quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Forrozeira no Boca Rica

Enquanto aguardamos Armindo, no paradouro Boca do Tucano, deitados nas redes, alinhadas sob uma armação de madeira cujo teto é protegido por uma palha caprichosamente trançada, jogamos conversa fora pra matar o tempo. Mosquiteiros nos protegem dos demoníacos insetos alados. O zum zum das abelhas zumbindo ao redor não dá conta de competir com o enérgico trilar das cigarras cujo som lembra o dum reco-reco. O igarapé Tucano é um convite ao banho. Não me faço de rogada. Abandono o conforto da rede e mergulho em suas águas claras, de amena temperatura. Armindo chega por volta das 14 enquanto almoçamos. Partimos da boca do Tucano às 15 horas. O dia lindo se enevoa. Trovões ao longe denunciam a iminência da chuva que não tarda muito em despencar. Gotas graúdas açoitam de leve nossa pele. O chuvaral dura uns bons 20 minutos. Dessa vez, dispensamos o uso da lona e permitimos nos molhar. Coisa boa tudo isso! Desde então, o céu mantém-se encoberto, raramente, entrevendo-se nacos de azul. A quantidade de pássaros é de encher os olhos: mergulhões, curicas (um tipo de papagaio), andorinhas, garças, martins-pescadores, maguaris e mutuns voejam no céu. Incrível a variedade de formatos de ninhos, correspondendo cada tipo a espécies distintas de pássaros. Como se fosse um condomínio maluco, há os que se agrupam não só no sentido horizontal como no vertical, construídos por pequenos pássaros de vibrante plumagem amarela e preta. Já o japim, os tece em longos pingentes colocados, precavidamente, no topo dos galhos mais altos das árvores. Embora descendo o rio, a viagem até a Boca do Maturaká demorou uma hora a mais que na vinda. No decurso desses 7 dias, o rio mais seco ficou devido à habitual estiagem nessa época do ano. A canoa pára numa prainha, situada algumas dezenas de metros da boca do Maturaká. Já lá se encontram instaladas em duas redes três índias: uma jovem com sua filhinha, pouco mais que um bebê, com ar de permanente zanga, e outra mais velha, mãe da jovem e avó da criança. Armindo as trouxera da aldeia, largando-as aqui enquanto ia ao nosso encontro na Boca do Tucano nos pegar. Vão conosco de carona amanhã até São Gabriel. Nem bem chegamos, já passado em muito as 6 da tarde, Bosco atraca sua canoa na prainha onde vamos passar a noite. Acompanha-o seu filho, um menino, adoravelmente, encabulado. Traz artesanato pra vender, encomendado por Lili, Marcelo e Ely. Peço à jovem índia que faça uma demonstração com o arco e flecha que Marcelo adquirira de Bosco. Ela, meio envergonhada, empunha, entretanto, o grande arco e dispara com firmeza a seta que embica na areia alguns metros adiante. Nos tempos de antanho, nem tão longínquos assim, as mulheres yanomamis também participavam dos embates com tribos rivais. A noite cai e o céu permanece nublado. Resolvemos, Marcelo, Lili e eu dormir ao relento, enrolados em nossos sacos de dormir. Custo a pegar no sono o que me permite apreciar as nuvens cederem espaço a um céu estrelado e a uma já rechonchuda lua quase cheia. Hoje, terça-feira, partimos da Boca do Maturaká às 7 horas. Pepe, durante a navegação no Cauaburis, conta que do outro lado da fronteira, na Colômbia, uma pequena cidade, ainda controlada pela Farc, exige permissão do comandante da tão temida organização paramilitar pra ser visitada, pode? Agarradas nos galhos de certas árvores, sementes arredondadas lembram cogumelos. Enormes costelas de adão parasitam árvores sem dó nem piedade. Despontam entre o arvoredo jauaris, açaís, pupunhas, tucumãs, paxiúbas e inajás, dentre as muitas espécies de palmeiras existentes no verdor da mata amazônica. Já navegando no igarapé Yá-Grande, uma tabuleta indica o limite territorial entre as terras dos Yanomamis e aquelas pertencentes aos Tukanos. Dando adeus, então, ao reino dos Yanomamis, adentramos agora o reduto dos Tukanos, soberanos absolutos do pedaço, onde a comunidade Yá-Mirim, situada à beira do km 85 da BR 307, é o destino final de nossa navegação. Às 14 e 15, avistamos Branco. Depois de carregar todo o tralharedo da voadeira pro Bandeirantes, partimos rumo a São Gabriel onde chegamos às 17 e 15. Bem quisera eu estender mais a noite após a janta. Podre de cansada, não resisto e volto pro hotel. Embora hospedada em estabelecimento mais humilde que o anterior, este tem a seu favor a paisagem que se descortina dos quartos e do refeitório. O visual soberbo do rio Negro e da Bela Adormecida compensa a ausência de certos confortos materiais, não é mesmo? Os homens, cheios de planos safados, permanecem na rua do Badalo. Tramam entre eles uma noite de farra. Bom proveito, guris! Na quarta-feira, encontro Lili e Marcelo num restaurante, localizado em frente à praça, cujas proprietárias são Marinês e Teresa. A comida, anunciada numa tabuleta, é muiiito saborosa. Uma delícia de lugar. Afixada na parede, uma placa de publicidade anuncia: “Locadora Rio Negro ---> Alugamos carros, motos e pula-pula.” Essa é boa, hahaha!! Ficamos lá um bom tempo curtindo as estórias desfiadas pelas duas irmãs. Mulheres de garimpeiros, as duas toparam ir com seus maridos até a Venezuela na cata do metal precioso. Descoberto, o grupo de brasileiros, que ali cavoucava a terra ilegalmente - num total de 72 pessoas -, empreendeu uma espetacular e cinematográfica fuga, perseguidos durante semanas pela temível guarda nacional do país de Hugo Chávez que, desrespeitando fronteiras, se embrenhou em território brasileiro, na caça aos fugitivos. Escondidos na selva durante 4 meses e 14 dias, só 17 conseguiram escapar. Marinês conta que até canoa de tronco de árvore fizeram pra poder navegar. Certo dia, enquanto desciam um rio, Teresa caiu nas águas cuja forte correnteza quase a enguliu em seu vórtice feroz. Quem estava na canoa só se preocupou em resgatar a panela que Teresa segurava. Se não fosse a presteza de Marinês, agarrando-a pelos longos cabelos (sua salvação foi a cabelama), Teresa, a essa hora, estaria servindo de comida aos peixes. Dureza a fuga delas, tiveram de comer o que a floresta lhes oferecia e olhe lá. Sem espingarda, a caça era bem difícil de ser obtida. Há muita tensão nessa região do Parque Nacional do Pico da Neblina: entre os índios e garimpeiros, entre o exército e os índios e entre os garimpeiros e Polícia Federal. Corre o rumor de que a Polícia Federal está pressionando os índios pra entregarem os garimpeiros que extraem, ilegalmente, ouro no parque. Entretanto, muitos deles acobertam os garimpeiros em troca dum pedágio: pepitas de ouro, é claro. Segundo filosofa Negão, barqueiro e conhecedor da região, “o Neblina não é para os mais fortes nem para os mais fracos. É pra quem tem opinião.” Falou e disse, meu bom! No final de tarde, passeando à beira do rio Negro, curto a agitação na praia, enquanto o sol se põe. Crianças jogando bola, casais passeando de mãos dadas, homens correndo no calçadão e jovens, simplesmente, curtindo, sentados na branca areia. Canoas cruzando o rio, transportam os índios Kotiria Dow, tribo que vive na margem oposta. De pequena estatura e porte franzino dão ares com os pigmeus. A Bela Adormecida mal se entrevê ao longe, encoberta que está pela bruma vespertina. Encontro Lili sentada ao ar livre, no barzinho localizado na esquina do hotel. Escolho uma saborosa cachaça de cupuaçu com pera e a degusto com duas pedras de gelo. Supimpa este drinque. Como é véspera de nossa partida, comemoramos a rigor, na rua do Badalo onde jantamos dois tucunarés grelhados, regados a cerveja e caipirinha de goiaba (uma delícia!). E pra fechar com chave de ouro nossa expedição, nos tocamos, assanhados, pro Boca Rica (o nome, por óbvio, é uma alusão aos dentes de ouro que enfeitam a boca de muitos homens que vivem na região), cabaré situado a uns 4 km da cidade, onde o forró rola solto. Quisera permanecer mais tempo por aqui, infelizmente, meu voo parte amanhã à tardinha pra Manaus, lá permanecendo até domingo. Ai, São Gabriel, já tô com saudades antes de partir!
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Um comentário:

Parofes disse...

É triste, mas todos os indios têm cara de "institucionalizados".