domingo, 13 de junho de 2010

Morro do Facão

Depois de quase dois meses sem ir a Praia Grande, me mando pra lá feliz da vida. Adoro essa cidade. Foi paixão à primeira vista e agora virou devoção visitá-la amiúde. Foi assim que comecei a prestar atenção num morro situado um pouco além dos limites da pacata cidadezinha. Nem tanto pela altura, mas por seu formato piramidal, que se destaca entre as tantas elevações arredondadas da região. No início do ano, quando subi o morro do Cavalinho, mais uma vez o avistei. Perguntei a Kaloca seu nome. “Facão, Bea, e aquela crista que se prolonga a partir do cume forma o cabo”. Pra mim, não parece nadica de nada com uma faca. Engraçada essa mania de se atribuir às rochas e montanhas formatos similares aos de seres inanimados. Há alguns tipos de relevo que fazem, realmente, jus ao formato do objeto a que foram associados, porém há outros em que é necessária muita boa vontade pra identificar algo. Eu mesma me pego assim agindo. Não à-toa, apelidei um morro, atrás da Pedra Branca, de morro da Mitra porque lembra aquele chapéu que enfeita os cocurutos dos prelados católicos e anglicanos. Como o inverno está chegando e não apetece nem um pouco fazer canionismo, sou obrigada a inventar outras formas de indiadas. Combinamos, então eu e Kaloca, uma incursão ao morro do Facão. E pra lá nos tocamos. Ao contrário de sábado, quando rajadas fortes de vento e céu nublado dominaram a paisagem enquanto fazíamos rapel, na via do Urubu Rei, parede norte da Pedra Branca, hoje, domingão solarengo, somos brindados com um céu límpido e temperatura mais elevada. Quebramos à direita, e entramos numa estradinha vicinal àquela que leva à da Pedra Branca. A trilha inicia na parede norte do canyon Itaimbezinho onde o Facão se localiza. Dessa forma, é possível visualizar o início desta parede de onde se espraiam várias gargantas no sentido oeste-leste: Via dos Monitores, rente ao morro dos Cabritos, seguida pela via Proibida, cuja vizinha se chama Garganta Verde. Já desci as entranhas destas três, rapelando suas magníficas cachus. Há mais gargantas desembocando no espinhaço central do Itaimbezinho, já que sua área de entorno se apresenta drenada por pequenos córregos, responsáveis, em parte, pelo trabalho de erosão em ambas as paredes deste magnífico perau. Inicialmente, percorremos uma subidinha íngreme ao longo dum pasto que permite visualizar a paisagem sem o estorvo da vegetação cerrada da mata atlântica. Pouca demora, desembocamos num bosque cerrado que esconde a "finalera" do horizonte. Graças a deus, a quantidade dos insidiosos e irritantes bambuzinhos é de pouca monta. Ultrapassado o bosque, após trinta minutos de pernada, entramos em campo aberto, e a subida torna-se mais áspera. Um escalão de rochas exige uma certa escalaminhada, nada complicada, entretanto. E daí pra frente, o terreno, coberto de pequenos arbustos e pedras ocultas pela espessa vegetação, dificulta um pouco a subida até o topo do Facão. A paisagem de cima deste morro é a mais soberba de todas as que conheço em Praia Grande. Embora menos alto que o Barbacuá e o Cavalinho, bate de longe estes dois picos. Só a visão que se tem duma curva em forma de cotovelo do canyon Itaimbezinho, em frente ao morro da Mamica, já vale o esforço da pernada. Admiro a precisão trapezoidal da face sul do morro dos Cabritos. A natureza é tão surpreendente: este morro, quando se sobe a serra do Faxinal, exibe forma diversa, arredondada, comum à maioria das elevações. À leste, tonalidades diversas de verdes formam um mosaico de plantações: banana, mandioca, milho, fumo e cana de açúcar. E a fina língua serpenteante do rio Mampituba traça um divisor natural entre a comunidade gaúcha Mãe dos Homens e a vila catarinense Santa Luzia com suas casinhas que parecem tão minúsculas vistas aqui do alto. Ao norte, Praia Grande e a lagoa do Sombrio, enquanto ao sul, o exuberante paredão da Pedra Branca destaca-se entre o cerro da Corcova e o morro da Mitra. Descemos e, já no pastinho, encontramos uma bergamoteira. Sentados na grama, chupamos, eu e Kaloca, os adocicados e suculentos bagos das pequenas frutas, cultivadas, coisa boa, com o saudável e bom adubo natural da bosta de vaca, sob o sol dum quase inverno que, já já, mostrará suas garras friorentas. Não gosto dessa estação apesar de morar no extremo sul do Brasil. E sabe por quê? Quem gosta de frio é pinguim, uai!
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domingo, 6 de junho de 2010

Cidades Históricas: Santa Bárbara e Catas Altas

Meu interesse por Minas vem de priscas eras. Tudo começou quando, meninota, li Minha Vida de Menina, escrito pela mineira Helena Morley, livro que volta e meia releio embora já seja burra velha. Nascida em Diamantina, ela, a conselho de sua vó, registrou seu dia a dia de adolescente durante 2 anos. Os deliciosos relatos dessa guria, nascida no final do século XIX, encantaram os anos nem tão dourados assim de minha adolescência. Sonhava em visitar os lugares que descrevia com tanta vivacidade e riqueza de detalhes. Infelizmente, não é dessa vez que vou conhecê-los. Tem importância, não. Mais um motivo pra aqui retornar. E como estou em Santa Bárbara, tenho mais é que aproveitar o que a cidade me oferece. Dou um rolê até o centro histórico onde, ainda, restam exemplares de belos casarios construídos na época em que o país era uma grande colônia, e põe grande nisso, de Portugal. O atrativo principal da cidade concentra-se no assim chamado Quadrado, que de quadrado não tem nada, pois se trata duma avenida que termina na antiga cadeia, postada, ironicamente, (?) ao lado da Igreja Matriz de Santo Antonio. De estilo barroco, em seu interior, abundam aqueles ornamentos dourados tão ao gosto da igreja católica. Um belo afresco, pintado por mestre Athayde, enfeita o teto da capela-mor. Enfim, sem ser, exageradamente, luxuosa, como tantas outras existentes no estado, exibe certa pompa discreta. Mais acima, no meio da avenida, destaca-se uma modesta igreja: Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Vista de frente lembra a proa duma escuna. A cidade tem como fonte principal de renda a extração de ferro e ouro por grandes companhias de mineração. Afinal, Portugal não logrou esgotar a abundância de metal precioso abrigado em nosso subsolo, pois, pois! Atrás da cadeia, uma imponente ponte de ferro, cujo piso foi construído com grandes dormentes de madeira, cruza o rio Santa Bárbara. O dia tá lindo, temperatura amena, dançando no céu aqui e acolá, fiapos de nuvens que não conseguem embaçar o visual da serra do Caraça que se avista ao longe. Pra variar o dia da partida é sempre de bom tempo...droga!! Uma visita obrigatória impõe-se: conhecer a residência onde nasceu Afonso Pena. Seus restos mortais, após uma briga judicial entre a municipalidade de Santa Bárbara e o cemitério São João Baptista, no Rio de Janeiro, descansam, enfim, no jardim da casa onde nasceu, num belo jazigo de mármore branco, onde a República, representada por uma figura feminina, pranteia, ajoelhada sobre a lápide, a perda de tão ilustre homem público. Na volta, entro num boteco onde alguns homens bebericam cerveja e jogam conversa fora. Não resisto à vitrine dos tira-gostos e peço uma empadinha de galinha. Mas as aparências enganam. O quitute é um tanto quanto insosso. Antes de deixarmos a cidade, vamos às compras. Não de suvenires, e sim, de gêneros alimentícios pois pretendemos, quando chegar em BH, fazer uma janta de despedida. Enquanto eu e Lili vamos até o açougue comprar a lingüiça que, ontem, comêramos no Caraça, Marcelo e Vânia entram numa quitanda pra comprar tomates, cebolas e demais condimentos a serem usados no arroz com lingüiça, o prato escolhido. Já a caminho de BH, entramos em Catas Altas que, também, se localiza na Estrada Real. Encantadora, a cidadezinha, bem menor e mais pitoresca que Santa Bárbara exibe um casario colonial com muros de taipa. No largo, o prédio colonial branco e azul da matriz de Nossa Senhora da Conceição tem a sua frente o pico de Catas Altas, uma extensão do maciço do Caraça. Escolhemos o restaurante Histórias, uma casa restaurada mantendo, entretanto, intacta, suas antigas feições. Um aprazível jardim com mesas e cadeiras onde se pode comer ao ar livre. O dono, simpático e gentil, vem pessoalmente nos atender. Provo então outro quitute mineiro: pastel de angu, que vem a ser massa de polenta frita recheada ou com carne ou com galinha desfiada. Oh, meu deus, se fico mais tempo em Minas, vou sair rolando de tão gorda tais as delícias culinárias que esta terra produz! Os 112 km da BR 381 que vencêramos na ida em 1 hora e 20 minutos, alongam-se por mais 2 horas em razão de intenso e congestionado trânsito. A ponto de Marcelo desligar o carro. Em compensação, o pôr do sol está uma beleza. Já na casa de Marcelo, todos nós na cozinha ajudamos no preparo da janta. Após o suculento arroz com lingüiça preparado por Lili, secundado por berinjelas ao alho feitas por Marcelo, levamos Lili até a rodoviária. Ela vai a Montes Claros visitar filha e netos. E eu tenho uma breve visão do centro de BH. Não me interessam muito essas grandes cidades. Meu coração fica sempre lá, aninhado nas matas, nos cerrados, nos campos e nas savanas, preservados ainda da deletéria sanha de urbanização perpetrada em prol do desenvolvimento.
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sábado, 5 de junho de 2010

Parque do Caraça - Pico do Inficionado

Sabadão amanhece legal em Santa Bárbara. Após o delicioso café no hotel, regado a pãezinhos de queijo e de minuto, rosquinhas de côco, pasteizinhos de queijo e bolo de fubá, lá vamos nós, outra vez, rumo ao Parque do Caraça. Entre esparsas nuvens inofensivas, o sol brilha firmão no céu. O bom Toninho já nos espera em frente à lanchonete. Junta-se a nós um outro Marcelo, que descubro já ter feito canionismo no Malacara há alguns anos atrás. Portanto, deve ser bom de perna. Rumamos em direção a leste, percorrendo, inicialmente, um pequeno trecho de mata atlântica, que nos conduzirá hoje ao topo do Inficionado, o segundo mais alto do parque. Cruzamos um córrego de águas amareladas, cujas pedras dispostas naturalmente duma margem a outra, formam uma ponte, evitando, assim, que molhemos os pés na travessia. A trilha, bem demarcada, de areia branquinha, agora rasga os campos sujos, onde predominam gramíneas e arbustos de pequeno porte. Raras flores, entretanto, ao longo do trajeto. À esquerda, após um 1 km de pernada, o córrego Cascatinha, serpenteando encosta abaixo da serra, escavou 4 largos degraus, formando a queda d’água de mesmo nome. No final de cada degrau, convidativos poços atraem banhistas prum mergulho refrescante em época de calor. Nessa fase do ano, contudo, não apetece niente. Só os muito valentes ousariam banhar-se em suas águas, o que não é o caso de nenhum de nós. Um pouco mais adiante, eis o famoso Caraça separado do Pico do Inficionado pelo vale da Bocaina. Não percebo lá muita semelhança com feições humanas no tal morro. É preciso certa boa vontade e, pior, torcer o pescoço num ângulo não lá muito confortável, de modo a poder distinguir alguma coisa. Atrás do Caraça, invisível aos nossos olhos, localiza-se o pico do Sol, o mais alto do parque, com 2.072 m. No final da crista do Inficionado, avista-se um morrete, cujo sugestivo nome Verruguinha deve-se a sua pouca altura se comparado com os outros ao redor. Após uma hora e quinze minutos, fazemos uma parada às margens dum riacho, tributário do rio Caraça, cujo nascedouro brota no Inficionado. A presença de candeias, vegetação de borda de mata atlântica, é um indício de transição pro cerrado. Até então a trilha tem sido moleza. Mais plana impossível. Não demora muito o que era doce acaba, porque nos aguarda uma subida íngreme pra dedéu, daquelas que amanhã, com certeza, deixará coxas e panturrilhas latindo de dor. A rude encosta, revestida por rochas de bom tamanho, faz jus à alcunha de Escadão. O tal trepa pedra só finda no primeiro platô. E o tempo inicia uma brusca mudança de feição: nuvens surgem como num passe de mágica, obnubilando o até então azulado céu, ao passo que o declínio acentuado da temperatura obriga-nos a retirar agasalhos das mochilas. Conforme ganhamos altura, as árvores já começam a exibir aquela casca grossa e rachada, típica de vegetação de cerrado. Amiúdam-se as canelas de emas em cujas folhas despontam tardias florações violáceas. Pequenas florzinhas, além de delicadas orquídeas de cor fúcsia, bromélias e as indefectíveis quaresmeiras brotam nestes campos rupestres. Toninho observa que, num total de 9 km de trilha, apenas 4 km são de subida. Triste consolo! Contudo, o aclive suaviza-se até o segundo platô embora a neblina se adense mais e mais quando o atingimos. Chamado de Paraíso I, nas palavras de Toninho, este local torna-se um jardim do éden, repleto de flores em certa época do ano. Muitos córregos deslizam seus filetes d’água por entre o pedrario. Pergunto quais os nomes dos riachos. Toninho responde que “ainda não foram batizados, não”, num tom levemente zombeteiro. Sei que minha insaciável curiosidade me torna bem “mala” às vezes. Mereço mesmo a resposta gozadora do bom Toninho, hehe. Uma chuva fininha cai de mansinho e o frio começa a pegar às ganhas. Ao chegarmos ao terceiro platô, chamado Paraíso II, a cerração apodera-se totalmente da paisagem. Não se vislumbra nadica de nada num raio de 20 m. Muitas touceiras de bambuzinhos, um tanto quanto semelhantes aos rabos de onça existentes no Parque do Itatiaia. Também pudera, nada mais natural em se tratando de campos de altitude que a vegetação se repita tanto lá quanto aqui. E a trilha, uma subida agora suave, se faz sobre largas extensões de lajes que se prolongam até o topo. O vento ruge, açoitando o ar. Quase me desequilibro em dois momentos, tamanha a força de suas rajadas. Toninho observa que, em 33 anos de guiada, nunca testemunhou coisa igual. Por óbvio, a vegetação torna-se rala quando chegamos ao cume do Inficionado às 12:45. Até que nem demoramos muito, considerando que iniciamos a trilha às 8:30. Nosso grupo tem uma boa pegada, ah, isso tem! Se não fosse o vento, obstaculizando um pouco a caminhada, eu diria que alcançar o cume do Inficionado teria sido moleza, porque após o Escadão a aclividade suaviza-se bastante. A baixa sensação térmica, fortalecida pelo vento que zune ao redor impede que lanchemos ao ar livre. Pero o bom Toninho nos conduz até uma pequena gruta onde os guias costumam pousar quando trazem clientes que pernoitam no cume. E lá dentro, trocamos lanches uns com os outros. Nossos ânimos, ao contrário do mau tempo, estão em alta. Ao lado da gruta, mal se visualiza a bocarra duma das gretas que compõem a caverna do Centenário. Atípica, essa caverna não possui uma entrada principal. Trata-se, na verdade, dum complexo de fendas que se interligam. Sua extensão de 4,5 km, atinge, em certos trechos, uma profundidade de até 405 m. Por isso, é considerado o maior abismo de quartzito do planeta. Revigorados, após enchermos nossas pancinhas, vamos então tirar as clássicas fotos no topo do Inficionado, cuja altitude de 2.068 m só perde pra do Pico do Sol. O vento cada vez mais forte nos açoita sem piedade, não nos permitindo ficar muito tempo ali. Até porque nem podemos apreciar nada da paisagem ao redor. Uma pena, realmente!! E assim, retomamos logo, logo a caminhada de retorno. Só quando atingimos o Escadão, o vento não se faz mais sentir. Já aquecida, tiro meu agasalho de fleece quando atinjo as terras baixas. Terminamos o passeio na lanchonete, bebericando a deliciosa cachacinha do Caraça. E peço o pão com lingüiça que, na véspera aguçara minhas papilas gustativas, quando vira Monica comendo-o. Não me arrependo. É uma gulodice de respeito. O pão francês, estalando de novo, recheado com uma lingüiça feita de pernil de porco, frita na chapa, apresenta um leve sabor de vinho. E vontade não falta de repetir essa iguaria. Mas contenho minha gula, porque ainda pretendo jantar. Já em Santa Bárbara, Toninho dá um toque que tá rolando uma quermesse numa das praças da cidade. Mas bem capaz que vamos resistir a tal convite apesar do cansaço após tanta atividade física. E lá vamos nós, saltitantes e felizes, depois dum bom banho no hotel, pro local dos festejos. No largo, enfeitado de bandeirolas coloridas, banquinhas de comida oferecem torresminhos, caldinho de feijão, cocadas brancas e pretas, churrasquinhos, canjicas e outras comidinhas gostosas. Uma quadrilha prepara-se pra apresentação de seu show. As moças envergam vestidos rodados, cheios de babados, rendas e fitas; nos pés, sapatilhas caprichosamente bordadas com flores de cetim. Seus acompanhantes trajam ternos coloridos e chapéus de palhinha ornados com faixas coloridas ao redor da copa. Duas moçoilas, uma de vestido branco, outra de preto lideram a quadrilha. Animadíssimo, o grupo evolue ao som dum forró. Compro um churrasquinho de carne de porco, embebido num molho picante. Bom demais. Tudo regado com a boa bebida da terrinha: a cachaça. Dessa feita, adoçada com mel. De sobremesa, quer coisa melhor que uma bem mole cocada preta? Ah, essa comida mineira é de fazer a gente comer ajoelhada, mandando às favas as tais contagens de calorias!! No coreto, o locutor anuncia nossos nomes. É Santa Bárbara festejando seus turistas. Mas que coisa bem linda esse povo mineiro, uai!! Tô gamada por ti, Minas, pode crer!!
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sexta-feira, 4 de junho de 2010

Parque do Caraça - Picos da Canjerana e do Belvedere

Quer lugar melhor pra curtir o feriadão do corpo de Jesus Cristinho do que buscar uma região famosa por seu espírito religioso? Pois foi pra lá que fui: Minas Gerais. E dentre os muitos lugares existentes no estado, escolho o Parque do Caraça, abrigo do Santuário da Nossa Senhora da Mãe dos Homens cuja existência remonta à segunda metade do século XVIII, quando, ali, foi fundado um eremitério, visando ao fortalecimento da vida religiosa na então capitania. Posteriormente, padres lazaristas, pertencentes à Congregação da Missão, constroem um colégio, famoso pelo seu alto nível de ensino bem como na formação educacional de boa parte da elite do país. Funcionou até 1968 quando um incêndio destruiu boa parte de suas instalações. Posteriormente, a antiga dependência onde alunos e seminaristas cohabitaram foi transformada em hospedaria. Todas as construções, exceto a igreja em estilo neogótico, mantêm-se fiel à arquitetura colonial. Pintadas de branco com janelas e portadas em azul, destacam-se entre o verdor da farta vegetação que recobre as encostas dos morros. O parque é uma reserva particular do patrimônio nacional cuja área perfaz 11.233 ha. O lugar é especial de bom porque convivem dois importantes ecossistemas: mata atlântica e cerrado. Devido às suas características de zona de transição, a variegada flora e fauna existentes na região atraem não só pesquisadores nacionais como estrangeiros. A serra do Caraça nada mais é do que um contraforte da única cordilheira brasileira, a Espinhaço, cujo nascedouro ocorre em Ouro Branco/MG, estendendo seus mais de 2.000 km de vales e montanhas até o Ceará. Predominam rochas metamórficas do tipo quartzito. Pois é tudo isso que vou conhecer! Eeebaaa!! Chego a Belo Horizonte na manhã do dito cujo feriado. No aeroporto, já me esperando, Lili e Marcelo (meus companheiros na expedição ao Neblina, lembram?) mais Vânia, atual namorada do único guri do grupo. Ainda bem que se mistura a esse miniclube de luluzinhas uma boa dose de testosterona pra animar ambiente tão prevalecentemente feminino. Até parece que eu iria conviver só com gurias, bem capaz!! Viiivaaaa o machareeedoooo, mesmo que limitado a um singelo exemplar e, ainda por cima, comprometido!! Pegamos a movimentada BR 381, com Marcelo desafiando velozmente o seu traçado sinuoso. Chegamos a Santa Bárbara quase na finalera da tarde. Marcelo, um jovem velho, foi pro quarto descansar. Vânia com aquele afã e lealdade típicos de início de relação, seguiu-lhe os passos. Mas capaz que eu e Lili iríamos fazer o mesmo. Fomos bater perna por essa cidade histórica, pertencente ao circuito do ouro, situada no sopé da serra do Caraça. Por indicação da recepcionista do hotel, jantamos no Uai, restaurante cuja proprietária, Dª Gracinha, faz jus a tão apregoada hospitalidade mineira. A gentil senhora permite, inclusive, que levemos nosso vinho, caso jantemos lá no dia seguinte. E sem pagar rolha, tá ligado?!! No dia seguinte, vencidos os 24 km que nos separam do parque, conhecemos nosso guia, Toninho, já nos aguardando em frente ao Santuário. Durante a trilha, trato de acrescentar o bem merecido adjetivo bom ao seu nome e assim o Bom Toninho passa a ser tratado dali pra frente por todo o grupo. Pachorrento demais, naquele jeito mineiro de falar sem pressa alguma, se encaixa à perfeição no ditado mineiro “se me explicam devagar, entendo rápido”. Sugere uma trilha até os picos da Canjerana e do Belvedere, este um contraforte daquele. Ao nosso grupo, aderem Marcos e Mônica, um jovem casal paulista, super astral. Quando noto o evidente desembaraço do rapaz, manuseando com destreza a sua Nikkon, de modo a focar a lente bem próxima às flores, percebo que curte macrofotografia. Indago se é hobby ou profissão. Esclarece que é diretor de comerciais. Sua esposa, psicóloga, me conta que seu trabalho de conclusão de curso foi sobre as concepções formuladas por uma tribo de índios colombianos sobre as causas da doença mental. Que, esclarece, ela, não difere muito de nossos conceitos, excepto por um: a de que certos doidinhos são o que são porque os dominam maus espíritos. Bueno, pensando bem, o povo do candomblé e os espíritas também partilham dessa opinião, não é mesmo Mônica? A pernada tem início quando se ultrapassa o alto portão de ferro que separa o terreiro onde fica a Igreja da estradinha de pedras que conduz ao Tanque Grande. Uma placa indica que seu banho é desaconselhável. O Bom Toninho explica que a proibição decorre da diferença de temperaturas entre as águas da superfície, mais tépidas, e as mais profundas, bem mais frias. Sabem o que isso provoca, né que-ri-di-nhos? Cãimbritas nas pernuchas. Só quem tem muita sorte se safa de morrer afogado. No imenso lago, foi construída uma barragem, à época, considerada a segunda hidroelétrica de Minas. Cruzamos o córrego, adentrando uma mata atlântica. Em certos trechos, devido ao pouco trânsito de pessoas (é a trilha mais longa do parque com 24 km), apresenta um emaranhado de finos galhos espinhudos que se enroscam na roupa e nos cabelos. Fixados a um pedaço de tronco, caído no chão, lindos cogumelos alaranjados fazem com que eu estaque. Marcos segue meu exemplo e se põe também a fotografá-los. Os louquinhos por fotografia são muito engraçados. Rola, até, certa solidariedade entre nós. Eventualmente, um chama a atenção do outro pra alguma exótica espécie de planta ou bicho. Bueno, após uma travessia por uma mata de candeia, zona de transição entre a mata atlântica e o cerrado, entramos nos chamados campos de fora cuja vegetação é típica de campos de altitude, considerando que estamos a mais de 1.300 m acima do nível do mar. O solo até então avermelhado cede lugar a uma areia fininha, esbranquiçada. Do Santuário até aqui, já percorremos 6 km. No entorno, brotam dez cachus, algumas ainda inexploradas. Muito alecrim dourado, denuncia já a típica vegetação de cerrado. O dia nublado não permite avistar os picos da Canjerana, do Belvedere, do Capivari, da Trindade ou dos Três Irmãos, tampouco o da Conceição. Merrrdaaaa!!! E pra arrematar, o mal humorado São Pedro - acordou com o pé esquerdo, santinho? - borrifa na paisagem uma chuva fininha. Pra compensar o azedume do guardião do tempo, várias espécies de Melastomataceae, a popular quaresmeira, dão pinta em branco e rosa na trilha. Bambuzinhos mineiros que - reza a lenda - dizem uai, quando o vento vergasta seus caules finos, porém, vigorosos. E muito pepalanto, um tipo de sempre-viva, também encontrada no Parque do Itatiaia. As teias de aranhas, cobertas de gotículas d’ água, exibem formas geométricas que se assemelham a pedrinhas de brilhantes. É tudo tão fofo na natureza!! Se tu vier doente pra cá, podes crer, a abundância e variedade de plantas medicinais te cura no ato. E dê-lhe macegas de macela, arnica, arnicão e carqueja pra nenhum farmacêutico botar defeito. Aliás, a folha desta última apresenta três lados, num formato 3D trimoderno. À medida que ganhamos altura, surgem, rentes ao solo, minúsculas plantas carnívoras. Pra quem é leigo, mais parecem musgo avermelhado. Lá pelas tantas, ironia das ironias, considerando-se o santo lugar onde o parque se encrava, surge a tal da xoxota de freira, uma flor de coloração lilás. E as canelas de ema, despidas, infelizmente, de suas belas flores roxas, indicam que estamos agora trilhando campos rupestres. Um pequeno córrego de águas amareladas denuncia a existência de ferro, abundante na região. Begônias brancas e vermelhas balançam suas delicadas pétalas sob ação do ventão que ora sopra. Um campo florido de macela me surpreende com suas flores brancas. Só as conhecia amarelas. E mais macegas de arnica, estas floridas de lilás. Quanto mais alto subimos, ásperas e abruptas formações rochosas afloram, sucedendo-se umas as outras ao longo da trilha . Uma decepção o topo do Canjerana que alcançamos sem dificuldade alguma. Embora tenhamos partido duma altitude de 1.300 m e subido até 1.890 m, o ascenso é bem light. Digo decepção porque quando se atinge o cume do pico, me deparo com duas construções de cimento. Parecem uns bunkers, qualquer coisa de feios. E ainda por cima.... inacabados! Claro que o tempo não abre a guarda, continuando a se avistar coisa alguma daqui de cima. O nevoeiro não dá trégua mesmo! Pegamos então uma trilha que leva ao Belvedere, cruzando por um campo de ciganinhas, arbusto bem verdinho de onde brota uma delicada flor rosa. A crista que leva ao cume deste pico é bem mais legal. Formada por extensos lajedos rochosos exige um certo cuidado na pisada, considerando que se encontram molhados e resvaladiços em certos trechos. A vegetação escassa não revela mais que tufos de grama e moitinhas de bromélias. Afinal, além de estarmos pisando nos campos rupestres, a altitude aqui no topo do Belvedere é de 1.820 m. O vento sopra forte. Por isso, não nos resta outra alternativa a não ser empreender a descida, após breves minutos tentando contemplar, ou melhor, adivinhar a paisagem ao redor. Conforme baixamos, o céu desanuvia permitindo, finalmente, que se aviste o vale, sobressaindo na paisagem um pedaço de terra avermelhada desmatada, que vem a ser propriedade da Cia Vale do Rio Doce. Já próximos ao Santuário, embora ainda guarde resquícios de nuvens cobrindo seu topo, a face oeste do pico da Carapuça exibe-se em mínimos detalhes, distinguindo-se à sua direita, a curiosa formação rochosa de apelido Beiço do Diabo. Padre não resiste ao apelo do capeta, hehehe!! No sopé do Carapuça, a branca capelinha é um ponto minúsculo no meio da vegetação. Matando tempo enquanto esperamos a janta no restaurante do Santuário, sentamos ao ar livre em frente à lanchonete. Todos bebem um golpezito de cachaça. Afinal, o friozinho serrano já tá pegando nos ossos, uai!! Não resisto e provo um bolinho de milho recheado com queijo. De-li-ci-o-so. Um pitéu! A cantoria que vem da igreja anuncia que a missa das 18 está sendo celebrada. Muitos hóspedes preferem, entretanto, curtir o santo ofício, sentados em mesas dispostas no átrio, bebericando vinho. Será o do padre? Capaz, uai! Eu só tava brincando, sô!
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