quinta-feira, 31 de março de 2005

A cidade oculta

No quarto dia da caminhada, último, portanto, somos acordados às 4 da madrugada, noite fechada; após o desjejum, seguimos viagem. Uma lástima essa parte inicial da trilha ser feita neste breu, não dá pra curtir nada da paisagem. Se hoje eu fosse novamente fazê-la, sairia com luz do dia para poder admirar a belíssima paisagem que se tem ao descer esta etapa final da trilha. Eu comprara uma lanterna de testa pra facilitar a caminhada. Infelizmente, lá pelas tantas, as pilhas acabam e eu faço a trilha no escuro. Não sozinha, graças a deus, pois Moisés ordena a um dos carregadores que me acompanhe no trecho escuro. Começa a chover, não aguaceiro como o do dia anterior, porém uma chuva miudinha que torna o caminho mais perigoso pois escorregadio. Não me deixo abater, sento e continuo a descer de bunda aqueles infindáveis degraus talhados na rocha. Quando os primeiros raios de sol apontam percebo que do lado direito há um profundo precipício, sinto aquele frio na barriga, estaco louca de medo (o carregador já se mandara assim que o dia clareara), o austríaco, que está um pouco mais à frente, percebe minha aflição e estende-me a mão. Ultrapassada a tal curva estreita com uns degrauzinhos bem inclinados, isso sem falar do tal buracão que me espia guloso lá do fundo do precipício, agradeço mais uma vez ao deus sol. Alcanço, por fim, meu grupo (sou sempre a última a chegar) que já se encontra em Intipunku, a porta do sol, um espaço retangular de onde se avista uma panorâmica de Machu Picchu, situada mais abaixo, num platô de montanha. Esse sítio foi, ao que parece, uma espécie de alfândega cuja finalidade seria a de controlar o ingresso de quem chegava ou saia da cidade sagrada. O dia, inicialmente chuvoso, se transformara: o céu desenfarruscou e o sol nos contempla em todo o seu espendor. E lá vou eu cansada e feliz, cansada porque este está sendo, pra mim, o dia mais difícil. Também, pudera, caminho há 4 dias enfrentando sobes e desces constantes, numa sucessão vertiginosa de degraus! Felizmente, daí em diante, os degraus cessam e a estradinha calçada de pedras facilita em muito o passeio. Enfim, avisto a linda Machu Picchu, tendo ao fundo o cerro Wayna Picchu (a vista lá de cima é sen-sa-cio-nal). Esta cidade, construída sob o comando do grande líder inca Pachacutec, em 1438, foi preservada do espírito saqueador dos espanhóis porque seus habitantes, quando sentiram a aproximação dos invasores, muraram suas portas, conseguindo, dessa forma, protegê-la por séculos a fio, façanha esta em muito facilitada devido à densa vegetação existente. Em 1911, Hiram Bingham descobriu-a, acidentalmente, revelando esse tesouro para os olhos de todos que queiram se aventurar até lá. Machu Picchu é dividida em dois setores, o agrícola, com seus terraços destinados ao plantio, e o urbano onde se localizavam os templos, palácios e ruas. Construída sobre a superfície estreita e desnivelada de uma colina rodeada pelos precipícios do imponente canyon do rio Urubamba que serpenteia 400 metros abaixo, essa magnífica cidade impressiona pela perfeição técnica e arquitetônica, mantendo-se praticamente intacta até os dias de hoje, ressalvada, é claro, a ação deletéria do tempo. Como estou muito cansada, passeio brevemente por algumas de suas ruelas e decido ir pra Águas Calientes descansar un ratito, comer algo e retornar à tarde, com calma, pra poder melhor admirá-la. Faço o trajeto caminhando apesar da existência de transporte regular entre as duas localidades. Não me arrependo, o percurso é muito bonito (dá mais ou menos uma hora), encontro flores belíssimas, além das lindas orquídeas e bromélias que ladeiam os degraus da estradinha, porque, sim, mais degraus me acenam pra dar um alô final às minhas já, confesso, exaustas pernocas. Mesmo cansadíssima, ainda, flano um pouco por Águas Calientes, almoço um lanche rápido e procuro meu hotel. Em lá chegando, peço pro recepcionista me acordar às 14 horas já que tinha intenção de voltar a Machu Picchu. Qual o quê! Afundo na cama e só acordo no dia seguinte às 8 da manhã. O rapaz da recepção me explica, no dia seguinte, que batera à porta do quarto no horário combinado mas que eu nem tchuns pra ele. Putz...que merda, e no dia seguinte, eu tenho de voltar pra Cusco....fazer o quê?

quarta-feira, 30 de março de 2005

Deitada sobre nuvens

Atualmente, são autorizados a percorrer os 48 km do trajeto apenas 500 turistas por dia (à semelhança de nossa Fernando de Noronha). Oriundos de vários pontos do planeta, a maioria, são, claro, jovens. Daí ser perfeitamente visível em alguns trechos do trajeto, aqueles onde as trilhas são ascendentes e livres de vegetação em ambos os lados, uma fila de pessoas subindo por ela. Bueno, quando chegamos ao nosso acampamento, no segundo dia, por voltas das cinco da tarde, servem um lanchinho com pipoca mais um tipo de massinha doce frita polvilhada com açúcar e canela, de bebida um chá bem quentinho. Eu havia conhecido um grupo de jovens brasileiros, paulistas, enquanto trilhava a famosa subida dos 1.200 metros, que me haviam convidado para visitá-los em seu acampamento (ao longo da trilha inca há diversos lugares demarcados onde são permitidas áreas de camping, ocupando cada excursão um lugar já previamente definido). Convido Debi pra ir comigo e lá vamos nós procurar o local onde os muchachos estão. Suas barracas distam das nossas uns 500 metros. Como está escuro e nós não conhecemos o caminho, demoramos uns 15 minutos para encontrá-los. É nos oferecido uísque, bebemos um pouco, jogamos conversa fora e retornamos porque quase hora do rango. O tal de lanchinho já foi há muito digerido, considerando-se o enorme dispêndio de energia gasto naquele dia. Após o jantar, nosso grupo fica de bate papo, não tardando contudo que busquemos cada um nossas barracas já que os corpos pedem encarecidamente um bom descanso. Ah, o terceiro dia, este dia. Este pra mim é o mais belo de todos. Parte-se do acampamento, subindo por uma estradinha de chão batido, para então se entrar noutra, calçada de pedras. De novo, começa-se a subir. Eis que de repente, surge, no meio do caminho, nada mais nada menos que um túnel escavado na rocha, com aproximadamente 18 metros de comprimento, largo o suficiente para permitir a passagem de animais e pessoas (e pensar que tudo isso foi feito por homens que habitaram nosso planeta há centenas e centenas de anos atrás e construíram todas essas maravilhas sem a ajuda de quaisquer equipamentos, apenas usando a força de seus músculos). E a longa calçada de pedras serpenteia pela encosta da montanha, num sobe e desce constante. A vegetação torna-se luxuriante. Vejo campos de violetas cobrindo uma pequena planície ao longo da estrada. Mais adiante maciços de margaridas pintam de amarelo o verde da grama. E as orquídeas, ah, as orquídeas! Variedades delas, muitas variedades, numa diversificada cartela de cores. Bromélias enxeridas penduram-se nos galhos das árvores, e o sol radioso lança seus raios mornos nesta esplêndida tarde de outono. O que mais eu posso deseja hein? O silêncio é música nos meus ouvidos, motivo por que acelero o passo e deixo Debi pra trás: não posso permitir que nenhum conversê quebre este momento mágico e único que estou vivenciando. Chegamos então a outro grupo de ruínas, Phuyupatamarca, situado num local privilegiado de onde é possível avistar-se uma grande extensão de terras. Em razão da altitude, 3.700 metros, esse conjunto de construções paira sobre nuvens que se formam nos vales ao redor. A-que-la pa-i-sa-gem: sob meus pés aquele nuvaredo branco, espesso, tal qual um fofo tapete feito de algodão. Que vontade de deitar e lá ficar, admirando o céu azul, azul, sussurro pros meus botões. Dou um basta em minha veia fantasista e retomo a descida que conduz a uma planície onde paramos para o almoço. Debi mais eu resolvemos seguir em frente, deixando pra trás nosso grupo. Logo, entramos numa zona de densa vegetação. A trilha retoma seu chão de terra (a bela estradinha pedregosa ficara há muito para trás), em ambos os lados da estrada, árvores centenárias, samambaias gigantescas enfeitam espinhentos pés de xaxim, muito verde, tudo verde, e o céu azul lá em cima pisca cúmplice pra mim (basta de fantasias, por hoje, mulher!). Atravessa-se outro túnel, menor que o anterior, porém igualmente encantador. O caminho é qualquer coisa de belo, mágico, e nem a chuvarada forte que desanda a cair tira meu bom humor e alegria. Até alcançarmos o local onde deveremos acampar, o aguaceiro é bastante severo (quase uma hora embaixo de chuva torrencial), busco, então, abrigo num posto de vigilância, onde aguardo o resto do grupo totalmente encharcada e batendo queixo. Os carregadores, sei lá por quê, se atrasam (a regra é eles chegarem antes dos turistas, de modo que já encontremos as barracas montadas), e temos de aguardar, molhados e famintos, até que tudo fique pronto. Comemos nossa substancial merenda e vamos conhecer Wiñaywayna (jovem para sempre, em quéchua), outro grupo de ruínas construído às bordas de um precipício suspenso sobre o rio Urubamba. Mais um dia que finda.

terça-feira, 29 de março de 2005

Sayacmarka

Acordo com um dos porteadores batendo palma diante da barraca e estendendo uma xícara de chá de coca (nos demais dois dias, o mesmo ritual irá se repetir), sinal de que é a hora do desjejum. Levanto feliz do meu saco de dormir e vou para o refeitório onde sobre a mesa estão dispostos pão, biscoitos, bolo, geléia, manteiga, queijo, leite, saquinhos de chás de vários sabores, sem falar na tigela de mingau bem quentinho que é passada de mão em mão por sobre uma lona que divide o refeitório da cozinha. Saímos, deixando pra trás os carregadores embalando todo o material da excursão (não é que algum tempo depois eles ultrapassam a gente levando no lombo mais de 20 kg de utensílios?!). O caminho torna-se mais íngreme, percebe-se com nitidez a trilha sulcando a encosta da montanha num risco ziguezagueante cor de areia. Dum lado o paredão rochoso protege, do outro, o precipício amedronta um pouco. Por incrível que pareça não me abate a altitude, nem tenho ataques de pânico, a trilha é larga o suficiente de modo que me sinto segura. Subo calmamente, olho vez por outra para o alto onde sei que atingirei uma altitude, pra mim inédita, de 4.200 metros, mas sempre ligada na cenário ao meu redor: delicadas flores duma belezura ímpar, em que o colorido de suas pétalas pulam do roxo ao amarelo, passam pelo vermelho, detém-se no carmesim, rápido momento rosa e ao final o branco imaculado cintila ante meus olhos castanhos. Esta parte do trek me assustava muito: relatos lidos na internet consideravam-na o ponto crucial. Entretanto, venço com facilidade os tão temidos 1.200 metros de subida (a pobre Debi passa mal nesse trecho. Moisés, inclusive, tem de socorrê-la, dando-lhe um remédio contra o soroche) e alcanço Abra de Warmiwañuska que, significa em quéchua, passagem da mulher morta. As mudanças no clima, logo, logo se fazem sentir. Nuvens cinzentas abocanham o brilho do sol. Escondido o astro-rei, a temperatura até então amena, declina, um ventinho começa a soprar e a paisagem adquire um tom espectral. Abaixo de nós um vale magnífico descortina um pequeno riacho. Para alcançá-lo não mais uma estradinha de chão batido a enfrentar, e sim uma impressionante escadaria de largos e altos degraus que não acaba nunca. Confesso, é mais duro descer que subir! Depois de descer 500 milhões de degraus, volta-se a subir, dessa feita, por uma trilha pavimentada de pedra quando surge no meio do caminho uma pequena construção ovalada. Supõe-se tenha esta ruína servido de hospedagem aos incas que iam visitar o templo sagrado de Machu Picchu. Uma névoa cobre boa parte da paisagem imprimindo-lhe um ar claramente fantasmagórico. Fotos, fotos e fotos. Continua-se a trilha não subindo, porém escalando estes degraus de pedra (degraus altíssimos, gente, ou então minhas pernas é que são muiiito curtas), quando então se avista à esquerda uma lagoa, mais adiante, à direita, outra. Tão lindo, belo e inesquecível. A escadaria cede lugar a uma trilha de chão batido para novamente ceder lugar a uma estreita e inclinada estradinha de pedra, onde se avista outra lagoa, essa de cor esverdeada, pra finalmente se alcançar Sayaqmarka, cidadela inca situada aproximadamente a 20 km de Machu Picchu. Beleza pura essa ruína embora pequena. Situada sobre um promontório, chega-se a ela através de uma estreita escadinha de pedra que pende do lado direito para o precipício (aqui eu levo medo, quase desisto de visitá-la, entretanto meu pânico de altura é vencido pela curiosidade). Ando por suas ruas, entro em salas e faço questão de me perder em seus desvãos, curtindo as flores que colorem de amarelos seus muros de taipa. E lá de cima, novo vale se abre formado pelas encostas dessas magníficas montanhas peruanas.

segunda-feira, 28 de março de 2005

A caminho de Machu Picchu

E a segunda-feira traz o tão sonhado trek! Havia passado uma noite de cão com indisposição intestinal (só pode ter sido responsável por tal desconforto o leitãozinho comido na sexta-feira). Só depois que alivio as tripas de toda a porcaria, consigo dormir e acordo inteira, graças ao deus Sol! Saímos de Cusco lá pelas 9 horas chegando no km 88, perto de Ollantaytambo, de onde iniciaremos a caminhada. Descemos e almoçamos num espaço especialmente destinado aos caminhantes que farão a trilha de 4 dias. Nosso grupo de 5 pessoas compõe-se da Debi e Laurie, típicas americanas, joviais e bem dispostas, mais um casal de austríacos, cujos nomes não fiz questão de guardar, introvertidos embora educados. O guia, Moisés, um índio pequeno e magro, é correto, nada de excepcional. Bacanas mesmos são os quatro carregadores – porteadores – que levam todo o equipamento: mochilas, barracas, acessórios de cozinha, mesas, bancos, mantimentos e até um botijão de 30 kg! A simpatia e bom humor desses homens, sua força, vigor e agilidade demonstrados ao longo do trajeto me impressionam e comovem, inda mais sabendo quão pouco ganham. E sempre atenciosos e gentis quando servem nossas refeições. Já são quase duas horas quando iniciamos a caminhada. Eu sinto um frio, na barriga, de tão excitada. Atravessamos a ponte sobre o rio Urubamba e entramos numa trilha estreita cercada de densa vegetação. No primeiro dia ainda carrego minha mochila de 15 litros, no segundo pago a um dos rapazes, porque não estou a fim de castigar minha coluna. Apoiada no cajado (comprara um que lastimavelmente esqueci num táxi em Arequipa), suspiro de prazer, enquanto admiro a paisagem ao meu redor. Após a trilhazinha inicial dentro do mato, Moisés nos mostra uma pequena ruína inca - Patallaqta - situada à beira do rio de barulhentas e rápidas corredeiras. Abre-se então a trilha para o vale, situado abaixo, podendo se curtir a grandeza das montanhas que se perdem no horizonte. Ao longe, Moisés aponta o nevado La Verônica, um cerro esplêndido com o cume coberto pelas neves eternas. Ao longo deste primeiro dia, há diversas casas onde vivem nativos, encontrando-se vários moradores indo e vindo pela estrada, além de banquinhas vendendo água, refris e salgadinhos. Decepciono-me um pouco, não imaginara a trilha tão povoada assim. O terreno liso, de chão batido, não apresenta maiores dificuldades, já que o ascenso nesse dia não vai além de 400 metros de altitude. Venço com facilidade as cinco horas de caminhada até chegarmos a Waillabamba, onde há algumas casas de camponeses e uma escola. Nosso acampamento é montado ao lado de uma delas que funciona como armazém e chicheria (local onde se vende a chicha). As barracas já estavam armadas quando chegamos. Há uma grande, usada como refeitório, (além de dormitório dos carregadores) e mais quatro onde ficamos, eu, com uma barraca só pra mim, outra para as duas americanas, a terceira pro casal de austríacos e a quarta pro Moisés (o guia como é hierarquicamente superior aos carregadores e ao cozinheiro, desfruta duma barraca só pra ele). Descanso um pouco antes do jantar que se revela uma delícia: sopa, galinha, massa, salada, sobremesa e vários tipos de chá, a escolher. As refeições, afora serem muito gostosas, são fartas: quatro por dia, meus queridos, sim, sim!! (nosso cozinheiro, um dos carregadores, acumula dupla função, o que o torna na escala social de um acampamento superior aos outros três). Bato papo com as americanas, descobrindo que Debi fala um espanhol razoável. Fico sabendo que namora um peruano, daí seu interesse em conhecer o país; já Laurie, corredora, está treinando para uma maratona quando retornar aos USA. Ela se recusou a mascar coca durante os 4 dias porque temia, caso fosse exigido dela exame antidopping, que acusasse ainda a existência de traços da erva em seu organismo. Eu comprara um saco cheio dessas folhas que masquei durante a caminhada. Assim, ao encontrar, no segundo dia, o velho senhor índio, um amor de pessoa, impossível negar, quando pede com voz sussurrante: mamacita, dame un poquito, por favor! O pobrezinho está se sentindo fraco conforme revela. A noite cai e quem eu vejo no céu brilhando bem lampeira? A lua, cheia, cheiíssima, ilumina o acampamento. Que felicidade, meu deus! Durmo com a porta da barraca semiaberta pra poder curtir e reter aqueles lampejos de prata em minha retina.

domingo, 27 de março de 2005

Domingueira no Vale Sagrado

Domingão, esplêndido o dia, pra ninguém botar defeito, o azul do céu embranquecido aqui e ali por nuvens grandes, daquelas bem fofonas. Perfeito pra visitar as cidades de Písac, Ollantaytambo e Chinchero situadas no Vale Sagrado. A primeira parada é em Písaq, importante centro artesanal da região, onde, neste dia da semana, ocorre, na praça principal, uma enorme feira com centenas de bancas, uma ao lado da outra, em que se encontra exposta à venda o colorido artesanato regional. Como sói acontecer nesse tipo de excursão nos dão uma hora pra percorrê-la! Fico chateada com tão breve espaço de tempo, mas depois agradeço intimamente porque me ponho bem doida diante de tanta variedade de produtos: quero comprar de tudo um pouco. Uma das coisas adquiridas é o casaquinho de lã coloridíssimo pra meu afilhado. Enquanto mastigo uma espiga de milho com queijo (os grãos são enormes, nunca até então vira nada igual) comprada de uma simpática vendedora ambulante, vou de barraca em barraca perguntando o preço das mercadorias. Meio a contragosto, abandono a feira, embarco no ônibus e lá me vou visitar o complexo arqueológico de Písac, situado no alto de um cerro de onde se avista boa parte do Vale Sagrado. Sento-me numa mureta e ponho-me a observar a cidadezinha e sua buliçosa feira semanal. As ruínas compõem-se de patamares e edificações dispersos pela encosta da montanha, destacando-se dentre elas El Hintihuatana (em quéchua, significa relógio de sol) cuja finalidade, segundo os pesquisadores, seria a de servir de observatório astronômico. Com apenas um templo e ênfase na administração dos produtos agrícolas, tudo leva a crer, tenha sido uma fazenda real pertencente a um imperador guerreiro, o inca Pachacútec. Depois de almoçarmos em um restaurante a beira da estrada, seguimos para Ollantaytambo, pequeno lugarejo onde se localiza a fortaleza de mesmo nome. É um lugar en-can-ta-dor, bom pra ficar um ou dois dias, percorrendo com calma as incríveis ruínas, pra mim as mais belas das que já visitara. Deslumbro-me com a variedade multicolorida de bonecas expostas na frente das lojas, são as mais lindas de todas as que vira, afora serem mais baratas que as duas adquiridas em Cusco e Písac; morro de pena em não poder comprá-las, porém se continuar neste frenesi consumista não haverá mala suficiente para acomodar tanta bugiganga. Funcionava este reduto militar também como observatório astronômico, comportando dois templos: um dedicado ao sol e outro à água. A sua frente, ergue-se o cerro Pincuylluna, onde estão diversas edificações em pedra, destacando-se uma composta por três blocos retangulares idênticos, dispostos um sobre o outro, com seis janelas na fachada e mais seis na outra parede. Vistos de frente lembram um edifício de três pisos; foram usados como depósito de armazenagem de produtos agrícolas. À sua esquerda, um grande bloco de pedra representa, para os moradores do lugar, o rosto de um inca. Parto lastimando o pouco tempo em que ali ficamos. O último lugar da excursão será Chinchero, localidade situada a 3.762 metros, portanto muito elevada do que as duas anteriores, cujas altitudes médias são em torno de 2.800 metros. Foi fundada com o objetivo de servir de residência de descanso ao inca Túpac Yupanqui que, em continuidade à obra de seu pai, Pachacútec, expandiu e consolidou o império inca. Um de seus feitos notáveis foi empreender uma viagem marítima até a Polinésia com duração de 9 meses. Os restos do palácio, a igreja colonial (embora pequena e sem os magníficos adornos de prata e ouro das demais, apresenta teto e paredes pintados com afrescos de imagens sacras) e a colorida feira dominical (quando chegamos as barracas, infelizmente, estão sendo desarmadas pois já vai avançada em muito a tarde) são seus principais atrativos. As casas pintadas de branco dão um toque especial ao delicioso vilarejo. Amo Chinchero tanto quanto Ollantaytambo. Se puder, retornarei com gosto a ambas, dessa vez me quedando com vagar em cada um deles para melhor desfrutar suas belezas.

sábado, 26 de março de 2005

Visitando as ruínas ao redor de Cusco

Cusco é uma cidade com mais de 3.000 anos de existência, considerada, portanto, a cidade mais antiga da América. Foi inicialmente povoada por pastores e agricultores. Posteriormente, depois de muitas guerras internas entre as diversas tribos indígenas, triunfou a inca (uma mescla de várias etnias), impulsionando o desenvolvimento desta civilização a partir de 1.200 d.c., graças ao extraordinário conhecimento que detinham sobre diversas ciências. Torna-se, dessa forma, a capital do império cuja prosperidade econômico-cultural provoca, ainda, assombro nos dias atuais. Com a chegada dos espanhóis em 1533, houve uma brutal interrupção no domínio desse povo, sendo transferida a capital para Lima. Sábado é o dia escolhido por mim para fazer uma excursão pelos arredores de Cusco onde estão situadas várias ruínas remanescentes do período inca. O primeiro lugar a ser visitado é Coricancha, ainda em Cusco, perto do hotel onde me hospedo. Embora não seja o mais imponente dos edifícios incas foi o mais respeitado e venerado por ser o templo do sol, astro estelar elevado à condição de deus no imaginário inca. Após breve descida para a inevitável sessão de fotos, rumamos a Sacsayhuaman. A respeito desse sítio há controvérsias: se foi construído com propósitos militares para defender o império inca de tribos invasoras, ou se com fins religiosos destinado a ser um grande templo dedicado ao deus sol. O conjunto arquitetônico, em si, é grandioso pois as pedras, algumas gigantescas - mais de 9 metros de altura -, faz com que perdure o mistério ainda não desvendado sobre o modo como os incas as carregaram até ali, considerando que eles não possuíam animais de tração. Ademais, também impressiona a maestria com que eles cortavam e encaixavam as rochas umas as outras, de forma que nem uma agulha conseguisse traspassá-las. Enquanto passeamos ao redor da magnífica construção, o guia informa que, em Sacsayhuaman, é celebrado, em 24 de junho, o solstício de inverno com uma grande festa, o Inti Raymi. Em todos esses sítios arqueológicos há invariavelmente vendedoras exibindo o lindo artesanato regional, daí meu lado consumista estar sendo sempre testado - pensam que resisto? Qual o quê! Compro dois lindos colares de pedras, um laranja e o outro verde e areia, lembrando um pouco as bijuterias usadas pela Betty do Flintstones. E lá se vai o microônibus até Puca Pucara, outra fortaleza militar (não foi à toa que os incas dominaram grande parte da América do Sul), composta de grandes muros, terraços e escadarias de impressionante envergadura arquitetônica. Por fim, eis Tambomachay, conhecida como baño del inca, construção cujo extraordinário sistema hidráulico compõe-se de piletas e desaguadouros em desníveis, por onde escorre água proveniente de um manancial situado em sua parte mais alta. Reservo a tarde para conhecer Quenqo, construção também feita com grandes blocos de pedras dispostas com precisão geométrica, cuja finalidade era a de servir de depósito para se armazenar chicha (bebida feita da fermentação do milho) ingerida durante os rituais incas. Este passeio, a cavalo, eu curto muito mais já que foge do esquema tradicional da excursão matinal. Ademais, o soroche havia me pegado e minha cabeça latejou demais durante toda a manhã. O que aliviou um pouco foi a muña, um arbusto cujas folhas contêm propriedades medicinais contra os efeitos da altitude. Cheiram-se as folhas - bem miudinhas elas - após esfregá-las na palma da mão; o odor lembra uma mistura de marijuana com menta. Bem legal passear por ali. Desço por uma cavidade escavada na rocha, conhecendo, assim, uma câmara subterrânea que termina no outro lado dessa passagem. Quando termina a cavalgada, ao cair do dia, volto a pé para Cusco, admirando do alto da colina aquela cidade milenar já se preparando para receber a noite que não tardará em envolver o lugar.

sexta-feira, 25 de março de 2005

Almoço em uma cuyeria

Havia contratado uma pequena agência, cujo proprietário chama-se José Puma Jallo, um cusquenho simpático e um tanto afeito ao trago. Iríamos conhecer dois sítios arqueológicos importantes situados perto de Cusco. E lá fomos nós, numa camioneta, em direção a Tipon. Saímos da rodovia e pegamos uma estradinha de terra que nos deixa em frente a um grande espaço gramado formado por 12 terraços cercados por paredes de pedras bem talhadas, e separados entre si por amuretas feitas do mesmo material. O sistema de irrigação é perfeito, pois os incas detinham um profundo conhecimento de engenharia hidráulica que surpreende até os dias de hoje. Ao longo dos terraços dispõem-se canaletas que escoam água irrigando-os. A água provém de um dos inúmeros rios cujas nascentes formam-se lá em cima, no cume de uma daquelas verdejantes montanhas, dispostas em círculo, como se abraçassem, protegessem os cereais que ali eram plantados antigamente. Qualquer coisa de espetacular essas montanhas, gente! Fico encantada porque aqui no Brasil costuma-se chamar qualquer morro mais alto de montanha. Qual o quê! Montanhas são estas do Peru, isso sim! Subimos, então, José mais eu, o flanco de uma delas, trilhando uma via de pedras feitas ao capricho em cujo centro destaca-se uma canaleta. Eu não quero mais saber de parar, por mim iria até o cume daquela formidável elevação da crosta terrestre, contribuindo em muito para minha animação o céu azul, a temperatura amena e um cheirinho bom de erva similar ao da macela. Entretanto, como temos de prosseguir com nosso tour, sou obrigada a descer, meio a contragosto. O destino seguinte é Pikillaqta, uma cidade construída há aproximadamente 1.200 anos, anterior, portanto, aos incas. Calcula-se que sua população alcançou 10.000 almas nos áureos tempos. Entretanto, não foi esse povo tão sofisticado quanto os incas no tocante aos conhecimentos de arquitetura e engenharia, o que se evidencia pelo uso de pedras pequenas em suas construções ao contrário dos grandes blocos de rocha utilizados por aqueles. Terminamos o passeio, almoçando em uma cuyeria, restaurante cujo prato típico é o cuy, um tipo de leitão, assado inteiro, num pequeno forno de barro ovalado (dá para se distinguir, por entre a boca aberta do animalito, seus dentinhos afilados avultando, dois do maxilar superior e dois do inferior). Acompanha rocoto relleno (pimentões recheados com ervilhas e cenouras) mais batata assada e talharim (viva os carboidratos!). Pra temperar o petisco, à parte, num potinho, aji (molho de pimentão seco e triturado misturado com maní). Comemos tudo, empinando de quebra uma cerva cusquenha (feita, segundo a propaganda oficial, da mais pura água da terra oriunda do degelo dos glaciares). Um dia depois do passeio, José, confirmando sua terna afeição pelo tragoléu, telefona, meio bebum, lançando-me galanteios desarticulados. Aconselho-o, maternalmente, a curar a mona. Fazer o quê?

quinta-feira, 24 de março de 2005

A capital do império inca

No vôo de Lima a Cusco – uma hora de viagem – passo quase todo o tempo olhando através da janela. Posso assim observar a mudança na paisagem. Até a metade da viagem, o solo desértico denuncia a aridez climática, à medida em que me distancio da capital, os cerros já começam a exibir trechos pontilhados de vegetação para finalmente serem completamente dominados pelo esplendoroso verdor serrano. Chego ao início da tarde em Cusco. De cara, gosto da cidade cercada por montanhas de suaves contornos, ruas estreitas e íngremes ladeiras de tirar o fôlego, situada a 3.400 metros ao nível do mar. Eu, criatura nascida e criada sempre ao rés do chão, já estou ciente dos efeitos de tal altitude: o temido mal estar, conhecido como soroche. Assim planejo ficar quinta, sexta, sábado e domingo aclimatando-me, pois na segunda-feira estarei partindo para a caminhada a Machu Picchu. Instalo-me no hotel e logo a camareira me serve um de coca para aliviar os efeitos da altitude. Descanso um pouco e vou conhecer a Plaza de Armas, ponto central da velha cidade, onde estão a Catedral, um imponente prédio de pedra, e a Igreja da Companhia de Jesus, cujo altar dourado é um deslumbre. Escolho para almoçar um dos restaurantes localizados sob as arcadas dos edifícios construídos ao redor da plaza. Sento-me a uma mesa ao ar livre, já que o clima, agradável, assim o permite. Peço uma sopa de quínua (um cereal de cor branca e grãos bem miúdos) mais cenoura, vagem, espinafre e batata, muito gostosa. Logo encostam à mesa crianças e mulheres vendendo mis bugigangas que, com vozes meigas, exclamam: mamí, ayudame, compra este brazalete, aún no vendí nada hasta hora, compra este collar para darme suerte. As melosas vozes das criaturas vencem no cansaço pela insistência. E por onde se caminha, escuta-se aquela cantilena de mamacita, mamacita, mira que lindo! No início, até curto esse cantochão, com o passar dos dias, porém, começa a encher o saco a insistente abordagem (é de se registrar a pouquíssima quantidade de homens pelas ruas vendendo mercadorias). Caminho um pouco pelas vielas tortuosas admirando o rico artesanato colorido exposto nas lojas e calçadas, as roupas, as toucas e bijuterias, as cerâmicas e as bonecas de pano, as imagens de santos e os tapetes indicam a forte influência indígena. As vendedoras de comidas expõem quitutes como o delicioso milho assado (há 120 espécies) com queijo. As mulheres e crianças com seus trajes típicos portam chapéus de variadas formas, tamanhos e cores (o mais simples é um de cor preta ou bege, copa redonda, sem nenhum adorno). Deslumbrada, começo a fotografá-las e, para minha surpresa, pedem un sol, mamacita! Dou, por supuesto (vá que me roguem alguma praga, né?). Olham-me aborrecidas. Intrigada, faço um gesto, questionando. Respondem que um sol não basta, afinal são três pessoas. Exigem mais dois soles, um por cabeça, pode? Não importa, Cusco é envolvente: uma cidade cheia de cor, com muitos de seus prédios caiados de branco, já outros mostram o escuro granito de suas construções. E o balcões! Ah, os balcões! (infelizmente, nessa viagem, ainda, não sou a feliz possuidora de uma máquina digital, por isso, me vejo obrigada a recorrer aos links para mostrar ao vivo e a cores as imagens). Bela, milenar Cusco, umbigo do império inca, orgulhosa de seus guerreiros índios que lutaram contra os espanhóis. Embora a trate com fria cortesia, o cusquenho, em geral, não gosta da turistada espanhola, guarda, ainda, muita mágoa do modo cruel como foram colonizados. Como hoje é quinta-feira santa e o Peru muito católico (tão irônico porque esta crença religiosa é uma herança espanhola), as igrejas fervilham de crentes. Filas e filas nos interiores de suas naves querendo beijar as chagas de Cristo. Na belíssima Catedral de Cusco, a fila se estende do lado de fora arrodeando o quarteirão. E os semblantes sérios, compenetrados do povo, demonstram a fé inabalável de seu catolicismo. Volto ao hotel, bebo mais um tantão de chá de coca, ligo a tv e assisto a um programa de culinária metido a besta até o cair da noite, quando saio, novamente, dessa vez para jantar. Entro ao acaso num restaurante bem simples, decido-me pelo menu turístico composto de entrada (lawa de maiz, ou seja, creme de milho), plato de fondo (truta grelhada com batatas assadas), entre o postre e o suco opto por este (sou ciente de que, nos primeiros dias em cidades situadas a grande altitude, a alimentação deve ser leve e ingerido muito líquido). Atravessando a Plaza de Armas, a caminho do hotel, percebo nas colinas ao redor pontinhos brilhantes provenientes das casas construídas em suas encostas. E a lua quase cheia no céu, deus meu, qualquer coisa de linda, esta cidade, gente!

quarta-feira, 23 de março de 2005

En passant por Lima

Um dos sonhos de todo trekker que se preze é a caminhada de 4 dias a Machu Picchu. Para tanto teria de passar por Lima, cidade que, sendo bem sincera, nunca me atraíra a atenção, embora tenha sido uma leitora assídua de Vargas Llosa a certa época de minha vida, cujas estórias, em sua maioria, se passam nessa capital. Embarco para Lima, onde fico apenas um dia, o da minha chegada, já que no dia seguinte irei a Cusco. Aterrisso em Lima ainda pela manhã, percebendo, durante meu trajeto até o hotel, ser uma cidade plana, pobre e nada atraente - aos meus olhos, daí não ter frustrado em nada minhas expectativas -, a não ser pela peculiar névoa que a envolve e das oliveiras plantadas nos bairros chiques limenhos: Miraflores e San Isidro. Quando chego ao hotel contrato um tour  básico pelo centro da cidade onde se localizam os prédios históricos, entre eles o Mosteiro de São Francisco onde estão as catacumbas, cemitérios subterrâneos recheados de ossos humanos colocados em grandes valas descobertas. Informa-nos o guia que toda aquela ossada seria de pessoas - calculam-se umas 30 mil - que morreram em conseqüência de um abalo sísmico ocorrido há mais de 2 séculos. Aliás, como são freqüentes os tremores de terra nesse país, há, em muitos prédios, placas em que se lê a tranqüilizante frase: zona segura en caso de sismo. Continuando o tour pelo centro histórico, vamos à Plaza Mayor onde se situa o Palácio del Gobierno que, em razão de tremores, por hora políticos, acha-se resguardado por tropas do exército. À sua esquerda, encontra-se a Casa Arzobispal, destacando-se desse conjunto arquitetônico, construído em pedra clara, os belíssimos balcões em madeira escura - primoroso trabalho em talha - dignos de serem apreciados com mais vagar, porém meu tour é vapt vupt, tal qual uma ejaculação precoce (cruz credo, que comparação profana em se tratando de prédio nada laico!). Rapidamente, passamos em frente ao pátio da Catedral que se encontra coalhado de gente. Sentadas nos degraus que conduzem ao seu interior, vendedoras de velas oferecem - un sol, señorita – seus sebos luminosos a quem entra. O vai- e-vem incessante de pessoas, entrando e saindo do templo, confirma as comemorações da semana santa, data levada muito a sério pelos peruanos, povo deveras católico. Deixando toda aquela devoção para trás, vamos conhecer o cerro San Cristóbal, um outeiro árido, perto dali, onde em suas encostas, despidas de vegetação, se aloja o bairro de mesmo nome, cujas casas humildes denotam bem a classe social dos que o habitam. Por suas vielas estreitas trafega, com extrema rapidez e agilidade, um veículo peculiar – o chollo táxi. É um triciclo importado da China - alguns apresentam um pequeno toldo – guiado com incrível rapidez e muito usado pela população pobre da cidade. Para terminar o minitour, passeia-se pelos bairros de Lince e Rimac, ambos de classe média baixa, até se chegar a Miraflores (muito citado nos livros de Llosa) e San Isidro. Estes dois últimos são de classe média e média alta, com largas avenidas, casarões, shopping centers, enfim, tudo de bom pra quem só quer coisas belas e agradáveis, valorizados, ainda, pela bela vista do Pacífico que pode ser desfrutado do calçadão que o contorna ao longo de vários quilômetros.