quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Reveillon en Bella Vista

Deixamos Ballena por volta de ½ dia porque, conforme meus cálculos, seriam apenas 27 km, previsão esta que se mostrou totalmente equivocada. Pedalamos o dobro porque mais uma vez ficamos “no mato sem cachorro”, indo e voltando à-toa, em razão de informações errôneas prestadas pela merda do hotel! Bueno, inicialmente, pedalamos 14 km na Interbalneária onde, no km 108 (a conselho do belo Arcangel), dobramos à esquerda, retornando à tranquilidade da Ruta 10 que retoma sua vocação de rodovia acostada ao litoral, sofrendo em Solis, entretanto, nova interrupção. E uma agradabilíssima surpresa nos aguarda: Horacio e Chicho estão nos aguardando com bebidas geladas e frutas. É aquele festerê! Pois não é que os fofos se tocaram de Minas, a 60 km de Piriapólis, só pra dar um alô pra gente?! Meu bom deus, quem tem amigos não morre pagão, never!! Sinto-me abençoada! Durante boa parte da tarde, nos acompanham de carro, tirando fotos e fazendo vídeos com nossas máquinas. Esta parte da costa uruguaia, cuja posse passa a ser do rio de La Plata, exibe-se engalanada por rochas à beira d’água e por dunas de areia branca que tornam muito atraentes os diversos balneários em seu entorno, como Punta Negra, Punta Fria, Punta Colorada, Piriapolis, Playa Verde, Bella Vista e outros. Alguns morros destacam-se dentre eles o inconfundível Pan de Azucar. O dia que começara lindo, com sol deslumbrante, vai nublando aos poucos, até que no meio da tarde o céu se torna escuro. Ventos fortíssimos fazem com que sejamos obrigadas a nos refugiar num restaurante ao lado duma marina. Aproveitamos a tormenta eu e Fátima para almoçar. Terminada a refeição, o sol pra nossa alegria, volta a brilhar e o céu exibe um azul impecável. Passando por Piriapólis, Josmara nos chama do interior dum restaurante onde se encontra o grupo do Rota Sul. Mais festerê com esses amigos! Mas não dá pra demorar muito porque nós temos ainda estrada pela frente enquanto eles permanecerão em Piriapólis pra curtir a virada de ano. Segundo as informações fornecidas pela Booking.com, a tal pousada localiza-se em Jaureguiberry. Ataco um cidadão pra obter infos. Muito gentil, o rapaz nos orienta a pegar a IB, passar pelo pedágio e, após cruzarmos o arroyo Solis Grande, entrarmos na primeira estrada à esquerda. E lá vamos nós no maior calor pra merda da IB, atravessando as 2 pistas com o cu na mão porque o movimento nesta rodovia é pesado. E aqui tem início a discórdia entre mim e Fátima acerca da localização do hotel. Buscando novas infos com um imbecil, dono dum restaurante, quase vou às vias de fato com o sujeito. Fátima, por sua vez, obtém informação completamente diversa da minha com dois sinhozinhos nativos que atravessavam a rodovia a cavalo. Informa que devemos retornar à Ruta 10 onde fica o Km 87, endereço da maldita pousada. Mantenho firme convicção de que devemos continuar pela IB porque a pousada fica em Jaureguiberry. Jo e Angelica não sabem bem a quem apoiar. Olham pra mim, olham pra Fatima e não dizem nem sim tampouco não. Na dúvida, pensam elas, fiquemos de camarote  em cima do muro, hahaha. Depois de muito bate-boca, a Monster ameaça que vai largar a gente de mão. Surge pedalando uma moça que, indagada, diz conhecer a dita pousada, o que é reforçado por um transeunte a quem as gurias, por sua vez, atacam. E a enxerida guria, ainda, se prontifica a nos guiar até o lugar. Daí não tenho outra alternativa a não ser segui-las porque até as vacilantes Jo e Angelica dão ouvidos à criatura uruguaia. Maldosamente, entretanto, torço para que ela, e consequentemente, a Monster estejam erradas. Com todas essas rateadas chegamos ao Bungallow Bella Vista, localizado não em Jaureguiberry e sim em Bella Vista, às 20 horas com o sol já quase se pondo no rio de La Plata. A recepção da pousada, curiosamente, fechada, sem vivalma pra nos recepcionar. Apenas um bilhete preso no vidro da porta-janela, avisando à sra Beatriz que o bangalô 10 está aberto e indicando 2 números de celular para contatar a sra. Virginia, caso necessário. Até aí até que estávamos tranqüilas. Mas quando entramos no bangalô, a indignação toma conta do grupo. Um cheiro de mofo horrível, um muquifo o lugar. A porta da geladeira, presa com um arame, é qualquer coisa de precária. Como nossa pousada fica ao lado de outra, vamos na recepção da pousada vizinha pedir pra telefonar porque nenhuma de nós habilitara celular pro exterior. Os funcionários muito amáveis fazem questão de frisar que não tem nada a ver com a nossa pousada embora no prospecto do Booking.com conste anúncio de que as piscinas são compartilhadas. Jô, por ser a mais calma, é escolhida pra telefonar pra tal Virginia e fazer as devidas reclamações. Enquanto isso eu e Fátima vamos a um mercado comprar bebidas e alguma comida pra nossa ceia porque a pousada - agora percebo - só aluga as casas e o resto que se virem os clientes. Quando voltamos, as gurias tinham conseguido novo bangalô bem mais apresentável, ulalalá. Fátima consegue convencer o parrillero do hotel vizinho a nos vender carne e salada. Cansadas que estamos, sem essa de ir a Piriapólis procurar restaurante pra comemorar a virada de ano. A parrilla muito sem graça - sem sal algum - está quase crua. E lá vão Jo e Ange devolvê-la para ser melhor assada. O que salva a festa são os vinhos - medio medio e um branco -, além, é claro, do maravilhoso espetáculo de fogos de artifício que ilumina toda a costa. O céu torna-se feericamente colorido de vermelho, prata, dourado e azul durante 30 minutos! Bem vindo 2015!!

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Mar de lagunas

Juan, nosso hospedeiro, abre uma exceção e serve, a meu pedido, desaiuno às 6:30. O crocante minipão francês está tudo de bom. Trato de comer 3 porque hoje o pedal vai ser o mais puxado de todos, em torno de 100 km. Despedidas feitas, pegamos a estrada. O céu meio enevoado e o frescor da manhã dão tanta energia que os 14 km ao longo da Ruta 10 até o entroncamento com a Ruta 15 se fazem num piscar de olhos.  A partir daqui, a 10 torna-se de chão batido até a casa de Olga, barqueira responsável pela travessia da barra. Decorridos 4 km, já se avista a imensidão da laguna de Rocha, considerada reserva da biosfera pela UNESCO. Na piscosa lagoa, diversas espécies de aves fazem dela ponto de arribada em sua rota migratória. Previdentemente, ontem, eu havia feito contato telefônico com Olga e acertado pras 8 horas nosso embarque. Com essa manobra, se evita contornar a lagoa pela Ruta 9, o que aumentaria o pedal em mais 30 km. O motivo da brusca interrupção sofrida na Ruta 10 tem como causa a invasão periódica da maré alta no estreito cordão de areia que separa a laguna do mar. Daí já viu, né, atravessá-lo com bicicletas, mesmo não sendo muito profunda a passagem. Quem ocupa o leme do barco a motor não é a solícita Olga, e sim seu irmão, o igualmente simpático Pepe. Com o acréscimo de Neivid e Claudia (abro um parênteses pra falar nele porque o fofo, embora tenha nascido na Irlanda, faz questão de frisar que é brasileiro já que está naturalizado há quase 30 anos) que encontramos perdidões perto da casa de Olga, um barco menor é atrelado ao maior onde vamos nós 6 e o tralharedo. Jô, Ange e suas bicis vão assim rebocadas durante os 20 minutos de travessia. O céu, graças a deus, se encontra nublado! Ao término da navegação, retomamos o pedal ao longo da Ruta 10 que se mantém de chão batido até a laguna de Garzon, limite entre os departamentos de Rocha e Maldonado cujo balneário mais emblemático é Punta del Este. A estrada plana, de areia clara, estende-se a perder de vista exibindo tímidos aclives que nem exigem troca de marcha. A pesada e baixa nuvem negra ao sul não passa, decorrido um tempo, de falso rebate de chuva. Pena, teria sido bem vinda uma manta d’água pra refrescar porque o calor tá começando a pegar. Encontramos Jo e Ange nos esperando para o costumeiro descanso coletivo. Como elas pedalam muito forte, galos cinzas que são, facinho se distanciam de nós em torno duns 3 km. Embora neguem energicamente, tenho cá com meus botões que ambas estão competindo uma com a outra, na fina. Por causa disso, tenho um baita insight e tomo então a sábia decisão de comunicar a elas que "por favor, gurias não se constranjam, tomem a dianteira, nada de ficar esperando por mim e Fatima a cada 20 km como a gente tinha combinado, ok?". Como elas têm o roteiro com os endereços das pousadas nada mais adequado que ir na frente e lá nos aguardar. "De preferência com uma garrafa de vinhote, viram?", acrescento eu, com ar maroto. Tal arranjo revela-se salutar. Se nossa convivência era até então ouro sobre prata, passa a ser ouro sobre ouro incrustado com diamantes, hehehe! Por causa duma informação errada dada por um sujeito a quem ataco pra perguntar os horários da balsa de Garzon, começa aquela correria pra alcançar a embarcação cujo último horário matutino é às 12, reiniciando a travessia somente a partir das 14! Revela-se inútil, entretanto, a desenfreada pedalada porque no verão tem balsa a cada 10 minutos, hahaha!! Fatima devido a uma distensão na panturrilha, veste, hoje, ao invés de calça comprida, bermuda curta e meias elásticas até o joelho. Assim fardada, a Monster lembra aqueles estudantes de colégio inglês. Atravessada a laguna de Garzón onde são figurinhas fáceis as velas coloridas das pranchas dos praticantes de kitesurf, paramos numa bodega bem xinfrim pra descansar e beber algo porque de comida já temos as empanadas que compramos ontem em La Pedrera. Merecido descanso, afinal foram 53 km sendo que 39 de puro chão batido! Aproveito pra carregar o garmim porque esta bosta de relógio tem autonomia muito curta. Não dura mais que 8 horas. E hoje o dia será longo, considerando que só fizemos metade do caminho até agora. O dono do lugar avisa que sua mãe está pondo no forno empanadas de marisco. Não dá outra, desisto de comer as empanadas que trouxera e trato de esperar as que estão sendo assadas. E, olha, vale a pena a espera! Quentinha, suculenta, de massa folhada, peço bis! Os 2 sucos de pêssego, feitos na hora, são grossinhos na medida certa. E a tartelete de morango ainda morninha está dos deuses. Embora não tenha sido nada barato foi o melhor lanche do pedal. Imbatível! A Ruta 10 nesta região encontra-se tão próxima do oceano que dá pra avistar a 200 metros o azulado de suas águas. Cômoros de areia são o divisor natural entre a praia e a estrada. Uma belezura tudo isso. E o sol volta a aparecer com força total. A falta de acostamento segue somente até Jose Ignácio onde tem início as bem vindas banquinas, aleluia! Passamos pela movimentada Manantiales e após da fervida Barra, cruzamos a Brava povoada por luxuosos prédios brancos, seguida pela praia Mansa onde o Atlântico se despede cedendo espaço às águas marrons e calmas do rio de La Plata. Novos momentos tensos quando deixamos a Ruta 10 e começamos a pedalar na Ruta Interbalneária. O tráfego pesado e o sol abrasador já estão me irritando um pouco. Desavisada que sou botei apenas protetor no rosto e esqueci de braços e pernas. O resultado foi tomar aquele torrão....merrda! Quando chegamos em Punta Ballena, começo a procurar o tal km 120, em frente ao mirador das baleias, onde se localiza nosso hotel. E nada de achar a tal bosta de hotel! Procura daqui, fuça dali, atravessa a perigosa IB umas 3 vezes, incursão num posto de polícia cuja antipática tira, com ar de sabidona, nos passa uma info falsa, sem deixar de mencionar o mala dum argentino, irritantemente solícito, tentando nos ajudar. Cansada e mal humorada, covardemente, desconto a irritação na pobre Fatima que, justiça seja feita, se mostra bem pacienciosa comigo. Já tô quase dando piti na beira da estrada quando escuto a voz fininha de Jo chamando “gurias, é aqui”. Finalmente, após rodarmos 110 km, chegamos no Hostal Punta Ballena Ocean View. Apesar do nome pomposo e da esplêndida visão que se tem de Punta del Este a Punta Negra, o hotel é meio, como posso dizer, bagunçado. Mais parece uma casa, daquelas desleixadas, que uma pousada. Seus donos, o apolíneo uruguaio Arcangel e a sensual holandesa Juliet revelam-se, contudo, anfitriões encantadores. Nos deixam absolutamente à vontade, como se estivéssemos na casa de amigos. Como o hotel não tem serviço de restaurante, Juliet pede delivery pra nós, compartilhando uma garrafa de vinho tinto comigo. Essa sabe das coisas boas da vida, toost!!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Charmosa Punta Rubia


Quando acordo e olho pra fora, dou de cara com um baita dia...ebaaa! Desço a estreita e íngreme escada até o piso inferior onde Willi está pondo pra assar a primeira fornada de croissants. Melhor desaiuno impossível, partilhado com os recentes amigos argentinos à tosca e comprida mesa, colocada ao ar livre, fronteiriça à janela da cozinha. De onde estou vejo Willi lá dentro, indo pra lá e pra cá nos seus trâmites culinários. Ele dá uma espiada através da janela, eu encaro....será? Mas não perco muito tempo em conjecturas sobre ele estar ou não flertando comigo porque pouca demora nos despedimos. Urge pegar o caminhão das 11 horas de modo a não chegar muito tarde em La Pedrera. Conseguimos sair do parque por volta do ½ dia sob um sol de fritar ovo no asfalto. Sem vento, a temperatura é escaldante. Bem que poderia soprar um pouco, não muito, é claro, daquele sudeste de ontem. Paro a cada 15 minutos pra tomar água da caramanhola, a essa altura já totalmente morna....eca. E a merda da Ruta 10 continua sem banquinas como são chamados em espanhol os acostamentos. Merrda!! Embora o movimento de veículos não seja lá muito intenso, tô mesmo assim cabrera. O medo de que algum psicopata do volante atinja eu ou minhas amigas volta e meia aparece pra me assombrar...merrrda! Após 20 km paramos em frente a uma casa para breve descanso, hidratação e mastigar algo. Um atraente muchacho, super gentil, que se identifica como Chocolate, nos serve água gelada. Da guapissima criatura todas pensamos o óbvio: “desse chocolate eu provaria sem culpa alguma a barra inteira, hahaha!” Eu, investida da função de guia do grupo, crente de que nossa pousada fica em La Pedrera, oriento as gurias a entrar na rotatória que leva a este balneário. Como não sei direito sua localização, paro na frente dum mercado pra perguntar. Sentadas num murinho, duas jovens perguntam de onde estamos vindo. Conversa vai conversa vem, descubro que ambas moram em Rio Grande, minha terra natal! Que mundo pequeno, hehe. Muito queridas, as duas estão indo pra Cabo Polônio. Esclarecida onde fica a pousada, dou o grito de alerta: “gurias, voltem, a pousada é em Punta Rubia!” Retornamos então pra Ruta 10 e, após 2 km, enveredamos à direita por uma estradinha de chão batido, encontrando nossa pousada a 150 metros da faixa. No fundo da rua, após 39 km de pedal, aquela recompensa: o mar escancarando sua imensidão azulada se funde com o azulão do céu. A pousada Irsis é um charme com bangalôs de dois pisos, mobiliados com móveis da década de 50. Na parte social, um bar com balcão e, no jardim, espalhados, mesas, cadeiras e sofás fazem do espaço um estiloso lounge. Seus donos, Eneas e Juan, muito amáveis, logo tratam de nos deixar super à vontade. Pedimos o prato do dia, peixe e salada, servido ao ar livre. Sentadas, à sombra duma árvore, achamos tudo super gostoso de tão esfaimadas estamos. Melhor tempero que a fome não há, hehe. Assim que sente o cheiro da refeição, um baby gato se aproxima e encarna na Fatima. A Monster surta com a pentelhação do bichano que só tem olhos, ou melhor, focinho pro prato dela, deixando nós três na boa pra saborear nossas refeições, hahaha. Banho tomado, levo (hahaha) as gurias para passear em La Pedrera e conhecer a charmosa mureta branca que divide a calçada da praia. Fotinhas tiradas, levo-as à Heladeria Popi onde saboreamos cucuruchos. Na panaderia, compramos empanadas pro pedal de amanhã já que durante mais ou menos uns 50 km não haverá lugar algum pra comprar comida. À noitinha, voltamos ao aconhego de nossa pousada. A suave iluminação do jardim convida a que ali se permaneça. Peço então um branco gelado. Pra acompanhar, ceviche de pescado. Infelizmente, o prato fica a dever porque há mais do molho de cebola e tomate que, propriamente, do peixe. Na vitrola, rola uma música em volume adequado que - aleluia - não interfere no conversê. Maria Angélica e Josmara, solidárias, bebem também vinho enquanto Fátima (atualmente numa fase abstêmica), sem sucesso, não consegue a cerveja sem álcool que solicitara. Brindamos ao terceiro dia de pedal que tem sido ouro sobre prata!! Tintim!

domingo, 28 de dezembro de 2014

Pousada Santa Maradona


Quão boba fui ontem quando mal iniciada a jornada cheguei a pensar por um momento que não daria conta do pedal até Montevideo! Tendo como confidente os meus botões, abri o jogo e revelei-lhes meu medo de não poder cumprir o roteiro de 7 dias. Me xinguei de pretensiosa, megalomaníaca e por aí afora, numa descabida crise de baixa autoestima. À medida que pedalava, contudo, meu temor virava pó de traque e mais confiante ficava de que iria conseguir, sim!! Tanto que ao final do dia nem mais lembrava das dúvidas matutinas. Bueno, como a pousada não serve desaiuno, vamos até a bizcocheria Giannin, situada na esquina da calle principal de Punta del Diablo. Biscoitos recheados com doce de leite, empanadas com diversos recheios, medias lunas e postres divinos exibem-se tentadores à vitrine. Não há como não se render à pastelaria uruguaia! O café entretanto não faz jus aos excelentes petiscos. Saímos do balneário e pegamos a Ruta 9, pedalando durante 3 horas os 40 km até Castillos onde fazemos parada de 2 horas no restaurante (também hotel) de nome Mi Gente. A comida honesta é razoável. Mas os preços estão salgados. Já se foi o tempo que nosso real comprava muito com pouca moeda! Ange, Jo e Fatima comem assado de tira, eu pescado com salsa de camarão. Nem pensar em comer carne, considerando que se tem ainda mais 25 km de pedal debaixo dum sol causticante! O vinho, em copo, é muito ruim, tanto que só bebo 1/3 de seu conteúdo. Em compensação, a sobremesa, pudim de claras com cobertura de doce de leite é de comer ajoelhada! Terminada a refeição, deixamos a pacata Castillos e entramos na Ruta 16. De pequena extensão, apenas 10 km, a rodovia, sem acostamento, é bem pouco segura porque apresenta pesado tráfego. Diversos carros e motos tiram, sem piedade, fininho de nós. Tô percebendo que não é só no Brasil que há psicopatas do volante! Deveras tenso o pedal. Eu rezando pra que logo alcancemos a Ruta 10, onde a 16 termina, porque tô crente que, nessa, sim, há acostamento. No entanto, triste engano o meu: também sem acostamento, a 10 revela-se, aleluia, bem mais tranqüila devido a pouca circulação de veículos. Ufa, que alívio! Poderíamos ter ido pela Ruta 9 com acostamento até Montevideo, nosso destino final. Acontece, porém, um pequeno e bom detalhe: a Ruta 10 acompanha  o contorno da bela costa uruguaia e daí nem preciso explicar porque esta rodovia foi a escolhida né? Começa então a soprar o temível vento sudeste que nos obriga a fazer força pra vencê-lo muito embora seja plana a estrada. O esforço despendido é semelhante ao de subir ladeiras. Conquanto tenhamos rodado somente 6 km, pedalar com intensidade de vento, em torno de 20 a 28 km/h, dá a impressão de que pedalamos bem mais! Chegamos esbaforidas ao Parque Nacional de Cabo Polônio, mas nem dá pra descansar porque temos de prender as bicis no estacionamento já que não é permitida a entrada delas na vila. Subimos no caminhão que, após 20 minutos de sacolejos sobre a areia fofa, nos deixa no centrinho de Polonio. Carregando os alforges (pesados ai ai ai) andamos sobre as dunas, afundando toda hora na areia fina e fofa. Lá pelas tantas, Jô e Ange, menos hábeis em caminhar nesse tipo de terreno, pedem encarecidamente por um táxi ou carrinho de mão, hahahaha. Na finalera da Playa Sur, eis-nos enfim, na pousada Santa Maradona, cujo nome dispensa explicação quando descobrimos que o dono, Willi, argentino da gema, é torcedor do Boca. Branca, bem rústica, a pousada num desleixo gostoso oferece redes e cadeiras ao ar livre. Seu filho, Nicholas, nos oferece água de poço artesiano enquanto o pai prepara um café – brasileiro, frisa ele – e indica um prato com bolo. Arbustos ao redor da pousada fornecem aprazível sombra. Nosso quarto, no piso superior, tem 3 camas de solteiro e uma de casal.  Sobre caixotes de frutas pintados de cores vibrantes, usados como mesinha de cabeceira, velas e isqueiros, já que luz elétrica aqui não hay!! Fizemos o seguinte acerto, no início da viagem, nós as 4: quando uma dupla dorme em camas de solteiro, dia seguinte, ou melhor, noite seguinte, dormirá o outro par na de casal. Assim, hoje, eu e Fátima ocupamos camas de solteiro. Aleluiaaa!!! A bem da verdade, não gosto de dividir quarto com outra pessoa, o que dizer então de cama. Estou me superando nesta viagem, aleluia!!! O banheiro é qualquer coisa de bizarro!! Há dois vasos sanitários, assim, pipis e cocôs podem ser compartilhados em dupla, hahaha. O chuveiro não passa dum balde bem grande, pendurado no teto, com uma enjambração de ducha, controlada por uma torneira, hahaha.....muito tri!! Como não há eletricidade em Polônio, quem quiser tomar banho de água quente, tem à disposição, sobre uma mesa, um fogãozinho de 2 bocas de modo a esquentar água. Fátima, cheia de mimimi, claro está que trata de esquentar sua água, resmungando o tempo todo da precariedade do banheiro, hahaha....essa little monster na tpm é azucrinante! Por 30 pesos, um armazém, que conta com gerador de energia, carrega dispositivos eletrônicos. Assim, Ange e eu vamos até lá, deixando ela seu celular, eu, meu relógio Garmim, carregando até amanhã. Aproveitamos e compramos um Pinot Noir Sirah da Dom Pascual pra acompanhar a refeição. Willi prepara a janta, fazendo ele próprio a massa dos ravioles mais um pão. Servida em pratos fundos, a massa recheada com queijo e nozes e coberta por salsa rosada com pancetas é qualquer coisa de boa. O pão levemente adocicado revela-se providencial: ajuda a raspar o resto de molho do prato que se torna luzidio de tão limpinho. Comemos ao ar livre junto com o simpático casal Daniel e Isabel, pais de Tomas, além dos namorados Cassidy e Tomas, todos argentinos exceto Cass, americana, residindo em Buenos Aires onde trabalha ensinando inglês. Uma fogueira a 20 metros estala e suas chamas, além da lua já quase cheia, são a única iluminação na encantadora noite de Polonio!

sábado, 27 de dezembro de 2014

Pedal por Conta

Durante o pedal no litoral do Paraná, a amiga Fátima pediu que eu pensasse numa viagem de final de ano. Como sei que ela não é lá muito afeita às caminhadas, decidi que seria pedal nossa trip. E sem carro de apoio, por conta, como fora em junho, no assim chamado Pedal Tô Fora da Copa! Inicialmente, o plano era de pedalar na Mantiqueira, no badalado Caminho da Fé. Contudo tal idéia depois dum certo tempo foi posta de lado porque nos demos conta (graças a deus) de que o trajeto, a ser feito no forte do verão, quase sem pontos d'água pra se refrescar, com muitas subidas fortes, seria uma verdadeira via crucis, e nenhuma de nós têm vocação pra mártir. Lembrei então de meu amado Uruguay. De seu litoral cheio de boas praias e dos trajetos sem grandes esforços físicos proporcionados pelo relevo predominantemente plano. Sabedoras de nossas intenções, Maria Angélica e Josmara se convidaram, sendo de imediato agregadas à pequena comitiva. Na manhã do dia 25 de dezembro, partimos de Porto Alegre, eu, Fatima (Little Monster viera de Curitiba celebrar o natal na minha casa), mais o pimpolhão Raulim que, a convite de seu amigo de infância, Felipe, vulgo Dente, passará a virada do ano em Hermenegildo, balneário do Chui. Ange e Jô se juntarão a nós, dia 26, nessa cidade, ponto de partida do pedal, já que a função empezará dia 27, findando em Montevideo após sete dias de estrada. Escolho para chegar ao Chui, em vez da BR 116, com seus enlouquecidos psicopatas do volante, a tranqüila BR 101, antiga estrada do inferno, rebatizada atualmente de Rota MERCOSUL. Salvo um pequeno trecho que antecede Mostardas, a ex-temível rodovia apresenta boas condições de trafegabilidade. Um pouco antes de chegarmos em Mostardas, peço que Raul pare o carro de modo a que Fátima e eu possamos pedalar até a cidade. Eu que nunca pedalara com alforges tô com o fiofó apertado. Medo de me desequilibrar e me estatelar no asfalto. Logo percebo que não é pra tanto. A não ser certo cuidado ao subir e descer da bici, os alforges não atrapalham em nada minha marcha. Com vento a favor, cobrimos os 20 km até Mostardas em 1 hora. Entramos na cidade para visitar Fabiana e filhos, lastimando não poder curtir mais tempo a agradável companhia de amigos tão carinhosos. Porém temos urgência em chegar a São José do Norte porque, amanhã, sexta-feira, queremos pegar a primeira balsa que faz a travessia do canal até Rio Grande. Acordamos cedo e conseguimos embarcar na balsa das 9 horas cuja travessia não dura mais que 30 minutos. Atravessamos Rio Grande, minha terra natal, direto e reto até o Chuy onde Raul nos larga em frente ao hotel Internacional, situado na banda uruguaia. À tardinha, chegam as gurias e o animado trelelê sobre a viagem é inesgotável, com Ange perguntando se não está levando muita coisa. Marinheira de primeira viagem nesse tipo de aventura, é claro que a muchacha carrega tralha desnecessária, o que faz com que seja zoada pela debochada da Fátima. Bem humorada, a guria leva na boa, sempre sorridente. Sábado amanhece com sol, sem vento, o que me tranqüiliza, já que receio bastante o vento sul que sopra forte pra caramba aqui no Uruguay. Montamos nas bicis mais felizes que pintos no lixo e nos tocamos pra Punta Del Diablo, balneário localizado no departamento de Rocha, onde pernoitaremos. Uma breve passada pela aduana uruguaia onde um falante funcionário avisa que já bens uns 20 ciclistas passaram por ali rumo às praias. Após 33 km, avistamos Santa Teresa, encarapitada numa colina. Subimos pela estradinha que conduz ao interior da linda fortaleza, construída no século XVIII,  inicialmente, pelos portugueses e finalizada pelos espanhóis. Terminada a visita, percorremos o parque perfazendo 10 km ao longo de suas avenidas bem arborizadas. Contando com boa infra-estrutura de camping, cabanas, armazéns e até restaurante, esta área de lazer ainda oferece diversas trilhas além de 4 praias que fazem a delícia dos turistas, a maioria composta de jovens. Da fortaleza a Punta Del Diablo é um abraço, apenasmente 10 km. Nem um pouco difícil achar nossa pousada, maliciosamente apelidada Les Diablettes. Sua dona, a simpática Rossana, vendo como estamos esbaforidas do esforço físico, abre a geladeira onde há uma garrafa de água geladinha a nossa espera! Nossa habitação é um chalé de alvenaria pintado de branco, ao estilo mediterrâneo, com 2 camas de solteiro no piso inferior e uma de casal no superior. Um terraço com cadeiras preguiçosas oferece uma bela visão da praia. Devidamente recompostas após o banho, rumamos ao centrinho procurando restaurantes onde almoçar já que forráramos os estômagos apenas com empanadas compradas em Santa Teresa. Como a maioria dos restaurantes ainda estão cerrados (nossos relógios acusam apenas 19 e 30) já que a função noturna somente inicia a partir das 20:30, encontramos certa dificuldade em achar lugar pra comer. Acabamos sentando num tal Lo de Olga por insistência duma brasileira, já meio no tragoleu, que tece loas a respeito dum prato de frutos do mar. Segundo ela, embora não conste no cardápio, é dos deuses. Toda a comida se revela uma grande porcaria. Moluscos, camarões e pescados semi crus (e não se tratava de sushi, tá ligado?), mais um purê de batata mais farinha que outra coisa. Sorte da brasileira que se mandou antes que houvéssemos provada a comida. Caso contrário teria o azar de ouvir um discurso (meu, por supuesto) duro, enfático, bem mala sobre culinária. Ela nem sabe do que se salvou! Contudo, nem tudo está perdido em matéria de gastronomia neste balneário tão badalado. Entramos numa heladeria e mandamos ver pois o sorvete uruguaio é muiiito bom!! Contrariando meu arraigado hábito de contenção alimentar, peço um cucurucho com duas bolas de sorvete de modo a preencher meu estômago após a parca ingestão da repelente refeição. Mas nada consegue empanar a inebriante sensação de alegria e liberdade usufruídas no nosso primeiro dia de pedal. Tá bom demais isso tudo!

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Pedal do Gritiriu

Pois não é que se apresenta uma nova oportunidade de pedalar no Uruguay? Aparentemente carcando o tênis (recuso-me a usar sapatilha, basta de comprar terrenos!) nos mesmos lugares por onde pedalei no carnaval. Não será isso, contudo, que vai embaçar meu entusiasmo e fazer eu desistir de pôr o pé, ou melhor, a bici na estrada. Muito pelo contrário! Além de adorar o país vizinho (nem tanto tempo assim a primeira visita, apenasmente, 46 aninhos atrás), aprecio o estilo gerencial de Fabiano e Cristiane Pellenz. Proprietários da Ekonova, agência de turismo de aventura, com sede em Nova Petrópolis, o jovem casal sabe administrar com sensibilidade e pulso firme as indiadas pedalísticas. Na sexta, nos tocamos, eu e Denílson, velho conhecido de pedais passados, direto e reto pro aeroporto, ponto de encontro dos portoalegrenses que estão aderindo à caravana ciclística. Pontualmente, o confortável busão sai de POA às 23 horas rumo ao departamento de Treinta y Tres onde, no sábado, rolará o primeiro pedal duma série de 4. Ultrapassada a fronteira após os chatos trâmites burocráticos - putaqueospariu, esses procedimentos já não deveriam ter sido ou abolidos ou então simplificados em prol do tal de Mercosul (e esse organismo ainda existe?) -, chegamos no encruzo da Ruta 8 com a estrada de chão batido que conduz ao nosso destino, a Quebrada de los Cuervos. Encaixadas nas magrelas as rodas dianteiras, iniciamos o pedal lá pelas 10 horas. Acompanha-nos um cão muito do ordinário que, se aproveitando dum descuido da boa Josmara, come o sandu (o descarado ainda teve o cuidado de tirar o papel filme com a pata, pode?) que a única paulista do grupo deixara no chão de bobeira. O interesseiro animal “pedala” junto conosco durante os 25 km do trajeto, sei lá se na esperança de filar outro petisco ou se por genuíno espírito vira-lata. O pedal é tranquilíssimo. Subidas que se sucedem naquela topografia sutil de ser das serranias uruguaias onde nada é muito dolorosamente íngreme. Proibidas bicis no interior do parque, percorremos a pé os 8 km de trilhas que circundam a pequena garganta. Situado na Serra do Yerbal, o minicanyon alcança em alguns pontos mais de 100 m de profundidade, em cujo interior serpenteia o arroio Yerbal Chico, curso d’água com bons poços prum mergulho no verão. Devido ao adiantado da hora, não é possível pedalar de volta até a Ruta 8, já que teremos de viajar mais duas horas até Minas, onde pernoitaremos e pedalaremos amanhã. Situada no departamento de Lavalleja, a pequena e simpática cidade exibe essas árvores tão caras em plagas uruguaias: os plátanos! Infelizmente, ainda, desfolhados. Ao redor da praça, bares, restaurantes e a centenária confeitaria Irisarri, cujos doces e salgados tiram a gente do sério. Impossível comer só um! Quando começo um pedal, trato de não me atucanar caso venha a esquecer um que outro nome. Olha só, neste, os participantes são em número de 14! Daí haja memória pra guardar tantos nomes, assim, de supetão, né? Chamo-os, então, no início, indistintamente, de meu querido, minha querida, até saber na ponta da língua quem é fulana, sicrano ou beltrano. Tampouco fico me refestelando logo de cara, pois, como decana do bando, tenho de manter a pose. À medida que passam os dias, alivio a mão no freio emocional e vou me apaixonando, pedindo amizade no Facebook e tratando os queridinhos como se os houvesse conhecido desde o ventre materno. Alguns relacionamentos perduram. Outros vão se esfumando com o passar do tempo. O que importa se restam boas lembranças, né?! Bueno, o domingão em Minas amanhece sob cerrado nevoeiro. Nem esquento porque nada mais certeiro que o ditado gaudério “cerração baixa, sol que racha”. Dito e feito, 10 da manhã, a névoa se dissipa e revela o belíssimo contorno do cerro Arequita. O sol, emitindo seus trilhões de megawatts, ilumina e aquece o dia. Vai ser um baita pedal, tô sentindo, uhuuu!! Juntam-se a nós 30 animados muchachos e muchachas uruguaios, alguns amigos do casal Pellenz, outros amigos dos amigos. E, alegremente, iniciamos a pedalera rodando ao longo dum curto trecho de asfalto (graças a deus), logo enveredando por estradas de chão batido. Embora tenha sido um humilde giro de 38 km, o pedal não é facinho, não!! Às estradas de chão batido sucedem-se trilhas cobertas de grama, tornando pesado rodar as bicis. E dessa vez não falta uma boa e forte subida. Na finalera do passeio, pegamos um vento contra que bota quase todo mundo de língua de fora, embora já estejamos em terreno plano. Pra repor as calorias consumidas, os hermanos nos oferecem uma farta parrillada regada a uísque (sim!!), cerva e refris. Ao som de cumbias e merengues, tem início o fandango. Somos convocados (não há palavra melhor pra expressar o que se passou, hehe) a bailar, não admitindo, em especial, as hermanas qualquer recusa. No que iniciamos a dançar, os uruguaios riem, deliciados, de nosso jeito de rebolar. Melhor dominguera impossível de inventar. E chega então a sempre mal-vinda segunda-feira, amaldiçoada por 9 entre 10 terráqueos. Pra nós, entretanto, um prazer recebê-la, o que fazemos de braços bem abertos. Afinal, é por uma boa causa: continuamos a pedalar! O próximo passeio partirá de Nueva Helvetia, situada no departamento de Colonia, onde chegamos por volta das 11 horas. Terminada a função da montagem de las ruedas, pedalamos 7 km até as ruínas do Molino Quemado, monumento histórico uruguaio, situado num belíssimo e verdejante parque. Da outrora imponente propriedade, restam apenas as grossas paredes externas. Daqui a Rosario é um tapa onde, na praça em frente à bela igreja Nuestra Señora Del Rosario, paramos pra lanchar. E saímos da cidade pegando novas e agradável estradinhas de chão batido cujas pequenas ondulações ajudam a quebrar a monotonia dos 47 km de superfície plana até a Ruta 1. A partir desta carretera mais 25 km, dessa feita já rodando no asfalto. A movimentada rodovia tem bom  acostamento, exibindo, ao longo de 10 km, a famosa alameda adornada com palmeiras do tipo butiá. Chegamos a Colonia Del Sacramento às 17 horas, felizes que nem pinto no lixo. Afinal, saiu-se da zona de conforto, finalizando em 5 horas um pedal de 72 km. Apesar da quilometragem, à noite, pegamos o busão em frente à avenida beira-rio e vamos jantar num dos aconchegantes restaurantes do centro histórico dessa charmosa cidade, construída na margem esquerda do rio de La Plata. Provo dum Tannat Rosé de sabor inesquecível! A essa altura da cicloviagem, as parcerias estão pra lá de fortalecidas, as afinidades já estão escancaradas e.....tchan tchan tchan.....sempre alguém se destaca pro bem ou pro mal. No nosso grupo, graças a deus, é pro bem, na pessoa do impagável Jair. Alcunhado pela galera do paraglider, esporte que pratica, de prefeito do minimundo, devido a sua pequena estatura (agora se é obrigado a ser politicamente correto, evitando chamar alguém de nanico ou tampinha, porque senão te fodem com um processo), o cara é figuraça demais! Perguntada se o marido se mostra igualmente bem humorado também no recesso do lar, Simone, a cara metade, não só confirma como entrega "é sempre, assim, bobinho". Ahahaha.....nada boba a gringolinda! A velha tática de desqualificar pra defender o que é seu! Tanta a animação, tamanha a felicidade que uns e outros extrapolam nos decibéis permitidos ao bom convívio. O gritero é de estourar os tímpanos! Mas gra-ças a deus, nossa comandante em chefe, Dona Cristiane, com sua pegada de educadora, posto que mãe de adolescente, passa um pito daqueles, chamando a galera a ordem! Não dá outra, os gritões passam então a falar baixo, olhando com o rabo do olho pra Dona Crisálida! Por causa disso, o prefeito Jair, a cada vez que o tom das vozes ultrapassa o limite da decência, alerta, com aquele forte sotaque da gringalhada de Caxias, “olha o gritiriu!”. Porém outro personagem se impõe, além de Jair. É Giumar. Enorme de alto, forte no pedal que nem touro miura, é dono de enormes olhos azuis exoftálmicos, chamado por isso de zoiudo pelos amigos! Faço questão de esclarecer que são seus amigos que o tratam assim. Eu, deus me livre de usar termos politicamente incorretos. Pra mim sempre será exoftálmico seu azulado olhar! Com sotaque de alemão da colônia, mais carregado que o acento italianado de Jair, Giumar come pelas beiradas. Conta seus causos em petit comité, não competindo com o prefeito. Quando dá uma brecha, ele se sai com estórias rocambolescas, proibidas pra menores de 60 anos. No último dia do pedal, terça, a forte chuva e o vento de rajadas torna impraticável qualquer tentativa de pedalar durante a manhã. O pessoal não se acanha na pousada e toca pro centro histórico. Fabiano, em consulta aos búzios meteorológicos, verifica que a chuva terá cessado até o final da manhã. Fica combinado que o pedal acontecerá a partir das 13 e 30...será?! Mulher de pouca fé que sou, pago pelo mau pensamento. A chuva não só pára como abre aquele solzão exibindo um céu azul-anil de dar gosto de olhar pra cima. E o passeio rende deliciosos 45 km ao longo de estradas de chão batido livres de veículos. O único contratempo é o ventão castigando os 15 km finais de pedalera. À noite, pra celebrar os bons momentos e antecipar a despedida, compramos tira-gostos num armazém e pizzas de variados sabores são encomendadas. Tudo devidamente regado com muchas botellas de tannat uruguaio!!! Tintim macacada......ops, galera!!

domingo, 10 de agosto de 2014

Casamento em Tinke

Mais bem disposta fico quando saio da barraca e constato a ausência de qualquer vestígio, sequer um fiapinho que seja de nuvem, embaçando a face norte do Ausante. De cara limpa, está deslumbrante neste domingão ensolarado. Aqui, em Upis, a visibilidade é maior que em Pacchanta já que se vê o maciço quase de cabo a rabo. Apenas duas encostas de montanhas, de baixa estatura, encobrem um tanto de seus flancos oeste e leste. Não consigo despregar os olhos deste colosso de rocha e neve. É hipnotizante. Assim como a vontade de fotografá-lo e filmá-lo torna-se algo próximo à compulsão. A mesa do café, montada ao ar livre, de frente pra montanha, permite que, assim, bem refestelados, a apreciemos enquanto comemos nosso desaiuno. Tsk tsk tsk....chegou a hora do retorno à civilização....merda....o trek tá terminando....que droga! Não há outro jeito senão partir rumo a Tinke, local onde a caminhada iniciou há 6 dias atrás. E a saudade já se faz sentir. Partimos de Upis, dando as costas, infelizmente, ao Ausangate. Assim, cada vez que quero vê-lo, rodo nos calcanhares e lanço-lhe olhares compridos. Pra tentar reter bem na lembrança a imagem desta paisagem que me é tão cara. À medida que avançamos, o Cayangate emerge, igualmente, magnífico em meio ao capim dourado, que reveste a ondulada superfície do pampa andino. E quanto mais nos acercamos de Tinke, melhor se percebe o contorno da cordilheira Vilcanota com seus cumes e encostas nevados. Após 2 horas de caminhada, entramos na estrada de chão batido. Uma pena que os impressionantes Cayangate e Ausangate continuam nos nossos costados. Portando nas cabeças as belas monteras e vestindo trajes típicos, quatro mulheres ultrapassam-nos com passo apurado. Daniel trata de acompanhá-las durante certo tempo enquanto a conversa se desenrola em meio a risadas femininas. Dirigem-se à feira que se realiza todos os domingos nos povoados e cidades peruanas. Na entrada da vila, celebra-se um casamento. A orquestra, que se organiza em frente à mesa onde estão os noivos, indica que vai rolar um baile. Uma pena que não possamos parar - mal tenho tempo pra fazer uns cliques e filmar - porque o veículo que nos levará de volta a Cusco sai às 13 horas e já são 12 e 30. Daniel conta que em seu casamento foram convidadas 800 pessoas!! “Gasté mucha plata”, acrescenta. Convida-nos, eu e Ju, pra conhecer a esposa que cuida da lanhouse, um dos negócios do casal, enquanto ele está viajando a serviço. O cara, bem empreendedor, não se limita apenas à profissão de guia. Atua em várias frentes. E pelo visto tem na mulher uma boa parceira. Conduz eu e Ju até o terraço de sua casa e faz questão de nos fotografar com a saia e a montera pertencentes à sua mulher. Fofo demais esse Dani! Almoçamos no mercado de Tinke onde se vende de tudo: desde roupas que são feitas na hora, a vegetais, frutas, hortaliças, legumes, galinhas, cabritos, agulhas, remédios e mais não cito porque não teria espaço para descrever tanta diversidade de mercadorias expostas à venda. Deixo o pueblito com o coração apertado, emocionada com o carinho e dedicação demonstrados por Daniel. Inesquecível guia! Durante o retorno pra Cusco, passam por nós na direção contrária, carros e caminhões com as carrocerias apinhadas de gente, muitas delas em pé. Os veículos, enfeitados com balões coloridos, dirigem-se a Tinke pro casório. Deve ser uma festa de arromba. Pra me distrair durante as quase 3 horas de viagem ao longo da carretera Transoceânica, resolvo assuntar com Rosembert algo que vem chamando minha atenção desde que aqui cheguei. Os muros e paredes externas das casas exibem recente propaganda política. A minha dúvida é, caso ainda não tenham ocorrido, quando serão as eleições? Serão em outubro - como as nossas – com a finalidade de renovar o quadro de governantes e legisladores dos departamentos e províncias. Em chegando a Cusco, Ju se manda prumas comprinhas de última hora. Já eu vou ao mercado comprar vinho peruano e snacks de choclos, a pedido de meu filho. Dia seguinte, segunda-feira, quase perdemos o voo pra Lima porque o táxi contratado pra nos buscar no hotel simplesmente não apareceu! Embora curta a viagem, tivemos de esperar quase 8 horas na capital peruana, quando então às 23 e 30 embarcamos no avião que nos trouxe de volta a Porto onde chegamos na terça-feira às 6 da manhã! Essas conexões são de fudê!! Mesmo assim é bom demais viajar!

sábado, 9 de agosto de 2014

Experiência infernal

O dia mais frio de todos embora sem queda de neve durante a noite. Ju continua debilitada da infecção intestinal motivo por que deixa o acampamento montada a cavalo. Hoje a pegada é fodástica porque temos 2 passos a enfrentar: Apachata e Arapa. O primeiro situa-se na montanha situada diante do acampamento da laguna Ausangate. Apesar de curto - a distância ultrapassa pouco mais que 1 km -, o ascenso é bem íngreme até os 4.900m de seu topo. E começa a nevar enquanto estamos subindo! De novo, oh, não!! Ultrapassado o passo cujo solo exibe-se bastante nevado, imersos numa nuvem, penetramos no belíssimo Pampachiri, um estreito vale delimitado à direita pelo extenso maciço do Ausangate e à esquerda por cordões rochosos que, em certos trechos, se afunilam formando algo parecido com o que aqui no sul chamamos de brete. Muito a fudê essa parte do vale. Passamos ao largo da laguna Vinococha cujas águas azuladas são bem escuras. Nesta banda, já estamos diante da face oeste do Ausangate onde, não muito distantes de seu cume, penduram-se enormes seracs. Uma pena a maior montanha do departamento de Cusco se encontrar parcialmente encoberta por nuvens. A merda do tempo mais uma vez nos sacaneia! Pois não é que o céu tem se mantido nublado já faz 3 dias? Merrrdaaa!! Passamos por três lagunas, todas chamadas Pucacocha, resultado do degelo dos glaciares que cobrem parcialmente o Ausangate. A escassa vegetação, constituída praticamente por ichus, imprime à paisagem uma paleta de cores que se reduz ao amarelo das gramíneas e ao cinza escuro das rochas. Almoçamos em frente ao Extremo Ausangate, um monolito de coloração preta, também parte integrante do maciço Ausangante. Turistas que pretendem escalá-lo estão acampados aqui. Daniel avisa que, embora “suave”, a subida até o passo Arapa demora um eito em razão de ser super longa sua travessia. A partir daqui, a paisagem vai se tornando cada vez mais árida, aberta, sem montanhas próximas que a confinem. Na verdade, alterna trechos “planos”, com pequenas elevações que lembram um pouco as coxilhas gaúchas. Cansada como estou qualquer lombinha significa um evereste pra mim, motivo por que um pouco antes de alcançar o passo Arapa, chego à conclusão que será tortura insistir em continuar caminhando. Tenho a impressão que se der mais 10 passos, desabo no chão. Ju então cede o cavalo pra mim, a querida. Tamanha a exaustão que mal consigo montar no lombo do manso cavalo onde alcanço “motorizada” os 4.800 metros do passo Arapa. Deste ponto em diante, novamente, o Ausangate volta a exibir sua face norte, e nós completamos assim uma volta de 360º ao redor desse formidável nevado A paisagem torna-se totalmente desértica, sem qualquer talo de gramínea. Já recuperada, apeio do cavalo e vou caminhando até o acampamento armado em Upis. Na descida, rebanhos de alpaca pastam numa área onde a vegetação rasteira dá pinta novamente. Chegamos a Upis às 14 e 20 após 6 horas de pernada numa distância total de 15 km. Eu e Juju, felizes da vida, com a possibilidade de relaxar nas águas termais, pegamos a trilha que conduz às piscinas. Quando entro, solto um formidável berro que deve ter sido ouvido em Cusco. A água não está quente, está fervendo, está pelando!!  Um horror!! Fico, inclusive, sem ar por alguns segundos, tamanha a violência do choque térmico. Espero seja esta a única experiência infernal sofrida não só em vida como na morte, hehe. A sorte de Juju é que ela não entrou comigo. Passamos as duas então pra outra piscina. No entanto, a temperatura morna da água não convida a que fiquemos nem 10 minutos ali. Outro martírio é enfrentar o rústico vestiário cujas janelas sem vidro não nos protege nada das frias rajadas de vento que fustiga o lugar. Como a face norte do Ausangate ainda está escondida pelas nuvens, sem chances fotografá-la. Oxalá, amanhã o dia esteja melhor! Entro na barraca e ponho pra carregar meu relógio Garmin no recharger Sherpa 50 adquirido recentemente. Uma maravilha essa engenhoca! Nem precisei usar os painéis solares porque o recharger, carregado previamente na eletricidade antes de sair pro trek, só consumiu 20% de sua capacidade de armazenamento. Nunca mais vou ficar na mão sem poder registrar o trajeto de minhas aventuras, coisa que antes não conseguia porque o Garmin só agüenta 7 horas por dia. Posso agora ficar no mato sem cachorro mas never nunquinha mais máquina fotográfica, ipod, celular e relógio me deixarão na mão, sem funcionamento por falta de carga!! Viva a modernidade uhuuu!! Deito-me e pego o livro de suspense que se desenrola na Lapônia norueguesa “40 dias sem sombra”, cujo nome se deve aos largos períodos em que ausente a luz solar nesta parte do hemisfério norte. Tá aí um lugar que quero conhecer, não só por isso mas pelo espetacular fenômeno da aurora boreal. 

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Passo Palomani

Muito chata mas muito chata mesmo essa função de guardar roupa nas sacolas, desinflar isolante térmico, enfiar saco de dormir dentro da capa e outras cositas mas. Sem esquecer o reverso quando a gente chega no acampamento e tem de tirar tudo de dentro da sacola, soprar o isolante, tirar o saco de dormir da capa e por aí afora!! Tudo realizado no interior do "big espaço" que são as barracas para uma pessoa. Essa rotina me mata. Adoro rotinas mas essa, por favorrr, ninguém merece!! Meu sonho de consumo é ter dinheiro suficiente pra poder pagar alguém que faça um dia isso por mim. E não estou brincando não, por isso não escrevo os he he he no final da frase, tá ligado? Bueno, sonhos ainda não custam nada, só rendem, às vezes, uma baita duma frustração porque nunca se realizam. O solo ao redor do acampamento está totalmente embranquecido pela queda de neve durante a noite. O nevado 3 Puntas mal dá pra se enxergar devido ao nevoeiro que toma conta daquela parte da cordilheira Vilcanota.Saímos do acampamento mais tarde, 9 e 30, porque estamos todos ainda cansados da pegada do ataque ao cume do Campa ontem. Deixamos a província de Quispicanchis, onde se deram os três primeiros dias de nossa pernada, e adentramos agora a província de Canchis. Caminhamos ao longo da belíssima quebrada ou vale Chillca que começa no passo de Campa e termina no distrito de Pitumarca. Ontem, do topo do Campa, a parte inicial deste vale já me chamara a atenção. Agora, percorrendo suas entranhas, mais encantada fico pelo colorido de suas pastagens e a cor avermelhada de algumas encostas de montanhas embora o céu mantenha-se nublado. Novos floquinhos de neve, se bem que minúsculos, tornam a cair durante um bom tempo. Pousados no chão, bandos de wallatas, pássaros que vivem aos pares, emitem ruídos similares ao cacarejar de galinhas. Um pouco antes da meia dúzia de casinhas de adobe com teto de palha, que vem a ser o pueblo de Huchuy Finaya, há um local para acampamento. O detalhe é que, por se localizar no flanco instável duma montanha, há risco de deslizamento, situação esta que aconteceu há um ano atrás, com queda de toneladas de areia e de enormes blocos de rocha. A sorte é que não havia ninguém acampado no lugar. Dobramos noutra quebrada à direita onde é possível avistar a cara sudeste do Ausangante e a face nevadíssima do Mariposa. Uma pena o tempo fechado porque deve ser um arraso curtir estes dois nevados brilhando ao sol. O vale, delimitado por altos platôs e montanhas, exibe, em algumas das encostas, uma vibrante coloração ferruginosa. Alpacas pastam próximas a um córrego que se origina das águas de degelo do glaciar do Mariposa. No lado oposto, a solitária casa do proprietário do rebanho marca presença na imensidão do pampa andino. Iniciamos a subida do passo Palomani cuja trilha infindável avisa que vai ser osso a caminhada até seu topo, não pela inclinação mas pela extensão. Na metade do caminho, parada pro almoço. O cozinheiro serve dum grande panelão massa com atum mais batatas camote fritas. Exceto as batatas, o resto está muito sem graça, tanto que nem repito. Definitivamente, o rapaz não é lá muito jeitoso na cozinha. Ju, cada vez mais depauperada pelos efeitos da altitude e da diarreia, tem de se valer do cavalo posto à disposição pra situações emergenciais. Assim, bem repoltreada, segue montada o restante do trajeto até o próximo acampamento. Com seus respeitáveis 5.100 m, o passo revela uma paisagem de respeito montanha abaixo: a face sul do Ausangate à direita, a laguna Ausangatecocha aos pés do nevado e, mais adiante, as barracas do acampamento Ausangate onde chegamos às 15 e 30, após percorrer modestos 11 km em 6 horas. Na verdade, o relógio Garmin acusou movimentação mesmo de apenas 4 horas, sendo que as outras 2 horas foram desfrutadas em pausas para fotografar, fazer pipi, regularizar o ritmo cardíaco e almoçar. Mal chegamos ao acampamento Ausangate, situado a 4.600 m, começa novamente a granizar. Tô me dando conta de que só no primeiro dia pintou neve. E o mais incrível: o frio não é de todo insuportável tanto que só usei a minha jaqueta de pluma duas vezes até agora. Pela segunda vez (a primeira foi em Pacchanta, onde há a "casinha" com o famoso buracon no chão), não se usa a barraquinha-banheiro. À disposição dos turistas, uma construção em alvenaria com 4 WC e uma pia, tudo sem água corrente. E o tempo continua feio, nublado, com modestíssimos rasgos de azul no céu, encobertos por espessa camada de nuvens. Servida a janta às 19 horas, conversamos um pouco mas o cansaço dos dias anteriores e do ataque ao cume se fazem sentir. Damos buenas noches aos nossos guias e vamos Juju e eu ao encontro de nossos “berços”.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Nevado Campa

Acordo às 3 e meia da manhã e quando saio da barraca me alegro ao ver o céu vazado de nuvens. Somente estrelas e uma lua crescente já bem grandota. Nem parece que ontem caiu o maior pancadão de granizo sobre o acampamento. Bastante frio mas nada insuportável. Terminada o desjejum, partimos em direção ao passo Campa. Ainda escuro, são 4 e meia, usamos lanternas de testa. Uma hora depois, as dispensamos porque as primeiras luzes da manhã já iluminam a morena que conduz ao início do glaciar Campa. É um pedrario de respeito. Pergunto a Daniel se já ultrapassamos o passo Campa com seus 5 mil metros. Ele responde que sim. E eu que nem senti muito a subida, ala putcha! Aos pés do glaciar, colocamos as cadeirinhas e os grampones necessários pra andar sobre o gelo. Daniel nos encorda, ficando Juju atrás dele, depois eu e por fim Rosembert. Carregando uma pesada mochila com todo o material, Rosembert, praticamente, está pondo os bofes pela boca. Para seguidamente não só pra equalizar seus batimentos cardíacos como para aliviar a dor que sente na lombar. Numa dessas, o coitado chega a se abraçar numa pedra tão exausto está. É engraçado ver um homem agir dessa maneira, dando tanta bandeira de seu cansaço. Bueno, a primeira subida é exigente, um tanto quanto técnica. Crivada de penitentes, a inclinação varia de 45º a 55º. O que complica são as concavidades naturais formadas no gelo, criando uma série de degraus, distantes entre si. Por isso, sou obrigada a malabarismos já que minhas curtas pernas têm dificuldade em vencer os íngremes e altos degraus. Ponho o joelho no gelo e vou assim me içando com o auxílio do piolet e das mãos. Quase duas horas pra escalar os 150 metros dessa pendente de penitentes, pode? Imagino que seria pior se a neve estivesse fofa. Nesse ínterim, o tempo até então impecável, com céu azul e 100% de visibilidade, muda dramaticamente. Baixa um severo white off, enxergando-se nada versus nada da paisagem ao redor. Escalaminhamos, a seguir, um trecho de rochas sob pesada cerração. Algumas coisas neste ascenso estão sendo minha primeira experiência: penitentes e white off, dos quais só tivera conhecimento por leituras nos livros. Se não estivesse calçando grampones e tampouco encarapitada nesta altitude, teria sido moleza trepar nas pedras. Pero a 5. 300 metros nada é facinho, não! Ainda bem que a pegada das rochas é breve, porque chego arfante no alto da parede. E compreendo que o pior está por vir! Faltam ainda 100 metros até o cume. Embora seja uma aresta curta, com superfície lisa, a inclinação atinge bem uns 65º. Caminhando, ou melhor, nos arrastando ao longo da tenebrosa rampa, eu e Juju, descansamos a cada 2 metros pra recuperar o fôlego. Eu cá com meus botões torço para que Juju desista. Sabem por quê? Não há álibi melhor para amparar desistências do que ser solidários aos amigos. Deus que me perdoe tanta calhordice, hehe!! E não é que Ju também pensou a mesma coisa? Quase no final, próxima ao cume, Ju senta, ou melhor, desaba no gelo. Vendo que ela está muito cansada porém não exaurida, trato de incentivá-la, mexendo nos seus brios de aventureira e lasco um “tu vai morrer na praia agora é? vamu, vamu, levanta, guria!” Foi o que bastou pra ela se erguer e vencer os poucos metros que a separavam dos 5.415 metros do cume do Campa (meu relógio Garmin registra esta altimetria, já Daniel afirma que são 5.485 m). Sofrida pernada desde o acampamento, gente: 4 km e 380 metros em 6 horas! E daí foi aquele chororô das gurias. Eu emocionada por vê-la emocionada, ela pelo debut em seu primeiro 5 mil. Ju, passada a emoção inicial, tira da mochila uma cartolina onde está escrito: “Esta filha veio dizer: te amo mãe! Feliz aniversário!” Homenagem a sua genitora que completará 80 anos daqui a 2 dias. Graças a deus que, quando chegamos ao cume, o nevoeiro já havia se dissipado, conforme garantira Daniel durante o ascenso. Pudemos, então, curtir a deslumbrante visão, ao sul, do vale e das lagunas Armachocha e Pucacocha, bem como dos nevados Ausangate, Mariposa, Santa Catalina e Maria Huamanticlla. Já a oeste, separados do Campa por um estreito vale, os nevadíssimos Pucapunta, Hatunpunta e 3 Puntas. O topo do Campa parece a proa dum navio:  largo e comprido, o platô nevado, separa-se dum segundo cume, mais baixo, por uma estreita e também nevada aresta. Ficamos uma meia hora nos deliciando com o visual e tirando fotos até que iniciamos o descenso. No trecho rochoso, Daniel arma um rapel em que ele funciona como ancoragem. Depois disso, caminhada em meio a flocos de neve que caem até que alcancemos o estreito vale visto do cume do Campa. Ju, de tão cansada, teve de ir a cavalo desde o sopé do Campa até o acampamento. Eu vou me arrastando atrás tanto que nem quero saber de curtir as velozes viscayas que correm assustadas campo afora. Não tenho mais forças pra tirar fotos. Quando estou a dez minutos do acampamento, chega o cavalo, enviado por Daniel, pra me resgatar. Que guia bom esse guri! Super atento, calmo, simpático e bem informado. Transmite a maior segurança pra gente. Devo a ele bastante do meu sucesso em fazer cume no Campa! Chego ao acampamento às 15 e 20 e pouco depois sou chamada pro chá com  pipocas na barraca-refeitório. A altitude tá pegando pra valer em Ju. A pobre tá com diarreia desde que acordou. Tenho pra mim que ela também deve ter comido algo com glúten, substância a que é alérgica. Desde que começou o trek, os cuidados com sua alimentação não têm sido dos mais atentos. E não foi por falta de aviso, já que Ju, nos email, alertara a agência pra sua problemática. Previdentemente, medica-se com Imozec, um remédio que age como uma “rolha intestinal”. Reforço o tratamento, repassando-lhe alguns comprimidos de Bactrim F 800 mg, antibiótico de largo espectro que serve pra combater tanto amigdalite quanto infecção intestinal. Oxalá, essa guria não piore!