segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Garganta do Marçal

Nada melhor pra se festejar a libertária data do 20 de setembro, quando se comemora a finalera dos 10 anos da briga separatista entre a província de São Pedro do Rio Grande do Sul e o governo imperial, do que se aventurar em um canionismo proibido. Kaloca e eu, integrantes dos Piratas dos Canyons, cujos símbolos são nada mais nada menos do que uma piqueta e um grampo P cruzados sob uma caveira, nos mandamos na bela manhã de segunda-feira, aproveitando que se encontra fechado, pro parque Aparados da Serra. Objetivo? Desbravar uma gargantinha tributária, localizada na parede norte do canyon Itaimbezinho. A primavera já se faz sentir nos campos de cima da serra: arbustos floridos de branco, flores lilases e vermelhas sophronitis cernua dão um toque vivaz à paisagem. Às 9 e 10, após uma hora e meia de pernada, penetra-se na garganta que se revela sensacional. Com pouca vegetação, praticamente sem água, os degraus formados pelas rochas são visíveis daqui de cima. Facílima sua travessia. Sem arbustos rasteiros e vara-mato a embaraçar nosso avanço, em uma hora de caminhada, já se avista o paredão sul do canyon Itaimbezinho, branquinho, coberto de líquenes, do lado de lá do rio do Boi. Após uma hora de descida, chega-se a um corredor, plano, cuja extensão de pouco mais de 100 m, se encontra bloqueado parcialmente por uma gigantesca rocha. Ao atingir a estreita passagem, a garganta que, até então exibia pouca claridade, porque suas paredes estreitas confinavam a luz, é invadida pela luminosidade, como se uma cortina se abrisse repentinamente! Enxerga-se, nos mínimos detalhes, a parede oposta do canyon, revelando um grande teto negro e um desmoronamento de terra cujo sulco claro destaca-se entre a vegetação que recobre as rochas. Ficamos ali observando e admirando tal cenário. É muiii-toooo lindo!!! E continuamos a caminhada que se faz sem maiores problemas porque as rochas se encontram bem secas. Após o portal, 4 rapéis são feitos, dois com ancoragem na pedra e dois com ancoragem em Kaloca. Não gosto muito deste tipo de ancoragem. Sinto-me insegura, prefiro quando a corda é ancorada em grampos ou chapeletas de metal. Mas enfim, o guia prefere assim: a um porque as cachus são pequenas (a maior tem apenas 15 m), e, a dois, pra não agredir o ambiente. Não consigo perceber o que meia dúzia de grampos pode danificar rochas. Tanto é verdade que as vias ferratas na Europa desmentem a sanha do politicamente correto, aplicado, com fervor religioso, no Brasil, nessa questão da preservação ambiental. E olha que eles tascam um monte de degraus de metal naquelas rochas do velho continente. Bueno, voltando ao que importa: essa garganta é um tesouro, é bacana demais! Há horas não curtia tanto um passeio. Parece um mundo paralelo! Às 14 horas, eis nós no corredor principal do Itaimbezinho, onde sentamos e devoramos nossos lanches. Meu sanduba, recheado com carne de porco desfiada, cenoura, alface e tomate, tá delicioso. De sobremesa - sim, trouxemos - trufas! Bem alimentados, terminamos a travessia em 3 horas, atravessando diversas vezes as secas margens do rio do Boi, devido a uma pequena estiagem na região. Nem vivendo 200 anos, dá pra conhecer todas as ravinas e canyons de Praia Grande!!
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domingo, 11 de setembro de 2011

Das servidões e outros recantos no sul de Floripa

O dia amanhece lindo, sem sinal - aleluia - de nuvens embaçando o céu de brigadeiro fortemente azulado. A temperatura amena convida ao pedal. Assim, terminado nosso café e após os devidos ajustes e manutenção nas bicis feitos por Jonathan e Dudu, o grupo se desloca até a beira-mar pra conhecer o rio da Madre, que nasce no município de Paulo Lopes e desemboca justo aqui na Guarda do Embaú. Cortando a praia em duas partes, o acesso ao mar só pode ser feito atravessando-se o rio ou a pé ou de canoa. Os mais aventureiros quando a maré está cheia se arriscam nadando, os mais cautelosos pegam carona em barcos empurrados a vara de bambu. A areia branquinha, o azulão do céu e o mar verde claro enchem de alegria meus olhos cansados do tom cinzento dos dias nublados. Barcos ancorados ao largo da praia e o bulício das assanhadas gaivotas que sobrevoam o mar a cata de peixes fazem do lugar um perfeito cartão postal, esperando ser fotografado até por quem é amador, meu caso. O famoso balneário, considerado um pico excelente à prática do surfe e eleito um dos mais lindos do Brasil, se encontra - aleluia - livre da muvuca do verão. A praia, deserta, exceto pela presença de nosso grupo e de alguns nativos que nos observam curiosos. Após as tradicionais fotos, seguimos por uma estradinha de areia clara que conduz à Pinheira. A manhã, perfeita, torna a pedalada até a praia do Sonho, uma delícia! A areia compactada da chuva que rolou nos últimos quatro dias mais a maré baixa tornam fácil o pedal à beira mar. Vez por outra cruzamos rasos riachos que terminam sua breve viagem no marzão verde da bela enseada da Pinheira. Mergulhando de cabeça n’água em busca de peixe pro seu desjejum, as gaivotas grasnam incessantemente. Nossa trilha sonora matinal! No final da praia do Sonho, saboreamos um lanche só com frutas: manga, banana, bergamota e melancia. Super saudável e refrescante. O traslado até Caieiras da Barra do Sul é feito em duas canoas. Assim, com o grupo dividido em dois, embarcamos nós e as bicis no Lobo do Mar. Singrando um mar calmo, navegamos ao largo da ilhota onde se assentam as ruínas daquilo que outrora foi a imponente Fortaleza Nossa Senhora da Conceição Araçatuba, construída no século XVIII, com o objetivo de proteger Floripa dos ataques dos inimigos da coroa portuguesa. Mais adiante, o farol de Naufragados, a praia mais meridional da ilha, aponta sua torre branquíssima em direção ao céu de anil. Após o desembarque em Caieiras, o pedal se faz no asfalto, salvo curtos trechos em paralelepípedo. Embora concentrada na direção da bici, consigo mesmo assim curtir o esplêndido cenário circundante: à esquerda, o mar de dentro reflete n’água os solarengos raios de luz; já à direita, o desfilar dos lindos casarios coloniais com suas claras fachadas coloridas. O céu, se isso é possível, parece mais azul do que há 2 horas atrás! E muito verde, muito verde rodeando toda essa belezura!! A sanha imobiliária que dominou e degradou quase todo o lado norte da ilha, infelizmente, já está lançando suas garras assanhadas em direção ao lado sudeste. Contudo, esta região onde nos encontramos, a sudoeste, conserva-se ainda, relativamente, bem preservada, o que considero um verdadeiro milagre! Quando estive aqui na década de 70, asfalto não havia, apenas uma estradinha de chão batido serpenteava ao largo de pequenas chácaras com seus encantadores quintais verdejantes. Uma parada na pracinha de Ribeirão da Ilha, onde sentamos à sombra, num banco de madeira. Em frente, a igrejinha matriz onde ao lado jaz um pequeno cemitério rodeado por um muro baixo pintado de azul. Mais adiante, uma capelinha branca e amarela. Ambas construções exibem em seus pórticos a data de sua construção: 1806. Dedicada ao cultivo das ostras, Ribeirão guarda forte influência açoriana na arquitetura de suas casas. Seus restaurantes, com vista pro pro mar de dentro, têm cardápios recheados de pratos feitos com estes moluscos. Após o almoço, um fartum de peixes e ostras, encaramos – pra baixar a digestão - mais 12 km de pedal até Campeche. Quando chegamos na beira da praia, a esfera branca da lua é um espetáculo à parte. Esquadrilhas de andorinhas cruzam o céu, num animado chilreio. Já no hotel, depois da dobradinha alongamento e banho, descanso bem escarrapachada na larga cama de casal, antes da janta. Afinal, foram 37 km de pedal. Nada mal pruma senhorinha que está aprendendo a pedalar na meia-idade!
O domingão me desperta com aquele kit climático de “só alegria”: céu azul e sol brilhante! Nosso grupo desfalcou-se sensivelmente porque o Roteiro da Baleia Franca terminou sábado. Assim, a maioria retornou às suas casas ontem à tarde mesmo. Exceto Sid e Thiago, que optam por não pedalar conosco, já que embarcam hoje à tardinha pra Sampa, resolvemos nós, os remanescentes Denis, Claudia, Marcelo, Lili mais eu, estender o pedal, de modo a conhecer outros trajetos no sul da ilha. Agregam-se ao nosso grupinho novas pessoas e, felizes da vida, animados que nem chinoca em dia de baile, saímos do hotel, no Campeche, rumo ao Morro das Pedras onde curtimos a bela paisagem. De lá subimos até o outeiro do Retiro de Fátima onde é possível avistar as praias da Armação, Matadeiro e Pântano do Sul. No verdoso mar, baleias a 100 m da costa, mal dão as caras, ou melhor, mal e mal mostram o dorso. Submersas com seus filhotes, o que será que estarão elas ensinando pra eles? Pode ser também que seja a hora da mamada, né? Entramos no parque da Lagoa do Peri, cujas margens se encontram alagadas devido às fortes chuvas dos últimos dias. Contornando uma de suas margens, logo penetramos na zona de restinga com sua vegetação típica de região litorânea. Percorrendo uma estradinha coberta daquela areia branquinha que chega a doer nos olhos, chegamos na Costa de Dentro. Daí sim a moleza do percurso até então plano acaba. Três aclives bem íngremes sucedidos por cascalhentos declives repletos de fundos e largos sulcos cavados pelas águas das chuvas me deixam bem apreensiva. Ré confessa, declaro: sou cagona pra descida, mesmo! Mas não dura muito o trecho perrenguento porque após uns 30 minutos, retornamos à moleza do terreno plano, alcançando a rua principal da comunidade da Costa de Dentro onde se comemora festa em homenagem à padroeira do lugarejo, Nossa Sª de Fátima. Da mesma cor da igrejinha, as bandeirolas azuis e brancas, que enfeitam a via, lançam nacos geométricos de sombra no chão de areia. A estradinha poeirenta da Costa de Dentro desemboca em Açores de onde, após um breve pit stop na praia, seguimos até o Pantano, onde almoçamos no Arantes. O tradicional restaurante tem como atrativo milhares de bilhetinhos pendurados de suas paredes e tetos, escritos em guardanapos pelos fregueses. Terminada a lauta refeição, um bufê com frutos do mar e peixes preparados de todos os modos imagináveis, seguimos até Armação. Do alto do morro, tem-se uma magnífica perspectiva dessa parte do litoral. Lá embaixo, próximos às pedras onde a arrebentação é mais forte, formando, portanto, boas ondas, um bando de surfistas, esticados nas pranchas, espera o momento adequado de pegar “aquela” onda. Outros lutam contra elas, voltando pra zona de arrebentação, e uns poucos, equilibrados nas aerodinâmicas tábuas de fibra de vidro, deslizam já em direção à praia. O clima só não foi perfeito porque um incessante vento sul não deu mole desde que saímos de Campeche. Somente quando embicamos pro norte, deixando Pantano pra trás, já de volta ao hotel em Campeche, nos safamos dele. A necessidade do uso da marcha leve fazia com que a bici desse a impressão de estar subindo ladeiras, quando as rajadas davam pinta, desequilibrando-a, momentaneamente. Saindo da Armação, optamos em não seguir pelo asfalto. Pegamos, assim, uma trilha à beira mar, cascalhenta pra caramba, até onde a praia permitiu, retornando, aleluia, ao asfalto. Num percurso de 37 km, chama a atenção as inúmeras servidões, um instituto jurídico já quase em extinção, porém aqui na ilha ainda uma constante. A maioria recebe nomes de pessoas como Joaquim José, Manoel Maria, José Maria e por aí afora, denunciando a origem portuguesa dos antigos proprietários dos terrenos por onde elas pedem passagem. Poucas as que escapam desse estilo personalista, exibindo, então, pitorescas alcunhas de Caminho das Dunas, 3 Estrelas, Dos Poetas e Sol e Mar. A caminho do centro, onde vou pegar meu carro que lá deixei numa garagem durante estes encantadores cinco dias, deixamos antes Lili e Marcelo no aeroporto. Aperto minha amiga nos braços, já com saudades de sua boa companhia. Desejando-me um bom trek, porque minha viagem não termina aqui, não, Lili Docinho voa rumo ao norte enquanto eu persigo agora o sul, direto e reto pros cânions de São José dos Ausentes. Mas isso é outra estória pra ser contada mas adelante...
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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Bijajica

Siriú, de todos os lugares que visitamos até agora, é o menor e o menos charmoso. Claro está que o tempo, só mostrando má feição desde 4ª feira, não coopera muito. Amanhecemos com a indefectível garoa que deixa o pequeno vilarejo mais cinzento e sem graça ainda. Por isso, a breve caminhada da pousada até a beira da praia, após o desjejum, percorrendo uma estradinha de areia clara, sulcada por poças d’água, não me arranca olhar algum de admiração. A não mais de 100 m do passeio de cimento, construído quase à beira-mar, avistamos novas baleias com seus filhotes. Pois não é que nosso grupo tem também um filhote? Esse filhote é uma criaturinha, medindo, ao contrário das baleias, ínfimos 80 cm. Mas é mais velho que todos os bebês baleias que nadam ao longo da costa catarinense!! Sim, Chicão já tem 2 anos e um andar ainda levemente trôpego, consequência de sua tenra idade. Garboso, empunha um mini-guarda-chuva. Quando se dá conta de que sua mamãe se distanciou um pouco dele, meio que choramingando, corre com aqueles passinhos curtos ao encalço dela. Envergando um capacete amarelo, o adorável mandinho, acomodado numa cadeirinha apropriadamente atarraxada na traseira da bici da mãe, causa sensação por onde passa. Vez por outra age como um pentelho, chorando e emitindo aqueles gritinhos agudos, que dá gana de cortar as cordas vocais de todos os infantes do planeta, porém seu lado parceiro o redime desses faniquitos. Junto com Dani, a mãe do piá, estão Camila e Tati. As três, além de amigas, são sócias numa agência paranaense, a Gondwana Brasil Ecoturismo. Mega especializada, entre seus diversos roteiros, oferece ainda tours para fotógrafos, sejam amadores ou profissionais. Entroso super bem com Dani, ainda mais quando fico sabendo que escala também. E vibro com seu convite, incitando-me a visitá-la em Curitiba pra fazermos o Marumbi. Ao sairmos de Siriú, há que se enfrentar um aclive de 1,5 km bem pesado. Eu, Sid e Thiago subimos a pé a tal lomba. Ainda não estamos com toda essa bola pra enfrentá-la no pedalito. Entre risadas, a breve pernada morro acima transcorreu super agradável, permitindo-me assim conhecer melhor esses dois paulistas, vegetarianos de carteirinha, trigente boa. E olha que no primeiro dia eu não tinha ido muito com a cara de Thiago, hehe. Reencontramos o restante dos colegas pedalantes mais o ônibus com o reboque das bicis nos esperando no topo da colina. A bela vista melhor se destacaria se tão nublado o dia não estivesse. Mesmo assim um encanto a lagoinha em forma de coração e, já despontando, ao norte, a praia da Pinheira e a ponta sul da ilha de Floripa. Mas como tudo que sobe desce, temos agora pela frente um belo declive. Percorrendo uma estrada enlameada pra caramba que só se torna plana um pouco antes do asfalto da BR 101, chegamos ao município de Paulo Lopes. A essa altura, todos estão respingadíssimos de lama. Quem teve a ingenuidade de usar camiseta branca não precisou de muito tempo pra perceber quão furada fora a escolha de tal cor, hehe. Pra alcançar o outro lado de Paulo Lopes, temos de atravessar a BR 101. Após 10 minutos de pedal, já fora do perímetro urbano, estamos percorrendo uma deliciosa estradinha ladeada de eucaliptos. Duas fortes subidas me obrigam a levar a bici na mão...arghhh!! Ainda tenho muito que treinar pra conseguir subir sem ter de carregar a magrela no manotaço! O pior, ao meu ver, são as descidas pedalando por uma estrada que se tornou mais esburacada ainda pela chuva que vem castigando o estado há 4 dias. Depois de pedalar uns 3 km, somos obrigados a dar meia-volta, volver. Tudo porque um trecho da estrada se encontra tão mas tão alagado que seríamos forçados a carregar as bicis na mão devido ao alto nível das águas. Do alto da colina a paisagem é desoladora: terrenos alagados a perder de vista. Retornamos ao centro urbano de Paulo Lopes, e, assim somos obrigados a enfrentar a BR 101, na contra-mão, pelo acostamento pra alcançar nosso próximo destino. Ao passar por nós, os tais caminhões cegonheiros com 25 m de comprimento deslocam o ar de tal modo que parecem aqueles ventos de rajada super fortes, desestabilizando as bicis momentaneamente. Instantes tensos esses 20 minutos de pedal na rodovia com os caminhoneiros buzinando sem parar. Eu apertei o fiofó, juro! Abandonando a BR (aleluia), dobramos à esquerda, numa estrada de chão batido, tudo para conhecer um engenho de farinha de mandioca, chamado Das 3 Irmãs, situado em 3 Barras, distrito de Palhoça. No interior da humilde casa de madeira, as irmãs Nascimento, Vilma, Inácia e Maura, tocam o negócio herdado dos pais. Da farinha da mandioca fazem e vendem bijus, cuscus e bijajica. Este último quitute vem a ser um bolo feito com farinha de mandioca e amendoim moído, assado em banho-maria. Numa grande mesa, café, suco de maracujá, bolo de banana e outros petiscos são postos a nossa disposição. E sem aviso, o barulhão de bátegas de chuva desaba forte sobre o telhado, fazendo cair por terra nosso plano de continuar pedalando até a Guarda do Embaú. É daquelas chuvas a fudê! Que merrrda!! Revolto-me. Não é possível!! São Pedro, definitivamente, está armando contra nós, porra!! Contudo nem bem terminado o lanche, a grossa pancada d’água, aleluia, pára, e o vento sul que mandara a chuva pro quinto dos infernos sopra em nosso desfavor, dificultando em muito a pedalada. Dureza pedalar contra o vento. Já nem sei o que é pior. Se o chuvisco que nos acompanhou durante quase 3 dias ou se essa ventania chatérrima. Sou obrigada a pôr marcha leve pra dirigir melhor a bici. Tamanha a força empregada no pedal que mais parece que estou a subir uma lomba, putz grila. Ainda bem que a estrada de chão batido, bem compactada, apresenta razoável estado de conservação. Após cruzarmos mais uma vez a BR 101, entramos na estrada que conduz à praia da Pinheira. E, aleluia, conseguimos, assim, escapar do vento sul, porque nosso destino agora é simbora leste. A estradinha que dá acesso às praias da Guarda do Embaú e da Pinheira é bem ruim pra quem pedala. Coberta de paralelepípedos, é mega trepidante atormentando tanto as genitálias masculinas quanto as femininas. E dale hipoglós quando se chega na pousada, pra curar bumbuns, pererecas, pintos e sacos assados, hehe. Afinal, hoje a pegada não foi tão leve assim: 35 km de puro chão batido, exceto o curto trecho de asfalto da BR 101. De banho tomado, Dani e eu resolvemos comprar vinho. Chicão, que não larga a mãe nem pra tossir, nos acompanha até a vila da Guarda onde há supermercado. Compramos 2 garrafas. E assim, entre goladas de vinho, o jantar transcorre super animado. Afinal, a essa altura, todo mundo já está bem entrosado e as brincadeiras são muitas. Quando estou indo pro quarto, a lua quase cheia, ainda meio embaçada por algumas nuvens, dá pinta no céu. E a pergunta que não quer calar se impõe: será que amanhã vai ter tempo bom?! Oxalá, assim seja, meu bom jesus cristinho! Por favor, pleaaaseeee!!!
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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Overdose de baleias!

O jantar da noite passada, preparado por Julio, um simpaticíssimo uruguaio de ojos azules, dono da pousada Rosa e Canela, foi de arrepiar. Trocentas mis calorias de gostosuras divididas entre pizzas de diversos sabores e canelones recheados com galinha e vegetais, sendo que todas as massas foram feitas pela muñeca de Rulito. De dezembro a março, o hermano retorna à sua terra e lá trabalha como salva-vidas. Ines e eu estamos considerando seriamente a possibilidade de passarmos um par de semanas na costa uruguaia quando o verão chegar. Pra compensar a feiosa manhã, um escândalo o desayuno! Um crocante pão integral, amassado por Rulito, e um fofo bolo de chocolate, batido pela sua incansável e prestativa auxiliar, nos aguardam entre vários outros petiscos na mesa do refeitório. Os guris do Caminhos do Sertão dêm-lhe a azeitar correias embarradas e a fazer pequenos reparos nas bicis antes de nossa partida. Finalmente às 10 desta manhã nublada e úmida, envoltos por um levíssimo chuvisco que insiste em dar o ar de sua sem gracice na atmosfera, botamos as bicis pra rodar. Ainda bem que de vento nem sinal...aleluia!! Assim, pedalando por uma estradinha calombenta, deixamos a praia do Rosa pra trás. A breve pedalada pelas ruazinhas de chão batido dessa famosa praia catarinense, point de descolados e surfistas, conduz a uma enseada com pouco mais de 500 m de extensão, belíssima se sol houvesse, conhecida como praia do Ouvidor. Cruzamos com surfistas que também não se deixam intimidar pelo mau tempo. Paramentados com os usuais macacões de neoprene pretos (por que roupa de surfista é sempre escura, não entendo; afinal, toda aquela atmosfera tão colorida que cerca esses esportistas não vingou em suas vestimentas, é?) e sobraçando suas, aí sim, bem coloridas pranchas, buscam o mar pra praticar seus rolês sobre as ondas. A breve pedalada ao longo do Ouvidor cessa ao atravessarmos uma porteira que franqueia acesso à propriedade da família Werlang, responsável pela criação do Gaia Village, projeto inspirado nas idéias modernésimas do ambientalista gaúcho José Lutzemberg. No espaço de mais de 500 ha, vem sendo implantado um louvável trabalho de assentamento humano sustentável que envolve parcerias com a comunidade local, organizações não-governamentais e governamentais. Um deles consiste em substituir por plantas nativas as exóticas casuarinas, pinus e eucaliptos, plantados na década de 70, a fim de conter o avanço das dunas. Somos acolhidos na sede social com um chá quentinho de alecrim. Um conforto poder bebericá-lo (todos têm suas roupas mais ou menos úmidas da incessante garoa), enquanto o coordenador do projeto, Dolizete Zilli, discorre sobre soluções de preservação ambiental. Bastam essencialmente boa vontade e solidariedade da comunidade. Algumas bem simples e outras nem tão dispendiosas como se poderia imaginar. Um exemplo? O transporte de antigas e abandonadas casas de madeira até o Gaia Village e sua restauração, de modo a servir não só de residência aos moradores do projeto como de memória histórica de variados estilos arquitetônicos. Encerrada a palestra, percebemos que a chuva, até então um chuvisco suportável, engrossou mesmo, fazendo com que a maioria dos ciclistas prefira ir de ônibus até Garopaba, salvo os destemidos Marcelo, Denis e Lili que resolvem enfrentar mais 12 km de estrada. O odômetro acusa um percurso de singelos 15 km de pedal. Tudo por causa desta merda de chuva que não tá permitindo grandes pedaladas!! Merrrdaaa!! Ao chegarmos em Garopaba, o grupo se divide. Alguns permanecem em terra firme ao passo que outros escolhem a navegação de avistagem das baleias. Claro está que sou uma das primeiras a aderir ao programa e embrulhados em vistosas roupas de borracha amarela, embarcamos na lancha que navega por uma hora e meia ao longo da costa de Garopaba e de Siriú onde avistamos diversas baleias e - a atração principal da tarde - um filhote dando cambalhotas pra fora d’água. Rememoro deliciosas curiosidades sobre estes colossos obtidas durante breve conversa com os biólogos do Projeto Baleia Franca. A mais apimentada é a “galante” postura do macho após o nascimento de seu herdeiro, se mandando, rapidamente, de volta à Antártida. Familiar esta atitude “solidária”, não é mesmo? E olha só, nem muito tempo elas permanecem no litoral catarinense após darem a luz: apenas um breve período de 6 meses, compreendendo junho a novembro. O suficiente pra alimentar seu filhote e prepará-lo para o longo retorno ao gélido lar antártico. Sabe você quantos litros de leite são necessários por dia para alimentar a cria? 200!! Impropriamente chamada amamentação, o leite, um líquido espesso igual manteiga, é esguichado n’água e daí, sim, sugado pelo bebê baleia. Em número de duzentas, apenas na mandíbula superior, as barbatanas (que vêm a ser os dentes destes animais) são formadas por placas de queratina solidificada. No final das compridas placas há cerdas tipo piaçava que funcionam como rede para pescar os minúsculos crustáceos, conhecidos como krill, já que seu esôfago, do tamanho duma laranja, só lhe permite ingerir pequenas porções de alimentos. E pensar que sua boca é tãããooo grande. Nada a ver o cu com as calças como dizia minha querida vovó! Me dou conta, então, de que uma lenda cai por terra. A do Pinóquio. Nunquinha que ele, seu pai e toda aquela mobília poderiam ter sido engolidos pela tal baleia....sniiifff. É duro quando ilusões infantis são despedaçadas pelo desapiedado rigor científico. Juro que prefiro às vezes ser ignorante porém feliz!! Chegamos na praia de Siriú, ingloriamente, de ônibus, e não pedalando como desejaríamos, tudo por causa do mau tempo. Acomodadas as três num amplo alojamento, decidimos eu e Lili dormir juntas na cama de casal, como já fizéramos no Rosa, deixando a cama de solteira pra Ines. Ali, começo a me divertir muito com a pesquisadora da USP, senhora de trocentos doutorados. Definitivamente, ela não se encaixa nadica de nada naquele perfil de cientista séria e formal que o cinema adora apresentar. Tá mais pra aquele personagem do Darín no filme Conto Chinês, hehe. Sem muita paciência com os politicamente corretos, vibra quando eu solto os meus “vai tomá no cu”, ditos, é claro, com justíssima causa. Consegue ter menos papas na língua que eu! Arranca-me ruidosas gargalhas com suas críticas desaforadas. Lili Docinho só sorri quando nos vê em ação. Um dos episódios hilários protagonizados por Ines foi quando lhe ofereci o horripilante vinho que o nojento, antipaticíssimo e cheio de má vontade dono da pousada do Taxo, o tal de Nacho (será que é pra rimar?) me serviu. Cheirando o vinho antes de bebê-lo, ela revirou os olhos e torceu a boca num trejeito de menosprezo, sentenciando em alto e bom som um “putaqueospariu”. Sem titubear, convidou Lili pra beber cerveja com ela. E passamos a refeição toda num conversê animado, pontuado por risadas estrepitosas, saboreando o prazer de volta e meia falar mal do tal Nacho e de seu vinho ordinário. Alta camaradagem rolando entre nós três. Tudo de bom esta vida, não é mesmo?
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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Pedalando na chuva

Durante três anos me dediquei com afinco ao canionismo, pirambando e rapelando diversas cachus maravilhosas que povoam os canions de Praia Grande, cidadezinha encravada aos pés dos Aparados da Serra, no extremo sul catarinense. Foi então que, às vésperas do apagar das luzes do ano de 2010, fiz das habituais promessas - que têm tudo pra não ser cumpridas - uma realidade!! Troquei as botas de trekking pelas sapatilhas. Arriscando na escalada esportiva, adorei sentir medo e sucumbi de prazer quando fui apresentada aos paredões de 5º grau da serra gaúcha. Putz grila, tudo de bom tais sensações. Quando uma coroa como eu, chega cheia de atraso na meia-idade, ela procura recuperar o tempo perdido com voracidade, abraçar o mundo com as pernas, e, daí, dá no que dá! Quer pedalar também! Motivo por que, na véspera dessa bizarrice histórica, conhecida como Independência do Brasil, conquistada na base do berro por Pedroca I, estou eu aqui dirigindo na BR101, noite escura que nem breu e chovendo às pampas. Mas  me vou contentíssima rumo a Floripa pra encontrar um grupo de ciclistas. Tudo pra participar do roteiro da Baleia Franca cujo objetivo principal é a avistagem destes mamíferos, assíduos visitantes durante os meses de junho a novembro no litoral sul catarinense. Tirante Lili Docinho, que me pôs nessa aventura, não conheço mais ninguém. Ao chegar à ilha por volta das 21 horas, me perco e tenho de indagar dum transeunte, que atravessa a larga avenida beira mar, onde é a rua x onde meu hotel se localiza. Curto demais esse meu jeito de socializar com os nativos. E eles gostam demais de prestar informações! Na manhã do 7 de Setembro, estamos, eu e Lili, no refeitório do hotel onde conhecemos nossa primeira colega de pedal: Ines. Já dá pra perceber que a moça tem temperamento forte. Embora em dúvida se vou ou não gostar dela, disfarço tal sentimento. Ainda é prematuro tecer julgamento. Mal temos tempo de bater um papinho porque Jonathas, um dos sócios da Caminhos do Sertão, agência responsável por esse tipo de cicloturismo no sul do país (http://www.caminhosdosertao.com.br), nos aguarda na recepção. Partirmos, então, BR 101 afora nesta manhã de quarta-feira acinzentada, rumo a Itapirubá Norte, cuja larga enseada permite avistar facilmente as baleias fêmeas e seus filhotes. Implantado em 1981 pelo vice-almirante Ibsen de Gusmão Câmara, um dos líderes contra a caça às baleias na costa brasileira, o Projeto Baleia Franca já conta nos dias atuais com uma equipe de biólogos, estagiários, simpatizantes e patrocinadores, responsáveis por tocar adiante um programa de estudos, monitoramento e proteção destes cetáceos, Tal aventura, escolhida por Lili, foi abraçada por mim às pressas, meio desarvorada, em razão de meu plano de retornar à Mantiqueira ter gorado às vésperas de minha viagem a Minas. Devem vocês estar pensando "que tantas férias tira essa mulher, ala putcha!!" Acontece, queridinhos, que os 30 dias a que faço, merecidamente, jus, fraciono em dois ou três períodos ao longo do ano. E quando percebo oportunos feriados trato de unir alhos com bugalhos. Perceberam agora porque pareço estar frequentemente de férias? Bueno, aboletados dentro dum microônibus, lá estamos nós, um grupo de 18 pessoas que nunca se viram na vida, super animados, apesar de o tempo não ter apresentado sinais visíveis de melhora de ontem pra hoje. E a previsão pros próximos dias não é lá das mais animadoras...pois pois. Chegando a Itapirubá, o céu cinzento anuncia chuva iminente mas os audazes cliclistas se lançam praia afora em direção a Imbituba. Como estou resfriada, não vou com eles, porque há a perspectiva de, ao atravessar uma barra, encontrá-la tão cheia que a água atingiria as coxas. É necessário preservar a saúde já que me restam ainda muitos dias de vacaciones. Não quero que o tal resfriado vire uma gripe ou coisa pior. Às vezes, consigo agir com sensatez, hehe. Resignada, embarco no ônibus, reencontrando os ciclistas após 20 minutos, já em Imbituba, onde daí sim monto na magrela e, pedalando, chego no museu da Baleia Franca. Até alguns anos atrás, o amplo galpão de alvenaria servia para a extração do óleo destes cetáceos, obtido, derretendo-se, em gigantescas autoclaves, as grossas camadas de gordura que os protegem das águas gélidas onde passam grande parte do ano. Usado como combustível na iluminação de residências e vias públicas, o óleo ou azeite de baleia era aproveitado, ainda, na fabricação de lubrificantes, de sabão e até de margarina. Também extraídos dos pobres bichos eram o espermacete, empregado na indústria de cosméticos, e as barbatanas para fazer espartilhos. Quando deixamos o prédio, somos benzidos por uma típica garoa invernal que não enfraquece nosso ânimo de continuar pedalando à beira mar. A sensação de liberdade, de aventura e de unidade do grupo compensa a cara feia que São Pedro vem lançando sobre nós. Enxergamos, então, nossas primeiras baleias do dia. Nadam bem próximas à costa, coisa de 100 m, se tanto. Claro está que mal se entrevê seus dorsos pretos aflorando à superfície da água. Entretanto quando suas fugazes nadadeiras peitorais emergem, rapidamente, pra logo após submergir, um coro de ohs e ahs vibra entusiástico no ar. Do mirante, onde paramos para apreciar a paisagem, provavelmente, linda, se o dia não estivesse tão morrinha, avista-se o porto de Imbituba. Os gigantescos e inativos guindastes, com suas braçadeiras metálicas, enfeiam a paisagem litôranea. A chuva de molhar bobo, nada mais que uma fina poeira aquosa, se mantém constante até a barra da lagoa de Ibiraquera, point de surfistas, que passam ora em direção ao mar, ora vindo de lá, adequadamente envolvidos em suas roupas emborrachadas. Já eu usando roupas inapropriadas, sinto o desconforto da úmida vestimenta. Por isso, em chegando ao local onde iremos almoçar, trato de buscar um bar e pedir um conhaque. A forte beberagem dá uma esquentada legal em meu tremelicante corpitcho. Terminada a refeição, atravessamos a lagoa de Ibiraquera de canoa porque sua barra está bem cheia devido ao crescimento da maré. Seu Pedro, o canoeiro, impulsiona a embarcação, usando uma comprida vara de bambu. Em terra firme, retomamos a pedalada percorrendo uma esburacada estradinha de chão batido. É o que chamo de pedal trepidante. Nem adianta tentar desviar dos buracos porque se cai logo em seguida noutro mais fundo ainda. De repente, gelo, quando vejo me espreitando dois aclives poderosos. Só consigo subir 1/3 das lombas, sendo obrigada a descer e levar a bici no manotaço. Ao ver Inês e Denis passarem por mim, no maior fair play, pedalando de cabo a rabo as duas colinas, morro de inveja. Putz grila!! Quando crescer, quero ser igualzinha aos dois! Nos 30 minutos finais do pedal, graças a deus, agora em terreno civilizadamente plano, a garoinha deixa de lado sua timidez aquosa e despenca às ganhas do céu, não poupando nem mesmo aqueles que vestem boas jaquetas impermeáveis. Quando chegamos na pousada Rosa e Canela, meu odômetro marca 18 km. Parece que andei bem mais devido à dificuldade do terreno e ao mau tempo. Agora, 17 e 10, de banho tomado e vestindo roupas secas, acesso meu netbook, enquanto escuto o ruído vigoroso das gotas de chuva ressoando no telhado e encharcando a terra. Lili Docinho e Inês conversam. No ar, flutua um leve aroma de incenso. Não há lugar melhor que esse lar onde temporariamente habito! Um palácio 3 estrelas!!
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