sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Pôr do Sol no rio Negro

Um baita dia, céu azul, calorzão maneiro, pelo menos pra mim que, embora gaúcha, detesta frio. Tenho, inclusive um bordão: quem gosta de frio é pingüim!! São Gabriel possui um comércio forte, motivo pelo qual colombianos e venezuelanos das cidades fronteiriças vem aqui se abastecer. Navega-se até esses dois países rio Negro acima, numa viagem com duração em torno de 5 horas quando o rio está cheio, e de 12 horas com o rio na vazante, como agora. A Colômbia localiza-se na margem direita do rio Negro; na margem esquerda, finca fronteira a Venezuela. São Gabriel tem 23 etnias indígenas. Seu atual prefeito é tukano e o vice é baniwa. A população supera os 40.000 habitantes e, deste total, 90% é indígena. Assim, natural escutar os nativos conversando tukano, baniwa, yanomami ou baré. Pra confirmar a vocação indígena da região, uma lei municipal instituiu como idiomas oficiais, além do português, as línguas tukano, baniwa e nheegantu (língua geral). Desta forma, o município tornou-se o único do Brasil com quatro idiomas, oficialmente, reconhecidos. De acordo com o texto aprovado em 2002 pela Câmara de Vereadores da cidade, todos os estabelecimentos públicos são obrigados a prestar atendimento nos quatro idiomas. Com isso, os concursos públicos também passaram a exigir proficiência em pelo menos uma das línguas indígenas oficiais. Consequentemente, as escolas de São Gabriel foram obrigadas a se adaptar à nova lei e grande parte do material didático já se apresenta traduzido para estes idiomas. Quer algo mais cosmopolita que São Gabriel? Nem Londres, tampouco Paris ou New York os são! Considerada zona de segurança nacional, porque localizada a apenas 300 km da tríplice fronteira, vem daí a presença do 5º Batalhão de Infantaria da Selva, bem como de um destacamento da Aeronáutica. A maioria dos indígenas faz questão de prestar serviço militar. Se por civismo, yo no lo sé. Penso que o atrativo maior é a graninha recebida. Devido às características peculiares deste estado, tudo vem transportado nos barcos e chatas, inclusive carros. Por isso o custo de vida é tão caro. Um repelente que, normalmente, custa 8 reais aqui vale o dobro! Esta parte noroeste do Amazonas assenta-se no planalto das Guianas cujo embasamento de rochas cristalinas apresenta-se recoberto por material sedimentar. Sua vegetação é considerada mata de terra firme, porque situada em altitude superior aos 300 metros. Pepe Legal passa no hotel pra nos guiar numa caminhada até o topo da serra da Boa Esperança, pequena colina situada dentro dos limites da cidade. A subida não leva mais de 30 minutos. Uma moleza. Ao longo da trilha há capelinhas de cimento branco representando a Paixão de Cristo. Na Páscoa, uma procissão desfila até o topo do morro reproduzindo o calvário do filho de Deus. Muitos dos indígenas que vejo nas ruas portam escapulários. Hum...influente ainda a presença da igreja apostólica romana na orientação espiritual dos "pobres" silvícolas. E como não poderia deixar de ser, as assembléias de Deus e outras congêneres já dão ar de sua graça na cidade. A paisagem de cima da serra é soberba, percebendo-se, numa visão panorâmica de 180º, as generosas formas da Bela Adormecida, à leste; à oeste, o Cabari, outra belezura de serra de formato menos impactante, e ao sul, o rio Negro com suas ilhas e baixios de onde despontam largas faixas de rocha escura. Suados da caminhada, terminamos o passeio tomando banho no rio Negro cujas águas tépidas são duma tonalidade caramelada. Sua coloração escura deve-se à decomposição da matéria orgânica vegetal, formada por camadas de folhas e restos de animais mortos (serrapilheira) que são arrastados até seu leito durante as periódicas inundações ocorridas no período de julho a novembro. Curiosamente, a cheia do rio, na região sul, ocorre durante os meses de novembro a junho. Relaxada, a la vonté, dentro d’água, observo um barco desistir de subir o rio. A correnteza, forte demais, não permite sua travessia. Para tanto, seria necessário o emprego de duas voadeiras, uma na proa puxando, e outra na popa empurrando. Indiozinhos aproveitam as corredeiras e nadam, com destreza, até os remansos. Coisa boa este lugar!! Almoço no mercado onde mais uma vez provo a quinhapira em cujo caldo bóia o piraí, peixe menos espinhento que o piau, embora de couro. A dona da banca explica que só se come ele filhote e preparado em caldeirada já que sua carne não presta pra ser grelhada ou frita. Estamos Lili, Marcelo e eu comprando algumas quinquilharias numa loja de artesanato, quando eis que surge o quarto companheiro de expedição, Ely. Amante da fotografia macro, trabalha como colorista numa grande produtora de Sampa. Animado, o paulistano, um homem grandalhão, junta-se a nossa trupe. E lá vamos nós às compras! Urge adquirir redes e mosquiteiros que serão usados como cama durante a expedição. Escolho uma rede cor de vinho e mosquiteiro de filó rosa. Faço questão que combinem. Afinal, não é porque irei me internar na selva que desprezarei certos requintes estéticos! Sou uma aventureira, vá lá, meio patricinha! Na tardinha, um passeio até o Fortaleza, outro morrete, onde subimos, Marcelo, Ely e eu, por uma escada metálica os 30 metros que conduzem ao topo da caixa d’água. O sol poente torna a paisagem deslumbrante. Ely e eu sacamos nossas máquinas e disparamos frenéticos cliques. Nos juntamos a Pepe Legal e Lili que preferiram atividades mais calmas em terra firme. Bebericando cervejas (Pepe levou um isopor com diversas latinhas da loura gelada, sim, senhores!!), os dois admiram a paisagem. Distingo na já não tão incipiente penumbra de final de tarde, lá embaixo, no leito do rio Negro, várias ilhas rochosas onde famílias indígenas, vindas de suas aldeias, preferem acampar a permanecerem na cidade. Que mundo este! Um misto de modernidade, guardando, contudo, resquícios de muita primitividade. Estou deslumbrada, gamada por esta cidade! À noite, o programa é um só: praça de alimentação ou rua do badalo como a apelidei. Um som alto, duma breguice total, ecoa pela rua. Escolhemos um suculento matrinxã. Embora seja um peixe gorduroso, faz todos nós, os cara-pálidas, revirarem os olhinhos e lamberem os dedos. E dê-lhe cerveja e caipirinha!! Ahahahaha!!! O fim de noite não poderia ser mais show. Ely e eu nos enfurnamos rio adentro e, mergulhados naquelas águas mornas, curtimos o céu crivado de estrelas. Que noite, um veludo de tão macia!

2 comentários:

Parofes disse...

Que comece a aventura, estou apreciando o texto e as fotos he he he
Abrazos desde San Pedro!
(de novo ahahaha)

Alessandra disse...

Menina, não acredito que você é daqui do sul!!!!!Eu agora me mudei para o Cassino mesmo, e estou me adaptando pouco a pouco...estou muito feliz com o meu doutorado na verdade, e isso me motiva a ficar onde for. Até porque existem os finais de semana e feriados pra sair por aí hehehe E vc, por onde anda? Precisamos combinar algo no caminho do meio rsrsr Ou tens previsão de baixar por aqui? Bjocas boa semana