terça-feira, 15 de abril de 2014

Festival Budista no Rimpung Dzong de Paro

Às 7 e 30, hora de início do desjejum, já estou assuntando as travessas de comida. O espaço, ao ar livre, localiza-se na entrada do KGH. Um café da manhã bem ao gosto de europeus, ou melhor, de ingleses. Salsichas, tomates, omelete, duas qualidades de pão, panquecas, iogurte, dois tipos de sucrilhos, salada de frutas, sucos, geleia, mel, chá, leite, café. Minha escolha resume-se a iogurte com mel, uma fatia de pão com manteiga e panqueca com mel, uma xícara de chá com leite. Dessa vez o trâmite no aeroporto é, aleluia, super rápido. Deve ser por causa do horário matutino, 8 horas da manhã. Entretanto, tal alegria logo é embaçada. Anunciam pelo alto-falante que o voo para Paro, com partida prevista pras 9 e 30, se atrasará. Tudo por conta de fortes ventos que açoitam a cordilheira do Himalaia, rota dos aviões com destino ao Butão. Parece até castigo pela minha impaciência furiosa do dia anterior quando fui obrigada a esperar 2 horas para finalizar os procedimentos aduaneiros. E agora o atraso será maior que o da minha espera de ontem enquanto aguardava meu visto!! Estou porém de sangue dulcíssimo. Nem me incomodo com a espera de mais de 2 horas. Estou em estado de graça. Sentada na sala de espera, ao lado dum sério homenzinho, faço a indefectível pergunta “where are you from?” Quando escuto “Buthanese”, fico deliciada. Pelo que entendo de seu inglês com fortíssimo sotaque, trabalha no Ministério das Finanças de seu país. E, pasmem, faz um convite para que eu me hospede em sua casa quando retornar ao Butão. Pergunto se sua esposa não se incomodará e ele nem pisca quando responde não. E o papo vai esmorecendo. Como ele se mantém silencioso, eu me faço de morta, até porque tá difícil entender a sua conversação. Sou bem consciente de que meu inglês é sofrível, mas será tão ruim assim? Terei alguma deficiência auditiva? Porque não consigo entender direito o que ele fala. Percebo que, volta e meia, o butanês sussurra palavras. Indago se são mantras. Confirma sem estender o papo. Acho que está com pressa de voltar às suas orações. Deve pertencer à ala dos budistas carolas. Quando vou ao banheiro uma adolescente duns 15 anos, não sei se nepalesa, chinesa, ou oriunda dum desses países em que os olhos são puxadinhos, pergunta pra mim quando saio do reservado na maior candura “did you fart?” Diante de minha negativa, ela e uma amiga comentam que faz muito bem peidar e alisam com as mãos a barriga simulando sensação de bem estar e desafogo, hahahaha...que figurinhas as 2 sirigaitas. Finalmente, o avião parte às 11 e 50. Como dou azar de sentar do lado direito quando consigo chegar à janela, no lado esquerdo, o Everest já passara. Puta merda, é a segunda vez que não consigo fotografar a mais alta das montanhas do planeta. Só me sobrou....snif, o Kangchenjunga, com 8.586 m. Converso com um tcheco que conta um pouco de seu trek até o BC desta montanha, uma de minhas futuras metas. Chego a me emocionar quando o avião sobrevoa os arredores de Paro. Rever novamente estas paisagens que me são tão caras é quase um sonho. Os trâmites aduaneiros são rápidos, pouca demora, estou já me encaminhando em direção à saída do aeroporto onde os guias esperam seus clientes. E quem vejo no lado de fora segurando um cartaz com Ms. Azevedo escrito? Pema! Em 2001, ele foi meu motora. Acumulará dupla função pois será também meu guia nesta jornada. Ele me leva direto a um restaurante situado na town porque já são mais de 13 horas. As refeições, nestas regiões da Ásia, pelo que estou sacando, compõem-se geralmente de arroz acompanhado por legumes, verduras e galinha. Tudo muito gostoso. Terminada a refeição, Pema anuncia que está sendo celebrado o festival budista anual no Rimpung Dzong. Pergunta se quero assistir à cerimônia de encerramento. Imagina se não! Baita sorte tenho de ainda pegar o último dia dessa festividade cuja duração é 5 dias. Filmo enlouquecidamente e tiro foto atrás de foto dos dançarinos vestidos a caráter. O lugar onde rolam as apresentações é uma espécie de arena onde num dos lados há arquibancadas de cimento lotadas de gente. Os participantes dos espetáculos são todos monges. As máscaras representam diversas facetas de Buda e as roupas apresentam nos tecidos desenhos com significados diversos. Nada é à-toa. Nos pés, calçam longas botas de couro branco com desenhos dourados e vermelhos nas laterais e biqueiras dos calçados. As danças são acompanhadas por um som sincopado produzido pelos Dung Chen, duas gigantescas trompas (curiosamente, os músicos e seus instrumentos se localizam no telhado dum dos coretos) e por tambores redondos cuja baqueta é curva. Volta e meio címbalos ressoam no ambiente. Interagindo com o público, sentado em esteiras estendidas no chão, quatro pequenos monges com máscaras, que suponho sejam de divindades travessas, provocam a plateia. Não só as crianças como os adultos se divertem com os mongezinhos implicantes. As pessoas trazem cestas com alimento e térmicas com chá. Temperatura tão agradável que, durante o festival, quando as nuvens permitem ao sol se descobrir, chego a ficar de manga curta. Pema indaga se quero receber a benção de Guru Rimpoche representado por um monge. Ah, que dúvida. Nem hesito. Entro na fila e após a benção, ainda, ganho, de quebra, um cordãozinho de linha de seda verde que amarro no pescoço. No final da cerimônia, um vento de rajada levanta uma poeira que faz com que homens e mulheres cubram nariz e boca com seus chalés. Como estamos na primavera, a chamada pré-monção, árvores e arbustos exibem profusa floração, como os galhos das macieiras onde se aninham as delicadas pétalas rosadas dessa linda flor. Quando chegamos do festival no Dewachen Resort (significa Paraíso), o recepcionista me entrega uma toalhinha aquecida para que eu limpe o rosto e uma chícara de chá. Somente após esse ritual de gentileza, sou instalada num quarto confortável com varanda e banheiro espaçoso. Quando sento à mesa para jantar, a garçonete quer colocar o guardanapo no meu colo! Entretanto, impeço-a, pegando eu mesma o pano. A janta, preparada por um jovem cozinheiro, está deliciosa: arroz com legumes, massa, coxa de frango a milanesa, aspargos verdes salteados e batatas bem miúdas misturadas a algo que lembra acelga. Sobremesa, salada de frutas (banana, maçã, mamão e pepino) com creme. Tudo isso regado a chá com leite. Quando volto ao quarto, minha excitação está no auge. Por 2 vezes, durante o dia, quase fui às lágrimas de tão emocionada. Tanto que não consigo relaxar e dormir. Fico então postando no FB e transferindo fotos e vídeos da máquina pro notebook. Já passam da 1 da manhã e agora estou escrevendo, bem ligada. Coisa BOA estar aqui de novo, Tashi Delek Beatriz!
 

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