domingo, 21 de fevereiro de 2010

Boca do Tucano

Nem bem saímos de Bebedouro Novo às 7 e 30, uma rápida e mansa chuvinha nos apanha em meio à trilha. A vegetação resplandece de tão molhada, uma beleza! A floresta, habitualmente escura devido à ínfima incidência de luz solar, agora, com o céu toldado de nuvens, mais escura se encontra. Porque volta e meia paro pra fotografar e filmar, o resto do grupo me ultrapassa. Decorrida meia-hora, alcanço o pessoal parado em fila indiana. Estranhando a situação, pergunto a Ely o que tá rolando. E sou inteirada de que Messias, que largara na frente, deu de cara com uma jararaca. Assustado, deu meia-volta, buscando refúgio junto aos outros membros da expedição. Lili comenta que o guri chegou a ficar branco de pavor quando se juntou a eles. Pepe, com um bastão, dá bengaladas no meio do mato procurando espantar a danada da víbora cuja picada, letal, é motivo de forte receio não só de índios quanto de garimpeiros que zanzam na floresta. Mais fácil morrer da peçonha destilada por esse réptil que de outro mal, considerando a rapidez com que o veneno se espalha na corrente sanguínea. As distâncias a percorrer e a lenta locomoção dos barcos - únicos veículos disponíveis nessas regiões – são impeditivos a um pronto atendimento, impossibilitando, via de regra, qualquer chance de salvação. Ééé.....dura a vida aqui no interior da floresta! Enfim, a fila anda. Eu, que até então estava na boa, agora, me torno deveras impressionada: vejo cobras e não lagartos em cada raiz de árvore fincada no solo. Após um bom trecho percorrido, solita, encontro Lili, escarrapachada no chão, enquanto Pepe, dando uma de sapateiro, improvisa, com pedaços de cipó, uma amarração em ambas as solas que se descolaram por completo do calçado. Lili deu azar com suas botas: um pé, já bem ruinzinho, desde a subida ao Neblina, se espandongou total e geral, o outro, se detonou não faz muito. Felizmente, a habilidade de Pepe funciona, e ela pode continuar caminhando com relativo conforto. Durante uma parte do trajeto, Pepe e eu nos mantemos afastados dos outros. Eu na frente, Pepe, atrás. Um longo e vigoroso silvo faz com que eu pare para apreciá-lo. O guia diz que o som é emitido pelo gogó do capitão do mato, ave pequena, difícil de ser vista nas árvores. Sua presença, acrescenta o bom Pepe Legal, indica a existência dalgum igarapé nos arredores. Mais adiante, sou, novamente, obrigada a estacar diante da belíssima coloração avermelhada dum cedro caído na trilha, cujo tronco mede bem uns 10 m. Na parada em Bebedouro Velho, Messias descola dois abacaxis plantados entre a vegetação e os descasca pra nós. A fruta, bem docinha, está uma delícia. Um alívio depois da ingestão maciça de carbohidratos durante esses seis dias. Outra chuvarada nos surpreende assim que deixamos Bebedouro Velho. Dessa vez é um pancadão de gordos pingos que desabam durante uns bons vinte minutos. Parada na Cachu do Tucano para almoço às 14:30, porque combinamos que não iremos pernoitar aqui e sim seguir adiante de modo a dormir na Boca do Tucano. E os ruídos da floresta seguem me acompanhando. Pra que ouvir mp3, se tenho a minha disposição o alarido cacarejante do cãocão, ave plumosa e de pouca carne, além dos pios mais suaves de aves que desconheço? Katehe (bonito, legal, beleza, em yanomami) demais esses sons! Adorei saber da tirada parcimoniosa de Delegado quando Ely, já no bagaço por causa de seus pés, perguntou quanto tempo faltava até a Boca do Tucano. O índio, lacônico, lascou “Falta mais.” Ahahahaha.....essa é boa! Esse yanomami embora não seja tucano, sabe bem se colocar em cima dum muro, hahaha!! Pepe, afobado, chega à Boca do Tucano, pra pegar com Messias uma lanterna, enquanto eu e o jovem descansamos das 11 horas de pernada, sentados no tosco banco construído num dos lados da palhoça onde fica o redário. Porque a escuridão se faz presente às 18:50, o restante do pessoal, que segue atrás, encontra dificuldade em se orientar no trecho restante até este paradouro. Enquanto rangamos, escuto Pepe e os índios exaltarem a excelência do sabor dum vinho feito da semente da bacaba (hoko). Indagando daqui e dali, acabo descubro que o tal “vinho”, na verdade é um suco extraído da polpa dessa fruta cuja coloração bordô é responsável por tal denominação. Embora tarde, 23 horas, os yanomamis embarcam em sua rabeta (pequena canoa com motor de 20 hp), com destino a Maturaká. Impossível dissuadi-los de viajar no breu da noite. Estão ansiosos pra chegar à aldeia e se juntar as suas famílias. A língua deles deve estar coçando, loucos de vontade de contar as novidades e esquisitices dos brancos com quem trabalharam, hehehe. Pepe repisa várias vezes o recado que devem dar a Armindo quando lá chegarem: que venha nos buscar de manhã cedo, sem esquecer de passar um rádio pra Branco, em São Gabriel, de modo que vá nos esperar antes do dia combinado no km 85. O plano, se tudo der certo, é partirmos, ainda no dia seguinte, pra São Gabriel. Suspirando de cansaço, me afundo na rede e não demoro muito a adormecer, embalada, como sempre, pela inefável trilha sonora dos sons de aves e insetos amazônicos. E eu lá quero outra vida?

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