terça-feira, 27 de julho de 2010

Enfim, de cara com o Huayna Potosí

Tchararará!! Aaahhh, que bom, hoje é a minha vez de ir pro acampamento argentino. Tô na ponta dos cascos, como se diz aqui no Sul. Depois do almoço, enquanto nos preparamos, chegam os dois ingleses e a mexicana. Os três fizeram cume! Converso rapidamente com eles em busca de algumas dicas. Deixamos o refúgio Huayna Potosí às 12 e 50, caminhando por uma trilha bem demarcada, numa contínua subida pela encosta da montanha. Uma parada obrigatória no Rincón de Huayana Potosí onde se paga pedágio de 10 bolivianos pra fazer o cume. Após mais uma hora de caminhada, atingimos o Rock Camp (5.130 m), o primeiro acampamento alto. Muita gente, sentada nas pedras, aproveita a tarde ensolarada pra curtir o visual. Seguimos em frente, agora, sim, escalaminhando um trepa-pedra em cujas frinchas já há a presença de neve. E embora a aclividade não dê tréguas, chego sem maiores problemas no segundo acampamento alto às 16 e 10. Situado a 5.427 m, o refúgio, uma construção de zinco alaranjada, compõe-se dum vestíbulo que serve de cozinha e doutra peça, maior, ocupada quase inteiramente por rústicos beliches. Largo minha mochila e saio pra fora. Largos trechos do vale de Zongo encontram-se cobertos por um denso nuvaredo ao contrário de ontem quando as nuvens pareciam echarpes adejando no azul do céu. Embora distante uns bons 70 km, o Illimani é perfeitamente visível. E os nevados Chikimani, Telata e Charkini percebem-se bem nítidos já que mais ao alcance dos olhos! Agora, 18:20, as nuvens dantes brancas tingem-se de rosa, banhadas pelos últimos raios de sol poente que colorem dum tom levemente rosáceo três dos quatro cumes do Illimani. Que cenário!! Após a janta, todos se deitam e tentam dormir até a meia-noite, horário convencionado pra levantar. Nem todos, porém, conseguem, caso da australiana que tosse desesperadamente por quase uma hora. E eu! Quase enlouquecida, me sinto uma refém, trancada naquele cubículo, sem poder escapar, sendo obrigada a escutar o som daquela guria tossindo feito um cachorro tuberculoso. A irritação aliada à ansiedade com a expectativa do ataque ao cume impedem que eu relaxe. Sem mencionar as duas vezes que saio pra fazer xixi, graças a essa frouxa da minha bexiga! Se dormi um par de horas, foi muito. Meia-noite, por óbvio, já estou de olho arregaladésimo. E - coisa boa! – primeira vez nestes nove dias, não acordo com minha cabeça latejando. Às 00:45, partimos eu e Roque. Nem se faz necessário o uso da lanterna de testa tão iluminada a noite pela lua cheia. O início da caminhada se dá pela lateral esquerda do glaciar. É um trajeto de 350 m percorrendo uma rampa suave cuja inclinação não ultrapassa 30º. A trilha coberta por neve está bem demarcada. Também pudera, desde junho trocentos grupos vêm-na percorrendo diariamente. Os cristais de gelo brilham à luz do luar. E não resisto ao velho chavão de compará-los a diamantes incrustados no solo....ai ai. Encordoada em Roque, que segue à frente, pareço um cachorrinho sendo levado na guia por seu dono. Vejo o topo duma elevação bem distanciada e suspiro fundo. É pra lá que nos dirigimos. Não sinto falta de ar, apenas cansaço nas pernas causado pelas botas e pelo esforço de pisar com os grampões. São breves as passagens que exigem mais atenção, seja pelas pequenas gretas a atravessar, seja pelos trechos bordejando precipícios. Decorrida duas horas de caminhada, olho e vejo a minha esquerda as luzes amareladas de La Paz brilhando à distância. Uma lindeza de cenário. Estou deslumbrada. Compensa o cansaço que já sinto. Atingimos um platô e nova rampa à frente cuja aclividade deve atingir 40º. E já estamos a 5.800 m, ponto onde muita gente desiste. E então inicia a via crucis. Embora seja um trajeto de 250 metros dura 3 horas. Começo a sentir meus dedos dos pés super frios. Nem ouso dizer que estejam congelados - seria exagero - mas não deixa de ser uma sensação bem desagradável. Embora tenha tirado por breves segundos da mão esquerda a luva acolchoada - mantendo entretanto a de fleece -  pra retirar um chocolate da mochila, os dedos tornam-se rapidamente geladésimos, e assim ficam um bom tempo. A temperatura, segundo Roque, beira os - 6º C. Primeira vez na vida que enfrento clima tão frio!! Durante todo o trajeto até a base do monolito rochoso, um cordão tremeluzente de lanternas indica a intensa movimentação de montanhistas rumo ao cume. Pra driblar a fadiga, valho-me do recurso de contar meus passos de 100 em 100, permitindo-me, entre uma centena e outra, um minúsculo descanso, para então recomeçar a caminhada (aprendi isso lendo Tocando no Vazio, com Joe Simpson). Até que distrai um pouco do cansaço o uso desse artifício de concentração. Quando chegamos na base do Huayna Potosí, uma trilha entre penitentes, que conduz à torre norte, quase me faz desistir - e olha que só restam 61 m! Roque, contudo, me incentiva usando a clássica engabelação “son apenas 15 minutos, Beatriz”. E os tais 15 minutos triplicam-se quando alcanço a torre norte, crente que ali é o tal cume. Triste engano! Uma longa e estreita crista, misto de rocha e neve, tem de ser percorrida. Em ambos os lados, um precipício que deve beirar uns 60 m de altura. Ainda não clareou embora na banda oriental uma barra amarelada comece a dar pinta no horizonte. Quando chego ao cume norte às 6 e 30, a lua ainda brilha no céu. Ah, me emociono demais ao ponto de verter algumas lágrimas. E de repente tudo fica cor de rosa!! Uma estupenda paisagem, avivada pela cálida luz matinal, revela a oeste os nevados da cordilheira Real, a leste o onipresente Lago Titicaca e a norte a ainda cintilante La Paz acena boas vindas ao dia que surge. Mal consigo fotografar de tanta gente que há no estreito cume. É um tal de cabeção passando pra lá e pra cá, irritante demais!! Vontade de empurrá-los de modo que não atrapalhem as fotos, hehe. Lá embaixo, macula a brancura do glaciar os vultos das pessoas que ora se dirigem ao cume, ora descem dele. No retorno, um pequeno congestionamento ao longo da crista, provocado pelo tanto de gente que hoje fez cume. Calculo em torno de 70. Coisa mais bizarra essa vida de montanhista: demora-se 5 horas e 30 minutos para vencer um desnível de 661 metros, distância esta que, ao nível do mar, duraria tão somente 8 minutos. Durante os três dias em que permaneci no refúgio Huayna Potosí, olhava aquela monumental montanha e tentava descobrir naquela insondável brancura onde seria a rota normal. E agora estou eu aqui, trilhando-a!! Eu consegui, caramba!! A sensação de exaustão até empana a sensação de triunfo, não dá aquela euforia que eu imaginara. No retorno, à luz do sol, posso então admirar a impecável alvura do terreno, salvo em alguns pontos onde manchas amarelas indicam que alguém ali fizera pipi. Escavadas nas paredes de gelo, brotam grutas de coloração índigo e fendas enormes rasgam o solo congelado. Ao redor, alguns picos mostram apenas uma feição rochosa, sem vestígio algum de neve cobrindo-os. Nos vales, lagunas esverdeadas formadas pelas águas de degelo dos glaciares. Esgotada, desço com vagar as intermináveis rampas, resmungando pros meus botões que não quero mais saber dessa vida de montanha. Quando chego ao acampamento alto às 09 e 50, deito num dos beliches e peço a Roque um tempo. “Necessito 15 minutitos, queridito, para restabelecer mis energias”, lasco num infernal portunhol. Saímos às 10 e 20 e chegamos ao refúgio às 12 e 20. Quando chego a La Paz às 15 horas, antes de ir pro hotel, compro um mapa da Cordillera Real. Durmo 5 horas. Por incrível que pareça, já no avião, retornando ao Brasil, sinto-me, é claro, cansada mas sem sono. Tô pronta pra outra! E que vengam más cumbres!!
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domingo, 25 de julho de 2010

Descansando mas nem tanto!

Sábado, acordo cedo, dando-me ao luxo de levantar às 8 horas, já que nenhuma atividade está reservada para mim hoje. Deito no sofá da sala e leio um pouco, levantando vez por outra pra analisar o Huayna Potosí. Afinal, daqui a três dias, serei eu a tentar seu cume. O radinho de pilhas despeja plangentes músicas na cozinha onde Francisca prepara o almoço. Congelada pelo frio abaixo de zero que caiu durante a madrugada, e considerando, ainda que o refúgio situa-se a 4.700 m, só por volta do meio-dia, volta a fluir a água pelos canos, permitindo que eu faça minha higiene pessoal. Durante o almoço, chegam do Huayna Potosí três jovens: um casal francês e um inglês. Este desaba no sofá e deita uma falação indignada, queixando-se das agruras da ascensão. É um tal de "fucking mountain, fucking climb, fucking that, fucking this" que não acaba mais. Se não fosse pelo sotaque britânico, eu juraria ser ele um personagem de Pulp Fiction. Tá com toda pinta de traumatizado, afinal é seu primeiro 6 mil. Já a francesa, quando entrou na sala, com ar desolado, sinalizou, discretamente, o polegar pra baixo. Atingiu apenas 5.800 m, clássica marca de desistência dos que não logram o cume. Alguns dos membros do grupo dos 7 buscam detalhes da ascensão com os três que acabaram de chegar. Paira no ar uma mistura de tensão e excitação: todos anseiam em partir. Terminado o almoço, lá vão eles rumo ao acampamento argentino onde pernoitarão, subindo, na madrugada de domingo, direto ao almejado cume norte do Huayna Potosí. E o movimento no refúgio é intenso: grupos partindo, outros chegando, como o que traz duas argentinas, uma mexicana e dois ingleses. As argentinas, Majo e Helen, são montanhistas experientes com várias incursões no Cordón Del Plata. Ano passado, fizeram cumbre no Huayna Potosí. Este ano, fazem um esquenta no nevado Charkini (5.300 m), antes de se lançar no Pequeño Alpamayo. No meio da tarde, aceito o convite de Francisca e acompanho-a até o glaciar Viejo. A missão de Francisca é buscar a mexicana e os dois ingleses que lá treinam caminhada sobre o gelo. Isso porque Eduardo, um dos guias do refúgio, que seguira com os três, tem de se reunir, no acampamento alto, com os sete que já lá se encontram, pra, então na madrugada, guiar o grupo rumo ao cume. Há que se improvisar na movimentada temporada de inverno, quando faltam guias no refúgio, motivo por que Pancha se transforma de cocinera em condutora de turistas. No retorno do glaciar ao refúgio, sou brindada com uma bela visão dos nevados Chikimani, Telata e Charkini que se localizam à oeste do Huayna Potosi. Banhados pelos últimos raios de sol, seus glaciares brilham no final da tarde, um contraponto ideal ao cinemascópico céu onde vejo, pela primeira vez, vaporosas e delgadas nuvens flutuando ao léu. Um bem-vindo breique, aliás, em azul tão imaculado. Domingão é um dia que convida à preguiça. Não me faço de rogada e trato de aproveitar a manhã de ócio. Jogo Galaxy Ball, game de celular, uma paixão recém descoberta que cultivo pra matar tempo. Após diversas tentativas frustradas de superar meu recorde de 680 pontos, desisto e retomo a leitura de John Dunning, um de meus escritores policiais favoritos. Vanessa, la mexicanita, entra na sala vinda do dormitório. Largo o livro e pergunto como estão os ingleses já que os três dormem no mesmo quarto, e ela tá de chupiscos e lambiscos com um deles. Os dois passaram a noite com diarréia e vômitos. E tão desprevenidos que nem remédio trouxeram! Não entendo essa gente. Como eu não posso ver ninguém doente, trato de fornecer-lhes uns comprimidos de Bactrim. Conversamos sobre um intercâmbio que envia estrangeiros, em especial os de língua inglesa, à América do Sul. O objetivo, pífio, no meu entender, consiste no ensino do inglês, pros terceiros mundistas num período de três meses!! Em troca, os primeiros mundistas têm a chance de aprender espanhol. Dá pra acreditar nisso? Aprender um idioma em escassos 90 dias? Ai..ai..ai!! Quem lucra mesmo é a jovem turistada européia que, com o término do “trabalho”, aproveita pra fazer tour pela América do Sul. Lá pelas 13 horas chega o grupo dos 7. Apesar do orgulho pela façanha - todos fizeram cumbre -, estão evidentemente cansadésimos. Depois do almoço, tem início, no refúgio, a movimentação usual: os que retornam a La Paz - caso do grupo dos 7 -, aqueles que, hoje, sobem pro acampamento alto e lá pernoitarão e dos que irão treinar no glaciar Viejo - meu caso -, usando, pela primeira vez, botas plásticas, grampões e piolet. Enquanto pra lá me dirijo, vejo Tom com um ar abatido subindo a íngreme empenada inicial que conduz ao acampamento alto. Sei não se o inglês vai conseguir fazer cume amanhã. Seu aspecto é bem ruinzinho. O soroche pegou ele de jeito. Meu guia chama-se Roque. Tem 33 anos e, quando não está guiando, cuida de seu rebanho de llamas na região do Condoriri. Acabou de descer da cumbre do Huayna Potosí com o grupo dos 7. E, pasmem, subirá novamente comigo! Haja fôlego e pernas! A caminhada de aproximação até o glaciar Viejo é fácil, coisa de um hora, se tanto. Atravessa-se uma passarela de cimento que une a margem oeste à margem leste do lago de Zongo, pra então se entrar numa trilha bem demarcada cujo trecho inicial se dá ao longo de poderosos dutos que conduzem a água da represa. É perfeitamente audível o forte trepidar do líquido escorrendo através do grosso diâmetro dos encanamentos. Vejo uma lebre e uma viscacha correndo apressadas, sabe-se lá do que ou de quem. Quando alcançamos o glaciar, Roque escolhe um local mais distante de onde já se encontram treinando quatro jovens. Praticam top rope num paredão de gelo cuja coloração exibe aquele sensacional matiz azul-anil. Sento e calço, primeiro, umas botas macias de couro. Após, enfio outras, feitas dum plástico bem duro, que cobrem tornozelos e canelas, deixando os pés sem flexibilidade alguma: parecem engessados. Por último, amarram-se os cordões dos grampões às presilhas de metal das botas plásticas. Muito emocionante caminhar no gelo, subir e descer paredes verticais, usando pra se equilibrar apenas a ponta afiada dos grampões, com o auxílio do piolet, que serve tanto como bastão pras caminhadas na neve como ancoragem numa parede vertical. Adorei, claro, embora tenha sentido um tiquinho de medo porque - mulher de pouca fé - entrava numa com os grampões, viajando numa trip do tipo “será que eles agüentam esse tranco mesmo?” Depois duma hora e trinta minutos de sobe e desce minhas pernas acusaram o esforço físico. Não é moleza usar essa parafernália nos pés! Devo confessar que estou bem ansiosa com esta minha aventura. É a primeira vez que subirei uma montanha nevada. E com 6.088 m! Comecei a fazer montanhismo meio acidentalmente. Apesar de adorar a leitura de livros sobre o assunto e admirar de longe os heróis desse esporte, nem acalentava planos sobre tal atividade. E tudo começou quando em 2008, aceitei o convite duma amiga e subi junto com ela um vulcão no Chile, o Laskar, com 5.592m. E desde lá tenho me aventurado timidamente por alguns picos até que resolvi encarar o Huayna Potosí, após consultar a opinião dos experts Pedro Hauck e Parofes. Bastou que me garantissem ser uma “simples” caminhada sobre neve e gelo, sem dificuldade técnica alguma, pra que eu incluisse o nevado em meu roteiro. Rola, algumas vezes, um sentimento de desvantagem devido à idade, que procuro compensar, forçando certos limites físicos e psicológicos (e até já me fudi por causa disso, motivo pelo qual sou obrigada às vezes a puxar o freio de mão). Sem falar de minha cabeça que se sente com 10 anos em total descompasso com meu corpo que reclama dos 57. E com esse meu jeito sôfrego de viver a vida, venho buscando recuperar o tal “tempo perdido”. Vitória, na minha visão - reconheço - bem competitiva (aliás, deixei de lutar contra essa pulsão não faz muito; se assim sou, bem melhor deixar rolar, causa menos sofrimento), significa alcançar este cume e outros que por certo virão. Provar que posso, inobstante os meus quase sessentinha! Embora da boca pra fora use o manjado argumento de que o “importante é a experiência, a tentativa”, e o fulminante bordão “tudo vale a pena se a alma não é pequena”, não admito, internamente, menos que o êxito na conquista do cume, de la cumbre. Getting to the summit domina minha cabeça desde que pus os pés na Bolívia e vi pela primeira vez o Huayna Potosí. Servem as belas citações apenas de simplórios consolos, disfarces de futuras frustrações, em caso de malogro. No retorno ao refúgio, conheço o pessoal que chegou enquanto eu estava no glaciar: um casal de argentinos, Cesar e Micaela, dois casais de australianos, não lá muito simpáticos, motivo por que nem me interessei em saber seus nomes, além dum casal de canadenses, Eric e Corinne, ela falando um vacilante espanhol embora consiga comunicar-se razoavelmente. Este será o grupo com quem irei ao Huayna Potosí. A janta transcorre num ambiente agradável conquanto vez por outra, um anjinho - será? - sussurre em meu ouvido: terça-feiraaa, chega duma veeezzz!!
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sexta-feira, 23 de julho de 2010

Trek ao Refúgio Huayana Potosí

Deixamos o acampamento Mama Lloco às 8 e 10. Sinal dos tempos modernos, não serão as mulas que carregarão nossas bagagens; tudo será levado na traseira duma.........moto 250 cc!! Um milagre que o veículo não vergue ao peso de tanta tralha! E lá vai a possante levantando uma nuvem de pó pela estrada que conduz ao refúgio Huayna Potosí, destino final de meu trekking. Distrai-me, durante a subida bem puxada, a agitada movimentação de pequenos pássaros pretos ora traçando ângulos imprevisíveis no ar, ora pousando sobre as gramíneas, numa algaravia de pios de dar inveja a um soprano ligeiro. Que gasguitas são as aves, ala putcha! Os nevados Mama Lloco e Huayna Potosí desaparecem atrás de outras montanhas que lhes ocultam a visão. A íngreme ladeira termina num paso cuja altitude de 5.150 m permite descortinar um cenário panorâmico dos nevados e cerros que compõem a cordilheira Real. Na árida paisagem cuja coloração predominante é o grafite, despontam nesgas de branco nos topos e encostas dos nevados. À oeste, na cordilheira ocidental, destaca-se dentre seus cerros, o perfil esfumaçado do nevado Sajama. Venta bastante e o frio é intenso nesse colo de montanha. Lá embaixo, no vale, o traçado bem delineado da estrada de chão batido estende-se numa reta a perder de vista. O solo arenoso escuro exibe aqui e ali manchas brancas de neve. Iniciamos a descida, contornando a encosta duma montanha pra então alcançar o vale de Zongo, caminhando, agora, pela estrada que eu avistara do paso uma hora atrás. Passamos bem ao largo da laguna Milluni, onde ao longe mal se divisa a pequena vila de mineiros que sobrevive do que restou de estanho, após a desenfreada exploração das jazidas levada a cabo durante décadas por apenas três famílias. E, numa dobra do caminho, eis, reaparecendo, o portentoso Huayna Potosí. Dessa feita, mostra nova faceta: a sudeste. Curto demais observar os vários tipos de nuvens que se formam no céu, seja o dramático tchan dos escuros cúmulos nimbos, seja o contorno vaporoso dos claros cirrus; há que se reconhecer, contudo, a singela elegância dum firmamento imaculado. E hoje, como nos dias anteriores, o céu apresenta-se de brigadeiro. Costeando a laguna Zongo - lago artificial onde foi construída uma hidrelétrica que fornece eletricidade para várias cidades da região dentre as quais La Paz - avisto, encravado na margem oeste, o refúgio Huayna Potosí, onde chegamos às 12 e 30. Aninhadas no sofá, duas moças, exaustas, descansam, tapadas até a cabeça por grossas mantas de lã. Acabaram de fazer cume no Huayna Potosí. Uma delas espicha o pescoço pra fora da coberta. Seus olhos brilham, faceiros, da proeza realizada. Invejo-a. Queria eu estar em seu lugar. Que chegue duma vez a terça-feira!! Já tô começando a ficar ansiosa. Antes de partir pra La Paz, Nemesio mostra minhas acomodações no segundo andar do refúgio onde há dois quartos, mobiliado cada um com dois beliches. Sem mais ninguém ocupando o piso superior, sou dona absoluta do campinho, hehe. No piso inferior, mais três dormitórios, dois banheiros, e um refeitório dividido da cozinha por um balcão onde jaz o dia inteiro, à disposição dos clientes, uma grande térmica com água quente. Ao lado, uma estante com chás de vários sabores (manzanilla, anis, coca, mate e maçã com canela), café, leite em pó, chocolate, bolachas. Numa mesinha, uma cesta contendo bananas, mamões e mandarinas, num self service a la vonté. Dois sofás, dispostos em "L", ao lado da lareira, além de duas compridas mesas e seus bancos. Pregadas nas paredes, fotografias e bandeiras de diversos países com assinaturas de quem fez cume no Huayna Potosí. Um ambiente aconchegante cujo pano de fundo é a visão onipresente do nevado, exibindo, agora, sua face leste. A responsável pelo refúgio é uma índia gordona (não vi nenhuma magra até agora), vestindo roupas típicas. Um avental quadriculado de branco e azul protege a saia de veludo bordô que lhe esconde as canelas. Fala mansa e gestos comedidos. Funde-se ao seu sorriso um leve traço de melancolia. A mulher, por deus, é a versão indígena de Monalisa!! Embora nascida Francisca, os guias e carregadores chamam-na de Pancha. Orgulha-se de sua solteirice e mora com os pais em La Paz. Trabalha uma semana quando então é substituída por outra colega que permanece igual tempo. Cuida de tudo sozinha: cozinha, limpa e ainda faz guiadas com os turistas se necessário. É pau pra toda obra. E quando soube que eu pagava o equivalente a 250 dólares pra minha faxineira limpar minha casa duas vezes por semana, pediu, naquele seu tom de voz baixo e suave, “llevame con usted, Beatriz”. Recusou-se, todavia, constrangida, a revelar seu salário. Ah, seu eu pudesse, com certeza, punha ela na bagagem e trazia comigo! Somente após a janta, a sala, até então super fria (não há calefação no refúgio), torna-se parcialmente aquecida quando a lareira é acesa por um guia. É a senha pra que o grupo de sete jovens turistas ((três franceses, duas dinamarquesas, uma norueguesa e uma inglesa) reúna-se em frente ao fogo onde grossas achas de lenha ardem, soltando vez por outra sonoros estalidos. Exceto a inglesa, ainda estudante de segundo grau, os demais têm curso superior. Quatro são engenheiros dentre eles a simpática norueguesa cujo nome é Audi. “Like the car”, diz ela pra mim quando pergunto seu nome. Altamente especializada, sua área são os cálculos de deslizamentos de terra e neve. E a francesa não escapa da gozação das outras quatro mulheres quando se achando, declara, pomposamente, “I am a diplomat”.... hahahaha, e a snob crente que iria abafar, hahaha!! Deito tarde: 22 horas! Espero assim que meu sono esta noite seja dum tiro só. Ao olhar através do janelão da sala, fico chocada com o que vejo: o Huayna Potosí, iluminado pela lua totalmente cheia, parece que tem um mega refletor focado nele! É de doer de tão lindo! Adoraria pôr meu nariz na rua pero covardezinha que sou pro frio, permaneço entre as quatro paredes, respirando fundo diversas vezes, emocionadíssima com a cena. Se tudo der certo, na madrugada de terça, quando eu estiver indo ao encontro do cume, terei tempo de sobra, pra curtir essa paisagem super enluarada. Quem viver, verá!!
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quinta-feira, 22 de julho de 2010

Trek ao acampamento Maria Lloco

Outra noite mal dormida. Também pudera, ceamos nem bem eram 7 da noite. Trinta minutos depois, nada tendo pra fazer, já que leitura com lanterna de testa exige demasiado esforço dos olhos, trato de dormir. Adormeço só até meia-noite. Daí por diante, um sono entrecortado até as 7 da manhã quando, então, levanto e inicio a arrumação de minhas coisas. Hoje retomamos o trekking. Saímos às 8:20, rumo ao norte, deixando pra trás a laguna Chiat Khorta que, conforme vou subindo a montanha, mais pequena se torna até desaparecer completamente de meu campo de visão. Após uma subida bem íngreme, alcançamos o Paso Jallayco. Do alto de seus 5.031 m, tenho às minhas costas o Condoriri, o Pequeño Alpamayo e o Cerro Áustria. Adiante do paso, à esquerda, enfileirados um ao lado do outro, cerros de pequena altura, dois deles cobertos por modestos glaciares em processo acelerado de retração, e lá no fundão, surge a face noroeste do Huayna Potosí. Dá pra perceber que nas montanhas, cujas rochas são de coloração preta, houve, em tempos “recentes”, glaciares cobrindo-as porque não apresentam vestígio algum de vegetação. Já nos demais cerros, a glaciação pertence a tempos remotíssimos, pois as rochas de tonalidade bege apresentam-se cobertas por uma leve cobertura vegetal. À medida que se desce até o vale Jallayco, perde-se a visão do Huayna Potosí que desaparece, gradualmente, atrás dos cerros que se perfilam à esquerda do vale. À direita, outra linha contínua de montanhas ladeia o pampa coberto de paja brava cujo tom amarelo anêmico quebra um pouco a aridez da paisagem. E pela primeira vez, vejo, brotando, rente ao solo arenoso, minúsculas margaridas. Não resisto à tentação de bater com a ponta do bastão num dos muitos córregos congelados que pontuam o caminho, mas o gelo, duríssimo, não se verga ao toque do metal. Após a planura do pampa, tem início uma pequena subida de onde se avista a laguna Tuni com suas águas azuis, dividida em duas partes por uma estreita faixa de terra. E os mesmo nevados que vi lá de cima do Paso Jallayco, agora, dum outro ângulo, no fundo do vale. Poucas subidas, nada que exija muito esforço. O dia não poderia ser mais gostoso: temperatura amena, pouco vento e aquele céu azulado sem pinta alguma de nuvens. Durante a caminhada bordejando a laguna, começa a ventar com mais intensidade. A trilha, aberta no meio da encosta dum cerro, exige certo cuidado porque muito estreita. Qualquer descuido, rola-se ribanceira abaixo que nem tatu bola, machucando-se nos pedregulhos que cobrem o terreno. Percebo, claramente, a volta que dei desde que comecei a caminhada, na terça, partindo de Tuni. Os cerros, daqui pra frente, apresentam uma coloração clara de rocha, cobertos por uma leve penugem de gramíneas amareladas. Já dá pra se avistar o cerro Maria Lloco e o pequeno glaciar que desce de seu cume até a metade de sua face sul. E, eis, novamente, reaparecendo o Huayna Potosí. Passamos por uma comuna aimará, situada à beira da laguna Zacacha, cuja atividade econômica consiste na extração de estanho, ainda relativamente abundante nesta zona. Mais adiante, ruínas duma vila de mineiros onde décadas atrás existia outra mina de estanho. Só restam as paredes de barro daquilo que um dia foram acanhadas habitações. Pobre gente que se submetia àquela perigosa e insalubre atividade em troca duns míseros trocados. Chegamos ao acampamento Maria Lloco às 15:30. O lugar tem quatro casotas de adobe cuja proprietária, uma índia, já idosa, exibe, contudo, um rosto lisinho de dar inveja. Ela me estende uma mão calejada, áspera ao toque, e transmitindo cortesia, diz alguma coisa em aimará, com um jeitinho triacolhedor. Nemesio, sentado no chão, ao seu lado, confirma o que eu, de cara, intuíra. A simpática senhora está dando as boas vindas em aimará. Ela não fala nada de espanhol. À minha frente, a desbundante face oeste do Huayna Potosí exibe, nos trechos que não se apresenta coberta de gelo, rochas de tonalidade cinza-claro. Ao seu lado, o cerro Maria Lloco dá uma impressão pesadona com suas rochas escuras embora na tradução do aimará lloco signifique coração. A temperatura, beirando os 14º C, é um convite pra se lagartear ao sol enquanto esperamos as mulas com as mochilas, conduzidas pelas índias que ainda não chegaram da laguna Chiat Khorta. Nesta região, são as mulheres que bancam as arrieras já que os homens trabalham ora como porteadores ora como guias nesta época do ano. Nos demais meses, cuidam de seus rebanhos de lhamas. Por supuesto, alugo uma das casas que, infelizmente, não dispõe daqueles confortáveis sacos de forragem da casa da laguna Chiat Khorta. Apenas uma lona azul estendida no chão. Ajeito o saco de dormir perto da janela e convido Nemesio a ocupar o espaço restante. Ele recusa. Insisto, dizendo que venha, é melhor, tem a lona para protegê-lo do frio. Escolhe, entretanto, o canto oposto do cômodo e mostra o papelão que usará como isolante. Eu, no meu canto, leio, e Nemesio, no seu, prepara a janta. Será massa com salsicha. Em frente ao fogareiro, sentado no chão, o filho da dona das terras. Ambos engatam um conversê animado, como sempre, em aimará. Lá fora, o sol, em seus últimos fulgores, tinge de amarelo os flancos de alguns cerros, enquanto no alto, surge, toda exibida, bem rechonchuda, a lua, a única mancha branca no azulão do céu.

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quarta-feira, 21 de julho de 2010

Ascenção ao cerro Áustria, de mãozinha dada!

Duas vezes durante a noite, levanto pra fazer xixi. O que me conforta, de ser obrigada a sair do quentinho de meu saco de dormir, é ter como companhia um luar magnífico, iluminando nitidamente os nevados que rodeiam a laguna Chiat Khorta. Bem que eu gostaria de ficar mais tempo apreciando todo aquele esplendor prateado, mas o frio impede maiores contemplações da paisagem. Acordo cedo com uma baita preguiça de sair do conforto da minha aquecida caminha, feita com sacos de forragem. Enfim, crio coragem e sento à mesa onde Nemesio já serviu o desjejum. Convido Cristina a se juntar a nós. A gorda índia come sem pressa, sempre sorridente. Embora, geralmente, viaje solita, nunca deixo de contratar um guia em minhas andanças, seja no Brasil, seja no exterior. Mesmo em Praia Grande, lugar que conheço bem demais, raras vezes dispensei a presença de meu guia e amigo Kaloca. Por isso, não me avexa nem um pouco essa estória de andar de “mãozinha dada” com os guias. Aliás, acontece, - não amiúde - de eu precisar não só no sentido figurado como fisicamente da mão forte deles. Vejo só vantagens na contratação desse profissional: é uma forma de repartir minha grana, de receber boas informações sobre a região, sem falar no fato de me sentir protegida em ambientes inóspitos ou selvagens que eu, sinceramente, sozinha, nunquinha conseguiria encarar. Eu sou medrosa, uai! E pra culminar, tenho péssimo senso de orientação. Consigo até me perder em shopping Center. A-do-ro ser guiada e sou muito sortuda, já que meus guias – salvo dois “malas” que confirmam a máxima de que toda regra tem sua exceção - foram trilegais, deixando saudades e boas lembranças que guardarei forever. Bueno, às 8 e 25, ainda não de mão dada com Nemesio, começamos nossa caminhada rumo ao cume do cerro Áustria, situado ao lado do Condoriri e Pequeño Alpamayo. O dia está perfeito: céu azul sem um fiapo de nuvem a tingi-lo de branco. Pouquíssimo vento já que a Cordilheira Ocidental, paralela à Cordilheira Real, funciona como um pára-vento, abrandando as correntes eólicas vindas do Pacífico, motivo por que o montanhismo nos Andes bolivianos é bem menos perigoso do que na Argentina, Chile e Peru, favorecendo, assim, a prática do esporte ao montanhista iniciante. Contornamos a laguna Chiat Khorta passando pelo acampamento onde ficam os montanhistas que escalam o Pequeño Alpamayo e Condoriri. A trilha inicial rasga o terreno coberto de gramíneas, exibindo montículos de neve fresca. Embora não muito íngreme, a subida me cansa. Não muito bem aclimatada, ainda estranho a altitude, maior do que a de La Paz. Paro duas vezes pra descansar, beber água e comer chocolate enquanto admiro à minha frente os nevados Cabeza de Condor e Pequeño Alpamayo agora mais próximos. E então, sim, enfrento novo aclive muito mais áspero que o anterior, despido de qualquer vegetação. Tenho a minha frente, uma ampla rampa coberta por lascas grandotas de pedra que exigem certo cuidado na pisada. Contornamos, então, a face norte do cerro Áustria e alcançamos o topo da ladeira. Mais suave que a face leste, daqui já se vê a face oeste do Áustria, onde uma trilha, bem demarcada, leva até o cume. Mais cerros, mostrando as brancas línguas de gelo, acotovelam-se um ao lado do outro, encobertos que estavam pelo Áustria, e, portanto, imperceptíveis da laguna Chiat Khorta. Outra subida de respeito até atingir os 5.200 m do topo da montanha. Descortina-se aos meus olhos uma visão panorâmica: ao norte, avisto a face oeste do Huayna Potosí, ao sul, o lago Titicaca, e, à oeste, o Sajama, com sua cumbre nevada, é uma imagem esbatida no horizonte. Lá embaixo, a única nota colorida são as águas azuladas das lagunas espalhadas a esmo pelo vale. No cume, encontro o tal casal basco. A mulher até que me saúda com um “hola”, já seu companheiro, entretanto, nem um olhar me lança. Quando se vão, apenas a mulher me dá tchau. Desejo sorte e sucesso sem muita convicção. Bem capaz que vou gastar pólvora com chimango! Durante a descida, passam por nós, a caminho do cume, um casal de argentinos, naturais de Salta. Ambos são guias. Paramos pra conversar e os dois contam que tentaram, ontem, fazer cume no Pequeño Alpamayo, sem êxito, todavia. A moça informa que é bem técnico o ascenso, necessitando conhecimentos de escalada em gelo e o uso de parafusos. Limitaram-se ao Tarija, nevado que exige apenas uma caminhada com grampões. Simpáticos demais los hermanos. Ao contrário da maioria de meus conterrâneos, não tenho queixas desse povo. Não entendo o motivo dessa rivalidade que se criou entre os países.... será pelo futebol? Bueno, desde que o azedume só se restrinja ao terreno das maledicências e piadas, tudo bem, não é mesmo? Quando chegamos ao refúgio já são 14:30. Descanso um pouco antes de alongar enquanto Nemesio faz um almocinho rápido pra nós. E o radinho de pilhas do meu bom guia (ontem, quando vínhamos da laguna Tuni pra cá, ele caminhava com o rádio ligado!!), sintonizado, numa estação em aimará, toca músicas típicas bolivianas entremeadas com notícias. Após o almoço, pego o livro de Henning Mankel, Os Cães de Riga, um instigante noir, passado metade numa cidadezinha sueca e outra na capital da Letônia. Mergulho no policial cujo pano de fundo é a luta nacionalista contra o domínio soviético. Cansada de tanta leitura, saio pra dar um passeio, desentorpecer as pernas e fotografar. Embora 18:40, resta, ainda, um vestígio de claridade pras bandas ocidentais. Uma fugaz tonalidade rósea indica que o sol está se deitando no Pacífico. Nemesio prepara a ceia. Vamos ter trutas e arroz com vagens, cenoura e cebola. E o guia dê-lhe a fritar os pescados, deixando o cômodo rescendendo a fritura. A truta, ótima! Apenas uma fina espinha que nem cócega fez na garganta. Depois que o sol se põe baixa um frio severo. Consulto Nemesio sobre a temperatura. Ele responde que o termômetro não passa de zero. Coisa de 2ºC, garante. Hoje Nemesio dorme comigo (ontem dormiu no outro quarto com Cristina) porque as outras peças estão ocupadas por guias e arrieros que chegaram à tardinha. Já deitados (20 horas!!), escuto seu radinho por um bom tempo. E graças a deus, pouco ronca o bom Nemesio!! Acordo na madruga pra fazer o indefectível xixi (só pode ser efeito da altitude, poxa, porque nunca mijei tanto assim), e a noite, lindona, estampando uma lua quase cheia no céu – em tudo igual à de ontem - me consola do incômodo de sair no frio. Olho pra cima e envio uma beijoca pra ela. Inté manhã à noite, linda!!
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