Pretendo com este blog descrever viagens que fiz e farei por este tão lindo planeta, resgatando da memória as impressões armazenadas, algumas já esmaecidas pelo tempo, outras prudentemente registradas pelo olho mágico das lembranças fotográficas.
25/04/2017 a 30/04/2017 – Terça-feira a
Domingo - Pokhara
Pokhara, capital da região oeste do Nepal e a 200 km de Kathmandu, é a terceira cidade
mais populosa do país, com mais ou menos 400.000 habitantes. Tem um próspero
parque industrial fora da vista dos turistas que se aglomeram nas áreas
turísticas de Damside e Lakeside onde há restaurantes, lojas e hotéis pra todos
os gostos e bolsos. Retorno à Guest House North Star, porque gostei do ambiente
familiar, em especial de Namrata e Mina, respectivamente, cunhada e mulher de
Narayan, dono da pousada e da Trek Around Nepal, agência responsável pelos meus
2 treks. O preço convidativo de 10 dólares também influi na
escolha. Dessa vez,
Mina me acomoda numa suíte com dormitório, sala, cozinha e banheiro.
Embora pertíssimo
das agitadas ruas do Lakeside, a pousada fica numa tranquila rua, longe
da
zueira. Pra meu delírio, Mina me convida no meu último dia na cidade pra
um autêntico casamento hindu duns amigos dela. A cerimônia religiosa
dura 4 horas e eu enlouquecidamente fotografo e filmo tudo!! Pokhara tem
temperatura agradabilíssima, calor durante o dia e, à noite,
uma bem-vinda friagem por estar situada a 800 metros acima do nível do
mar.
Durante os 5 dias em que permaneço nesta agradável cidade cujos ares de
balneário
se devem a sua preciosa localização à beira do lago Fewa, estabeleço certos
hábitos. Desfruto meu desjejum num café diante do lago em companhia de Silvia,
a italiana que conhecera durante o trek do Everest, e Richard, um americano de
½ idade, aproveitando o dolce far niente dos aposentados. Lá permaneço o resto
da manhã jogando conversa fora e curtindo o movimento dos nepaleses que passam
de lá pra cá e de cá pra lá. Destacam-se entre as colegiais uniformizadas, os cabelos
das meninas caprichosamente trançados e enfeitados com laçarotes de fita branca,
o insistente vendedor de côco em fatias, as vendedoras de verduras carregando as
mercadorias em cestos de palhas às costas, duas tibetanas sempre sorridentes oferecendo
bijuterias que tiram das mochilas, mulheres com saris coloridos empunhando
sombrinhas pra se protegerem do sol, enfim, um mundaréu de gente que caminha na
avenida à beira do lago, e como não poderia deixar de ser, cachorros
e vacas desfilam também diante de meus olhos encantados com tanto exotismo. Foram dias de céu limpo, sem vento, salvo dois
dias de rápidas e fortes chuvas antecedidas por nervosas ventanias. No lago,
barcos movidos a remo e a motor transportam não só turistas como nepaleses dum
ponto a outro da cidade. Paraglidings colorem o céu balançando ao sabor das
térmicas sobre o lago Fewa. Mulheres lavam roupa à beira do lago ao lado de
homens que pescam. Não vejo nenhuma mulher dirigindo carro, mas em compensação
são umas divas manejando suas scooters pelas ruas de Pokhara. Vontade deu de
pedir pra dar uma banda com uma delas! Descubro a rua das bancas de frutas e de
grelhados e lá me esbaldo, comprando suculentas mangas e maçãs além das deliciosas uvas sem
sementes. Me torno fã de tandoori chicken acompanhada de espetinho de batatas
assadas, levemente crocantes por fora. As comidas nepalesas são um capítulo à
parte. Provo jery (doce frito feito com farinha de trigo) mas acho sem
graça, adoro o panipuri (crocante casquinha de trigo recheada com pedacinhos de batata), mas não arrisco no patota chup
(bolinho de batata empanado com farinha de trigo) porque não posso alimentar em
demasia meu colesterol, contudo o chat (bolo salgado
feito com feijão branco e batatas acompanhado de fatias de cebola, tempero
verde, açúcar e mel) aprovo porque bem mais saudável. Embora fritura, não há
como resistir à samoza (pastel cuja massa é feita com farinha de trigo e
recheado com batata) que vai bem com uma cerva geladinha. E claro me esbaldo
nos momos (trouxinha de farinha de trigo que pode ser frita ou no vapor,
recheada com verduras ou galinha) que mergulho naquele picante molho de
pimenta. À noite, as águas do lago refletem as luzes verdes, amarelas e
vermelhas que enfeitam muitas das residências cujo estilo é pra lá de cafona,
com colunas imitando troncos de árvores. Passear pelas ruas tanto de dia quanto
à noite é uma tranquilidade. O máximo de assédio se manifesta na curiosidade de
alguns nepaleses perguntando o inevitável "where are you from". Quando
sabem, contentes com seu conhecimento sobre o Brasil, exclamam "football,
Ronaldo, Pelé" e por aí vão citando nomes de jogadores brasileiros que nem eu conheço.
Uma cidade que exibe num restaurante a inscrição “being happy is a habit. Choice is yours!” só
pode proporcionar bem estar, não é mesmo?
23/04/2017 a 25/-4/2017 – Domingo a
Terça-feira – 9º ao 11º Dia de Trek Annapurna BC – Jhinudanda – Landruk –
Pothana – Kande - Pokhara
Saímos
às 7:30 de Jhinudanda com tempo nublado que assim permanece até a Tibete Guest
House, em New Bridge onde paramos prum chá. Viciada na combinação de limão com gengibre, peço esta deliciosa mistura. Como estamos retornando pelo mesmo caminho não há novidades ao
longo da trilha. Minha atenção se prende então a pequenos detalhes: duas
cascatas e densíssimas touceiras de samambaias em ambos os lados da trilha já que
na ida nossa visão é monopolizada pela visão frontal dos monumentais Annapurna
South e Hiunchuli. Um rebanho de cabras – como são lindos esses animalitos!! - descansa
no gramado rente à estradinha enquanto os pastores, numa barraca improvisada
com lona, comem algo. A pernada não dura
nem 3 horas porque às 11 já estamos na pousada, em Landruk. Sua dona é alegre, rechonchuda e
comunicativa ao contrário do marido, homem de poucas falas. Percebo que ela é hindu
e casada pelo ponto vermelho pintado no meio de sua testa. Ela mesma prepara as
refeições dos hóspedes e seu dal bhat acompanhado por 2 tipos de verduras,
batata ao curry e casquinha feita com trigo é muito gostoso, talvez o melhor de
toda a minha estadia no Nepal. Produtora de raksi, ela faz questão de mostrar
seu alambique, explicando orgulhosamente todo o processo de fabricação. O tempo
continua nublado e chuvisca vez por outra. No lado de lá do rio, diversas vilas,
uma delas com um monastério budista, espalham-se pelo flanco da montanha. A então fina garoa que caia, mansa e
timidamente, vira chuva da grossa e pouca demora a espessa cerração encobre
toda a paisagem. O tamborilar da chuva no telhado de zinco soando ora mais pesado ora
mais leve e o movimento de vai e vem dos galhos das árvores denunciando a força
do vento, faz com que eu me congratule por estar abrigadinha neste lodge tão simples quanto acolhedor e não na
trilha enfrentando tal intempérie. Assim como veio, a chuva e a cerração somem,
como num passe de mágica. Restam apenas nuvens pairando em meio às encostas. Saio
do refeitório onde estava até então, protegida do mau tempo, e começo a curtir o
lindo jardim da pousada. Na longa varanda, diante da qual os quartos se dispõem, vasos rentes ao chão e outros pendendo de ganchos do teto contêm variedade
de flores de encher os olhos. Algumas existem no Brasil como cravinas,
gerânios, brincos de princesa e begônias. Outras, entretanto, nunca vira antes.
Os nepaleses adoram flores motivo por que é muito raro as casas não terem
vasos de flores diante de suas fachadas. Convido Bishow pruma rodada de raksi e
Nurbu pra comer pipocas. Meu adorável guia, que exala pura gentileza, liga o
rádio do celular numa estação de música nepalesa. A melodia da canção e as
luzes acesas das casas na vila de Syauli iluminam a encosta em frente como se
fosse uma gigantesca árvore de natal. Putz, bom demais estar aqui!! Vontade de
largar tudo e morar no Nepal! Os dois últimos dias do trek, pra ser sincera,
não deixaram muita impressão nesta senhorinha. A um, porque a paisagem
espetacular, vislumbrada no interior do canyon do rio Modi, ficara
pra trás, só restando agora os contornos de South Anna e
Hiunchuli a nossa retaguarda; a
dois, porque, em sendo fim de viagem, se retorna por lugares já conhecidos que não mais surpreendem pelo ineditismo. Por mim, teria
abreviado o trek em um dia, retornando direto de Landruk a Pokhara considerando
o baixo nível de dificuldade da trilha que poderia ser feita em tranquilas 6
horas. Entretanto, pernoitamos em Pothana e de lá descemos a Kande, retornando
a Pokhara onde permaneci deliciosos 5 dias. Sobre isso, contudo, discorrerei em nova postagem. Se me perguntarem qual trek(Everest BC ou Annapurna) é o mais lindo, respondo: ambos são belíssimos, mas do que mais gostei, foi o do Annapurna. Por quê? Devido à variedade de paisagens que vai da exuberância das florestas subtropicais à gelidez nevada das altas montanhas. Hastala vista montanhas, me aguardem, pois voltarei, com certeza!!
21/04/2017 – Sexta-feira – 7º Dia de Trek
Annapurna BC - Anna BC a Bamboo
O termômetro
marca -1ºC às 6 horas quando acordo. O céu está azulzinho quando deixamos Anna
BC às 6 e 40. Ao ver, caminhando no sentido contrário, um rapaz – descubro ser
búlgaro - de cabelo pintado de amarelo, vestindo gorro, jaqueta e botas da
mesma cor, não resisto e peço pra filmá-lo. Estilo é tudo! Fazemos em uma hora
o percurso do Anna BC ao Macha BC e como estava tudo nublado quando vim pra cá
há 2 dias, estou encantada não só de volver ao canyon – adoro canyons, prova
disso minhas práticas de canionismo todos os fins de
semana durante 3 anos – como admirar sua parte inicial sem cerração, visível à luz
do sol. Exatamente, aqui, no acampamento-base do Machapuchare, o canyon do rio Modi tem seu início
ou término, como queiram. Como descer, via de regra é bem menos custoso do que
subir, estamos agora baixando, o que é deveras buenacho porque aquela sequência
torturante de degraus que enfrentei na ida é o que os coitados dos turistas encaram
neste momento enquanto cruzam por mim. Claro está que não chega nem perto do trek
do Eve BC, mesmo assim a quantidade de gente impressiona ao longo da trilha. Dá
pra perceber quem está cansado do ascenso pelo jeito com que se apoiam nos
bastões. Um rapaz em particular chama minha atenção. Bem jovem, sentado num dos
degraus de pedra, cabeça inclinada um pouco pra trás, queixo levemente
erguido, com as mãos pousadas no bastão de trek, ele aproveita seu descanso e contempla
embevecido a paisagem grandiosa do canyon. Às 10 quando paramos em Deurali para
um chá, percebo nuvens vindas do sul adentrando a garganta. Às 11, quando
chegamos em Himalaya Hotel onde almoçamos, a névoa já praticamente tomou conta
do canyon, baixando bastante a temperatura mas não de forma agressiva, deve
estar fazendo uns 13ºC. De Himalaia a Bamboo uma hora de descida na luxuriante floresta.
Tão sortuda sou que vejo diversos langures, os lindos macacos de barba branca
que habitam estas plagas. Eles não se aproximam mas ficam parados olhando curiosos
pra mim. A menor tentativa de aproximação, eles fogem rapidinho, se embrenhando
no mato. Quando chego em Bamboo às 14:00, a espessa cerração virou garoa. O
dono do lodge parece um macaco babuíno. Gordo e baixo é o próprio macho alfa. Domina
a conversa falando alto e, durante bom tempo, não dá espaço pra mais ninguém. Bishow quando
pergunto o que falam com tanto entusiasmo, responde que discutem política, já
que haverá eleições em algumas semanas. Quando fico sabendo da existência da tradicional
aguardente feita de painço – raksi -, resolvo prová-la, por óbvio! Bishow explica
que pode ser feita com arroz, porém raksi de milho, frisa ele, é bem melhor. Convido guia
e porter pra me acompanharem e peço pipocas pra nossa happy hour. Nurbu recusa a bebida
porque desde que entornou uma garrafa inteira de raksi não suporta mais bebidas
alcoólicas mas a pipoca ele aceita. Durante a janta, um alemão conta que devido ao mal de atitude
durante o trek do Everest BC não pode terminá-lo. Bah, sou abençoada por não ser
dada a este tipo de doença. Só um dia não tive apetite e o máximo que senti foi
dor de cabeça durante 3 dias ao longo do trek ao Eve BC.
22/04/2017 – Sábado – 8º Dia de Trek
Anna BC – Bamboo a Jhinnudanda
Bamboo
está praticamente à beira do canyon enclausurada na floresta motivo por que é tão
úmida. Por isso, deixo sem saudades a vila às 7 e 10. Um dogue peludão, lindo, me acompanha até
Sinuwa onde se encontra com seu filhote. Os dogues de montanha são um capítulo
à parte: embora dóceis são pra lá de independentes. Não ladram pras pessoas, só entre eles
quando há invasão de território. Daí é uma algazarra tribarulhenta, valha-me
deus, até que o cachorro invasor seja expulso. Mesmo com o tempo nublado, o
trecho entre Bamboo e Sinuwa continua encantador, lindamente decorado pela vibrante floração avermelhada dos rododendros. É uma floresta de conto de fadas, só faltam os gnomos e duendes
saltando de folha em folha. Como sempre, paramos pra beber chá em Sinuwa. Peço o
meu de limão com gengibre. Afora 2 subidas fortes, uma ao sair de Bamboo e
outra, um pouco antes de chegar em Chomrong, o resto é íngreme descida até Jhinnudanda onde chegamos às 13 e 20.
E lá vou eu com Bishow e Nurbu à hotspring, uma descida de 20 minutos, em meio
a um belo bosque, até à margem direita do rio Modi onde há 2 piscinas de águas
termais e 3 canos que servem de chuveiros. Há 8 dias sem tomar banho não só eu
como todos que estão lá, os chuveiros são disputadíssimos (tem de se banhar
neles antes de entrar nas piscinas). Tenho de defender meu banho, declarando em
alto e bom som “let me take my shower in peace, I am too dirty, I am stinky.” Foi
o que bastou pra galera não tentar ganhar meu chuveiro na mão grande, embora
tenha escutado algumas risadinhas masculinas durante minha breve e veemente
declaração. Agora 17 horas, limpinha, cheirosinha, com os pés pra cima, curto o
final de tarde no terraço do lodge donde se descortina o canyon e a vila de
Rambuk na encosta em frente. Daqui a pouco, é hora do ângelus, ou seja, happy
hour. Pra tanto vou convidar meu parceiro de libação alcoólica, Bishow que gosta
tanto duma pinga quanto eu pruma dose de raksi . E Nurbu pra compartir conosco as pipocas! Melhor que isso só 2 doses de raksi uhuuu!!
19/04/2017 – Quarta-feira – 5º Dia de Trek Annapurna BC – Macha
BC a Anna BC
Acordo
super cedo, por volta das 5 e depois de lavar rosto e escovar dentes me ponho a
fotografar a linda paisagem ao redor. Como um poderoso refletor, o sol imprime
à superfície nevada do Annapurna South uma viva coloração amarelada, ao passo
que, nas sombras, do singular formato de cauda de peixe do Machapuchare resta
apenas uma vulgar aparência triangular. E já tem gente indo às 5:30 pro acampamento-base
do Annapurna. São aqueles que farão um bate-volta, preferindo pousar em
Deurali, Himalaya ou Dovan. Saímos às 7 de Machapuchare rumo ao Anna BC
caminhando ora pelo campo de neve ora por trechos livres de gelo. Diante
de mim, Annapurna South, gigantesco, mais parece um 8 mil. Um
colar fino de nuvens envolve seu flanco oeste. A temperatura amena dispensa o uso da jaqueta de plumas, bastam camiseta e pulôver de fleece
mais um par de luvas. Encontro as duas queridas chinesas caminhando a nossa frente.
Como sempre, tiram fotos uma da outra tendo como pano de fundo Anna South. Saúdo-as
efusivamente e daí por diante a pernada vira uma alegre gandaia. Até filmezinho
a magrinha faz comigo, fingindo que me fuzila com uma metralhadora (pra encarnar o papel, ela deve ter
mentalizado que sou uma dissidente do camarada Mao). Quando caio na neve
fingindo de morta, as duas vibram tanto que fazem eu repetir a cena pra filmar
uma segunda vez. Às 8 horas baixa uma cerração. Da fúria do rio Modi no
interior do canyon o que se vê agora é um manso córrego que vai abrindo seu
caminho ao longo e sob a geleira. Tufos de capim amarelo crescem no terreno sem
neve, intercalados por pequenos buquês de gencianas! E joaninhas, muitas joaninhas sobre a neve!! Isso a 4.000 metros!!!
Os 430 metros de desnível entre o Macha BC e o Anna BC foi a subida
mais fácil de todas, tanto que fiz com um pé nas costas, hehehe!! Quando atingimos
os 4.130 metros, às 9 e 20, onde foi construído o acampamento-base do Anna, o
céu está limpo, sem vestígio de cerração. Fazemos um lanche ao ar livre
oferecido pelas queridas chinesas pra comemorar o niver da gordinha: deliciosos
snacks(tofu e um tipo de figo seco) from China! Lá pelas 10 e 30, quando as amiguinhas
já tinham se mandado, baixa uma bruma cerradíssima. Como um passe de mágica, lá
pelo ½ dia, clareia de novo e o sol mostra a cara. Contudo pras bandas de Machapuchare
tá tudo nubladíssimo, não se avistando nenhuma daquelas montanhas situadas a leste. Aqui
no Anna BC é difícil encontrar quartos porque na alta temporada os 5 lodges com
6 dormitórios cada não dão conta da demanda. Num deles, o dono nos disse que só
poderia oferecer barracas. Acabamos conseguindo um lodge cujo único quarto vago
é ao lado da cozinha. Acho muito tri o dormitório porque pra alcançá-lo tenho
de atravessar a cozinha curtindo todo aquele bulício dos rapazes preparando as
refeições. O quarto com 3 camas será compartilhado com um irlandês de Dublin,
Adrian, com quem converso rapidamente. Bishow e Nurbu, como os demais guias e
porters, dormirão nos bancos do refeitório. Pensando ser trovões o barulhão que
escutei há pouco descubro serem avalanches de neve. A cerração que se concentrava pros
lados do Machapuchare veio pra cá e escondeu a esplêndida paisagem circundante.
Sem condições de dar um rolê no exterior porque venta e chove bastante, fico no
refeitório deitada num dos confortáveis bancos estofados que rodeiam o amplo
salão. E são apenas 14 horas!! Muito tempo
pela frente até a hora de dormir. E dale a chegar gente, a maioria jovens que
estão nem aí pra chuva que enfrentaram na trilha e continua a cair. Sucede-se ao chuvaral
uma vigorosa queda de neve que só termina no final da tarde. Novamente, a
paisagem ressurge com os picos mais brancos que nunca. Muitos hóspedes deixam
o refeitório e vão pra fora curtir o belo cenário, inclusive uma mulher com aquele
tipo de risada aguda que perfura os tímpanos. Meu deus, como sou perseguida por
esse tipo de gente com risadas de galpão!! João Gilberto, o grande músico e
cantor de MPB, não me acharia ranzinza, com certeza!! Até que nem faz tanto
frio às 18 e 30 quando vou dar uma espiada no termômetro colocado no lado
externo do lodge: 4º C já senti várias vezes na minha terra natal, o Rio Grande
do Sul! Isso nem faz o cusco renguear de frio!!
20/04/2017 – Quinta-feira – 6º Dia de Trek
Annapurna BC - Annapurna BC
O
acampamento-base do Annapurna localiza-se no interior dum colossal anfiteatro montanhoso
pertencente ao maciço do Annapurna. Com 55 km de comprimento, compreende um
pico de 8 mil, 13 acima de 7 mil, e 16 acima de 6 mil. Assim, aqui no ABC temos
uma amostra da grandeza desta cadeia de montanhas: a oeste, Hiunchuli (6.441
metros) e Annapurna South (7.219 metros); a noroeste, Bharha Chuli; ao norte, a
vasta parede da face sul do Annapurna I (8.091 metros); já a leste, Ganga Purna
(7.455 metros), Annapurna III (7.555 metros), Gandarba Chuli (6.248 metros) e
Machapuchare (6.993 metros). É de tirar o fôlego. Fica-se girando
enlouquecidamente 360º sem parar! Manhã brilhante e céu límpido permitem uma
baita visibilidade deste complexo rochoso. Imperativo, entretanto, acordar cedo
pra flagrar os primeiros raios solares dourarem as encostas nevadas do Anna
South, Bharha Shirkha e Anna I porque tal show da natureza dura rapidinho. Assim,
às 5 e 30 da manhã, os turistas já estão de pé, admirando o belíssimo
espetáculo. Uns espanhóis ao meu lado tiram sarro do parceiro que não conseguiu
levantar a tempo. O cara, sem se abalar, responde que curtirá o espetáculo olhando
as fotos tiradas pelos amigos. Hoje tiramos o dia pra descansar. A
pousada, até então lotada, esvazia-se após o desjejum, restando somente eu e
Flavio de hóspedes. Doente desde ontem, com diarreia e vômitos, o cara tá
malecho. Provavelmente rebote do mal de altitude. Mas ele jura que foi da comida
apimentada. Medico-o com os remédios que tenho na minha pequena
farmácia. Ele não trouxe nada a não ser aspirina. Oxalá dê certo! Os lodges do Anna BC estão
localizados ao lado da grande borda direita da moraina do glaciar. Subindo até
sua crista dá pra ver a geleira fluindo como um rio de pedra. Como a maioria
dos glaciares himalaios, é coberto por espessa camada de pedras e cascalho na
sua parte mais baixa e plana. Se não se sabe, de antemão, que é um glaciar, se
pensa que é um amontoado de areia e pedras porque quase nada se vê do gelo sob os
detritos. Eu e Bishow subimos até a cumeeira da moraina pra fotografar a stupa erigida
diante do Anna I em homenagem a Boukreev e Iñaki Ochoa que morreram escalando-o.
Prosseguimos caminhando ao longo da moraina onde mais stupas homenageiam outros montanhistas
que pereceram tentando escalá-lo. Super dada a avalanches, a face sul do Anna I
vem a ser, entre os 8 mil, um dos picos mais perigosos de se escalar. O tempo
permanece bom até umas 10 horas quando nuvens vindas do canyon do rio Modi
começam a abraçar o Machapuchare. Um fenômeno interessantíssimo assistir à
espessa formação gasosa envolver em câmara lenta todas as montanhas da banda
leste, como se fosse uma avalanche horizontal. Ao ½ dia a cerração se apodera também
do acampamento-base do Anna. Eu me distraio observando dois empregados do nosso
lodge, que têm pranchas de snow board, deslizarem pela encosta da colina em
frente à pousada. E a temperatura até que está amena: 5ºC às 16 horas. No meio
da tarde, chega um grupo grande de sul coreanos de ½ idade que quebra meu
tedioso dolce far niente. Como aperitivo, antes da janta, comem peixinhos secos.
Um dos coroas serve aos parceiros doses de bebida alcoólica cuja cor é a mesma
da nossa cachaça. Não resisto e peço pra provar o peixe, bem saboroso. Já a
bebida não me animo em pedir, desconhecendo assim seu sabor....que pena. Eles
se tratam muito bem! Trouxeram cozinheiro que prepara comida coreana pra eles. A mesa, coberta de diversos
pratinhos, parece ser muito apetitosa! Se eu fosse cara de pau, tinha mais é me escalado
pra comer com eles, porém, nesta encarnação, infelizmente, nasci um ser tímido.
Nem bem
6 da matina, já estou levantada e no terraço a fotografar e filmar Machapuchare
e seus dois cumes cujo formato é uma perfeita cauda de peixe. A lua ainda
presente no céu exibe parcial brancura já que está minguando. E o barulhão da
cachoeira caindo no leito do rio é ensurdecedor. Frio e sem nuvens no céu embora o sol só vá aparecer
em torno das 9 horas. Experimento o pão gurung cuja textura de massa e sabor levemente
adocicado lembra a guloseima gaúcha cueca virada. As duas chinesas, que comem no
breakfast massa e arroz frito com vegetais, repartem entre si os pratos. Contam
que são amigas desde a infância. Tá explicada tanta intimidade e parceria. Saímos
de Dovan super cedo, às 7 horas, atravessando florestas com extensos bambuzais
e pontes rústicas feitas de troncos de árvores sobre pequenos rios. Entre
Himalaya Hotel, onde há 2 lodges, e Deurali, impossível passar despercebida a
gruta, conhecida como Hinku Cave. No passado, essa baita reentrância rochosa
protegida por um largo teto servia de abrigo aos porters que trabalharam nas
primeiras expedições nesta área. Atravesso um pequeno campo de gelo oriundo das
avalanches de neve que forram os picos localizados acima do canyon. Com cuidado, piso no chão congelado porque é
fácil demais escorregar nele. E há que passar o mais rápido possível, de
preferência em silêncio, pois o risco de novas avalanches é iminente nesta
época do ano em virtude da elevação da temperatura. Visível a mudança na
paisagem após Himalaya Hotel: as paredes do canyon não são mais cobertas por espessa
vegetação, sendo possível avistar a rocha nua cuja cor amarelada revela sua
origem sedimentar. Grandes cascatas e córregos - resultado do degelo dos
glaciares e campos de neve que se encontram em ambas as margens do canyon - jorram de ambas as
encostas, engrossando o rio Modi cuja água de verde e límpida passa a ser turva.
Escuto pela primeira vez o crocitar dos corvos e o troar dos helicópteros indo
e vindo do Annapurna BC. Às 11 e 30
quando ainda estamos em Deurali almoçando, o tempo começa a virar: nuvens que
vêm do sul apoderam-se do canyon e a friaca se faz sentir. Observo neve e dois grandes
desmoronamentos de terra na encosta oriental da colossal garganta. Como saímos
de Deurali quase ½ dia, Bishow cruza pra margem leste já que as chances de avalanches
costumam ocorrer mais na encosta oeste do canyon devido à presença do pico
Hiunchuli próximo à sua borda. Donde estamos, do lado esquerdo do rio, dá pra ver
bem a enorme avalanche de neve que interrompeu a trilha na encosta direita
donde também jorra do alto uma big cascata. Há gente que não dando bola pro
risco de possíveis avalanches passa pela trilha super estreita escavada na neve
limitada dum lado por uma rampa descendente duns 50 metros. Estou bem contente por ter
vindo por esta via alternativa porque não curto nada esse tipo de via super
exposta e escorregadia. Não tem como não se dar conta da profunda alteração na paisagem a
partir de Deurali: os campos de neve começam a se amiudar, a cor verdejante da
vegetação transforma-se em amarronzada, o bambuzal resiste ainda que seco,
sem exibir seu peculiar verdor, apenas arbustos e árvores de pequeno porte despidas de folhas,
tufos ressecados de capim amarelado, a curiosa vegetação com folhas aveludadas que
lembra couve-flor, porém de cor esverdeada, e, surpreendentemente, ramos de gencianas! Muitas
cascatinhas continuam escorrendo pelas paredes do canyon. As duas travessias no Modi
Khola são em precárias pontes metálicas não muito distantes da correnteza
furiosa do leito do rio. Atravesso vários campos de neve e um deles provoca calafrios:
a trilha, estreita, tem uma puta rampa que termina no rio Modi espumando
agitadíssimo lá embaixo. Depois, só subida casca grossa até o acampamento-base do Machapuchare piorada pela presença
da cerração que se torna cada vez mais densa, não permitindo se avistar coisa
alguma. Chegamos às 14:20 em Machapuchare, caminhando dentro duma nuvem tão
aquosa que sinto as minúsculas gotículas molharem roupa e rosto. Confesso que
hoje bateu o cansaço porque de Dovan a
Deurali o desnível foi de 600 metros e de Deurali (3.200 metros) ao
acampamento-base do Machapuchare (3.700 metros) subimos mais 500 metros. O pior,
contudo, foram os 40 minutos finais de subida antes de chegarmos a
Machapuchare, um trecho matador cheio de degraus. Com aquela preguiça causada pela canseira de quem está nas altitudes, nem saio a explorar
os arredores do acampamento-base de Macha, fico o restante da tarde até a
hora de ir pro berço no bem aquecido refeitório, postando fotos no Face, lendo,
escrevendo e curtindo os demais hóspedes. Vidinha boa essa, vale cada degrau e gota
de suor destilado!!
16/04/2017 – Domingo – 2º Dia de Trek Annapurna BC – Tolka
a Chhomrong
Bishow,
ao contrário de Nir, exige com seu jeito delicado de ser que partamos mais cedo dos
lodges, assim, às 7:20 estamos já com o pé na estrada dando adeusinho à Tolka.
A pernada de ontem foi facinha, só o tempo enevoado e úmido incomoda um pouco,
mas é o preço que se paga por este clima subtropical além de estarmos a cada dia que passa nos
afundando mais e mais nas entranhas do canyon do Modi Khola. Seguimos pelo
flanco esquerdo do canyon e após atravessarmos Landruk, uma vila
grande, com muitos lodges, a vegetação torna-se mais densa a ponto de a trilha apresentar
em ambos os lados renques de samambaias. Nas encostas, terraços de lavoura de
painço e arroz, alguns abandonados porque os homens se encontram trabalhando nos
países árabes. Após Landruk, fácil perceber que estamos no
interior dum canyon, tipo horizontal, daí a ausência de altas cachoeiras,
apenas corredeiras espumam ao longo de seu leito. Suas paredes estão
compactamente cobertas de árvores e arbustos. Um esplêndido verdor. Paisagem completamente
diferente da do Everest. Estou adorando esse cenário luxuriante. Já dá pra se
ver Annapurna South e Hiunchuli à direita apesar da onipresença de nuvens e
névoa tentando escondê-los. Atravessamos a longa ponte metálica sobre o Modi
Khola e passamos a caminhar em sua margem direita, logo, logo alcançando a acolhedora
vila de New Bridge cujas fachadas das casas são enfeitadas com floridos vasos de
gerânios. Sentamos a uma mesa ao ar livre e pedimos um chazinho. Escolho o de
limão com gengibre, bom pra evitar resfriados. Bishow me conta que nessas
selvas há uma diversidade riquíssima de fauna, destacando—se os belíssimos leopardos
e os macacos com barba branca, conhecidos como landruk. Depois de New Bridge, a
moleza de se caminhar em terreno plano termina e o enrosco da subida começa, atravessando inclusive
trecho em que houve grande desmoronamento na trilha, tornando-a perigosamente
estreita. Mas as coisas pioram mesmo após a travessia do rio Kimrong, dessa feita
numa rústica ponte feita com troncos de árvore. Como Jhinudanda, vila onde
almoçaremos, fica no cocuruto da colina, a ladeira, mega íngreme, foi calçada
com os terríveis degraus de pedra que parecem nunca acabar. Nas encostas das
montanhas, brilham ao sol os telhados das casas revestidos com mica. De
repente, ebaaa, estamos em Jhinudanda, charmoso vilarejo, onde almoçamos. Compro
aqui um par de brincos, em formato de peixe, lindésimo. Nesta região é
impossível o trânsito de yaks e mulas porque as trilhas são muito estreitas. As
plantações se estendem do sopé quase ao topo da montanha que se encontra do
outro lado do rio Kimrong, onde sobressai uma vila no meio da encosta. Mas se eu estava reclamando do ascenso até Jhinu,
situada a 1.710 metros, a subida até os 2.210
metros de Chhomrong foi impiedosa! Degrau
após degrau a pequena distância me custou, sei lá, 2 horas? Se não foi tudo
isso, chegou perto. Quando se pensa que termina continua, não acaba nunca, que merda. Pressinto, fingindo um otimismo que não tenho, que está por terminar o calvário, portanto, sebo nas canelas,
Beatriz!! Chego ao ponto de sentir saudades dos degraus do trek Eve BC! Enfim às
15:30 entramos em Chhomrong, construída também numa crista de montanha,
ocupando não só largo platô como ainda se estendendo encosta abaixo além do rio
Chhomrong. A vila é habitada pelos gurungs, um dos maiores grupos étnicos do
país. Gurungs podem tanto ser budistas como hinduístas ao contrário dos sherpas
e dos brahmins que apenas professam, respectivamente, a fé budista e hinduísta.
A paisagem da vila é adorável, com vasos de flores enfeitando páteos e
residências. Daqui do alto da vila se vê bem o canyon e as vilas existentes em
ambas encostas: ao sul, Landruk, na encosta esquerda e ao norte Sinuwa, na encosta
direita. Embaixo os telhados azuis da vila de Jhinu destacam-se em meio ao
verdor da vegetação. O dia, ulálá, manteve-se agradável com a presença caliente
do sol a partir das 10, assim permanecendo durante a tarde. Agora, 16 e 30, o
sol se pôs e uma friaca se faz sentir. Exemplo inconveniente de modernidade é a
enorme torre de telefonia móvel construída bem na frente do Annapurna South.
Tem de se fazer malabarismos para evitar que ela saia na foto, tsk tsk tsk. Nurbu quando indagado se levaria presente pra
esposa, responde de bate-pronto: “money”...... hahahaha. Não há dúvida de que
Nurbu não só a conhece bem como sabe agradá-la!! Estou encantada com esta região.
Pensei que fosse parecida com a do Everest. Qual o quê, é absolutamente desconcertante!
Não só se vêem picos de 6, 7 e 8 mil bem de perto, como a presença constante deste
soberbo canyon funcionando como um divisor entre o mundo gelado e árido das
altas montanhas e a tepidez verdejante das zonas mais baixas. Que surpresa
agradável este trek. E eu que não estava dando muito por ele, pode?!
17/04/2017 – Segunda-feira – 3º Dia de Trek Annapurna BC –
Chhomrong a Dovan
A manhã, sem nuvens, permite
que se vislumbrem em toda sua glória Annapurna South, Hiunchuli e Machapuchare. Me
apaixono por Machapuchare. É a mais linda de todas as montanhas vistas por mim.
Seus dois cumes lembram cauda de peixe, daí ter sido denominada em inglês
Fishtail. De Chhomrong, donde saímos às 7 e 10, descemos uma bela e longa
escadaria até o fundo do vale onde corre o rio Chhomrong, cruzando a ponte
metálica até a outra margem. Só de pensar na volta, subindo todos aqueles
degraus, me arrepio, ui ui ui!! Enquanto estou descendo quem vejo subindo? A
simpática vendedora de quem comprara bergamotas e maçã ontem durante a dura
subida de Jhinudanda a Chhomrong. Ela, contente, de me rever, faz questão de
parar, abraçando-me efusivamente. Tal atitude é pouco usual nos nepaleses, tanto
que nos folhetos dados aos turistas há recomendação de se evitar manifestações
públicas de afetos. Do celular duma jovem chinesa, que juntamente com uma amiga,
hospedaram-se na mesma guest house que estávamos em Chhomrong, escuto música eletrônica em alto e
bom som. Brincando, começo a dançar. Pra quê! Elas se encantam e começamos, então, a conversar enquanto caminhamos. Uma americana, ao meu lado, comenta que não é
bem esse tipo de som que esperaria como trilha sonora no trek, hehehe. Ambas as
chinesinhas vestem-se com roupas coloridas, estampas de desenho infantil, predominando a cor rosa. A magra,
que parece ser a líder, é seguida pela amiga gordinha, que não demonstra tanta desenvoltura pra caminhar
quanto a magrinha espevitada. Alegres, param frequentemente pra tirar fotos uma
da outra. Quando a gorducha fica pra trás nas subidas, a magrinha aguarda até que a outra a alcance. De fato, há uma bela parceria entre as duas. Mas como as 2 caminham muito lentamente, porque param toda
hora pra tirar selfies e fotos uma da outra, combino de vê-las em Dovan onde
também vão pousar e sigo adiante. Da ponte sobre o rio Chhomrong até Sinuwa é só
subida em degraus, onde paramos prum chazito. Do restaurante não canso de admirar os belos picos Annapurna South, Hiunchuli e
Machapuchare. De Sinuwa a Bamboo não se leva mais que 2 horas, caminhando numa floresta
onde predominam bambus e rododendros floridos. Parece bosque de contos de fadas, beleza pura! O terreno alterna trechos planos
com descidas e subidas curtas sem grandes exigências. O Machapuchare é
entrevisto o tempo todo, salvo quando paramos em Bamboo pra almoçar já que a
alta parede da encosta esquerda do canyon o encobre. Peço dal bhat que vem acompanhado
com batatas ao curry, deliciosas. Levamos uma hora e 15 minutos até Dovan
porque faço Bishow parar diversas vezes encantada, ou melhor,
deslumbrada que estou com a beleza da trilha, tanto que nem me importo com algumas subidinhas cascudas que tenho pela frente e com a exposição incômoda de grossas raízes aflorando do solo. Duas travessias em pontes feitas com troncos de árvore dão um clima delicioso à trilha! Tão bom se equilibrar nelas ao invés da segurança das pontes metálicas. Chego tão feliz em Dovan que me ponho a dançar, sem sequer tirar a mochila, na ampla esplanada construída na frente dos lodges. A música que toca no Ipod é uma esfuziante seleção de folclore interpretada pelo excelente percussionista pernambucano Naná Vasconcelos, infelizmente, já não mais entre nós. Poucos metros abaixo, o barulhinho bom do agitado rio Modi se faz ouvir. O movimento de turistas está tão forte, que os 3 lodges existentes na vila estão com lotação esgotada. Um dormitório com 4 camas custa 180 rupias por pessoa. As 2 chinesas, que viajam sem agência, carregando suas mochilas, ficam nesse. Eu e Flavio porque viajamos com agência dividimos um quarto com uma cama de casal e outra de solteiro. Cedo a de casal pra ele porque é maior que eu. Agora 15:30 baixou uma névoa encobrindo tudo ao redor. Nada se enxerga além de 50 metros, sequer a alta cachoeira que despenca da outra encosta do canyon, só se escutando o ruído de suas águas. O que têm de joaninhas e borboletas ao longo do caminho é incrível, considerando que estamos a 2.600 metros! Digo pra Bishow que no Brasil há também joaninhas e traduzo pra ele como “little joan”, hehehe. A eletricidade só não vai ao Annapurna BC, assim, ainda são visíveis postes e fios elétricos ao longo da trilha, muitas vezes se intrometendo no visual, quando se tiram fotos. Graças a deus que se pode contar com o santo recurso do photoshop, porque vou ter de apelar pra ele quando editar minhas fotos. Arrancarei com o maior prazer poste por poste e apagarei toda a fialhada por mais trabalho que dê!
11/04/ a 15/04/2017 –
Terça-feira a Sábado – Lukla - Kathmandu - Pokhara
Terminado o trek ao Everest BC, partimos no dia seguinte de Lukla, bem cedinho, às 8 da matina. No avião de 2 turbinas, 20 lugares, que
nos conduz a Kathmandu, a aeromoça oferece balas e pedaços de algodão pra se pôr
nos ouvidos. Parece que estou num filme da década de 50, muito tri este vôo, hahaha. Chegamos na
capital nepalesa às 9 e 30. Tento dormir um pouco após o almoço já que faz
2 noites que só prego olho por 3 horas, mas não consigo. A
excitação de estar nesta cidade tão mal tratada quanto atraente me deixa muito
ligada. O crocitar dos corvos (aqui também tem dessas aves aos milhares) mixado
ao ruído dos motores de carros e das buzinas é a trilha sonora de meu fim
de tarde enquanto aprecio o lento e magnífico pôr do sol. A bola de fogo bem
desenhada exibe coloração róseo-alaranjada, uma belezura! Ao longe, longas e finas varetas de
metal despontam verticalmente como troncos sem galhos dos prédios em construção,
de modo a protegê-los dos efeitos dos terremotos. A estadia relâmpago em
Kathmandu não me impede de visitar Pashupatinah, complexo religioso e santuário dedicado ao deus hindu Shiva, localizado em ambas as margens do rio
Bagmati. Nos gaths (escadarias) em frente ao rio, os corpos são lavados e cremados
em fogueiras a céu aberto. Eu curto vir a Pashupatinah não só pela oportunidade ainda de assistir às cerimônias de cremação. Pra nunca esquecer
de que a vida é um piscar de olhos e um estalar de dedos. Bueno, na quinta-feira, 7 da manhã, sentados
no desconfortável último banco do busão, começamos a fastidiosa e cansativa
viagem de 9 horas até Pokhara. Paramos pra almoçar num restaurante enorme à
beira do rio Trishuli, cujas águas de coloração amarronzada não são de molde a
atrair olhares. No dia e meio em que permaneço em Pokhara, trato menos de conhecê-la
e sim de descarregar o restante de fotos e vídeos pro laptop, organizando-os em pastas. Quando retornar
do trek ao Annapurna BC ficarei aqui durante 5 dias e então poderei curti-la à
la vonté.
15/04/2017 – Sábado – 1º Dia de
Trek Annapurna BC – Kande a Tolka
Numa
boa rodovia, rodamos de carro de Pokhara (800 metros) a Kande (1.770 metros) em 1
hora e 1/2 porque o motora pára à beira da estrada e nos mostra, orgulhoso, a
guest house que está construindo. Em Kande, ponto de partida da pernada, sou
assediada por vendedoras tibetanas querendo que eu compre suas bijus. Resisto bravamente
e não me rendo. O guia que nos conduzirá nesta jornada chama-se Bishow. Nascido
em Pokhara, o jovem homem, de boa aparência, é praticante do hinduísmo. Simpático,
gentilíssimo, com boas maneiras, não tem contudo o jogo de cintura do guia anterior, o querido
Nir, cujos modos eram mais toscos. Casado há pouco tempo, conta-me, radiante, que sua mulher está
grávida de 3 meses. Seu inglês é rudimentar já que optou por estudar coreano de modo a obter ocupação mais qualificada na Coreia do Sul, país que acolhe estrangeiros pra trabalharem, temporariamente, nas indústrias automotivas. Lá permaneceu durante 1 ano, após o que, economizada uma grana, retornou a Pokhara. Cresce o número
de guias nepaleses, que investem no aprendizado de japonês, mandarim e coreano,
de olho na afluência de turistas - em especial os de meia idade que não sabem
falar inglês -, oriundos desses países. Assim como Bishow, milhares de nepaleses
vão trabalhar, além de na Coreia do Sul, na Índia, Qatar, Kuwait ou Emirados Árabes com a
finalidade de fazer poupança e, assim, casar, investir num negócio ou construir casa
própria. O nosso porter continua sendo Nurbu. Louco pra conhecer esta também
afamada região do Himalaia, pediu pra Flavio que intercedesse junto a Narayan, dono
da agência que organiza nossos treks, pra vir trabalhar pra nós. Assim, eis Nurbu Sherpa, super feliz em poder saciar sua inesgotável curiosidade, carregando nossas bagagens. Passando
por pequenas vilas e atravessando florestas de sândalos vermelhos e de rododendros,
ainda não floridos, o início da pernada é só subida, até o Australian Camp, vilarejo
situado a 2.165 metros. Daqui já se tem a primeira visão dos picos Annapurna
South (7.219 metros) e Machapuchare (6.993 metros), ao norte, e do vale de
Pokhara bem como do lago Fewa, ao sul. Após, curta descida
percorrendo novamente bosques de sândalos vermelhos até Pothana, situada a 1.890
metros onde almoçamos. Enquanto espero meu arroz frito com galinha e verduras,
curto o modo como certo guia come seu dal bhat: sem pressa, entremeia a refeição
conversando com >outros guias, ao final da refeição lambe cuidadosamente os dedos
da mão direita, usada pra ingerir alimentos. Envoltos em nuvens e fina névoa, Annapurna
South e Machapuchare parecem suspensas no ar. No início da caminhada estava tão
quente que fiquei de camiseta de manga curta mas agora sinto que a temperatura caiu
alguns graus o que me obriga a pôr camiseta de manga comprida enquanto estou
sentada à mesa no restaurante. Terminado o almoço, voltamos a subir por entre
bosques de rododendros e de sândalos vermelhos entremeados com áreas
planas e abertas usadas como pastagens de búfalos. Em certos trechos, a trilha,
tal qual uma passarela, foi cuidadosamente calçada com pedras de mica que
brilham ao sol; em outros, é pura piramba, exigindo curta escalaminhada dentro
dum bosque que lembra de leve a nossa mata atlântica. Em Deurali,
vilazinha com 2 guest houses e um restaurante, descansamos 10 minutos
pra recobrar fôlego da sofrida subida. O restante do caminho, percorrendo outra floresta é praticamente só descida. Um pouco
antes de Tolka, ao atravessar um arroio, sai do mato um guri levando o tradicional
cesto de palha às costas. Eu o cumprimento, ele retribui com aquela cordialidade
nepalesa tão sem reserva e fala alguma coisa que não entendo. Pergunto a Bishow, achando
que é o mantra “have you socolê?”(socolê leia-se chocolate) mas não!! Ele quer
avisar que estou com o zíper da mochila aberta, correndo risco de perder algo. Mais
adiante, na beira da larga estrada que conduz a Tolka, um homem sem pernas pede
esmola. Um cartaz, em inglês, explica que ele perdeu os dois membros inferiores
por congelamento quando trabalhava como porter. Assim que chegamos na pousada em Tolka (1.790 metros), por volta das 16 horas, começa a chover como ontem
em Pokhara. Fazer o que se o clima subtropical úmido e a presença de densas
florestas favorece o chuvaral, né? O bom é que a altitude dá uma boa maneirada na temperatura não permitindo que se
eleve muito. À noite, durante a janta, os guias põem música e convidam os
turistas pra dançar músicas nepalesas. Eu sentindo que vou ser tirada pra bailar
me escapo de fininho pro quarto. Hoje não estou com espírito bailador.