sexta-feira, 12 de dezembro de 2003

Despedindo-se de Chaltén

Em meu quinto e último dia no povoado, o sol brilha esplendoroso e como meu ônibus parte às 18 horas, tenho bastante tempo para fazer uma boa caminhada. Opto, entretanto, em descansar, ainda mais que o calcanhar esquerdo havia começado a me incomodar desde o dia anterior enquanto voltava do Glaciar Torre. Me decido a procurar o posto de saúde e consultar um médico porque eu deixara para quando retornasse a Calafate os demais passeios que aquela cidade oferece. Entro no Posto Sanitário (assim são chamado os postos de saúde argentinos), explico o que sinto a uma recepcionista, e não demoro muito a ser atendida por uma jovem médica que diagnostica uma tendinite no calcâneo (é aquele osso pontudo que aflora do calcanhar). Receita, assim, Voltaren, além de me recomendar repouso, ou seja, caminhar o mínimo necessário. Abobadamente, pago a consulta (graças a deus não foi cara), esquecendo de acionar o seguro de viagem, pode? Em sendo assim, vou na única loja que aceita cartão de crédito comprar umas lembrancinhas para parentes e amigos (em Chaltén não há loja de câmbio, e eu já estou com poucos pesos argentinos). Adquiro, ainda, Relatos Nuevos de La Patagonia Vieja , escrito por Andreas Madsen, um dinamarquês maluco que, no ínicio do século XX, se mandou de seu país, fixando-se em definitivo nessa região depois de muitas peripécias e aventuras, narradas nesse livro de uma forma simples e cativante. Deixo pra lê-lo em Porto Alegre, algo que faço dum fôlego só quando aqui chego! Chaltén se divide em dois barrios: o primeiro, na entrada do povoado, onde se encontram a maioria de seus restaurantes e postos de serviços públicos, conhecido como Chaltén centro ou pueblo; no segundo, apelidado de Chaltén Norte, que se alcança após uma breve caminhada ao longo dum trecho descampado (desse lugar é bárbara a vista do Cerro Fitz Roy), situam-se a maioria dos albergues, pousadas e alguns restaurantes, entre eles o Ruca Mahuida, fundado em 1993. Jantei nele duas vezes nos cinco dias de minha estadia em Chaltén. É pequeno, aconchegante e a salada verde que comi foi, até hoje, a melhor: tomate em cubos, alface, cebola em rodelas, cenoura a juliana, sementes de girassol e um tipo de miniabobrinha, distinta das que têm no Brasil, tudo temperado apenas com um leve toque de pimenta do reino. Já o Estepa, me decepcionou pois não achei lá muito boa a truta com batatas. Na Senyera del Torre, um pub despretensioso, a pedida são as sopas, escolho a de abóbora, muito gostosa acompanhada com torradadinhas de pão francês. O interessante nesse pub são os grandes cadernos de capa dura forrados em couro, à disposição dos clientes para que escrevam seus relatos de viagem. Algumas são narrativas divertidíssimas, como a de um brasileiro contando seu trek às lagunas Sucia e de los Tres, que me arranca frouxos de riso. Outro lugar legal de passar algumas horas, principalmente, à tardinha, é o Zafarrancho Bar, de cujo piso superior, todo envidraçado, desfruta-se uma bela visão da paisagem. Não seguindo à risca as recomendações médicas, vou dar um pequeno passeio pelos arredores do vilarejo, parando pra admirar mais uma vez o deslumbrante cerro Solo. Assim, estando bem provida de belas imagens, embarco no busão, retornando a Calafate já suspirando de saudades do lindo povoado deixado para trás.

Um comentário:

Anônimo disse...

Vamos ver se consigo contato, finalmente. Adorei texto, menina. Acho que vc pode ter encontrado teu meio de expressão nas narrativas de viagem. Gente como Darwin e Conrad fizeram excelentes coisas no gênero.

bjs

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