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sexta-feira, 20 de abril de 2007

Poemeto

O que posso dizer desta cidade onde a aura de Neruda vagueia pelas ladeiras do cerro Bella Vista

O que posso dizer desta cidade onde o cheiro de maresia denuncia o porto ancorado no Pacífico

O que posso dizer desta cidade onde os marinheiros, após meses no mar, escolhem-na para seu hogar

O que posso dizer desta cidade que se insinua entre as colinas e se oferece aos pés do oceano

O que posso dizer desta cidade onde as gaivotas domesticadas pousam fotogenicamente diante das câmeras dos turistas

O que posso dizer desta cidade de casinhotas decrépitas e de espigões abastados elevando-se mais alto que seus cerros

O que posso dizer desta cidade que me indicou a rota certa por onde andar e me furtou a visão

O que posso dizer desta cidade de gentis moradores e impiedosos ladrões

O que posso dizer desta cidade, misto de Alfama, Santa Tereza e Boca

O que posso dizer desta cidade e de seus colossais guindastes, tais tentáculos de polvo, empilhando enormes containers uns sobre os outros no cais

O que posso dizer desta cidade e de seus coloridos e impacientes ônibus trafegando velozes através das ruas

O que mais posso dizer que já não foi dito e sussurrado pelos amantes indóceis se esfregando tesudos à beira mar

O que posso dizer desta cidade e de seus velhos bebuns de faces inchadas escutando boleros em decadentes botecos

O que mais posso dizer contra ti

O que mais posso dizer a teu favor

Um mistério a beira-mar? um calor tropical à tarde? um friozinho andino à noite?

Sei lá o que és, Valparaíso, talvez por isso tenhas sido a morada do poeta.

Valparaíso?

Sexta-feira, decido conhecer Valparaíso já que é perto de Santiago, e também influenciada por aquela aura que a cerca devido a Neruda. Resolvo não pegar condução até a rodoviária, conhecida como Terminal Santiago e vou caminhando pela Alameda. Durante o trajeto dou várias paradinhas para as inevitáveis sessões de fotos e filmagens porque ora atrai meu interesse a avenida Brasil em cujo canteiro central estão plantadas várias palmeiras, (homenagem ao meu país?!), noutra chama-me a atenção a vitrine de uma padaria exibindo bolos e pães variados a que não consigo resistir.... ponho-me a filmar. Um pouco antes do Terminal Santiago, a linda estrutura de ferro da Estación Central de Ferrocariles atrai minha atenção: mais fotos....evidentemente! A pernada até que não foi longa, justo uma hora, e já estou eu no guichê comprando passagem. O trajeto até Valparaíso é curto, o ônibus sai às 10:50 e chega às 12:40. Quando o ônibus está entrando nos arrabaldes da cidade, já não gosto muito do que vejo, acho tudo muito feio, casinhas penduradas nas encostas dos morros, lixo jogado nas calçadas, enfim, aqueles indícios de desleixo típicos da pobreza. No terminal rodoviário, há um eficiente serviço de atendimento ao turista, a recepcionista, gentil, oferece-me mapas e sugere alguns roteiros, além de orientações sobre os ônibus que devo pegar para ir a esse ou àquele lugar. Até então eu não havia ainda me sentido na América do Sul, porque as cidades de Puerto Natales e Punta Arenas são muito europeizadas assim como os bairros de Santiago por onde tenho passeado. Só agora, acá, em Valparaíso, bate aquela sensação de pertencer a algo familiar! Minha cabeça e alma insistem em permanecer naquela beleza das Torres del Paine e toda esta confusão de trânsito e pessoas caminhando apressadas me perturba, sei lá, imaginara outra coisa a respeito da cidade e o que vejo? Uma cidade pendurada e esparramada sobre colinas que desmaiam no mar. Se bonita? Bueno, se casario pobre o é, então paro por aqui. A impressão inicial que tenho de Valparaíso é a de uma grande favela....tal qual uma Rocinha....pero chilena! A balbúrdia nas ruas, os velhos ônibus coloridos, aquele ar de casa bagunçada, de cozinha sempre com louça suja na pia e mosca pousando na bandeja de frutas, isto é Valparaíso. E o Pacífico a espreitá-la. Ah, centenas de gaivotas, pacíficas gaivotas oferecem-se, domesticadas, às lentes dos turistas. Almoço no "Caleta Portales" (quem me indicou este restaurante foi um marinheiro chileno, simpatíssimo, com quem conversei durante o vôo Punta Arenas a Santiago). Por sugestão do chef, vem uma amostra de frutos do mar e pescados: locos, machas (pra mim o melhor dos moluscos que comi, a carne, delicada e rosada, pra lá de suculenta!), picorocos, ostiones, camarão, siri, ceviche de salmão e reineta. No Caleta, como o melhor postre de toda a viagem, uma torta de merengue com lúcuma, muito boa! O restaurante, com enormes janelões dando para a praia, é decorado ao estilo de um antigo galeão espanhol, velas amarradas, escadas de corda, roldanas, amuretas, dois tubarões e uma sereia pendurados no teto. O sol cintila no Pacífico e empresta uma coloração prateada às suas águas; na areia, gaivotas andam de lá pra cá enquanto outras levantam vôo alinhando-se geometricamente num desenho que lembra um bumerangue. Do restaurante, pego um ônibus e vou ao bairro onde há a casa de Neruda. Já na calçada vejo trocentos ônibus estacionados em frente, dou uma espiada no jardim e nem sigo adiante, saio de lá e desço a avenida Alemanha, filmando loucamente as casas e as vielas tortuosas. Chego numa praça onde uns jovens, deslizando habilmente sobre skates, lembram meu filho. Sigo pela Pedro Montt já em direção ao terminal rodoviário, mais filmagem, desta vez, banquinhas de camelô dispostas rentes ao meio fio atraem minha curiosidade. Bem disposta, atravesso a rua e vejo-me noutra praça onde paro pra filmar bicicletas enfeitadas com carinhas daqueles bicharocos da disney (pato donald e cia). Saco a digital do bolso do blusão e fico mais encantada ainda quando vejo duas criancinhas conduzindo velozes os tais velocípedes. O dia já apresenta aquele lusco fusco do entardecer, o ruído do tráfego, incessante, desta vez não atrapalha meu momento videomaker, aperto o botão da máquina e começo a registrar a cena quando, súbita e abruptamente, a máquina é retirada de minhas mãos por um sujeito que vem de trás. Rápido, ele segue em frente, sem disparar, apenas apressa o passo (ele nem se dignou em correr, o desgraçado insolente!), berro "pega ladrón", aí sim, ele desanda a correr por entre os transeuntes que nada fazem, ou porque não entendem o meu tosco espanhol ou porque estão pouco se lixando com o furto de que sou vítima (o egoísmo do ser humano é tão repulsivo, arrrghhh!). Reajo e corro para, logo, perceber a inutilidade de meu esforço. Num misto de resignação e ódio - ai que rrrraiva! - retorno até a ponta da praça onde estava há poucos minutos toda feliz. Fazer o quê? Regresso a Santiago e, durante a viagem, fantasio que o rapaz é um excêntrico artista, curioso em conhecer a visão que uma turista tem de sua cidade, daí furtar minha câmera; ou então, um fotógrafo em crise criativa apoderando-se das imagens alheias....ai, meu deus, vê se pode, eu sem minha câmera e ainda tecendo estorinhas com o tal ladrão! Apesar da ira e do desconsolo, não posso deixar de reconhecer a maneira elegante, quase um balé, como o sujeito, por trás de mim, pôs-se na ponta dos pés, estendeu o comprido braço sobre um de meus ombros e, com sua longa mão, apoderou-se da câmera, assim....fácil, fácil, como se tirasse doce de uma criancinha!!