sábado, 7 de março de 2009

Sábado de sol em Porvenir

Embora sejam 7 da matina, acordo super animada. Afinal, hoje vou conhecer Porvenir, capital da ilha da Terra do Fogo, localizada na região pertencente ao Chile. A outra parte da ilha é argentina. Pego um táxi e me mando pro cais Três Puentes onde deverei pegar o ferry boat. O grande barco é muito confortável. Há televisores de tela plana, mesas, poltronas e um bar onde vendem snacks e sanduíches, além de diversos tipos de café. Partimos às 9 horas. Uma pena que regresse a Punta Arenas às 13 horas. O dia está lindo. Céu azul quase sem nuvens. Temperatura fria, embora suportável, tanto que permaneço durante quase toda a travessia do estreito de Magalhães no tombadilho superior. Minha atenção é atraída por um lindo arco-íris pairando sobre as águas do estreito. Um homem, que lá se encontra, indica-me a outra ponta do arco colorido, e assim, começamos a conversar. É vendedor de jóias, tem 49 anos. Depois de alguns insucessos amorosos e profissionais, está se reinventando. Chega à conclusão de que sua vida de caixeiro-viajante lhe proporciona uma liberdade de ação que não desfrutara antes. Não nos desgrudamos mais e quando chegamos a Porvenir, pegamos o microônibus que nos levará à cidade, distante 8 km do cais. O pequeno povoado foi o primeiro assentamento humano na ilha. No final do século XIX e início do XX, houve o surgimento duma febre de ouro. Tal atividade aurífera, infelizmente, não foi expressiva o suficiente de modo a fazer milionários os empreendedores. Dessa forma, retomaram sua antiga vocação de criadores de ovelhas. Descemos do ônibus em frente à praça principal e enquanto decidimos que rumo tomar, avisto a jovem taiwanesa, a quem eu já vira no ferry, parada um pouco mais adiante, consultando um mapa. Convido-a se juntar a nós. E assim entramos os três no Museo Provincial Fernando Cordero Rusque. Não dá pra demorar muito porque só temos uma hora para percorrer a cidade já que o ônibus retorna ao cais às 12:30. Como é um pequeno museu, não há muito a ser visto, a não ser que nos quedássemos conversando com o gentil administrador. Mesmo assim, a uma considerável distância, porque seu poderoso mau hálito é insuportável. O povoado lembra uma cidade fantasma. Um que outro vivente e alguns carros transitam pelas ruas. Os restaurantes, todos cerrados, e isso que hoje é sábado. O que será domingo aqui, então?! À medida que nos aproximamos duma outra praça onde há estátuas de tótens e de tribos indígenas, que habitaram a região em tempos longínquos, vislumbram-se as águas azuis do estreito. Gaivotas, grasnando, voam aos bandos enquanto aves aquáticas nadam próximas à praia. O dia continua luminoso demais! Retornamos ao barco e, já íntimos os três, sentamos juntos a uma mesa. Jose, vulgo Pepe, a quem acrescentei o Legal, me faz rir freqüentemente. A taiwanesa, cujo nome não consegui entender, como toda oriental, é mais na dela. Fala quando se lhe dirige a palavra. Mesmo assim é uma pessoa agradável. Conta-me que trabalhou de intérprete de mandarim (fala fluentemente o espanhol) numa empresa americana, na cidade do México, durante cinco anos. Agora, desfruta três meses de férias na América do Sul. Parte pra Natales ainda hoje. Chegamos a Punta Arenas às 15:30. Pepe e eu, já amicíssimos, vamos caminhando até a Zona Franca onde percorremos algumas lojas. Pegamos um táxi pra voltar à cidade, cuja passagem custa a bagatela de 350 pesos. Ao contrário dos demais, este recolhe outros passageiros, por isso é muito mais barato. Nada como andar com um nativo pra aprender as barbadas dos lugares, não é mesmo? Estou faminta porque, exceto dois copos de mocaccino e umas batatas fritas, nada mais comera. Os restaurantes encontram-se fechados. Também, pudera, são 18 horas. Entramos numa confeitaria e peço uma promoção: dois choripanes (pão redondo, de massinha, recheado com maionese e pasta de choriço) com café. O petisco não é lá grande coisa, porém minha fome não permite caprichos de gourmet. Combinamos, então, Pepe Legal e eu, de jantarmos mais tarde. Deixo-o em seu hostal, e vou ao Terra Sur, tomar banho e ver se Rodrigo aparecera por lá. Às 20:30, sem sinal de Rodrigo, vou buscar Pepe. Escolho o restaurante La Luna. Por incrível que pareça, conheço mais de restaurantes em Punta Arenas que Pepe...pode? Bebemos um pisco sour e escolho de entrada calamares al ajio. De prato principal, centojas al parmesan, uma delícia. E uma garrafa de um bom tinto pra regar tão boa refeição. Terminado o jantar, Pepe convida-me para ir a um pub. Recuso, estou deveras cansada. Ele insiste, junta as mãos, como numa prece, e promete “una sola cerveza”. Irredutível, digo não mais uma vez. Ele, muito cavalheiro, acompanha-me até o hostal. Quando estamos atravessando a Cristobal Cólon, escuto uma buzina. Olho e vejo quem?!! Rodrigo e um amigo, o René. Rodrigo diz que já estivera no hostal duas vezes. É claro que entro no carro. E convido Pepe, por supuesto. O plano é comemorar minha partida, bebendo um vinhozito. Como nada é convencional em se tratando de Rodrigo, pensam que ele nos leva a um bar? Que nada! Compra vinho e cerveja num armazém, e recolhe, pra tanto, dinheiro de nós. Hahahaha, esse Rodrigo!! Muito simpático, René, um publicitário, convida-nos pra ir até sua casa onde mora com a mulher e três filhos (o mais moço com um mês de vida). Percebendo que eu estranho de ver um dos filhos - um garoto de 5 anos - ainda de pé, ativíssimo, embora já passe há muito da meia-noite, explica, com seu jeito tranqüilo, que permite aos filhos ficarem acordados até tarde, porque, segundo ele, assim dormem toda manhã, já que o horário da escola é à tarde. Sua mulher aparece pra conversar. Pergunto se estava dando de mamar pro bebê. “Bien capaz, jamás he amamantado mis hijos”, responde com ar meio aborrecido. Embora o astral legal, estou sentindo um sono invencível. Peço, então, a Rodrigo pra irmos embora. Afinal já são quase duas da manhã. Despedimo-nos da agradável família e embarcamos na estilosa caminhonete Chevrolet 77, ao som dum cd de Silvio Rodriguez, cantante chileno. E assim vamos rodando pelas ruas de Punta Arenas, cuja madrugada exibe uma lua, quase cheia, amarelada, e um céu estrelado. Pepe, no banco traseiro, canta, de olhos fechados as músicas. Rodrigo, subitamente, pára o carro em frente a uma casa, e acompanha com sua harmônica uma canção de Leon Gieco, outro cantor chileno, que agora toca no cd player, a todo volume. Permanece, assim, uns bons cinco minutos. Pergunto-me se não será a casa da ex-mulher. Pode bem estar fazendo uma serenata na tentativa de reconquistá-la, penso cá com meus botões, intrigada. Quando questionado por mim, sua resposta é desconcertante: a música é em homenagem a um cachorro muito estranho que ali mora. E acrescenta: “percibiste que el perro no ladró?” Esse Rodrigo é uma parada!! E assim termina meu último dia neste país do qual tanto gosto, desfrutando a companhia desses dois amigos chilenos tão encantadores!
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sexta-feira, 6 de março de 2009

De volta a Punta Arenas

Acordo com a tevê ligada. Adormeci ontem à noite sem desligar o aparelho, pra variar. “Mau hábito esse, hein, Biazinha”, reclamo pros meus botões. Demoro pra sair da cama. Alta preguiça. Também pudera, seis dias caminhando, 56 aninhos na paleta, e fumante desde os 16. Quer o quê, mulher?! Não és natural de Kripton, uai! Como meu ônibus só parte às 13:30, e são 9:30, tenho tempo de sobra. Embora esteja pra lá de enjoada de fazer compras - tantas têm sido as viagens que cansei dessa função – entro numa das muitas lojas que vendem os mesmos indefectíveis souvenirs e escolho pros meus afilhados três touquinhas de lã colorida com protetores de orelha. Resolvo, depois da sessão shopping, dar uma banda na Costanera. Apesar de o dia estar nublado, dá pra ver os cerros, distintamente, em especial o Balmaceda ao fundo do Seño Ultima Esperanza, com seus flancos nevados. Desço do calçadão até a beira d’água. Muitas aves aquáticas nadam no Canal Señoret. Sigo pela beira do canal em direção a dois curiosos monumentos localizados à entrada de Natales: uma reprodução do Milodón - uma mistura de urso com tamanduá, que costumava dar seus rolês por estas plagas naqueles tempos pré-histórico - e uma gigantesca mão de cimento, ambos plantados rente à Costanera. Bia passa por mim vinda de sua casa, pilotando uma bicicleta. Cumprimentamo-nos, polidamente, apenas. Afinal, somos civilizadas, hehehe. Pela última vez, vou à loja de Rodrigo pra me despedir. Como ele evita fumar no interior do recinto, entramos em seu carro. Na rua, impossível ficar, venta muito e o frio é severo. Lá, ficamos, pitando, enquanto conversamos. Diz que vai pra Punta Arenas, no sábado, levar Joaquim. As aulas do menino começam na segunda-feira. Convido-o a me visitar e dou-lhe o endereço do hostal. Abraços e beijos finalizam nossa despedida. Antes de ir até a oficina do Expresso Pacheco, passo no supermercado Abu Gosch e peço uma empanada de carne. É o meu almoço. Recém saída do forno, está uma delícia. Dois jovens que também esperam o ônibus, perguntam-me onde a comprei. Indico-lhes o caminho e lá partem eles em busca do tradicional quitute. Realmente, é de dar água na boca. Às 16:30, chego em Punta Arenas e vou até o Terra Sur deixar a bagagem. A senhora que administra o hostal recebe-me com sua habitual cortesia. Conversamos um pouco e fico sabendo que reside em Valparaíso, é viúva, viaja seguido à Espanha onde lá vive uma filha. Tomo o rumo da rua em busca de informações sobre o tão desejado passeio a Porvenir já que a amável gerente do hostal pouco tem a me dizer. Das três agências que visito, todas ignoram tal roteiro. Quase desanimada, entro na agência que contratara em 2007 pra visitar Fuerte Bulnes, e aqui, sim, encontro todas as informações de que necessito saber sobre o passeio. Um simpático senhor, com jeito de dono, fornece-me todas as indicações com precisão e solicitude. Que tenho de pegar o ônibus de número tal, descer em Três Puentes, e lá embarcar no ferry boat cujo horário de saída está marcado pras 09:00. E, na saída, adverte-me sobre os males do fumo (vira-me fumando um pouco antes de entrar na loja). Agora, sim, posso relaxar em definitivo. Com fome, entro numa confeitaria e peço uma empanada de carne (não canso de comer tal petisco) e um café com leite. Continuo minha caminhada, agora, à cata duns cd’s do Inti Illimani, conjunto musical, pertencente a um movimento de renovação das canções folclóricas chilenas. Não encontro, contudo, a loja onde em 2007 comprara um cd da excelente banda Bordemar. Indaga daqui, pergunta dali, informam-me, finalmente, de que a loja se mudara para a Zona Franca, bem distante de onde estou. Resolvo dar, então, o dia por encerrado e marcho em direção até o meu velho conhecido Pub 1900. Conquanto sejam 19:30, o dia está claro. Estamos, ainda, aqui no Chile, no horário de verão. O movimento na calle Bories é intenso. Pessoas saem do trabalho em direção às suas casas, jovens, postados nas esquinas ou encostados na frente das lojas, conversam animadamente. É o fim de semana que se inicia com promessas de festas e lazer. E, solidária com espírito tão festivo, sorbo una copita de viño tinto, por supuesto...salud!!
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quinta-feira, 5 de março de 2009

Navegação no Seño Ultima Esperanza

Acordo cedo ao som do celular (um dos bons recursos deste aparelho é seu despertador), pois tenho de estar na agência às 7:30 já que a navegação pelo Canal Señoret e Seño Ultima Esperanza, pra visitar os glaciares Balmaceda e Serrano, iniciará às 8 horas. Um frio danado. Entre as pesadas nuvens, o sol desponta, exibindo uma coloração breve, porém, dramaticamente, avermelhada, em meio ao cinzento do céu. Partimos de Puerto Bories, situado no Canal Señoret, embarcando no lindo cutter 21 de Mayo, pintado de branco e vermelho. Seu interior está agradavelmente aquecido. Sento a uma mesa com duas viúvas setentonas, naturais de Santiago, muito simpáticas e falantes que adoram viajar. Passo uma boa parte da viagem na parte externa do barco embora rajadas de vento, bem como o próprio deslocamento do barco, levantem ondas que molham o tombadilho da embarcação. O frio é tanto que sou obrigada a usar luvas. Situados no Parque Bernard O’Higgins, ambos glaciares pendem do cerro Balmaceda e são porções do Campo de Gelo Sul. Já há muito deixamos pra trás o Canal Señoret e estamos agora singrando o Seño Ultima Esperanza. Tanto um quanto o outro fazem parte duma intrincada rede de inúmeros canais existentes na costa marítima do sul do Chile. Por eles, trafegam transatlânticos oriundos de Puerto Montt em passeios turísticos à região. O primeiro a ser visitado é o glaciar Balmaceda, após 3 horas de navegação. Anos atrás, este glaciar terminava no Seño Ultima Esperanza. Em decorrência dum processo de retrocesso, a parte final da rocha, nos dias de hoje, apresenta-se despida de gelo. Seguimos navegando ao largo do cerro Balmaceda de onde despencam lindas cachoeiras formando gigantescos degraus tal qual uma escada monumental. Transcorrida uma hora e meia de viagem, alcançamos o setor do Parque onde se localiza o Glaciar Serrano, já no final do Seño Ultima Esperanza. Descemos para visitá-lo. Uma chuva miúda se faz constante durante a caminhada de 1 km, através dum bosque magalhânico, onde murtillas, chauras, calafates e outros arbustos ainda exibem seus frutos e flores. Este glaciar ainda não retrocedeu e finda numa laguna formada pela águas de seu degelo. Reiniciamos a navegação até a estância Perales onde desembarcamos às 14 horas. E não é que o sol aparece, ulálá! É nos servido um almoço típico: sopa de legumes, assado de cordeiro, galinha, lingüiça e batata. Acompanha uma salada com tomate e alface. De sobremesa, salada de frutas. Jarras de vinho tinto e branco são postas à mesa. Escolho o rouge, combina melhor com a carne. Terminada a refeição, retornamos ao confortável cutter onde deito num dos bancos e cochilo, pesada de tanta comida. Aportamos às 17 horas em Puerto Bories. Uma van nos leva de volta a Natales e passo na loja de Rodrigo, a dois passos da agência. Encontro-o muito animado, conversando ao celular com seu filho mais velho que mora em Santiago. Aponta prum prato de sushi. Provo dois. Deliciosos. Comprara duma amiga que passara na loja à tarde, oferecendo-lhe os petiscos japoneses. Conversamos um tanto, e Rodrigo convida-me pra ir com ele buscar Joaquim que se encontra na casa de Vitória, em Puerto Bories. Enquanto rodamos pela estrada, vejo, através do céu, encoberto por densas nuvens escuras, uma pequena janela de azul que permanece aberta até o escurecer. Será o olho de deus zelando por nós? Sou arrancada de tais divagações quando Rodrigo indaga se não quero ir com ele e Joaquim a Calafate amanhã. Fico balançada com o convite. Uma aventura e tanto viajar com os dois até essa cidade argentina onde estivera há seis anos atrás. Contudo, rola uma gana forte de conhecer Porvenir. Sei lá se por causa do significado da palavra, se pelo som agradável de seu nome ou porque se queda na ilha da Tierra del Fuego, outro lugar a povoar meu imaginário. Provavelmente pelos três motivos. E um breve e intenso dilema, na escolha entre os dois lugares, perturba minha habitual segurança. Unidunitê, salamê, minguê.....aiaiaiai. Então, tomo minha decisão: é pra lá que vou, o que está por vir!
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quarta-feira, 4 de março de 2009

À toa em Puerto Natales

Acordo sem pressa. Olho pela janela e constato que o céu está nublado, sinal de frio na certa. Assim, permaneço na cama, curtindo mais um pouco os programas da tevê chilena. Decido, apenas, vadiar pela cidade. Faço meus alongamentos e lavo com esmero meus cabelos. Degusto meu desjejum enquanto observo o movimento de carros e transeuntes na calle Bulnes, a principal rua de Puerto Natales. Entro na internete, checo meus emails, converso um pouco com a simpática e gorda recepcionista, a mesma que me atendera em 2007, e vou à procura dum passeio para o dia seguinte. Em 2007, eu tentara navegar até os glaciares Serrano e Balmaceda, contudo o vento que açoitava o Seño Ultima Esperança abortara a navegação. Contrato, assim, com uma das muitas agência, existentes na cidade, o mesmo passeio. Já quase duas da tarde, encontro Rodrigo em sua loja. Ele ainda remói o que lhe contei sobre a guia. Eu, que já estou em outra, procuro acalmá-lo e o distraio, perguntando-lhe como transcorreram as coisas durante minha ausência. Responde que foi a Calafate a negócios e retornou no dia anterior, um pouco antes de minha chegada. Aponta Joaquim e, orgulhoso (tem mais sete filhos, com três mulheres distintas), exclama: “lo nino está más gordito, no te parece?” De fato, o garotinho apresenta-se mais viçoso do que há uma semana atrás. Rodrigo mostra-me uma enorme pena de condor. Conta-me que uma mulher vende-lhe, vez por outra, tais peças as quais pretende expor em seu museu. Como não almoçamos, ainda, lá vamos nós pro El Bote, sem Joaquim dessa feita, que já comera, e se queda brincando com Vitória, filha do dono duma loja pegada a de Rodrigo. Ele faz questão de ir de carro embora o restaurante se localize apenas a três quadras de distância. Insisto pra irmos a pé mas não adianta, já está embarcando em sua maravilhosa Chevrolet 77. O menu do restaurante é supimpa: sopa de canelones, prieta (morcilha condimentada) com batatas e de sobremesa, gelatina com frutas. Una copa de viño, por supuesto..... pra rebater o colesterol do embutido. Curto demais a companhia de Rodrigo porque não é um tipo comum. E os tipos invulgares estão sempre a nos surpreender. Resolve pegar no pé da garçonete porque a moça, supondo que eu já tomara meu vinho (ainda havia um restinho na taça), tentara recolhê-lo, no que fora impedida por mim. Ele reage, reclamando da falta de modos dos seus conterrâneos. Da fala de sensibilidade com os turistas. Como é um tantinho paranóico, crê que, na atitude da moça, há uma deliberação maliciosa em apressar nossa saída do restaurante. E por aí afora segue o seu inconformado blábláblá. Escuto apenas com meio ouvido, meu espírito crítico não está lá dos mais aguçados. Prefiro curtir o ambiente, os outros comensais e o movimento da calle em frente ao restaurante. Além do mais, encaro o episódio de forma diferente da de Rodrigo, porque não percebi maldade alguma por parte da garçonete. Terminada a refeição, nos separamos, não sem antes combinar que, à noite, nos encontraremos pra bebericar um vinho. Decido passear ao léu, fugindo das ruas principais. E assim descubro, nos arrabaldes de Puerto Natales, uma deliciosa igrejinha e seu alto campanário onde jaz um grande sino de bronze, infelizmente, silencioso a essa hora do dia. Atravesso um terreno baldio cheio de mato até o Seño Ultima Esperanza onde barcos coloridos se encontram atracados ao largo. Começa a chover e a temperatura torna-se mais fria ainda. Trato de retornar e enveredo pela calle Bulnes, minha velha conhecida, onde entro no que parece ser uma acolhedora cafeteria. Tão quentinho lá dentro. Tiro minha jaqueta molhada e a ponho pra secar perto da salamandra de ferro. E ali permaneço até a chuva parar enquanto sorvo um café coberto com generosa porção de merengue. Pensando no vinho que Rodrigo irá servir à noite, trato de comprar algo de comer pra complementar a bebida. Assim, vou até o maior supermercado da cidade furungar o que há de bom em matéria de quitutes. A vitrine da padaria está cheia de doces variados, chamados pastéis (são as nossas fatias de torta). Escolho a de lúcuma, yougurt e pie de lemón. Infelizmente, empanadas não há. E lá vou com uma bandeja de postres, curtir uma happy hour com meu amigo Rodrigo e seu filhinho Joaquim. Coisa boa a vida, né?
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terça-feira, 3 de março de 2009

Adios Torres del Paine

Desperto num dos quartos do refúgio Grey, acomodada num dos seis beliches ali dispostos. Partilham o quarto mais dois casais. Um deles, com quem converso pela manhã, engenheiros canadenses, trabalham na Guiana Francesa. Jean Pierre e Ria, que vieram comer seu desjejum, despedem-se. Partem no barco das 10 pra Puerto Natales. Como o barco que me conduzirá até a hosteria lago Grey zarpa às 13 horas, sobra-me tempo pra vadiar. Aceito o mate oferecido pelos rapazes que trabalham no refúgio e depois saio pra comprar cigarros no armazém. Acendo um após seis dias sem fumar unzinho. Tenho como regra não pitar durante os trekkings. Dou uma banda pelo camping e fico conversando com Bia e outra guia que desarmam suas barracas. Volto pro refúgio, pois o céu nublado e a temperatura fria não são dos mais convidativos pra se quedar ao ar livre. Converso um pouco com outros turistas e assim transcorre o tempo até o momento de me dirigir ao cais. Embarco num bote tipo zodiac que nos leva até o catamarã. Um dos membros da tripulação serve pisco sour e whisky aos passageiros. Escolho o primeiro que beberico durante toda a travessia. Navega-se, inicialmente, pela margem leste do glaciar Grey. Após, o barco embica em direção à margem oeste, a maior das duas, onde as gretas, não tão agressivas quanto as da margem leste, permitem caminhadas com crampons e escalada em pequenos paredões de gelo (infelizmente, não me foi possível fazer esse passeio, devido ao número insuficiente de pessoas....droga, né?). O bom é que tenho a oportunidade de ver o glaciar de frente com suas duas margens, separadas pela ilha Nunatak. À medida que se navega, e nos aproximamos do embarcadouro da hosteria Lago Grey, avista-se, na margem leste do lago, o cordón Olguín, Paine Grande e os Cuernos, além dos cerros Espada, Hoja e Mascara. Uma lástima, o cenário ofuscado pelas nuvens que teimam em toldar o céu e os imponentes maciços rochosos. Mas enfim, na Patagônia, o clima é mais caprichoso que humor bipolar. A travessia até a hosteria dura quase duas horas. Quando lá chegamos, a van não se encontra no estacionamento. Passa-se uma hora e nada. Claro está que escondo meu descontentamento. Bia tenta falar pelo celular com a agência, não consegue, o sinal está fraco, entra na internete e, tampouco, consegue se comunicar com alguém da Chile Nativo. Eu, que a supunha tão organizada (contratara-a em 2007), começo a suspeitar da organização da agência. Pra piorar, minha relação com a guia, já meio frágil pelo ocorrido no camping Los Perros, mas que melhorara no decorrer do trekking, sofre novo baque....ai jesus cristinho! A criatura não admite nem que eu a questione, muito menos que eu manifeste meu aborrecimento.....dá pra acreditar?! Impaciente pra chegar a Natales, tenho de me resignar a uma espera de 4 horas, até que o veículo, finalmente, chega à hosteria. O motorista fez uma confusão com o horário de nossa chegada, motivo por que se atrasou. E eu, que podia ter chegado a Natales lá pelas 17 horas, deixo a hosteria, justo, a esta hora! O retorno se faz por uma nova rota, chamada Paine, via Cueva del Milodón, segundo, Gonzalo, o dono da Chile Nativo, “um sendero muy lindo”. De fato, é muito mais bonito que a via tradicional pelo cerro Castillo. Acontece que, como estamos deixando o parque, os cerros Paine Grande, Cuernos e Almirante Nieto só podem ser vistos se viro a cabeça, o que convenhamos é um tanto quanto incômodo. Uma pena! Melhor seria vir ao parque por aqui e retornar, então, por cerro Castillo. Mesmo assim, um belo panorama desfila aos meus olhos numa sucessão de lagos, lagunas e cerros, destacando-se o lago Toro, o maior da região, lago Porteño, laguna Sofia e cerro Benitez onde se aninha, em sua base, a Cueva del Milodón. Chegamos em Natales por volta das 20 horas. Despeço-me de Bia no hotel Florence Dixie, com um aperto de mão, louca pra me livrar dela. Largo minha mochila no quarto e vou até a loja de Rodrigo. Tudo às escuras. Procuro um lugar pra jantar e entro na pizzaria em frente à praça, na esquina da Eberhard com Arturo Pratt. Peço nhoque e uma taça de vinho. Estou faminta. Afinal, nada comera desde o café da manhã! Nem um almoço Bia me oferecera durante as malditas 4 horas de espera na hosteria Lago Grey, dá pra acreditar?! Passo de novo na loja de Rodrigo e lá o encontro. Narro-lhe, rapidamente, alguns dos acontecimentos, e ele se mostra revoltado com a atitude da guia. Combinamos de almoçar no dia seguinte. Desejo boa-noite pro meu amigo e seu filhinho Joaquim e tomo o rumo do hotel. Estou pregada. Meu corpo exige cama!
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segunda-feira, 2 de março de 2009

Sendero Camping Paso ao Refúgio Grey

Dormi a noite toda graças ao Vick Vaporub – uma latinha pequena - que o padre ontem à noite me emprestara. Enfiei fundo, dentro de ambas as narinas, a pomada, quase até o olho, não quis nem saber. Um santo remédio. Acordo tarde pros padrões usuais: 8:30. Vou até o quincho em busca de meu desjejum, Bia, porém, convida-me pra desfrutá-lo na residência dos guarda-parques, frisando com um sorriso irônico “con tu pésima guia”. Tsk...tsk...tsk, esta guria! Fico contente que o clima entre nós esteja desanuviado. Aproveito sua boa vontade e a questiono, durante a refeição, sobre o percurso de hoje. Fico então sabendo que são 10 km de caminhada e há duas escadas a transpor. Sei lá por quê, fico com receio das tais escaleras (“dantes eran hechas de madera”, conta o guarda-parque) e durante o trajeto, vou me preparando psicologicamente pra enfrentá-las. Saímos de Paso às 11 horas. Alternam-se, na paisagem, campos de matorrales e bosques magalhânicos onde em certo trecho, troncos queimados denunciam vestígios de outro incêndio. A trilha segue, sempre, à margem leste do glaciar Grey, e continua costeando-o até o refúgio Pehoe. Uma delícia olhar à direita e deparar com o esplendor desse gelo e suas gretas. Assemelham-se a picos de merengue azulado. Alguns trechos apresentam subidas bem íngremes, contudo, nada que exija muito esforço, porque de curta duração tais ascensões. Chegamos à primeira quebrada onde há a tal escada de metal por onde subo. Na segunda quebrada, um pouco mais adiante, outra escada, também de metal, dessa feita pra facilitar a descida. Sofri por antecipação porque foi nada difícil superá-las. Paramos pra fazer um lanche. Sentam-se ao nosso lado alguns dos jovens chilenos, liderados pelo jovial padre. Ofereço-lhes um saquinho contendo frutas secas. Os dois porteadores, Jose e Cristian, despedem-se de mim. Cumpriram já com sua missão pois o trekking está findando e seus serviços não são mais necessários. Bons guris, os dois. Dou-lhes uma gorjeta, recomendando “para ustedes beber una copa de viño cuándo llegaren en Puerto Natales, muchachos!” Partem, céleres, carregando as pesadas mochilas, querem chegar no refúgio Grey a tempo de alcançar a barca das 17 horas que os levará até à hosteria Grey. De lá, retornam de ônibus a Puerto Natales. Há, ainda, uma terceira quebrada onde não foi preciso a colocação de escadas. Abro um pequeno parêntese pra explicar que todas essas quebradas, as quais cruzei, e que findam no glaciar Grey, são pequenas gargantas, escavadas pela ação das águas de degelo oriundas do cordão Olguín. Ao longe, o cerro Ferrier mostra seu cume nevado. Que beleza de lugar este parque, é um encantamento só! No final do glaciar, rompendo a coloração azulada do gelo, desponta a escura massa de rochas da ilha Nunatak ocupada em diversos pontos por cerrados bosques magalhânicos. Do outro lado, esconde-se a margem oeste do glaciar Grey, invisível deste lado da trilha. Chegamos ao refúgio Grey, situado às margens do lago de mesmo nome, às 16 horas. Tempanos azulados bóiam sobre suas plácidas águas. Agora, 18 horas, o sol dá as caras, tingindo de vermelho o horizonte. Vejo Jean Pierre e Ria sentados nuns bancos em frente ao lago, bebericando uma cerveja. No interior do refúgio, a estufa aquece o ambiente. Alguns jovens, sentados no sofá, conversam alegremente. Durante a janta, bato um papo com dois brasileiros que chegaram há pouco. Guia-os um chileno, Freddy Duclerc, radicado no Brasil há anos, dono duma agência de turismo que uniu o útil ao agradável: o gosto pela aventura com a necessidade de ganhar dinheiro. Sempre bom encontrar conterrâneos e falar português. Bia, alegríssima, depois de ter bebido algumas cervejas, mostra-se meiga. In vino veritas, como diziam os romanos. Banca a durona de cara mas basta um copito pra se desarmar e transformar-se de leoa em gatinha ronronante. A vida é, ainda, melhor quando as pessoas são amáveis!
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domingo, 1 de março de 2009

Sendero Camping Los Perros ao Camping Paso

Acordo às 6:30. Embora tenha parado de chover, faz o maior frio. Remancho pra levantar, aquecidinha que estou dentro do saco de dormir. Finalmente, crio coragem e saio da barraca. Lavar o rosto e os dentes é um sacrifício: a água não é fria e, sim, gélida pra caramba! Quando chego no quincho, encontro Bia, semblante sisudo, preparando o desejejum. Cumprimento-a com um bom dia, ela, de cara feia, mal responde. Sem preliminares, asperamente, me admoesta pelo meu comportamento da noite anterior. Zangada, afirma que perturbei as pessoas, além de tê-la feito perder o sono depois que a acordei. Tento explicar que se elevei o tom de voz foi porque ninguém respondia do interior do que supunha ser a sua barraca. Não adianta, ela não escuta (pertence àquele tipo de pessoas que só filtra o que lhe interessa) e segue me repreendendo com azedume. Eu, que já vinha me sentindo meio aborrecida com seus modos autoritários, perco, defintivamente, a paciência. A um, porque estou sendo objeto de injustiça (numa discussão não há quem tenha 100% de razão, porém Bia age como se só ela estivesse totalmente correta). A dois, porque o imbroglio poderia ter sido resolvido duma forma adulta, com uma boa conversa, e não com ela me tratando como se eu fosse uma criança arteira e irresponsável. Brabíssima, agora, lanço-lhe em cara ser a pior guia com quem até então andara. E perco a fome. Não consigo comer quando fico desse jeito. Pensam que ela se dá por vencida? Qual o quê! Sempre querendo ter a última palavra (esses leoninos, aiaiaiai....jesus cristinho, dai-me paciência, abençoado!), lasca: “Cambia tu humor e come porque hoy tenemos un recorrido muy duro.” Tremo de raiva, enquanto engulo a comida. Pois não é que a indomável mulherzinha continua a me tratar como se eu fosse uma criança, e das emburradas?! Engulo aquele sapo porque chego à conclusão de que nada adiantará prolongar a discussão. Impossível argumentar com tal criatura, sempre dona de certezas tão absolutas. Só falta um coque de governanta alemã e uma verruga no nariz, pois suas atitudes transformaram-na numa bruxa aos meus olhos. Pela primeira vez em minhas andanças sinto-me, deveras, desamparada. Como gostaria de poder contar com alguém pra poder desabafar neste momento. Mas fazer o quê, né? São os aspectos desagradáveis de se viajar solita. O jeito é seguir a viagem, “abstraindo o barraco". Ademais, hoje é o dia D, o da travessia do Paso John Garner, e necessito calma e força mental pra enfrentá-lo. Afinal, são 12 km de pernada com uma ascensão exigente. Saímos às 10 do camping Los Perros. Bia adverte-me que só devo parar pra tirar fotos em certos sítios por ela estabelecidos. Explica, friamente, que há possibilidade de nevar durante o dia (de fato, pros lados do Paso o tempo mostra-se totalmente nublado), motivo pelo qual devemos atingir o Paso o mais rápido possível antes que tal ocorra. Sei, de leituras de livros de aventuras - em especial a de escaladores em alta montanha - que a falta de visibilidade provocada por nevascas desorientam, totalmente, fazendo com que as pessoas se percam. E não mais trocamos palavra alguma durante o resto do trekking. O início da trilha é um aclive e, porque se atravessa um bosque magalhânico, o terreno encontra-se pantanoso. A ascensão continua sobre um terreno coberto de pedras miúdas, despido de vegetação. Pedras, pedras e mais pedras durante toda a subida até o Paso. Tanto à esquerda quanto à direita, postam-se, tais quais sentinelas avançadas, cordões de montanhas, destacando-se, entre elas, a do cerro Amistad e seu glaciar. Conforme subo, o vale, onde se localiza o camping Los Perros, vai ficando mais e mais longínquo. Como nevou à noite e durante a manhã, o solo em alguns trechos apresenta-se coalhado de espessos flocos de neve. Riachos escorrem rumorosos sobre o terreno e surge uma que outra cascata, resultado do degelo dos glaciares. Começa a cair uma aquanieve. Faz um um frio terrível, até que finalmente, alcançamos o topo da montanha. Foram 2 horas e 45 minutos de árdua subida desde o camping Los Perros até o Paso John Garner. O cenário é espetacular, deslumbrante! A visão do glaciar Grey - uma larga e extensa faixa de gelo entremeada por profundas gretas azuladas – e de seus glaciares tributários, lá embaixo, é impactante. É tudo muito branco e azul! Linda demais esta paisagem! O tempo, até então horrível, dá mostras de melhora. Rasgos de azul no céu comprovam isso. Agora é só descida. As pedras da morena cedem, então, lugar a outro bosque onde diversas árvores mostram seus ramos verdes maquiados por brancos flocos de neve. No ponto onde me encontro, já enxergo o lago Grey e a ilha Nunatak. Quando estive aqui em 2007, percorrendo o circuito W, a visão do glaciar Grey foi parcial, apenas o vislumbrei, de frente, em sua porção leste; agora vejo o glaciar inteiro, desfrutando, assim, uma visão mais abrangente desse fenômeno geológico. Consigo desse ângulo ver a grande massa de gelo descendo desde o campo de gelo patagônico sul, de onde se origina, até o lago onde desemboca. A descida não é difícil. Bia, como sempre, exagerou quando enfatizou ser “una pendiente muy dura”. Requer, claro, um certo cuidado, pois o terreno é íngreme e em alguns pontos resvaladiço devido à lama. Nada, porém, que se compare às pirambeiras dos cânions de Praia Grande. Tiro de letra. Chegamos às 16 no camping Paso. Há o indefectível alojamento para os guarda-parques e, também, um quincho. Mais simples do que o de Los Perros, não é fechado. São apenas três paredes de madeira, encimadas por um telhado. Em seu interior, uma comprida mesa, dois bancos e uma estufa pra lá de rudimentar. Como todos os acampamentos, este se situa também num bosque, e, portanto, é muito úmido. Já dentro da barraca, escuto Bia me chamar. Simpática, oferece-me uma xícara de chá. O profissionalismo venceu o mal-humor, ulálálá. O maldito nariz entope, como sempre, quando paro de caminhar. Um saco! Enquanto aguardo a janta, converso com vários jovens, entre eles três israelitas, curiosíssimos sobre meus trekkings. Satisfaço sua curiosidade e conto a eles de minhas andanças. Após a janta, o sacerdote que lidera o grupo de chilenos reza uma missa. Improvisam para tanto um altar na mesa do quincho. Fico tocada com o fervor dos jovens. E tal celebração acontece sob uma noite estreladíssima, a primeira em todo o trekking!
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