terça-feira, 21 de abril de 2009

O valentão se revela!

Na segunda-feira, tiro o dia pra descansar. Fico na cama lendo o último livro da Danusa Leão, uma narrativa sobre viagens a algumas cidades européias. A prosa da capixaba é leve, bem humorada. Ademais, fornece dicas de lugares que fogem do circuito convencional. É tudo do que preciso pra desopilar. Em torno das 9, levanto e vou pro refeitório. Bebo um copo de leite e descasco uma banana. Mariazinha, na cozinha, junto com sua ajudante Bia, outra xará (ultimamente, tenho conhecido tantas Beatriz!), prepara sei lá o quê no fogão pro almoço. Aliás, quando se encontra na pousada, está sempre às voltas com as panelas porque, cozinheira ciumenta que é, não admite intromissões em seu reino. Arrisquei uma vez e nunca mais, depois que vi sua cara feia me fuzilando com os olhos....eu hein?! Vá lá que resolva botar veneno na minha comida, né? Ficamos batendo papo e dando risada de bobagens Vez por outra trocamos pequenas alfinetadas, nos deleitando quando alguém, que não nos conhece, leva a sério esse jeito falsamente inamistoso de nos relacionarmos. Curtimos demais representar esse teatrinho! E assim continuamos na boa até a hora do almoço. Terminada a refeição, vou pra cabana descansar, assisto um pouco de tevê e depois vou visitar Kaloca percorrendo a pé os 2 km que separam sua casa da pousada. Durante a caminhada, paro pra fotograr flores e curto o vôo de um bando de gralhas voando no céu. Encontro meu guia saindo. Pego uma carona com ele e lá vamos nós em sua motoca até Praia Grande. Procuro uma loja que venda revistas mas nada encontro. Pergunto a uma vendedora como o povo daqui faz quando quer comprar alguma. Responde que as pessoas ou têm assinatura ou então vão a Torres comprá-las. Aproveito e visito Inês, uma conhecida, dona dum restaurante, já que me restam 30 minutos antes de encontrar Kaloca, na praça, às 15:30. Retornamos à sua casa e lá fico batendo papo com ele mais um pouco na sede da Aparados. Retorno a pé pra pousada e vou ao refeitório bebericar minha tradicional cachacinha de ervas enquanto aguardo o horário da janta. Durante a refeição, os dois guris de Rio do Sul contam que irão rapelar a mesma seqüência de cachus que eu descera no Rapel do Café, sábado à tarde. Decido ir junto também. Pouco importa se já as fizera há dois dias atrás. Quanto mais pratico mais experiência adquiro. Na manhã seguinte, pego uma carona com eles de carro até a Aparados. Kaloca está com um amigo, Marcolino, e os dois seguem de moto na frente. O pai dos guris resolveu também fazer os rapeis e quando chegamos no café do Valmor, pegamos a trilha em direção até a oitava cachoeira. Já na subida, um pouco íngreme, o guri de 16 anos, que largara na frente igual a um potrinho marrento, começa a dar sinal de cansado e logo logo fica pra trás. Bufando nos alcança e reclama um pouco. Comento que não dá pra gente acompanhar o ritmo de Kaloca e Marcolino porque eles têm muito preparo físico (o guri tentara por isso está botando os bofes pela boca). Chegando na oitava cachoeira, com 37 m, desço primeiro e lá de baixo fico observando a rapelagem dos três. O guri é o primeiro. Percebo pelo jeito como posiciona as pernas e segura a corda com o braço direito, um pouco de medo, natural pra quem faz rapel pela primeira vez. Contudo, partindo dele que já houvera praticado um pouco dessa técnica, ainda que em parede de cimento, somada à sua atitude um tanto quanto presunçosa, quando dera a entender que tiraria de letra rapeis em cachoeira, eu estranho. Na segunda cachoeira, uma rampa suave, descemos sem quaisquer dificuldades. Até criança tira de letra essa cachu! Quando alcançamos a Sinistra com seus 47 m, percebo que o guri já está começando a sentir o cutuco. Ele, que, até então, não manifestara vontade de ser o primeiro, se escala pra ir na frente. Bem típico de quem está levando medo. Ele custa pra entrar na posição de rapel e mais ainda pra descer os primeiros metros da cachu, revelando com isso seu temor. E nas duas cachoeiras restantes, tenho oportunidade de confirmar que a presunção inicial, manifestada pelo garoto, escoou água abaixo, literalmente. E não resisto a um comentário levemente provocante: “bem diferente de fazer rapel em parede, né? Ele, embora mais humilde, ainda não dá o braço a torcer, lançando leves muxoxos de pouco caso. Seu pai e irmão que, em nenhum momento se jactaram, desceram bem mais tranqüilos porque não se furtaram a demonstrar seus temores. Pois é, eu não disse que ainda pegava ele? Hehehehe.
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domingo, 19 de abril de 2009

A assombrada cachoeira do Kalu

O domingo promete, o amanhecer violáceo, nos campos de cima da serra, está esplendoroso às 6 da manhã. Caminhamos até a borda do cânion e descemos a pirambeira do vértice sul do Malaca que conduz até o poço das Abelhas Zangadas. Hoje vou rapelar as cachoeiras que ainda me faltam desse cânion, cujo outro vértice, o norte, forma apenas uma cachoeira, cuja altura, calculo, seja em torno de 60 m. Ambos os vértices unem-se à altura da sexta cachoeira. Na parede norte, enormes reentrâncias na rocha formam grutas suspensas a uma altura de 700 metros. Lembram os grandes nichos que há nas igrejas para abrigar os santos. Rapelo pela segunda vez a cachoeira dos Degraus, a do Poço Negro e a que lhe segue, justo na saída deste poço. O céu, até então límpido, começa a nublar. Minha roupa de 3 mm não me protege o suficiente das gélidas águas. Começo a encarangar enquanto espero que Kaloca termine os procedimentos de puxar as cordas, ancoradas numa chapeleta, no topo desta cachoeira, a décima segunda do cânion. Neste ponto, o Malaca é muito frio, devido ao estreitamento de suas paredes, que não permitem a passagem duma réstea de sol. Seguem-se mais duas pequenas cachoeiras. Eu as rapelo; Kaloca, entretanto, pula de ambas, mergulhando em seus poços. É o homem-peixe em ação! Ciente de que há a famosa cachoeira do Kalu, conhecida como do Salão, antes do acidente fatal que vitimou um jovem, peço que ele não me diga quando lá chegarmos. Do que se ignora, não se sente medo. Quando chego à próxima cachoeira, meu instinto assopra que ela é a crux da via por causa da tragédia aqui ocorrida. E repasso, então a vocês como tudo aconteceu. Chovera muito forte, ininterruptamente, durante três dias. Depois dum chuvaral desse naipe, as cachoeiras apresentam, invariavelmente, um fluxo muito agressivo, cheio de pressão em suas águas. O tal rapaz, que praticava mais escalada que canionismo, decidiu mesmo assim descê-la, utilizando uma corda dinâmica, comumente empregada apenas em escalada, seu grande erro. Ora, o volume poderoso da água aliado ao uso da corda dinâmica, jogou o cara contra as rochas várias vezes. Ele não resistiu, por óbvio, aos ferimentos - fratura no crânio - e deu com a cola na cerca, como se referia meu pai quando alguém morria. Os seus outros dois acompanhantes presenciaram, do topo da cachoeira de 45 m, a trágica cena sem, contudo, poder acudi-lo. Prudentemente, trataram de dar meia volta e, buscando um carreiro lateral, saíram em busca de socorro. Desde então, a cachoeira passou a ser chamada do Kalu, em homenagem ao infeliz rapaz. Se Kalu houvesse agido com prudência e observado certas técnicas de cascade, poderia, ainda, estar vivo, experimentando aventuras mis. Uma pena, realmente. Invocando santos e orixás, procuro manter a calma enquanto a rapelo, embora sinta um aperto no fiofó. Na verdade, ela não é difícil. Como adverte Kaloca, só quando chove muito. Daí não dá pra meter, nem mesmo usando corda estática. Chego, enfim, sã e salva em seu poço, com um sentimento de alívio e de missão cumprida. Desde que comecei a praticar canionismo, questiono-me muito a respeito da prática deste esporte. Será só pra afrontar meu medo de altura, ou pra ultrapassar certos limites convencionais, de modo a me sentir especial? Talvez sejam as duas coisas juntas. De certo, é que, atualmente, prefiro mais a ação às atividades intelectuais. Fazem com que eu me sinta mais viva! Mais uma breve caminhada e eis a a cachoeira dos 5 Fios, com 38 m, a última do dia. Como tem chovido pouco nesse verão, o quinto fio secou. Uma descida sem grandes problemas. Depois disso, é só pernada, aliás, uma dura caminhada de 4 horas até a boca do cânion. E já a cerração começa a cobrir os seus paredões. Uma ameaça de chuva, graças a deus! limita-se apenas a uns poucos pingos esporádicos. Após a cachoeira dos 5 Fios, torna-se muito interessante a morfologia da parede norte: em seu topo, curiosas formações rochosas assemelham-se a ameias e torreões de castelos medievais. Esta parede, ao contrário da parede sul (com uma só garganta), apresenta sucessivamente 4 gargantas: das Gêmeas (dois rapéis, um de 100 m, o outro de 180 m), do Braço Solitário (9 rapéis), da Cascavel (9 rapéis) e, por fim, a via K (14 rapéis), primeira conquista de meu guia, feito esse realizado em 1998. Daí a sua denominação: K de Kaloca, o intrépido desbravador!
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sábado, 18 de abril de 2009

E viva Tiradentes!

Doidinha em voltar ao aconchego de Praia Grande, aproveito o feriado de Tiradentes e me mando de mala, pero sem cuia, sábado, no ônibus das 7 da manhã. Chego passadas as 11 horas e pego um táxi na frente da rodoviária. Antes de ir pra Colina da Serra, peço ao taxista que faça um stop na Aparados Adventure, agência de Kaloca, situada também na estrada da serra do Faxinal. Quero combinar com meu guia a aventura do dia. Fica de me pegar de moto às 14 horas, assim, diz ele “dá pra a gente almoçar tranqüilos, Biazinha”. Já na pousada, brinco com Maria, dizendo que a Colina caiu uma estrela porque não encontrei flores enfeitando meu quarto como das vezes anteriores. A gringa não se aperta, tem sempre uma resposta na ponta da língua, e esclarece que eu mereço coisa melhor que as comuns quaresmeiras e hortênsias, únicas flores que ainda vicejam em seu jardim. Tá cara que ela esqueceu! Essa Mariazinha tá me saindo uma deslavada mentirosa, isso sim! Terminado o almoço, serve uma ambrosia, receita dada por mim. Troçando dela, digo que a minha é muito melhor. Ela faz biquinho fingindo-se zangada. Tudo jogo de cena, é uma artista que o mundo desconhece ainda. Kaloca, pontualmente, dá as caras. Eu já vestida com meu neoprene azul-piscina, novinho em folha, subo na garupa e lá nos tocamos pela estrada da Roça da Estância até o café do Valmor, de onde pegamos a trilha pra descer as cachoeiras da Garganta do Café. Serão apenas as cinco últimas porque pra fazer todas as 12 teríamos de ter começado de manhã cedo. O dia está ensolarado e as cachoeiras, mansas, sem muita água, ao contrário da véspera de ano novo, quando foi aquele stress devido ao grande volume de chuva que caíra durante os rapeis feitos com Gabriel, Camile e mais o grupo dos cariocas. Tiro de letra a temida cachoeira Sinistra. uma tranquilidade rapelá-la com pouca água. Oxalá, todos os rapeis fosse assim! No retorno, desço na Aparados. A cabana de madeira está uma beleza. Praticamente construída por ele, encontra-se quase pronta. Aproveito pra acessar a internete e depois vamos até a residência de seus pais, situada a uns 50 m adiante, cruzando o bosquezinho existente no terreno. Dona Edi, mãe de Kaloca, cativa pela simplicidade. É uma santinha. Chama-me de Dona Bia, mesmo sendo mais velha do que eu. Educação antiga, gente, educação antiga! Convida-me pra pousar. Recuso o convite, explicando que, se aceito, Mariazinha é bem capaz de botar fogo na casa deles de ciúmes. “E um cafezinho com mistura, Dona Bia? Mistura vem a ser o pão, bolo ou bolacha que acompanha a bebida. Bebo uma chávena de café preto e provo um pedaço de bolo de laranja feito por ela. Peço, então, a Kaloca pra me levar até a pousada. Hoje a janta está caprichada porque têm mais hóspedes (se sou só eu, a comida é mais simples, afinal, já sou de casa). Sento à mesa com uma família de Rio do Sul, os pais e dois rapazes. O mais moço, com 16 anos, conta que praticou rapel quando foi bombeiro mirim. Onipotente como todo guri dessa idade, faz cara de pouco caso quando narro minhas aventuras nas cachoeiras. Dá a entender que tirará de letra quando for fazer rapel. Pergunto a ele o que rapelou. Responde que apenas uma torre de concreto. Explico que não dá pra comparar com os rapeis em cachoeiras. Seu irmão, mais velho, concorda comigo. Mas o guri não se dá por vencido e fica minimizando minhas façanhas. Eu deixo a coisa quieta. Ainda te pego na curva, seu presunçozinho....podes crer! E vou deitar cedo, apesar do pedido de Maria pra que eu permaneça, enquanto arruma a cozinha. “Só não, abençoada, tenho de acordar 4:30, Kaloca vai passar aqui às 5.” E vou pra cabana encerrando a conversa. Mariazinha, hoje, vai ter de lavar a louça sem a ajuda de minha prosa, hehehe
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domingo, 12 de abril de 2009

Nascer do sol na Pedro do Sino!

Acordamos às 4 e 30 pra ver o sol nascer no topo da Pedra do Sino. Dá um desânimo de levantar tenebroso. Quase desisto, porém meu espírito aventureiro vence a preguiça e o sono, e me junto ao pessoal que já está partindo. Gosto dessa coisa de caminhar à noite, ainda mais sob a luz das estrelas e do luar, esplêndido, no firmamento. E lá vamos nós trilha acima, portando nossas lanternas. Quando chegamos ao topo da pedra, já são quase 6 horas. E bate um frio danadinho. Embaixo, pontinhos luminosos denunciam as cidades de Guapimirim, dum lado, e a de Teresópolis, noutro, espantando um pouco a escuridão da madrugada. Pouco a pouco, a noite cede, relutante, sua vez ao dia. E o sol mostra, ainda, timidamente, no horizonte, aquela fímbria violácea, tão peculiar e vibrante, em certos amanheceres. Permaneço até o dia clarear, fotografando e curtindo o visual de dois picos: Dedo de Deus e Escalavrado. Abaixo, um oceano de nuvens paira escondendo a paisagem. Lindo, muito lindo o visual. Descemos, já dia claro, de volta ao refúgio. Preparo meu desjejum: uma massa miojo. Será minha única refeição até o término da caminhada, até porque não tenho mais nada além de um pacotinho com restos de nozes, castanhas e amêndoas pra comer. Saímos do refúgio 4 às 9:30. O sol permanece durante uma parte do trajeto, todavia, à medida que descemos, começa o tempo a nublar. Encontro na trilha um grupo de homens que pertencem à Associação dos Escaladores do Rio de Janeiro. Um deles, um senhor chinês já radicado no Brasil há 30 anos, é o professor. Com outro, de nome Carlos, entabulo conversa até que embarafustam por uma trilha que conduz ao Pico da Agulha do Diabo. Se vão escalar, não me disseram. Sigo meu caminho em meio à mata atlântica. Embora seja uma descida, é suave, não apresenta maiores dificuldades. Assim, os 11 km são moleza, se comparados com os dias anteriores, cujos percursos foram menores. A quantidade de flores é de tirar o fôlego. Delicadas e de cores variegadas me fazem parar de modo a admirá-las e fotografá-las. Passo ao largo de duas cachoeiras, minguadas d´água, nada de muito impressionante. Embora a travessia totalize apenas 27 km, foi a mais difícil, até agora, trilhada por mim. Exige muito das pernas e já sinto as coxas doloridas. Às 12:30, alcanço a portaria do Parque, em Teresópolis, e lá ficamos aguardando o resto dos retardatários enquanto conversamos. Há um ar de fim de festa. Sempre sinto um quê de leve melancolia quando um trekking termina. É a tal estória do “acabou-se o que era doce” mesmo que tenha pintado um sabor amargo em certas situações. Não importa porque “tudo vale a pena se a alma não é pequena”, concordas, Pessoa? Embarcamos na van e antes de retornarmos ao Rio, paramos num restaurante pra comermos algo. Daqui se tem uma vista esplêndida do Escalavrado. Gosto demais dessa montanha. Alguns de nós clamam vigorosamente por um copo de cerveja. Já eu tenho ganas de beber uma taça de café com leite e peço, ainda, pra morder um tostado com lingüiça. Uma delícia o petisco! Chego em casa e o jogo do Flamengo rola solto na tevê onde todos assistem com concentração, inclusive meu filho, gremista convicto. Vou direto pro chuveiro, afinal, faz 3 dias que este corpitcho não vê água. Tô nem aí mas os outros....ah, os outros!!
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sábado, 11 de abril de 2009

Crux da Via: Cavalinho

Choveu a noite toda. Agora, 6 da manhã, graças a deus, estiou, embora nuvens baixas cubram as montanhas a nossa frente onde se encontram vários picos, como a Pedra do Sino, o Dedo de Deus, Escalavrado, Agulha do Diabo, entre outros. O clima revela boa vontade e o céu apresenta-se de um límpido azul. O trajeto, inicialmente, se faz através dum infindável campo de tiriricas ou capim navalha, cujas cortantes e finas folhas alcançam mais de 1,50m de altura. O capinzal cede lugar a um declive de lajedos que vem a ser uma das encostas do morro do Marco. É uma das raras descidas do dia. Em meio à caminhada, uma recompensa: o Paraíso, um refrescante sítio, situado em meio à luxuriante vegetação da mata atlântica. Fazemos uma parada à beira do riacho da Luva onde aproveitamos pra encher as garrafas com água. Odete reclama de dor num dos pés. Assim, quase toda a tralha que carrega em sua mochila é distribuída entre alguns membros do grupo. Claro está que a moleza dura pouco, pois a nossa frente nos espera a íngreme ascensão do morro da Luva. Continua-se a subir através duma mata cerrada e, novamente, voltamos a caminhar em meio ao capinzal, agora, já na crista do morro da Luva. A trilha apresenta longas depressões no terreno, formando estreitas e fundas valetas por onde se deve pisar com cuidado, senão se corre o risco de torcer um tornozelo. Chegando ao Morro do Balão, desce-se um lajedo que requer certo cuidado, devido ao seu declive acentuado. Resolvo ir por uma via alternativa porque percebo umas agarras bem boazinhas onde encaixar os pés. E por ali vou, não sem antes jogar a mochila numa touceira de capim, 15 metros abaixo. Dali por diante, percorre-se mais uma extensa área de lajedos até um local onde há uma cachoeira, situada um pouco antes do Elevador – conhecida também como via Ferrata -, uma pirambeira duns 60 metros de altura onde foram afixados grampos de ferro, formando degraus, de modo a facilitar a ascensão. Em seu topo, a Pedra do Dinossauro. Lindas flores vermelhas, brotando por entre os rochedos, destacam-se na paisagem, já agora, cinzenta pois nuvens céleres começam a dar as caras. Outra descida sobre os lajedos do morro das Antas que se inclinam, perigosamente, até desembocar no vale das Antas, onde paramos para descansar. Dali dá pra ver o paredão por onde há pouco descera. Quando baixei por aquela encosta, nem me dera conta de quão inclinada era. De longe, impressiona, parece ter 90º.....inacreditável! Cada peça que a distância prega em questão de altura! Retomamos a subida em direção ao morro do Dorso da Baleia de onde dá pra ver bem de perto o pico do Garrafão. Muito tri seu formato que, no meu entender, lembra mais uma rolha de champanhe. A cerração começa a se tornar inconveniente, velando severamente as montanhas ao redor. Apenas um esboço fugaz e pouco nítido de todo aqueles colossos rochosos. Uma pena! A trilha continua por novo lajedo, e, eis que, de repente, surge abruptamente um imponente paredão, considerado a maior big wall do país. Mal se consegue distingui-la, o nevoeiro não dá trégua mesmo. Veio, ao que parece, pra ficar....merda! Caminhamos mais um pouco até um ponto onde há um grotão, chamado Mula. Os guias põem uma corda pra auxiliar na descida. Pra mim, que faço canionismo, é moleza. Daria até pra descer sem. Aqui começam os problemas com o guia Marcos. O cara surta comigo e, zangadíssimo, dá a entender que não sou solidária, reclamando de meu egoísmo (deve ser porque não me ofereci pra carregar algo da mochila de Odete; e por que eu deveria, se ela nunca me dirigiu a palavra?). A explicação mais plausível só pode ser atribuída a uma certa filosofia ortodoxa abraçada por uma classe de montanhistas que pregam o “um por todos e todos por um”. Consideram que se deve salvar, ainda que isso ponha em risco suas vidas, quem já se encontra in extremis. Eu, decididamente, discordo de atitudes tão radicais, não iria salvar a vida de alguém à custa da minha, ainda mais sabendo que isso poderia enviar nossas almas pro além, não o além mar, e, sim, o além túmulo! Não nasci pra tais atos de heroísmo, admito. Se isso é covardia, sou covarde, mesmo, admito! No caso do nosso grupo, eu até faria um certo sacrifício se eu já fosse amiga de alguém, o que não é o caso. Não conheço ninguém, apenas sinto simpatias  superficiais. Afora isso, percebo pouquíssimo espírito de entrosamento entre as pessoas. Tento argumentar mas o cara se manda, célere, trilha afora. Poxa, suspiro pros meus botões, como há gente irritadinha nesse mundo, que nem a bela natureza consegue acalmar. Fico chateada porém não permito que o mal humor do guia estrague meu passeio. E reúno forças pra enfrentar o que considero o crux do trekking: o Cavalinho, uma grande pedra atravessada na encosta da Pedra do Sino que se projeta abismo adentro. Precede-o uma tortuosa e estreita canaleta. Passar pelo Cavalinho exige certa habilidade; eu, baixinha, de pernas curtas, preciso duma mãozinha pra me içar até seu topo. Vagner, gentil cavalheiro, me dá aquela força enquanto Sylvio, do outro lado, me incentiva. Sinto um pouco de medo, contudo passo com relativa facilidade. Uma certa desorganização toma conta do grupo. Ademais, já são 17:30 e começa a escurecer. Marcão, irritado, ainda pelo bate boca comigo, se mandou após içar as mochilas, deixando Sylvio solito pra coordenar a passagem do pessoal. Penso que numa parada exigente e com certo risco, como a do Cavalinho, em que o grupo é formado por amadores, o cara devia ter ficado. Só não aconteceu nada grave porque todos se ajudaram e a coisa fluiu com relativa tranqüilidade. Mas que faltou maturidade pro cara, isso faltou! Há guias e guias, não dá pra exigir que todos sejam Kaloca ou Ali, comento, resignada, com meus botões. A canaleta continua após o Cavalinho e a escuridão, agora, é total. Mais um momento de dificuldade pra atravessar o trecho final, uma chaminé, super estreita. Há que se fazer uma pequena escalada, apoiando as costas numa pedra e os pés na parede da montanha. Pra tornar mais difícil a parada, nem todos portam lanternas, tornando mais lenta ainda a caminhada. Sai-se da canaleta, finalmente, subindo por uma escada de ferro, onde um dos rapazes do grupo, em seu topo, nos auxilia. A andança seria fácil se não fosse a noite cerrada. Subitamente, vejo a lua, amarela, grandona, plantada num céu totalmente estrelado. Uma loucura o visual! Chegamos ao Refúgio 4 às 20 horas. Embora tenham sido apenas 8 km, demoramos quase 12 horas....dá pra acreditar? Tão cansados estamos, eu, Vagner e Flavio, que nos limitamos a abrir uma lata de atum que comemos com pão. Desabamos, exaustos, dentro de nossos sacos de dormir, proseando um pouco até que o sono nos empurra pros braços de Morfeu. Que dia, jesus cristinho!!
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sexta-feira, 10 de abril de 2009

Isabeloca e Castelos do Açu

Chego na praça, em frente à igreja São Francisco Xavier, na Tijuca, às 5:15. O grupo, de 16 pessoas, incluídos os dois guias, Sylvio e Marcos, já lá se encontram. O trekking iniciará em Petrópolis e terminará em Teresopólis, considerando que a travessia nesse sentido proporciona uma visualização frontal das montanhas e picos da região. Em Corrêas, distrito da cidade, escolhida por D. Pedro II, pra veranear com sua corte, descemos pro desjejum; afinal ninguém conseguira tomar café tendo de acordar às 4:30 da madruga. Peço algo bem tradicionalmente carioca: média e pãozinho francês tostado na chapa com queijo de Minas. Após a refeição, rumamos em direção à portaria do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, localizada no bairro do Bom Fim. O percurso, nesse primeiro dia de trekking, é de 8 km. Iniciamos a trilha às 8:30. Estou cheia de expectativas. Sei, pelo que li na internete, que é percurso difícil embora só perfaça 27 km. Fazemos uma parada após 40 minutos de caminhada. Um homem, que regula de idade comigo, desiste. Não adiantam os apelos dos guias. Ele mostra-se irredutível. “Não vou conseguir, não quero atrapalhar.” Ao meu lado, duas mulheres, também coroas, queixam-se das mochilas pesadas. Comentam que não costumam carregar peso pois sempre contratam porteadores em suas andanças. Eu, na boa com minha mochila - pesa no máximo 4 kg - (não levo barraca porque Sylvio, em contatos via email, garantira-me acomodação na barraca dum amigo), carrego apenas saco de dormir, isolante, roupa de fleece pra dormir (já sei de antemão que faz frio durante a noite, podendo a temperatura cair pra até 2º C) e o estritamente necessário pra comer, sem frescura alguma. Nos embrenhamos mata atântica adentro, uma subida sem maiores dificuldades até a primeira parada, no morro do Queijo (1.635m). A paisagem, trilegal, tem como cenário lá embaixo o vale do Bom Fim, os morros do Alcobaça e Alicate, à direita, e uma parte de Petrópolis mais adiante. Mais uma subida e alcança-se o Ajax onde há uma fonte d’água onde reabastecemos nossos cantis. Os guias aconselham o uso de clorim (aliás, em todo o trajeto, somos obrigados a pôr esse desinfetante já que os cursos d’água não são lá dos mais confiáveis). Continua-se subindo, agora pelo morro do Açu, uma encosta íngreme pra caramba, a Isabeloca, assim chamada em homenagem à princesa Isabel, em suas caçadas pela região. Há outra versão de que a denominção do morro origina-se do nome duma escrava, xará da princesa, que fugiu dos senhores de engenho, buscando abrigo nessa região. No término da subida, a vegetação abundante, cede terreno a um lajedo pedregoso, destacando-se, tão-somente touceiras de bromélias e tufos de capim. O dia, até então, claro cede vez ao nevoeiro. As nuvens vêm e vão, deixando poucos rasgos de azul no céu. Já na crista do morro do Açu, vislumbro, surgindo entre a bruma, os imponentes Castelos do Açu (2.216m), situados no cume do morro. Trata-se de dois gigantescos blocos de granito polido, um a frente do outro, tendo mais adiante dois menores, cujo formato lembra uma tartaruga. Cheia de reentrâncias, os dois colossos rochosos formam pequenas grutas, abrigo generoso pra quem não quer levar barraca. Chama a atenção uma cruz, contruída em homenagem a alguns montanhistas, mortos numa tempestade de raios em 1992. De repente, abre-se um claro no céu, logo obnubilado por outro bando maluco de espessas nuvens. Difícil ver os Castelos de Açu desembaraçados. Ambiente espectral. Nuvens sucedem-se e novamente o céu se faz limpo. Vejo, no interior de uma das grutas, um bando de jovens. Curiosa, não resisto, vou até lá. Preparam um ranguinho pra lá de maneiro: arroz com frutos do mar. Que finos eles! Poxa, esses seguem mesmo a cartilha católica de não comer carne vermelha na sexta-feira santa. Fico com água na boca, louca pra receber um convite que – snif - não vem. Vou então, procurar meu grupo e encontro-os mais adiante, armando o acampamento. Uma parte do pessoal fica num terreno apelidado, por Marcão, de favela. A barraca, onde vou dormir, está armada num terreno mais elevado, e pertence a Vagner, um cara muito legal, desenhista de moda. Dormirá conosco, também, Flavio, um magrão de olhos fundos e penetrantes, muito na dele. Depois de muito debate, fazemos um rango comunitário. Paulo oferece arroz e Vagner, a lingüiça. O arroz, embora meio duro (castigo, talvez, por não estarmos respeitando as santas tradições católicas?), é assim mesmo devorado com certa sofreguidão...nada como a fome, né?! E começa a chover, e forte. Somos obrigados, assim, a entrar dentro da barraca. E são apenas 18 horas....droga!! Tiro meu celular e jogo Galaxy Ball até o término da bateria. Sem outra alternativa, converso com Vagner até cair no sono, fazer o quê, né?
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quinta-feira, 9 de abril de 2009

Cidade Maravilhosa

Aproveito o feriadão da Páscoa e me mando pro Rio. Assim posso ficar com meu filho dois dias e depois fazer a clássica travessia Petrópolis-Teresopólis. Na quarta-feira, vamos eu e Raul à Barra pelo túnel Zuzu Angel direto à Avenida das Américas. Uma pena que a Pedra da Gávea esteja encoberta por nuvens já que o tempo não está lá dos melhores, mas enfim o Rio continua sendo mesmo assim maravilhoso. Raul fica no curso. Como eu tenho de esperá-lo até as 11, tomo o rumo da praia. Aproveito e corro no calçadão. Suada do exercício, entro no mar pra me refrescar. Mergulho com gosto n’água cuja temperatura está ótima. Sento, então, à mesa, num dos inúmeros quiosques vermelhos existentes na beira da orla e contemplo a imensidão verde do Atlântico tricontente. Volto, então, pro shopping Downtown, justo no término da aula de meu filho. Cedo ainda pra almoçar, ele me leva pra conhecer a Prainha e Grumari. Uma delícia o visual dessas duas praias, além de quase desertas. Almoçamos num restaurante, no Recreio dos Bandeirantes, com aquele sistema de bufê já tão consagrado em solo pátrio. Comidinha razoável. Terminada a refeição, peço um café e fumo relaxadamente um cigarrinho. Coisa boa estar aqui. Gosto do Rio, uma das poucas grandes cidades que ainda tolero visitar. Retornamos pro Flamengo pela Linha Amarela, cujo cenário nada oferece de atraente. Contudo, o tráfego flui tranqüilo, ao contrário da congestionada Avenidas das Américas. Peninha, eu adoraria ter desfrutado da espetacular paisagem que o retorno pela avenida Niemayer proporcionaria. Chama minha atenção a quantidade de túneis existentes nessa cidade! Também pudera, repleta de morros, não há outro jeito de se ligar um bairro a outro. Na quinta-feira, revejo amigos: Flavio, gaúcho tal qual eu, radicado há mais de 30 anos na cidade; Valéria, carioquíssima, novel amiga, que conheci durante trekking na Chapada dos Veadeiros. Pego o metrô pra Copacabana. Vou almoçar na casa de Flavio. Encontro o amigo na cozinha preparando um risoto de bacalhau. Sempre um prazer rever uma amizade que já está quase comemorando bodas de ouro. Nosso reencontro, no entanto, é rápido, afinal, pra ele não é feriado, tem de sair. Antes de nos despedirmos, tomamos um cafezinho no Cafeína, na Barata Ribeiro e repartimos uma torta de cupuaçu com chocolate. Volto pro Flamengo porque meu encontro com Val está marcado pra tardinha. Aproveito e vou ao supermercado Zona Sul, perto da casa de meu filho, onde compro os mantimentos de que necessitarei durante o trekking. Pouca coisa (dois pacotes de miojo, uma lata de atum, uma mistura de frutas secas, uma barra de chocolate, seis barras de proteína e um gatorade), já que não terei ajuda dum porteador. Isso basta pra me sustentar durante os três dias de caminhada. Vou em casa, bato um papo com Raul e Ane, sua noiva. Os dois não sabem ainda se vão a Angra. Tomo um banho e me mando pra Gávea, onde mora Valeria. Maior moleza esse sistema de metrô integrado com ônibus. Em 40 minutos estou lá. Decidimos, sair. Vamos, assim, pro Leblon a pé. Escolhemos um bar com o sugestivo nome de Academia da Cachaça. Bah, uma variedade de caipirinhas pra lá de gostosas no cardápio dificultam minha escolha. Escolho a de laranja com gengibre e, de tira-gosto, uma empadinha de camarão. Vir ao Rio e não degustar essa iguaria é como ir a Roma e não ver o Papa. Está uma gostosura. Minha intenção de só beber duas caipirinhas vai pro beleléu, tomo três e de saideira, provo uma batida de côco, uma loucura de boa. Infelizmente, tenho de partir já que amanhã, vou pra Petrópolis às 5....que peninha!
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