quinta-feira, 28 de março de 2019

Lisboa, o Retorno

Deixo a ensolarada Las Palmas para trás ingressando numa acinzentada Lisboa. Desde 2006 não venho à capital portuguesa quando conheci o país num tour de 2 semanas com minha mãe, percorrendo-o de norte a sul. Assim, eis-me aqui novamente pra revê-la e saborear sua deliciosa culinária. Uma beleza esse novo sistema de visa da comunidade européia. Seja o país que você entre, a primeira carimbada no passaporte vale pra qualquer um sem necessidade de carimbar folhas e folhas do documento a cada país visitado! Adotando o mesmo sistema de Barcelona, escrevo email ao hotel português solicitando infos de sua localização. Dessa forma, após descer do avião com minha maletinha de 10 kg, entro no metrô convenientemente situado na saída do aeroporto. Feita uma baldeação, ops conexão (mais chique, né?), em 20 minutos estou na estação Restauradores, distante 300 metros do hotel por mim reservado. Como na Espanha aqui também há bikes e patinetes elétricos pra alugar, dirigidos em sua maioria por jovens. Largo a maleta no hotel - são apenas 16 horas - e saio pra dar uma banda. Tinha me esquecido de quão encantadora é Lisboa! Que cidade fotogênica tanto que nem o tempo enfarruscado consegue embaçar sua beleza. Tantas as opções de restaurantes no Rossio que fico meio atarantada ao ler os menus afixados às portas dos estabelecimentos. Acabo por entrar num bem simples e peço arroz de tamboril só porque o nome evoca - que viagem – o tamborilar da chuva no telhado. O delicioso ensopado com peixe, amêijoas e camarão vem acompanhado por arroz branco bem soltinho. O vinho, pois pois, é um encorpado tinto português. Dia seguinte, vou a pé até a praça Martim Moniz e, enquanto estou comprando a passagem pra embarcar no elétrico 28, o cobrador me alerta "rapido que está vindo 1 manada", hahaha!!! O passeio que dura 1 hora termina no campo de Ourique, em frente ao cemitério dos Prazeres. Refaço a rota do bondinho a pé percorrendo, inicialmente, a Estrela onde entro numa confeitaria e provo os orgasmáticos ovos moles de Aveiro acompanhado de um expresso (ah, que experiência divina!!), passo pelo Chiado e pouca demora estou atravessando a rua Augusta que termina no imponente Arco do Comércio. Almoço na Baixa 1 leitãozinho à Bairrada, que vem a ser nosso porquinho à pururuca, cujo parceiro é o bom tinto português. O tempo tá esquisito com o sol mal dando as caras no intervalo entre uma garoa e outra. Bem alimentada, subo a Alfama até chegar ao largo de Santa Luzia donde se vê abaixo o amplo curso do rio ‘Tejo exibindo-se não mais em naquinhos como até então o vislumbrara entre os vãos das estreitas e tortuosas ladeiras lisboetas. Um músico turco dedilha o saz, instrumento de cordas típico de seu país. Na parede externa da igreja de Santa Luzia, 2 enormes painéis em azulejos brancos e azuis reproduzem cenas da vida portuguesa dos séculos passados. 100 metros além, outro largo, igualmente voltado pro Tejo, o das Portas do Sol, hoje, entretanto, sem a presença da flamejante estrela. Dali, vou até as muralhas externas que circundam o Castelo de São Jorge e num trajeto de 200 metros escuto 3 manifestações musicais: desde a alegre cançoneta do leste europeu executada do alto dum balcão de uma casa centenária por 2 rapazes, passando pelo africano tocando xilofone sob a sombra duma laranjeira, à audição de jazz interpretada pelo jovem em seu saxofone. À noite, subo as ladeiras que levam ao bairro Alto pra assistir a um show de fado vadio (assim chamado quando os cantores são amadores) na tasca do Chico. O estabelecimento é pequeno com poucas mesas tanto que permaneço a maior parte do tempo ao redor do minúsculo balcão. O prato mais pedido do cardápio vem a ser o pirotécnico chouriço assado grelhando sobre labaredas que ardem na pequena cumbuca de cerâmica. Vários artistas se apresentam, com predominância de mulheres entoando o choroso estilo musical (adoooro). Dia seguinte, encontro com a cearense Cristina, amiga duma amiga, que aqui está morando com o marido. Como eu não entrara ontem no castelo de São Jorge, limitando-me a vaguear pela sua parte externa, pergunto-lhe se já o conhece. Diante da resposta negativa, pegamos a escada rolante que liga a Mouraria à Alfama evitando assim ter de subir as ladeiras que ligam um bairro ao outro. Desembocamos numa rua chamada sugestivamente Calçadinhas da Costa do Castelo. Embora a garoa não dê trégua, eu e Cris nem nos abalamos, seguimos firmes e fortes porque não somos feitas de açúcar tampouco de sal. A paisagem do alto da colina onde o Castelo foi erigido é magnífica. Avista-se a parte antiga de Lisboa com seus casarios antigos encimados por telhados avermelhados bem como o onipresente Tejo cortado ao sul pelos 2 km da ponte 25 de abril que liga a capital a Almada. Nos jardins fronteiriços ao castelo, uma dezena de pavões exibe suas magníficas caudas. O edifício foi construído no século XI pelos mouros durante a ocupação na península Ibérica, onde reinaram durante 700 anos. Restam preservadas 11 torres cujo acesso se dá através de escadas que terminam nos chamados passeios de ronda pois por ali circulavam os soldados encarregados da segurança do castelo. E nós fizemos também uma ronda – turística, é claro - ao redor do castelo apesar de o vento estar soprando forte a ponto de revirar os guarda-chuvas. Consigo evocar , neste breve tour, a magia daqueles tempos medievais, pra mim a época mais interessante da História. Terminada a visitação, tratamos de procurar um restaurante pois já são quase 17 horas e nem almoçamos ainda. A essa hora não é muito fácil encontrar lugares abertos que sirvam almoço porque tanto em Lisboa quanto na Espanha os bons restaurantes fazem intervalo de descanso entre almoço e janta. Felizmente, encontramos um aberto e nos lavamos em fartas porções de bacalhau regadas, pois pois, a vinho tinto. De sobremesa, um pudim divino de laranja. E nós as duas, alegres, de pancinha cheia, descemos a Alfama entrando na Sé, a imponente catedral da cidade. Faço os habituais 3 pedidos a que tenho direito, saindo do escuro templo pro lusco-fusco do fim de tarde. Estamos tão contentes uma com a companhia da outra que resolvemos prolongar mais a convivência entrando na charmosa enoteca Tábuas. Lá fora a chuva continua a cair miudinha enquanto eu e Cris brindamos à vida e à recente amizade!

domingo, 24 de março de 2019

Gran Canaria: Las Palmas

Pertencente ao reino de Espanha, a Região Autônoma das Canárias vem a ser um arquipélago de ilhas vulcânicas emergindo em pleno Oceano Atlântico. Antes da chegada dos espanhóis no século XV, as Canárias já eram povoadas pelos guanches, originários das populações berberes do Norte da África. Reza a lenda que criminosos daquele continente eram abandonados nas ilhas além de terem a ponta da língua decepada como castigo por seus crimes. Das 7 ilhas que compõem o arquipélago, meu destino é Gran Canaria, mais precisamente Las Palmas, uma das capitais das Canárias, em cuja área metropolitana vivem mais de 600 mil habitantes. Porque situada ao norte seu clima está mais sujeito a oscilações térmicas entre inverno e verão do que as cidades que se quedam na ponta sul da ilha. Mesmo assim a temperatura média durante o ano gira em torno de 22º C, o que posso constatar nos 3 dias em que aqui permaneço. Exatamente por este clima privilegiado atrai turistas de toda a Europa. Seu relevo montanhoso confere à paisagem aquele charme misterioso que só as terras serranas possuem. Das 5 praias existentes na cidade, destaca-se Las Canteras onde se concentra a maioria dos bons hotéis. Além do turismo de lazer, há o desportivo, destacando-se surfe, trek, ciclismo, montanhismo, esportes náuticos e parapente. Mais que o turismo, o que impulsiona às ganhas a economia de Gran Canaria é o que arrecada de taxas cobradas dos navios pelo uso de plataformas, distantes 400 metros da costa, para abastecimento, reparos e compra de víveres. Não foi aleatória minha escolha por Las Palmas. Quero rever uma prima que não vejo há mais de 40 anos!! Com sua família, ela se mandou do Uruguay, no início deste século, pra tentar nova vida além-mar, no que obteve sucesso. Maria Amalia e seu marido Daniel foram me buscar no aeroporto além de me alojar num apartamento cedido, gentilmente, por eles, diante do mar, em Las Canteras. Combinamos que à noite irei jantar em sua casa distante algumas quadras donde estou hospedada. Cansada, após almoçar a saborosa paella (a 1ª que como em terras espanholas), deito, adormecendo assim que ponho a cabeça no travesseiro. Restaurada pela soneca dou uma banda ao longo da rambla separada da praia por um muro encimado com gradis de ferro. Devido à maré alta, a praia está reduzida a uma estreita faixa de terra. A minha frente o Atlântico exibe sua vastidão azulada contida por barreiras de coral, distante poucos metros da praia. Não exibindo a sofisticação de Madri tampouco a de Barcelona, Las Palmas tem estilo arquitetônico simples, sem muito rebuscamento. Até 1970 era uma vila de pescadores. Com o boom do turismo, houve uma baita alavancada econômica na região, transformando-se na próspera comunidade dos dias atuais. No amplo e extenso calçadão, dezenas de restaurantes com mesas na calçada. Embora o céu se mostre nublado, a temperatura no relógio digital acusa 25º C. Que salto térmico dos 9º C de Barcelona quando de lá parti pela manhã. Algumas pessoas caminham na praia e um que outro surfista passa carregando suas pranchas. Também pudera, já são mais de 17 horas. Dia seguinte, Maria Amalia e seu filho Franco são meus guias num tour pelo centro histórico. Pegamos um bus e descemos no parque San Telmo onde se localiza a pequena igreja de igual nome, cujo interior dourado exibe pendurados do teto réplicas de barcos de pesca que sobreviveram aos temporais. Apesar de gordas nuvens brancas, o sol brilha radioso no céu. Caminhando pelas ruas do centro vamos até o largo onde se encontra o teatro Perez Galdoz. Sempre a pé, Maria Amalia e Franco me levam ao museo Colón, residência onde Cristóvão se hospedou quando esteve na ilha em 1492 antes de rumar pra América Central. Curto demais o interior da casa com piso de pedra e pátios internos. E fico embasbacada ao saber como eram pequenas as 3 caravelas, Nina, Pinta e Santa Maria. Passamos por muitas plazas, como a de Santa Ana onde se encontram a Catedral e as Casas Consistoriales, a de San Domingo, a de Cairasco onde sobressaem os belos prédios do Gabinete Literário e do hotel Madri, o primeiro hotel construído na ilha, além da colorida plaza de Las Ranas. Almoçamos num bistrô deliciosos tapas escolhidos pelos primos. À tarde, já sozinha porque a vida de trabalho segue pra Maria Amalia e Franco, alugo uma bici e dou um rolê legal ao longo da ponta nordeste da ilha. Gran Canaria é muito bonita com suas montanhas debruando a orla marítima. Depois de deixar a bici numa praça, com o sol já se pondo, caminho pela rambla matando tempo até a hora de ir pra casa de minha prima jantar com eles. Paro pra assistir à apresentação dum casal vestido à moda celta tocando e cantando músicas desse estilo musical. No sábado, vamos passear por algumas cidades da ilha. No carro, dirigido por Daniel, além de mim vão Maria Amalia e Juliana, filha do casal. Observo que as estradas que ligam Las Palmas as outras cidades são muito boas e bem sinalizadas, embora sinuosas, já que cortam encostas de montanhas. O verdor da vegetação é complementado aqui e acolá por arbustos de flores amarelas. Atravessamos o Pueblo de Miraflores, cruzando a seguir moderna ponte estaiada. Nos acostamentos, ciclistas pedalam com certo esforço pois o trecho é de subida. Nossa primeira parada é Teror, pequena cidade cujo clima é bem mais fresco, já que situada a 543 metros acima do nível do mar, comprovado pelo termômetro marcando 17º C às 11 da manhã! As ruas têm calçamento de pedra basáltica e as casas exibem balcões de madeira. Aqui se encontra a Basilica da Virgem del Pino, padroeira da Gran Canaria, cujo altar todo trabalhado em prata é lindo! Pra não fazer jus ao ditado “saco vazio não para em pé”, entramos os 4 numa mercearia onde ao redor do balcão pessoas comem e bebem quitutes regionais. Tenho praticamente uma epifania gastronômica enquanto degusto fatias de queijo de cabra acompanhadas pelo vinho, levemente adocicado, produzido na ilha. Fico de olho num bocadillo recheado com chouriço de Teror e queijo. Mas me contenho, porque tenho almoço pela frente e não quero lotar de todo o estômago. Bem alimentados, continuamos a viagem e da estrada vislumbro lá embaixo o azulado Atlântico e Las Palmas. O dia se mantém parcialmente soalheiro. Nossa próxima parada é Firgas onde em degraus jorra cascata de água oriunda de poços artesianos. Mais acima na mesma rua, enfeitam o piso enormes quadros azulejados, representando cada um as 7 ilhas do arquipélago da Gran Canaria. Numa dobra de rua, eis a pitoresca estátua em homenagem às lavadeiras, simbolizada por 2 mãos lavando peça de roupa diante dum córrego. Deixamos a encantadora Firgas porque ainda temos mais uma cidade a visitar: Arucas. Agora estamos descendo razão por que a temperatura torna-se cálida, fazendo com que eu dispa o blusão de fleece e fique de camiseta de manga curta. E o sol definitivamente domina o céu! Impressionante a igreja em estilo gótico no alto duma colina. Nem a catedral de Las Palmas é tão grandiosa. Entramos no parque municipal de Arucas onde conheço a árvore típica da Gran Canaria, o drago, com sua minúscula copa erguida pro alto como se fosse um espanador de cabeça pra cima. Arucas é outra cidade agradável com ruas empedradas e casarios antigos com balcões de ferro. Maria Amalia escolhe o restaurante em função do prédio se tratar duma típica residência da Gran Canaria. O almoço é um autêntico picoteo: papas arrugadas con mojos, queso ahumado a la plancha con mojos y miel, croquetes, pulpo frito estupendamente crocante, berenjenas fritas (divinas) con miel de palma. De sobremesa, o tradicionalíssimo gofio, numa versão gourmetizada. Pra beber, vinho tinto, espanhol, por supuesto!! Dessa forma, encerro o dia com outra epifania gastronômica!! Domingo, meu último dia em Las Palmas, Maria Amalia e Daniel me pegam pra dar um passeio pela rambla das Canteras onde está rolando uma maratona. Pra animar os maratonistas, uma murga feminina, fantasiada com tutus de tule colorido, fazem apitaço coletivo, ao passo que mais a frente outro grupo feminino toca tambores. Vamos até o auditório Alfredo Kraus, moderna construção diante do mar, onde rolam diversos eventos culturais ao longo do ano. Vez por outra, muçulmanas marroquinas passam por nós com seus esvoaçantes e coloridos trajes que as envolvem da cabeça aos pés, salvo o rosto. De forma a abrir o apetite antes do almoço na casa de meus primos, paramos os 3 num bar pra beber vinho. Como a sesta é sagrada em se tratando de espanhóis e uruguaios, deixo os primos em paz e vou pra casa descansar um pouco também. Contudo, não permaneço muito tempo na cama, trato de alugar uma bici e dar outro rolê. Dessa feita, pedalo na avenida marítima que fica na ponta nordeste de Las Palmas. Com o indefectível Google Maps chego na ciclovia e vejo emergindo do mar as gigantescas plataformas onde os navios estão aparcados. Ao longo dos 7 km da ciclovia, mais plataformas onde sempre há navios estacionados. Passo pelo Real Club Nautico de Gran Canaria onde dezenas de iates e lanchas se encontram. O pedal continua por San Cristóbal Marinero, antigo bairro de pescadores, cujas casinholas são pintadas de cores fortes e vibrantes. Do alto da ciclovia, a playa de Las Lajas cuja areia é bem escura ao contrário das de Las Canteras. Termino o pedal no mirador onde se encontra a belíssima escultura representando Triton, deus das profundidades marinhas. Na segunda-feira, pego um ônibus e me toco pro aeroporto, Lisboa me aguarda. Valeu, Maria Amalia querida, nosso reencontro foi tudo de bom, prima!!

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Península Ibérica: Espanha

Após nosso retorno a Bissau, permaneço ainda uma semana na cidade com breve escapada a Bubaque no fim de semana pois na terça troco o continente africano pelo europeu. Assim, na quarta de manhã, já em Madri, vejo a sorridente Michele aguardando-me no desembarque do aeroporto de Barajas. O motivo por que resolvi dar um rolê de 5 dias na capital da Espanha foi justamente pra rever a amiga que pra cá se mudou de mala e cuia – literalmente – já que faz parte daquela autêntica galera gaudéria que vive com a cuia na mão. Ainda bem que ela foi me buscar porque pra mim é um mistério qual linha de metrô pegar, qual conexão fazer e por aí afora até se alcançar o destino final. Trocamos o trem subterrâneo pelo ônibus que nos deixa enfim em 4 Vientos, bairro onde ela mora. Embora faça frio, em torno de 9º C, o dia está ensolarado e o céu, azulado, despido de nuvens. Neste 1º dia na capital espanhola, me limito a pôr o papo em dia com Michele enquanto bebemos um chima - claro! - e a descansar porque estou sem dormir praticamente a noite inteira já que parti de Bissau às 23 horas, chegando em Lisboa às 3 da madrugada donde peguei o avião das 7 pra cá! Mas na quinta, pernas pra que te quero, lá vamos nós ao centro da cidade onde ficam diversos pontos turísticos importantes como o Palácio Real com entrada livre entre 16 e 18 horas, poupando-nos assim preciosos euros. De todas as imponentes e luxuosas salas e salões da imensa residência real a que mais me impressionou nem foi a dourada sala do trono mas uma saleta cujas paredes e teto são revestidas com colorida porcelana em alto relevo. Que vida suntuosa a daqueles nobres!! É um sem fim de mármore de Carrara, aparadores gigantescos feitos com madeira de lei, paredes cobertas com suntuosos papeis de parede, candelabros colossais somente possíveis de serem pendurados num salão com pé direito altíssimo, sem deixar de mencionar os enormes espelhos e suas molduras ricamente ornamentadas. Mas o que curto mesmo, exatamente porque mexe com o lado infantil de minha personalidade, é o adorável carrossel diante do Palácio Real. Ahhh e o que são as estátuas vivas cujas ousadas posições dos artistas me deixa boquiaberta?! E aquelas casas com 3, 4 e 5 andares com seus balcões de ferro trabalhado (alguns exibindo a bandeira espanhola) e altas portas envidraçadas, hein?! Na sexta, eu e Michele nos tocamos até o centro outra vez. O objetivo é visitar os 20 hectares dos Jardines del Campo del Moro, cujos destaques são a visão esplêndida das traseiras do Palácio Real, o chalet de la Reina, em estilo tirolês e, dentre os paseos, o De Los Mosquitos (imagino aquela aristocracia espanhola se autoestapeando pra afugentar os famigerados insetos). Damos um rápido rolê pelo sem graça Jardines de Sabatini, outro jardim externo ao Palácio Real. Entramos no museo Cerralbo, repleto de preciosidades, sendo que a que mais me encantou foram os magníficos e coloridos lustres de Murano pendendo de tetos ricamente entalhados. Por outro lado, considero bem insosso o colossal interior da Catedral Santa Maria La Reina de Almudena, embora sua cripta seja arrasadoramente interessante com todos aqueles túmulos em mármore não só alojados em capelas ao longo das naves laterais quanto no piso de pedra clara. Depois desta intensa peregrinação, precisamos repor as energias e o melhor lugar é o mercado de San Miguel, uma espécie de templo gastronômico de tapas, expostos nas vitrines das bancas dispostas uma ao lado da outra. De enlouquecer a variedade de sanduichinhos, cones com frutos do mar e enfiadinhos de azeitona, tiras de pimentão, bocadinhos de queijo e camarões. Mais não enumero porque senão encheria 1/2 página descrevendo-os. Montamos cada uma seu prato e nos sentamos em tamboretes diante duma comprida mesa onde outros turistas além de espanhois lá se encontram num clima de alegre confraternização proporcionada pelo álcool e boa comida. Michele e eu brindamos com um tinto encorpado (espanhol, por supuesto) o reencontro! Dia seguinte, junta-se a nós, Dani, outra brasileira que vive em Madri, amiga de Mi. A pedida do sábado é visitar os resquícios arquitetônicos núbio-egípcios, chamado Templo de Debod. O prédio principal está fechado à visitação motivo por que acho meio sem graça os tais monumentos vistos apenas de fora. Como o teleférico fica bem pertinho, nos tocamos pra lá, embora esteja chuviscando. Esta viagem aérea proporciona um dos melhores vistaços que se pode ter não só de Madri como do Palácio Real, Catedral de La Almudena e do rio Manzanares que corta a cidade. O passeio termina na Casa de Campo, o maior parque da capital madrilenha. À noite, vamos à La Latina, bairro repleto de bons restaurantes e bares. Escolhemos um de tapas, com cara de bar de velho (hahaha), porque a maioria, cheio de jovens barulhentos, nos impediria de conversar tranquilas. Pra acompanhar os petiscos, não menos que 2 garrafas de tinto (novamente espanhol, por supuesto)! Exceto o dia de minha chegada e o da partida, o tempo se mostrou cinzento, com ocasionais chuviscos, mantendo-se a temperatura sempre ao redor dos 9ºC. Até que o inverno espanhol não está sendo tão severo. Assim, domingo, o céu permanece nublado enquanto atravessamos os jardines del Buen Retiro, conhecido simplesmente como El Retiro. Numa ponta do lago, destaca-se o grandioso monumento Glorieta de Afonso XII. Provo o autêntico churros que vem a ser finos e compridos canudos de massa doce frita pero sem recheio. Pra acompanhar saboroso e espesso chocolate quente onde se mergulha a guloseima! Achei Madri atraente e fiquei impressionada com a boa vontade, gentileza e educação dos madrilenhos, contrariando entendimento anterior que até então nutrira pelos espanhóis nas minhas andanças por este mundão. Arriscado generalizar que francês é assim, russo assado e por aí afora, não é mesmo? A língua muitas vezes é chicote do rabo....olé!
Segunda, zarpo de Madrid no trem que parte da estação Atocha, passando pela última vez diante das gigantescas esculturas dos rostos de 2 bebês que, na concepção do autor Antonio López Garcia, representa a passagem do tempo: o de olhos abertos, significa o dia, já o de olhos cerrados, a noite. Apesar de mais caro que avião, escolho ir de trem, porque assim posso curtir um pouco a paisagem até Barcelona, distante 500 km. A curta viagem de 2 horas sofre, a partir de Zaragoza, brusca mudança na paisagem: o até então árido cenário vai se transformando em verdes campos à medida que Barcelona se aproxima, influência dos ares úmidos do Mediterrâneo já que a cidade está à beira mar. Como estou realizando a proeza de viajar com uma mala de 10 kg de modo a não precisar despachá-la, pego o metrô (espertamente, escrevera email ao hotel solicitando orientação), descendo em plena rambla! Com auxílio do Google Maps acho o hotel sem estresse algum, situado no coração do barrio Gotic que é um arraso: suas estreitas e escuras ruelas desembocam em arcadas que por sua vez dão passagem a mais ruelas escuras e estreitas. E as casas são feitas de pedra como os castelos de antigamente! Estou em-can-ta-da de poder desfrutar ambiente tão medieval. Assim como em Madrid, os mendigos se abrigam em arcadas somente à noite, durante o dia tu nem vês sinal deles. E nas janelas não mais a bandeira espanhola e sim a da Catalunha. O centro de Barcelona nasceu no barrio Gotic por um motivo muito óbvio: perto do porto onde tudo acontecia naquele tempo dantanho. Lugares como Gràcia eram vilarejos que posteriormente foram incorporados à cidade. Isso tudo me foi contado por um atendente de bar enquanto eu tomava o último cálice de vinho da noite. Evidentíssimo o orgulho que os catalães têm de seu passado e de sua terra. Depois de largar as bagagens no hotel (são apenas 18 horas!), me mando pra desbravar os “sinistros” becos chegando após 3 minutos de caminhada na plaça Sant Jaume onde tá rolando uma manifestação de taxistas contra motoristas de Uber, haja vista que estes pagam menos impostos que aqueles. Acabo na Barceloneta, como é chamado o porto, caminhando tranquila apesar do adiantado da hora: quase 22 horas. Dia seguinte, continuo a desbravar o barrio Gotic e chego na Plaça Real onde caturritas voam de palmeira em palmeira matraqueando sem parar. Aliás, super comum esse tipo de árvore enfeitando as avenidas da cidade. Ato contínuo, retorno à plaça Jaume e embarafusto pela pitoresca (tudo é pitoresco no barrio Gotic!) Carrer del Bisbe, rua cortada pela exótica ponte gótica, construída no topo entre 2 edifícios permitindo assim a passagem aérea entre eles. Mais adiante, a imponente fachada gótica da Catedral, também conhecida como La Seu, remontando ao século XIV. Em seu luxuoso interior, distribuem-se ao longo das 2 naves laterais ricas capelas em cujos altares jazem imagens de santos. Na frente do templo, uma banda com piano de madeira toca alegre blues de New Orleans ao passo que na rua lateral à Catedral uma moça entoa trecho da ópera Carmem, Habanera. Apesar do frio, o sol brilha no céu azulado, não dá pra querer melhor, afinal estamos em pleno início do inverno europeu. Alugo então uma bici que se revela uma boa bosta. Consigo apenas dar uma banda até o parque de la Ciutadella onde se localiza o parlamento da Catalunha, descobrindo que o pneu traseiro está murcho. Procuro um lugar pra enchê-lo mas além de furado seu ventil está completamente podre! Desisto da bike e volto a usar minhas pernas indo até o Palau Guell, contentando-me em curtir apenas sua fachada. Na verdade, não sou bem uma fã das obras de Gaudi apesar de reconhecer a sua baita originalidade numa época em que a estética clássica predominava no continente europeu. Agora, escrevendo esta postagem, fui dar um vistaço na internete pra procurar o nome certo do museu e ao ver as fotos, em especial as do terraço, confesso que me sinto arrependida. Fica pra outra vez. O mesmo ocorre em relação à Casa Batlló: limito-me a curtir apenas seu incrível exterior com balcões que, segundo o catalão ao meu lado, representam máscaras usadas nos bailes de carnaval. Em relação a esta casa, contudo, não me sinto mal porque algumas salas estão sendo reformadas com andaimes atrapalhando a visitação. Na verdade, estou mais a fim de passear pelo barrio Gotic, me perder em suas ruelas tortas, algumas onde o sol nunca dá as caras e desembocar, inesperadamente, em pequenas ou grandes praças, provar na terra dos tapas e dos pinchos todos os petiscos que meu estômago aguentar, assim como sentir água na boca ao ler os menus afixados na frente dos restaurantes querendo comer tudo o que vejo descrito. Percorrer os corredores da Boqueria, mercado em cujas bancas vendem-se desde peixes e frutos do mar fresquinhos, acomodados sobre grosso colchão de gelo, às delicatesses como nozes, figos, frutas desidratadas e in natura, chocolates, doces de marzipã com formatos pra todos os gostos, queijos e os famosos presuntos serrano e pata negra. Ahhh, capítulo à parte, as vinaterias onde são privilegiados os vinhos produzidos na Catalunha, por supuesto. Pra não dizer que descurei do lado cultural, entro no bizarro Museu de Cera curtindo demais a bela casa antiga e seu ambiente sombrio, me divertindo com a representação canhestra de alguns personagens, quase irreconhecíveis, caso das estátuas do Príncipe Charles e sua mulher, Camilla Parker Bowles. Dou uma baita pernada ao longo do Passeig de Gràcia onde os belos prédios antigos enfeitam ambos os lados da rua. Dobro na Avigunda Diagonal onde as antiquadas residências são substituídas por altos e modernos edifícios. A greve dos taxistas continua firme e forte, ocupando os grevistas dessa feita a plaça de Catalanuya. No meu último dia em Barcelona, o dia amanhece frio, com céu absolutamente encoberto e uma garoa marota molhando as ruas da cidade. Na metade da tarde, surpresa, o céu se abre e o sol volta a brilhar firme e forte. No final da tarde, vou ao cerro de Montjuic lamentando ter perdido o passeio de teleférico porque quando lá cheguei já havia se encerrado a atividade. Mesmo assim a vista da cidade e do porto com o sol dourando os telhados e as cúpulas das igrejas vale o cansaço de já ter caminhado 20 km durante o dia, afora o esforço de subir as escadarias que conduzem ao topo. Fico arrepiada quando passo pela plaça Jaume com a comovente manifestação dos venezuelanos contra o governo Maduro, finalizando o ato com a multidão entoando o hino nacional. Termino a noite e minha breve estadia de 2 dias em Barcelona, assistindo no porão dum bar perto do hotel a uma jam session enquanto beberico algumas copas de vinho.....tinto e catalão, por supuesto!!

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A cálida Serekunda

No 1º dia do ano, cedinho, pegamos um táxi até Pikine onde está localizada a rodoviária de Dakar e embarcamos numa condução chamada sept place, que vem a ser um carro adaptado para caber 7 pessoas, afora o motora, acrescentando-se para tanto um banco extra no lugar do bagageiro. O percurso entre Dakar-Banjul, de 300 km, dura 6 intermináveis horas. Espremida no interior do desconfortável veículo, sinto na própria carne o que vêm a ser as expressões “calor senegalesco” e “apertado que nem lata de sardinha”. A rodovia senegalesa tem bom asfalto e a paisagem corre célere pela janela do carro, revelando paisagem de savana e seu capim dourado a perder de vista. Árvores com folhagens abundantes são um contraponto aos baobás cujos galhos despidos de folhas lembram figuras espectrais. Salinas pontuam de branco a planície senegalesa. Vilarejos, cujas casas são em sua maioria de adobe com teto de palha, são protegidos por cercas feitas com galhos tortos. Gente sentada em bancos, sob as copas frondosas das árvores, conversam na quentura da tarde. Chegamos a Amdallai e damos saída do Senegal para logo em seguida dar entrada em Gâmbia. Os trâmites são rápidos, uma beleza, embora haja intenso controle militar com casamatas e soldados armados. Mal cruzo a fronteira da Gâmbia, um enxame de mulheres e crianças nos ataca, literalmente, oferecendo câmbio e amendoim. Troco 30 mil francos por dalasi, moeda local e descubro posteriormente que me dei mal porque a mulher me pagou 1 ninharia pela moeda senegalesa. Que raiva, quem manda ser afobada, né?! Juntamente com Lagga Jallow, enfermeira gambiana, que conhecemos na fila da imigração, rachamos um táxi rodando 25 km até o porto donde sai o ferry. A embarcação cruza o Gâmbia, nos deixando na margem esquerda do rio onde se localiza Banjul. De lá, sempre com a simpática Lagga, pegamos outro táxi até Serekunda onde está nosso hotel. De Banjul tenho apenas um rápido vislumbre, já que são 20 horas e a cidade carece de boa iluminação. Percebo, entretanto, que está rolando uma festa de rua com som de tambores percutindo um ritmo animado que dá vontade de a gente se sacudir. Gâmbia, um dos menores e mais pobres países da África Ocidental, não passa duma estreita faixa de terra pantanosa, atravessada pelo rio Gâmbia de leste a oeste. Cercada pelo Senegal por todos os lados, exceto na parte oeste onde se limita com o Atlântico, seu clima é tropical. A população beira 2 milhões de pessoas, sendo que a língua oficial, o inglês, se deve ao país ter sido uma das colônias do Império Britânico de 1765 a 1965. A economia ampara-se na agricultura, pecuária, pesca e, principalmente, no turismo. A maioria da população é muçulmana. Banjul, capital da Gâmbia, conta com uma população de 34.828 habitantes, localizando-se na Ilha de Saint Mary, onde o Rio Gâmbia deságua no Oceano Atlântico. A cidade, fundada em 1816 pelos britânicos, serviu como um entreposto comercial e base para o combate ao tráfico de escravos. Já Serekunda, onde estamos hospedados, vem a ser a maior cidade do país e seu principal centro financeiro, corporativo e econômico. Nosso hotel é simples mas bem localizado. A 20 metros, as águas verdes do Atlântico, diante do qual redes, cadeiras e mesas espalham-se pelo jardim. Ao longo da orla, barracas de comidas e muitos resorts. Pra quem gosta de surfe rolam boas ondas. Nem sei qual a temperatura da água já que com forte resfriado trato de me preservar, evitando banhar-me. Ao entardecer, paira uma leve névoa sobre a praia. A temperatura é bem quente e sem vento. A parte do país por mim visitada é tão suja quanto os lugares por onde estive no Senegal e Guiné Bissau. O mesmo problema aqui se repete: ausência de lixeiras nas ruas, de modo que o lixo é jogado ao léu. Único lugar de toda a África Ocidental, por mim visitada, onde as pessoas não foram simpáticas, em especial as mulheres, atendendo com muita má vontade os hóspedes, foi neste resort onde estamos. Afora que, sem noção alguma, os faxineiros varrem o refeitório durante o café da manhã! Bueno, dia seguinte ao da chegada, Raul vai a Banjul ao passo que dou uma banda a pé até o centrinho de Serekunda trocar dinheiro. Resolvo almoçar comida de rua onde, atrás da delegacia, há bancas de comida. Pergunto às mulheres se estão servindo almoço considerando já ser ½ dia. Respondem que nas panelas o que há ainda é breakfast. Como mais parece almoço do que desjejum, peço à simpática Fatu, a dona duma das bancas, um prato, fartamente, servido com peixe, arroz e legumes. Sento à mesa do homem que vende chá e compro uma taça da beberagem. Na delegacia rola um escândalo protagonizado por um homem que berra e sacode as algemas com que foi atado às grades da janela da frente do prédio. Fico sabendo que foram os parentes que o denunciaram porque ele estava “muito louco de drogas”. Na quinta-feira, quem aparece pra ser meu guia é Mohamed, jovem de 20 anos, que conhecemos no Senegal, em viagem com sua escola ao país vizinho. Mohamed pretende ser guia nas horas vagas mas além de não entender bem seu inglês, ele não me parece muito experiente em tal mister. Inicialmente, quer me levar na vila, à beira mar, onde moram seus pais. Garante, orgulhoso, que sua mãe irá preparar comida típica gambiana. Além de ter de se pegar sei lá quantas conduções até o vilarejo, não me sinto nada bem por causa do resfriado. Declino assim do convite e proponho irmos a Tendaba Camp onde há uma reserva e um parque nacionais. Chacoalhando num ônibus, tipo àqueles existentes no Brasil na década de 50 do século passado, dura 4 horas o trajeto de 140 km até Kwinella, vila localizada à beira da rodovia, porque as paradas são frequentes! Diversos pontos de controle militar com casamatas e soldados armados ao longo da South Bank Road que, ao contrário dos ônibus, exibe asfalto impecável. Como Tendaba Camp dista 5 km do vilarejo, alugo um táxi com a incumbência de nos trazer de volta. Decido que não vou dormir no acampamento já que estou cada vez me sentindo mais indisposta. Vejo algumas mulheres de peito desnudo carregando às ilhargas seus filhinhos enquanto assistem à discussão entre outras duas. Num frágil equilíbrio que quase descamba pras vias de fato, o caloroso bate-boca só termina quando um homem intervém conseguindo enfim apaziguar os exaltados ânimos entre as jovens. A tal viagem de barco que quero fazer no rio Gâmbia nem rola quando percebo a inexistência de toldo no barco. Sem condições de permanecer 2 horas sem proteção no solaço das 13 horas. Retorno ao hotel lá pelas 5 da tarde me sentindo um trapo, tanto que me jogo na cama e só acordo dia seguinte. Já me sentindo melhor após automedicada com antibióticos comprados numa farmácia dos arredores, na sexta, vou junto com a simpática família espanhola, também hospedada no resort, passear nos manguezais do rio Gâmbia. Aboletados num táxi, rodamos uns 10 km até o local donde partem as embarcações. E lá vamos nós, sentados em bancos no barquinho com toldo, melhor equipado que o do dia anterior. Por não durar mais de 2 horas, sendo a maior parte do tempo dentro do barco, salvo uma curta caminhada no lodo do mangue até alcançar terra seca, pra conhecer uma árvore com um enorme buraco em seu tronco, o passeio não é lá essas coisas. O tipo de turismo superficial que muito pouco acrescenta, ainda mais quando já se conhece incríveis manguezais, meu caso. No sábado, Mohamed vem ao hotel em sua bici para darmos um rolê pelos arredores. Para tanto, alugo uma bicicleta em Fajara. Pedalamos pouco mais que 9 km porque ainda não estou 100% cento boa de meu resfriado ou seja lá o que está me deixando tão amolada. Durante o pedal conheço o National Botanic Garden, pequeno, bem acanhado, sem placas que indiquem os nomes de arbustos e árvores. De flor, só uma, bem bonita, de cor alaranjada. Os serviços básicos na Gâmbia como eletricidade e água, são bem precários, embora aqui as ruas sejam um pouco menos sujas. No domingo, bem cedinho, nos tocamos pra rodoviária. É hora de retornar a Bissau já que Raul começa a dar aulas dia seguinte, segunda-feira. Ao lado do ônibus, muçulmanos estendem o tapete no chão de pedra e se põem a rezar a primeira oração matutina. A viagem marcada pra começar às 7, só tem início uma hora depois porque a quantidade de tralharedo a ser posta no bagageiro do veículo localizado na parte superior é algo!! Cestas, embrulhos e baús enormes, bicicletas, cadeiras e outras traquitandas são suspensas por cordas numa complicada engenharia necessitando tanto de homens no chão quanto em cima do carro. A viagem dura 12 horas num percurso de 298 km embora as estradas na Gâmbia e Senegal sejam boas. O q atrasa são os check points na Guiné Bissau com o objetivo de cobrar taxas de quem está trazendo compras feitas no exterior: foram 8 em 120 km!! De tirar do sério até o mais santo ser humano!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

A Vibrante Dakar

Quinta-feira bem cedinho, o táxi que Raul contratara no dia anterior nos conduz de Bissau até São Domingo, distante 125 km. Rodovia em péssimas condições, certos trechos nem asfalto há, o que leva o motora a reclamar com justa razão. A paisagem de savana exibe pântanos aqui e acolá. Faz frio quando chegamos a São Domingo, fronteiriça ao Senegal. Fazemos os trâmites de imigração em ambas as aduanas e pegamos um toca-toca pra Ziguinchor onde fica o porto. Embarcamos no navio Aline Sitoé Diatta, heroína senegalesa morta aos 24 anos, em luta contra os franceses. Estamos acomodados numa cabine para 4 pessoas: nós 2 mais uma peruana, já coroa, naturalizada em Benin, e seu jovem e belo marido senegalês de cuja cabeça pendem pesadas tranças rastafari. O navio tem 3 decks. Inicialmente, navega-se, em torno de 3 horas, ao longo do Rio Casamanse com uma parada em Karabaque para embarque e desembarque de passageiros. A partir daí, o barco singra as águas do Atlântico. Além do restaurante que abre apenas para as refeições, há um bar funcionando permanentemente no 2° deck. Música africana, muito legal, toca o tempo todo. Há muçulmanos rezando compenetradamente suas orações à tardinha tanto no lado externo quanto interno do navio. Chegamos a Dakar às 7 da manhã de sexta e fico impressionada em como é grande e populosa a capital do Senegal com centenas, sei lá, milhares de arranha-céus e rodovias de pistas duplas, embora nem toda a modernidade tenha - graças a deus! - eliminado os vestígios da velha África com seus vendedores de comidas nas calçadas e aquela  boa bagunça típica de países de 3º mundo. O clima parece mais fresco que em Bissau. Pegamos um táxi até cité Djily Mbaye onde alugamos um quarto numa casa cujos moradores são muçulmano, como aliás o são 85% da população senegalesa. O bairro é moderno com boas residências apesar de as ruas serem em sua maioria de chão batido. Duma mesquita próxima, escuta-se o pregão  do muezin conclamando os fieis à oração matutina. Deixamos as bagagens no nosso amplo quarto com banheiro e vamos à cidade passear. Leva-se quase uma hora num percurso de 8 km porque o tráfego, pesadíssimo, com horrores de carros, é tipo arranca e pára, uma chateação. Em frente ao museu das Civilizações Negras, numa feliz coincidência, encontramos Antonia!! Infelizmente o museu está fechado e só abrirá após o feriado de ano novo. Almoçamos os 3 num restaurante frequentado por nativos de Dakar cujo prato do dia, tipicamente senegalês, chama-se chep (porção grande de arroz, galinha ensopada, cenoura, aipim, repolho e outros 2 legumes desconhecidos que não descubro quais são porque no Senegal falam francês). O ambiente, bem simples, mais parece o quintal da casa. A convite de Antonia vamos  ao Museu Senghor. Não gosto do tal museu, na verdade a residência do famoso escritor e político, que tanto ajudou a difundir a cultura africana. Terminada a chata visitação, pegamos outro táxi (não rola andar a pé porque as distâncias são muito grandes) e nos tocamos até o monumento ao Renascimento da África, esse sim, vale a pena conhecer!! São 3 estátuas gigantescas representando uma família em que a criança pousada no musculoso braço do pai aponta pro norte. É impressionante! Sábado, vamos de táxi ao centro onde mulheres sentadas às calçadas oferecem deliciosos petiscos regionais, além da famosa manteiga de karité, vendida a preço de banana. Agora a pé, passamos pelo Palácio Presidencial, onde 1 soldado belamente fardado monta guarda diante dos portões da enorme residência pintada de branco. Sempre caminhando entramos no interessantíssimo museu de Artes Africanas (IFAN), onde estão expostas diversas manifestações artísticas da África Ocidental, como a maravilhosa coleção de máscaras funerárias além do tam-tam ou bombolong, o instrumento musical usado para comunicação entre as tribos. Dali continuamos numa longa pernada pela Corniche até Almadie, entrando no mercado onde há dezenas de bancas vendendo artesanato senegalês. Tudo lindo e colorido. Não resisto a tanta belezura e compro um leque arredondado. O trânsito à noite é tão pesado quanto durante o dia, tanto é que levamos quase 1 hora pra vencer meros 6 km do restaurante Bazoff ao nosso hotel. No domingo, vamos a Goreé, distante 2,5 km da costa, embarcados numa chalupa cuja navegação não dura mais que 20 minutos. Percebo conforme nos aproximamos da ilha que sua ponta leste é plana enquanto a ocidental exibe um penhasco projetado sobre o mar. Paga-se 1 taxa de cessão de serviços municipais de 500 francos para visitá-la. Rodeada pelo mar cristalinamente azul esverdeado, a pequena vila, ora com casarios em estilo provençal, ora em estilo ibérico com balcões de madeira, exibe profusão de azáleas e buganvílias colorindo as ruas de variadas cores. As torres de telefonia móvel, pra passarem despercebidas, são disfarçadas de palmeiras! Lembra-me de certa maneira a uruguaia Colônia del Sacramento. No mercado de artesanato Le Castel, a oferta de roupas coloridíssimas e peças em madeira e palha é um colírio pros olhos. Tem de regatear porque senão as vendedoras põem os preços nas alturas. Muito pitoresco o modo como as mulheres limpam os dentes: ao invés de fio dental usam uns pedaços finos de pau que ficam esfregando sobre e entre os dentes. A partir de uma feitoria fundada pelos portugueses em Goreé, a ilha foi, entre os séculos XV e XIX, um dos maiores entrepostos de comércio de escravos, levados do continente africano aos 4 cantos das Américas. Como não podia deixar de ser, entramos na Casa dos Escravos que abrigou 20 milhões de escravos durante 350 anos, oriundos em geral da Nigéria e Benin. Na casa, que comportava em média de 100 a 200 africanos, homens, mulheres, crianças e adolescentes eram amontoados em celas coletivas, divididos conforme gênero e idade. Nos homens eram colocados grilhões e bolas de ferro. Era permitido ir 1 vez por dia ao banheiro, excetuadas as adolescentes já que em suas celas 1 buraco servia a tal fim. Na cela dos recalcitrantes, pequeno e estreito cubículo, eram jogados os rebeldes. Nelson Mandela quando lá esteve saiu em lágrimas do lugar. Dia 31, pela manhã, caminhamos na praia, onde onde donos de cavalos e cabras levam seus animais para serem banhados nas águas do Atlântico. À tarde, almoçamos no Caesar’s, restaurante cujo cardápio atraente oferece gostosa comida senegalesa, com preços razoáveis. Sua internet é boa e da varanda onde estamos acomodados vemos o movimento no boulevard de La Republique. Terminado o almoço, dou umas bandas pelos arredores enquanto Raul tatua no atelier dum francês um baobá na panturrilha da perna direita. Paro diante da banca dum vendedor de bebidas e compro ataya, chá amargoso e doce. Ainda prefiro o tuba, o maravilhoso café com especiarias, que vem a ser mutatis mutandis 1 chay que usa café ao invés de chá. Resolvemos então encarar a tarefa de ir à rodoviária pra saber como se vai pra Gâmbia. Tranquilizados já que não é necessário comprar passagens com antecedência, basta apenas chegar e escolher o veículo disponível no momento, voltamos pra casa, antes passando no super onde compramos comida pra fazer à noite. Afinal, hoje é véspera de ano novo!! Preparo na espaçosa cozinha, onde um casal da Mauritânia também prepara sua ceia, um fricassê pra mim e Raul. Brindamos com bordeaux rosé o novel 2019 que se aproxima, enquanto lá fora espoucam centenas de brilhantes e coloridos fogos de artifício!! Jere jef, Dakar!!

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Guiné Bissau, sua linda!

Há 3 rotas aéreas pra ir a Guiné Bissau com conexões em Marrocos, Cabo Verde e Lisboa. Escolho a última não demorando mais que 4 horas no aeroporto português. No voo Lisboa-Bissau, sentada ao lado dum homem cuja cor retinta de tão preta, como dizia minha vó, revela sua inequívoca origem africana, trato de puxar assunto. Conversa-vai, conversa-vem, quando pergunto se a mãe dos filhos mora em Bissau, o simpático guineense declara não sem uma ponta de malícia que está desbloqueado (?!) hahahaha. Inquieta, com câimbras nas pernas, trato de passear no avião, terminando a caminhada na fila do toalete, bom lugar pra se bater um papo. A mulher, que lá se encontra, comenta que vem de 2 costelas, lançando mão dessa imagem pra explicar sua ascendência guineense-cabo verdiana. Falante, esclarece com autoridade que “os homens são uns malandretes, uns safados.” Um rapaz, também aguardando sua vez de ir ao toalete, confirma, sorridente, a observação. Mas o que fazes, senhorinha, metida num avião a caminho da quase desconhecida Guiné Bissau, hein? Indo ao encontro de Raul que vive e trabalha em Bissau, capital do país! O que não se faz por um filho, não é mesmo? Nunca em meus planos ou sonhos cogitei visitar a África. O foco sempre foram as altas montanhas, motivo por que considerava até então os Andes na América do Sul e o Himalaia na Ásia suficientes pra me proporcionar toda a dose de aventura desejada. Só terminada a viagem, já no Brasil, foi que senti às ganhas a importância de ter conhecido uma parte do continente africano....valeu, Raul Luar!! No pequeno aeroporto de Bissau, Raul me espera juntamente com Frederico e Carlos, vice-cônsul brasileiro. Tenho apenas vislumbres de ruas ora escuras ora iluminadas enquanto sou conduzida até o apartamento onde ficarei hospedada, gentilmente, cedido por outro amigo de Raul, o Jorge, português que trabalha como optmetrista numa ótica 6 meses por ano. Nesta noite, conversamos deitados lado a lado na cama de casal, eu e Raul até quase amanhecer: o filho, animadíssimo, cheio de assuntos, tem muito a me contar. Não consigo ainda atinar porque Raul preferiu vir pra Guiné Bissau, onde 2/3 da população vive abaixo da linha da pobreza. Pouco maior que Alagoas, sua população não supera 1 milhão e oitocentas mil pessoas. Situado na costa ocidental da África, banhado pelo oceano Atlântico, seu relevo, predominantemente plano, revela savanas no interior, ao passo que o litoral, formado por planícies pantanosas, é constituído por cordões de ilhas denominadas Bijagós. O clima tropical exibe duas estações: a chuvosa e a seca. Estamos agora no período da seca, com dezembro e janeiro sendo os meses mais frescos. Mesmo assim, as temperaturas se mantêm elevadas devido aos ventos quentes vindos do deserto do Sahara que enchem a atmosfera de poeira. Meu primeiro dia em Bissau é impactante!! Grave problema detecto de cara em Bissau: sem lixeiras e aterro sanitário, o lixo é jogado ao léu nas ruas e ali mesmo queimado! Tal desleixo, gravíssimo, mais do que o feio impacto estético causado envolve riscos à saúde pública. Apesar disso abstraio (fazer o quê, né?) e deixo a cidade e seu ritmo alegre me envolver enquanto passo ao longo das ruas de chão batido, poucas com calçamento. Embora localizada no estuário do rio Geba, impraticável banhar-se em suas águas pois é zona de mangue...uma pena! Não canso de admirar a coloração de pele dos guineenses: tal qual pérola negra (licença, viu, Luiz Melodia?), brilha, sedosa, sem mescla alguma. Movimentada, a zona central da cidade, chamada praça, é ocupada por dezenas de vendedoras de comida envoltas em seus trajes coloridos que, sentadas às calçadas, apregoam em voz alta seus produtos: mariscos, polvos, lulas, camarões, peixes, carnes, galinhas vivas, fatias de côco, bananas, laranjas já descascadas, mamões, abacaxis em rodelas, ovos cozidos, castanhas de caju, amendoim. Homens, escarrapachados em cadeiras, trocam euro por franco CFA a um preço um pouco melhor que nos estabelecimentos bancários. Compro uma banana e uma fatia de abacaxi que vem a ser meu café da manhã. Mulheres passam por mim carregando comida em bacias de plástico aninhadas sobre as cabeças. Como vim a descobrir mais tarde, foram elas que utilizando este expediente astucioso conseguiram repassar armamento e munição aos soldados guineenses que lutaram na guerra contra os portugueses no século passado. Guiné Bissau, como entidade soberana, é um bebê ainda: apenas, em 1973, logrou declarar sua independência de Portugal! A população pode ser dividida nos seguintes grupos étnicos: fulas (por serem nômades se espalharam por toda África) e os povos de língua mandinga, que compõem a maior parte da população; há ainda os mandjacos e balantas (2 primeiras etnias guineenses a estudarem no exterior), mancanhas, saracules, pepel e bijagós. As crenças tradicionais africanas convivem bem com o islamismo professado por metade da população. A economia do país depende principalmente da piscicultura e da agricultura, destacando-se as culturas da castanha de caju e amendoim, principais produtos de exportação. Almoço nos dias em que permaneço em Bissau no restaurante Bayana, lugar aprazível, com caramanchão feito de vegetação artificial e mesas de pneus. O menu com pratos típicos é bem gostoso, destacando-se mancara com citi (galinha com creme de amendoim). Provo os sucos de veludo e cabaceira e os acho meio sem graças. Bueno, o plano é passar o natal em Bubaque, uma das 20 ilhas habitadas das 88 pertencentes a Bijagós, não ultrapassando a população do arquipélago 33 mil pessoas. Devido à sua biodiversidade, desde 1996, Bijagós foi declarada pela UNESCO Reserva Ecológica da Biosfera. Há 2 parques nacionais espalhados pelo arquipélago: o de Orango e o Marinho de João Vieira e Poilão. Pousadas apenas em Bubaque, Rubane, João Vieira, Orango e Kere. Embora o estilo musical predominante em Guiné Bissau seja o gumbé, em Bijagós reina o kundere. Na ilha de Orango, o sistema matriarcal faz com que as mulheres escolham seus homens. Pra tanto, preparam um prato à base de peixe, deixando-o à porta das tabancas onde eles vivem. Se for comido, significa que o cara aceitou. Então, dia 21, nos mandamos pra Bubaque num barco que, além de comportar nos 2 deques pessoas e suas bagagens, carrega cachorros, galinhas, porcos e carneiros!! Até todos se acomodarem a bagunça é grande mas quando o apito soa indicando que o barco está prestes a zarpar todos estão sentados em seus lugares. Um pequeno bar, no deque inferior, vende batatas fritas de saquinho, a apreciadíssima sande (sanduíche) recheada com fígado ensopado, refris e cerveja. Há passageiros, contudo, que levam viandas, geralmente com peixe e arroz, pra comer durante a travessia. Pouquíssimos turistas, além de mim e Raul. Normalmente, os 73 km de Bissau a Bubaque é feito em 4 horas, entretanto devido à avaria em um dos motores, a viagem arrastou-se durante 6 horas!! Ao longo da travessia, na vastidão do Atlântico, enxergo 2 ilhas, a grandota das Galinhas e outra bem pequena em que pontões rochosos afloram à beira d’água. Ao entardecer, dois espetáculos: a oeste, o pôr do sol torna o céu deliciosamente incandescente, ao passo que, a leste, a lua cheia brilha no céu sem qualquer respingo de nuvem. Chegamos à noite, no porto há muita gente esperando parentes e amigos. Apesar de todo mundo ansioso pra desembarcar, por o pé em terra firme há bem pouco empurra-empurra. Vamos direto à pousada Cruz Pontes onde ficamos hospedados durante os 5 dias de nossa permanência em Bubaque. Simples, os quartos têm banheiro e ventiladores. Os com ar condicionado custam mais caro. O café da manhã é básico: pão, margarina, geléia, nescafé, chá, leite em pó e água quente numa térmica. O dono, Seu Paulino, embora de poucas falas, sempre sorri quando o cumprimento. Algumas ruas em Bubaque são ladrilhadas com conchinhas de modo a evitar a erosão. No mercado, diante do porto, mulheres vendem coquinhos de dendê, mariscos, mexilhões e outros frutos do mar. Agitação intensa enquanto cargas são transferidas do cais ao interior das pirogas. Aos desavisados parece que as pessoas vão brigar, contudo é o jeito de ser dos guineenses, falando alto, de forma enérgica, cuidando pra que seus pertences sejam acomodados em segurança. Quando partem, a calmaria se instala no porto restando apenas o bailado leve das gaivotas voando sobre a água esverdeada do canal que separa Bubaque de Rubane. O ar refresca um pouco à noite, já durante o dia é deliciosamente cálido. Dia seguinte, vamos eu, Raul e Antonia, uma brasileira, naturalizada alemã, que conhecemos durante a viagem de barco, pedalando até Bruce, linda praia, localizada na ponta sul da ilha. São 15 km de estrada plana, chão batido, cercada por densa vegetação. Dentre as variedades de árvores, destaca-se a palmeira do dendê, donde além do óleo é extraído vinho. Esta bebida, conhecida como vinho de palma, pode tanto ser consumida fresca quanto fermentada, adquirindo assim certo teor alcoólico. Ao longo do caminho, em ambos os lados da estrada, despontam aldeias, chamadas tabancas, com suas moradias de adobe e teto de palha. Em Bubaque há 7 tabancas, cada uma com 2 mil pessoas, sendo, portanto, a ilha mais populosa do arquipélago. Crianças saem correndo das casas gritando “branco, branco” quando nos vêem passar. São encantadoras e não se negam em ser fotografadas ao contrário de suas mães que fazem gestos negativos quando percebem que estou apontando a câmera em suas direções. Homens em bicicletas carregam nos guidões galinhas vivas e varas com peixes. Ao chegar a Bruce, o mar verde, calmo, levemente morno, convida a prolongados mergulhos em suas águas onde balouçam barcos coloridos ancorados a 100 metros da praia. Almoçamos no restaurante de Mana Fatu 1 garoupa inteira com batatas fritas e salada, regada a refeição a Cacho Fresco, um branco português bem geladinho. No terreiro da propriedade, desenvolvem-se os preparativos pra inauguração da pousada de Manu Fatu. Ao ar livre, sobre trempes, onde abaixo a lenha, já em brasas, arde, enormes tachos contendo arroz com carne, dobradinha e chep jhed (molho feito com pedaços de cebola, pimenta, cenoura e pimentão) cozinham. Vez por outra mulheres com compridas varas de madeira remexem o interior dos panelões donde saem fumarolas e bons odores. Como temos horário pra entregar as bicis alugadas, não podemos ficar pra festa que terá apresentação de música e dança kundere!! Mas o que é do homem o bicho não come hehehe!!! Na véspera de natal, eu, Raul, Antonia mais 2 dinamarqueses vamos de lancha a Rubane onde, no resort Ponta Anchaca, almoçamos e assistimos ao cair da noite sabem ao quê? Show de kundere!!! Durante a dança, os dançarinos carregam chocalhos feitos com tampinha de refrigerantes que ecoam agradável som metálico em contraponto à batida seca dos tambores executados pelos percussionistas. Costurados às vestimentas das dançarinas objetos de metal e vidro mais pulseiras de madeira atadas aos tornozelos complementam a percussão. Emocionante reconhecer a origem do samba no batuque dos tambores e nos passos de dança!! Entretanto, a complexidade e variedade dos movimentos corporais dos dançarinos de Kundere, em especial dos pés, superam em muito os de nossos sambistas, exigindo extraordinário vigor e preparo físico. Claro está que retornei a Bubaque em estado de graça!! Dia de natal, Melchior, dono da Saldomar, rústica e charmosa pousada, prepara lauto almoço para hóspedes e não-hóspedes. O catalão adora contar a bruta e complicada relação com o pai, terminando a narrativa com a dramática revelação de que seu viejo, um homem duro, que nunca chorara, desmanchou-se em lágrimas, pouco antes de morrer, pedindo-lhe perdão pelo fato de ele, Mechior, ser gay. Finaliza dizendo em alto e bom som “tengo cojones” enquanto bate no peito, pra provar ao interlocutor que embora homossexual é macho pra caramba. Escutei 3 vezes essa estória sem que houvesse qualquer floreio a mais ou a menos, até os socos no peito foram 3! Manhã seguinte, retornamos a Bissau, alugando uma lancha que vence em 1 hora e 20 minutos o que demoráramos 6 horas na viagem de vinda!! Temos pressa, amanhã bem cedinho estamos indo pra Dakar passar o ano novo! Albarabake, Bissau!!