domingo, 31 de maio de 2009

II Encontro Sul Catarinense de Escalada e Montanhismo

O prognóstico pro findi não é lá dos mais auspiciosos: há rumores de chuva no sábado. Tô nem aí, me mando quinta-feira, de mochila, barraca e saco de dormir pra Praia Grande. Vou participar do II Encontro Sul Catarinense de Escalada e Montanhismo, que acontecerá de sexta a domingo na comunidade São Roque, mais conhecida como Pedra Branca, situada a 22 km da cidade. Chego à tardinha, na pousada Colina da Serra, e na janta, Mariazinha, a meu pedido, preparou uma sopinha. Serve, ainda, a danada da gringa, uns croquetes e risolis de camarão – uma delíííciiiaaaa - que comemos, bebericando um vinhozinho tinto. Como sempre, o assunto entre nós rola fácil e ficamos naquela tagarelice bem feminina até que o sono bate e me recolho. Acordo trianimada e vou buscar Kaloca. Meu amigo pede que eu vá com Marcolino tentar soldar a antena do radioamador que quebrou. Depois de visitar três oficinas que não tinham a solda adequada, finalmente, encontramos uma, cujo dono, de nome Moderno, conserta, graças a deus, o artefato. Com o carro carregadinho de tralha, vamos felizes da vida estradinha afora. Marcolino se mandou na frente dirigindo a moto de Kaloca, que passa o trajeto todo me contando de seus últimos saltos de pára-quedas em Floripa. Em lá chegando, os guris, que já haviam construído um ranchinho, terminam de cobri-lo com lona. Não satisfeitos, constroem uma mesa de bambu pra colocar o computador e a aparelhagem de radioamador, necessária pra chamar resgate em caso de acidente. Kaloca, muito caprichoso, pendura capacetes e roupas de neoprene numa taquara e o barracão fica uma beleza de ajeitado! Esses dois, habilidosíssimos, são os Macgiver de Praia Grande, podem crer! Numa churrasqueira, feita de tijolos, assam umas lingüiças pro nosso almoço. Eu fico encarregada de cuidar do rango enquanto eles terminam de montar o acampamento. Qual não é minha surpresa quando, num descuido, vejo uma galinha bicando nossa comida. Foi aquele auê! Kaloca dispara atrás da ave de pau em punho e a danada não corre, voa em louca disparada!! Muito hilária a cena! Nesta comunidade, localizam-se três canions: Josafaz, com 16 km, onde nasce o rio Mampituba, São Gorgonha e Faxinalzinho. Uma belezura de lugar! À tardinha, chega Sabrina, uma das organizadoras do evento, dona duns olhos azuis sensacionais, juntamente com Aline, uma loirinha rechonchuda, condutora local. E mais gente vai chegando e montando suas barracas ao longo da noite. A sonzeira rola em alto e bom tom. O ambiente, festivo, é pra lá de gostoso, é bótimo! À noite, acendemos um fogo na churrasqueira e sentamos a sua volta, bebendo vinho e conversando até as 2 da madruga. Aline e Joel tocam violão e cantam. Quer coisa melhor? Durante a noite, acordo com o barulho da chuva tamborilando o teto da barraca....que merda! Tantos fins de semana maravilhosos e logo neste dá pra chover?!! Droga, mil vezes droga!! E durante todo o sábado chove quase sem tréguas. Claro está que pra galera da escalada isso é péssimo, porque sem chance escalar rocha molhada. Então só resta uma escalaminhada até a Pedra Branca, enfrentando uma trilha por demais lamacenta. Mas ninguém se mixa e lá vamos nós morro acima. Rafael, que veio do Paraná pra fazer base jump, não consegue saltar porque ao chegarmos ao topo de Pedra o nevoeiro é de brumas de Avalon. Sem condições de visibilidade, não rola o salto. Mesmo assim o pessoal curtiu demais a caminhada, e voltamos famintos pro acampamento. Cozinho pra mim e os guris (Marcelo, Marcolino, Kaloca e Rafael) aquele tradicional ranguinho de acampamento: massinha miojo com atum e molho de tomate. À noite, há um festerê. Uma big janta preparada pelas mulheres da vila cujo cardápio caseiro faz todo mundo repetir e encher o prato com mais feijão, arroz, aipim, galinha caipira e saladas de cenoura, repolho, tomate e chuchu. São Roque é uma comunidade quilombola, habitada em priscas eras por escravos que fugiram de seus patrões, encontrando nesse fundão um refúgio pra tantos maus tratos. Como toda comunidade fechada, os casamentos acontecem entre as famílias. Assim é um tal de primo casando com prima, em infindáveis laços familiares. Frank, cujo sugestivo apelido é Piolho de Dread, apresenta Seu Afonso, um dos moradores locais, figura muito simpática que conta uns causos sobrenaturais. E um vídeo sobre a comunidade é exibido, além de sorteios de vários objetos. Eu, bem cansada, vou deitar cedo, mas soube, no dia seguinte, que a festa rolou até alta madrugada, com roda de viola. Estou eu dormindo a sono solto, quando Marcelo me acorda, pedindo a chave do meu carro. Os organizadores do evento, percebendo que o Faxinalzinho elevou o nível de suas águas, avisam à moçada pra que passem seus carros pro outro lado do rio porque, se ele encher, nós ficaremos ilhados aqui até que as águas baixem. Já pensou?! E assim inicia-se um fuzuê de carros atravessando o rio às 2 da madruga. E o acampamento ferve de tanta excitação. Claro está que levanto e vou ao barracão conversar sobre o sucedido, lá permanecendo até as 3 da manhã, quando então retorno pra barraca. Na manhã seguinte, domingo, embora vente muito, o sol está a mil, céu de brigadeiro, um dia esplendoroso. Decido acompanhar Bruno e Sergio, dois portalegrenses, até o outro lado do rio Mampituba, onde há, segundo Flavio, guia local, umas formações rochosas boas pros guris tentarem fazer boulder. As pedras molhadas, entretanto, impedem a escalada. Bem que eles se esforçam, porém mal conseguem avançar poucos metros parede acima já que está pra lá de escorregadia devido à chuva de ontem. Muito bem humorados, divirto-me deveras com os dois, filmando suas travessuras nas rochas. Gente finíssima. Aliás, muito bacana a galera toda: o falante Gil, natural de Brasília, radicado agora em Tubarão, e atual presidente da GMT, a esguia Monalisa, de olhinhos puxados, a meiga Gezaela em cuja barraca eu me hospedei, as três gurias escaladoras que vieram de Criciúma, o pessoal de Passo Fundo, os guris de Sapucaia, e tantos outros mais cujos nomes, infelizmente, não consigo recordar. Soube depois que alguns escaladores se tocaram pra Pedra Branca e conseguiram realizar duas ascensões: uma de três cordadas na via Urubu Rei e outra até a metade na via Xocleng. Apesar do mau tempo, foi um encontro muiiitooo legal, ninguém saiu insatisfeito porque o clima de confraternização foi alto astral, sem qualquer incidente negativo. Tudo transcorreu na santa paz. E ano que vem tem mais, podem crer!
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domingo, 17 de maio de 2009

Rapelando a Urubu Rei

Depois de 4 anos de preparação psicológica, e quase 2 tentando tirar a carteira de motorista, vou, finalmente, dirigindo até Praia Grande, um dos meus sonhos há muito acalentado. Sem nenhum constrangimento, revelo pra vocês que tomei bomba em cinco exames de habilitação, só na sexta vez, dia 23 de dezembro, iupi hurra, consegui, finalmente, passar (de tão feliz, sapequei beijocas não só no Rafael, meu instrutor, como no atônito examinador). Foi o melhor presente de Natal ganho até hoje!! Bye Bye Unesuuullll!! Coisa boa nevermore ter de pegar o sacolejante ônibus com quinquilhões de paradas estrada afora, sem falar na preocupação constante, caso dê vontade de fazer xixi ou outra coisa, pois banheiro não há no veículo. Saio de Porto às 7:15 e chego às 11:20 na cidade dos canions. Paro duas vezes pra descansar, tomar cafezinho e fumar cigarrinhos, na santa paz de quem pode partir a hora que lhe dê na veneta. Minha média de velocidade não ultrapassa os 70km/h nos 242 km de percurso entre as duas cidades. Estou adorando esta nova aventura, encantada em dirigir na estrada. A sensação de liberdade enche o meu coração de alegria. Lembro várias vezes de meu pai, exímio motora, agora, habitando outra galáxia. Ele, com certeza, deve estar sentindo um baita orgulho de mim. Pode crer, velhinho, é isso aí, tá no sangue! Abro um tantinho do vidro pra deixar entrar o vento e passo a viagem toda, curtindo altos sons em meu cd player. Vez por outra arrisco uma olhadinha na bela paisagem das lagunas, abundantes nessa região. Mariazinha me espera com um feijão tropeiro. Almoçamos enquanto botamos o papo em dia. Depois que baixa a adrenalina da emoção da viagem, vou descansar um pouco antes que Kaloca venha me buscar. Vou repetir - quarta vez? - os rapeis da Magia das Águas. O dia lindo, quente, sem nuvem alguma a embaçar o azul do céu. Desisto, contudo, de fazer as duas últimas cachoeiras porque minha coxa direita recomeçou a doer. Tenho de me poupar senão a leve distensão pode resultar em algo mais sério. Combinamos então uma atividade amena pro domingo e retorno à pousada. Dia seguinte, o tempo permanece ma-ra-vi-lho-so. Kaloca surge lá pelas 9:30 em sua moto, e nos tocamos pra Pedra Branca. Vamos hoje fazer novos rapeis nessa linda montanha cuja cor, como o próprio nome indica, é esbranquiçada devido aos líquens que a revestem. Subimos pela crista oeste (a leste, segundo palavras de Kaloca, é pra pêlo duro porque cheia de mato cerrado), uma encosta íngreme coberta de mata atlântica até o topo da Pedra. Paramos pra olhar o vale da Pedra Branca onde o rio Mampituba imprime, na paisagem, um sinuoso rastro prateado. Urubus voam ali e acolá. Nossos rapeis, desta feita, serão feitos a partir do colo que une os dois cumes deste maciço formado por pedras que, embora basálticas, são muito quebradiças. Pra alcançar a Pedra Branca, segue-se por uma estradinha de chão batido passando pelas comunidades da Mãe dos Homens e Roça da Estância até alcançar a de São Roque, encravada nos fundões de Praia Grande. Na verdade, a Pedra Branca situa-se no Rio Grande do Sul já que se atravessa o rio Mampituba, divisa entre os dois estados. Apresenta o colosso rochoso duas paredes, a norte e a sul. A primeira apresenta 9 vias de escalada, a saber: Formiga (50m), Decisão (75m); Caterpillar (60m); Morcegos (90m); Xocleng (90m); Ratazana (100m); Jararaca (80m); Urubu Rei (140m); Camaleão (130m). Já a segunda, muito úmida, porque não bate muito sol, apresenta-se, quase, inteiramente, coberta por densa vegetação, o que impede a prática desse esporte. Do topo dessa Pedra, é, ainda, possível aos amantes de base jump lançar-se em proezas aéreas, aterrissando no vale abaixo. Bueno, pra chegar ao pico onde os rapeis irão começar, desço uma parede quase vertical duns 30 m. O platozinho é estreito pra caramba, e vejo, a uma altura de 600 m, o vale da Pedra Branca, à esquerda, e o canion Josafaz, à direita. É de amedrontar a altura, pelo menos pra mim. A caro custo, chego na via, a clássica Urubu Rei (confesso, até pensei em desistir, usando como desculpa a distensão na virilha), e me posiciono. Kaloca rapela primeiro, soltando gritos animados de modo a me incentivar. Eu já mais tranqüila, inicio os procedimentos de descida. Ademais, o dia ajuda muito. Um reconfortante sol aquece meu corpo, nem sinal de vento, e aquele mundaréu de lindas pedras sequinhas bem à minha frente! É moleza, bem diferente de canionismo. Pendurada a uma altura de 400m, aprecio as chaminés escavadas entre as rochas justapostas e os belos degraus formados na parede, facilitando a escalada pra quem curte este esporte. São quatro os rapeis, num total de 100m de descida. Ancorada na rocha, entre uma cordada e outra, tenho, como apoio, apenas pequenas agarras. Arbustos floridos e bromélias nascem nos vãos das pedras. Líquens e musgos recobrem o basalto. Muito louco o visual. Agora, já bem à vontade, dou-me ao luxo de pedir segurança a Kaloca e largo a corda pra filmar. O medo se evaporou. Chego ao final da via, lamentando o término da aventura. Uma caminhada, por uma estreita trilha na base da pedra, me deixa um pouco tensa porque se faz necessária uma pequena escalada, porém com ajuda de Kaloca supero as dificuldades. E eis nós de volta à crista oeste já descendo em direção ao vale da Pedra Branca. O sol, de final da tarde, bate em cheio nela, iluminando seu cume. Beleza pura! E finalizamos nossa indiada, chupando bergamotas, as primeiras da estação, colhidas do pé por Kaloca.
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