sábado, 22 de abril de 2017

Duelo nas termas

21/04/2017 – Sexta-feira – 7º Dia de Trek Annapurna BC - Anna BC a Bamboo
O termômetro marca -1ºC às 6 horas quando acordo. O céu está azulzinho quando deixamos Anna BC às 6 e 40. Ao ver, caminhando no sentido contrário, um rapaz – descubro ser búlgaro - de cabelo pintado de amarelo, vestindo gorro, jaqueta e botas da mesma cor, não resisto e peço pra filmá-lo. Estilo é tudo! Fazemos em uma hora o percurso do Anna BC ao Macha BC e como estava tudo nublado quando vim pra cá há 2 dias, estou encantada não só de volver ao canyon – adoro canyons, prova disso minhas práticas de canionismo todos os fins de semana durante 3 anos – como admirar sua parte inicial sem cerração, visível à luz do sol. Exatamente, aqui, no acampamento-base do Machapuchare, o canyon do rio Modi tem seu início ou término, como queiram. Como descer, via de regra é bem menos custoso do que subir, estamos agora baixando, o que é deveras buenacho porque aquela sequência torturante de degraus que enfrentei na ida é o que os coitados dos turistas encaram neste momento enquanto cruzam por mim. Claro está que não chega nem perto do trek do Eve BC, mesmo assim a quantidade de gente impressiona ao longo da trilha. Dá pra perceber quem está cansado do ascenso pelo jeito com que se apoiam nos bastões. Um rapaz em particular chama minha atenção. Bem jovem, sentado num dos degraus de pedra, cabeça inclinada um pouco pra trás, queixo levemente erguido, com as mãos pousadas no bastão de trek, ele aproveita seu descanso e contempla embevecido a paisagem grandiosa do canyon. Às 10 quando paramos em Deurali para um chá, percebo nuvens vindas do sul adentrando a garganta. Às 11, quando chegamos em Himalaya Hotel onde almoçamos, a névoa já praticamente tomou conta do canyon, baixando bastante a temperatura mas não de forma agressiva, deve estar fazendo uns 13ºC. De Himalaia a Bamboo uma hora de descida na luxuriante floresta. Tão sortuda sou que vejo diversos langures, os lindos macacos de barba branca que habitam estas plagas. Eles não se aproximam mas ficam parados olhando curiosos pra mim. A menor tentativa de aproximação, eles fogem rapidinho, se embrenhando no mato. Quando chego em Bamboo às 14:00, a espessa cerração virou garoa. O dono do lodge parece um macaco babuíno. Gordo e baixo é o próprio macho alfa. Domina a conversa falando alto e, durante bom tempo, não dá espaço pra mais ninguém. Bishow quando pergunto o que falam com tanto entusiasmo, responde que discutem política, já que haverá eleições em algumas semanas. Quando fico sabendo da existência da tradicional aguardente feita de painço – raksi -, resolvo prová-la, por óbvio! Bishow explica que pode ser feita com arroz, porém raksi de milho, frisa ele, é bem melhor. Convido guia e porter pra me acompanharem e peço pipocas pra nossa happy hour. Nurbu recusa a bebida porque desde que entornou uma garrafa inteira de raksi não suporta mais bebidas alcoólicas mas a pipoca ele aceita. Durante a janta, um alemão conta que devido ao mal de atitude durante o trek do Everest BC não pode terminá-lo. Bah, sou abençoada por não ser dada a este tipo de doença. Só um dia não tive apetite e o máximo que senti foi dor de cabeça durante 3 dias ao longo do trek ao Eve BC.


22/04/2017 – Sábado – 8º Dia de Trek Anna BC – Bamboo a Jhinnudanda
Bamboo está praticamente à beira do canyon enclausurada na floresta motivo por que é tão úmida. Por isso, deixo sem saudades a vila às 7 e 10. Um dogue peludão, lindo, me acompanha até Sinuwa onde se encontra com seu filhote. Os dogues de montanha são um capítulo à parte: embora dóceis são pra lá de independentes. Não ladram pras pessoas, só entre eles quando há invasão de território. Daí é uma algazarra tribarulhenta, valha-me deus, até que o cachorro invasor seja expulso. Mesmo com o tempo nublado, o trecho entre Bamboo e Sinuwa continua encantador, lindamente decorado pela vibrante floração avermelhada dos rododendros. É uma floresta de conto de fadas, só faltam os gnomos e duendes saltando de folha em folha. Como sempre, paramos pra beber chá em Sinuwa. Peço o meu de limão com gengibre. Afora 2 subidas fortes, uma ao sair de Bamboo e outra, um pouco antes de chegar em Chomrong, o resto é íngreme descida até Jhinnudanda onde chegamos às 13 e 20. E lá vou eu com Bishow e Nurbu à hotspring, uma descida de 20 minutos, em meio a um belo bosque, até à margem direita do rio Modi onde há 2 piscinas de águas termais e 3 canos que servem de chuveiros. Há 8 dias sem tomar banho não só eu como todos que estão lá, os chuveiros são disputadíssimos (tem de se banhar neles antes de entrar nas piscinas). Tenho de defender meu banho, declarando em alto e bom som “let me take my shower in peace, I am too dirty, I am stinky.” Foi o que bastou pra galera não tentar ganhar meu chuveiro na mão grande, embora tenha escutado algumas risadinhas masculinas durante minha breve e veemente declaração. Agora 17 horas, limpinha, cheirosinha, com os pés pra cima, curto o final de tarde no terraço do lodge donde se descortina o canyon e a vila de Rambuk na encosta em frente. Daqui a pouco, é hora do ângelus, ou seja, happy hour. Pra tanto vou convidar meu parceiro de libação alcoólica, Bishow que gosta tanto duma pinga quanto eu pruma dose de raksi . E Nurbu pra compartir conosco as pipocas! Melhor que isso só 2 doses de raksi uhuuu!!

2 comentários:

Miriam Chaudon disse...

Com direito a águas termais e com o rio lindo ao lado! Que vida maravilhosa!

Miriam Chaudon disse...

Hahahaha! Bea, eu acho que ali tava todo mundo fedorento!