segunda-feira, 3 de abril de 2017

Tamanho é documento

02/04/2017 – Domingo – 16º Dia de Trek Everest BC – Lobuche a Gorak Shep
Devido à nevasca de ontem tudo está coberto por fina camada de neve. O que tem de lindo esse cenário branco, tem de ruim pra caminhar, mas simbora, fazer o que né? Hoje saímos às 7:15, uma hora mais cedo do que o usual porque pretendemos, em chegando a Gorak Shep, subir o Khala Patar para então amanhã ir ao acampamento-base do Everest. Lobuche é um lugar privilegiado porque daqui se distinguem mirando o sul, em seu fundão, os picos Kangtega e Thamserku. Próximas à vila e, por isso, parecendo grandonas, Taboche, Soloche e Lobuche. Caminhando rumo ao norte, Pumori, Lingtren e Khumboche, à esquerda, são figurinhas fáceis, entrevistas a todo instante, enquanto, à direita, impõe-se amiúde o imponente paredão norte do Nuptse. Classifico os trekkers em 3 estilos. O “páginas em branco” é aquele cara com ânsia de chegar, não faz mais que andar, andar e andar, levando de recordação fotogramas borrados justapostos às pontas de suas botinas. O "competitivo ou atleta" faz da caminhada treinamento visando melhorar a performance em outras atividades esportivas. Por último, o "vagabundo ou andarilho" caminha pelo prazer de descobrir e curtir paisagens interessantes bem como interagir com culturas distintas da sua. Depois de ter passado pelos dois primeiros estágios estou quase alcançando o terceiro, por mim denominado “pernada nirvana”. A distância a Gorak Shep, embora sejam curtos 5 kms, é dura, porque numa trilha de neve muitas vezes escorregadia devido à lama e ao gelo. À tranquila pernada que se inicia no plano vale onde foi construída Lobuche, sucedem-se um tantão de subidas e mais subidas. Antes do primeiro passo, numa tradicional parada, onde há recipientes de lixo feitos de pedras, guias e porters descansam antes de encarar os 5.200 metros do Lobuche La. Vencido o passo, avista-se, adiante, algumas centenas de metros abaixo, a imaculada alvura do glaciar Khumbur. Seguem-se morros branquinhos de neve num sobe-sobe constante pra então, figurativamente falando, despencar a trilha em Gorak Shep, situada a 5.160 metros, onde chegamos às 10:35 sob um céu de anil e sol esplendoroso. Deixamos as bagagens no quarto a nós destinados (Flavio e eu teremos de compartilhar durante 2 dias o dormitório porque o lodge está lotadaço e Nir não conseguiu, ao contrário das outras vezes, um quarto pra cada um....oxalá não precise eu de protetor auricular caso ele ronque), almoçamos e nos tocamos a enfrentar os 390 metros de desnível existentes entre a vila e uma das cristas do Pumori, chamada, em razão da cor escura de suas rochas, Khala Patar. Quando estamos quase a atingir a finalera da rampa, um vento começa a soprar tão forte que por duas vezes agacho-me receosa de ser derrubada. Durante a subida, do lado direito, vislumbram-se Changche, Lolha, o escuro topo em formato triangular do Everest, seguido pelo Nuptse. Ao atingirmos o topo do Khala Patar, estes picos já se encontram escondidos por maciços de nuvens. Flavio, surpreendentemente, chega depois de mim – primeira vez durante o trek - quase se arrastando ao Khala. Sentado numa pedra, deprimidíssimo, revela choramingando que o mesmo sucedeu numa montanha peruana, impedindo-o de continuar o trek. Com pena, procuro consolar o coitado salientando que não é pouca coisa atingir 5.450 metros. Evidente que ele tá sofrendo alguns dos efeitos deletérios causados pela altitude. Pouca demora, graças a deus, ele se recompõe e arma seu tripé pra fotografar a paisagem circundante. Como não estou a fim de me expor na estreita e íngreme rampa revestida de pedras sob risco de ser derrubada pelas enérgicas rajadas de vento, aborto os 100 metros restantes que conduzem ao dito “topo” do Khala Patar. Pra ver o quê? A porção superior do Pumori? Pra dizer que eu atingi os 5.550 metros do Khala? Hahahahaha!! Comparada à descida do Nagarjun, esta parece mais fácil porque há largos trechos de gramínea sobre o solo arenoso, evitando perigosos escorregões. De volta ao Buddha Lodge, bebendo chocolate quente, tenho ao meu lado, um satisfeito Nurbu. Como não fala inglês, quando olho pra ele, o porter retribui, exibindo sua bela dentadura num amplo sorriso. Lá fora, dirigindo-se ao BC do Everest passa uma caravana de yaks carregados com carga. Tão agradável o tilintar dos guizos e badalos que os peludos bovinos têm pendurados nos pescoços! Durante a descida do Khala, confirmo meu sentimento de decepção com o Everest. Caso não fosse sua altura vertiginosa, passaria despercebido em meio a picos que, se não são mais altos que ele, assim parecem. Isso é fato, perceptível por qualquer pessoa dotada de visão, daí a objetividade do comentário, pra não parecer que estou implicando com o Everest. Reconheço, contudo o subjetivismo no tocante ao seu formato (só visto em fotografias), já que não me impressionou tanto quanto a pirâmide perfeita do Cho Polu, a rampa nevada do Lingtre, a aparência de leque do paredão sul do Thamserku e a esquizofrenia escultórica do Ama Dablam. Com certeza, no quesito altura, Eve prova que tamanho é documento, merecendo o justo título de Kid dos picos! 
 

03/04/2017 – Segunda-feira – 17º Dia de Trek Everest BC – Gorak Shep

Tá frio pra caramba aqui em Gorak às 7 e 30: -4º C! Também pudera, estamos a 5.160 metros de altitude! O dia está tão lindo quanto ontem, sem pingo de nuvens. A boa do dia é fazer sabem o quê? Turismo no Eve BC, hahaha!! Saímos às 8:30 da vila e, inicialmente, percorremos um vale espremido em ambos os lados por dezenas e dezenas de montanhas pra depois subir até a crista da moraina direita formada pela geleira do Khumbu. Caminha-se ao longo dela em uma ascensão constante, sem lances exigentes ou agressivos. O movimento de porters e yaks é intenso. Quando escuto o ruído dos guizos, sei que a caravana dos pesados animais está próxima. Hora de se encaixar em qualquer canto à margem da trilha e esperar que passe. A regra “first ladies” aqui não se aplica, o que vale é “first cattle”, hahaha. Não cesso de ficar embasbacada com a quantidade de carga suportada pelos porters. Desde as mais simples como as tradicionais marinheiras contendo objetos pessoais dos montanhistas aos mais singulares objetos como os transportados pelos dois homens que se dirigem ao BC: um leva nos costados 2 mesas metálicas enquanto o outro tem nas paletas uma pia!! Nem só na pernada se chega ao BC, turistas há que sobem a cavalo! Admirável a exótica combinação dum pastor de yaks que pintou o cabelo de amarelo pra que adquirisse cor similar à da jaqueta. Pensando bem, trilha movimentada tem suas vantagens, se presencia cada bizarrice. O cenário, espetacular, exibe magníficas montanhas em ambos os lados da geleira do Khumbu: à esquerda Pumori e Lingtren, à frente, fechando a moraina, erguem-se Khumboche e Changche, enquanto à direita, espremido entre Lolha e Nuptse, a pequenez do Everest. Após termos andado um bom bocado pela crista da moraina, desce-se até o BC, instalado numa baixada a 5.280 metros, distante poucos metros do glaciar. Este é o acampamento-base sul do Everest ao passo que o acampamento-base norte está no Tibete a 5.150 metros. No acampamento-base sul há dois tipos de BC. O primeiro, mais afastado da cascata de gelo do Khumbu, demanda, por óbvio, maior esforço dos montanhistas em atingi-la. Destina-se às agência mais “pobrinhas”. Seria o BC “2ª classe”. O outro, aos pés da encosta norte do Khumboche, bem mais próximo à cascata de gelo, pertence às agências com maior poder de fogo em termos de grana e influência junto ao governo nepalês. Seria o “1ª classe” do BC. Santo deus, nem aqui no acampamento-base se está livre de divisão de classes. Bueno, entra-se no Everest atravessando a cascata da geleira do Khumbu que desce através da fenda existente entre o Lolha e Nuptse. Do Lhotse nada se vê escondido que está por esta montanha. Descansando da pernada, sentada numa pedra, o silêncio de que desfruto é quebrado pelo marulhar das águas derretidas do glaciar e vez por outra pelo crocitar dos corvos. Muitas expedições ainda estão chegando embora algumas já tenham seus acampamentos montados enquanto outras se apressam na montagem das tendas cuja cor predominante é a amarela devido à excelente visibilidade que tal coloração assegura. De escaladores nem sinal, ainda não chegaram, só há sherpas. Alguns tentam aplainar o terreno super irregular coberto por pedras de diferentes tamanhos. Diria que soa como fazer buraco n’água tal esforço, missão impossível nivelar o empedrado terreno. Sei lá, a impressão que tenho vendo o acampamento-base é dum grande zôo, em vez de comida admiramos e atiramos perguntas aos sherpas e escaladores. Bueno, de volta ao Buddha Lodge, ocupado por dois grandes grupos de turistas das mais diversas nacionalidades, eis-me recostada em almofadas no refeitório, confortavelmente, aquecido, bebericando masala milk tea e comendo biscoitinhos de côco. Curto, durante o resto da tarde, a movimentação de turistas retornando do BC. A maioria aparenta ter entre 20 a 40 anos, se bem que há expressivo número de pessoas com idade superior a 50. Poucos deles passarão a noite na vila, preferindo dormir em Dingboche ou Periche. Àqueles dotados de maior fôlego, uma caminhada puxada até Pangboche encurta em muito o roteiro pra quem tem dias apertados de férias. Pros sortudos que gozam de mais tempo, o trek a Gokio exige pernoite em Dzonglha. E há os que retornam de helicóptero de Gorak Shep a Lukla e a Kathmandu, devido a doenças (mal de atitude, a maioria), ou por outras causas. Enfim, com um menu variado de rotas, pode-se dizer que todos os caminhos conduzem a Lukla, seja na pernada, de helicóptero ou a cavalo.
 

Um comentário:

Miriam Chaudon disse...

Que lindo tudo branquinho!!!!
Hahahaha, ri muito aqui com você falando pro turista: _ Very comfortalble!