terça-feira, 18 de abril de 2017

A lição de parceria das gurias chinesas

Nem bem 6 da matina, já estou levantada e no terraço a fotografar e filmar Machapuchare e seus dois cumes cujo formato é uma perfeita cauda de peixe. A lua ainda presente no céu exibe parcial brancura já que está decrescendo. E o barulhão da cachoeira caindo no leito do rio é ensurdecedor. Frio e sem nuvens no céu embora o sol só vá aparecer em torno das 9 horas. Experimento o pão gurung cuja textura de massa e sabor levemente adocicado lembra a guloseima gaúcha cueca virada. As duas chinesas, que comem no breakfast massa e arroz frito com vegetais, repartem entre si os pratos. Contam que são amigas desde a infância. Tá explicada tanta intimidade e parceria. Saímos de Dovan super cedo, às 7 horas, atravessando florestas com extensos bambuzais e pontes rústicas feitas de troncos de árvores sobre pequenos rios. Entre Himalaya Hotel, onde há 2 lodges, e Deurali, impossível passar despercebida a gruta, conhecida como Hinku Cave. No passado, essa baita reentrância rochosa protegida por um largo teto serviu de abrigo aos porters que trabalharam nas primeiras expedições nesta área. Atravesso um pequeno campo de gelo oriundo das avalanches de neve que forram os picos localizados acima do canyon. Com cuidado, piso no chão congelado porque é fácil demais escorregar nele. E há que passar o mais rápido possível, de preferência em silêncio, pois o risco de novas avalanches é iminente nesta época do ano em virtude da elevação da temperatura. Visível a mudança na paisagem após Himalaya Hotel: as paredes do canyon não são mais cobertas por espessa vegetação, sendo possível avistar a rocha nua cuja cor amarelada revela sua origem sedimentar. Grandes cascatas e córregos - resultado do degelo dos glaciares e campos de neve que se encontram sobre o canyon - jorram de ambas as encostas, engrossando o rio Modi cuja água de verde e límpida passa a ser turva. Escuto pela primeira vez o crocitar dos corvos e o troar dos helicópteros indo e vindo do Annapurna BC. Às 11 e 30 quando ainda estamos em Deurali almoçando, o tempo começa a virar: nuvens que vêm do sul apoderam-se do canyon e a friaca se faz sentir. Observo neve e dois grandes desmoronamentos de terra na encosta oriental da colossal garganta. Como saímos de Deurali quase ½ dia, Bishow cruza pra margem leste já que as chances de avalanches costumam ocorrer mais na encosta oeste do canyon devido à presença do pico Hiunchuli próximo à sua borda. Donde estamos, do lado esquerdo do rio, dá pra ver bem a enorme avalanche de neve que interrompeu a trilha na encosta direita donde também jorra do alto uma big cascata. Há gente que não dando bola pro risco de possíveis avalanches passa pela trilha super estreita escavada na neve limitada dum lado por uma rampa descendente duns 50 metros. Estou bem contente por ter vindo por esta via alternativa porque não curto nada esse tipo de via super exposta e escorregadia. Não tem como não se dar conta da profunda alteração na paisagem a partir de Deurali: os campos de neve começam a se amiudar, a cor verdejante da vegetação transforma-se em amarronzada, o bambuzal resiste ainda que seco, sem exibir seu peculiar verdor, apenas arbustos e árvores de pequeno porte despidas de folhas, tufos ressecados de capim amarelado, uma curiosa vegetação com folhas aveludadas que lembra uma couve-flor esverdeada, e, surpreendentemente, ramos de gencianas! Muitas cascatinhas continuam escorrendo pelas paredes do canyon. As duas travessias no Modi Khola são em precárias pontes metálicas não muito distantes da correnteza furiosa do leito do rio. Atravesso vários campos de neve e um deles provoca calafrios: a trilha, estreita, tem uma puta rampa que termina no rio Modi espumando agitadíssimo lá embaixo. Depois, só subida casca grossa até o acampamento-base do Machapuchare piorada pela presença da cerração que se torna cada vez mais densa, não permitindo se avistar coisa alguma. Chegamos às 14:20 em Machapuchare, caminhando dentro duma nuvem tão aquosa que sinto as minúsculas gotículas molharem roupa e rosto. Confesso que hoje bateu o cansaço porque de Dovan a Deurali o desnível foi de 600 metros e de Deurali (3.200 metros) ao acampamento-base do Machapuchare (3.700 metros) subimos mais 500 metros. O pior, contudo, foram os 40 minutos finais de subida antes de chegarmos a Machapuchare, um trecho matador cheio de degraus. Com aquela preguiça causada pela canseira de quem está nas altitudes, nem saio a explorar os arredores do acampamento-base de Macha, fico o restante da tarde até a hora de ir pro berço no refeitório quentinho, postando fotos no Face, lendo, escrevendo e curtindo os demais hóspedes. Vidinha boa essa, vale cada degrau e gota de suor destilado!!

Um comentário:

Miriam Chaudon disse...

Eu gostei da cantoria das chinesas no video!!! E que paredão aquele onde teve a avalanche, hem?