terça-feira, 22 de abril de 2014

O belo passo Juli La

Quando acordo para fazer o inevitável xixi da madrugada, ½ lua brilha no céu estrelado. Como sempre, o dia exibe uma linda manhã. Quebram a homogeneidade azulada do céu esparsas nuvens brancas. Enquanto o pessoal desmonta acampamento, subo numa pequena colina e fotografo as montanhas ao redor. Quanto mais ao norte, mais nevadas se mostram suas encostas. Está frio mas nada que se compare ao da manhã de ontem. Deixamos Domjung às 9. Decorridos uns 15 minutos de caminhada, vejo à esquerda, pendurado num flanco de montanha, um bonito glaciar. Peço a Pema e Thukten que se postem à sua frente para que eu possa fotografar não só a paisagem como eles também. Ambos resolvem zoar comigo e animadamente gritam algumas palavras em butanês enquanto pulam empunhando pro alto seus bastões. Divertem-se a beça os dois! Os homens muitas vezes agem como meninos, ignorando que não mais vestem calças curtas, os queridos, hehe! A foto não saiu lá essas coisas, mas a filmagem resultou engraçada. A estreita trilha, inicialmente, se dá no sopé duma montanha. Decorridos 40 minutos de pernada, sinto que, essa sim, é uma subida de respeito! Não serão somente os banais 300 m de cada dia que temos enfrentado até então. Hoje o desnível é mais pra cima, hehe. Nada mais nada menos que 1.100 metros entre nosso acampamento e Julila, o ponto mais alto deste trek de 7 dias, conhecido como Hot Springs Trail, em razão das piscinas térmicas que se localizam num vale adiante do passo. Por isso, volta e meia, interrompo a marcha tanto pra fotografar quanto pra descansar. À medida que ganhamos altura, a vegetação arbustiva vai rareando. A partir dos 4.300 m somente o que se vê de verde no solo são gramíneas. E o céu continua azul, eba!! Mais e mais montanhas nevadas vão se revelando, algumas inteiramente encapuçadas de branco. O terreno, em diversos trechos, apresenta-se coberto de gelo e neve, sinal de que embora seja primavera tem nevado bastante por aqui. Tanto é verdade que, num pequeno enclave entre montanhas, um lago congelado se destaca. Mais adiante, um rio parcialmente congelado. O clima não tem se mostrado nada amistoso nesta região. Quanto mais próxima do passo Julila estou, mais a vegetação adquire caraterísticas marcadamente alpinas, reduzindo-se a descontínuos espaços preenchidos com grama rala. A subida é ardida, assaz ardida! Detenho-me às vezes para recuperar o fôlego e quando olho - seja pra frente seja pra trás - o encantador cenário de montanhas enfeitadas de neve, sinto que tudo está valendo a pena...e como! Agora, poucos são os trechos em que o solo não se apresenta coberto de neve fofa. Não há como evitá-los. Meu pé só não afunda porque aproveito e piso nas pegadas feitas pelos rapazes ao longo da superfície nevada. Os cavalos estão tendo bastante dificuldade devido à espessa camada de neve. Thukten, inclusive se junta aos Dorjis, engrossando o coro de palavras de ordem que os três lançam aos animais, de modo a estimulá-los na travessia do terreno nevado. Após 2 h e 40 minutos, desde a partida do acampamento Domjung, chego finalmente ao passo Julila. Do alto de seus 4.700 metros, a paisagem é espetacular! Visualiza-se não só um anfiteatro de montanhas branquinhas ao norte como outras montanhas parcialmente nevadas ao sul. Sento sobre uma pedra, o esforço foi pesado. Os rapazes falam ao celular! Até aqui, no topo duma montanha, onde Judas perdeu as botinas, esses dispositivos têm sinal...incrível e maravilhosa invenção! Ah, se eu tivesse habilitado meu celular para ligações internacionais, eu faria o mesmo! “Hello, miga, sabe onde estou? Pertinho do céu, em plena cordilheira Himalaia, hehe!!” Os butaneses, ao verem um yak preso, na neve, 200 m encosta abaixo, se mandam na tentativa de trazê-lo aqui pra cima onde a neve não é tão profunda. A duras penas, os quatro homens tangem o bicho encosta acima. Divertem-se durante o salvamento, rolando e mergulhando na neve, enquanto tiram fotos uns dos outros. Quando Pema, que também participara do resgate, retorna, ele me dá a triste notícia. Não é possível descer os oito cavalos até o vale já que a camada de neve fofa deve ter uns 15 cm de profundidade. Fico desconsolada em saber que não rolará a pernada até Hot Springs. Pema, percebendo meu desgosto, sugere então que cada um dos homens leve as traquitandas nas costas, única maneira de descermos a encosta nevada e alcançarmos as piscinas de águas termais. Claro está que declino da oferta. Por dentro, contudo, amaldiçoo minha atitude generosa. E fico durante um tempo meio emburrada. Pema gentilmente iria abrir uma exceção à proibição governamental do emprego de homens ou yaks no porteio de carga para turistas. As regras no Butão, ao contrário das adotadas no Nepal e Paquistão, permitem apenas o uso de mulas ou cavalos. O meu consolo é que, embora tenha gorado a ida até Hot Springs, conheci um lugar lindo que é o passo Julila. Nem a trilha do Jomolhari, feita em 2011, me proporcionou a esplêndida visão do Himalaia que se tem ali de cima. Bem cansada, afinal está sendo o dia mais duro numa caminhada de quase 7 horas, um pouco antes de chegarmos ao acampamento, invento,  - pra evitar subir uma colina - um caminho diferente, rente ao rio. Até certo ponto tudo corre bem até que, lá pelas tantas, surgem uns arbustos impedindo nossa passagem. Pema ainda tenta me dissuadir mas eu, sem dar bola pra seu apelo, entro dentro do rio de águas rasas. E molho os pés; pra minha surpresa a água não está tão gelada quanto eu imaginara. Consigo finalmente convencer Pema que jantemos todos juntos. E talvez pra compensar minha frustração de não ter conseguido chegar em Hot Springs, Dorji e Thukten cantam pra mim! Até São Pedro tá me mimando: primeira noite que não chove!

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