segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Cachoeira do Tucano

Partimos às 7:15 do acampamento montado na prainha às margens do Cauaburi e chegamos na boca do Maturaká às 8:15, lá permanecendo enquanto Arlindo leva Deisi, Flavia e os outros três yanomamis pra aldeia. Aproveito e mergulho na fresca água cor de caramelo do igarapé Maturaká cuja nascente é no pico da Neblina. Borboletas amarelas, azuis e vermelhas descansam na areia branca da praia. Enquanto esperamos o retorno do barqueiro de Maturaká, Pepe Legal, deitado na rede que esticou entre duas árvores, explica que pra caçar onça, os yanomamis matam um macaco e deitam o bicho no ombro pra atrair o felino. Alguns, mais desavisados, são mortos porque não percebem a fera se aproximando. Apenas uma espingarda abandonada no chão indica que alguém um dia a carregou. E o guia, animado pela atenta platéia, conta então a estória do vestido de noiva de Deisi. O noivo da guria foi a São Gabriel uns dias antes do casório buscar algumas coisas, dentre elas o tal vestido. Na noite anterior a sua volta a Maturaká, pra comemorar seus último momentos de solteirice, tomou um tragoléu dos bons e voltou pra aldeia sem a vestimenta de Deisi. Resultado: o casamento teve de ser adiado até que o tal vestido (Deisi me disse que era rosa), chegasse, finalmente, em Maturaká. Coisas de yanomamis. Às 10 horas, o trepidar do motor da voadeira anuncia a chegada de Arlindo e Messias. Embarcamos e lá nos tocamos até a Boca do Tucano (boca significa foz aqui no Amazonas), afluente do Cauaburi, cuja nascente também se localiza no Neblina. Muitas nuvens no céu, embora não empalideçam a presença solarenga do astro-rei. Da serra do Baruri, quase totalmente enevoada, pouco se vê, entretanto. Duas garças, uma branca, outra cinza-azulada brincam de pega-pega com a voadeira. Voam na frente, pousando em algum galho de árvore ou numa das inúmeras praiazinhas existentes ao longo do curso do rio. Quando a canoa se aproxima, levantam vôo, tomando a dianteira. E assim esse joguinho se prolonga por algum tempo. Em ambas as margens, dá pra perceber enormes tocas de tatu, caça muito apreciada pelos yanomamis. Martins-pescadores, exibindo plumagens dum azul elétrico, dão rasantes rentes à superfície d’água. Bandos de pequenos pássaros pretos disparam céleres duma margem a outra, em formação compacta. E pares de tucanos de esplêndida plumagem azul e vermelha voam pra lá e pra cá, naquele matraquear nervoso de quem se sente invadido em seus domínios. Refletidos no Cauaburi, gorduchas nuvens amontoadas no céu e galhos de árvores projetam imagens brancas, azuis e verdes no espelho liso da água do rio. Por entre as sinuosas curvas do Cauaburi, avistam-se, aqui e acolá, as serras que povoam esta região do noroeste do Amazonas. Grandes troncos retorcidos de árvores formam belíssimas esculturas, remetendo àquelas colecionadas pelas mãos zelosas de Krajcberg. O rio, desde Maturaká, apresenta maior número de prainhas de areia fina e clara. Isso decorre dum fluxo menor de igarapés alimentando-o e diminuindo, assim, sua vazão. Chegamos à Boca do Tucano às 12:50, depois de percorridos 280 km rio acima. Devido ao pouco volume d’água do igarapé Tucano, somos obrigados a saltar da voadeira e caminhar uns 200 m ao longo de seu leito até o local onde há duas palhoças, sem paredes, uma com teto de palha e outra, menor, protegida com lona azul. Messias, um jovem yanomani de 22 anos, deveras faceiro, usa um brinquinho numa das orelhas e um grande relógio no pulso esquerdo. Ele será meu carregador e a quem recorrerei para saber as horas, porque a pilha do meu acabou. Não serão poucas as vezes que lascarei “As horas, meu jovem, que horas são?” Os carregadores acomodam o tralharedo numas cestas que levam às costas – os jamaxis -, tecidas com cipó titica, fibra super resistente, empregada, aliás, na maioria dos artefatos yanomamis. Pepe, nosso guia, é paraense de Santarém. Negro, alto, magro, é super gente boa, prestativo demais. Eu o apelidei de o incansável e safado Pepe Legal. Safado porque é matreiro e femeeiro demais. Haja vista a estória que nos contou duns soníferos que dava pra ex-mulher quando queria sair pra farra. Não há como negar que esses homens safados, têm lá o seu charme, um certo encanto! Os demais carregadores são Orlando, Delegado, Bosco e Auderiano, todos yanomamis. Messias é o caçula do grupo e fica todo orgulhoso quando lhe revelo tal fato  após ter assuntado a idade dos outros. Enquanto as bagagens são arrumadas, os yanomamis comem uma carne de tatu. Peço pra prová-la. Sabe a fígado de galinha embora seja bem gordurosa. Saímos às 14:10 da Boca do Tucano, chegando no Pau da Arara às 15:10 onde descansamos. Tomo banho no córrego porque a caminhada enxarcou de suor meu corpo. Muitas helicônias embora tenham as folhas maiores do que as existentes na mata atlântica, exibindo, contudo, florescência bem mais modesta. Durante o caminho, uns montículos de terra atraem minha atenção. Pepe explica que são feitos de cocô de minhoca. À medida que elas escavam seus túneis, engolem terra para após defecá-la, formando morrinhos semelhantes aos castelos de areia feitos, desajeitadamente, pelas crianças nas praias. Quando a terra é nova, a cor é amarela, quando endurece torna-se cinza ou preta. Uma trilha plana, em cujo chão forrado de folhas secas, aflora muita raiz de árvore. É uma floresta tropical fechada, formada em boa parte por árvores de elevado porte e tronco fino, embora uma que outra apresente tronco largo, grosso, como a sapucaia. As árvores situam- se próximas umas das outras, motivo por que não há muita vegetação rasteira, acrescida pela pouca penetração da luz solar. A floresta amazônica, infelizmente, vem sofrendo constantemente o ataque predatório e ilegal da biopirataria. De posse de amostras de plantas e de animais, os biopiratas patenteiam produtos cujos lucros, nem preciso dizer, serão bilionários. E se tal acontecer, como já vem acontecendo, nós, os brasileiros teremos que pagar para utilizar algo cuja matéria-prima é originária do nosso país....dá pra acreditar? Uma pena que não tenho a sorte de avistar o macaco-guariba, ouço apenas seus ruídos ecoando na mata. Nossa próxima parada é o Polar, onde um córrego de águas rasas mal permite um mergulho. O lugar assim é chamado devido à farra que os garimpeiros faziam, indo ou voltando do garimpo, enquanto reabasteciam as energias bebendo uma breja. Levamos mais meia hora até a cachoeira do Tucano, totalizando um percurso duns 7 km. Dispostas uma em frente a outra, encontram-se duas casinhotas de palha onde habitam três famílias yanomamis. Nesta época do ano, elas se mudam, porém, pra Maturaká porque as aulas das crianças já iniciaram. Cultivam nesse sítio mandioca (pra farinha), pupunha, banana, laranja e macaxeira (o nosso aipim). Nosso acampamento está do outro lado do igarapé Tucano, onde encontramos, abrigados sob uma espaçosa palhoça, garimpeiros deitados em redes. Destaca-se, entre eles, o mulato Carioca, que me chama, gentilmente, de madama. Maranhense, costuma garimpar ouro na Venezuela, pois no aqui, no parque, atividades de mineração estão proibidas. A viagem ao país de Chavez dura 4 dias no meio da selva. Carioca me ensina que carapanã é o mosquito que ataca de noite e pium durante o dia. Acompanha-o, Dark, assim apelidado porque reluz de tão preto. O rapaz arde em febre e Carioca diagnostica sem piscar: "Foi o siso que ele arrancou em Maturaká". Acho estranho e observo que extração de siso não provoca febre, deve ser malária. Carioca teima, afirmando que não é malária, não. Assim deixo quieto tal diagnóstico. Com pena, dou-lhe dois Tylenol (se mercenária fosse, poderia ter trocado o antitérmico por uma pepitinha do dourado metal, pois remédio aqui vale ouro). Quando retornamos a S. Gabriel, Dark que lá se encontra, confirma que, de fato, está com malária. Até que pruma profissional do Direito, dou uma boa médica, né?
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