morta de sono só quero ir pra pousada e dormir porque amanhã a viagem continua....uhuuu!! Domingo, então, me mando pra Tutoia pela MA 315, estrada de chão batido que passa ao lado das dunas e lagoas dos Pequenos Lençois. Embora tenham sido construídos no parque torres de eletricidade, não conseguem esses trambolhos de ferro e fios desmoralizar a beleza de cenário. Dou carona prum simpático professor que, parado na estrada porque o carro estragou, precisa ir a uma reunião em Paulino Neves. Chego ao final da manhã em Tutoia, situada à beira mar, bem em frente ao delta das Americas, formado pelo rio Parnaíba e seus afluentes. A praia de águas calientes tem dunas, mangues, rios e ilhas. Dou um rolê de bici à tardinha e enquanto me banho no mar desfruto dum dos mais lindos pores do sol de minha vida. Mais uma vez pedalando, vou jantar no restaurante Jhony onde há mesas dispostas no calçadão. Escolho uma e lá me sento, pedindo moqueca de peixe e caipirinha, bem preparadas ambas. O garçom, acredite se quiser, pergunta se sou estrangeira (?!). Mas bah, seu garçom, bem capaz, sou brasileirissímamente brasileira! Embalada talvez pela caipirinha, faço uma superficial reflexão sobre os temperamentos do maranhense do sul e do norte. Enquanto o maranhense do litoral me pareceu mais expansivo, um tantinho abusado, o do sul deixou a impressão de ser mais sério, embora uma coisa seja certa: ambos são amabilíssimos. Bueno, mudando de saco pra mala, ou seja, dum estado pro outro, amanhã não mais estarei no Maranhão, o que lamento porque adorei o estado. Contudo, devo continuar o abraçasso em outras plagas. Piauí....já já tô chegando!