segunda-feira, 15 de dezembro de 2003

Bombons e Uísque no Perito Moreno


No terceiro dia, parto cedinho (na volta, adeus Upsala Hotel! mudara-me na noite anterior para o Michelangelo, luxuosíssimo se comparado àquelas acomodações cinza-muquifentas) rumo ao glaciar Perito Moreno, eis que distante de Calafate mais de 80 km. Após uma hora de viagem pela Ruta 11, entra-se no Parque Nacional los Glaciares, desce-se do ônibus no cais Bajo de la Sombra, para se embarcar num pequeno catamarã que faz a travessia no Braço Rico do lago Argentino, alcançando-se assim a margem oposta da península de Magallanes. Caminha-se, então, um trecho de 2 km ao longo da costa lacustre quando, então, o solo escuro e pedregoso denuncia o início da margem sul do glaciar. Embora o sol tenha se mantido durante o trek, a temperatura sempre decai ao se adentrar um glaciar, motivo pelo qual havia me prevenido e levado minha indefectível jaqueta corta-vento. Calço meus grampones e lá vou eu. Meio receosa a princípio, um tanto quanto ressabiada do meu fracasso anterior, começo a caminhar despacito, sempre estimulada pelo guia (já havia, é claro, chorado pra ele minha malograda trajetória no glaciar Torre) que se mantém perto de mim, amparando-me algumas vezes em certos trechos. Dessa vez o passeio flui e caminhamos durante duas horas subindo e descendo pequenas colinas de gelo, desviando de fendas profuuundas (ai que medo! Neste trek, todavia, a fobia não me vence, não! vitóóória!). Vislumbres aqui e acolá de cintilações azuis colorindo aquela brancura de doer os olhos. Um mundaréu branco interminável (275 km² de superfície, pasmem vocês!), os glaciares são, de fato, rios congelados. Uma língua enorme, enorme de gelo que desemboca no lago Argentino, putz, é o que eu tenha aos meus pés. Quase ao término do passeio, ainda no glaciar, os guias nos levam a um local onde se encontra uma mesa, e o quê sobre ela? Tchan, tchan, tchan, tchan: uísque (o gelo, pra quem quer on the rock, é pinçado do chão, hahahaha) mais bombons! Tudo para recompor nossas forças, porque, gente, apesar do frio, sua-se muito na caminhada sobre o gelo, podem crer! E, eu, ali, bebericando um uísque, sento-me a aventureira. Retorna-se por um sendero diverso do da ida - belíssimo - atravessando bosques de lengas e ñires - lástima que tão curtinho - até alcançarmos o refúgio, uma acolhedora construção de madeira, onde se pode sempre comer algo, ainda mais depois da uíscada sobre o Perito Moreno. Nova travessia sobre o Braço Rico de modo a que o glaciar seja apreciado de frente. Passarelas de madeira e uma longa escadaria descem quase próximas àquele gélido monumento onde me é dada a graça de escutar sons tonitruantes de trovões, embora o sol se mantenha brilhante. Descubro que não são trovões coisa nenhuma, e sim o ruído dos enormes blocos de gelo se despreendendo do paredão frontal da geleira de 30 metros de altura e caindo nas águas do lago Argentino. Dá vontade de aplaudir, é qualquer coisa de lindo, lindo, lindo! A paisagem ao redor com seus bosques verdes, o colorido das flores e o céu bem azul me fazem tão feliz como há muito não sabia ser. Tão bom estar viva que nem lamento a falta de sorte em não ter a oportunidade de presenciar o fenômeno de ruptura que acontece de tempos em tempos no glaciar. Basta-me por ora vê-lo em sua integridade, comento com meus botões de maneira consoladora, durante a viagem de volta a Calafate.

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