terça-feira, 9 de dezembro de 2003

Fitz Roy

Acordo cedinho e me dirijo à casa de Dom Jose para, conforme o combinado, encontrar Tomás, guia e domador de cavalos, que me irá conduzir no passeio. Ele, um homem moreno, estatura mediana, guapo em seu estilo rude, está encilhando os cavalos – crioulos – quando chego. Iniciamos o passeio por volta das 8 e 1/2 da manhã. Até um certo ponto, refaço o trajeto do dia anterior, passando ao largo da laguna Capri para, em seguida (estávamos a cavalo, não se esqueçam), entrarmos num bosque que desemboca num vale coberto de arbustos que roçam o solado de minhas botas. Até então eu só havia visto o Fitz Roy ao longe, encoberto por nuvens em decorrência de os dois dias de minha estadia terem sido nublados. Vou dar a real pra vocês: dos cinco dias em que permaneci em Chaltén, apenas nos dois últimos fez um radioso sol que me permitiu andar de manga curta, considerando que era verão nesta época do ano! Contudo, dias cinzentos não perturbam em nada meu ânimo. E lá íamos nós, eu mais meu guia (ele quase não falou durante as 8 horas de duração do passeio, sei lá se por timidez, enfado ou se sem assunto mesmo) em meio ao vento impiedoso. Eu, bem abrigada, dentro de minha jaqueta corta-vento, vou atrás dele, tirando fotos de tudo bem entusiasmada (pena ainda não ter uma câmera digital pra poder mostrar pra vocês!). Tanto no caminho da ida como no da volta, passam por nós vários comboios de cavalos carregando cestos com mantimentos e equipamentos pertencentes às expedições de montanhistas que tentam, nesta época do ano, atingir o topo do Fitz Roy. Ao chegarmos ao acampamento base do rio Blanco, lugar reservado apenas aos escaladores (aos turistas, há o Poincenot, do outro lado rio Blanco), Tiago aponta-me a trilha que conduz às lagunas Sucia e de los Tres, já que não irá me acompanhar, entendendo eu depois o motivo. Sem saber que enfrentaria um desnível de empinadíssimos 350 metros, começo a caminhar bem rápido (o solo é pedregoso e a vegetação rasteira), quase saltitante de tão feliz; passados 50 metros começo a arfar (ainda não possuía um bom condicionamento físico, já que essa era a minha primeira viagem como trekker) e desconfio de que o trajeto não é lá tão fácil como havia me parecido inicialmente. Olho pra cima e me apavoro porque o resto da trilha é um aclive pra lá de íngreme (na minha imaginação). Subo os demais 300 metros botando os bofes pela boca, louca de medo de escorregar e rolar ladeira abaixo. Praticamente de quatro, me agarro em arbustos e pedras sem me incomodar nem um pouco com as estranhas posições a que meu parco equilíbrio me expõe, tampouco com minhas unhas (iniciei a trilha com elas bem pintadinhas e limpas, dou um doce pra quem adivinhar como ficaram depois do passeio!). Quase no final do sendero, encontro um casal de brasileiros e um israelense que, compadecidos daquela senhora resfolegante, me auxiliam nos trechos – pelo menos pra mim – mais árduos. Um pouco antes de chegar à laguna Sucia vejo pela primeira vez a neve, até então só conhecida por fotos e cinema: branquinha, fofa e geladinha, ela, cumpre registrar, não me causou tanta emoção, viram? Enfim, atinjo o platô onde se situa a laguna Sucia, suspirando de exaustão e prazer porque a paisagem lá de cima é linda; avisto a minha já velha conhecida laguna Capri assim como o rio Blanco, estreitinho e cheio de curvas, só perceptíveis quando se está no alto. A música, ah! a música: apenas o barulho do vento e nada mais!! Aleluia! o fato de não ser obrigada a escutar barulhos de freadas, buzinas e toda aquela cacofonia que inundam os grandes centros urbanos é uma dádiva que os ouvidos agradecem penhorados. Sento-me, virada de frente para o imponente Fitz Roy, mal entrevisto devido às nuvens ao seu redor. O vento piora, faz-se até meio assustador, mal dá para escutar o que a brasileira tenta me dizer. Admiro o cenário árido onde está encravada a laguna Sucia, de águas cinzentas, daí seu nome, paisagem semelhante à lunar, despida de qualquer vegetação e colorido. Sem poesia, diriam os amantes do colorismo... que bobagem! Os três novos amigos, amavelmente, me convidam para me juntar a eles na breve caminhada de mais ou menos 50 metros até a laguna de los Três que, surpreendentemente, surge coloridíssima exibindo sua água verde esmeralda, contrastando com o bege do solo. E, eis que surge, não mais que de repente, na expressão dos montanhistas, a tão ardentemente desejada “ janela de bom tempo”, e, eu pude a-vis-tar o Fitz Roy em todo o seu esplendor rosa, porque - sim! - a rocha de que ele é feito apresenta tal tonalidade, restando no topo fiapos de nuvens qual fino véu. Delicioso contraste pra Barbie nenhuma botar defeito. Mas, logo, logo, o tempo fecha, e começo a descida, novamente, com céu encoberto, não sem antes me perder um pouco, com direito a um leve ataque de pânico que me faz suar apesar da temperatura nada amena. Paro, olho pros lados, respiro fundo e consigo achar o caminho de volta. Retorno ao acampamento Blanco e, enquanto faço um lanche, observo curiosa aqueles homens malucos, audazes que esperam o tempo melhorar para tentar escalar aquela montanha tão traiçoeira e difícil. Voltamos, eu e Tomás, bem acomodados sobre nossos cavalitos chegando na vila lá pelas 17 horas. Que dia, gente, que dia!!

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