terça-feira, 31 de julho de 2018

Abraçasso no Brasil: Retorno ao Sul

O Abraçasso começou pelo centro-oeste porque queria visitar alguns amigos e parentes que moram nesta parte do Brasil, penetrando, a seguir, o canto inferior da região norte, já que sonhava com o Jalapão. Na continuidade da trip, entro no nordeste, percorrendo durante 1 mês, encantada da vida, Maranhão e Piauí. Permaneço larga temporada em Fortaleza, daqui regressando ao sul pelo litoral, motivo por que escolho a BR 101, paralela ao Atlântico, salvo pequenas escapadas em outras rodovias, como o trecho de 850 km na BR 116. Dispondo de 15 dias pra chegar a Porto Alegre, escolho algumas cidades do litoral brasileiro, desconhecidas por mim e Osnilde, salvo Natal onde já estivera há anos atrás. Escolho na capital potiguar uma pousada na Ponta Negra, cujo quarto apesar de ser estilosinho, exala insuportável cheiro de cachorro molhado. Contratamos um tour ao litoral sul do estado que inclui visita à Base de Lançamento de Foguetes da América Latina, a chamada Barreira do Inferno, localizada no município de Parnamirim. De lá, vamos dar um rolê nos 8.500 m² ocupados pelo maior cajueiro do planeta, cujo gigantismo se deve a uma anomalia genética, em Pirangi do Norte. A seguir, breve paradinha num mirante donde se vêem as avermelhadas falésias na praia do Cotovelo. Almoçamos na praia de Camurupim onde se avistam recifes de coral a menos de 50 metros da faixa de areia. Terminada a refeição, embarcamos no busão e vamos fazer a digestão à beira da lagoa de Arituba. O passeio é bem padrão, com guia comentando sobre os lugares frequentados, estabelecendo tantos minutos ou horas pra se curtir os lugares. Mais se sobe e desce do bus que outra coisa. Canso só de pensar. Os companheiros de tour nada a ver comigo. Osnilde, uma santinha, só ri quando, ranzinza que sou, reclamo do povo. Na quarta-feira, com a concordância de Osnilde, saltamos Paraíba e de João Pessoa vemos apenas sua linha de arranha-céus da BR 101. O mesmo se passa com Recife: vejo de relance seus altos edifícios, aliás uma marca que caracteriza a maioria das capitais nordestinas. Mas o que me impressiona é a periferia pobre da enorme cidade cujas construções se dependuram sobre barrancos encobertos por lonas pretas pra evitar que desmoronem quando chega a época das chuvas. Como o objetivo é evitar praias badaladas, escolho a dos Carneiros, super tranquila nesta época do ano pra descansarmos 1 dia. Como chegamos cedo, conseguimos desfrutar do calmo balneário e dar uma banda à beira mar. Ao longo da praia, uma extensa linha de recifes, algumas com vegetação nascendo sobre os corais. Dia seguinte, passeio num catamarã ao longo do rio Formoso. Um vistaço no manguezal e na linda igrejinha de São Benedito, construída a 30 metros d’água. O visual é lindo: coqueirais em ambas as margens do rio de águas verdes, céu azul e temperatura caliente temperada por suave brisa. Durante a navegação, surge um magrinho fantasiado de Michael Jackson que se põe a imitar os passos de street dance do icônico pop star americano. Terminada a patética apresentação, o artista passa o chapéu entre a turistada. Paradinha ao lado duma barreira de recifes onde vendedores de comida se aproximam pra vender petiscos e batidinhas em suas canoas. A última etapa do passeio é navegar a outra margem do rio onde há uma lama dita medicinal. Mal se desce do barco, vêm uma penca de mulheres vendendo sabonetes feitos de lama enquanto outras se oferecem pra passar a tal lama no teu corpo. Eu e Osnilde nos entreolhamos, agradecemos e rapidinho escapulimos dali. Preferimos caminhar ao longo da praia durante os 20 minutos em que ali é autorizado permanecer. À noite, jantamos no Tapera do Sabor, em Tamandaré. Escolho filé de peixe grelhado servido ao creme de maracujá e guarnecido com batata sauté e arroz de alho....uma delícia! Sexta, damos tchau pra Pernambuco e, pouca demora, já estamos em Alagoas onde almoçamos em Paripueira, tranquilo balneário já próximo de Maceió. Passamos batidas pela capital alagoana, porque fôramos convidadas pra ficar na casa de Marilene, amiga de Osnilde, na pacata Marechal Deodoro. A poucas quadras da residência, se encontra a praia do Francês em cujo canto norte rolam os agitos com restaurantes à beira mar, cadeiras e guarda-sóis de aluguel. Caso se queira sossego, a pedida é o canto sul da praia. A caminho de Aracaju, entramos em Penedo, situada na margem esquerda do rio São Francisco, pertíssimo de sua foz. Fundada no século XVI, foi a primeira povoação de Alagoas. Seu bem conservado centro histórico exibe tesouros como o Paço Imperial, a belíssima igreja em estilo barroco Nossa Senhora da Corrente, datada de 1765, e a Pousada Colonial, prédios construídos ao redor da Praça 12 de Abril, a poucas dezenas de metros do rio. Subindo as ladeiras, encontramos o Convento e Igreja Santa Maria dos Anjos, a Igreja São Gonçalo Garcia dos Homens Pardos e o Teatro 7 de Setembro. Almoçamos uma saborosa moqueca no Oratório, restaurante debruçado sobre o Velho Chico, como é carinhosamente chamado o São Francisco pela população ribeirinha. Lástima não provar as cachacinhas da casa mas quem dirige tem o ônus de se manter abstêmia. Saímos de Penedo, cruzando de balsa o rio até sua margem oposta  onde se encontra Neópolis, cidade já situada em Sergipe. Em Aracaju onde chegamos à tardinha, escolho hotel na praia de Atalaia. Na bem cuidada orla, com 5 km de extensão, foram construídos parques, lagos, pistas de bici e corrida, praças de alimentação com excelente iluminação noturna que nos fez sentir, eu e Osnilde, super seguras de lá caminhar. Ainda rodando em Sergipe, somos paradas por 2 membros da Polícia Militar. Alegam 3 irregularidades. Concordo com tudo que dizem, inclusive com a que não procede, a de que no interior de veículos de passeio não podem ser transportadas bicis - hahahaha - mas do lado de fora, pode, né?! Claro que nem rio ou argumento com o sisudo sargento ou tenente, sei lá sua patente, tão atarantada estou com o atraque. Daí o sargento ou tenente empurra pro soldado a decisão (?!) que devolve, constrangido, pro superior. Durante um par de minutos, ficam nesse pingue-pongue - parece filme de suspense - decidindo por fim não aplicar a multa, com a justificativa de que eu fora humilde ao me declarar culpada. A verdade, Osnilde descobre assim que deixamos o posto policial: eles queriam propina, os safados!! Eu, inocente, nem percebi o golpe. Bueno, decido enfrentar os 1 mil km do litoral da Bahia em 2 etapas. Rodando pela Linha Verde, um tapete de rodovia, vou até Camaçari, onde nos perdemos num emaranhado de rodovias mal sinalizadas até encontrar - ufa! - a BA 324, regressando enfim à BR 101. Após rodarmos 500 km, chegamos a Santo Antonio de Jesus, nossa primeira parada em terras baianas, pernoitando num hotel de beira de estrada bem legal. Dia seguinte, enfrentamos trecho de relevo ondulado que, embora lindo, exige bastante cuidado porque rasgado pela intensamente movimentada e curvilínea BR 101 ao longo dos 550 km até Itamaraju. Nesta cidade, nos hospedamos em outro simpático hotel de beira de estrada, donde do jardim se avista o Pico do Pescoço, um desbundante monolito rochoso. No outro dia, na altura de Itabatã, ao fazermos uma pausa pra esticar as pernas, encontramos, no restaurante dum posto de gasolina, mesa posta com café, chá e petiscos, tudo grátis, em homenagem ao 25 de julho, dia dos motoristas! Nos lavamos eu e Osnilde comendo aquelas gostosuras! Já no Espírito Santo, à margem direita da BR 101, é de enlouquecer a abundância de formações de granito espetaculares, destacando-se a Pedra do Frade e o baita boulder encimado por uma capelinha branca e azul. Chegando em Vitória à tardinha, na hora do rush, foi um sufoco achar a casa de Barbara, amiga a quem conhecera fazendo o trek no monte Roraima. Ela fez questão, quando soube que eu passaria por lá, de que ficasse em sua casa. Vitória, ilha fluvial-marítima, banhada pela baía de mesmo nome, é uma bela cidade cercada de morros. Do ape de Barbara, localizado na ilha do Boi, em frente à baía, se avista a extensa 3ª ponte que liga a capital à Vila Velha onde se destaca, entre vários morros, o do Moreno. Jerome, marido de Barbara, nos espera com deliciosa janta regada com vinho português. Osnilde relembra seu francês aprendido no ginásio conversando com o marselhês Jerome. No dia 26, cruzamos os 3,3 km da ponte e vamos conferir o Convento da Penha em Vila Velha, encarapitado no alto dum outeiro. A igreja é linda, pena a multidão de turistas na frente do altar impedindo que eu tire fotos decentes do recinto. Ato contínuo, voltamos a Vitória para, no bairro das Goiabeiras, visitar o espaço onde são fabricadas de forma artesanal as famosas panelas de barro. Claro está que compro uma, linda, com agarrador na tampa em formato de peixe! E almoçamos torta capixaba num restaurante da orla, prato típico da culinária do estado, composta por bacalhau, siri desfiado, sururu, camarão e palmito fresco, coberta com claras batidas em neve. Pra finalizar a alegre estadia em Vitória, nossos gentilíssimos anfitriões nos levam ao tradicional restaurante Dona Vilma pra provar a moqueca, considerada pelos capixabas como a mais autêntica da culinária brasileira, porque segundo eles o "resto é peixada." Depois dessa folga de 2 dias em Vitória, na sexta, voltamos a encarar a estrada. Já no estado fluminense, paramos num restaurante à beira da BR 101 em Campos dos Goytacazes, cujo cartaz anuncia comida mineira. Tudo muito feito feitinho, destacando-se a rabada... ótima. Achamos sem muitas delongas a praia de Jaconé, no balneário de Saquarema, onde ficaremos até domingo na casa da prima Anna Vitoria. No sábado, Vic nos leva pra dar um rolê por Saquarema onde almoçamos e visitamos a branquíssima igreja de Nossa Senhora de Nazaré situada no alto de uma colina com vista pra linda paisagem marítima cercada de morros. E no domingão, eis nós, mais uma vez na BR 101, atravessando a ponte Rio-Niterói, enveredando pela linha Vermelha (nenhuma bala perdida nos atingiu, graças a deus) e seguindo agora pela BR 116, neste trecho conhecida como Via Dutra até São Paulo. Perrengue cruzar a capital paulista porque o GPS me mandou ir pela marginal Pinheiros ao invés de ir pelo Rodoanel. Ainda bem que é domingo porque se assim não fosse eu acho que estacionava o carro no meio fio e me punha a chorar. Escolho pra pernoitarmos Registro onde já se nota certa mudança no clima, contudo a temperatura se mantém caliente ma non tropo. Não dá outra, ao ingressar na região sul, sou recepcionada no Paraná por um céu homogeneamente gris e uma chuva tão fina quanto persistente, tanto que as palhetas do pára-brisa do carro param nunca de funcionar. E a friaca já se faz sentir em Santa Catarina tanto que a porção nordestina de minha alma se rebela e exclama "ixe, sou pinguim, não, sou brasileira, tche!" Pernoitamos em Garopaba num hotel bem legal, dessa feita, cada uma em um quarto. Levo Osnilde pra dar uma banda no centrinho histórico do badalado balneário e depois vamos até a praia do Rosa já que ela desconhece esta parte do litoral catarinense. Merda o céu nublado mas sul é assim mesmo no inverno. Dia seguinte, depois de percorrermos 5.100 km, chegamos sãs e salvas a Porto Alegre, no último dia do mês de julho. E já na ponta dos cascos, como uma boa gauderia, digo: tô pronta pra outra indiada!

domingo, 15 de julho de 2018

Abraçasso no Brasil: Ceará

Saímos de Caracol, sábado, cedinho, percorrendo o bom asfalto da BR 020 até Santo Antonio do Piauí quando então a pista se revela esburacadíssima nos 25 km até Simplicio Mendes. Cumpre observar que este trecho foi o único senão nas rodovias piauienses pelas quais transitei. Não sei se foi desarranjo mental em nossos cérebros causado pela buraqueira da rodo ou se ausência de adequada sinalização num trevo, o fato é nos perdemos indo parar em lugar algum. Consultando nativos, mapas e google, demos um basta à desorientação e seguimos pela BR 230 até Campos Sales, já no Ceará, passando então a trafegar pela CE 292, quando enfim chegamos a Juazeiro do Norte após percorrer 700 km! Permanecemos em Juazeiro de sábado a terça, no ape de Halana, irmã de Alu. Juazeiro, juntamente com os municípios de Barbalha e Crato, faz parte do triângulo CRAJUBAR, situados na região do vale do Cariri. Dos três, Juazeiro é o mais desenvolvido e também a mais importante cidade do interior do Ceará, com quase 300 mil habitantes. No domingo, visita à Barbalha, situada aos pés da chapada do Araripe. Percorremos seu bem preservado centro histórico cujos casarios datam dos séculos XVIII e XIX. Enfeitada pras festas juninas, que duram 15 dias, os festejos em Barbalha iniciam com o dia do pau da bandeira, tradição local com mais de 100 anos de existência. Neste dia, o primeiro da Festa de Santo Antônio, os homens devotos vão às cinco horas da manhã em busca do mastro, previamente escolhido e preparado em um sítio, localizado no pé da serra, a 6 km de distância do centro da cidade. Acompanhados por uma multidão de pessoas, os homens trazem o pau da bandeira nos ombros até a frente da Igreja Matriz de Santo Antônio para hastear a bandeira do padroeiro e anunciar a abertura da festa. É festividade que mescla o sagrado e o profano tanto que, no momento em que se hasteia o Pau da Bandeira, as portas da Matriz são fechadas. Em qualquer lugar do planeta, o povo gosta de se proteger do mau olhado, lançando mão de objetos simbólicos na tentativa de afastá-lo. Aqui no nordeste, colocam cáctus coroas de frade ao lado das portas de entrada das residências, enquanto no Butão pintam falos nas paredes externas das casas. Cada qual com seu cada um. Vamos a Nova Olinda na segunda-feira e tenho o prazer de visitar o museu e a oficina de Espedito Seleiro, pertencente à quarta geração de seleiros da família. Foi seu pai quem fabricou as famosas sandálias quadradas encomendadas por Lampião de modo a despistar as volantes. Não resisto e compro uma sandália Maria Bonita em couro tingido de vermelho! Em visita ao museu Casa Grande, me delicio  com curiosa observação sobre ausência de janelas na fachada lateral sul da antiga residência, assim descrita: "a casa foi construída sem as janelas do quarto de casal devido a procriação e no quarto das moças para não serem roubadas." Também conhecemos as dependências da fundação Casa Grande situada nas traseiros do museu. A instituição além de abrigar uma escola onde crianças e jovens estudam e posteriormente se profissionalizam, disponibiliza às famílias dos estudantes meios de geração de renda. Muito legal o trabalho desta ONG. Na terça, a caminho de Fortaleza, na altura da BR 116, a paisagem é embelezada pela Chapada do Apodi que corre paralela à rodovia. Dentre as diversas cidades por que passamos me chama a atenção Jaguaribe, terra de queijos e pistolagem, uau!! Já decidida a me aquietar um pouco, escolho Fortaleza por 2 motivos: tenho outras amigas queridas, além de Alu, morando na cidade e quero conhecer mais um pouco deste estado onde já estive 2 vezes porém naquele esquema vapt vupt de 3 ou 4 dias quando ainda trabalhava. Permaneço quase um mês na cidade, salvo rápidas incursões ao interior pra conhecer determinados sítios de meu interesse. Hospedada na casa de Gorete, mãe de Alussandra, sinto-me à vontade rapidinho tamanha a hospitalidade com que sou acolhida. A residência fica em Maraponga, bairro de classe média, repleto de bom comércio, e longe, graças a deus, da muvucagem turística da orla! Dando uma banda pra conhecer as redondezas, encontro sem exagero uma banda de forró em cada esquina: no super quando vou ali fazer compras e na farmácia que está sendo inaugurada!! A matriarca da família, cozinheira de mão cheia, durante o tempo de minha permanência em sua casa, esmerou-se em apresentar deliciosos quitutes regionais, entre os quais o infalível baião de dois. E vários tipos de peixes, grelhados, fritos, ensopados, porque eu comentara em um de nossos conversês na cozinha que aqui no nordeste me nego a ingerir carne de vaca....essa deixo pra quando retornar ao sul. À janta, o ranguinho são sopas, feitas com o maior capricho, como tudo que Gorete põe a mão. Embora haja uma boa sala de estar, as reuniões sociais são no umbigo da casa, a ampla cozinha onde reina Gorete. E ela é dona de casa ciumenta, não gosta de que fiquem fuçando em seus domínios. Chega a dispensar ajuda inclusive na lavagem da louça. Gorete não tem preguiça de pôr a mão na massa, rala côco pra obter o leite, produz biomassa usada em bolos e cupcakes entre outras habilidades culinárias!! Gosto de cara dos irmãos de Alu, a sorridente Halana, professora, cujo nome é trabalho, sobrenome demais e o falante Ortega e sua cocker spaniel Aika. Todo final de tarde, os dois sobrinhos de Alu passam na casa da vó e por ali permanecem brincando um par de horas com as tias. É uma casa que sabe ser tranquila e movimentada. Um lar, por isso adorei a casa Brandão! Bueno, no findi, sou convidada por Nara pra ficar em seu ape situado próximo à orla. Ela e Camila, excelentes anfitriãs, me levam no sábado de manhã pra remar no rio Pacoti, em Eusebio, município límitrofe à Fortaleza. À noite vamos assistir no Centro de Eventos do Ceará ao Festival Vida e Arte que rola de 2 em 2 anos. Dá de tudo: peças, forró, rock, música eletrônica, enfim, variadíssimas manifestações culturais, com ênfase no regionalismo nordestino, dentre elas, o até então, pra mim, inédito, maracatu. Domingo, pedal light de 18 km, ida e volta do bairro Meireles à praia do Futuro, parando numa das dezenas de barracas construídas na faixa de areia, diante do mar, pra tomar água de côco. Na segunda, Alu e eu percorremos os 160 km da excelente CE 040 até o litoral sul onde se localiza Canoa Quebrada. A praia e suas famosas falésias, entretanto, não me arrancam ohs de admiração. Ao contrário, interessantíssimas são as de Morro Branco, em meio a dunas e formando labirintos que desembocam nas águas verdes do oceano. E pra aumentar a emoção do passeio, nada como a cascuda descida ao longo dum estreito e super íngreme brete até a minicaverna escavada pela ação da água, situada à beira mar. Nas palavras de nosso guia, os abundantes urubus e cáctus são, respectivamente, os drones e as cercas elétricas cearenses hahahaha. Eis uma boa mostra do famoso senso de humor dos cearenses! Na terça, a convite de Cristina e Iva (irmã de Nara), vamos eu e Lulu almoçar na casa delas. No almoço, sumpimpa, há lagostas, casquinhas de siri, saladas e carne de gado assando na churrasqueira. Iva serve, pra abrir o apetite, uma cachaça cearense de estalar a língua. Em tempo de Copa do Mundo, o tragoléu deve ser forte pra rebater a forte descarga de adrenalina do campeonato! Infelizmente, não podemos ficar pra ver o jogo Brasil x Costa Rica, na casa delas porque já nos havíamos comprometido em assistir à partida na casa de René, amigo de Lulu. E daí foi só alegria com o placar de 2x0, rodeada de gente bacana motivo por que continuei comemorando, aí já no vinho. O pileque foi tão bom que quando cheguei em casa, abracei Gorete e a chamei de mamãe embora ela seja da minha idade! No sábado, mais festa! Desta vez, junina organizada pelas irmãs Brandão, Gorete, Socorro e Teresa. As comidinhas preparadas pelas 3 incitavam a gente a pôr o pé na jaca. Na mesa, bolos de tapioca e de pé de moleque, cocada, rapadurinha de milho, vatapá, paçoca, baião de 2, canjica e aluá, bebida típica à base de pão. Como resistir a essa orgia gastronômica hein?! Pra gastar a bomba calórica ingerida na véspera, domingo, eu, Lulu e Nara mais outras pessoas, acompanhadas por um guia, fazemos trilha na serra de Aratanha, no município de Pacatuba, distante não mais que 30 km de Maraponga. Embora a distância não seja pesada – 6 km – o desnível de 605 metros é bem puxado ao longo da luxuriante mata atlântica. Nem bem iniciou julho, e já estamos com o pé na estrada again pra conhecer o Parque Nacional de Ubajara. Ao longo dos 302 km da BR 222, avistamos, na altura de Itapajé, a belíssima serra de Uruburetama destacando-se, entre as formações rochosas, a notável Pedra do Frade. O parque situado na serra de Ibiapaba estende-se de Tianguá a Ubajara, situando-se a portaria nesta cidade. Escolhemos por isso pernoitar ali, no sítio do Alemão, distante nem 2 km da entrada do parque. Pra se chegar a Ubajara tem de se atravessar Tianguá onde na rua principal salta aos olhos uma igreja católica de arquitetura indefinível, em cuja fachada despontam janelas em estilo árabe. Arrematando toda essa bizarrice, paira, no topo da torre, um cristo à semelhança do redentor do Corcovado. Tanto Ubajara como Tianguá são pequenas e simpáticas cidades. Em Viçosa, onde também demos um rolê, o grande atrativo é seu centro histórico. O PN de Ubajara é o mais antigo dos parques brasileiros. Embora inserido no bioma caatinga, exibe ainda trechos de mata atlântica. Super bem cuidado, disponibiliza 3 trilhas de variados níveis de dificuldade, além duma single track para a galera da bici. Fizemos a trilha mais longa, de 7 km, chamada Ubajara-Araticum que leva à gruta de Ubajara, a única aberta à visitação. As outras 10 destinam-se a estudos científicos. No início da caminhada, paramos no mirante da Gameleira onde o riacho de mesmo nome forma uma alta cachu que despenca no canyon abaixo. No outro lado da parede da garganta, visíveis as cachoeiras do Cafundó e Gavião. Descemos, em meio a mata atlântica, ladeira calçada de pedras, passando aos pés da cachoeira do Cafundó que avistáramos do alto do mirante da Gameleira situado na parede oposta do canyon. Cruzamos o rio das Minas e nos banhamos nele na volta quando paramos pra comer o lanche-almoço. A gruta conta em certos sítios com refletores que fornecem parca iluminação. E a quantidade de morcegos dentro da gruta emitindo ciciante sonido é interessante de escutar. Como todo buraco de calcário, a gruta exibe as indefectíveis estalactites e estalagmites espalhadas em diversos salões. Na volta, vamos até a borda da cachoeira do Cafundó, lugar belíssimo donde se descortina o distrito de Araticum situado no final do canyon, já no vale. Nosso guia de nome Wesley quando observo que, embora não seja o Safadão, deve praticar suas marotices, sorridente, confessa “vira e mexe, vira e mexe.” Esses homens hahaha!!  Nem bem chegamos na quinta a Fortaleza, e já estamos, no sábado, deitando cabelo e subindo a serra do Baturité pra conhecer 2 cidades. Como meu carro foi pra oficina por problemas mecânicos, vamos eu, Alu, Halana e Tatiana no de Nara. Em Pacoti, pernoitamos, porque vamos participar dum arraial junino comemorado anualmente no sítio São Luís, situado a 2 km da cidade. Muitos comes e bebes vendidos em barracas, quadrilha e banda tocando ao vivo clássicos do forró. Como nenhum cavalheiro nos tira pra dançar, eu, Alu e Halana dançamos sozinhas na pista. Dia seguinte, o mulherio se toca pra Guaramiranga onde chuvisco aliado à friaca me obriga a apelar pro xale que - graças a deus - sempre levo na mochila. É...o Ceará continua me surpreendendo: frio, chuvoso e cinzento na Serra de Baturité em contraste com seu litoral solarengo. Não adianta, não consigo sossegar o pito, quero conhecer muita coisa no Ceará! Assim, como resistir a uma visitinha ao litoral norte onde mora a avó de Alu? Segunda-feira, lá estou eu, feliz, voando as tranças, estrada afora, juntamente com Alu, Gorete e Halana, direto e reto a Itarema, cidade natal da família materna de Alu. Nos hospedamos na chácara da simpática e hospitaleira dona Judite, mãe de Gorete, onde micos estrelas perambulam de galho em galho nas árvores do jardim que circunda a casa. Dia seguinte, aproveitamos que estamos distante apenas 86 km da badalada Jericoacoara e pra lá nos mandamos. Até a arredia Gorete que, até então recusara todos os convites de passeios feitos por mim, aceita ir conosco. E pra tudo ficar melhor ainda, Halana larga seus orientandos do pós-graduação à distância e vai também conosco. Tsktsktsk....de Jericoacoara gostei menos ainda do que Canoa Quebrada. Tá, sou bem ciente do charme dos restaurantes e bistrôs maneiros, de suas pousadas elegantes em estilo rústico, das ruas de chão batido, mas Jeri não me desperta nenhum encantamento, não bate como se diz. Desde a árvore no meio das dunas cujos galhos fustigados pelo vento se inclinam paralelos ao solo à famosa Pedra Furada, cartão postal do litoral cearense, pra tudo tem de se enfrentar fila pra tirar uma simples foto. O que vale a pena, além da fina companhia das Brandão, é a divertidíssima “cavalgada” ida e volta na tal carroça, chamada Expresso Jeri, à Pedra Furada. Em compensação, Itarema eu amo! Na quarta de manhã, Alu e Gorete me levam pra conhecer a barra, paraíso de kite surf e a praia de Almofala onde a linda igreja Nossa Sra. da Conceição, construída em 1712, ficou totalmente soterrada de 1900 a 1945 pelas dunas. E Gorete faz questão de que eu conheça o colégio frequentado pela comunidade Tremembé, etnia indígena que habita estas paragens. Depois do almoço, voltamos a Fortaleza porque à noite minha caríssima amiga Osnilde tá se mandando do frio do RS pra se encontrar comigo em Fortal!! Vai me acompanhar na perna final da viagem, no retorno ao sul. Devido à breve permanência em terras cearenses, eu e Lulu organizamos criteriosamente os passeios. Assim, na quinta, de manhã levo Osnilde à praia do Futuro onde bebemos caipirinha e comemos um peixe grelhado no almoço. Vir a Fortaleza e não curtir forró é como ir a Roma e não ver o papa! Portanto, à noite, a pedida é o restaurante com pista de dança onde uma banda toca animado forró. Comum nesses lugares, a contratação de dançarinos profissionais que cobram por dança R$ 2,50 enquanto a noite inteira sai por R$ 150. Osnilde tampouco eu nos fazemos de rogada, convidando cada uma um profissional com quem nos esbaldamos revoluteando pelo salão. Na sexta, pela manhã, vamos ao Parque Estadual do Cocó, onde exponho meu torso desnudo às lentes da amiga Nara que está produzindo ensaio fotográfico a ser exibido num evento artístico em Parati. À tardinha, eu e Osnilde velejamos no Philosophy por 2 horas ao longo da orla de Fortaleza. Quero que minha amiga conheça a cidade tanto por terra quanto por mar. No sábado de manhã, mercado Central onde Osnilde enlouquece diante da variedade de vestidos, batas, sapatos, bolsas, toalhas de mesa, trilhos, lençóis, tudo no mais puro estilo nordestino, percorrendo os 5 pavimentos e vasculhando, se não as 560 lojas, 1/3 delas. O mercado oferece bufes de comidas típicas cearenses pra repor as energias depois de tanta bateção de perna. Num deles, almoçamos um ranguinho assaz gostoso!! À noite, mais festa junina, dessa feita nos subúrbios de Fortaleza pra onde vamos de van porque o grupo é composto de 12 senhoritas, amigas de Iva e Cristina. E Iva contrata ainda o dançarino profissional, Chaveirinho, pra riscar a pista conosco!! Pois não é que o rapaz consegue dar conta do recado, se alternando no dancerê com 5 mulheres?! Domingo, tem um baita almoço de despedida preparado e oferecido por Gorete já que amanhã estamos partindo! Afora pratos típicos, a Ortega coube assar a carne do churras, tarefa que executou como se gaúcho fosse, ala putcha! Já sentindo saudades antecipadas, palavras faltam pra agradecer tratamento tão cordial e carinhoso dispensado pelos Brandão, durante o período em que me hospedaram. Por isso, apenas digo: valeu, minha querida família nordestina!!

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Abraçasso no Brasil: Piauí - PN das Confusões

Sabendo que a maioria das pessoas tem equivocada ideia sobre a caatinga, abro esta postagem esclarecendo que este bioma, exclusivamente brasileiro, no período das chuvas, transforma-se numa exuberante floresta!! Das clássicas tonalidades de verde à ousada palheta laranja e vermelha, a vegetação exibe-se feérica. E como se não bastasse, matizes azulados e rosas nos arbustos floridos reforçam a explosão de cores. Quando as chuvas escasseiam, passa a ser mata branca denominada pelos tupis-guaranis caatinga. Uma lástima que este último cenário, o da vegetação seca, franzina, com domínio de cores neutras, tenha sido a preferência estética adotada pelo cinema novo e ainda insistentemente perpetuada em certas produções brasileiras da atualidade. Eu tive – aleluia - a benção de tê-la conhecido justo em sua feição colorida! Bueno, desfeito o preconceito sobre a caatinga, na sexta-feira, deitamos o cabelo (expressão nordestina que significa pé na estrada) pra Caracol, porta de entrada do pouco badalado Parque Nacional da Serra das Confusões, o maior do Piauí. Um horror a rodovia não porque tenha buracos ou outras deformidades e sim pelas malditas lombadas que infernizam com raras tréguas os curtos 88 km entre São Raimundo Nonato e Caracol. São muitos os povoados e cada um tem ½ dúzia desses calombos, alguns ilegais. Eu e Alu ficamos irritadíssimas porque a viagem que poderia ter durado nem 1 hora, levou 2!! E nem se fale em movimento porque se passavam outros veículos nem os notamos. Em Caracol, residem em torno de 10 mil almas. Seguindo a tradição nordestina, a pequena cidade se encontra toda engalanada pras festas juninas. Dessa feita, as bandeirolas, em verde-amarelo, são em homenagem à Copa do Mundo. Gosto de Caracol, ao contrário de São Raimundo, aqui me sinto aconchegada. No dia anterior, enviara um whats prum guia, recomendado pelo querido Curiólogo, acertando então a guiada. Marcamos encontro na praça. Só pelo jeito dele se aproximar do carro, sinto sua boa energia. E Jadiel foi outro que não me desapontou. Tranquilo, ficou encantado com a perícia de Alussandra no volante quando ela enfrentou certos trechos marca diabo da estradinha de chão batido. Ele nos leva até a pousada e restaurante da Edineia, onde vamos pernoitar. Neide, proprietária do estabelecimento, é bem falante. Conta que se divorciou do marido - nas palavras dela “um safado mulherengo” - e se tocou da Bahia pra cá onde montou seu negócio. Depois de deixar as bagagens no quarto, pegamos a estrada de chão batido que leva ao parque, parando antes numa casa de farinha onde ocorre o processamento da mandioca em seus principais derivados, farinha e goma. A mandioca juntamente com o caju é base de subsistência dos habitantes da região. A casa de farinha nada mais é que um espaço aberto coberto por um telheiro com poucas máquinas, todas rudimentares, cumprindo bem suas funções. A transformação do tubérculo em farinha e goma (os blocos de goma molhada parecem pedaços de argila) é totalmente artesanal. A primeira etapa consiste nas mulheres descascando as raízes uma por uma com a rapidez adquirida ao longo de décadas de prática. A última fase, a da obtenção da farinha, é cansativa e dura mais de 1 dia. Para tanto, pessoas se revezam enquanto mexem sem parar com uma comprida pá a goma espalhada sobre larga superfície ladrilhada aquecida na parte inferior por uma fornalha de modo que a goma perca toda umidade e se torne ultra fina. Iguaria apreciadíssima na mesa de qualquer nordestino pobre ou rico, notadamente, no café da manhã, os deliciosos beijus e tapiocas são o resultado final do processamento da mandioca. O Parna das Confusões, cujo bioma dominante é a caatinga, intercala ainda matas e cerrado. Visto de cima seu relevo arredondado formado pela Chapada dos Gerais assemelha-se a gigantescas e pétreas ocas. Circundam-no serras e vales cortados por desfiladeiros e canyons cujas paredes não alcançam alturas expressivas à semelhança do Parque da Serra da Capivara. Nas planícies, chamadas fundões, a vegetação abunda ao contrário da existente no topo das chapadas, como igualmente acontece na Serra da Capivara. Abriga também sítios arqueológicos com pinturas e gravuras rupestres, além de outros vestígios do cotidiano pré-histórico. Inicialmente, percorremos a trilha Cores da Caatinga, um bate-volta de 3 km, em meio a um bosque arbóreo-arbustivo cuja folhagem vermelha e amarela compete em colorido com dourado capinzal. O forte vento faz as folhas farfalharem de forma agradável enquanto caminhamos até o mirante Janela dos Sertões, extensa plataforma rochosa no topo duma chapada donde se avista extensa linha de serranias de coloração esbranquiçada separadas por capões ainda verdejantes. Jadiel explica que o nome Confusões se deve à desorientação provocada pela tonalidade uniforme das pedras. Isso fazia com que os tropeiros, confusos, se perdessem porque se tornava difícil identificar pontos de referência na paisagem. Vamos então visitar alguns sítios arqueológico, abrigados em baixões. No primeiro, as pinturas são “novinhas”, sua idade não passa dos 6 mil anos. O mais impactante de todos os sítios, pra mim, incluídos os da Serra da Capivara, vem a ser o cemitério na Toca Alto do Capim. Trata-se de pequena gruta, interior arredondado, distante 3 metros do solo, cujo acesso se dá por uma escada. No interior, em 4 ou 5 concavidades escavadas no solo, os pré-históricos depositavam seus mortos. Nas paredes ao redor das urnas funerárias, há desenhos de coloração avermelhada em formatos geométricos cujo significado ainda não foi desvendado pelos arqueólogos. Pra terminar a visitação com fecho de ouro, visitamos a deslumbrante Gruta do Riacho do Boi. Só a trilha que leva ao lugar já é um desbunde: começa no topo de ondulada e árida formação rochosa que mais parece um oceano de pedras! Como um passe de mágica, se desce por uma escada até um sítio super arborizado onde se localiza a impressionante abertura que na verdade é uma pequena caverna. Larga, com 100 metros de comprimento, a areia do solo é branquinha e fina que nem a de praia; de frestas no teto, escapam résteas de luz solar. Eu parecia criança pequena soltando ahs e ohs a cada passo que dava pelo encantador túnel. E me ponho a sonhar com essa gruta vazando luz em noite de lua cheia. Uma merda termos reservado apenas um dia pra conhecer a Serra das Confusões. Este parque merece mais tempo de visitação. Com certeza, voltarei, podicre!! Assim, no sábado, me despeço de Caracol porque é tempo de trocar Piauí por Ceará. Simbora, deitar cabelo de novo, Lulu!!

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Abracasso no Brasil: Piauí - PN da Capivara

A partir de agora não viajo mais só. Alussandra, vindo de Fortaleza participará desta etapa do abraçasso. Depois de me regalar com um lauto café da manhã, vou buscá-la na rodoviária em Teresina, longe paca do hotel, com direito a me perder graças ao maldito GPS do carro. Sinos de alegria bimbalham festivamente em minha cabeça quando vejo a amiga!! Sorrindo não só com a boca quanto com os olhos, Alu está radiante não só por me rever quanto pela aventura que nos aguarda! Nos abraçamos longamente após o que vamos visitar Iolanda, mãe de Polly, amiga comum, piauiense, residindo atualmente em Porto Alegre. Viúva recentíssima, Iolanda merece uma visita, um abraço de conforto. Embora eu não a conheça - chame a isso curiosidade - quero visitá-la. E não me desaponto, sua calorosa acolhida confirma as boas vibrações que eu intuía dela. Nos espera com um café que mais parece almoço, tantos os quitutes oferecidos: carne seca, queijo coalho, bolos, pães e frutas. E não contente em querer nos bem alimentar, ainda faz marmita pra comermos durante a viagem. Lastimo não ter podido ficar mais tempo usufruindo da companhia de Iolanda, mas a distância a São Raimundo Nonato, nosso destino, soma respeitáveis 580 km. A partir daqui, não mais pilotarei o carro, assim, cedo o volante à Alu, excelente motorista. Rodamos um bom tempo pela BR 343, vendo, vez por outra diante dos pórticos de algumas cidades, gigantescas e cafonas estátuas em homenagem às santas padroeiras das localidades. Seja em animadas conversas ou em confortável silêncio, sempre tá rolando uma boa trilha musical dentro do carro. Próximo a São Raimundo Nonato, já na PI 140, destacam-se, mais dourados ainda pelo sol poente, tufos de capim amarelo adornando ambos os lados da rodovia. São Raimundo Nonato situa-se no sudeste do Piauí e sua população não passa de 35 mil habitantes. A cidade, pequena, destituída de charme, não mereceu de nós especial atenção. Nos limitávamos apenas em cruzá-la a caminho dos passeios. Procuramos a casa da guia que se revelou não só de burocrático comportamento quanto despida de qualquer pingo de senso de humor. Foi o único senão dos 3 dias de visitação no Parque Nacional da Serra da Capivara. Acertados os passeios, enfrentamos mais 33 km até o Sítio do Mocó onde eu soubera, lendo num site da internete, a existência duma pousada e camping administradas por uma tal de Conceição, cuja descrição muito me agradara. Mais uma vez não me decepciono. Conceição ou Ceiça é desembaraçada, animada, safa demais em seus 70 e poucos anos. Remanescente do movimento hippie, Conceição é uma genuína dinossaura da era de Aquarius. Saiu cedo de São Raimundo e passou a maior parte de sua vida entre São Paulo, Rio e Bahia. Sobre um cara que conheceu avalia que "ele era fluídico sem ser dogmático." Conta estórias hilariantes sobre seu agitado passado, tendo conhecido vários famosos dentre os quais Raul Seixas e Novos Baianos, pra quem costurou trajes com que se apresentavam nos shows. E Conceição comenta que por serem todos aparentados no Sítio do Mocó, alguns moradores ou são deficientes físicos ou mentais, como o rapaz que volta e meia se põe aos gritos. Quando à noite, vamos eu e Alu em busca dum restaurante aberto, encontramos o comércio fechado e grande aglomeração diante duma casa. Alu menciona que alguém deve ter morrido. Dito e feito. O povoado parou pra homenagear um de seus moradores. Embora velando o defunto, Talita, uma loura magrinha e agitada, na faixa dos 30, aparentando 20, abre sua pequena pizzaria e prepara 2 pizzas pra nós. Sabemos então por ela que o finado, seu parente, com 88 anos, morreu de tristeza porque a esposa falecera há coisa dum ano. Segundo tradição nordestina, própria de famílias fervorosamente católicas, erguem-se ao lado das casas capelinhas com imagens de santos e santas. A da casa do falecido foi construída porque sua esposa, quando viva era, tinha dificuldade em se deslocar à igreja devido a problemas cardíacos. Como a sala onde o morto está sendo velado é pequena, as pessoas sentam em cadeiras na calçada em frente à casa. Sobre uma mesa coberta com toalha, térmica de café, garrafa d’água e copos. Dos homens, muito comedidos, não se escuta quase falação. As mulheres, quando não conversam em sussurros, rezam. Presentes no velório, além de toda a vila, parentes de outras cidades, incluindo Teresina. Velórios não deixam de ser acontecimentos sociais, porque ao reunir pessoas que não se encontram amiúde, oportuniza-se a renovação de laços parentais e de amizade. Após o enterro do sr. Valdemar, todas as noites a partir das 18, parentes, maioria mulheres, se reúnem pra rezar o terço durante 9 dias em sua homenagem. Na segunda noite, quando passo diante da casa onde cadeiras mais uma vez foram colocadas na calçada, sou convidada a participar das orações. Gentilmente, uma mulher cede seu assento, sentando-se no banco à frente. E não é que ainda me lembro do Pai Nosso e da Ave Maria?! Aliando-me ao coro feminino, recito um tantinho emocionada as orações.
Pouco sabia do Parque Nacional da Serra da Capivara a não ser por seu conjunto de belíssimas formações rochosas e por se localizar no Piauí, estado que vem atiçando minha curiosidade exatamente porque pouco badalado em termos turísticos. Motivo de orgulho descobrir que o parque é área de maior concentração de sítios arqueológicos pré-históricos do continente americano e Patrimônio Cultural da Humanidade. Contém a maior quantidade de arte rupestre do mundo! Estudos científicos confirmam que a Serra da Capivara foi densamente povoada em períodos pré–históricos. Os artefatos encontrados apresentam vestígios do homem há 50.000 anos, os mais antigos registros na América! O relevo do parque compõe-se de serras e planícies interrompidas por pequenas gargantas (boqueirões) e desfiladeiros. O clima semiárido é o par perfeito da vegetação dominante na região: a caatinga, bioma exclusivamente brasileiro. Incrível pensar que há 10 mil anos atrás o clima nesta região era tropical úmido com vegetação abundante e a existência de espécies da megafauna há muito desaparecidas como mastodonte, preguiça-gigante e tigre dente de sabre circulando daqui pra lá e dali pra acolá!! Atualmente, há onças pintadas, pretas, vermelhas e jaguatiricas, porém o que vejo são apenas dezenas e dezenas de mocós, roedor típico da caatinga, abundante no parque e seu entorno. Vem daí a origem do nome do sítio onde estamos hospedadas: do Mocó. O parque compreende 4 serras: Capivara, Vermelha, Branca e Talhada. Nesta última, onde fica o Sítio do Mocó, salta aos olhos, o motivo de assim ter sido denominada. As enormes rochas ao redor da vila, tais quais gigantescos e arredondados gomos de frutas, parecem ter sido esculpidos a cinzel! Rodeada de pedras, impossível existir melhores guarda-costas! Bueno, na terça-feira, iniciamos então a visitação ao PN da Serra da Capivara, começando no setor da serra Talhada. Visitamos durante a manhã o desfiladeiro da Capivara onde dezenas de sítios de pinturas rupestres representam cenas do cotidiano do homem pré-histórico, como a cena do parto em que - detalhe interessante - o parteiro é homem, além de cenas de sexo e de caçadas. Destaca-se entre as tocas a impressiva Toca do Inferno, um brete lindo e escuro formado por altos paredões rochosos que se fecham de modo a formar um elevado teto, restando pequenas aberturas no alto por onde escoam feixes de luz solar. Damos um rolê na Toca da Entrada do Baixão da Vaca onde na parte inferior há pequena garganta cujas paredes são de dimensões modestas, não ultrapassando 150 metros de altura. Na Entrada da Toca do Pajaú, somos surpreendidas com a presença duma cascavel com mais de 1 metro de comprimento cruzando languidamente a trilha! Chama atenção a coloração fortemente avermelhada das rochas, causada pela densa concentração de óxido de ferro. Esta a razão de a criança do sertão quando anêmica raspar a parede de adobe das casas no intuito de ingerir o ferro ali contido. Planta típica da caatinga, os cáctus dão o ar de sua graça espinhenta: elegantes xique-xiques cujos galhos lembram castiçais, altos mandacarus e gorduchas coroas de frade são figurinhas fáceis por onde se olhe. A bromélia macambira é o ninho preferido das pombas que, para proteger seus ovos de predadores, os colocam entre as folhas farpadas da planta. Já a bromélia caroá é fashion porque sua fibra é usada na fabricação de bolsas. Como estamos saindo do inverno, o verde predomina na caatinga e arbustos como camaratubas, jitiranas e juremas estão em plena florescência dando um toque azulado à paisagem. Almoço no albergue seguido de visita à fábrica de cerâmica Serra da Capivara onde são feitos belíssimos artefatos em cerâmica com pinturas imitando a arte rupestre. À tardinha, nos tocamos até a serra Vermelha pra assistir do alto do Baixão das Andorinhas ao voo de regresso destas aves até o fundo do desfiladeiro onde pernoitam. A garganta é ladeada por formações rochosas cuja ovalada e craquelada superfície lembra àquelas vistas no PN das 7 Cidades. Das andorinhas, contudo, não vimos qualquer risco no céu!
Na primeira metade do século XX, o Piauí viveu o auge da produção do látex, extraído da árvore da maniçoba, árvore característica da caatinga. A sua exploração estava relacionada ao desenvolvimento das indústrias automobilística e elétrica.A importância dessa borracha só ficava atrás da produção das seringueiras no norte do país. Em sendo assim, na quarta- feira, rumamos pra Serra Branca onde lá iremos conhecer o Caminho da Maniçoba. Um exemplo, na região, da existência de maniçobeiros ou seus descendentes, são os habitantes do Sítio do Mocó. E lá vamos nós mergulhar nessa peculiar comunidade de extratores de látex que viveram durante décadas em tocas antes ocupadas pelos pré-históricos, usando matérias primas encontradas na própria natureza. Embora os maniçobeiros não soubessem o valor desses sítios arqueológicos, deixaram-nos intactos. Deveriam, acho eu, curtir as figuras desenhadas nas paredes como se fossem quadros a enfeitar suas casas. Dentro das tocas, eram erguidas paredes, feitas duma mistura de pedra, barro e madeira, à semelhança de casas, algumas com portas entre os cômodos a conferir certa privacidade aos moradores. Comum os móveis e utensílios serem de pedras, como estantes, balcões, bancos, camas, potes e panelas. Um mundo na pedra feito de pedra. Os maniçobeiros de certa forma foram os Flintstones do século XX! Cada toca não deixava de ser uma pequena vila: na do Mulungu viveram 9 famílias. Visitamos a toca do Vento onde os maniçobeiros, aproveitando sua excelente ventilação, punham o latéx pra secar devido ao seu maior valor de venda. Na Toca do João Sabino, situada em zona elevada, os cáctus abundam e o visual panorâmico permite avistar ao longe as demais chapadas cuja coloração clara dá nome à serra. Nos baixões, subsistem ainda resquícios de mata atlântica como as costelas de adão e as copadas gameleiras que se desenvolvem junto às paredes de arenito ou próximas a olhos d’água como aquele existente nas proximidades da Toca do Juazeiro. Pra encerrar com fecho de ouro o dia, visitamos a Fundação Museu do Homem Americano cujo objetivo principal é a preservação e pesquisa dos mais de 700 sítios arqueológicos existentes no PN da Serra da Capivara.
De manhã cedinho, na quinta-feira, com Alu debutando numa estrada marca diabo, crivada de fundos buracos e coberta por espesso areal, vamos ao Caldeirão dos Rodrigues onde se espalham outros sítios rupestres. Até 9 horas o ar é bem fresco, depois, pura antecâmara do inferno. Em ambos os lados da estrada, forrada com brita ou piçarra, árvores formam densa alameda que roçam as laterais do carro. Caldeirões são profundas depressões onde em priscas eras se acumulavam águas das chuvas que posteriormente originaram rios. Atualmente, raríssimos vestígios de umidade são vistos nesses sítios. Do Caldeirão dos Rodrigues II conhecemos apenas o entorno de seu topo, descortinando ampla paisagem pontuada por zonas rochosas e áreas verdes. Já no Caldeirão dos Rodrigues I, descemos até seu fundão, desescalando estreitos e íngremes corredores de pedra onde foram instalados, para facilitar a descida, degraus de ferro, à semelhança das vias ferratas. Ali embaixo, encontram-se belíssimas pinturas gravadas nas paredes de tocas com nomes singulares como Xique-Xique de Cima do Fundo. Destaca-se pela plasticidade a cena da dança em que os troncos dos dançarinos arqueados para trás transmitem com tosca fidelidade fluidez à dança. Já em alguns desenhos de animais, observa-se a tendência de fugir da unidimensionalidade infantil do traço e preenchimento das figuras, com sugestivas introduções de bidimensionalidade às imagens retratadas. Após almoço no restaurante da Paula no sítio do Mocó, visitamos o boqueirão da Pedra Furada. Neste sítio, há a famosa cena do beijo entre um casal pré-histórico e desenhos pintados em branco, amarelo e cinza demonstrando a evolução dos pré-históricos que passaram a utilizar outros pigmentos que não apenas o vermelho. Quem sabe nossos longínquos antepassados não retiraram tais pigmentos do paredão de conglomerado, existente diante da Pedra Furada, cujas camadas superpostas exibem colorações bege, amarela, vermelha, cinza e preta? Não muito distante do boqueirão, eis-nos diante da Pedra Furada, extensa parede rochosa que sofreu milenar processo de erosão resultando na monumental abertura. Na frente dessa magnífica escultura, foi construído anfiteatro onde uma vez por ano, em julho, acontecem eventos artísticos. Conhecer os sítios arqueológicos deste parque, cuja presença humana remonta 10 mil anos, foi algo impactante. Emocionei-me profundamente ao ver estampado nas paredes de arenito o cotidiano de seres humanos cujas vidas giravam em torno de 2 eixos primordiais: a caça visando à sobrevivência e o sexo para perpetuar a espécie. Da primeira extraíam a fonte de sua sobrevivência, já da segunda, a perpetuação da espécie que registravam sem qualquer pudor. Que inveja desses antepassados tão autenticamente sem-vergonhas!