domingo, 24 de abril de 2011

Glória, enfim!!

Uma delícia acordar nesta límpida manhã de sábado de aleluia, sentindo um leve arrepio na pele causado pelo frescor matutino. Nem bem decorrida meia-hora após sair do acampamento das formigas glutonas, já estou eu retirando a blusa de manga comprida, ficando apenas com a de manga curta. Sinto que será um dia daqueles, de fritar miolos, bem como o diabo gosta: quente pra caramba! O sobe e desce morretes rasgados por uma estrada de areia avermelhada ocorre sem maiores sobressaltos físicos. Exceto num trecho descendente, cuja superfície coberta de lajes escorregadias me fez cair, o restante foi tranqüilo. De repente, roncos de motores anunciam nova horda de motoqueiros. Tá na cara que a tal trilha-sabonete constitui um autêntico desafio aos audazes pilotos. E fico pasma - afinal, há três dias venho encontrando essa turma do moto cross! - com a paixão que os mineiros devotam a esse esporte. A breve reflexão, no entanto, é interrompida por um quadrinho protagonizado por uma dupla de pai e filho. Cômica pra mim, pra eles, com certeza, não! O guri, um piá de 12 anos, ao atravessar um córrego, um pouco maior que uma poça d’água, perde o controle e atola a moto. Sozinho tenta erguê-la, no que é impedido pelo pai que, irritadíssimo com a imperícia do filho, afasta-o com rispidez, retirando ele próprio o veículo do lodaçal. E, mais grosso que nó de pinho, não se contém e tasca sem dó nem piedade no guri um joelhaço psicológico de dar inveja ao analista de Bagé: “mas não é possível, sô, você com a idade parece que fica mais burro!” O contraste entre a cara de palerma do guri e a expressão brava do pai é gozadíssimo. Como não sou politicamente correta, caio na risada diante da descompostura paterna! Quando chegamos ao sítio do Seu Zé Casimiro, situado aos pés da serra do Facão, uma agradável surpresa nos espera: Bernardo e Renata já lá se encontram. Tinha cá com meus botões que o casal não cumpriria com o prometido, retornando pra Delfis ou BH quando ontem se despediram de nós no Bateia. “Eita duplinha de fé, vocês, hein! Bom demais reencontrá-los”, declaro enquanto os abraço demoradamente. Contam que acamparam numa área reservada aos turistas, localizada quase às margens do rio Facão. E a bela cachoeira formada pelo rio, só conhecemos da descrição feita por Bernardo que, segundo ele, forma um lindo e largo poço cujas águas esverdeadas são super cristalinas. Seu Zé Casimiro, magro, de meia-idade, porte empinado, mais observa do que conversa. Este é mineiro da gema mesmo! Aproveitamos pra descansar enquanto aguardamos que Bernardo e Renata arrumem suas tralhas. Novamente reunida, a galera retoma a caminhada. Na paisagem, impera o perfil imponente da serra do Facão. Durante 3 km percorremos uma estrada de chão batido que Fabio, o navegador do grupo, anuncia ser uma BR (?!), conforme acusa seu GPS. E a sofisticada bússola aponta sem vacilo nossa rota: uma cerca de arame farpado a ser ultrapassada que conduzirá a uma campina que levará a......Basta, não importa onde vai dar. Confio em quem me guia. Isso é suficiente! Bueno, antes de alcançar a tal pradaria, se faz necessário atravessar um riacho cuja largura exige acrobáticos pulos da galera duma margem a outra. O esforço físico é recompensado por um campo repleto de delicadas flores, discretamente coloridas. O nome do lugar não poderia ser mais sugestivo: Vale do Céu. Daqui já se avista a serra da Babilônia onde se destaca o preciso formato piramidal do Morro das Cruzes. Ao fim de outra estradinha, surge uma propriedade, transformada agora em pousada cujas construções de alvenaria branca com portadas e janelas pintadas de azuis dão um charme extra ao lugar. Até capelinha a antiga fazenda tem! Almoçamos ali e obtemos permissão do gerente do estabelecimento para colher bergamotas, nos fartando de comê-las, escarrapachados na grama! Descoberto um pé de limoeiro, colhemos algumas dessas frutas, ingrediente indispensável no preparo da caipirinha que nosso bartender Serjão vai fazer pra nós hoje à noite, hehe. Até então a pernada que fora moleza - praticamente, no plano – termina, quando o GPS indica o próximo destino: uma descida íngreme cujas pedras soltas demandam bastante atenção de modo a evitar que se torça um pé ou se caia estatelado de bunda no chão. Daqui do alto já se avista o rio Ribeirão Grande, promessa dum refrescante tchimbum, como diz o Soto. Merecida recompensa após cinco horas na trilha, calcorreando desde as 8 da matina, quando deixamos pra trás o acampamento das formigas glutonas. Ao alcançar a margem do rio, embora de altura modesta, está lá, escavado nas rochas um largo degrau por onde deslizam jorros de espuma branquésima. Um pouco mais tarde, quando já nos encontramos no alto da colina, é possível visualizar o outro degrau que antecede aquele avistado de sua margem direita. Atende a cachu pelo gaiato nome de Rasga Saco, que não faz jus a sua formosura e à tonalidade intensa do verde-esmeralda de suas águas! A travessia é feita com cuidado porque rola um tanto de correnteza. A galera, ninguém é marinheiro de primeira viagem, faz o usual nesse tipo de passada: corrente humana. O macharedo, com seu forte instinto protetor em relação às fêmeas, dê-lhe que te dê-lhe em ajudar, com seus braços fortes, a mulherada. Prestimosas, Cassandra e Paola, as primeiras a atravessar o rio, também auxiliam estendendo as mãos pra gente se apoiar. Impagável, Soto canta aquela música – a das vitórias do Airton Sena na Fórmula 1 - em homenagem a cada um de nós que alcança a margem esquerda. Vai então que o guri se vira pra mim e manda que eu filme a cena enquanto narra a travessia, disparando bobagens do tipo “toda faceira aí, a sereia, iemanjá” pras gurias que estão aos trancos e barrancos tentando manter o precário equilíbrio provocado pela agitada correnteza. Tal contraponto clownesco à seriedade do grupo, compenetradíssimo em se ajudar mutuamente, me arranca frouxos de riso. Enquanto o grupo se restabelece da pequena aventura aquática, observo a ladeira que nos aguarda. É uma senhora lomba, com uma inclinação super acentuada. Putz grila, hoje a porca vai torcer o rabo e a cobra vai fumar porque esta subida é áspera pra caramba! Eu, que saíra do acampamento, levando a barraca na mochila (varetas e espeques, contudo, Soto, gentil, se oferecera pra carregar), me rendo. Como não quero alugar o Dib mais uma vez, peço então a Serjão que faça essa mão pra mim. Prestativo, ele amarra a barraca na sua cargueira, facilitando com esse gesto, em muito, o restante de minha caminhada. Os 2 km de subida - pouca coisa - duram 50 intermináveis minutos. Quando se pensa que acabou tem mais um tanto. Quando aquela infindável ladeira termina, eu, já esgotada de todo um dia de pernada – foram 16 km embaixo dum sol a fudê –, percorro com dificuldade os 15 minutos da estrada plana que leva à pousada do Mirante, onde os mais ligeiros já lá se encontram, bebendo, gulosos, várias e diversas louras geladas. Só faço o brinde e passo pra água mineral. Sou muito fã de cerveja, não. Quanto aos acepipes, estes não refugo, não! E mando ver no queijo com presunto, no aipim e no peixe fritos, servidos em largas travessas. Pinta então uma amigável cizânia: Bernardo, sequelado nos dez dedos dos pés onde despontam lustrosas bolhas, mais Renata, Vivi (bolhas nas plantas dos pés), Fabio (também com gordas bolhas nos dedos dos pés) e Lu optam por ficar na pousada e ir pro Gloria amanhã de táxi. Os demais decidem seguir adiante. Eu, na dúvida, ora quero ficar ora quero ir. Depois de muito “vou ficar” e “vou embora”, acabo pegando a estrada novamente, me juntando a Dib, Cassandra, Rubão, Paola, Soto, Marcão e Serjão. Nem bem decorridos 20 minutos, percorrendo uma estrada de areia avermelhada, resolvemos acampar num campo limpo cuja grama alta atrapalha um pouco a montagem da barraca. Sou, ainda, muito amadora nessas lides, afinal, é a primeira vez que tenho de armar solita a minha casa ambulante. Até então, sempre tive alguém que fez isso pra mim, hehe. Bueno, nas águas transparentes dum riacho, eu, Cassandra e Paola tomamos um refrescante banho. Banhados, limpinhos, damos início ao ritual da janta, salvo Rubão e Paola que já foram se deitar. Serjão lamenta-se porque deu uma topada numa pedra que lhe arrancou um naco de um dos dedos do pé. Jantamos à luz da via Láctea, com muitas estrelas cruzando o céu em graciosa queda livre. Domingo de Páscoa, dia da ressurreição de JC, acordo 6 da manhã. Faço meus habituais alongamentos, após o que começo a desmontar minha barraca e arrumar a mochila. Temos de chegar em Gloria a tempo de eu ir a Passos onde pegarei um ônibus até Ribeirão a tempo de embarcar no avião das 22 horas que me levará de volta a Porto...ufa!! Assim, às 7 e 30, damos início a caminhada cujo trajeto será de 16 km. Logo que saímos do acampamento, enveredamos num carreiro que conduz até a cachu do Mirante, cujas águas avermelhadas são um convite irresistível prum bom mergulho. Mas não dá pra curti-la, apenas o tempo justo pra fotografar toda aquela belezura. Durante 3 km, enfrenta-se uma ladeira onde os celulares já dão sinal. E toca a telefonar pra combinar com Zé Mauro nosso resgate no Glória. Infelizmente, sua caminhonete pifou, inviabilizando o frete. Quando cheguei em Delfis, na quarta, contratara um táxi pra ir a Passos comprar a passagem de ônibus pra Ribeirão, combinando, então, que ele a traria quando viesse nos buscar no Glória. Com essa de ele não poder vir, começo a me preocupar. Cassandra telefona pra alguns amigos de Delfis, tentando ver se descola alguém pra nos pegar no Glória, mas nada. Finalmente, Vera, mulher de Zé, descola um taxista que trará minha passagem e conduzirá parte do pessoal a Delfis...ufa!! O restante da caminhada é muito monótono: estrada de chão batido a perder de vista sob um céu azuladão, calor forte e muiiita poeira levantada por carros e motos que se amiúdam à medida que nos aproximamos de Glória. Dib acertadamente conclui que o trekking podia muito bem ter terminado ontem na pousada do Mirante. Estreitos cursos d’água insinuam seu brilho prateado através da vegetação verde escura do vale ou vão da Babilônia, dentre eles o córrego da Garrida e o rio Tamanduá. Se tivéssemos tempo (não sou só eu que tenho pressa de chegar, os outros também têm seus compromissos), seria ótimo pegar uma trilha e ir até lá embaixo tomar um banho pra retirar o pó que os carros e motos jogam em nós ao passar. Brinco com as gurias, comentando que a quantidade de pó que recobre meu rosto veio a calhar: tornou-se uma eficiente base de modo a disfarçar minhas rugas. Deixamos há muito pra trás a serra das Palmeiras, onde repousa a pousada do Mirante. Na paisagem, reina absoluta a serra da Babilônia com seus morros que se sucedem uns ao outros. Na entrada de Gloria, onde chegamos, pontualmente, às 11 e 30, Cassandra adota um cachorrinho órfão que é batizado de Leo. Dib, contrariado com o gesto da mulher, resmunga “ai Cassandra, não!”. E o inevitável pit stop num bar onde o pessoal se lava na cerva enquanto esperamos o táxi que trará minha passagem e levará Dib, Cassandra, Paola e Rubão pra Delfis. Serjão e Marco irão de ônibus mais tarde. Despedidas mis, lá partem os dois casais enquanto nós vamos até a rodoviária, encontrando num bareco em frente a praça quem?! Bernardo, Renata, Lu, Vivi e Fabio, num alto astral, confraternizando entre garrafas e mais garrafas de cerva. Até eu entro na roda e mando ver na loira gelada! Bom demais esse trem que é a vida, sô!!
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sexta-feira, 22 de abril de 2011

Campo minado na 6ª Feira da Paixão

Quando acordo lá pelas 7 da manhã, só restam cinzas da fogueira feita, ontem à noite, por Serjão. Como a galera ainda não apareceu, Serjão e Marco começam a elaborar mis hipóteses e chegam ambos a uma triste conclusão: a travessia gorou, Dib e o pessoal retornaram a Delfis, sabe-se lá por quê. Serjão me oferece sua casa, propondo que façamos pequenas excursões de bate-volta pra eu conhecer os atrativos que o entorno de Delfinópolis oferece. Será meu plano B, caso o pessoal realmente tenha desistido da travessia. Até começo a me conformar e achar atraente a idéia de terminar meu feriadão de Páscoa na pacata cidadezinha mineira. Os dois homens, entretanto, não sossegam o pito e resolvem dar uma banda pelas redondezas afim de ver se encontram o grupo. Decidem, num primeiro momento, que apenas Serjão irá. Marco permanecerá no acampamento junto comigo pra me proteger (do que não entendi...só se for dos pernilongos, hahaha!!). Deixo que eles viajem nessa nóia e nem argumento tentando convencê-los do contrário. Eles, inquietos - a bem da verdade, mais Serjão que Marco - vão até a estrada, voltam, retornam até a estrada, até que, sérios, declaram que vão procurar o grupo. Juntos. Esses dois estão bem bolados, uai. Há 15 minutos não queriam que eu ficasse sozinha nem por decreto e agora partem, na maior, me deixando plantada no acampamento sem mais nem menos! Parecem uma versão caipira do Gordo e do Magro, hahaha!!!Estou eu comodamente instalada na barraca, lendo um bom policial, cujo entrecho se passa em Veneza, quando escuto vozes. Saio e vejo André, Serjão e Marco cruzando a ponte enquanto o resto do grupo segue mais atrás. E tudo se esclarece. Devido ao adiantado da hora, resolveram dormir noutro local, situado 15 minutos distante do nosso. André, Cassandra, Rubão, Paola, Vivi, Fabio, Lu e Soto partem na frente, enquanto nós ficamos desarmando nossas barracas. Bernardo, com um arzinho acabrunhado, comunica que ele e Renata não seguirão mais conosco. A moça, que faz sua primeira travessia, não resistiu ao esforço físico despendido ontem, infelizmente. O jovem músico e fotógrafo garante que estarão nos esperando ainda hoje no acampamento do rio Facão. Nesse meio tempo Serjão declara que volta pra Delfis. Não vai mais continuar a travessia. Surpresos, eu e Marco, em coro, questionamos dele: "O que houve Serjão?" Está magoado com Dib que, segundo ele, acusou-o de não ter espírito de equipe porque não aguardou o restante do grupo, ontem, se mandando na frente com Marcão e comigo. Meu deus, que dramalhão!! O negão com o beiço lá nos peitos arruma sua mochila com ar amuado. Marco e eu tentamos dissuadi-lo de voltar atrás em sua decisão. Entretanto, ele se mantém irredutível. Quando eu, já resignada em continuar a pernada sem ele, começo a caminhar pra alcançar o pessoal, percebo que Marco conseguiu, ulá lá lá, convencê-lo a continuar a jornada. E assim, às 9 da matina, deixando Bernardo e Renata às margens do Bateia, pegamos uma trilha que, embora se faça num terreno plano, se apresenta encharcado a mais não poder. Com cuidado e um pouco de sorte, Marco e eu conseguimos evitar de pisar na lama preta, o mesmo não sucedendo com Serjão que vacila e enfia a perna até quase o joelho naquele lodaçal escuro. Se não fosse o lodo, que empata demais a caminhada, o trajeto não teria levado 45 minutos. Finalmente, alcançamos terras secas onde se tem o último ponto de água do dia num pequeno córrego de águas límpidas. Água daqui pra frente só no acampamento à tardinha. Tem início, então, uma sucessão de pequenos aclives e declives, percorrendo uma trilha pedregosa onde abundam canelas de emas, estas sim, de porte avantajado, diferenciando-se das encontradas ontem, cujos pequenos cotos só atrapalharam a caminhada. Um saco! Raro o arbusto que ainda retém no talo a linda flor violeta, já que o momento de sua floração se está a esgotar. Pois saibam vocês que as flores da canela de ema são comestíveis e da raiz se extrai chá pra acalmar dores reumáticas e lombares. Pensam que acabou? Só não!! Seus caules podem ser usados como lenha, e, pasmem, se bem batidinhos, até pincel viram! Portanto, se o vivente se perder no cerrado, fica não em má companhia, caso se encontre num campo de canelas de emas. Come, se aquece, acalma aquela dorzinha nos costados da forte caminhada e ainda pode pintar o sete com o que sobrou do caule!! Lá vou eu seguindo o estreito trilho que rasga a vegetação, tendo como cenário, à minha direita, durante um bom tempo, a represa Peixoto, as cidades de Glória e Passos, mais os distritos de Ponte Alta e Olhos D’água, lá embaixo, no vale. Céu azul de anil. Esparsas, as nuvens são insuficientes – uma pena - pra toldar o sol que, inclemente, já na casa dos 30º C, castiga a manhã. Estamos agora na crista da serra Grande, uma bifurcação da serra Preta, que, juntamente com uma outra enfiada de morros, forma o vale da Bateia, à semelhança dum gigantesco anfiteatro. Muita confabulação entre os navegadores Fabio e André sobre o melhor caminho a seguir. De certo, o GPS aponta um morrinho cheio de vara-mato que nos deixa apreensivos. Eu, mais desnorteada que cego em tiroteio, saco de minha bússola e comprovo que estamos indo pro sul. Pelo menos isso sei. Pra quem consegue se perder em shopping até que estou progredindo no quesito orientação. E tem início uma subida e descida no tal vara-mato da serra Grande, mais pra vara-pedra, tamanha a quantidade de pedras que forram o terreno. Durante 25 minutos, percorremos outro jardim de canelas de emas, pontuado por árvores cujas copas exibem farta e verde folhagem. E sem aviso prévio, a caótica vegetação rupestre cede espaço ao cenário absolutamente clean dos campos limpos. Cobertos apenas por gramíneas, na paisagem minimalista da savana, despontam aqui e acolá mirrados arbustos despidos de folhas. Pouca flor, destacando-se a estrelona, cujas pétalas brancas, em número de 5 a 6, apoiam-se num finíssimo e longilíneo caule. Besouros zumbem no calor forte do início da tarde enquanto almoçamos embaixo da sombra rala duma árvore. Eita calorzão bom! Muito pé de arnica, tanto da branca quanto da melada, a que presta pra fazer remédio. Pego um galhinho e guardo. Servirá pra avivar o sabor duma cachaça que ganhei há 3 anos quando estive na chapada dos Veadeiros. Vejo aqui de cima, dum outro ângulo, o pequeno vale do rio Bateia e o trajeto acidentado de subidas e descidas percorrido até aqui. E sem chance alguma de sombra nos campos limpos, a pernada, cruzando a vasta campina, dura 2 horas e 30 minutos. Caminhando na estradinha de areia branca, mais uma vez se faz visível, à esquerda, a onipresente serra da Gurita. Batizada, neste trecho, de serra do Cemitério, seu paredão oriental crivado de ravinas mostra-se já ensombrecido, embora sejam apenas 3 da tarde. Dezenas e dezenas de motoqueiros vêm subindo do vale até a serra, numa procissão infernalmente ruidosa, deixando atrás de si um rastro de polvadeira. No encruzo da Serra Branca, deixamos a estrada e pegamos uma trilha descendente, no meio da campina, até adentrarmos novamente os campos rupestres. Decorridas oito horas e meia de pernada, num total de 18 km e 500 m de desnível, já quase noite, com todo mundo cansadíssimo, André, nosso capitão, resolve não seguir adiante até a cachoeira do rio Facão como previsto. Acampamos, pois, à beira dum riacho cujas águas transparentes revelam belos lajedos esverdeados. Quando termino de montar minha barraca, cheia de cuidados pra não colocá-la em cima dum dos inúmeros formigueiros que minam o terreno, percebo que se faz tarde pra tomar banho e desisto de entrar na água. Limito-me apenas na lavação de rosto e pescoço e em escovar dentes. Afinal, ontem tomei banho, um dia sem, faz mal não! Serjão arma uma fogueira rapidinho em cuja volta se reúne a galera que cozinha, em pequenos fogareiros, seus ranguinhos. O casal Fabio e Vivi se esmera na comilança. Até antepasto, com linguiça e azeitonas, sua janta tem! Já Dib e Cassandra comem sofisticadas comidinhas liofilizadas. A cachacinha esperta rola de mão em mão. E aí todo mundo fica mais risonho ainda. A conversa animada estende-se durante algum tempo até que o cansaço bate e o povo começa a debandar pras suas tendas. Eu já deitada, quase dormindo, escuto Vivi aos gritos anunciar “elas tão comendo a barraca”. Curiosa, salto pra fora e pergunto “quem, criatura, quem?” A, até então, pacata Vivi, muito agitada, responde “as formigas, Bea, as formigas”. Assim, ela e Fabio são obrigados a transferir a barraca prum outro local distante do famigerado formigueiro. Recomendo-lhes, portanto, que passem repelente no toldo pra afugentar a sanha comilona desses diligentes insetos. E volto pra minha barraca, refletindo sobre a mudança dos costumes. Tsk tsk tsk...até formigas não guardam mais jejum neste dia santo que é a sexta-feira da Paixão...tsk tsk! Um corisco prateado risca veloz o escuro do céu: é uma estrela cadente dando o ar de sua graça na noite fresca do cerrado. Coisa boa esta vida no mato!
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quinta-feira, 21 de abril de 2011

Serra Preta sob um céu de anil

O coelhinho me reservou uma baita surpresa nesta Páscoa. E tive de ir longe pra ganhar - não ovinhos que teriam derretido sob o sol escaldante do cerrado mineiro - 12 novos amigos com quem trilhei, durante 4 dias, 70 km de subidas e descidas, partindo de Delfinópolis até São João Batista do Glória. Mas que coisa essa minha ansiedade, já estou eu adiantando a estória! Te acalma, Biazinha, relaxa (pausa), e trata de retornar no tempo, aterrissando tua pressa no aeroporto de Ribeirão Preto junto com o avião que acaba de pousar em solo paulistano nessa bela manhã de quarta-feira. Pensar que tudo começou quando eu, ao ler as postagens no facebook, me deparo com uma feita pelo André Dib falando sobre uma caminhada na Serra Preta que ele está querendo organizar pra Páscoa. Sem nenhum plano definido pro feriadão - falta apenas uma semana -, vejo ali uma boa promessa de trek. E bem metida - nem conheço o cara! - me ofereço, assim, na cara dura, pra participar da indiada. E ele topa! E me agrega ao grupo! Iniciamos, então, uma série de troca-troca de emails em que os demais membros da expedição são agregados àquela tripa que se forma nas correspondências eletrônicas. Assim vou conhecendo um pouco as pessoas com quem conviverei no feriado pascoalino. E, eis-me aqui, diante de Cassandra, mulher do Dib, que está me aguardando no aeroporto. A jovem mulher escancara um hospitaleiro e largo sorriso de boas vindas. Seus olhos castanhos dum colorido extraordinário sorriem também. Cassandra, a meu pedido, me deixa próxima a um supermercado onde compro o rango que levarei, calculado milimetricamente pra cada dia de caminhada: 3 massas miojo, 3 latas de sardinha com molho de tomate, pão preto, polenguinho, um mix de nozes, castanhas, amendoim e pistache, 3 todinhos, 6 barras de proteína e 2 de cereais. É com isso que vou me alimentar. Nada mais que isso, hehe. Afinal é a primeira vez que levarei mochila cargueira com barraca e tudo nas costas. Assim quero economizar ao máximo no peso. Depois dum almoço com André e Cassandra, simbora pra Delfinópolis, carinhosamente apelidada de Delfis pelos íntimos, onde chegamos após 2 horas de viagem no carro, atrolhado de bagagens, conduzido pelo André. Situada do outro lado da represa Peixoto, alcançar essa cidadezinha mineira com pouco mais de 6 mil habitantes, exige sabem o quê? Travessia de balsa. André – ah, esse Dibão – cumpre seu ritual de nadar ao largo do poderoso ferry boat amarelo até a margem oposta. Adotada que fui pelo casal, sou convidada pra visitar uns amigos. Já na casa de Vera e Zé Mauro sou tão bem recebida que não tem como não me sentir à vontade. Com vinhos tintos de boa qualidade, celebramos a ressureição do Zé (por pouco não ficou paralítico devido a um acidente de bici) e ao niver antecipado do André, que completará 35 aninhos amanhã. Pra forrar o estômago, pãezinhos saídos do forno em que a manteiga se derrete em contato com a massa. Não faltou na mesa, pois pois, queijo da Canastra, uai! Lá pelas tantas chegam o Bernardo e a Renata, mineiros de BH, mais o Rubão e a Paola, naturais, também, de Ribeirão Preto. Jantamos os sete na Pizzaria Barco onde tomamos mais 2 garrafas de vinho tinto, terminando com certa relutância a noitada. Mas o dever se impõe: amanhã é dia D, portanto, caminha!! Pernoito numa pousada bem simples, cuja dona, a afável Maria Olivia, ainda de pé, me recepciona, apesar do adiantado da hora: passa um pouco da meia-noite.
Embora tenha dormido, se tanto 3 horas, excitada pelo vinho e pela perspectiva da pernada, lá pelas 5, o celular toca a alvorada, o que faz com que eu levante serelepe, nesta quinta-feira, 21 de abril, data da morte de Tiradentes, como se tivesse dormido 10 horas a fio! Na Padaria Lima, encontra-se uma galera que também participará da pernada. Chegaram os paulistas ontem à noite mas sei lá por que acabaram se desencontrando de nós. Dos 4, somente Jorge Soto me é familiar. Conheço o cara de nome, porque leio suas aventuras no site AltaMontanha. E como ninguém se apresenta, trato eu de me apresentar. Descubro, assim, Vivi, Fabio e Lu, amigos de Soto, devorando, com devoção, sandus de mortadela. A padoca exibe em suas montras biscoitos, pãezinhos doces e salgados mais uma variedade de iguarias de deixar a gente com água na boca, sem saber o que escolher. Opto por um pão de queijo e um enroladinho de goiabada. Alimentados, embarcamos nos carros e rumamos até o sítio do Ézio e da Saulita que cobra modestos 5 pilas de ingresso. Ali deixamos os carros até nosso retorno que acontecerá domingo. Em cima do balcão do bar, uma cachaça de cor amarela chama minha atenção. Envelhecida em barril de carvalho, a aguardente, produzida nos alambiques de São João Batista do Glória, goza de boa fama entre os apreciadores desta bebida. Embora o sol mal dê pinta atrás dos morros que guardam a região - nem bem 7 horas ainda são -, sigo à risca aquela regra de etiqueta “em Roma como os romanos”, motivo por que sou obrigada a pedir um gole da pinga, comprovando, assim, sua excelência. Não dá outra: compro R$ 2,10 da cachaça que, segundo a medida generosa de Saulita, praticamente enche uma garrafinha de plástico de 500 ml. E ao pegarmos a trilha que nos conduzirá ao alto da Serra Preta, guardo no canto do olho a visão do elegante chapéu branco, envergado por Ézio. Na subida constante até o alto da serra Preta, alguns trechos empedrados exigem certo cuidado. Como estou carregando a tal mochila, cujo peso ultrapassa um pouco os 9 kg, minha passada mais lenta me obriga a caminhar devagar. Sem pressa nenhuma, vêm atrás de mim, Marco e Serjão, dois amigos de Dib, também paulistas. Curiosa que sou, trato logo de travar conhecimento com a dupla. Dá pra perceber que eles já se conhecem faz um eito pelo conversê animado e cheio de referências que trocam entre si. Entretanto, minha paixão pela Geologia, desvia-se pra qualidade das rochas, de evidente origem sedimentar, que formam o complexo da Canastra. Em certos trechos, impõe-se uma composição calcárea no arenito, permeando-o de branco e amarelo. Pequenas cachus interrompem o fluxo do rio que passa ao largo da trilha por onde caminhamos. Embora não seja primavera, os arbusto exibem discreta floração azul, lilás, rosa, amarela e fúcsia. À medida que ganhamos altura, mais frequentes as canelas de ema. Pena que não estejam em época de florada, pois se assim fosse seria um festival lilás de encher os olhos. Os campos rupestres, uma das vertentes vegetais do cerrado, dá um show de elegância visual. Quando atingimos a crista da serra Preta, um coro de ohs ecoa do grupo enquanto as máquinas digitais disparam cliques, enquadrando a deslumbrante visão da serra da Gurita. Situada entre as serras Preta e da Canastra, a Gurita apresenta, em sua verdejante parede oeste, profundas ravinas onde, de algumas, despencam quedas d’água com bem mais de 100 m de altura. Ao longe, mal e mal, divisa-se uma nesga da crista da Canastra. Depois da árdua subida que durou 3 horas, somos recompensados com uma caminhada sobre um terreno plano crivado de canelas de ema cujos pequenos tocos dão calços insidiosos em nossos pés, caso não prestemos atenção por onde andemos. Já com o termômetro ultrapassando em dois pontos os 30º C – e nem 11 horas ainda são! - providenciais córregos ao longo da trilha proporcionam momentos de refresco onde fazemos breves pausas pra molhar rosto, pescoço e repor água nos cantis. Quando atingimos aquele monstrengo metálico que os tempos modernos impõem na paisagem – uma torre de telefonia celular -, um descanso se impõe. Não é fácil caminhar com mochila pesada embaixo dum sol a pino mesmo após 4 horas. Todos estão cansados, exceto Soto. Esse guri, de 40 aninhos, curte demais desafios. Moleque, sobe até o final da torre pra fotografar do seu alto a região. O resto do grupo limita-se a observá-lo, uns não se animando a segui-lo por falta de coragem – meu caso - , outros por preguiça e os demais por total desinteresse nesse tipo de proeza. O céu seria dum azul quase impecável, se não fossem alguns tufos gorduchos de nuvens espalhados aqui e acolá. Por breves momentos, uma nuvem desgarrada passa sob o sol, toldando-o. Aleluia!! Bem vinda sombra! Contudo a moleza da caminhada sem subidas termina após mais uma parada que fazemos, dessa feita, pro almoço. A nossa frente, duas marvadas e íngremes lombas, intervaladas entre si por um breve trecho de terreno plano, nos acenam com um sadismo alegre. Se eu não estivesse carregando a tal cargueira, não teria penado tanto. Porém o peso nos costados me faz sentir muito as duas ladeiras. Subo a última rampa do dia bufando. Com desespero, me apoio nos providenciais bastões que costumo usar nos treks. E suspirando de alívio - aleluia - alcanço o topo do morro, onde mais uma vez me reúno a Marcos e Serjão que, já há algum tempo, ali se encontram. E partimos, deixando lá embaixo o resto do pessoal que aguarda, contudo, a chegada de Bernardo e Renata. Os mineiros, coitados, já evidenciam muito cansaço, em particular, a moça, nem um pouco afeita a pernadas tão árduas. Serjão e Marco - coisa mais querida esses dois -, no afã de mostrar seus conhecimentos sobre a região, revelam, pra minha alegria, os nomes dos lugares. Assim, fico sabendo que aquela cicatriz, rasgando a cobertura verde da crista da serra Grande, é a estrada do Céu. Já a oeste, Marco identifica os pequenos pontinhos brancos, perdidos na vastidão do verdejante vale, como Olhos d’Água e Ponte Alta, distritos pertencentes a Delfinópolis. Serjão deixa vir a tona seu passado de guia e informa que a represa Peixoto, onipresente neste primeiro dia de pernada, não gera energia, não! Funciona como uma grande caixa d’água, alimentando, dessa forma, algumas usinas hidrelétricas que se localizam abaixo dela. E meus dois companheiros orientam meus olhos míopes em direção à chamativa serra da Babilônia onde jaz aos seus pés São João Batista do Glória, conhecida apenas como Glória, e um pouco mais adiante Passos. Consigo, então, vislumbrar o restante do nosso trek, guiada pela visão precisa de Marco. Ulálá....nem acredito!! Finalmente, uma descida que conduz ao vale do Bateia. Percorremos então uns campos sujos com direito a paradinha pra encher os cantis num minguado filete d'água. Após um ligeiro bate-boca entre Serjão e Marco sobre qual o melhor caminho pra alcançar a estrada do Lazinho Vassoureiro, desembocamos na dita cuja. Coberta daquela areia fininha e bem branquinha, eis de repente, a estradinha invadida por um cortejo infindável de dezenas e dezenas de motoqueiros que passam levantando poeira e sujando o silêncio com o barulho de seus possantes motores. Até me distraio um pouco do cansaço e, embora um pouco irritada devido ao cansaço, retribuo as saudações de alguns motoqueiros. Chegamos enfim ao acampamento, situado às margens do rio Bateia. Intermináveis essas últimas 3 horas. Foram 10 horas de pernada pra vencer 22 km num desnível de 850 m!! Segundo André, o dia mais pauleira dos quatro. Será? Quando tiro a mochila, meu corpo, desequilibrado pela ausência do peso (?!), balança pra frente e pra trás. Me sinto como aquele brinquedinho, o João Bobo, tão ligados? Aaahhh.... mas nem tudo são espinhos. O Bateia, rio estreito e pedregoso, num trabalho de erosão milenar nas rochas, criou um diminuto canyon através do qual se espremem as águas até então tranqüilas de seu curso, despencando vibrantes e livres, logo adiante, no largo degrau que forma uma bela cachoeira. Entro na água morninha do rio e lavo meu rosto melado de sal do tanto de suor que verti durante o dia. Nem acredito no que não sinto: nenhum mosquito incomodando! Sob um céu estreladíssimo, jantamos, enquanto conjecturamos sobre o atraso do grupo. O que será que houve, perguntamos num misto de curiosidade e preocupação. Concluímos, depois de muito conversê, que eles preferiram, devido ao adiantado da hora, parar e acampar em outro lugar. Exausta, afinal, dormi pouquíssimo a noite passada, dou boa noite e me recolho na barraca. Meu corpo anseia pelo conforto da horizontalidade. Os dois homens, animados pela caipirinha feita por Serjão, batem animado papo que escuto, deliciada, do interior de minha "casa". Lá pelas tantas, Marco, com aquela sua fala arrastada, declara “Ser - jão (pausa), vou dor – mir”. E o silêncio reinaria no acampamento se não fosse o ruído forte da correnteza do rio Bateia.
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