sábado, 8 de março de 2014

Garganta Kaingang

Mal chegadas, quarta à noite do pedal no Uruguay, eu e Fatima planejamos nossa viagem a Praia Grande já pra amanhã. A guria curitibana tá louca pra provar dum canionismo embora já tenha feito cascades. Um inclusive numa cachu de 180 m em Prudentópolis. Mas cascade é moleza, basta rapelar a cachoeira e zé fini. Já canionismo envolve técnicas verticais (rapel, escalaminhadas e desescalaminhadas), natação e marcha aquática em leitos de rios. Saímos quinta de Porto no início da tarde. Como não almoçáramos ainda, resolvo desviar da BR 101 e seguir pela Estrada do Mar. Isso porque no Km 1, há um restaurante, o Luzzardo, cujos pratos além de bons são fartos e baratos. O risoto de camarão inclui salada, polenta frita e ...... feijão!! Quando estamos quase chegando em Torres, nova parada, dessa feita na Tenda do Véio pra degustar um suco de abacaxi feito na hora. Cada uma pilota seu carro já que Fatima veio motorizada de Curitiba. Quando começo a avistar os canyons, já bem próxima a Praia Grande, meu coração dispara de alegria. Faz tempo não sinto a sensação reconfortante de retornar a um dos lugares que escolhi amar deste planeta! Já não posso dizer o mesmo a respeito de minha cidade natal, Rio Grande. Pois é....o Rio Grande que eu amo, o da minha infância, não existe mais, só nas minhas recordações. Bueno, antes de ir pra pousada, passo no Flavio, guia e proprietário da Canyons e Peraus (http://www.canyonseperaus.com.br), e combino um canionismo pra sábado. Faremos a Kaingang, garganta que eu já fizera com Kaloca há 3 anos. Como não guardo o registro dessa indiada pois na época perdera a máquina na margem esquerda do rio Mampituba, topo repeti-la. Conosco irão mais 2 pessoas. Faço uma surpresa pros meus queridos da Colina da Serra e chego de improviso. Bom demais ser recebida com afeto e alegria pelos donos da pousada, Maria e Paulo. Nem bem sentáramos, abro uma garrafita de vinho branco que trouxera de Porto. Cheias as taças, a charla prossegue animada na espaçosa cozinha recém reformada. Um potreirão de grande a peça! Maria, minha querida Mariolinda, solícita como sempre, atende meu pedido: omelete mais salada verde. Fátima, que já tinha mandado a abstinência dianética pras cucuias, tragoleia como gente grande!! Na sexta-feira, acordamos sem pressa. A programação é light. Após o café da manhã, cheio de gostosuras, eu e Fatima pegamos a guia Monalisa, parceira de inesquecível perrengue dentro duma garganta das redondezas há um par de anos atrás, e vamos de carro até a porteira situada a 1 km da cachoeira dos Borges. A trilha, facílima, atravessa uma adorável mata atlântica que não exige destreza tampouco esforço físico. Ao fim do sendero,  eis a linda queda d’água de 70 metros, que se situa no outro lado do Mampituba, já em terras gaúchas. Aqui nestas plagas é assim: ou tu tá em Santa ou no Rio Grande! Basta cruzar o leito do rio pra trocar de lado. Voltamos pra pousada e, novamente a meu pedido, Maria se puxa e faz aquela maionese feita em casa. Acompanhada duma carne de panela que, de tão macia, até faca dispensa! E dale vinho tinto, dessa feita! Após a séstea, pegamos as bicis e descemos os 2 km da serra do Faxinal até a ponte enveredando pela estrada geral que leva à Vila Rosa. Mostro os canyons Índios Coroados e Malacara à amiga e voltamos pela rua Leão onde plantados às margens da estrada alguns arrozais já exibem espigas amarelas. Dormimos cedo neste dia sem grandes libações alcoólicas já que o horário combinado pra gente se encontrar amanhã é às 5 horas na cabana de Kaloca. Dali, Kaingang em nós.....uhuuu!!
Choveu durante a noite....ai ai ai. Maria, apesar da hora, 4 e 30, nos espera com um café quentinho na cozinha. Comento com Pauleca que se Flavio não telefonou até agora é porque a indiada está de pé. Pegamos meu carro e vamos até a cabana de Kaloca onde pouco depois chegam Andre e Laura, o casal que também irá conosco. Ele, milico reformado, mora em Curitiba; já ela é natural de João Pessoa onde vive e trabalha. Conheceram-se pelo Face, e aproveitando o feriado de carnaval, Laura veio visitar o namorado. Ainda sonolenta, cedo a direção a Paulo. E toca a subir a serra do Faxinal onde em Cambára, pra sacudir o sono, paramos numa padaria e fazemos um lanche reforçado. Pouca demora, pegamos a RS 020 rumo a São Chico. Ultrapassado o trevo pra Jaquirana, rodamos talvez coisa duns 15 km e quebramos à esquerda, enveredando por uma estradinha de chão batido marca diabo parando os carros a mais ou menos 3 km do Kaingang. Nos despedimos de nossos motoras e iniciamos a pernada até o vértice da garganta, de onde despenca uma impressionante queda d'água de 80 metros. Enquanto os guias armam a parada, baixa uma névoa tornando mais cinzenta a manhã. Apesar do mau tempo, sinto-me alegremente excitada, não só porque faz 3 anos não me aventuro num canionismo como por estar sendo guiada por dois queridos e velhos conhecidos,  os excelentes canionistas Flavio e Kaloca! Sou a primeira a descer e quando chego ao platô que antecede os 20 metros finais, sinto as ganhas o jorro forte da tromba d’água batendo no capacete, tanto que, quando alcanço o chão, sinto minha cabeça latejar um pouco. Laura pergunta a Flavio se não há uma rota alternativa que não seja a dos rapeis nas cachus. Desconfio que a paraibana se assustou com a altura da cachu de 80 metros, hehe. Não adianta muito ser verão quando nos encontramos no interior duma estreita e úmida garganta, sem sol que aqueça este buraco de 700 m de profundidade, motivo por que começo a encarangar. Pra espantar o frio, convido Fatima a caminhar comigo até a segunda cachu. É uma miniatura se comparada à primeira: deve ter 5 m, se tanto! A parada, igual à da anterior, é num grampo P. As distâncias entre as quedas d’águas são curtas, tanto que 500 metros adiante já alcançamos a terceira cachu com 50 metros, linda pra caramba. É uma rampa com degraus bem acentuados, facilitando em muito o rapel. A garganta vai se apertando mais e mais à medida que se perde altura. E o que é esse cheiro de mato, meu deus?!! Nenhum perfume, por melhor que seja, consegue rivalizar com o odor de terra úmida e matéria vegetal em decomposição. A quarta cachu, de 30 m, é outra bela rampa ainda mais horizontalizada que a anterior. A ancoragem é feita na borda esquerda da parede onde, embora haja maior volume de água, o musgo evita que a bota resvale no basalto. Percebo que, na metade do rapel, Fatima embatuca entre seguir mais à direita ou à esquerda. Como tem pouco conhecimento técnico, escolhe a primeira opção. Quando termina, chamo ela na chincha: “ô guria, te liga, no próximo rapel, não for-ça a cor-da, não tenta desviá-la pra longe de seu eixo de ancoragem, senão tu pode pen-du-lar.”  E segue a exaustiva caminhada ao longo do leito do rio. Poder, entretanto, desfrutar a exuberante vegetação da mata atlântica compensa a judiação do esforço físico. Adoro tal ambiente, a-do-ro. Quando Fatima percebe que estou filmando faz um gesto de ok mas perde o equilíbrio, hahahaha!! Essa guria me diverte muito. É engraçada sem querer. O pedregoso leito do rio, até então irregular, transforma-se num lajedo facilitando a caminhada até o beiral da quinta cachu. Está é das boas: 100 m de queda livre. Daqui já se pode avistar o paredão sudeste do canyon Josafaz. Contudo, pouca demora, se eleva do interior do canyon um nuvaredo, impedindo que se continue curtindo a paisagem. Necessário fazer 2 breves rapeis de aproximação. O primeiro, do final do lajedo até a borda mal sustenta os dedões dos pés, hehe. Pendurada na parede, olhando pra baixo, nem acho tão alto assim os 90 metros que me separam do chão. Tudo uma questão de perspectiva. Nos 10 m iniciais, desço em meio a um matinho enfezado grudado na rocha. Ultrapassada a miniflorestinha, o paredão exibe-se liso, sem vestígio de vegetação. Começa então a descida em negativo. Tento impedir que meu corpo rodopie livremente mas sou vencida pela força da corda. Acontece então o que temo: de costas pra parede não há como não encarar o vazio. Controlo o nervosismo respirando profundamente. Vez por outra até ouso brecar a corda de modo a contemplar, já com certa serenidade, a paisagem (mas sempre terei medo de altura, sempre). Após breve parada no largo platô, rapelo rapidinho os 20 m restantes, arribando no fundo do poço, raso que nem poça d’água, hehe. Apesar do medo, tanto que ela pediu pros guias não avisá-la quando chegasse na de 100 m, Laura desceu com galhardia a cachu. A essas alturas, Andre já exibe sinais evidentes de cansaço embora seu bom humor espante qualquer sinal de irritação provocada pelo cansaço. E quando paramos pro almoço, comenta que se pudesse escolheria um lugar tipo termas do Gravatal. Vem, contudo, na parceria, acompanhando Laura. Ela, por sua vez, não dá a mínima pro mimimi do namorado quando ele se queixa de dor na costela (o coitado caiu umas trocentas vezes nas pedras). Ala putcha, que durona a paraibana. Vai ver, é por isso que o homem gamou nela. Exemplo a ser seguido Laura, hehe. Começa a chover, ai ai ai. Quando chegamos na 6ª e 7ª cachus, com respectivamente, 20 e 55 m, somos obrigados a dar um balão na mata. Impossível encarar um rapel nelas. As duas cachoeiras formam um brete estreitíssimo e por causa do chuvaral de 3 dias atrás mais o de hoje estão bombadíssimas. Kaloca improvisa, então, no paredão norte da garganta, coberto de mato, um rapel com parada num tronco de árvore por onde descemos. Quando chego a terra firme, olho e percebo quão lindo é este lugar: a cachu de 55 metros desce verticalmente iluminando com a brancura de suas águas a grota escura por onde jorra. Infelizmente, acabou a brincadeira com as cordas, rapel nas restantes cachus nem pensar. Tão muito cheias. E dale a caminhar, ora pelo mato ora retornando ao leito do rio. Finalmente encontramos a trilha que leva à margem esquerda do Josafaz. Que por sua vez está com um considerável volume de água. Cruzamos o rio, entrelaçando as mãos em corrente. Ao chegar na casa de Zé Fernandes, Pauleca e Alberi já lá se encontram. Mas as emoções continuam porque, de dentro duma caixa de isopor, Flavio retira um espumante e várias taças, hahaha!!! Brindamos à vida, à deliciosa indiada e às futuras!! Que vengam otras!!

quarta-feira, 5 de março de 2014

Bafafá na fronteira

Deixo Villa Serrana com gostinho de quero mais. E nova improvisação acontece em nosso roteiro original de pedalada! Ed explica que se formos até a Quebrada de los Cuervos não dará tempo pra fazer as tais compra no free shop de Rio Branco. Propõe então uma segunda opção: manter as compras e pedalar, trocando, porém, a Quebrada pelo lago Merín (lagoa Mirim pra nosotros) cuja distância aproximada, ida e volta, dá 40 km. Claro está que vencem as forças de Mr. Hyde. Nem todos os cavalheiros de Jedi conseguiriam vencer a sanha consumista da maioria do grupo. Deus que me perdoe por não controlar a danada da minha língua mas esse pedal tá parecendo excursão de muambeiros do Paraguai (só de raiva escrevo com “i”, eles não merecem o escultural “ipsilone”). Quando chegamos a Rio Branco, cidade uruguaia separada da brasileira Jaguarão pelo rio de mesmo nome, eu que nunca viera aqui não lamento nem um pouco. Feia, sem quaisquer atrativos, salvo pela ponte internacional Barão de Mauá, construída no início do século passado, Rio Branco não apetece ficar nem um par de horas. Mesmo os free shops são fraquinhos se comparados aos de Rivera, onde o comércio dá de 10 a zero. Pela última vez, monto o pneu dianteiro - do caralho, se é a última vez, já que quando chegar em Porto, vou ter de montar a bici pra ir pedalando pra casa – , ou melhor, quem monta é Victor. E verificamos que o pneu traseiro está furado. Retiro da nécessaire, fixada abaixo do selim, câmara reserva e – merda – verificamos que a válvula é inadequada bem como as das outras duas câmaras que tenho na mala - pra meu desgosto - porque são válvulas grossas, inadequadas pros meus pneus, que exigem a francesa, de bico fino. Victor então começa a fuçar procurando o furo na câmara. Se houve demora, não foi por culpa do querido rapaz e sim porque meu kit estava com validade vencida. Eu o tinha há 3 anos e nunca o usara desde que o comprara. Após pedir pra um e outro, conseguimos cola e adesivo em bom estado de uso. Como o pequeno grupo que ia pedalar (a maioria prefere ir às compras: seja porque estão satisfeitos com os km percorridos, seja porque já sentem os joelhos doídos, seja porque - galos cinzas fodásticos que são - esnobam pedalar em estrada plana e asfaltada, sem qualquer grau de dificuldade técnica) já tinha largado fazia quase uma hora, Ed pôs minha bici e a de Victor no suporte traseiro da caminhonete e nos deixa a uns 5 km do balneário, motivo pelo qual meu percurso ida e volta deu 28 km (http://connect.garmin.com/activity/456000994) enquanto o deles alcançou a boa marca de 48 km! Quando vejo aquela imensidão de água - mais parece um mar, nem se distinguindo a outra margem - tiro os tênis e entro na lagoa. Todo mundo se esbalda, mergulhando em suas mansas águas. Na lanchonete em frente à praia, peço um chivito de carne de porco, delicioso de bom. E a volta é osso porque sopra um ventinho contra que castiga esta senhorinha. A velocidade que, na ida, atingiu fácil a média de 25 km/h, não sobe de 16 km/h. As carretas que passam provocam um forte e até – pode-se dizer com algum exagero – perigoso deslocamento de ar. A rodovia sem acostamento exige bastante cuidado, vá que algum projeto de psicopata queira tirar fininho só pra implicar com a gente, né? E há os que fazem isso só de sacanagem, os filhos da puta! Terminado o pedal, dá tempo pra ir numa das tantas lojas e comprar algumas latas de patê mais dois vidros de azeitonas recheadas com chilli. Não resisto e acabo levando mais 3 garrafinhas de  pomelo. Já dentro do veículo, preparados pra cruzar a fronteira, aqueles que retornam pras suas casas de avião, questionam Ed sobre o local onde ficarão quando chegarem em Porto Alegre. Ed pondera que é complicado largar cada um em seu hotel, concluindo que será, portanto, no aeroporto onde podem pegar táxis que os conduzam aos locais onde se hospedarão. Ele se despede pois não retornará conosco, permanecendo, contudo, os guias Vicente e Gabri como responsáveis. O pessoal comenta entre si que prefere ficar na frente do hotel “x” ao aeroporto, tendo em vista que os hotéis reservados localizam-se um ao lado do outro. Baixa então numa "simpática" moça "aquele espírito de síndica, zelando pela ordem e bons costumes". Ela chama o xerife -  Ed é claro - e faz “queixa” - isso mesmo que vocês estão lendo - "queixa" do pessoal!! Que eles estão se “amotinando” (sic). Que sem ele -  Ed - no busão será complicado lidar com a situação, pode? Denise, uma das queridas que pernoitará em Porto, não deixa barato. Aproveita que Ed ainda se encontra à porta do ônibus e, sem alterar a voz, bem classuda, explica que ninguém está se amotinando. Ed escapole de fininho, deixando o abacaxi pros outros guias descascarem. Ao ver como a galera fora tratada, tais quais perigosos delinquentes, cujo tratamento deve ser a ferro e fogo, não resisto. Levanto do assento, viro pra Denise e, em tom irônico, comento em voz audível: "Amotinada hein?!" Bah, a guria monta num porco. E estoura. Com olhar fulminante – se fosse raio eu não estaria aqui contando a estória - indaga o que tenho contra ela. Percebendo o descontrole emocional da criatura, deixo quieto, e sorrio vez por outra. Fazer o quê, né? Vá que a doidinha parta pras vias de fato, uai. Fatima, ao meu lado, chega a se encolher, sei lá se de medo que sobre pra ela, caso a mulher resolva mesmo partir pra ignorância, ou se de constrangimento pela tormentosa situação. Cada vez que lembro da carinha assustada da Monster, tenho frouxos de riso. No final, aleluia, o bom senso dos guias prevalece e o pessoal é deixado na frente dum dos hotéis. Fatima, eu e Greice, a quem convidara pra dormir aqui em casa, entramos madrugada adentro, no terraço, bebericando um vinhote branco bem gelado. E brindamos então à vida, à indiada do pedal e a nossa recém iniciada amizade, rindo e falando bobagens na quente noite portoalegrense!  

terça-feira, 4 de março de 2014

Entre repolhos e antúrios, samba no pedal

Na segunda-feira, o dia amanhece tão aprazível quanto o anterior. No roteiro, o pedal promete entre 40 a 80 km, caso o retorno de Nueva Helvetia seja de bici. Após 30 minutos, trafegando pela Ruta 1, o busão dobra numa estrada vicinal e estaciona no acostamento. Montamos as bicis e começamos a pedalar, inicialmente, em estrada de asfalto rumo à Villa de La Paz. O lugarejo que, conta com pouco mais de 600 habitantes, exibe nas paredes de certas casas murais coloridos. Como o da carniceria, localizada em frente à praça, cuja pintura retrata a cena de dois gaúchos assando carne em fogo de chão. Ao sair da vila, uma larga e antiga ponte (piso de madeira e arcadas de ferro) sobre o rio Rosario nos obriga a descer das bicis porque a ausência de dormentes, aqui e ali, revela largos espaços vazios debruçados sobre as águas marrons do rio. Este foi o trecho onde pedalamos brevemente na única estrada de chão batido do dia. Em Rosario, o grande atrativo é curtir, durante o pedal ao longo das calles, o primeiro museu uruguaio de arte mural ao ar livre. Nos muros e paredes de residências foram pintadas imagens que reproduzem cenas populares e históricas da cidade. Seguimos por outra estrada asfaltada tão tranquila quanto as anteriores. Também uma maravilha a boa educação dos uruguaios do interior: guardam, aleluia, a distância regulamentar que se exige em relação às bicis. Nosso destino de almoço é Nueva Helvetia. Nos pórticos das residências abastadas, não há como não notar desenhos de escudos representando cantões suíços de onde vieram os primeiros colonizadores. A gastronomia da pequena cidade é famosa pela fabricação de queijos, fiambres e doces introduzidos pela colonada. Bueno, a ideia inicial era voltar pedalando até Colonia e curtir um pôr do sol em uma das praias que se encontram ao longo da ruta 1. Meus planos de fazer uma boa quilometragem vão por água abaixo quando entro no restaurante e me deparo com uma garrafa de tannat descansando numa prateleira. A danada faz olhinhos convidativos pra esta senhorinha. Ah, não dá outra: mando as favas minhas intenções esportivas. Afinal, o dever de casa está feito, meu relógio marca 32 km (http://connect.garmin.com/activity/456001035). Basta de engrossar as pernocas. Tratemos de encher a pancinha! Apenas os disciplinados Gabi e Marga cumprem a risca o programa original e chegam, suados e felizes, de bici em Colonia. No hotel, reunimo-nos, desfrutando da piscina térmica, eu, Fátima, Jucilene, Denise, Greice e Marcio. Seja por afinidade sentimental, espiritual, astral ou sexual, uma panelinha está se formando. Denise e eu, com os braços apoiados na borda da piscina, nos divertimos recordando os apelidos que déramos às nossas ardidas periquitas no dia anterior. Explico: calhou de nós as duas pedalar, lado a lado, na reta final. Num dado momento do conversê, deixei escapar uma queixa: “puta merda, minha periquita tá assando.” Fazendo coro, a curitibana, também, lamenta o estado da sua, comparando-a um repolho! Sem deixar a bola picar, respondi que, na minha, germinava um antúrio. Imersas na relaxante tepidez das águas da piscina, gargalhamos de alegria ao perceber que somos, de certa forma, pequenas latifundiárias: ela duma horta, eu, dum jardim.....localizados nas terras baixas, hahahaha. Meu deus, quanta bobagem, mas que desopila, ah, desopila!!



Saímos de Colonia, na terça-feira, bem cedinho. Durante a viagem, começa a chover. Segundo informes meteorológicos, a previsão é bastante desanimadora (mais tarde soube que as fortes chuvas se concentraram praticamente no litoral), motivo por que Ed propõe postergar um pouco nossa chegada em Lavalleja, departamento onde iremos pedalar e pernoitar, de modo a dar um taime pra chuva se acalmar, gastando a manhã em Montevideo. Fazer o quê, né? O busão estaciona numa das arborizadas ruas do bairro Malvín, perpendicular àquela onde há uma loja especializada em roupas de aventura e equipamentos para bicis. O povo que gosta de comprar se derrete e sai de lá carregado de sacolas.  Limito-me a comprar apenas um lenço buff pra cabeça. E vinho num Disco em frente pois minha adega ambulante nunca se encontra vazia onde quer que eu vá!! Fazemos um lanche rápido com guloseimas compradas no supermercado e seguimos viagem. Nem presto atenção à paisagem porque durmo durante quase todo o trajeto, acordando somente quando o busão pára. Também pudera....acordada estou desde as 4 e 30! Observo que o terreno está seco, sinal evidentíssimo de que por aqui nenhum pingo de chuva caiu. Putz, e a gente perdendo tempo fazendo compras em Montevideo...tsk tsk! Transversal à rodovia principal, tem início uma boa estrada de chão batido cuja placa indica 7 km de distância até Salto del Penitente. Começamos os procedimentos de montar os pneus dianteiros nas bicis, atividade que nos consome uns bons 50 minutos. Acho chatésimo, até porque já é a 6ª vez desde sábado! Eu sei mal e porcamente tirar e pôr pneus de bikes, porque, além de meio desajeitada, sou, confesso, um tantinho preguiçosa nessas tarefas. Ainda bem que os queridos rapazes, sempre cheios de boa vontade - nesse tipo de coisa, bem entendido - ajudam a gente com prazer. Prontas as bicis, partimos felizes pra mais um dia de pedal. A paisagem, formada por serranias e formações graníticas esbranquiçadas por líquenes, torna-se mais austera à medida que nuvens blindam o céu e uma leve neblina paira sobre a Sierra de Carapé. Situada a 300 m acima do nível do mar, tal relevo é bem distinto da planura familiar a que meus olhos estavam até então habituados a conhecer deste país. Meu relógio marca exatos 13 km quando alcançamos a queda d’água. A tal placa dos 7 km é um engodo, hahaha. Como já vi quedas d’água bem mais atraentes, a demora é justo o tempo de filmar os arredores, após o que monto na bici e reinicio a pedalar. Segundo Ed, até a pousada dá em torno de 12 km. A paisagem começa a mudar, dando espaço a bosques de eucaliptos e pinus, plantados em ambos os lados da estrada. Embora de chão batido, são super conservadas as estradas uruguaias, bem diferentes das brasileiras, tão mal tratadas no geral. Um pouco antes de chegarmos à Villa Serrana, onde iremos dormir, cai um chuvaral típico de verão. Nem bem guardo a máquina na mochila, o aguaceiro já era. E o sol, coisa boa, dá pinta pela primeira vez no dia, revelando um céu azuladaço! Verão, verão....tão bom estar com você!! Decido acompanhar Denise que, devido ao joelho, pedala bem devagar. Não me importo de ficar pra trás. Tão boa a tarde, tão gostosa a temperatura, tão prazerosa a companhia, que vontade alguma dá de chegar ao nosso destino. Bom demais prolongar o prazer do passeio pedalando lentamente! Chego à Villa Serrana - vilarejo projetado na década de 1940 para ser um local recreativo ao estilo europeu - ao entardecer dum esplêndido e róseo final de dia. Mal dá para acreditar que passamos a maior parte do dia sob mau tempo. Hospedada uma parte do grupo na pousada Ventorrillo de La Buena Vista, declarada monumento histórico nacional, a rústica construção de madeira, pedra e vidro, situada na encosta do cerro Guazubirá, proporciona uma bela vista do verdejante vale que se estende abaixo. Confiro meu relógio: marca 34 km (http://connect.garmin.com/activity/456001023). Mais uma vez, Ed enganou-se quando disse que seriam 19 km. O querido guia já se tornou piada entre os clientes e amigos por sua capacidade ora de se perder ora de calcular com “precisão britânica” a distância dos percursos, hahahaha. Fatima, embora numa fase adicta, insiste em pedir cerveja sem álcool nos restaurantes. Raro consegui-la, hahaha!! Na janta, seu voto de abstinência é, definitivamente, testado. Vendo nós naquele tragoléu sem culpas, cacarejando com vigor, e entornando taça após taça, ela, meio sem graça, pede "só um pouquinho". Negamos com prazer maldoso. Ela insiste e seu olhar pidão é comovente. A Monster arregou, hahahaha!! Após a janta, nosso grupinho, agora definitivamente um clube de luluzinhas, permitindo graciosamente a entrada de certos bolinhas, arma um luau improvisado. Pra tanto, levamos mantas e almofadas que estendemos na grama. Conversamos e bebemos outros bons vinhos.........ah, e ainda vemos estrelas.

domingo, 2 de março de 2014

Carnavalizando Montevideo

Aproveito a festa pagã mais badalada pelos brasileiros pra fazer uma aventurazinha: pedal no Uruguay organizado pela Rota Sul Adventure (http://www.rotasuladventure.com.br). Fatima, que chegara de Curitiba na quinta à noite, recusa, pra meu espanto, o vinho que sirvo durante a janta. Recente seguidora duma doutrina, a tal de Dianética (que mais tarde venho a descobrir ser nada mais nada menos do que a Cientologia), explica que deverá guardar abstinência durante o tempo do tratamento que durará sei lá quantas semanas. E ela começou - dá pra acreditar? - antes da viagem!! Deus que me livre, mas por que essa maluca não deixou pra começar o tratamento após o pedal, santo cristo!! Cá, com meus botões, duvideó que ela vá resistir até o final de nossas pequenas férias. Já no espírito do feriadão, resolvo, na sexta, promover um esquenta esportivo, introduzindo Fatima nos embalos de minha mais nova curtição: o stand up paddle. Pegamos as bicis e nos tocamos até a SAVA, clube náutico situado às margens do Guaibão. Remamos uma hora e quando estamos terminando a atividade aquática, entra, de redomão um vento sudoeste marolando as até então tranquilas águas do rio. Por pouco não levamos um calço da ventania. Na madrugada de sábado, após Edgardo pegar um pessoal no aeroporto, emendamos BR 116 com BR 471,  rumo ao Chuy. Após os trâmites na fronteira, seguimos pela Ruta 9 até Montevideo onde arribamos por volta de 11 horas. No grupo de 35 pessoas, predomina a gauchada. No mais, curitibanos, paulistas e um deslocado magrão chinês. O busão estaciona em frente ao mercado do porto, onde iremos almoçar. O movimento é intenso: centenas de turistas desembarcam dos transatlânticos em rápidos city tours pela cidade. O prato escolhido pela maioria, por supuesto, é a indefectível parrilla. Peço, porque sem chance de roubada em termos de maciez, entrecot e papas fritas. Regado com um encorpado tannat, vinho tinto muito bem pisado pelos uruguaios! Ed oferece duas versões de pedal. O tour pra quem quer fazer compras e rodar sem pressa, outro mais forte pros fominhas. Em que ainda me incluo, aleluia!! Nosso objetivo é o Cerro, uma colina de 132 m acima do nível do mar, situada no outro lado da baía de Montevideo. Ali, no início do século XIX, foi construído El Fuerte, com o propósito de defender a cidade dos invasores. Bueno, seguimos, inicialmente, em direção ao Prado, bairro cujo apogeu ocorreu no século retrasado quando a aristocracia uruguaia escolheu as imediações do arroio Miguelete para construir casas de veraneio. Fazemos uma parada no Jardim Botânico e passeamos por entre suas alamedas arborizadas, usufruindo da abundante sombra de seus corredores. Uma pausa bem vinda já que o calor não se mostra nada tímido. O tipo de pedal? Urbano, por supuesto, cabrón! Afinal, estamos no centro da capital uruguaia, trafegando ao longo de calles, avenidas e boulevards. Ainda que sábado, véspera de feriado de carnaval, o movimento de carros não é desprezível. Contudo, o bom de pedalar em Montevideo, em qualquer circunstância, é a educação dos motoras. Observam, via de regra, a distância de 1,5 m que deve ser mantida em relação às bicis. Quando entramos nas vias rápidas, me torno uma Armstrong de saia. Motivo? O medo, hahahaha. Me cago toda com o fuzuê de carros zunindo a 100 km/h mesmo que seja a 2 metros de distância dessa senhorinha que vos escreve. Em chegando ao Cerro, não deixo de notar que muitas ruas ostentam placas homenageando países como Rússia, Etiópia, Bélgica, Suécia, China e outros tantos mais que há neste planeta. A vista é panorâmica do alto da colina. Vislumbra-se em 360º a baía de Montevideo, distinguindo-se perfeitamente o enorme prédio da Aduana e sua azulada cúpula em formato ogival. Um transatlântico zarpa do porto em direção ao “Rio de La Plata de color marrom”, tomando de empréstimo esse excerto de Ya No Duele, belíssima canção interpretada por Bajofondo. Retornamos ao ponto de partida, o mercado. Meu relógio Garmin marca 37 km dum pedal sem grandes esforços já que a elevação máxima foi 123 m (http://connect.garmin.com/activity/456001067). Após o desmonte das rodas dianteiras das bicis, deixamos Montevideo rumo a Colonia Del Sacramento onde pernoitaremos 3 dias. Nem me dou conta de que é Carnaval.

Acordo domingo em Colonia e vislumbro da janela do quarto do hotel um céu azulão, esbranquiçado aqui e ali por nuvens esfiapadas. Na medida certa pra se obter boas fotos. Além de fotogênico, o dia promete ser quente. Coisa boa...adoro! Retornar a essa adorável cidade, onde estivera há 2 anos atrás pedalando com uma amiga, é bom demais. O programa, pela manhã, é ameno. Pedal de 4 km até o centro histórico onde, graças a deus, ainda abundam charmosas construções, remanescentes dos tempos coloniais quando espanhóis e portugueses fincaram os dentes em contínuo revezamento até 1828, data da independência do Uruguay. Não acompanho o grupo no breve tour pelas vielas da ciudad vieja. Já as conheço. Prefiro fazer companhia à Dieini, intitulada, carinhosamente por mim, primeira-dama da Rota Sul Adventure. Não só por ser mulher de Edgardo, proprietário da agência, como pela sua postura elegante. Em frente ao portão de armas que guardava a vila em tempos dantanhos, tagarelamos as duas num conversê descompromissado. Quando o grupo chega da visitação, eu, Fatima, Greice, Denise, Marcio, Elke, Ana, Marcus, Silvia e Ju partimos em busca de algum restaurante onde almoçar. Escolhemos um de esquina, onde nos acomodamos,  ao ar livre, por supuesto! O dia está esplêndido. À nossa frente, a igreja do Santíssimo Sacramento, caiada de branco, confere um ar vetusto às nossas libações alcoólicas. No ar, a vibrante execução musical duma dupla de violonistas. Em uníssono, escolhemos a tradicional mistura montevideana de espumante com vinho branco, conhecida como medio-medio. A vida continua bela embora minha bicicleta nem mais seja amarela. Pena que quando voltamos ao hotel, não dá tempo pra curtir a piscina externa de onde se descortina a rambla e o rio de La Plata, porque o pedal até a Villa Celina inicia daqui a 30 minutos. Ed divide o grupo em 2, como sempre. Aqueles que não querem se puxar e os que amam suar e inchar as coxas. Como ainda tenho forças, apesar de já ser uma senhorinha de ½ idade, acompanho os do pedal forte. Na saída de Colonia, contornamos as muralhas da Plaza de Toros, construção inacabada já que matar touros, nos dias que correm, é considerado politicamente incorreto. Bueno, pouca demora, ingressamos numa estrada de chão batido. Vamos quase até às margens do rio San Juan onde os endinheirados uruguaios possuem casas de veraneio, inclusa aí uma das residências presidenciais. No final da tarde, um vento forte torna o pedal mais exigente. Toco uma marcha mais leve na bici embora o terreno seja plano. Bota melhora na performance. O jantar na tal estância demora pra caramba a ser servido. E como prato principal, costela. Não consigo entender o porquê de os gaúchos tecerem tantas loas a esse osso com tão minguada e dura carne. O que salva do fiasco – no meu entender - a tal janta é o vinho. Tannat, por supuesto! Voltamos a Colonia de busão porque o povo depois da comilança arriou embora o roteiro original previsse retorno de bici. Contudo, não há do que se queixar: meu relógio marca 48 km (http://connect.garmin.com/activity/456001046). Quando chegamos ao hotel, eu, Fatima e Ju nem pensamos em dar um bordejo até o centro da cidade na intenção de conhecer “la movida colonense”. Estamos cansadíssimas. Assim, Ju e eu, ocupando a sala, cada uma deitada em sua cama (à Fatima coube o único quarto) exercitamos nossas línguas com vigor e alegria até 2 da madrugada. O assunto? Homens, por supuesto! E um tiquinho, só um tiquinho, de maledicência sobre a vida alheia.