Choveu durante a noite e quando levanto às 5 horas dum sabadão nublado,
a garoa fina ainda está caindo. Deixamos às 7:30 o acampamento Neblina nos
embrenhando num matagal, constituído por expressiva quantidade de samambaias.
Nunca tinha visto coisa igual. E, coisa boa, as subidas não são muito puxadas.
Hoje sou eu que afundo no barro.
Tanta a sucção que quase não consigo resgatar
a perna daquele sorvedouro de areia movediça, valha-me deus! De repente o
matagal de samambaias acaba num lajedo livre de vegetação onde há, pasmem, uma
estação meteorológica com uma puta antena! Ainda bem que não é de telefonia
celular, valha-me deus outra vez! Após breve descanso, a pegada é encarar o
interior dum bosque escuro, atravancado de troncos e galhos de árvores caídos,
cujo terreno irregularíssimo alterna baixadas e subidas. Por duas vezes, torço
o tornozelo e sinto que não foi pouca coisa, não. Tudo muito úmido, tornando o
solo em certos trechos uma meleca pantanosa. Após 2 horas e meia de pernada
naquele matagal soturno, fazemos outra parada, dessa feita mais longa, noutro
lajedo. Bernard, o fisioterapeuta, coloca kinesio tape num dos ombros da
francesa. Também pudera, carregar cargueira há 6 dias não é pra qualquer uma! A
picada, lá pelas tantas, melhora, tornando-se mais aberta, ladeada por um
capinzal que
lembra talos de cana de açúcar. Num jogo de esconde-esconde, o sol
tenta se impor mas é vencido pelo humor cinzento do céu que se instala de vez
quando, às 13 horas, chegamos ao acampamento Kerepa. Situado às margens do rio
de mesmo nome, suas águas escuras não possuem atrativo algum. Devido à estiagem
do verão, visíveis as porções de lajes que formam seu leito. Pior acampamento
de todos. Ouso dizer: até me deprimiu um tantinho. Não sei se por causa do
tempo nublado, se pela nada atrativa mata ao redor, ou se devido ao solo
irregular e sulcado por raízes à flor da terra onde as barracas foram
instaladas. Sempre cuidadosa em relação às serpentes, cada vez que necessito
urinar ou defecar trato de fazê-los bem rapidinho. Morro de medo de que alguma
cobra queira me picar nas partes pudendas. O outro terror são os escorpiões. Há
uma espécie no Auyan que ataca o sistema nervoso, matando em pouquíssimas
horas. Nem adianta acionar o telefone satelital porque, até que mobilizem
helicóptero, o vivente terá passado desta pra melhor (será?). Assim, cuido em
por os únicos calçados que trouxe, o par de botas e a sandália Kroc, bem
abrigados sem-pre num saco no interior da barraca. E pela manhã dou um
vistaço neles. Eu hein?!! Entediada porque não há muito o que explorar neste
bosque onde estamos, cujo terreno truncado impede maiores deslocamentos,
quedo-me quase todo o tempo resguardada na barraca, exceto quando vou
tomar um banhito no rio e depois quando saio pra jantar. No mais é “caminha” e
a absorvente leitura do Americano Tranqüilo, escrita por Graham Greene, sobre a
love story entre uma vietnamita, um inglês e um norte-americano, ambientada num
Vietnã, prestes a ceder o domínio até então exercido pela França ao USA.


Hoje está terminando a primeira etapa de nossa aventura....que peninha,
pois foram ma-ra-vi-lho-sos todos os dias que caminhei nesse estupendo e
surpreendente tepui. A partir de amanhã, só descenso usando as benditas
cordinhas que nos ajudarão a baixar do tepui até o refúgio de Isla Ratón,
situado na margem esquerda do rio Churun....nem acredito....que maravilha!
Embora o trajeto seja curto, dura é a distância entre este acampamento e
o do Santo Angel, motivo por que não nos apressamos a abandonar Kerepa.
Por
isso, somente às 8:15 iniciamos a caminhada até o acampamento Salto Angel. A
trilha percorre o mesmo tipo de bosque cerrado, escuro e úmido que percorremos
ontem, cheio de subidas e descidas, com poças lamacentas que nos obrigam a altas
acrobacias a fim de evitá-las. Louquíssimo o trecho da selva onde espessos
musgos de coloração ferruginosa recobrem por inteiro troncos e galhos de
árvores. O caminho é pontilhado por bromélias ao contrário de ontem onde o
predomínio foi das samambaias. O tempo insiste em permanecer nublado, embora às
vezes o sol consiga furar o bloqueio das nuvens. De repente não mais que de repente, nos
livramos do matagal pra adentrar num campo aberto coberto de gramíneas,
vencendo sem esforço uma curta ladeira cujo término é na zona lajeada,
circundada por arbustos, às margens do rio Kerepa, conhecida como acampamento Salto
Angel, onde nos
aquerenciaremos esta noite. A caminhada durou
exatas 2 horas! A mais rápida de todos os 7 dias de trek!! Completamente
diferente do local onde pernoitamos ontem, este é uma grata surpresa. O rio Kerepa, só hoje fico sabendo, é quem nutre o Salto Angel, cujas
águas desbordam do paredão oeste do Canyon Del Diablo. Portanto, não há do que se
queixar em termos de visual já que estamos acampados num lugar ultra
privilegiado. Uma pena que a essa hora da manhã, 11 horas, a cerração mal
permite que avistemos a parede leste do canyon, contrária àquela por onde despenca o
Salto Angel. Um alerta: quando
chove muito, o terreno rochoso adjacente às margens do rio fica inundado,
motivo pelo qual é aconselhável fazer trek aqui no período que vai de dezembro
a abril. À tarde, vou com Antonio e seu sobrinho Wilson até o
mirador, de onde se tem uma baita
visão da monumental garganta, do Salto Angel e
do rio Churun. A famosa cachu, porque é verão, exibe mirrado jorro e não aquele
colossal pé d’água que tanta atração exerce em qualquer vivente do planeta. No
paredão oposto, mal se entrevê outra linda cachoeira, de sugestivo nome
Cortina. No fundão do canyon, devido à estiagem, o escasso volume de
água do Churun permite que sejam visualizados largos trechos empedrados de seu leito. Antonio
faz questão de tirar uma foto comigo na borda do penhasco. Abraçados, assim
posamos pra posteridade. Fico sabendo por ele que dos 18 porteadores, inicialmente,
contratados só restam 5. Isso porque, ao longo do trek, os carregadores vão
sendo dispensados à medida que os mantimentos vão sendo consumidos. Desse modo
quando chegamos ao acampamento Dragon, 6 retornaram às suas aldeias e agora mais 7
foram daqui enviados de volta. Sobraram, portanto, ele, seu sobrinho e
mais outros três que retornarão com barracas e outros utensílios prescindíveis
de serem usados nos 3 últimos dias que restam pra acabar a aventura. Fred à
tardinha revisa o equipamento de todos:
cadeirinhas, mosquetões, freios,
capacetes e luvas. À tardinha, nos acomodamos ao redor da fogueira,
providencialmente, acesa pelos porteadores, já que um arzinho gelado sopra no
topo deste tepui. Terminada a janta, os belgas e franceses permanecem mais um pouco
ao lado da lona que serve de improvisada cozinha, trocando idéias,
provavelmente, sobre a excitante aventura que nos aguarda amanhã. Os índios,
como sempre, já se encontram recolhidos às suas redes, instaladas nos matinhos
circundantes. Às 20 horas, reina o maior silêncio no acampamento. Das tendas,
não se escuta um pio. Até os tagarelas europeus estão conscientes da
necessidade de se concentrarem pra dormir bem, eis que amanhã temos de
levantar às 4 horas pra enfrentar o 1º dia de rapelagem na parede de 1000
metros....baaah, que frio na barriga!




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