quarta-feira, 17 de junho de 2015

Sobre Todas as Coisas

Interessante que se eu comparar o cicloturismo feito em março na Patagônia argentina com o pedalado recentemente nos campos de cima da serra, na região de Ausentes, guardo melhores recuerdos deste último. Refletindo sobre tal sentimento chego à conclusão de que o cicloturismo de 6 dias na chamada região dos 7 lagos, compreendida entre San Martin de los Andes e Bariloche, embora inegávelmente bela seja a paisagem, não faz muito meu estilo. Por quê? A principal razão foi que os deslocamentos entre as cidades praticamente se deram em asfalto, enfrentando a super movimentada Ruta 40, cujo tráfego intenso de caminhões e carros exigia bastante atenção. Em segundo lugar, tais points, de óbvio apelo turístico (a semelhança de nossa Gramado), não me atraem muito. Sou mais a fim dos menos civilizados. Claro está que curto lugares charmosos e confortáveis, pero se me é dado escolher, sempre aponto o dedo no globo terrestre para aqueles pouco freqüentados, tanto pelos locais quanto por viajantes. Como não poderia deixar de ser, as villas patagônicas por onde andei - San Martin, Traful e La Angostura - exibem aquele visual bonitinho, certinho, com os indefectíveis prédios e interiores estilosos – no caso, o falso rústico, usando e abusando de pedras e madeiras (mais uma vez Gramado me veio a cabeça). Nos dois primeiros dias, ficamos em San Martin, pequena e charmosa cidade, pertencente à província de Neuquén, aninhada à margem do lago Lácar onde pedalei, aí sim, em estradas de chão batido, até o mirador Bandurrias de onde se tem uma visão estupenda do lago Lácar e de alguns cerros adjacentes, dentre eles o Chapelco que mereceu uma visita no segundo dia de pedal. Nos outros 4 dias, conheci vários lagos, como o Villarino, Traful, onde às suas margens localiza-se a pacata vila de mesmo nome, Correntoso, Bailey Willis, Espejo e por fim o infindável Nahuel Huapi em cuja margem desponta a efervescente Bariloche, cidade a meus olhos super desinteressante, exceto pelas lojas especializadas no comércio de chocolate, diga-se de passagem, de excelente qualidade. Chamou atenção na ruta 63, estrada de chão batido que liga vila Traful à ruta 40, vestígios, no chão e nas árvores, das cinzas expelidas pela erupção do vulcão Puyehue, ocorrida em 2011. Se for para escolher do que mais gostei, fico com o bosque de los Arrayanes, de onde se tem uma admirável visão das águas azuladas do lago Nahuel Huapi e da laguna Verde, em Villa La Angostura. Graças a deus, uma semana após meu retorno, já tinha agendado um pedal com uma figuraça que atende pelo nome de Marcos Grandi, um caxiense sempre bem humorado e entusiasta da vida ao ar livre como eu. Assim foi que passei um fim de semana na serra, mais exatamente acampada no mirante Gelain, situado em Flores da Cunha, de onde se descortina uma das trocentas dobras do serpenteante rio das Antas. Pra celebrar o findi e nosso reencontro após um ano, Marcão bolou um pedal maneiro, bem light, de aproximadamente 50 km. Com início em Caxias do Sul, percorremos, inicialmente, a hoje asfaltadissima Linha 30, conhecida como Caminhos da Colônia até Otávio Rocha, onde almoçamos umas gordices empapadas de gordura que rebatemos com uma jarra de vinho rose da colônia. Pra fazer a digestão, uma pegadinha de chão batido até o sítio dos Bernardi onde experimentamos suco de mirtilo e cachacinha de alambique, retornando a Caxias pela Linha 60, novamente socando a bota no asfalto. No domingão, caminhada de 9 km na mata atlântica, percorrendo uma antiga picada aberta por caçadores que parte do Belvedere Sonda até um ponto da margem esquerda do rio das Antas onde fluem as nervosas águas da corredeira Armagedon sucedida pelo despencar furioso do Cachoeirão. No feriado de Tiradentes, mês de abril, resolvi aceitar o convite de Fátima e me mandei pra Telêmaco Borba/PR, onde pedalei por 3 dias, percorrendo basicamente estradas de chão batido cascalhadas (odeio esse tipo de estrada porque quando comprei um terreno me ralei toda) na companhia dum grupo de curitibanos, chamados Klandestinos. Com algumas subidas e descidas pegadas, o pedal transcorreu em meio à sombra dos altos e delgados eucaliptos e pinus, fruto duma ação de reflorestamento de 11 mil hectares realizada pela empresa de celulose Klabin. Em maio, na metade do mês, retornei a Caxias onde acampei mais uma vez na companhia do simpaticíssimo Grandi no mirante Gelain pedalando dessa feita na região de Nova Pádua. Foram 50 km de estradas asfaltadas e de chão batido tendo como cenário vales e serras da região dos vinhedos, conhecendo alguns travessões (nome herdado da divisão administrativa da época imperial onde colônia se dividia em léguas e estas em linhas ou travessões) cujo destaque foi o do travessão Curuzu. Ao longo das estradas, bergamoteiras e laranjeiras, carregadinhas de frutas maduras, eram um convite irresistível a que parássemos e as desfrutássemos. No final de maio, nos mandamos eu, Kelly, Henrique Butina Weyne e Carlos Armando pro sul de Santa Catarina onde, no sábado, pedalamos num bate-e-volta de 40 km entre Praia Grande e Comunidade São Roque com direito a uma escalaminhada até o topo da Pedra Branca. Já no domingão, um pedalito e pernada leves no Parque Nacional Aparados da Serra. Encerrando o primeiro semestre de 2015, a cereja dos pedais, sem sombra de dúvida, foi aquele organizado pela Guenoa e Akatu (empresas de Caxias do Sul), na região dos campos de cima da serra entre Jaquirana e São José dos Ausentes. Foram 3 dias pedalando sobre chão nem tão batido assim, com muiiitas subidas e algumas descidas bem técnicas, crivadas de pedras soltas. No 1º dia, pedal perrenguento que saiu de Jaquirana e terminou em Ausentes, com direito a travessia nas águas geladíssimas do rio Camisas. Tanta dor senti nos pés por causa da baixíssima temperatura da água que, por pouco, não pedi a um dos guris que, por favor, me pegasse no colo e me levasse até a outra margem. Já no 2º dia, a aventura  incluiu uma visita ao canyon Amola Faca, belíssima garganta situada a 15 km do distrito de Silveira. E no 3º e último dia, a indiada pedalícia terminou nas curvas deslumbrantes da serra da Rocinha. Sem sombra de dúvidas, os campos de cima da serra gaúcha além de serem bem mais preservados são muito mais belos do que os campos gerais paranaenses que eu conhecera no pedal de abril. Afora que lá não dão pinta os impressionantes canyons que aqui enriquecem sobremaneira o visual!