sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Cansados porém felizes

Depois duma noite mal dormida pra caramba, acordo às 6. O motivo é meu nariz entupidão, embora a garganta não mais me incomode, graças ao poderoso antibiótico ingerido ontem. Choveu e ventou durante quase toda a noite. Pinta uma preguicite de levantar pois o céu mantém-se nublado e a temperatura beija os 8º C. Mas nem tudo está perdido. Marcelo nos chama pra fora da barraca pra ver o rasgo vermelhão do nascer do sol, pintando na banda oriental. É....o dia está prestes a dar a cara a tapa. O agudo e espaçado som dum breve bipe chama minha atenção. Pepe, indagado, esclarece ser proveniente duma espécie de grilo que habita o Neblina. Seu som nada tem de estridente se comparado àqueles produzidos por seus primos gaúchos. Pesquisando, tomo ciência de que a cantoria é produzida pelo macho pra atrair a fêmea em época de acasalamento. O som origina-se do atrito dos pelos existentes em suas asas. Quanto mais barulhento é seu canto, mais afastada se encontra a fêmea, suavizando-se quando ela já se encontra acochadinha junto dele. Gesto delicado desse animal em baixar a bola quando já conquistou sua fêmea, hein? Tem muito homem que devia aprender com esses insetos tais requintes de sedução, não é mesmo? Os grilos do Neblina, por óbvio, ainda se encontram sozinhos, os queridos. Infelizmente, não deu pra visitar o pico 31 de março. Tudo tão nublado. Fazer o que lá, se impossível visualizar não só a paisagem circundante como um novo ângulo do Neblina visto duma perspectiva diferente? Só pra dizer que fomos? Nossa vaidade, nem tão miúda assim, nos desobriga da visita ao segundo pico mais alto do Brasil. Bom motivo pra retornar! Às 8 e 30, em meio a um denso nevoeiro que não dá trégua, iniciamos o caminho de regresso ao acampamento-base. A vegetação encontra-se branquinha de geada. Devido a pouca luminosidade, as teias de aranha são perfeitamente visíveis. À medida que perdemos altitude, as espessas brumas se dissolvem, podendo ser avistado, mais uma vez, o extenso maciço rochoso da serra do Ouro. Mais ao longe a do Gelo. A trilha do acampamento-base ao igarapé do Tucaninho, quando vimos, foi basicamente um declive. Agora, na volta, o que era descida, se torna subida. As pernas, cansadas pela exigência do dia anterior, acusam fadiga, mas nosso ânimo continua animadíssimo. Consigo, finalmente, ver a féerica coloração azul vermelha das araras canindés enquanto desço do Neblina...ulálálá!! Deveras bizarra a situação em que encontramos Ely quando chegamos às 14 e 15 no acampamento-base: como se houvesse sido congelado, sofrendo, ainda, o efeito daquela antiga brincadeira infantil de estátua, o grandalhão continua esparramado na rede, na mesma posição que ocupava ontem, quando dele nos despedimos rumo ao cume do Neblina. Próximos, sentados, no chão, eis o famoso Brizola e seu parceiro, Paisano, natural da Colômbia, dono de encovados olhos azuis. Circula à boca pequena um boato de que é fugitivo das Farc, motivo por que evita ir a São Gabriel pra não topar com membros dessa organização, que, volta e meia, descem o rio Negro pra fazer compras na cidade. Paisano, apesar de seus 70 anos, não se furta de carregar nos costados, mochila pesando mais de 30 kg. Não só a respeito do velho mineiro colombiano pipocam as fofocas. Brizola, também, leva no cangote, uma mochila de maledicências. Dizem as más (?) línguas que sua atividade no garimpo é tolerada por militares e polícia federal em troca de informações sobre a biopirataria na região. Olha, se for verdade mesmo, pela primeira vez, não me nego a admirar seu dedo durismo. Dedura, Brizola, dedura, sim, essa gentalha!! Ely, definiu, com acuidade a função de Brizola: síndico do Neblina. Tantas as estórias que se contam por aqui que vá lá discernir ficção de realidade! Ah, tal apelido deve-se à propaganda em favor do carismático político gaudério na eleição presidencial de 1989. O garimpeiro, sabiamente, não se deixou iludir, nadica de nada, pela verborragia arrogante de Collor. Ely troca duas lanternas, um tubo de Gelol e alguns analgésicos por quase 3 gramas de ouro (a cotação desse metal está em torno de 40 reais o grama) que Brizola trouxera da Venezuela. Aqui, nos cafundós da selva amazônica, o escambo, ainda, é moeda corrente! Normal garimpeiros trocarem ouro por objetos de que necessitem. Desde que se chegou ao acampamento-base, há 2 dias atrás, o tempo permanece nublado. Nem uma resteazinha de sol conseguiu furar o bloqueio da compacta massa gasosa que encobre nosso céu de anil. À tardinha, ventos de rajada, que se prolongam durante boa parte da noite, me deixam um tantinho preocupada, enquanto, deitada na barraca, tento dormir. Bate um receio de sair voando junto com a tenda. Enfim, vencida pelo cansaço, pego no sono, ninada pela adorável vibração dos tuque-tuques metálicos arrotados pelos sapos-martelos.
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