domingo, 14 de fevereiro de 2016

Entre samambaias e bromélias

Choveu durante a noite e quando levanto às 5 horas dum sabadão nublado, a garoa fina ainda está caindo. Deixamos às 7:30 o acampamento Neblina nos embrenhando num matagal, constituído por expressiva quantidade de samambaias. Nunca tinha visto coisa igual. E, coisa boa, as subidas não são muito puxadas. Hoje sou eu que afundo no barro. Tanta a sucção que quase não consigo resgatar a perna daquele sorvedouro de areia movediça, valha-me deus! De repente o matagal de samambaias acaba num lajedo livre de vegetação onde há, pasmem, uma estação meteorológica com uma puta antena! Ainda bem que não é de telefonia celular, valha-me deus outra vez! Após breve descanso, a pegada é encarar o interior dum bosque escuro, atravancado de troncos e galhos de árvores caídos, cujo terreno irregularíssimo alterna baixadas e subidas. Por duas vezes, torço o tornozelo e sinto que não foi pouca coisa, não. Tudo muito úmido, tornando o solo em certos trechos uma meleca pantanosa. Após 2 horas e meia de pernada naquele matagal soturno, fazemos outra parada, dessa feita mais longa, noutro lajedo. Bernard, o fisioterapeuta, coloca kinesio tape num dos ombros da francesa. Também pudera, carregar cargueira há 6 dias não é pra qualquer uma! A picada, lá pelas tantas, melhora, tornando-se mais aberta, ladeada por um capinzal que lembra talos de cana de açúcar. Num jogo de esconde-esconde, o sol tenta se impor mas é vencido pelo humor cinzento do céu que se instala de vez quando, às 13 horas, chegamos ao acampamento Kerepa. Situado às margens do rio de mesmo nome, suas águas escuras não possuem atrativo algum. Devido à estiagem do verão, visíveis as porções de lajes que formam seu leito. Pior acampamento de todos. Ouso dizer: até me deprimiu um tantinho. Não sei se por causa do tempo nublado, se pela nada atrativa mata ao redor, ou se devido ao solo irregular e sulcado por raízes à flor da terra onde as barracas foram instaladas. Sempre cuidadosa em relação às serpentes, cada vez que necessito urinar ou defecar trato de fazê-los bem rapidinho. Morro de medo de que alguma cobra queira me picar nas partes pudendas. O outro terror são os escorpiões. Há uma espécie no Auyan que ataca o sistema nervoso, matando em pouquíssimas horas. Nem adianta acionar o telefone satelital porque, até que mobilizem helicóptero, o vivente terá passado desta pra melhor (será?). Assim, cuido em por os únicos calçados que trouxe, o par de botas e a sandália Kroc, bem abrigados sem-pre num saco no interior da barraca. E pela manhã dou um vistaço neles. Eu hein?!! Entediada porque não há muito o que explorar neste bosque onde estamos, cujo terreno truncado impede maiores deslocamentos, quedo-me quase todo o tempo resguardada na barraca, exceto quando vou tomar um banhito no rio e depois quando saio pra jantar. No mais é “caminha” e a absorvente leitura do Americano Tranqüilo, escrita por Graham Greene, sobre a love story entre uma vietnamita, um inglês e um norte-americano, ambientada num Vietnã, prestes a ceder o domínio até então exercido pela França ao USA. 
Hoje está terminando a primeira etapa de nossa aventura....que peninha, pois foram ma-ra-vi-lho-sos todos os dias que caminhei nesse estupendo e surpreendente tepui. A partir de amanhã, só descenso usando as benditas cordinhas que nos ajudarão a baixar do tepui até o refúgio de Isla Ratón, situado na margem esquerda do rio Churun....nem acredito....que maravilha! Embora o trajeto seja duro,  curta é a distância entre este acampamento e o do Santo Angel, motivo por que não nos apressamos a abandonar Kerepa. Por isso,  somente às 8:15 iniciamos a caminhada até o acampamento Salto Angel. A trilha percorre o mesmo tipo de bosque cerrado, escuro e úmido que percorremos ontem, cheio de subidas e descidas, com poças lamacentas que nos obrigam a altas acrobacias a fim de evitá-las. Louquíssimo o trecho da selva onde espessos musgos de coloração ferruginosa recobrem por inteiro troncos e galhos de árvores. O caminho é pontilhado por bromélias ao contrário de ontem onde o predomínio foi das samambaias. O tempo insiste em permanecer nublado, embora às vezes o sol consiga furar o bloqueio das nuvens. De repente não mais que de repente, nos livramos do matagal pra adentrar num campo aberto coberto de gramíneas, vencendo sem esforço uma curta ladeira cujo término é na zona lajeada, circundada por arbustos,  às margens do rio Kerepa, conhecida como acampamento Salto Angel, onde nos aquerenciaremos esta noite. A caminhada durou exatas 2 horas! A mais rápida de todos os 7 dias de trek!! Completamente diferente do local onde pernoitamos ontem, este é uma grata surpresa. O rio Kerepa, só hoje fico sabendo, é quem nutre o Salto Angel, cujas águas desbordam do paredão oeste do Canyon Del Diablo. Portanto, não há do que se queixar em termos de visual já que estamos acampados num lugar ultra privilegiado. Uma pena que a essa hora da manhã, 11 horas, a cerração mal permite que avistemos a parede leste do canyon, contrária àquela por onde despenca o Salto Angel. Um alerta: quando chove muito, o terreno rochoso adjacente às margens do rio fica inundado, motivo pelo qual é aconselhável fazer trek aqui no período que vai de dezembro a abril. À tarde, vou com Antonio e seu sobrinho Wilson até o mirador, de onde se tem uma baita visão da monumental garganta,  do Salto Angel e do rio Churun. A famosa cachu, porque é verão, exibe mirrado jorro e não aquele colossal pé d’água que tanta atração exerce em qualquer vivente do planeta. No paredão oposto, mal se entrevê outra linda cachoeira, de sugestivo nome Cortina. No fundão do canyon, devido à estiagem, o escasso volume de água do Churun permite que sejam visualizados largos trechos empedrados de seu leito. Antonio faz questão de tirar uma foto comigo na borda do penhasco. Abraçados, assim posamos pra posteridade. Fico sabendo por ele que dos 18 porteadores, inicialmente, contratados só restam 5. Isso porque, ao longo do trek, os carregadores vão sendo dispensados à medida que os mantimentos vão sendo consumidos. Desse modo quando chegamos ao acampamento Dragon, 6 retornaram às suas aldeias e agora mais 7 foram daqui enviados de volta. Sobraram, portanto, ele, seu sobrinho e mais outros três que retornarão com barracas e outros utensílios prescindíveis de serem usados nos 3 últimos dias que restam pra acabar a aventura. Fred à tardinha revisa o equipamento de todos: cadeirinhas, mosquetões, freios, capacetes e luvas. À tardinha, nos acomodamos ao redor da fogueira, providencialmente, acesa pelos porteadores, já que um arzinho gelado sopra no topo deste tepui. Terminada a janta, os belgas e franceses permanecem mais um pouco ao lado da lona que serve de improvisada cozinha, trocando idéias, provavelmente, sobre a excitante aventura que nos aguarda amanhã. Os índios, como sempre, já se encontram recolhidos às suas redes, instaladas nos matinhos circundantes. Às 20 horas, reina o maior silêncio no acampamento. Das tendas, não se escuta um pio. Até os tagarelas europeus estão conscientes da necessidade de se concentrarem pra dormir bem, eis que amanhã temos de levantar às 4 horas pra enfrentar o 1º dia de rapelagem na parede de 1000 metros....baaah, que frio na barriga!
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