sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Campo dos Padres

Saio de Porto na quarta-feira, já noite, e perco quase 2 horas na free way pra andar 15 km. Tudo por conta dum engarrafamento provocado pela manifestação de desabrigados em repúdio à negligência do poder municipal. Quase choro de raiva. Sou consciente de meu egoísmo. Entretanto, a pressa em chegar a Praia Grande é muita. Quero desfrutar daquele conversê miudinho com Mariolinda enquanto sorvemos algumas taças de vinho na cozinha da pousada. Na quinta, já respirando o ar fresco de Praia Grande, trato de descer a serra do Faxinal correndo até o centro da cidade. Paulo, marido de Mariolinda, me resgata em frente ao supermercado Assis. Retorno, assim, na garupa da moto de 400 cc, bem faceira, à pousada. Uma bela salada de maionese, feita pelas mãos caprichosas de Mariolinda, mais uma suculenta e macia carne de panela são o cardápio do almoço. Em homenagem aos meus 61 aninhos. Meu niver, graças a deus, antecede o feriado da Proclamação da República. Daí, né, aproveito e me dou de presente um trek na região de Urubici. Com direito a este pit stop em Praia Grande. De pancinha cheia, trato de descansar um pouco após a refeição, escarrapachada no sofá do refeitório, curtindo uma tevê. Às 15 horas, sacudo a preguiça e ponho o pé na estrada, feliz da vida. Adoooro uma viagem. Subo, então, a serra do Rio do Rastro, e na altura de Bom Jardim da Serra, paro numa casa de chá, a beira da SC 438 pra mastigar algo gostoso. Lá pelas 20 horas chego a Urubici, me hospedando numa pousada bem maneira. Termino o dia jantando uma truta de-li-cio-sa no Parador Santo Antonio. Dia seguinte, bem cedo, sigo até o Albergue do Refúgio de Montanha do Rio Canoas onde vou encontrar Juan que será o guia nesta pernada de 3 dias nos campos de cima da serra catarinense. Em lá chegando, conheço Oscar e Federico. Ambos também participarão da caminhada. Às 09:30, botamos o pé na estrada. Tomara que os sinais de bom tempo à noite passada – lua quase cheia se exibindo toda pimpona num céu despejado de nuvens – permaneçam nesta bela manhã ventosa apesar da pessimista previsão da meteorologia. Rezemos pra que tudo não passe dum mal entendido! O trajeto inicial não oferece dificuldade alguma. É uma estrada paralela ao leito do rio Canoas, cujo nascedouro fica quase na borda do planalto conhecido como Aparados da Serra. É pra lá que vamos, conhecer o Campo dos Padres, lugar já a um par de anos na minha mira. Após a moleza da plana estradinha, segue-se uma subida, relativamente íngreme. O que torna o ascenso um pouco dificultoso não é a aclividade e, sim, o tanto de pedra solta que estorva a pisada. Como estou à frente de meus companheiros, resolvo esperá-los. Escarrapacho-me num relvado cercado por arbustos de floração amarela e por uma dezena de araucárias. Infelizmente, estas árvores que já foram abundantes na região, nos dias atuais, estão se tornando material minguado. Enquanto aguardo a chegada dos 3 muchachos, admiro o relevo catarinense e me ponho a refletir como diferem dos campos de cima da serra do meu Rio Grande. Aqui, há montanhas e vales profundos e a altitude é bem mais significativa: varia de 1.000 a 1.827 m. A paisagem forma um mosaico intercalado por capões de mata atlântica, bosques com araucárias e os movediços solos turfosos, permanentemente úmidos o ano inteiro. Atravessamos uns 3 ou 4 riachos de águas rasíssimas. Basta pular algumas pedras e eis nossas patinhas saltitantes já na margem oposta sem vestígio algum de umidade. Chegamos ao Campo dos Padres, às 17 horas. Juan escolhe como lugar do acampamento o quintal da casa de seu Arno.  A tosca casa de 2 pisos, construída com toras de madeira e pedra, está no momento sendo ocupada por um casal de Anitapólis, Andreia e Marcio. Arrendatários de terras lindeiras às de seu Arno, criam algumas centenas de cabeças de gado. Assim a cada 15 dias vêm a estas paragens cuidar do que é seu. No final da tarde, o céu nubla e o vento, que soprou ao longo do dia, arrefece. “Não me diga, Juan, que esse nome, Campos dos Padres, se deve aos jesuítas, hein? Até nessas bandas deram eles o ar de sua graça?” Confirmada minha suspeita, Juan esclarece que os indefectíveis padres teriam dado com os costados nestes ermos com o objetivo de esconder lingotes de ouro. Bueno, sou a única mulher do grupo e a única brasileira já que os três homens são uruguaios. Oscar e Juan, gêmeos, são 5 anos mais moços que eu, portanto também compartilham comigo “a tal de sabedoria adquirida com a ½ idade” (só pode ser piada tal expressão, ala putcha!). O terceiro macho é o “jovem do grupo”, com seus 47 aninhos. Ao contrário dos irmãos, radicados hace mucho tiempo acá neste país tropical, Fred vive no Uruguay. Quando o vinho é aberto, o papo torna-se, quem diria né, mais animado. Ah, o álcool! O pó de pirlimpimpim dos adultos. Faz a gente voar alto. Abro uma lata de sardinha ao molho de tomate e jogo por cima do miojo previamente cozido. Como com sofreguidão. Estou esfomeada. Apesar da modéstia do ranguinho, uma sobremesa eu trouxe: tijolinhos de goiabada! Na madruga de sábado, acordo com o tão temível tamborilar dos pingos d’água no teto da barraca. Volto a dormir...fazer o quê, né? Só resta rezar pra que a chuva, se não cessar de todo, ao menos se aquiete de modo a permitir que façamos os passeios planejados. Quando acordo de manhã, nem sinal de chuva embora um céu cor de chumbo paire baixo sobre os campos. Menos mal! Desjejum feito (o meu incluiu café preto acompanhado dum pão com queijo polenguinho), partimos os quatro em direção ao canyon do rio Canoas, situado a 3 km do lugar onde estamos aquerenciados. Atravessamos uma campina, rodeada por um semicírculo de colinas, cuja aparência lembra um monumental anfiteatro. No espaço entre duas das elevações, descortinam-se algumas das dobras do rio Canoas. Da primeira cachu do canyon tem-se uma visão frontal de sua queda d’água que não ultrapassa modestos 10 metros, já da segunda, só se avista a traseira. Os altos paredões por onde as águas do rio escorrem assemelham-se a um gigantesco portal escancarando-se, aí sim, sobre um precipício de 70 m. O colorido das flores em meio ao verde da campina é um colírio pros olhos. Macegas de margaridas brancas com seus miolinhos amarelos, bromélias em plena floração e outras tantas flores anônimas mas igualmente belas enfeitam os campos de cima da serra festejando mais uma primavera da minha vida. A garoa aperta e visto meu poncho emborrachado. O tempo melhora quando já estamos retornando ao acampamento, tanto que às 13 e 15 o sol vem com tudo tornando mais alegre meu frugal almoço. Que não passa duma sopinha de pacote e um naco de pão com polenguinho. Deliciosa refeição! Melhor tempero que a fome não há. Fred desarrolha um tinto argentino da vinícola Miguel Escorihuela Gascon que compensa o fracasso do Bardolino, aberto na noite anterior, visivelmente avinagrado. De penitência, a maledeta garrafa foi colocada ao sol pra azedar de vez! Os gêmeos, univitelinos, são fáceis de confundir olhos desavisados. Tanto que só, no final do primeiro dia, me dei conta dum pequeno detalhe que permitiu que eu distinguisse um do outro: Oscar deixou crescer um tufinho de pelos sob o lábio inferior. À medida que convivo com eles, percebo semelhanças e diferenças nos temperamentos. É fácil fazer Juan rir, já Oscar não se deixa levar pela piada fácil. Mais corteses que afáveis, os dois exibem modesto senso de humor. Já Federico, do alto de seus 1,83 m conquista ao primeiro vistaço. Além de guapíssimo (aaah....se eu tivesse 20 anos menos!), sabe contar com malícia e vivacidade causos de personagens de sua terra. Terminado o almoço, nos entocamos nas barracas. Que seja pra sestear, pra ler ou pra devanear. É boa demais essa vida. Leio e cochilo até as 16 e 30, quando então chamo os homens. “E daí, guris, vamos até a borda dos Aparados?” Decorrida uma hora de caminhada, a cerração torna-se mais e mais espessa, impedindo que continuemos o passeio. Pesarosos, retornamos ao acampamento. No final da tarde, a garoa mantém-se firme e forte. Encasulados no interior duma gigantesca e úmida nuvem que paira sobre os campos, nosso ânimo, entretanto, é dos mais animados. Juan prepara um chima e rodamos a cuia de mão em mão jogando conversa fora. Quando a noite baixa, iniciamos os preparativos da janta. A única alteração em meu menu é a substituição da sardinha pelo atum. Morta de fome, lambo o prato bem feliz! E dale mariola de sobremesa. Claro está que não falta o bom vinho tinto. Somos um quarteto pra lá de pinguço. Andreia nos convida pra provar canjica cozida no fogão a lenha. Feita com leite tirado há pouco duma de suas vacas, está uma delícia o doce. Não há como não dormir bem depois dum prosa agradável regada com boa comida e excelente bebida....oigatê!! Em vez de galos fazendo cocoricó, desperto com mugidos de vaca. Adoro tudo isso! Quando saio da barraca, dou de cara com o céu deliciosamente azulado. Encortinado, ontem, pela cerração, o ponto mais elevado de Santa Catarina, morro da Boa Vista, exibe, nesta manhã de domingo, os seus arredondados 1.827 m. Embora não estejamos nos Andes, Juan contratou cavalos pra carregar nossa bagagem, tanto na ida quanto na volta. Levando nos costados mochilas leves, retornamos pela mesma rota percorrida na vinda. Despeço-me dos três companheiros quando alcançamos a estrada. Estou com pressa pois tenho ainda que pegar a estrada. Eles permanecerão em Urubici, só retornando amanhã pra suas casas. Quando estou a uns 2 km do refúgio, onde deixei meu carro, vejo o sol iluminando as três magníficas pedras que formam um cordão rochoso paralelo ao rio Canoas. Mesmo a minha máquina, uma saboneteira vagabunda, consegue alguns cliques bem maneiros delas. Desço a Corvo Branco a 5 km/h admirando a beleza desta monumental serra. E depois, dale pé no acelerador porque tem vinhote me aguardando em Praia Grande, hehe! Beleza de feriadão esse! E que vengan otros!

domingo, 29 de setembro de 2013

Gotas de Chuva: eis a Mantiqueira!

Acordo a uma da madruga com o maior chuvaral. Inacreditável! Dois lindos dias com céu azul de brigadeiro, ouro sobre prata, e agora esse fiasco climático! Francamente, hein, São Pedro, podia ter deixado o mau humor pra amanhã, segunda-feira, né?! Pra variar, tô com a maior vontade de fazer xixi. Dou um tempo, me apertando toda dentro do saco de dormir, na esperança de que a chuva dê uma estiada. Quando percebo que o tamborilar dos pingos não soa mais que nem surdo na lona da barraca, saio e deixo a urina, até então cruelmente represada dentro de minha bexiga, jorrar, enquanto solto ahs de prazeroso alívio. Sensação comparável a de um bom orgasmo. Quando volto a acordar, de manhãzinha, dou de cara com o céu enfarruscado, sem sinal porém de chuva. O tom melancólico do dia é fortalecido pela ciência de que hoje é a finalera da pernada....sniiiiffff. Encontro os guris preparando o café, servindo a seguir um chima (aqui em Minas, é o contrário, hehe) para dar aquela energia à caminhada. Quando ontem, Rodolfo surgiu com o chimarrão no café da manhã, intrigada, indaguei donde ele adquirira tal hábito. Ele explicou que tem um pé no Rio Grande do Sul pois a mãe é de Sta Maria. Mundão pequeno sem fronteiras esse, oigatê! Passamos a cuia de mão em mão, esticando a conversa, de modo a fazê-la render até o início da pernada, hoje curtésima, não mais que 2 horas. Merda de tempo fodido, estragou nosso plano: tomaríamos aquele banhão no rio e depois retomaríamos a andança, devidamente, refrescados. Outro aguaceiro nos afugenta pra dentro das barracas. Aproveito e continuo a leitura do surpreendente Headhunters, policial magistralmente escrito pelo norueguês Jo Nesbo. Às 11 e 30, com o aguaceiro reduzido a uma poeira aquosa, Rodolfo dá o toque de levantar acampamento. Thomas irá nos resgatar às 14 horas num ponto do município de Alagoa. Urge que partamos, sem tardança. Ai que saco, que perda de tempo a ampla capa de borracha, tipo às que são usadas por pescadores, que visto quando partimos. A tal garoa não dura nem 20 minutos. Ao passar pela sede administrativa do Parque Estadual Serra do Papagaio, paramos prum dedo de prosa com um dos guarda-parques que lá se encontra. Senhorzinho entrado nos anos, ele concorda conosco quando chamamos a atenção pra grande ajuda prestada pelos guias na conservação e preservação da natureza. No horário aprazado, o falante Thomas está a postos nos esperando no local combinado. Sobressai, na paisagem, a pequena serra de Santo Agostinho e seu pico do Garrafão. Pelos meus cálculos, a distância percorrida - mais ou menos, é claro, - nos 3 dias de pernada foi em torno de 35 km. Voltamos a Passa4 onde chegamos no meio do domingão. Fico de bobeira, no casarão, arrumando minhas coisas. Amanhã, tenho de reiniciar meu movimento de retorno ao Sul. Meus planos iniciais previam, além do trek na trilha do Segredo, a ascensão ao Itaguaré que eu não conseguira culminar quando estivera, aqui na Páscoa, socando a bota na desafiante travessia Marins-Itaguaré. Com tempo chuvoso, mas chuvoso mesmo, castigando a pernada durante os 2 últimos dias de trek, Willian nosso guia, resolveu, a bem da segurança, abortar a subida ao cume faltando apenasmente uns 200 m pra atingi-lo. Fiquei com a tal síndrome da frustração, daí por que fiz questão de incluí-lo mais uma vez neste rolê na Mantiqueira. Infelizmente, em razão de dores no ciático, sou obrigada a desistir de subi-lo (te pego, ai se te pego, Itaguaré, hehe). Olha, tenho abusão ao tal bordão “a montanha tá ali, não vai fugir”. Esse tipo de consolo não cola muito comigo. Mas tenho de reconhecer que, de fato, essas pedrocas não se movem tão facilmente, não, hehehe!! À noite, diante da deserção de nossos guias -  Willian se mandando com sua Josi pro chatô deles (por que será que recém-casado só quer ficar em casa hein?), e Rodolfo só querendo saber de curtir filme com Tao, seu pimpolho - eu e Zé Natureza decidimos jantar no restaurante Seis e Meia, especializado em truta. Uma delícia os pratos por nós escolhidos. De pancinha saciada, quando volto pra pousada, não demoro nadica a pegar no sono de tão empaturrada. Dia seguinte, segundona, começa minha volta, despacito no más, em direção ao Sul. Mais uma vez, faço um pit stop de 2 dias em Campinas. Tão boa voltar a curtir a vibe gostosa da casa de Patricia. Se tivesse que escolher outra casa pra morar, com certeza, seria a dessa minha queridésima prima-irmã. Na quarta-feira, outra parada em Curitiba, alugando novamente o sofá na casa de Fatima. E pra variar, dessa feita, derrubamos só 3 garrafas de vinho (não pretendo tão cedo retornar a casa de minha amiga, o que se bebe lá é pra gente grande, hehe). Na quinta-feira, quase na fronteira do Rio Grande, resolvo, dar uma esticada em Praia Grande. Faz horas que não vejo minha querida Mariolinda. E Mariana, aquela Selau mimadésima, tá grávida! Tenho de vê-la barriguda de sua Isabela. Na sexta-feira, dia 4, chego triufante, gargalhando feliz da vida, em Portinho depois de ter percorrido em segurança 3.000 km!! Uhuuuuuu

sábado, 28 de setembro de 2013

Acupunturando a Mantiqueira

Acordo na madruga e o que vejo? A lua minguante rodeada de zilhões de estrelas. Ver essa cena compensa a saída do quentinho do saco de dormir pra enfrentar o ar geladinho da noite na obriga de fazer xixi. Nem é tanto frio, assim! Aqui no sudeste não faz frio igual ao do sul. Quando acordo às 5 e 30, escuto os guris conversando e preparando o café. O dia amanhece lindo. No vale, em frente à serra do Chapadão, o nevoeiro paira baixinho. Durante o café Rodolfo conta uma estorinha acontecida há um par de anos atrás envolvendo 2 jovens daimistas. Estava ele com um grupo acampado aqui, neste mesmo local, quando foram surpreendidos pela chegada do casal. “Bom dia pessoas, sou Sideral”, apresenta-se ele. “E eu Celeste”, completa a moça em tom suave. “Vocês poderiam, por favor, não acender fogueiras? O risco de incêndio é bem maior”, frisa o rapaz em tom firme mas gentil. E Rodolfo, entusiasmado, continua a discorrer sobre o Daimismo. Seu conhecimento advém dos anos em que sua mãe seguiu essa doutrina. Fico então inteirada que na região há 3 comunidades: a de Pedra Negra, situada atrás da Serra do Chapadão, e as de Matutu e do Gamarra, sitiadas naqueles vales. Os daimistas, prossegue Rodolfo, são mal interpretados. As pessoas por desconhecimento de seus princípios doutrinários, cuja origem, a bem da verdade, é cristã, só se fixam no lance do chá e suas discutíveis propriedades alucinógenas. E, mais, enfatiza ele: os daimistas são autossustentáveis já que vivem do que plantam e fabricam, organizando-se em cooperativas. Zelosos em relação à natureza, reivindicam o direito de, em sendo filhos de proprietários de pequenos latifúndios, exercerem o ofício de guarda-parques das unidades de conservação existentes na Mantiqueira. Embora de fala-mansa, exigem observância das boas regras de preservação da natureza. Todo esse conversê é pra explicar o porquê de a trilha ser chamada do Segredo. A um, pelo mistério que cerca os daimistas, fruto da ignorância sobre os preceitos do amor e da fraternidade pregados pelo negro maranhense, Mestre Irineu, idealizador da doutrina. A dois, pela escassa frequência nos senderos que unem a serra do Papagaio a do Charco. Vem daí que os guias Rodolfo, Zangão Dourado da Mantiqueira, e Sir Willian, Príncipe das Terras Altas da Mantiqueira, seguindo a cartilha do arcadismo (tão em voga entre os poetas inconfidentes do século XVIII), tascaram o instigante apelido de trilha Do Segredo em mais um dentre os infindáveis caminhos que a Mantiqueira nos reserva. Mas bah tche, fico viajando na do Sto Daime e perco o fio da estória.... onde eu tava mesmo? Ah, lembrei! Saindo do Cerro Frio, entramos numa mata atlântica e 20 minutos depois desembocamos num descampado, conhecido como Campo das Macieiras. Rodolfo, visivelmente emocionado, pára e aponta uma agulha de granito fincada no extremo norte da clareira. “Este lugar foi onde o Professor Hemoto escolheu pra fazer a acupuntura na terra. Pra purificar mais ainda as águas que correm embaixo do solo!” Infensa, geralmente, às emoções pueris, não resisto a essa autêntica manifestação telúrica e deixo minha pele se arrepiar. Agradeço, em voz alta, ao maluco beleza do professor Hemoto pela sua genial realização! Depois dessa agulhada espiritual, percorro com mais alegria ainda o longo trecho da estradinha de chão batido que vem a ser a Transdaime. Explico, a Transdaime foi uma tentativa dos daimitas de unir a Serra do Papagaio à do Charco. Ainda bem que o Ibama impediu a continuidade da obra! Nessa aí os daimistas mandaram mal pra caramba! Vestígios da Transdaime evidenciam-se no estreito trilho que sulca o solo arenoso. Ao longe, uma longa subida me deixa meio assim-assim. Zé Natureza, coitado, chega a parar e se apoiar em seu bastão de bambu, reunindo forças pra empreitada. Como a toda subida corresponde uma descida, eis-me agora - coisa boa - caminhando faceira ladeira abaixo. Dura pouco minha alegria porque outra subida já se sucede. Mesmo carregando aquele fardão nos costados, os guias já vão longe. Que força esses guris têm, benza deus!  Zé, o lanterninha, vem na boa, naquele seu ritmo pachorrento de caminhante “devagar se vai ao longe”. Vegetação rasteira na crista da serra do Charco donde se vêem os morros da Campina, Sol, Nogueira, Mitra e Bispo, à esquerda. Já à direita, a face oeste do Pico do Papagaio e o topo plano e espaçoso do Cerro Frio, situado aos pés do Pico do Gamarra. Rodolfo chama minha atenção pra cachoeira do Fundão, encravada nos confins do vale do Matutu. Mais adiante, avisto mais nitidamente a Serra da Careta e seu ponto mais alto, Pico do Chapéu. Ao sair da crista, entramos numa mata atlântica, parando à beira dum ribeirão cujas águas formam uma pequena cascata. Fazemos uma boquinha, bebendo suco de limão e mordiscando amêndoas, castanhas e pistaches. O que tem de macela nessas paragens do Charco, salta à vista. E macela branca além da amarela!! Nem sabia que havia dessa cor! Nova subida pela encosta dum morrão onde as candeias fornecem um pouco de sombra. Após curta caminhada noutra crista, uma descida punk que dá noutro riacho. Mais uma subidinha e na descida já se avista o rio Santo Agostinho e suas cascatas e corredeiras. Cruzamos o rio cujas águas, um tantinho revoltas, inspiram certo cuidado. Percorrendo encostas de morros, ainda é visível o rio Santo Agostinho. Mas bah, tche, por essa eu não esperava, olha só: bosques de araucárias dando pinta na paisagem! Mas vem cá, essa árvore não dá só no sul? Tsk tsk tsk...vou morrer e não vou ver tudo! Basta de divagar, volta a narrar, mulher! Bueno, reza a lenda que os índios, no inverno, vinham até essas paragens atrás de caça e pinhão. Por deus, sinto uma vibe fantasmagórica pairando forte nessas paragens mantiqueirenses: índios, bandeirantes, capitães de mato, negros fujões e jesuítas. E, agora, nós, os loucos por aventura, querendo curtir um barato com a natureza....pois é! Nossos estômagos – afinal já são 14 horas - reclamam de fome. Se faz então uma parada pro almoço. Terminada a refeição (a mesma de ontem), caminha-se por mais encostas de morros. Numa curva da trilha, o rio Santo Agostinho se faz presente novamente exibindo em seu leito uma borbulhante corredeira. Céu azul de brigadeiro. Às margens doutro rio, onde há anos atrás houve uma zona de garimpo, paramos. Encho-me de coragem e encaro suas águas frias. Bem escandalosa, solto gritinhos ao mergulhar. Saio, entretanto, revigorada, pronta pra trilhar mais trocentos kms, hehe. Retomamos a caminhada e decorrida 1 hora, estamos diante doutro rio. Atravessamos até a margem oposta, caminhando por seu leito alajotado onde as águas escorrem calmas e rasas. Este será o lugar onde pernoitaremos. O terreno, plano e úmido, favorece o crescimento de touceiras de estrelas brancas, erva cuja floração ocorre justamente nesta época do ano. Rodolfo prepara um café e depois eu faço caipirinha. Na janta, pizzas!! Salgadas e doces, sendo que estas são Romeu e Julieta e de Nutela. De bebida, vinho tinto. Uma festa esta noite, pirilampos na terra, estrelas no céu e o barulhinho da correnteza do rio vibrando no ar!

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Mantiqueirando

Embarcamos eu, Zé Natureza, Willian e Rodolfo, no 4x4 dirigido por Thomas. Este passaquatrense da gema, dono duma oficina mecânica onde também restaura carros antigos, paixão que herdou do avô, é dono dum autêntico sotaque de mineiro do interior. O ponto de partida de nossa pernada é o município de Aiuruoca, distante 100 km de Passa4. Inicialmente, rodamos pela MG 354, parando rapidamente em Pouso Alto onde os guris compram uma rica duma cachaça e ainda um belo naco de queijo colonial. Lá pelas tantas, Thomas envereda por uma estrada de chão batido que faz parte do famoso circuito Caminho dos Anjos, clássico pedal de 240 km nas terras altas da Mantiqueira. A viagem dura quase duas horas quando então paramos a beira duma estradinha já a uma altitude de 1.760 m. Estamos do outro lado do vale do Matutu, escondido das nossas vistas pela belezura dessa serra do Papagaio, que se vê de cabo a rabo no sentido oeste-leste, destacando-se de imediato o pico do Papagaio. A indiada que faremos é uma travessia de 3 dias, no sentido norte-sul, percorrendo uma porção da serra do Papagaio e ainda um vistaço na serra do Charco. Terminaremos no sopé da serra de Sto Agostinho, em Alagoa, coroando o domingão. E lá vamos nós estrada afora, donde do solo afloram pontinhos brilhantes: é a mica à flor da terra! Nem bem 15 minutos de soca-bota, uma placa indica que estamos numa área de preservação natural, chamada serra dos Garcias. Ao longe, bem ao longe, vislumbre duma cachoeira e seu véu de água carimbando de branco o verdor da mata adjacente. No Ipod shuffle, escuto uma versão eletrônica de tangos e milongas...um barato! Após 1 hora e 3 km de subida, entramos nos Campos do Senhor. Tal nome, por óbvio, em louvor a JC, deve ter sido dado pelos onipresentes jesuítas, quando cá estiveram há coisa de 2 séculos. Vestígios de suas andanças materializam-se nos escombros duns muros de taipa que marcam a entrada no “campo santo”. Atravessamos o ribeirão do Papagaio cujo fluxo minguado de água mesmo assim permite que reabasteçamos nossas garrafas. Eu me recuso a pôr clorim, gosto nadica de nada do sabor desagradável que esse desinfetante deixa na água. Até hoje meus exames de fezes nunca acusaram verme algum, tá ligado? Variedades de flores, cada uma mais linda que a outra nas campinas mantiqueirenses. Uma delícia vê-las balançando ao sabor da brisa. A subida continua até o retiro dos Pedros onde os cercados de taipas mostram-se bem melhor conservados. Rodolfo explica que serviam como proteção ao gado. Árvores de pequeno porte fornecem uma sombra gostosa. Eu e Zé, sentados em bancos improvisados nas pedras, aguardamos, famintos, os guias prepararem o almoço. É um baita dum engasga-gato composto de pão de sanduíche, lombinho defumado, queijo provolone, tomate, mostarda e um chimichurri danado de bom feito por Rodolfo. De bebida, suco de morango....de pacote, é claro! O dia, supimpa, sem pinta alguma de nuvem no céu, temperatura cálida. Descansamos após a refeição, cada um largado no chão, pensando na vida. Silêncio bom, gostoso demais. Entretanto há que se movimentar. Os guias dão o exemplo socando o tralharedo no interior de suas cargueiras, pesando cada uma uns 30 kg, ao passo que eu e Zé pegamos nossas levianas mochilas sem esforço algum, hehe. Retomamos a caminhada, atravessando inicialmente campos, entrando depois numa refrescante mata atlântica, sucedida por outra vastidão de campos que dão lugar a mais um bosque de mata atlântica. Contornamos o pico do Gamarra, outro point super procurado pelos montanhistas brasileiros que adoram fazer seu cume de 2.357m. Mais adiante, o largo platô, conhecido como Cerro Frio (2.067 m), devido a sua localização privilegiada, é o lugar escolhido para ser nosso acampamento. Donde nos encontramos, se tem uma panorâmica sensacional da Mantiqueira: ao sul, o vale do Gamarra esparramando-se diante das serras da Careta, do Chapadão e do Garrafão, em segundo plano, o dorso calomboso da serra dos Coelhos. Ao longe, mal se distinguindo, Marins, Marinzinho e Itaguaré. Bem mais visíveis, porém, se mostram 3 Estados e Alto dos Ivos, picos pertencentes ao complexo da serra Fina, vizinha de quadra do maciço de Itatiaia. À leste, vale do Matutu donde sobressaem os picos da Mitra, Bispo, Nogueira e Cabeça de Leão. Lá no fundão, já em Visconde de Mauá, a pontinha afiada do cume do Alcantilado. O local onde estamos, Cerro Frio, vem a ser a divisa entre a Serra do Papagaio e a do Charco. Sentados ao ar livre - eu já dentro do saco de dormir porque muito friorenta - curtimos o rápido pôr do sol cuja coloração vibrante incendeia de vermelho as bandas de Caxambu e torna dourado o capim ao redor. Cinemascópica visão! E dale a beber vinho tinto pra se aquecer. Quando a noite se instala em definitivo, mais um regalo: o céu impecavelmente estrelado pisca boa noite para nosotros. É tudo de bom mantiqueirar!!

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Do Sul ao Sudeste

Saio de Porto às 23 e 30 de quinta-feira, pernoitando em Torres, num hotel à beira da BR 101. É minha primeira grande viagem dirigindo euzinha - sozinha - meu carro. Estou numa empolgação que mantém a adrenalina lá em cima...adoro tal sensação!! Na sexta-feira, perocorro, com chuva, às vezes forte,  todo o estado de Santa Catarina. Só estia o chuvaral quando entro no Paraná.  De São José dos Pinhais, uma espécie de Canoas dos paranaenses, à casa de Fatima, em Curitiba, levo 2 horas – isso mesmo - 2 horas porque o trânsito neste horário – 18 horas – é de fuder de muvucado!! Afora isso, o GPS mais me confunde que ajuda...uma merda!! Telefono pra Pece quando estou quase chegando e combinamos de ele me buscar na casa de Fatima pra jantarmos juntos. Vamos então, eu, Pece e Fernanda, sua namorada, ao Pamphylia, tradicional restaurante curitibano situado no Batel. Retorno a casa de Fatima e já a encontro em casa. Comemoramos o reencontro bebendo 3 garrafas de vinho (e eu já partilhara, no restaurante, uma garrafa com o casal de amigos!). Dia seguinte, acordo me sentindo um pouco ressaqueada, o que não me impede de pedalar com Fatima e Jamila até o mercado municipal onde almoçamos. Como pouco porque já começo a sentir certo mal estar que vai se agravando mais e mais ao ponto de eu ir 3 vezes ao banheiro pra vomitar tão mal me sinto. Quando começo a pedalar me sinto melhor, mas a chuva reinicia (havia caído um pancadão durante o almoço), o que nos obriga a voltar pra casa. E o mal-estar volta com força total quando me deito no sofá pra assistir a um filme com Jamila enquanto Fatima estuda pra 2ª fase da prova da OAB. Mais uma vez – a 4ª! – volto a vomitar, dessa vez pra pôr pra fora os últimos vestígios do almoço. Só consigo me recuperar lá pelas 23 horas....que horror!! Nunca mais quero beber tanto...saravá! Domingo, Curitiba continua debaixo do mal tempo. Chove a beça. Aproveito uma brecha no chuvaral e pego a estrada novamente. Fatima, uma fofa, me guia até a Regis Bittencourt. E a chuva volta a apertar. A rodovia, na saída de Curitiba, em péssimas condições de trafegabilidade, exibe buracos e desníveis que formam lâminas de água perigosíssimas. Não dá outra: quase aquaplano o carro. Por sorte, sempre aciono o 4x4 da camionete quando o tempo está chuvoso. O que me salva duma derrapagem talvez fatal. O carro valsa um pouco, mas segura legal o tranco, apesar do tanto de água sob os pneus. Se eu tivesse perdido o controle, teria chocado com o caminhão que estava ultrapassando. E não estaria aqui contando a viagem. A chuva não dá trégua, cai água de balde do céu. Vejo 2 carros capotados. Um deles está tão detonado que não deve ter sobrado ninguém vivo. Quando mais tarde paro pra comer algo, um caminhoneiro com quem converso enquanto bebo um café, conta que o casal do tal carro capotado escapou na boa do acidente. Deus do céu, muita imprudência nas estradas, demais!! Tem motora que não diminui a velocidade mesmo que chova canivete. O trecho da Regis Bittencourt, localizado na belíssima serra do Cafezal, além de perigosíssimo porque cheio de curvas e buracos tem só uma pista. O trânsito se torna lentíssimo então. O que poderia ser feito prudentemente em 1 hora demora 2!!! E a chuva continua implacavelmente. Estou um tantinho ansiosa com a passagem pelo rodoanel Mario Covas, elo viário entre a Regis Bittencourt e a Bandeirantes. Contudo, me saio muito bem (até dispenso o GPS) porque as saídas são muito bem sinalizadas. Chego a Campinas em torno das 19 e 30, após 8 horas de viagem. Minha lombar doi, não só de ter ficado sentada tanto tempo quanto da tensão em dirigir. No trecho final, já na rodovia Dom Pedro I, Patricia, a quem contato pelo celular, é quem me serve de GPS, muito mais confiável que esta moderna bússola. Curto demais a casa dessa minha querida prima-irmã, onde me sinto quase tão à vontade quanto na minha. Exceto na segunda à tardinha, quando corro na Unicamp, os dois dias em que permaneço em Campinas, faço da sala da TV meu quarto. Bem baixada no confortável sofazão, assisto, numa maratona frenética, a 4ª e 5ª temporadas do badaladíssimo seriado Breaking Bad. Ah, e o que são os deliciosos almocinhos preparados por Patricia? No almoço, apenas carnes e saladas. Carboidratos são reservados para o lanchinho da noite, hehehe!!! Na quarta-feira, infelizmente, tanta mordomia tem um fim. Preciso partir pra Passa4. Minha prima me conduz até a D. Pedro. Os 132 km rodados nesta excelente rodovia são um prazer. Um baita sol ilumina com vigor a manhã. Ainda bem, porque desde sexta-feira só o cinza tem dado pinta no céu. Me confundo um pouco - tudo culpa dessa merda de GPS!! – pra pegar a Dutra. Graças aos nativos e às placas chego em Passa4, mais exatamente à pousada Harpia onde vou me hospedar durante minha estadia aqui. Willian, o príncipe das Terras Altas da Mantiqueira, um dos guias da agência Harpia, me recebe com aquela mineiríssima afabilidade. Pouca demora, prepara café preto no fogão a lenha instalado na espaçosa cozinha do casarão. O vento forte me faz desistir de dar uma corridinha. Fico então de prosa com Will e Josi. À noite, enquanto degusto uma cachacinha – de lamber os beiços tão boa é - envelhecida em barril de umburana, indago de Rodolfo detalhes da travessia que me motivou a vir de tão longe. Grata surpresa me reservam esses dois guris!! A pernada na serra do Papagaio, comumente feita no sentido leste-oeste ou vice-versa, será no sentido norte-sul, trilhando lugares pouquíssimos frequentados....ebaaa!!!! Acordo na quinta e o vento continua bufando forte, tanto que a vegetação não pára de dançar. E o que é esse frio? Até parece o Rio Grande do Sul esta terra, uai!! Um belo café da manhã me espera na cozinha. Dou um rolê de 22 km pedalando minha magrelinha verde-amarela (trouxe ela no suporte traseiro do carro, sim senhor!!) ao longo da antiga ferrovia da Mantiqueira com Willian. Após, almocinho de comida super caseira na Dª Filhinha, seguido dum café na única chocolateria da cidade, repleta de guloseimas. Zé Natureza chega à tardinha. Muitos papos na cozinha e a adrenalina correndo nas veias na expectativa da indiada que nos aguarda amanhã. Trilha do Segredo, olha eu chegando........ebaaaa!!!
 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Vulcão Chachani

Saímos de Arequipa às 08 e ½, numa 4x4 guiada por Afonso. Proprietário do carro, ele é um tipo irrequieto, falante, mas nada simpático. Quando sabe que sou brasileira, revela que namora uma paulista. E eu com isso, uai. O guia é Alberto, um cara que sorri até quando tu fala de coisas tristes. Dessa feita, Adrián vai apenas porteando minha bagagem porque ainda não tem permissão pra guiar solo em alta montanha. Como lhe falta concluir o curso de Profissional Técnico de Guia Oficial de Montanha, ministrado pela Associação de Guias de Montanha do Peru, afiliada a UIAG, cuja duração são 3 anos, só lhe é permitido ser guia de caminhada, daí porque no Colca pôde me acompanhar. Espera, com a grana que está juntando nessa temporada de turismo, poder pagar as taxas e se mandar pra Huaraz em setembro, onde será realizada a parte final do curso, constante somente de práticas. O último componente do grupo é Mikael, um belga duns 30 anos, espantosamente fluente no espanhol, graças a 2 semestres de engenharia florestal cursados no Chile. Tece comentários perspicazes acerca do relacionamento homem x mulher que me arrancam sorrisos, tipo “ela (se referindo à namorada, uma espanhola, mais um motivo porque é tão bom no espanhol) não concebe que eu possa me divertir sem estar ao seu lado”....hahahaha. Pior que a arguta observação resume acertadamente um tipo de mesquinhez emocional que estraga tanto as relações amorosas. Afonso, a meu pedido, pára o carro pra eu poder fotografar o Misti. E Alberto me indica a trilha pedalável na encosta nordeste do Chachani. Pra quem gosta de boas descidas, esse down hill é bem irado: desnível de 1.200 m, com largada a partir de  4.800 m. Quando atingimos os 5.074 m, às 11 e 30, Afonso nos deixa e retorna a Arequipa. Voltará amanhã pra nos buscar. Quase toda a caminhada, até o acampamento, é ao longo duma trilha bem demarcada, exceto por um trecho constituído duma selva de pedras, provável resquício dalguma morena. Durante a pernada, a única vegetação que se destaca, na coloração ocre da paisagem semi-árida, é a yareta. Recobrindo as rochas, esta planta almofadada e resinosa serve de combustível, comumente usado em fogões. Embora o aclive seja suave, já sinto os efeitos da altitude. Afinal, 5.000 m não são os 2.300 m de Arequipa que tiro de letra. A caminhada dura pouco mais de 1 hora e eis nós já no lugar onde vamos acampar. Situado na encosta norte do Chachani, a uma altitude de 5.157 m, o acampamento permite avistar, em todo seu esplendor, a linda face sul do vulcão Nokarane, quase inteiramente coberta de neve. Ao norte, já bem visíveis os vulcões Ampato e Sabancaya. Mais além, o Coropuna. Os guris montam as barracas enquanto dois zorrinhos, atraídos pela movimentação, surgem dentre as pedras, olhando pra nós, com ar sestroso. A coisa mais linda, ambos têm pelagem ruiva. Quando jogamos guloseimas em sua direção, largam de ser tão ariscos e se aproximam cautelosamente. Nada como a boa e velha armadilha da gula pra amansar o temor deles em relação ao bicho homem. Me esbaldo, sacando um monte de fotos e também filmando-os. Os dois são irmãos e, à tardinha, a mamãe zorra dá pinta para ver o que tá rolando com os filhotes. Como sobrou muita massa da janta (porque estava bem ruinzinha), tudo é jogado pros zorrinhos que a devoram. Digno de nota: eles não disputam o rango. Aquele que alcança primeiro a comida, come sem ser incomodado pelo outro, que se limita tão-somente em torcer pra que sobre algo. No final da tarde, a lua - falta só um tantinho pra ser cheia -  brilha lindaça num céu que lembra aquele celofane azul que envolvia antigamente as maçãs. Vejo, pela primeira vez em 9 dias na região de Arequipa, gordas nuvens atrás do Nokarane. Coisa duns 200 metros adiante do nosso acampamento, distingue-se bem o sinuoso zigue-zague que se desenha ao longo da rampa arenosa que dá acesso ao cume do Chachani. Será o que enfrentarei na madrugada....bah! Às 20 horas já estou deitada, dormindo sem muita delonga após ingerir um relaxante muscular. Acordo antes que Adrián me chame e, às 3 e 30, já estamos subindo a tal rampa que vira durante o dia. O céu está coalhado de estrelas e da lua nem sinal.  A noite ainda tem o mando de campo, hehe, o que convenhamos não dá pra ver bulhufas da paisagem. Além do mais, a concentração em caminhar exige atenção e muito esforço físico. Lá pelas 5 e 15, percebo pequeno clarão a leste. Curto muito a ambiguidade dessa hora, em que a noite hesita em ceder espaço à claridade da manhã. Apenas se percebe o suave contorno da paisagem ao redor. Numa das dobras da montanha, distingo brevemente o perfil azulado do Nokarane. Sinto muito frio nos pés e cansaço também. Paro seguidamente a fim de restaurar minhas energias. O belga segue atrás de mim e Alberto e Adrián à frente. Se não fosse a altitude, a caminhada seria tranquila porque não passa dum trilho bem demarcado na arenosa encosta norte do vulcão. Lá pelas tantas, um pequeno trecho crivado de rochas, nada contudo que exija escalaminhadas, apenas cuidado pra não se pisar em pedras soltas. Peço novamente que paremos. Tenho de descansar. Lanço, então, a pergunta que não quer calar: "quanto falta pro cume, Adrián?" Quando o guia responde 2 horas, a decisão já está tomada. Há alguns anos atrás, me esgualepava mas ia. Atualmente, quero que minhas caminhadas sejam prazerosas mesmo que tenha de sacrificar cumes. Essa pegada de parar, frequentemente, porque as forças são escassas, me deixa humilhada. Eu queria poder caminhar com relativa fluidez. Se já me sinto super cansada aos 5.750 m, onde agora me encontro, insistir em subir os 300 metros restantes até o cume vai acabar comigo. Sinto um baita alívio quando desisto de continuar. Já vinha me intimando há um bom tempo com a repetitiva ladainha de “e aí minha querida, qual é?” Quando se pensa em abortar ascensos aos cumes, bate uma nóia que a gente é fraca. Isso faz com que se fique adiando a decisão pra ver até onde se aguenta. Vá que essa procrastinação leve ao tão sonhado cume, né? Depois que voltei pra casa, comecei a fazer questionamentos tipo "por que não te esforçaste mais hein Beatriz?" Mas daí já era e se punir assim não leva a nada! Bueno, despedimo-nos de Mikael e Alberto e começamos a descida por outro caminho cuja areia bem fofa levanta nuvens de poeira, tanto que minhas botas e calças ficaram branquinhas! Quando chego ao acampamento, lá pelas 8 e 30, deito na barraca e tiro um gostoso cochilo até as 10. Em torno de 11 horas, os homens retornam do cume. Acho bem estranha a atitude do belga, o cara nem comemora o feito (e olha que foi seu 1º seis mil!), tampouco máquina levou pra tirar fotos. Quando pergunto pra ele porque não carrega uma consigo, ele responde que guarda tudo na memória. Entretanto, anota seu email em meu diário e pede que eu envie as fotos que tirei dele...pode? Já em Arequipa, sinto que realmente estou cansada porque nem sinto vontade de sair à noite pra beber um pisco sour, hehe!! O Chachani cobrou seu preço! No dia seguinte, retornando ao Brasil, enquanto sobrevoo a região de Arequipa, decido que meu próximo vulcão bem que pode ser o Misti.....afinal, ele só tem 5.800 m, hehe

sábado, 17 de agosto de 2013

O mundo encantado do Convento Santa Catalina

Dia seguinte, temos, finalmente, a oportunidade de nos conhecermos, eu e Vevê! Adooooro o Face Book. Ele permite esse tipo de aproximação. Depois de trocas de msg (e nós estávamos a uma ou duas quadras de distância), eis que a moça surge no hotel. No jardim do piso térreo, divido uma mesa com uma alemã que ensina a filha francês (bizarro demais!! por que não espanhol?). Distraída, transferindo fotos da máquina para o computador, escuto “oi Beia”. Olho pro lado e vejo a moça acompanhada por 3 rapazes. Um deles é seu namorado, Marcelo. Os outros dois são Denni e Max. Este último é meu conhecido. Da internete, é claro! Trata-se de Maximo Kausch, escalador de alta montanha, mais cultuado no Brasil que no seu país de origem, Argentina. Transformou sua paixão pelas montanhas em profissão. Atualmente é guia duma agência inglesa que opera no Himalaia. Admirado por uma galera brasileira, fãzaça de suas façanhas, o cara, realmente, merece: é um aventureiro nato.  Faz costumeiramente aquilo que a maioria das pessoas só curte nas férias ou em fins de semana. Saímos do hotel e me admiro quando escolhem um prosaico restaurante especializado em massas com mesas de plástico e bancos fixos (parecia restaurante de shopping). Sei lá por quê, viagem minha, por supuesto, achei que curtiriam comidas típicas, tipo ceviche, rocoto relleno ou um chupe de camarones. Terminado o almoço, nos tocamos prum café na calle Mercaderes. Além dum menu cheio de comidinhas gostosas, dentre as quais deliciosas tortas e sorvetes, o lugar tem wifire. Os cinco têm pela frente uma longa espera já que partem pra La Paz de madrugada. Tanto me senti à vontade com eles que lá permaneci das 11 até as 23. E olha que sou meio arredia. Há em mim um tantinho de misantropia, embora não me furte em conhecer pessoas. Sei que soa meio contraditório mas é assim mesmo! O papo entre mim e Vevê flui como se fôssemos velhas conhecidas. Apenas eu e ela não estamos plugadas em notebooks, porque os 3 marmanjos só querem saber de navegar na web. Max, que acabara de culminar 59 montanhas acima de 6.000 metros, na Cordilheira dos Andes, se queixa quão difícil é ver reconhecido seu recorde pelo Guiness. Sinceramente, dou a menor pelota pra esses recordes. Reconheço porém que prum cara como ele, que vive de ser guia, tal registro faz diferença em  seu currículo. Impressiona pra caramba as pessoas. Quando saímos do café os guris estão animados e partem em busca de outras distrações. Afinal, ainda têm mais 4 horas de espera pela frente. Dirigem-se então pra calle San Francisco, point fervido das baladas arequipenhas. Na frente duma boate, de nome Deja Vu, eles param, alvorotados. Ladeando a porta de entrada do estabelecimento, duas belas moças, cujos trajes colantes modelam mais ainda seus corpos provocativos, servem de chamarizes à clientela masculina. Quando vejo Max e Denni, num trelelê animado, percebo o que vai rolar noite adentro. Despeço-me, rapidinho, da trupe, desejando tudo de bom e retorno ao hotel. De folguedos noturnos já tive muita over dose ao longo de 30 anos. Eles que são jovens que curtam sua balada.....eu, tô fora. Sábado, acordo feliz em estar numa cidade tão linda. O que é esse clima? Desde que aqui cheguei, e já faz 1 semana, nenhuma nuvem embaça esse céu de brigadeiro!! Depois do desaiuno (hoje teve panquecas), trato de ir ao monastério Santa Catalina de Siena. Seus muros traseiros são vistos do hotel. Bastou dobrar a esquina, eis eu atravessando seu portão de madeira e mergulhando num inusitado ambiente. Adoro esse lugar. Tanto que é minha segunda visita. E retornarei pra visitá-lo tantas vezes vier a Arequipa. É um mundo à parte essa pequena cidadela religiosa que ocupa um quarteirão no centro histórico da cidade. Ruas com nomes de cidades espanholas como Granada, Toledo, Córdoba, Burgos e Sevilha desembocam em páteos pintados em cores vibrantes. A flor predominante são gerâneos, plantados em vasos, inúmeros vasos, espalhados por onde quer que se ande. O sol forte do ½ dia reverbera nas paredes pintadas de laranja, azul e branco. É tudo muito colorido! Os aposentos das monjas são pequenas residências: jardinzinho, quarto, sala e, nos fundos, uma pequena cozinha. Claro está que apenas as arequipenhas endinheiradas podiam bancar tais confortos porque viver num convento saia bem caro. Além do dote e dum enxoval completo, era necessário pagar uma tarifa anual para custeio da alimentação. Flexível, o convento, permitia o ingresso de mulheres tão-somente para exercerem virtudes cristãs, sem que fossem obrigadas a abraçarem a vida religiosa (provavelmente viúvas ou solteironas). Dos terraços, avistam-se os onipresentes vulcões Chachani e Misti. E durante a visita soam belas músicas sacras. Sento à mesa da agradável cafeteria e sonho, enquanto bebo uma limonada, que adoraria ter vivido num lugar assim! Fazendo doces, bordando, cuidando dos jardins e orando diante de tão belas imagens. Uma velha fantasia que acalento desde menina essa de ser freira. Saindo de tão altas platitudes, vou às compras. Pouca coisa, apenas uma que outra lembrancinha necessária para algumas pessoas queridas. E mais não faço nesse dia porque o domingão me reserva uma boa: vou subir o Chachani.....hahahaha!!

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Final de trek tem gostinho de "quero mais"

Saímos de Sangalle às 05 e 30 da manhã. Acompanham-nos Bliss e Fionnuala. Seu guia combinou de deixar a vila às 4 e 30 e as gurias quando souberam que nós sairíamos às 5 e 30, pediram pra ir conoco! Ainda escuro, ligo a lanterna de testa. Decorridos 40 minutos, desnecessário seu uso, já que a claridade da manhã se impôs. Fionnuala tão falante, ontem à noite, mantém-se quase muda durante a caminhada. Ah, nada como um tragoléu pra soltar a língua das pessoas e day after voltar a emudecê-las, hehe. Já Bliss mantém seu sorriso cheio de dentes. A trilha que, ontem, vista à distância tanto temor me inspirou, hoje não é tudo aquilo que eu imaginara. Essas perspectivas enganadoras...tsk tsk tsk! Não dá pra considerá-la fácil, afinal se trata dum desnível de 1.000 metros de ininterrupto ascenso, mas difícil não é. Sem maiores dificuldades técnicas, o bem marcado caminho exibe em seu lado direito o lindo visual do canyon onde se vêem, próximas uma da outra, as vilas de Malata e Cosñirhua, situadas no paredão oposto. Passam por nós alguns turistas montados em mulas. A subida deve tê-los amendrontado ou, então, mais provável, estão com as pernas esbagaçadas da descida de Cabanaconde a Sangalle. Encontro um grupo de brasileiros. Um deles, um gordão, enrolado na bandeira nacional, botando os bofes pela boca, só sabe dizer que está fudido, apontando pras pernas. Indago o óbvio ululante: “mas cara, por que tu não contratou uma mula?” E o gorducho, bem humorado (dificilmente um gordo não é bem humorado ou metido a engraçadinho....por que será?), responde que as mulas só aguentam até 80 kg, peso que ele tem em dobro, hahahaha!!! Hilária a situação do gordo, tadinho! A garotada está viajando pela América do Sul com a intenção de fazer um documentário tipo reality show pra tentar vendê-lo a um canal fechado de TV quando retornarem ao Brasil. Numa das tantas dobras da trilha, curtindo um rock transmitido por um aparelhinho de som, um casal, com ar cansado, sentado no chão, recupera as energias da íngreme subida. Em 2 horas e 50 minutos - poderia ter feito em menos tempos, mas paro toda hora pra fotografar e filmar – alcançamos o topo após 4 km de percurso. Ali, dezenas de jovens, felizes e orgulhosos de sua façanha, descansam após o cansativo ascenso. Mais uma caminhadinha de  1 hora e meia até Cabanaconde onde desaiunamos enquanto esperamos a van que nos levará de volta a Arequipa. Embora sempre seja servido o mesmo desaiuno - chá, geleia de morango, manteiga e pão – como com gosto, até porque é muito gostosa a singela refeição. Embarcamos na van onde já se encontra acomodado um bando de adolescentes franceses, todos magros e nada simpáticos. Em Maca, na rua principal, mulheres apregoam a sempre usual parafernália de produtos típicos: mantas, casacos, gorros e bonecas. Num poste, amarrados com um cordão, uma lhama e um gavião são alugados aos cliques fotográficos dos turistas em troca de alguns soles. Vejo uma sorridente Bliss com a ave pousada no ombro sendo fotografada por Fionnuala, hehehe. Quase caio na tentação de fazer o mesmo mas devido ao pouco tempo que o guia nos deu prefiro visitar a linda igreja pintada de cal, com o átrio murado! Curto demais fazer os 3 pedidos a que se tem direito quando se entra num templo pela primeira vez. Na rua ao lado da igreja, uma festa com banda e dançarinos usando máscaras de árabes está iniciando. Alguns homens fazem uma rodinha e se põem a dançar. Moças, exibindo lindos trajes típicos caprichosamente bordados, sentam-se à beira da calçada, bebendo refrigerante. Lamento não poder ficar porém a van já está quase partindo. Descemos rapidamente num mirador onde se avistam o nevado Quehuisha e, no vale abaixo, a vila de Madrigal. No fundão duma garganta, uma mina de prata abandonada. A próxima parada é Yanque onde curtimos deliciosas piscinas de águas termais. As melhores do trek, sem sombra de dúvida! Sem semelhança com as de Llhuar e Sangalle, são feitas de pedras, bem rudimentares. Relaxo feliz da vida nas cálidas águas. Em frente, dois vestiários feitos de carrizo com 2 chuveiros pra quem quiser tomar uma ducha, dessa feita usando sabonete. Rumamos então para Chivay onde almoçamos no mesmo restaurante onde desaiunamos há 5 dias atrás, quando o trek teve início. O bufê do Sumac Wasi oferece diversos pratos típicos e custa 25 soles. Sumpimpa a refeição, repeti 3 vezes!! Chego em Arequipa às 17 e 30. Cansada, saio e compro salteñas (prefiro às empanadas) mais uma tortinha de morango. Levo tudo pro hotel. Pego, então, um copo de chá na recepção e subo pro meu quarto. Muito a organizar já que daqui a 2 dias enfrento outro trek. E no maior vulcão da cordilheira Vulcânica, o Chachani, com 6.057 m. O objetivo é alcançar sua cumbre. Vamos ver no que dá! Qual não é minha surpresa quando abro o Face e dou de cara com o alegre convite de Vevê Mambrini, jornalista paulista, anunciando que está também em Arequipa. "Simbora tomar uma cerveja?" Pergunto onde ela se encontra mas fico sem resposta. Deve estar em algum lugar onde não há wirefire....que pena! Mas desencano rapidinho. Estou deveras cansada e minha pilha não ia durar muito. Melhor dormir e descansar pra amanhã estar 100% reenergizada!