segunda-feira, 28 de abril de 2014

O lado B do país da felicidade

Na segunda-feira, deixamos Jakar às 7 e 30, iniciando o que será uma longa viagem porque, ao contrário da ida, quando pousamos em Trongsa, iremos direto e reto a Paro. Pema entra numa estradinha lateral à principal e estaciona em frente a um resort tribacana donde se tem magnífica vista de Trongsa e de seu Dzong. Lá permanecemos durante uma hora, a meu ver, desnecessariamente. Sua explicação é de que a camionete precisava ser lavada. Tenho pra mim que ele ficou de trelelê com algum amigo. Bueno, com a tal parada no resort e outras duas em razão de consertos na rodovia, responsável por interligar a parte oeste à central do país, a viagem durou 3 horas a mais num percurso que seria “normalmente” de 9 horas para cobrir 258 km! Muito cansativa a viagem num único esticão. Sobrando tempo, bem melhor fazê-la em dois dias. Porém, como retorno, na quarta-feira, a Kathmandu, o jeito é vir duma tacada só. O céu continua nublado, com chuviscos intermitentes. Chegamos em Thimpu às 19 horas. Como Pema Boss, dono da agência AB Travel (http://www.totallybhutan.com), responsável por toda a logística de minha permanência no país, manifestou desejo de me conhecer, vou ao seu encontro. Ele já está me esperando no restaurante. Podre de cansada, eu queria mesmo era ter ido direto a Paro mas noblesse oblige, né? Bem educado embora formal, Pema Wangchu mais escuta do que fala. Coitado, porque, a bem da verdade, meu inglês é sofrível. Questiono-o a respeito de dois assuntos que atiçam minha curiosidade. E fico então sabendo que não é pela religião, por considerá-las sagradas, que o governo butanês proíbe a escalada às montanhas. Temem as autoridades, isso sim, o chamado “efeito nepalês”, sinônimo de poluição ambiental!! O Nepal, em certos aspectos, é um exemplo a não ser seguido, conforme fica subentendido na conversa. Fazem muito bem os butaneses em assim agir. Uma vergonha os relatos da sujeira deixada por escaladores e sherpas nas montanhas nepalesas, em especial, Everest, a mais procurada das 8 mil. Eu, no Paquistão, fiquei apavorada com a imundície no Baltoro Glaciar: pilhas enormes de latas de alumínio, entre outros materiais altamente poluentes ali abandonados. Outro assunto que me intrigava é agora desvendado: é permitido, sim, ao turista realizar passeios culturais, ciclismo, trek e outros esportes de aventura sozinho no país. Porém, como salienta, Pema Boss, sem garantia de encontrar carro para alugar, hotel para pousar e guia para conduzi-lo. Enfim, dificultam a vida do viajante autônomo. Sei lá se como forma de controlar os turistas a fim de proteger seus costumes e tradições, ou como meio de antecipar capital de giro. Explico. É necessário depósito antecipado de todo o valor referente aos tantos dias de estadia no país. Claro que essa quantia cobre tudo, passeios, hoteis, refeições, guias, traslados e até água mineral. Semelhante ao sistema de cruzeiros all included. Provavelmente sejam os dois motivos. Quando, afinal, chego a Paro, tomo uma ducha bem rápida, dou uma bisolhada rapidésima na internete e caio, exausta, na cama, dormindo num piscar de olhos. Ah, antes disso tomo um golinho de uíque butanês que comprara em Thimpu. Pra relaxar de vez, hehe!! 


Tanta a preguiça na terça que resolvo tirar a manhã e permanecer no quarto organizando o material audiovisual. O hotel é o mesmo onde estive hospedada quando aqui cheguei há 15 dias: o agradável Dewachen. Clara, a habitação, com paredes forradas de pinho, tem móveis do mesmo material. De sua varadinha, dá pra se curtir o vale onde Paro se aninha. Deixo a TV ligada no canal oficial do Butão enquanto estou escrevendo no computador. Volta e meia, entretanto, dou uma olhada no aparelho permanentemente ligado (nem em casa vejo tanta televisão como quando estou no exterior). E numa dessas olhadelas sou atraída por um programa. Denuncia a violência doméstica. A dramatização exibe chefe de família dando um tapa na mulher enquanto o filho, pequeno, chora assistindo à cena. O locutor em off discursa durante dois minutos. Embora não saiba butanês, bem posso imaginar o teor da conversa. E passa mais de uma vez durante a manhã! Sinal de que os desmandos dos homens levaram o governo a encarar seriamente a situação. Pois é.....o país da felicidade tem também os seus esqueletos no armário! Nem tudo é hapiness, conforme apregoa a propaganda oficial no exterior. O que importa, entretanto, é que estão sendo tomadas medidas para enfrentar a cruel realidade da violência doméstica contra as mulheres! À tarde, dou um chega pra lá em meu bicho-preguiça e vou com Pema até o centro de Paro. Lá nos separamos. Pema, que não veste seu gho, não pode entrar em trajes civis no Dzong, lugar que ainda não conheço. Já a caminho da bela fortificação branca construída sobre uma colina, paro pra fotografar 3 senhoras. Girando suas rodinhas de oração, recitam mantras enquanto circulam ao redor das várias stupas ali existentes. Coisas mais queridas elas com seus cabelos curtos e franja reta. Detalhe: as butanesas, depois duma certa idade, usam esse estilo de corte de cabelo. No interior do Dzong, tenho a sorte de presenciar os monges, alguns com 6 anos, alvorotados porque a aula terminou. Os turistas que lá se encontram endoidecem e tiram fotos de todos os ângulos possíveis. Embora não posem, os pequenos monges não se furtam de serem fotografados. Passeio sem pressa, super contente porque às vezes é muito bom andar sozinha, sem guia! E subo até o topo de outra colina, situada acima do Paro Dzong, para visitar o Museu Nacional. Em formato circular, foi originariamente construído para ser torre de observação do Dzong. Pobrinho, o museu exibe coleções de máscaras de várias manifestações de Buda, alguns animais empalhados e painéis descrevendo a fauna, flora e vegetação existente no país. Durante o passeio, paro e converso com duas menininhas. Bonitas, desinibidas, falam um pouco de inglês. O tempo que, pela manhã estava perfeito, com sol e céu azul, agora exibe uma feição acinzentada, tristonha, típica de dias nublados. Nem isso consegue empanar meu estado de espírito. Estou encantada, amando Paro, cidade que, em 2011, dela apenas conheci o Tiger Nest. Esporte nacional, o arco e flecha tem clubes em todo o país. Quando estou retornando ao centro da cidade, passo ao lado de um. Óbvio que entro na arena. Até parece que não iria especular, curiosa que sou. Alguns homens treinam, lançando os arcos numa distância de 150 metros. Tão sem graça quanto futebol, na minha opinião, o que me leva a sair dali sem demora, após bater umas fotos que nem boas ficaram. Embora tenha reservado apenas um dia para curtir Paro, lastimo agora o pouco tempo, tanto que quando retornar ao Butão, com certeza, aqui permanecerei por período mais longo! Posso dizer que encerro minha permanência neste adorável país com chave de ouro!

sábado, 26 de abril de 2014

Rodas de oração, templos e cachorros

Enquanto espero os homens desarmarem o acampamento e acondicionarem toda a parafernália em cestas de vime, vou ao encontro duma moça que me espia faz um tempinho. Ela fala quase nada de inglês o que não impede que mantenhamos um certo grau de comunicação. Peço autorização para fotografá-la e ao bebê que, enrolado num pano, é carregado nas costas. Resultam lindas fotos da mãe e de seu filhinho. Dedico-me então a observar o tanto de gente que passa na ponte pra lá e pra cá: uma senhora girando sua roda de oração, crianças com pastas nas costas a caminho do colégio, mulheres tagarelando, homens caminhando apressados, enfim, um vai-e-vem interessante que me distrai bastante. Terminada a arrumação, com o equipamento armazenado numa das casas existentes em frente à ponte (amanhã, um caminhão levará não só o tralharedo como Dorji Cook e Thukten pra Thimpu), embarcamos na caminhonete e retornamos a Jakar. E dale a escutar músicas do celular de Dorji Cook, dentre elas um rap butanês que deixa todo mundo super animado. Eu danço no banco abanando pra quem encontro na estrada. Pema, Dorji e Thuk cantam entusiasmadamente. Estamos todos muito contentes porque foi um bom trek em que tudo correu lindaçamente bem! Antes do resort, Pema estaciona o carro um pouco antes do templo Kurje Lhakhang. Descemos e subimos por uma íngreme escadaria até o topo da colina onde há uma fonte de água abençoada pelo guru Rimpoche. Não só os rapazes como outras pessoas, portando garrafas e galões de plástico, buscam se abastecer da tal holy water. E algumas ainda molham a cabeça na bica, provavelmente, buscando se purificar na santificada água. No almoço, já no resort Pelling, o mesmo onde me hospedei quando por aqui estive há 8 dias, constato deliciada que Dorji e Thuk estão envergonhados, os queridos! Desacostumados em freqüentar ambientes com certo grau de requinte e conforto, o encabulamento de ambos é comovente. Thuk que já fala baixo, sussurra, respeitosamente, como se dentro dum templo estivesse. Já Dorji, mais safo, consegue disfarçar um pouco melhor seu desconforto. Suponho também que o embaraço dos jovens se deve ao fato de estarem sendo atendidos por criados. Ensinados boa parte de suas humildes vidas a bancarem os serviçais, imagino o estranhamento em serem servidos por outros. Chove a tarde toda. Assim, passo o resto do dia no meu confortável quarto, com um belo fogo crepitando na salamandra a lenha. Quando canso de estar ao computador, dando um trato em fotos e vídeos além de postagens no Face, vou até a varanda pra esticar as pernas e curtir o visual. Só saio para jantar e dentro dum espírito de embalos de sábado à noite, convido os rapazes para um trago já que amanhã estarão retornando a Thimpu onde moram. O pequeno Thukten, surpreendentemente, recusa a bebida alcoolizada. Aceita, porém, um refrigerante. Brindamos, então, à boa convivência com a saborosa Druk 11000, cerveja de fabricação nacional, e, claro, com o refri de Thuk! 
Domingão, lá vou eu escoltada por Pema rever alguns sítios em Jakar que já visitara em 2011. Em frente ao templo Jambay Lhakhang, o mesmo onde há 2 anos atrás, eu assistira a dança dos homens nus, deixamos o carro para irmos a pé até Kurje Lhakhang. No caminho, passamos por Wangdicholing Palace, residência real de verão dos soberanos butaneses, Cercada por muros baixos, com o portão convidativamente aberto, Pema e eu entramos no parque onde os blue alpines dominam. Nenhum guarda, somente alguns cachorros que ladram mas não atacam. A residência, nem grande tampouco suntuosa, atualmente, se encontra desocupada. Encontramos o Kurje Lhakhang fechado (também já meu conhecido de 2011), porque é hora do almoço. Daí o motivo de nem lamentar não tê-lo visitado. Continuamos nossa caminhada agora por uma estreita estradinha rural de chão batido. Enlameada e com muita bosta de gado, amaldiçoo a ideia de ter calçado o velho e confortável Crok. Macieiras floridas dão um toque elegante aos quintais das casas. Nem o tempo nublado anunciando chuva iminente consegue empanar a beleza bucólica do lugar. Quando estamos retornando ao ponto onde Pema estacionou o carro, começa a chover e forte. Refugio-me no Jambay Lhakhang e observo que estão restaurando telhados e balaustradas deste milenar templo. Num cantinho, sentados no chão, um casal de idosos, sem descuidar de girar suas rodas de orações, mantêm animado diálogo. Não sei se é conversê ou briga o que rola entre eles. Merda não saber a língua do país, né? Fico encantada quando percebo que os cachorros têm livre trânsito dentro do templo, sem que alguém os enxote. E o tilintar metálico das duas grandes rodas de orações, postadas uma em cada lado do pórtico de entrada, anuncia o frequentar assíduo dos fieis no templo. Quando saio, o chuvaral cessou, o que me permite ir caminhando até a rua principal de Jakar. Entro em uma loja de artesanatos especulando o preço das mercadorias dum colorido vibrante. Aneis, colares, brincos, braceletes, chaleiras, vasos e potes são feitos com turquesa, coral, rubi e lápis lazuli. Lindos. Dá vontade de comprar tudo!! Volta a chover e, do interior do estabelecimento, vejo três monges abrigados sob um colorido guarda-chuva. Claro está que os fotografo! Não demora muito a chuva estia e vou à procura de Pema que se encontra mais adiante aguardando por mim. À tarde, vamos visitar o Jakar Dzong construído no século XVI. Essas fortalezas são espetaculares e me fascinam demais. Não canso de visitá-las. Seus pátios internos, rodeados de portas e janelas coloridas dão por sua vez em outros pátios. Monges com suas vestes vermelhas esvoaçantes caminham apressados. E novamente cai um pancadão que estanca tão rápido quanto apareceu. Ah, uma paz este lugar!

sexta-feira, 25 de abril de 2014

O banho de pedras quentes

Quando saio da barraca às 7 da matina, o que vejo? Cerração fechada, mal se distinguindo o contorno das montanhas em frente. Como se houvesse um muro acinzentado encobrindo tudo. E dale a trovejar. Desde ontem, ala putcha! Toró mesmo, nada. Apenas um gotejar, tipo chuvisco pinga-gota. Decorridas 2 horas, o nevoeiro praticamente se dissipou. Contudo, a umidade é fodástica e a temperatura deve estar em torno de 11º C. Partimos do acampamento Khamgi às 9 e 45. Uma subida contínua, cansativa, carcando as botinas num acidentado e super enlameado terreno dentro duma floresta de pinheiros compacta e úmida. Mas não pensem que estou reclamando, apenas um registro dos percalços da caminhada. Vibro, curto demais tudo isso, inclusive los perrengues. Hoje, infelizmente, é o último dia de trek....snifff. Ainda bem que os floridos rododendros voltaram a dar pinta, manchando de vermelho a mata. E os bambus, também, em quantidade impressionante! Não por acaso, no distrito de Bumthang, é comum confeccionarem cercas, casas e outros artefatos com este material. Após uma hora, castigando as pernas na íngreme trilha, chegamos a uma clareira onde fazemos uma providencial pausa. Hora do tea break. O tempo continua nublado se bem que as nuvens estão querendo se dispersar a leste. Mais uma vez, nos internamos na floresta, porém dessa feita o terreno não apresenta aclividade tão ríspida. De repente, a floresta de pinheiros desemboca num platô enfeitado por coloridas bandeirolas de oração onde alguns yaks pastam exibindo plácidas expressões. A paisagem é outra, bem diferente da que percorri durante estes 7 dias. Pradarias surgem pontuadas por suaves ondulações. Poucas são as árvores, arbustos há os de pequeno porte. Iniciamos a descida, já avistando ao longe a Vila Dhur, que se encontra a 2.900 m. À medida que baixamos, a temperatura torna-se mais amena e menos úmida. Durante o trajeto, vejo uma vintena de yaks sendo conduzidos por alguns homens e cachorros às terras altas. Com a chegada da primavera e do verão, os peludos necessitam viver em clima bem mais fresco. A quantidade de abrigos feitos ou de pedras ou de toras de madeira revela que os animais não são deixados ao léu. As rústicas moradias servem de abrigo aos donos dos rebanhos que dispensando, temporariamente, o conforto de suas casas em Dhur, ali se aquerenciam por alguns dias, a fim de cuidar dos animais. Entramos num desses abrigos onde uma velha senhora cozinha algo numa panelona disposta sobre um fogo de chão. Simpática, ela não considera invasiva nossa presença, tanto que nos brinda com um largo sorriso desdentado. Muito natural que onde haja gado, haja dogues. E os há, e muitos! Alguns furiosos, com espessa pelagem escura, amarrados a cercas, guardam as taperas. Na vila Dhur, de onde Dorji Horse é natural, vivem cerca de 1.500 pessoas, cuja principal fonte de renda é a pecuária. Cada família possui em média mais ou menos 50 cabeças de yaks, o que lhes proporciona razoável padrão de vida, haja vista a boa qualidade da maioria das residências. Algumas famílias, mais abastadas, como a de Dorji Horse, são proprietárias de caminhonetes. Entramos na vila e caminhamos por um emaranhado de becos e estreitas vielas, com Pema perguntando aqui e ali onde mora Dorji Horse. O arriero, em sintonia com seus cavalinhos, disparou na frente e nos deixou pra trás, hehe. Chegamos, então, à residência de Dorji. Com dois pisos, na fachada exibe desenhos de tigres, dragões, flores e outros símbolos relacionados ao budismo. Cozinha, banheiro, sala de visita e quartos ocupam todo o piso superior. A irmã de Dorji Horse, desembaraçada, fala alguma coisa de inglês, mas a mulher de nosso arriero apenas distribui sorrisos. Somos acomodados na sala de visita e nos oferecem de entrada arroz e flocos de milhos tostados mais chá e leite, seguidos do prato principal. Trata-se dum spagueti de cor escura, feita com trigo sarraceno, de largo cultivo na região. É uma comida tradicional de Bumthang, seu nome é putta. Após o almoço, despeço-me da família e a presenteio com uma barra grande de chocolate Lindt, providencialmente adquirida em Doha para situações como essas. Partimos. Com Pema à frente, percorro as vielas da vila. Passo pela frente do monastério e da escola pública cujo ensino abrange apenas o fundamental, ou seja, somente até o 6º grau. Dois aspirantes a monges, com suas vestes cor de vinho, jogam futebol. Os corvos passam voando baixo e seu crocitar soa como um lamento. Após 20 minutos de caminhada por becos e trilhas, chegamos ao moinho de farinha movido a água, retirada do rio Chamkhar Cho. Construído pelos aldeões, o moinho é partilhado por todos. Muito bacana constatar que, aqui no Butão, o espírito de coletividade é fortíssimo. Em 30 minutos, chegamos ao que será nosso último acampamento, montado em frente à ponte que une as margens do Chamkhar Cho. Justo ao lado do lugar onde deixáramos o carro há 7 dias atrás! Lá pelas tantas, como não podia deixar de ser, cai aquela chuvinha que nem bobo consegue molhar. O querido guia não desiste de tentar me compensar pelo malogro de eu não ter conhecido Hot Springs. Tanto que, ontem, contou que em Dhur os moradores têm o hábito de banhar-se em águas aquecidas com pedras quentes. Revela então que vão preparar e me oferecer tal mimo. Quando chegamos ao local do acampamento, ele me leva até um buraco retangular de cimento, ao lado do rio. Aponta que será aqui minha hot spring. Quando percebo a mão de obra que será encher a cavidade com água, catar gravetos pra fazer uma fogueira de modo a aquecer as pedras que serão colocadas no banheirão, agradeço comovida. Declaro que diante de tanta trabalheira - afinal todos nós estamos cansados -, eu os dispenso da graciosa oferenda. Pema nem insiste diante de minha recusa. E, assim, mais uma noite que durmo bem sujinha, hehe!!

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Em terras de Dorji Horse

Acordo às 6 mas como hoje começaremos a caminhada mais tarde que nos dias anteriores, me dou ao luxo de ficar até às 7 dentro do saco de dormir. Pema achou por bem alterar o trajeto em razão de nossa ida inexitosa às piscinas térmicas. Pegaremos trilha diversa da que viemos de modo a conhecer, assim, Dhur, a vila de Dorji Horse, não incluída no roteiro original. Tão boa essa lei das compensações! Não conheci as águas termais mas vou conhecer uma vila....ebaaa!!! Nesta região há ursos pretos. Infelizmente, deles só vi marcas das patas e unhadas no tronco dum rododendro. Temperatura amena, afinal já estamos a uma altitude abaixo dos 3 mil e 500 metros. Destacando-se, no verde do pinheiral, o colorido rosado das flores dos rododendros! Saímos às 10 do acampamento Chok Chokma. A trilha acompanha uma encosta de montanha onde, à esquerda, jaz, no fundão, pequeno vale, delimitado pela montanha fronteiriça. Lá, vemos, encarapitado, um monastério, construído em lugar de dificílimo acesso. Sinal de que os monjes querem retiro espiritual mesmo. Nem bem decorridas 2 horas, pausa para tea break, numa clareira em cuja grama brotam milhares de prímulas azuis. Thuk e Dorji esticados no chão fazem poses tirando fotos um do outro. Temperatura agradável, em torno duns 16º C, embora o sol muitas vezes fique escondido por nuvens que, num vai-e-vem, o toldam. Desconfio de que esse seja o comportamento climático usual durante a primavera butanesa. Um ventinho sopra e move suavemente a copa dos pinheiros. Acabamos almoçando aqui mesmo nesta bela pradaria. A comida, ótima. Como estamos num lugar descampado, os rapazes aproveitam para verificar se seus celulares funcionam. E contentes porque apresentam sinal, conversam com seus parentes. Terminado o almoço, retomamos a marcha. Embora curta, é dura porque se trata duma subida íngreme dentro dum úmido bosque. Quando alcançamos a clareira que avistáramos daquela onde havíamos almoçado, paramos. O lugar, conhecido como Khamgi, será nosso acampamento. Situadas a 3.200 m, as terras pertencem à família de Dorji Horse. Pema chega botando os bofes boca afora, hehehe. Não resisto e gozo um monte dele. Cedo ainda, nem bem são 14 horas, cai a tradicional chuvinha miúda e intermitente. Nem chega a molhar o solo. Penso cá com meus botões, resmungos de chuva, isso sim, é o que é. Empresto meu ipod para Dorji Cook e ele, enquanto monta minha barraca, começa a dançar ao som da música. Acompanhando a chuva, que apertou, ruídos de trovões não muito distantes quebram o silêncio da tarde. Devem ser chuvas típicas da estação. De lanche, Dorji preparou masala tea – coisa boa - e pipoca apimentada, servindo também biscoitos doces cobertos com açúcar cristal. Preocupada com minha silhueta, sei lá se considero bom que meu apetite tenha voltado. Mesmo assim, mando ver na pipoca e nos biscoitos. Percebo os topos das montanhas ao redor cobertos pela neve que caiu durante a noite. Reina silêncio no acampamento Khamgi. Dorji Horse sumiu, deve estar no mato buscando lenha pra fogueira noturna. Pema descansa em sua tenda e os outros dois estão na barraca-cozinha preparando a janta. Dorji escuta o ipod com um só fone de modo a ouvir o conversê de Thuk, veja só! Reflito em meu ócio que Thuk tem um sorriso fácil, ao passo que o de Dorji Cook é mais contido. Já Dorji Horse sorri de canto. Deve ser tímido, concluo. Por fim, Pema, na condição de guia, exibe sorriso profissional. Vi, ou melhor, tive um fugidio vislumbre, durante a subida até o acampamento, do único animal selvagem de todo o trek: uma raposa. Daqui de dentro da barraca, vejo que a montanha em frente está encoberta por um fino véu de cerração. Agora 17 horas, a chuva se intensifica, trazendo consigo uma friorenta e desagradável umidade. O tamborilar dos pingos é incessante no teto da barraca, só varia sua intensidade: de forte a fraca e vice-versa. Eu, cá dentro de minha casa de lona, continuo a leitura dos contos de Alice Munro. Entedio-me contudo decorrida duas páginas. Gostaria mesmo é de estar ao ar livre, deixando o olhar vagar sem compromisso pela paisagem, ao invés de confinada em tão exíguo espaço. Largo o livro e fecho os olhos. Escuto os trovões e estiro o corpo....coisa boa essa vidinha!

quarta-feira, 23 de abril de 2014

De livros e árvores

Quando saio da barraca às 7, o solo está branquinho de geada, tanto que deve estar uns 4ºC. O lugar onde acampamos é lindo. Ao norte, a linda montanha Tshenjigang com suas encostas cobertas de neve. O dia lindo, céu azul com algumas nuvens aqui e acolá. Somente eu e Pema estamos à-toa, nos aquecendo em frente à fogueira, já que os demais homens cumprem suas habituais tarefas matutinas. A conversa recai em cremação, assunto pelo qual nutro interesse. O guia conta que das cinzas dos mortos misturadas à lama são feitas miniaturas de stupas. Colocadas, convenientemente, próximas a monastérios ou à beira de estradas recebem, dessa maneira, boas energias de quem por ali passa. O desjejum, servido ao ar livre, para que eu possa desfrutar da paisagem, oferece as gostosuras de sempre: uma fruta que pode ser bergamota, maçã ou pera, suco de maçã ou de manga, 2 torradas, mel e chá com leite. Tudo de bom! A barraca-refeitório, portanto, só é usada durante a janta. Já a pequena tenda que me serve de latrina, (consiste dum singelo buraco com um pedaço de graveto em forma de forquilha, sustentando o papel higiênico) uso-a de manhã e à noite. Temos acampados invariavelmente bem perto da margem do rio Chamkhar Cho, já que a trilha acompanha seu curso d’água desde que saímos da vila de Dhur, no primeiro dia de caminhada. Não são só moscas abundam no país, corvos há igualmente por toda parte. Não só no campo quanto nas vilas e cidades. Pitoresco ver guias e turistas butaneses com guarda-chuvas pendurados nas costas ou sendo carregados na mão durante o trek. Há 3 dias, as únicas pessoas indo também pra Hot Springs foram 4 jovens butaneses. E carregavam coloridos guarda-chuvas! Lembro inclusive de Pema, quando estávamos em Thimpu, ter perguntado se eu não gostaria de que ele levasse um pra mim. Bueno, com Pema à frente, portando nas costas sua inseparável umbrela, damos início ao antepenúltimo dia de trek, deixando o acampamento às 9 e 30. Após uma hora de caminhada, deixamos o árido vale de Tshochung Chung pra trás e já estamos percorrendo a trilha aberta na compacta floresta de pinheiros onde clareiras são raras. Essa parte da trilha é onde há trepa-pedras, muita lama e gelo cobrindo o solo. Onde há uma rústica ponte sobre o Chamkhar Cho, feita com tábuas, sem corrimão. Onde o rio volta a bramir, bem enfezado, porque voltou a ser de corredeiras. Onde os trechos de trilha ora são largos quando cruzam os bosques, ora são estreitos quando abertos no sopé das montanhas. Onde ora a trilha fica a mais de 30 metros do rio, ora fica no mesmo nível de seu leito. Onde há desmoronamentos – nada muito sério - de areia provenientes de encostas de montanhas. De tal forma estreitam a trilha que a reduzem a uma fina faixa de terra, delimitada por uma ribanceira com 20 metros de altura. E lá embaixo o destino, se o pé descuidado resvalar, é o leito empedrado e turbilhonante do rio. E, finalmente, onde os rododendros voltam a dar o ar de seu colorido vibrante e o bambuzal tece uma inextricável cama de gato com suas longas e finas varas. Isso que dá fazer trilha que não seja round trek. Tu vais e voltas pelo mesmo caminho. O bom é que se reconhecem os lugares como se fossem velhos conhecidos! Às 13 paramos para almoçar. Agarrada numa árvore, uma orelha de macaco enorme! Muito parecida com a que vi na floresta amazônica quando fiz o Pico da Neblina em 2010! Sentamos sobre troncos de árvores caídas. A mesa improvisa-se sobre uma pedra plana. Caso não haja, coloca-se a comida no chão mesmo. Dorji superou-se nesse almoço! Está maravilhoso: carne de carneiro, arroz, queijo com molho e finas fatias de batata levemente salteadas na manteiga. Sobremesa: bergamota. Tukthen faz questão de servir a comida a francesa. Como não fala inglês, gesticula bastante. Expressivo e desinibido, o guri se faz entender. Ele só come após eu terminar a refeição. Decorrida nem bem uma hora e trinta já estamos no acampamento Chok Chokma, montado na bela clareira onde lanchamos no 2º dia. Há hemlocks altíssimos, cuja altura atinge, pelos meus cálculos, uns 30 metros. Começa a cair uma chuvinha mansa, daquelas que não impede de se estar ao ar livre. Tanto que Dorji Horse continua a catar gravetos pra fogueira. Thukten lava os pratos do almoço à beira dum córrego. E eu faço meus alongamentos diários. Já deitada, confortavelmente, na minha barraca, dou uma olhada nas fotos e vídeos do dia. Da barraca-cozinha, escuto a conversa e o riso dos homens. É lá onde os Dorji e Thukten dormem, exceto Pema que, por ser guia, tem sua barraca. O humor deles é um tanto infantil como venho observando. Pema, por exemplo, adora dizer que está doente. Aí quando tu perguntas, alarmada, o que ele tem, o safado abre um sorriso maroto e, candidamente, explica que está com fome. Na 1ª e 2ª vez até ri, nas vezes seguintes, só sorria e amarelo. Hoje os três membros do staff me pegaram, desprevenida, e viram minha bunda enquanto fazia xixi. Deram risada, deliciados. Durante a janta, resolvo perguntar a Dorji Cook o que ele achou. Galante, responde “good good”.....hahaha. Salta ao olhos a superioridade do nível de instrução de Pema sobre os demais. Não só por ter o segundo grau quanto por ter curso de técnico em turismo. Tukthen e Dorji Cook estudaram em monastério porque provêm de famílias pobres. Já de Dorji Horse nada sei. Pouco conversador - o único entre os quatro que não fala pelos cotovelos -, super na dele, é o que se chama um tipo discreto. Usa uma boina de lã meio atravessada na cabeça que lhe confere certo estilo. À noite, sob um céu estreladíssimo, comemos ao ar livre. Ao redor da crepitante fogueira cujas gordas labaredas iluminam o espaço em volta, provo o bathup preparado por Thukten. E o guri, expectante, não esconde a faceirice quando elogio a comida. De fato, o bathup de Thukten é muito mais saboroso se comparado ao que provei há uma semana. Terminada a janta, faço um pouco mais de social e me mando pra barraca. Minha lombar está dolorida, quero mais é me esticar. Antes de dormir, termino a leitura do conto Madeira. Encanta-me a descrição precisa e elegante de Alice Munro sobre certos tipos de árvores. Adoraria escrever como ela! Agradável descoberta a dessa escritora canadense. Não há melhor companhia que um bom livro em determinadas ocasiões!

terça-feira, 22 de abril de 2014

O belo passo Juli La

Quando acordo para fazer o inevitável xixi da madrugada, ½ lua brilha no céu estrelado. Como sempre, o dia exibe uma linda manhã. Quebram a homogeneidade azulada do céu esparsas nuvens brancas. Enquanto o pessoal desmonta acampamento, subo numa pequena colina e fotografo as montanhas ao redor. Quanto mais ao norte, mais nevadas se mostram suas encostas. Está frio mas nada que se compare ao da manhã de ontem. Deixamos Domjung às 9. Decorridos uns 15 minutos de caminhada, vejo à esquerda, pendurado num flanco de montanha, um bonito glaciar. Peço a Pema e Thukten que se postem à sua frente para que eu possa fotografar não só a paisagem como eles também. Ambos resolvem zoar comigo e animadamente gritam algumas palavras em butanês enquanto pulam empunhando pro alto seus bastões. Divertem-se a beça os dois! Os homens muitas vezes agem como meninos, ignorando que não mais vestem calças curtas, os queridos, hehe! A foto não saiu lá essas coisas, mas a filmagem resultou engraçada. A estreita trilha, inicialmente, se dá no sopé duma montanha. Decorridos 40 minutos de pernada, sinto que, essa sim, é uma subida de respeito! Não serão somente os banais 300 m de cada dia que temos enfrentado até então. Hoje o desnível é mais pra cima, hehe. Nada mais nada menos que 1.100 metros entre nosso acampamento e Julila, o ponto mais alto deste trek de 7 dias, conhecido como Hot Springs Trail, em razão das piscinas térmicas que se localizam num vale adiante do passo. Por isso, volta e meia, interrompo a marcha tanto pra fotografar quanto pra descansar. À medida que ganhamos altura, a vegetação arbustiva vai rareando. A partir dos 4.300 m somente o que se vê de verde no solo são gramíneas. E o céu continua azul, eba!! Mais e mais montanhas nevadas vão se revelando, algumas inteiramente encapuçadas de branco. O terreno, em diversos trechos, apresenta-se coberto de gelo e neve, sinal de que embora seja primavera tem nevado bastante por aqui. Tanto é verdade que, num pequeno enclave entre montanhas, um lago congelado se destaca. Mais adiante, um rio parcialmente congelado. O clima não tem se mostrado nada amistoso nesta região. Quanto mais próxima do passo Julila estou, mais a vegetação adquire caraterísticas marcadamente alpinas, reduzindo-se a descontínuos espaços preenchidos com grama rala. A subida é ardida, assaz ardida! Detenho-me às vezes para recuperar o fôlego e quando olho - seja pra frente seja pra trás - o encantador cenário de montanhas enfeitadas de neve, sinto que tudo está valendo a pena...e como! Agora, poucos são os trechos em que o solo não se apresenta coberto de neve fofa. Não há como evitá-los. Meu pé só não afunda porque aproveito e piso nas pegadas feitas pelos rapazes ao longo da superfície nevada. Os cavalos estão tendo bastante dificuldade devido à espessa camada de neve. Thukten, inclusive se junta aos Dorjis, engrossando o coro de palavras de ordem que os três lançam aos animais, de modo a estimulá-los na travessia do terreno nevado. Após 2 h e 40 minutos, desde a partida do acampamento Domjung, chego finalmente ao passo Julila. Do alto de seus 4.700 metros, a paisagem é espetacular! Visualiza-se não só um anfiteatro de montanhas branquinhas ao norte como outras montanhas parcialmente nevadas ao sul. Sento sobre uma pedra, o esforço foi pesado. Os rapazes falam ao celular! Até aqui, no topo duma montanha, onde Judas perdeu as botinas, esses dispositivos têm sinal...incrível e maravilhosa invenção! Ah, se eu tivesse habilitado meu celular para ligações internacionais, eu faria o mesmo! “Hello, miga, sabe onde estou? Pertinho do céu, em plena cordilheira Himalaia, hehe!!” Os butaneses, ao verem um yak preso, na neve, 200 m encosta abaixo, se mandam na tentativa de trazê-lo aqui pra cima onde a neve não é tão profunda. A duras penas, os quatro homens tangem o bicho encosta acima. Divertem-se durante o salvamento, rolando e mergulhando na neve, enquanto tiram fotos uns dos outros. Quando Pema, que também participara do resgate, retorna, ele me dá a triste notícia. Não é possível descer os oito cavalos até o vale já que a camada de neve fofa deve ter uns 15 cm de profundidade. Fico desconsolada em saber que não rolará a pernada até Hot Springs. Pema, percebendo meu desgosto, sugere então que cada um dos homens leve as traquitandas nas costas, única maneira de descermos a encosta nevada e alcançarmos as piscinas de águas termais. Claro está que declino da oferta. Por dentro, contudo, amaldiçoo minha atitude generosa. E fico durante um tempo meio emburrada. Pema gentilmente iria abrir uma exceção à proibição governamental do emprego de homens ou yaks no porteio de carga para turistas. As regras no Butão, ao contrário das adotadas no Nepal e Paquistão, permitem apenas o uso de mulas ou cavalos. O meu consolo é que, embora tenha gorado a ida até Hot Springs, conheci um lugar lindo que é o passo Julila. Nem a trilha do Jomolhari, feita em 2011, me proporcionou a esplêndida visão do Himalaia que se tem ali de cima. Bem cansada, afinal está sendo o dia mais duro numa caminhada de quase 7 horas, um pouco antes de chegarmos ao acampamento, invento,  - pra evitar subir uma colina - um caminho diferente, rente ao rio. Até certo ponto tudo corre bem até que, lá pelas tantas, surgem uns arbustos impedindo nossa passagem. Pema ainda tenta me dissuadir mas eu, sem dar bola pra seu apelo, entro dentro do rio de águas rasas. E molho os pés; pra minha surpresa a água não está tão gelada quanto eu imaginara. Consigo finalmente convencer Pema que jantemos todos juntos. E talvez pra compensar minha frustração de não ter conseguido chegar em Hot Springs, Dorji e Thukten cantam pra mim! Até São Pedro tá me mimando: primeira noite que não chove!

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Fogo nosso de cada dia

Pra quem faz trek os dias são cheios, já as noites são reservadas pra dormir. Não há muito o que se fazer no meio do mato quando a escuridão se impõe sobre o dia. Ademais, o cansaço provocado pelas caminhadas e pelos efeitos da altitude, te derrubam ao final de cada dia. Por isso não só deito como durmo cedo, motivo por que acordo invariavelmente de madrugada. Hoje não foi diferente. Desperto às 4 e 15 e consigo ir levando a vontade de urinar até as 5 quando então sou obrigada a levantar. Minha bexiga tá estourando. Valeu a pena sair do interior da barraca: a lua brilha no céu absolutamente limpo como se não houvesse caído, ontem, o maior toró de granizo durante 2 horas! O rumorejar do rio Chamkhar Cho é o único som no silêncio da madrugada. Quando deixo a barraca em definitivo pra tomar café, a clara madrugada cedeu espaço a uma bela manhã de primavera. Frio pra caramba às 7 horas, coisa de 3ºC! O chão ainda coberto de geada faz meus pés doerem tão gelado está. Da pêra que me foi servida no desjejum, dou o caroço a um dos cavalos. Nenhum deles quis saber da fruta. Da fogueira acesa por Dorji Horse sai uma fumaça acinzentada, produto do lixo incinerado diariamente todas as manhãs. Como não tenho nada pra fazer enquanto espero o desmonte do acampamento, volto minha atenção aos diversos corvos que se encontram ciscando ao redor. Se desse pra ter um cabelo igual à de suas luzidias plumagens pretas seria um arraso! Das sobras de arroz postas no chão por Dorji Cook, o bicho recolhe um punhado com o bico e voa até a árvore mais próxima, onde deposita em segurança os alimentos recolhidos. Comparo-os então a mendigos pois estão sempre pegando restos de comida alheia. Pema tem por hábito esperar que os rapazes ponham a carga sobre os cavalos para então partirmos todos juntos, com Dorji Horse um pouco à frente tangendo os bichos. Lá pelas tantas, os dois Dorji apuram o passo, gritam palavras de ordem pros animais e em 10 minutos se distanciam de nós. Thukten, entretanto, permanece em nossa companhia já que é o responsável por carregar a mochila com os apetrechos de meu almoço. O baixinho conversa sem parar. Admirável o seu inesgotável repertório de assuntos. Pema, que mais escuta do que fala, se diverte com a falação do pequeno Thuk, que usa boné com abas protetoras de orelhas. Sua voz agradável imprime pausas que conferem um leve suspense à narrativa. Eu adoraria saber o que ele tanto conta a Pema. Vez por outra me olha meio de canto. Não chega a ser um olhar desconfiado. Arrisco a dizer que ele sonda meu jeito de ser, com cautela, como se medisse meu humor à espreita, sempre, dalguma reação desagradável. Deve ter levado muitos foras nesta vida o querido guri! Quando deixamos o acampamento às 9 horas, a temperatura já aumentou pra 9º C, e o sol brilha firme e forte, suavizando um pouco a frialdade matutina. Continuamos a travessia no interior de bosque de pinheiros. Alternam-se subidas, não muito íngremes, com superfícies mais planas. Bem mais leve esta trilha que a de ontem. Um alívio, portanto, ao cansaço provocado mais pela altitude do que pela aclividade do terreno. Em certos trechos onde afloram rochas parrudinhas há necessidade dum certo trepa-pedra, mas tudo bem light. Nas partes da mata onde a vegetação é mais densa e o sol tem dificuldade em penetrar, há bastante acúmulo de gelo no solo. E, claro, lama muita lama! Sábio Thukten que veste botas de borracha de cano alto. À medida que ganhamos altura, passamos a percorrer encostas de montanhas, nos distanciando, dessa forma, do Chamkhar Cho. O sendero, em certos pontos, exibe ribanceiras que alcançam 30 metros de altura acima do nível do leito do rio. Passado uma hora de caminhada, volta a trilha a ficar rente à correnteza. Enquanto cruzo uma ponte, percebo deliciada que o rio está com-ple-ta-men-te congelado. Que legal!! Entre claros no bosque, avisto alguns picos do Himalaia com seus cumes nevados. Paramos para tea break às 11 horas. Pema, antes de comer, costuma atirar comida pro alto falando algo que soa “cho cho cho cho". Explica que se trata de oferenda a todas as coisas vivas. Outra subida, nada áspera, tem início. O que atrapalha é a altitude. Até Pema sente cansaço e aproveitas minhas paradas para fotografar descansando também. Entramos agora no que eles denominam “acima da linha das árvores”. Trata-se da zona de altitude acima dos 3.500 m onde os bosques de pinheiros começam a escassear. Vê-se agora, nas encostas das montanhas, não mais aquela compacta formação florestal de coníferas mas, sim, esparsas agrupações de pinheiros. Entre as árvores, vestígios da neve que ainda teima em cair mesmo sendo primavera. À medida que adentramos no vale Tshochung Chung, por onde caminhamos cerca duma hora, começo a avistar um semicírculo de montanhas nevadas no fundão do vale em forma de funil. É o Himalaia. O rio Chamkhar Cho, até então de corredeiras barulhentésimas, perde sua força e se torna um rio de planície, silencioso e raso, cujo leito apresenta-se coberto de pedriscos. Paramos para almoçar às 13 horas. Menu? Carne de porco, arroz, cogumelos ensopados e espinafre refogado com alho; de sobremesa, bergamota já descascada. Por causa do frio, meus dedos estão dilacerados pela psoríase. Está esfriando além de soprar um ventinho gelado. Do outro lado do rio, duas casas de pedras bem rústicas. Pertencem a pastores de yak. No inverno, eles, que moram no alto das montanhas, descem até o vale onde remanesce pasto para alimentar seus rebanhos de yak. Daí o motivo de terem construído as toscas habitações. Encontramos o acampamento em Domjung já montado quando lá chegamos às 14 horas. Embora rodeado por montanhas, algumas cobertas pelas neves eternas, o lugar não é tão bonito quanto o vale que atravessamos. A vegetação, escassa, é constituída por pequenos arbustos de folhas miúdas. Cobrindo o solo uma grama rala e descontínua. Começo a me dar conta que depois das 16 horas o tempo muda pra pior. Foi assim nos 2 dias anteriores e hoje não é diferente. No céu, as nuvens brancas já se exibem cinzas e aglutinam-se cada vez mais. Cai um pouco de aquaneve que se transforma em uma garoa inconsequente. Cada homem cumpre sua tarefa de final de tarde. Dorji Horse, após colocar nos focinhos dos cavalos embornais com a ração diária, desbasta pedaços de madeira que servirão de estaca pra amarrar os animais. Dorji Cook e Thukten, na barraca-refeitório, preparam a refeição. Pema e eu nos aquecemos ao redor da fogueira cujas belas labaredas não se inibem diante do fino chuvisco. Na janta, só belisco, embora a comida esteja, como sempre, deliciosa! A inapetência e mais uma dor de cabeça, miudinha, são efeitos da altitude. Estamos já  a 3.700 metros. Tanto que deito mais cedo do que o usual: 8 da noite. Não demora muito, escuto um poc poc no teto da minha casinha de lona: nova queda de granizo. Contudo, nem se compara com a de ontem. Durmo sem tardança sonhando que estou no cinema comendo pipoca, hehe

domingo, 20 de abril de 2014

Dhoma

Embora a chuva tenha cessado, o céu continua nublado às 6 da manhã quando saio da barraca pra urinar. Paira uma leve cerração nas encostas das montanhas. Já às 8 e 30, o sol começa a se impor. Tão agradável a temperatura que visto sobre a camiseta de manga curta uma de manga comprida, ambas de tecido leve. Saboreio o desjejum ao ar livre: torradas com mel e geleia, suco de manga e chá com leite. Já os butaneses, em todas as refeições, comem quase sempre a mesma ração diária de arroz vermelho com verduras. Antes de iniciarem a pernada, Pema e Dorji Cook, assíduos degustadores de dhoma, sentam na grama e preparam a primeira das 4 porções que mascam diariamente. Segundo Pema, a estranha mistura de noz e folha de betel ou areca (um tipo de palmeira) temperada com limestone esquentaria o corpo. Pema observa que é importante dosar a quantidade do lime porque sua abrasividade pode ferir a língua. Pois é isso mesmo, o dhoma é mastigado com carbonato de cálcio! Que é nada mais nada menos que calcáreo! Depois de cozido, o calcáreo é triturado com água, obtendo-se uma pasta a qual se acrescenta - para suavizar sua aspereza - um corante de cor alaranjada. Eles enrolam na folha o lime e um quarto da noz. Mastigam e após um tempo cospem. A primeira vez que vim ao Butão, fiquei muito impressionada com as gengivas manchadas de vermelho e nódoas da mesma cor no chão dos lugares por onde andava (pensei que fosse alguma doença). Logo descobri a causa: o adorado dhoma! O hábito ou vício de mascar dhoma independe de classe social e de sexo. Atualmente, são as mulheres suas maiores consumidoras. Nem sempre, entretanto, o consumo de dhoma esteve ao alcance de todos. Introduzido no país no século XV por visitantes indianos, somente os nobres podiam adquiri-lo já que tinha de ser importado. Um lote de dhoma com 80 peças custa 350 Nu (7 dólares) e dura mais ou menos uma semana. Já a venda de cigarros não goza de igual sorte - não seu consumo - sendo proibida no país. Ao turista fumante é permitido o ingresso de 10 carteiras e o pagamento duma taxa. Caso seja ultrapassado o limite legal, a quantidade extra é confiscada e devolvida na partida. Bueno, após essas curiosas digressões urge voltar à trilha. Que não é a mamata da de ontem. Os trechos em aclive preponderam. À medida que se ganha altura, a abundância de rododendros vai escasseando. Sua coloração adquire uma tonalidade rosada ao passo que a folha se torna maior. E os bambus começam a aparecer nos bosques de coníferas. Muito bambuzal! Conforme a altitude, prepondera um ou outra espécie de > pinheiro como bétulas, abetos, juníperos, blue alpines ou os gigantescos hemlocks. Paramos numa clareira onde se avistam montanhas com picos nevados. Ali as prímulas azuis enfeitam de azul o verde da grama. Comemos uma mistura de pistache, castanhas e amêndoas que eu comprara em Doha justamente para o trek. Noto que eles se deliciam com os frutos mas longe de serem vorazes, comem com moderação. Agradável a temperatura quando o sol não está encoberto. A ponto de dispensar o uso da jaqueta durante a parada pro lanche. Retomando a caminhada, continuamos a seguir pela trilha que contorna a margem esquerda do rio Chamkhar Cho, em direção a sua nascente, localizada na face norte do Gangkharpuensum, bem distante, porém, de onde estamos. O rio, como a maioria dos cursos d’água butaneses, é de corredeiras, motivo por que se prestam tanto à construção de hidroelétricas. Após 6 km de caminhada, escolhemos um lugar agradável no bosque pra almoçar. Escoro-me num tronco de árvore e percebo que estou com fome. Também pudera, já são 13 horas. Na marmita carregada por Thukten, há 4 viandinhas contendo arroz vermelho, atum e dois tipos de vegetais refogados, preparados por Dorji Cook todas as manhãs. Pra variar, as irritantes moscas dão o ar de sua nojenta graça. Os rapazes não as matam devido às suas crenças budistas mas eu sempre que posso dou um sopapo nelas....nojera esses insetos! Embora o sol vez por outra desapareça, a temperatura mantém-se agradável mesmo a 3.300 metros de altitude. Na úmida floresta, vicejam musgos nas rochas e troncos das árvores produzidos em decorrência da escassez de sol barrado pela espessa ramagem dos pinheiros. Tanto assim que em muitos trechos a trilha se apresenta super enlameada. Em alguns pontos, improvisadas passarelas de tábuas sobre o embarrado solo. Enquanto atravesso a segunda clareira no bosque de coníferas, consigo avistar montanhas, algumas com glaciares em suas encostas. Dessa feita, a subida nos afasta em muito do leito do rio Chamkhar Cho. Dele só se escuta o longínquo ruído. Um curto trecho plano é um bem-vindo alívio pras pernas castigadas dos quase 7 km de ascenso. Mais uma vez o bosque de pinheiros desemboca noutra clareira. A moleza não dura muito porque nova ladeira empinada se sucede, decorrido 1 km. E voltamos a enxergar o rio apenas 20 metros abaixo da estreita trilha onde estamos. Inicia-se então um descenso até alcançarmos o nível do leito do Chamkhar Cho. E seguimos ao longo de sua margem esquerda, uma larga planície coberta de pedriscos. Quando chego ao acampamento às 15 e 40, encontro as barracas montadas e a bagagem dentro de minha tenda. Pra que isso ocorra Dorji Cook e Dorji Horse sempre vão à frente. Este trek está sendo o menos exigente dos que já fiz. A caminhada hoje rendeu apenas 10 km. Bastou chegarmos em Tshochung Chung, local de nosso acampamento, começa a chover. Refugio-me na barraca-cozinha onde Dorji Cook preparou uma panelona de masala tea mais pipocas com sabor pimenta. Tudo de bom!! Às 17 horas, eu meio que dormitando dentro da barraca, escuto um barulhão de chuva. Abro o zíper da barraca e que chuva, nada....é granizo! Estoura no teto da barraca como se fosse pipoca dentro duma panela. Trovões retumbam. Durante 15 minutos cai granizo a granel. Daí pára e recomeça por mais 15 minutos. Outro barulho ao redor da barraca desvia minha atenção da magnífica tempestade. Ponho com cautela a cabeça pra fora e vejo Thukten martelando os espeques pra melhor firmá-los. Enternecedora essa preocupação com meu conforto. Coisa mais querida esses butaneses! O granizo continua a cair intermitentemente até as 19 horas. Cessada a borrasca, Dorji Horse junta lenha e faz a já tradicional fogueira de final de tarde. A janta é arroz vermelho, verdura, abóbora e ovos mexidos. De sobremesa, pera na calda quente. Fico incomodada porque Pema não janta comigo, só me faz companhia, deixando pra jantar mais tarde com o staff. Volto pra barraca e termino a leitura dum conto da excelente Alice Munro. Após uma estiagem de 2 horas, retorna a chover. Sou embalada no meu sono pelo rumorejar do rio e pelo toc toc dos pingos da chuva no teto da barraca. Música pros meus ouvidos e das boas!

sábado, 19 de abril de 2014

Mundo Encantado dos Rododendros

Acordo cedo pra caramba na expectativa do tão cobiçado trek cujo atrativo máximo serão banhos relaxantes (suponho eu) em piscinas térmicas no 4º dia da pernada. Ao partir do resort distribuo tashi delek e kadencha aos amáveis serviçais (quando em viagem, no estrangeiro, faço questão de aprender o que considero as palavrinhas mágicas no idioma do país onde estou: obrigada, bom dia, boa tarde, boa noite e tudo de bom). Às 9 e 20 da manhã, já no centrinho de Jakar, espero Pema que foi comprar um sortimento de dhoma para mastigar durante a caminhada. Após rodar de carro por uns 30 minutos, chegamos a vila de Dur de onde iniciará a pernada. Pema estaciona o carro e nos dirigimos a uma stupa, próxima à margem direita do rio Chamkhar Chu, ponto de encontro com o resto do staff. Não dá 5 minutos, vejo 2 jovens se aproximando. Pema nos apresenta. O alto e de boa aparência é Dorji, o cozinheiro, com 25 anos; o outro, franzino e baixinho, nem aparentando os 29 anos, é seu assistente, Thukten. Até bem pouco tempo, os dois eram internos num monastério da província de Trashigang. Devido às restrições, em especial, as sexuais (como os padres católicos, os monges budistas igualmente não podem casar ou ter relações sexuais), abandonaram os estudos e adotaram a vida laica. Quase nada falam de inglês porque nas escolas budistas não ensinam este idioma. Pema, super atencioso, trouxe um cinto, emprestado por um amigo, para eu firmar na cintura a calça. Devido a um defeito no fecho, a droga da vestimenta escorrega perigosamente cintura abaixo. Vez por outra o sol dá pinta, contudo não consegue se impor diante do céu bastante enevoado. Temperatura agradável com uma brisa amena que agita delicadamente as folhas das árvores. Marcado o início da caminhada pras 10 horas, já são 11 horas e nada do arriero. Pema, que se comunica com o homem por celular, fica sabendo do motivo da demora: os cavalos fugiram do local onde haviam sido colocados ontem à noite. Nenhum deles aparenta ansiedade ou irritação, porém volta e meia, Dorji ou Thukten falam ao celular com o arriero para saber se ele já está a caminho. Vantagens de ser budista. Encosto-me na stupa e até tiro um cochilo. Também eu estou numa vibe tranquila, por incrível que pareça, considerando meu temperamento nada paciencioso. Lá pelas tantas, já meio entediada, presto atenção num homem que está subindo num poste para fixar cabos de alta tensão. Um pouco acima da base os postes têm ao seu redor arame farpado e o homem passa por essa proteção com muito cuidado já que está descalço! Percebo que o coitado meio que se contrai quando, inadvertidamente, pisa numa das pontas do aramado. Só quando começa a atarraxar a braçadeira que suportará o pesado fio é que se prende com um mosquetão ao poste. Os outros três que o acompanham apenas se limitam a lançar pra ele a tal braçadeira. No mais ficam sentados no chão esperando que o escalador desça pra seguirem até o próximo poste. Finalmente, o arriero, cujo nome também é Dorji, chega...aleluia!! Às 12 horas, depois de toda a carga arrumada sobre os lombos dos cavalos, em número de 8, partimos. Paramos ½ hora depois para almoçar. Arroz vermelho, cogumelos, uma verdura tipo acelga e galinha. Maçã de sobremesa que Thukten descasca e corta em fatias. Vou acabar mal acostumada com tanta mordomia! Dorji Cook assim chamado para se diferenciar de Dorji Horse, o arriero, segundo Pema, é um grande piadista. Noto que Pema se delicia na companhia tanto do cozinheiro quanto do baixinho. Fico alucinada quando vejo o mundareu de rododendros vermelhos que enfeitam os bosques de coníferas. As agulhas dos pinheiros colorem de ferrugem o solo. Tão linda esta trilha! Decorridos 5 km, praticamente planos, marginando o rio Chamkhar Chu, inicia um ascenso de não mais que 1 km seguido dum curto trecho quase plano. Decorridas 4 horas de caminhada, passadas as 16, paramos numa clareira onde os rapazes assentam o acampamento. Uma barbada este primeiro dia. Agora, final de tarde, começa a esfriar. O céu encontra-se quase todo coberto de nuvens cinzas, salvo um pequeno rasgo de azul ao norte. Embora estejamos a 3.100 metros o que tem de mosca é impressionante. Mal entro na barraca, para trocar a roupa por outra mais quente, começa a chover forte por uns 20 minutos, seguida duma breve estiada para então recomeçar de novo. Fico ali então bem aconchegada dentro de meu saco de dormir revendo na câmera as fotos que tirei durante o dia. Tenho como trilha sonora o agradável tilintar dos cincerros dos cavalos e o tamborilar da chuva no teto da tenda. Thukten serve o lanche na barraca por causa da chuva. Arroz torrado e biscoitos com chá e leite. Apesar da persistente garoa que substituiu a chuvarada, Dorji Horse faz uma linda fogueira. Os homens, postados ao seu redor, viram-se vez por outra a fim de aquecer as costas. Após a janta, também usufruo da fogueira, já que a chuva parou. Olho pra cima, como de hábito, quando escurece, e vejo no céu estrelas. Trovões não muito distantes anunciam mais chuva. Quando sinto os primeiros pingos, me mando pra barraca enquanto os homens permanecem ao redor do fogo. Não dão a mínima bola pra chuva esses butaneses. Adormeço em meio ao animado conversê e às risadas dos quatro.