quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Acampamento-base

Espreguiço com vontade e pulo da rede. Um baita dia, aquele azulão no céu. Beleza pura quando olho pro pico da Neblina e pra serra do Camelo: estão despejados de nuvens, avistando-se, nos mínimos detalhes, o paredão sul do Neblina, esbranquiçado de liquens, e o paredão sudeste do Camelo, igualmente, coberto por essa associação de fungos e algas. Devido à localização, ambos apresentam pouca vegetação, motivo por que a rocha apresenta-se bem exposta. Destaca-se numa árvore, próxima ao local onde fica nossa “cozinha”, diversas orelhas de pau (um tipo de cogumelo gigante) formando degraus naturais colados em seu tronco. Lembram, pra quem é católico, pias de água benta. Previdente mundo vegetal esse que tenho o prazer de conhecer. Assim, muitas sementes de árvores resguardam-se no interior de resistentes cascas. Destaco as da castanha de macaco por seu curioso formato que remete às minhas raízes gauchescas. Em formato de cuia, o duro invólucro que as envolvem contém em média quatro a cinco sementes, culminando com uma sofisticada tampa que lembra mitra de bispo. Deixamos Bebedouro Novo às 8:15, chegando em Pau do Breu, às 9:27. Assim apelidado, o paradouro deve seu nome a uma resina excretada por certas árvores, utilizada na vedação de canoas e utensílios esburacados. Devido ao seu odor, é usada como defumador e, ainda, como repelente de mosquitos. Afora isso, a textura do pau de breu é gosmenta de maneira a impedir que as formigas façam ninho em seus troncos. Uma resina de mil e uma utilidades! Há, porém, outras árvores, cujas vagens destilam, também, uma substância gosmenta, cor de caramelo, duma textura de látex, visando à proteção contra formigas e cupins. Essa natureza não prega prego sem estopa! A quantidade e variedade de cipós são de encher os olhos. Alguns lembram cobras enrodilhadas. Até me pregaram susto! Do paradouro Pau do Breu até o do Campeão, onde chegamos às 11:05, há um declive bem acentuado, atapetado de folhas secas, que exige cuidado, porque se neguinho bobear, o escorregão está garantido. Claro está que após uma descida, vem o quê? Acertou, meu caro Watson, se pensou numa íngreme subida. Pra diminuir o impacto do ascenso, degraus escavados, naturalmente, no solo, facilitam o esforço físico. Há muitos animais de caça na área: o que não faltam são cutias, tatus, capivaras, porcos do mato, antas e mutuns, exibindo estes últimos penas retintas de tão pretas. Segundo Messias, a carne desta ave é melhor que franco congelado. Ao longo do caminho, cruzamos com um grupo de yanomamis, espingarda a tiracolo e jamaxi vazio, sinal de que a caçada não foi exitosa. Um feixe de penas de mutum, fincado mais adiante, sinaliza a passagem deles. Descansamos por uma hora no Campeão onde Pepe fica contando causos de fazer a gente rachar o bico de tanto rir. Ao meio dia partimos deste paradouro. O caminho, inicialmente, é morro acima. Segue-se uma descida e nova subida, dessa feita bem empenada. Uma trégua palmilhando um trecho plano, embora de curta duração. O restante da trilha retorna à sua feição aclivosa e áspera, quando às 13 horas, alcançamos a planura do paradouro Laje, cuja altitude inteira respeitáveis 1.700m. Pepe explica que a serra por onde subimos fica entre o maciço do Neblina e a serra do Barro. E fico alucinada pela belíssima semente de macaco cujo pedúnculo amarelo, lembra uma minicenoura, encimada por um broto verde em formato de castanha do caju. E não só esta semente me deixa deslumbrada. A redonda cunuri, dum marrom luzidio e tessitura suave, no seu interior, exibe uma coloração verde-pistache. Um colírio pros olhos os líquenes brancos, amarelos e vermelhos, agarrados aos troncos de árvores caídos na trilha. São um contraponto colorido à redundante tonalidade verde-escura da mata. Almoço a sempre frugal refeição composta de bolachas e suco, enriquecida - ainda bem! - pela mistura de nozes, amendôas, castanhas do Pará e do caju, previdentemente, trazida de Porto Alegre. O Laje deve tal nome a um extenso e empinado lajedo, formado por rochas cobertas de limo escorregadio. Daqui pra frente, tem início um longo trecho pedregoso, estreito, tipo canaleta. Porque se está caminhando dentro duma mata muito fechada e úmida, as árvores são revestidas por musgos que pendem de seus galhos, tornando a paisagem um tanto quanto espectral. O caminho, muito empenado, exige que se use as raízes como agarras na subida. Ainda bem que abundam a torto e a direito. Até então encapsulados no interior duma mata compacta, formada por árvores de grande porte, com pouca penetração de luz solar, a vegetação cede lugar a um habitat povoado por uma infinidade de bromélias, arbustos e palmeiras. Pequenos veios d’água brotam no terreno pedregoso. À medida que se ganha altitude, entramos numa zona em que a claridade começa a dar o tom. Um corredor, formado por açaís e bromélias, precede a nossa chegada ao Mirante onde chegamos às 16 horas. Esta região apresenta uma crista quase contínua de serras destacando-se dentre elas a do Imeri onde estão o Neblina, o 31 de Março e o Camelo. A visão subjacente do vale, das serras e dos picos a perder de vista é espetacular. Dois picos, porque mais altos e pontudos que os outros, destacam-se ao sul: Brás de Aguiar e Guimarães Rosas. O primeira tem o cume em forma de pirâmide, já o segundo o tem mais achatado. À nordeste, o largo platô da serra do Barro, avistada durante a navegação no Cauaburis, embora dum ângulo bem diferente do que entrevejo agora. Araras e tesourões rasgam o céu. A altitude beira os 2.120 metros. Nuvens gordalhufas projetam zonas de sombra no verde compacto da floresta, situada bem, mas bem abaixo de onde nos encontramos. Pepe aponta a serra pela qual subimos, coberta duma espessa vegetação, sucedida por essa zona aberta, ensolarada, tão distinta da mata cerrada pela qual até bem pouco trilhávamos. Do Mirante até o acampamento-base, levo uma hora e meia porque paro muito pra fotografar e apreciar a vegetação tão distinta daquela há pouco percorrida. No solo pedregoso, distingo, entre outras pedras, blocos de granito branco. Os elegantes açaís destacam-se no azul do céu. Filetes d'água escorrem entre as pedras, formando pequenos poços de água bem clarinha, evidenciando a origem calcárea das rochas. E as flores, antes raras, agora abundam, destacando-se belos exemplares de orquídeas. As agora onipresentes bromélias são figurinhas fáceis. Algumas abrigam em seus reservatórios minúsculas pererecas. Difícil fotografá-las, todavia Ely foi recompensado pela sua paciente procura, capturando em sua lente Nikkon o diminuto anfíbio. Depois duma descida cujo desnível é 120 m, chega-se às 17 e 30 ao acampamento-base, plantado às margens do córrego Tucano. Como estamos numa época de pouca chuva, escorre por entre seu leito pedregoso um fio de água cristalina e fria. Por isso, não sigo o bom exemplo de Marcelo que, corajosamente, toma um banho completo. Limito-me tão-somente a uma pífia lavação de mãos e rosto, salgado de tanto suor destilado. A perspectiva do Neblina e do 31 de março é bem diferente daquela avistada no Bebedouro Novo. Aqui, exibem os dois picos seus paredões noroeste. Mais uma vez - merda, merda e merda - encontram-se envoltos por uma aureóla de nuvens. Bem em frente ao acampamento, a serra do Montilla e ao longe a do Baruri. O rango, pra variar, vai ser massa com, tchan tchan tchan, molho rosé. Lili faz um arranjo com maçarandubinhas (flores secas cujo formato lembra uma rosa, embora duma coloração amarronzada) para enfeitar nossa mesa, que nada mais é do que uma lona estendida no chão. Sobre a fogueira, feita com galhos e pedaços de madeira catados pelos índios, pendem as borbulhantes panelas. Nosso incansável guia desdobra-se em dois, não, três Pepes. Enquanto cozinha, arruma nossas redes e, ainda, tem tempo de pegar algum remédio na ambulância, como é chamada a branca caixinha retangular de primeiros socorros. Tão bom tudo isso: o ruído de água escorrendo entre as pedras do córrego, os pios dos pássaros se recolhendo pros seus ninhos e as risadas dos índios, provavelmente, zombando de nós, os caras-pálidas, enquanto a lua crescente desponta no céu estreladíssimo.
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