quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Pico da Neblina

Acomodadas num espaço pequeno, coberto com uma lona azul, as redes tiveram de ser colocadas bem próximas umas das outras, o que impediu que eu me esticasse, confortavelmente, na minha. O resultado foi uma noite mal dormida, custando horrores a pegar no sono. Se preguei olho 3 horas, foi muito, razão por que desperto às 6:30, sem contudo, sentir vestígio algum de cansaço. Afinal, hoje é o dia do ataque ao cume do Neblina e a adrenalina corre lépida e faceira através de minha corrente sanguínea. Vejo que o tempo está nublado...hum....só falta chover durante a subida, meu jesus cristinho!! Nem bem expulsara tais presságios negativos, um leve chuvisco dá o ar da graça. Entretanto, graças ao bom São Pedroca, é de pouco monta: molha apenas carrapato, hehehe. Um pouco depois das 8, o céu começa a desanuviar, mantendo-se levemente toldado. Ely, quando embarcara na voadeira, ao sair da comunidade Yá-Mirim, cortara o dedão do pé. Mas seus males não pararam por aí. As bolhas, adquiridas no primeiro dia de trekking, só pioraram ao longo dos dias de dura caminhada. Seus calcanhares estão em petição de miséria. Perdeu não só um naco de epiderme como um pouco de derme. Desiste, e não podia ser outra sua decisão, de fazer o cume. Difícil escolha a do paulista. Nem sei como conseguiu forças pra caminhar durante esses três dias. E tem a volta, por isso se resguarda, permanecendo no acampamento, juntamente com Bosco e Orlando que lhe fazem companhia. Partimos. Auderiano, Delegado e Messias, nos acompanham. Perto do acampamento-base, fundas escavações denunciam a existência dum garimpo velho, detonando o terreno circundante. A primeira parte da trilha até o igarapé do Tucaninho se faz, atravessando um brete enlameado. Já sabia de sua existência e por isso comprara umas lindas botas sete-léguas bicolores azul e laranja. Nem foi preciso, contudo, calçá-las. Minhas botas de trekking deram conta do temido lamaçal. Bromélias mis, e musgo, muito musgo recobrindo os troncos das árvores, alguns duma linda tonalidade rósea. Quando já envelhecida, essa vegetação tão verde quando jovem, adquire uma esmaecida tonalidade marrom. Dois bacuraus (também conhecidos como curiango ou noitibó), ave que guarda certa semelhança, não só na aparência como nos hábitos noturnos, com a coruja, encontram-se, placidamente, pousados numa pedra. Sua alimentação consiste de insetos, como traças e mosquitos, motivo por que voa baixo. Foi a única ave que nem se abalou com nossa presença. Deu pra fotografar e filmar as impassíveis criaturas na boa. Brota uma quantidade legal de flores nesse trecho, destacando-se lindos cachos de orquídeas de variegadas colorações e numerosos espécimes de plantas carnívoras. Ao chegarmos ao Tucaninho, abastecemos nossas garrafas nas águas avermelhadas embora claras deste igarapé. Do céu, que se tornou densamente nublado, começa a baixar uma bruma que encobre o paredão noroeste do Neblina cuja coloração escura transmite uma sensação de clausura. Já se começa a sentir um ar fresco e visto uma camiseta de manga comprida. Do igarapé do Tucaninho até o Mirante é puro trepa-pedra. Uma sucessão de lances rochosos, em número de seis, exigem o uso de cordas, ancoradas em raízes de árvores, para ajudar tanto na subida quanto na descida. O grau de dificuldade não ultrapassa o primeiro grau. Mais pra boulder que escalada propriamente dita. À medida que se ganha altura, avista-se outra serra, a do Ouro, deixando entrever entre a vegetação que reveste seus paredões, trechos de arenito avermelhado. Uma mancha branca, no meio da vegetação que reveste o vale situado 600 m abaixo, denuncia um garimpo velho, justo no sopé da serra do Ouro. O ruído matraqueante das araras canindés, cortando o cinzento do céu, é o único barulhinho bom que se escuta. Do Mirante até o topo, mais trepa-pedras que dispensam, todavia, o uso de corda, salvo um mais empenado próximo ao topo. A vegetação, até então abundante, rareia a olhos vistos e quando estamos a justos 200 m do topo, apenas gramíneas crescem entre as escuras rochas. Messias e eu somos os primeiros a atingir o cume do Neblina às 16:10. O jovem quando põe o pé naquele lugar, considerado sagrado pelo seu povo, grita entusiasmado: Neeebliiinaaaa!! Hasteada num mastro, a bandeira brasileira acena, trêmula, as boas vindas. Os demais integrantes da expedição não tardam a chegar. Abraços e congratulações são trocados entre nós. Emocionada, verto algumas lágrimas, enquanto Lili me dá um abração. Marcelo procura o tal livro de assinaturas mas não o encontra. Eu nem faço questão de tal registro. Pra mim é dispensável. Basta saber que consegui chegar onde havia planejado. Essa é minha satisfação. O resto é fricote. Faz frio e venta no cocoruto desse colosso rochoso com seus respeitáveis 2.993 m. Seria suportável o frio se se pudesse enxergar a paisagem ao redor. A espessa névoa não permite que se distinga nada além de 10 m. Como num passe de mágica, na direção leste, as nuvens, por breves instantes, dispersam-se e somos agraciados pela fugaz visão da magnífica paisagem que se descortina abaixo de nós: vales, picos e serras a perder de vista. Dura pouco, infelizmente tal cenário! Resignados, tratamos de jantar e nos deitamos cedo, porque o frio deve beirar os 6º C. Lili, Marcelo e eu ocupamos uma barraca enquanto Pepe, Messias, Auderiano e Delegado ocupam outra. O topo, de pequenas dimensões, não comporta mais que 4 tendas. Minha garganta começa a doer e, sem hesitar, engulo um Bactrim F. Alegremente, nós três tagarelamos por um bom tempo enquanto o sono não vem. Eita vida boa essa!! Quero mais e mais e mais provar dessa adrenalina!! Tô viciada, tá ligado?
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Um comentário:

Paulo Roberto - Parofes disse...

Como eu gostaria de estar ai!!!