terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Desafio em dose dupla!!

Nem foi preciso o Fred me chamar porque antes das 4 eu já estava de olhos bem abertos, me arrumando pro grande dia. De posse de minha mochilinha de ataque vou até a cozinha onde o desaiuno está sendo servido. O apetite é zero porque quando estou neste estado de espírito, misto de nervosismo, ansiedade e excitação, perco totalmente a vontade de comer.  Em assim sendo, tenho de fazer um esforço na tentativa de engolir alguma coisa. Em silêncio, deixamos o acampamento Salto Angel às 6 horas debaixo de cerração, numa curta caminhada rumo ao ponto da parede, distante 100 metros à direita, donde está a fenomenal cachoeira. Às 6 e 30 estamos já realizando a descida de aproximação até a borda do paredão. Não contrariando o costume em semelhantes situações, sinto dor de barriga. Putz, sacal demais tirar a cadeirinha pra poder me aliviar e depois ter de novamente acinturá-la. Mas enfim, impossível conter os ímpetos intestinais. Fred percebendo meu nervosismo, enquanto verifica se o baudrier está corretamente atarraxado, aconselha “nerviosismo es aceptable, Beatriz, panico, no te olvides, mata!” O providencial conselho mexe comigo de forma positiva, tornando-me mais tranquila, ou melhor, menos medrosa, hehe. Inauguro o primeiro rapel do dia, descendo 40 metros de parede entremeados de trechos positivo e negativo. Durante o descenso a névoa dá uma breve dissipada e eu visualizo por instantes o rio Churun lá embaixo no fundão do canyon. Até pinta um friozinho no estômago mas controlo legal o medo. A reunião, na plataforma, acomoda bem todos nós, clientes mais Ricardo, responsável pela segurança. À medida que vamos descendo, Ric avisa Fred, posicionado na plataforma superior, que a corda liberou. Assim, Fred faz descer o seguinte. Os 3 guias se comunicam por rádio já que, na maior parte dos rapeis, cada um está posicionado em diferentes níveis na parede, executando distintas funções, afastados entre si por dezenas de metros. Por exemplo, pode Fred ficar em cima afixando a ponta da corda no freio ATC de cada cliente, enquanto Mario, na plataforma imediatamente inferior, segura as pontas durante o descenso de cada um. Já Ricardo, na plataforma subsequente, prepara a ancoragem do próximo rapel. Tudo coordenadésimo, tentando ganhar tempo e agilizar procedimentos num grupo de 12 pessoas. Fico sabendo numa das esperas (necessária muiiitaaaa paciência até que todos baixem, pois dependendo da altura do trecho rapelado, a espera dura de 40 minutos a 1 hora e meia) que eles, certa feita, já operaram com até 19 pessoas!! O rapel seguinte, de apenas 30 metros, também, apresenta lances positivo e negativo. Mario muito relax enquanto espera o pessoal descer senta-se na sua minicadeirinha...que tipo! A plataforma do 2º rapel não é tão larga e confortável quanto a 1ª, motivo pelo qual aqui ficamos meio apertados. Otimista, contabilizo, mentalmente: bueno, se dos 500 metros que temos de parede hoje, já rapelamos 70, agora só restam 430! Putzgrila, como esses belgas são irritantes: não param nunca de falar; aos gritos incentivam uns aos outros enquanto rapelam!! Parecem um bando exaltado de adolescentes. Oxalá, se houver abelhas, elas não se irritem com o griteiro e não nos ataquem. Era só o que faltava, valha-me deus!! Às 9 e 30 a cerração continua impiedosa obstruindo a visão do canyon. Os 3º e 4º rapeis medem respectivamente 40 e 80 metros e confesso que foi cansativo descer este último já que em razão de sua altura é utilizada corda dupla. Paro umas três vezes pra descansar meu dolorido braço direito durante o descenso e aproveito pra dar uma rápida olhada ao redor. Consigo, inclusive, vencer a aversão à altura e curto um pouco o espetacular cenário. Supertrimega emocionante estar pendurada a 800 metros de altura!!! Fred escolhe o estreito e comprido platô, situado entre o 4º e 5º rapel, como lugar de nosso almoço. Às 11 e 45, estamos comendo wraps recheados com verduras. Minha adrenalina continua a mil, tanto que nem dou conta de toda a refeição, guardando o restante na mochila. Virá a calhar quando estiver menos agitada, confidencio pros meus botões. Igualmente estafante o 5º rapel porquanto novamente é usada a pesada corda dupla, considerando que o lance envolve outra baixada de 80 metros. Em compensação, a névoa dissipa-se de vez, permitindo que se desfrute da esplêndida visão das adjacências à parede oeste onde estou pendurada bem como duma boa porção do canyon. Pra se chegar ao local onde inicia o 6º rapel, Ricardo ordena que nos becapeemos ao improvisado corrimão feito com corda antes de percorrermos os 20 metros do estreito platô, limitado à esquerda pelo despenhadeiro de quase 700 metros de altura. Quem pode garantir que aquele terreno aparentemente sólido não desabe sem mais aquela, não é mesmo?!! Afinal estamos a centenas de metros distantes de terra firme. Embora seja o pior de todos, com 90 metros de exaustiva descida, sou recompensada quando, num lance negativo, a corda me faz girar 180º, permitindo que eu dê as costas à parede e tenha aos meus pés o cenário sensacional do canyon del Diablo e do rio Churun. E ao tocar no platô, rodeado por deliciosa matinha, nova recompensa: passarinhos cantando, pasmem, como bem observou Mario, em estereofônica melodia! Embora o 7º rapel conte com modestos 35 metros, são tantos os arbustos que brotam da parede que a corda enreda 2 vezes nos galhos, embaraçando o descenso. Como alguns ainda não terminaram de rapelar o penúltimo lance do dia, enquanto aguardo, sentada quase à borda do platô, curto Salto Angel, perfeitamente visível deste ponto da parede. O 8º rapel, com 80 metros, desenrola-se numa fenda entre rochas, exibindo, igualmente, muitos arbustos grandotes já que deixamos a, até então, quase desnuda parede para adentrarmos zona coberta com densa vegetação. Às 16 e 20 sou a primeira a chegar ao acampamento Cueva, um platô largo forrado por areia rosada, fronteiriço ao Salto Angel, coisa de 50 metros!  Uma pequena reentrância entre rochas forma uma pequena cova, daí a razão do nome do acampamento. O lugar onde escolho dormir tem uma baita saliência de rocha formando um teto larguíssimo cujo pé direito deve ter uns 15 metros. Muito tri vai ser dormir aqui, bivaqueada, tendo apenas saco de dormir e isolante uhuuu!! Deitada, aprecio o sol iluminar a parede leste acentuando a rósea coloração de sua rocha. Nuvens lançam manchas escuras sobre a floresta que recobre a metade final daquele paredão. E do Salto Angel a visão é soberba aqui do acampamento, inobstante a pouca quantidade de água dê a impressão de que está se evaporando no ar durante a queda. Incrível como meus sentimentos evoluíram desde que entrei na parede: da aflitiva sensação de medo dos primeiros rapeis acompanhado do indefectível questionamento “o que tô fazendo aqui, a la putcha?!” até a tão desejada atitude de relaxamento que permitiu enfim que eu desfrutasse da soberba paisagem que de outra maneira não teria conhecido!


Na terça-feira, acordo às 5:30 e tanta a cerração que mal dá pra entrever o Salto Angel. Pensei que não iria conseguir dormir haja vista as precárias condições de nossas “habitações”, afinal bivaquear requer a tal palavra tão em voga: resiliência. Qual o quê, dormi legal salvo algumas vezes quando acordei para virar de lado e acomodar melhor o travesseiro na pedra. Hoje completaremos os rapeis que ainda faltam  para sair da parede. Temos pela frente outros 500 metros de baixada. Como o platô não é lá muito grande, tampouco confortável pra acomodar 12 pessoas, sobrou pra Mario dormir, literalmente, sobre pedras.  Ele nem se abalou, acomodou o colchonete atrás dos nossos e ali passou a noite. Imagino deva ter sido bem desagradável sua noite, pobrecito del muchacho! Mas são ossos do ofício de guia. Saímos às 7 horas e descemos, caminhando, uma piramba super íngreme no mato cerrado. Como somos muitos, demorada se faz a pernada. Quase 9 horas e ainda tem dois a minha frente pro 1º rapel do dia. Esperar tanto assim tira muita energia e dá um soooono. Finalmente chega minha vez depois de quase uma hora aguardando. Mario prende a corda dupla no freio atc e eu desço 60 metros em meio ao matagal. Fred, no platô abaixo, nos prende à corda, dessa feita, simples, para mais 40 metros de pura alegria: são degraus de rocha no meio do mato. Cada vez mais perto do leito do rio Churun, já consigo até escutar seu rumorejar. Às 11 e 30 faço o 3º rapel de 45 metros, constituído por várias plataformas rochosas, desenrolando a corda lentamente (pra curtir, pra curtir) dentro do verdejante bosque que cresce na encosta do paredão. Mundo paralelo este, provavelmente, povoado por fadas, duendes e gnomos, invisíveis aos nossos olhos hipossensitivos. Vez por outra rajadas de vento. Trinados de pássaros e chão atapetado de folhas. A única coisa que estraga tanta perfeição é o barulho nada a ver das avionetas com turistas sobrevoando o canyon. Mas enfim cada qual, cada um. Assim, eles lá, eu aqui, hehe!! A plataforma entre o 3º e 4º rapel embora estreita é confortável o suficiente permitindo que nos sentemos comodamente, porém becapeados...por segurança. O 4º rapel, ridiculamente curto (8 metros), até daria pra fazer sem corda. Daqui dá pra ver bem a bifurcação existente no canyon del Diablo cavada pelo Churun e por outro rio que guia algum soube dizer o nome, talvez até porque nem tenha. O 5º rapel com 30 metros tem em seu início um trecho que exige certa habilidade porém o restante do descenso é facinho. Não tinha ideia de que a aparente verticalidade da parede (se vista de fora), especificamente nestes seus 500 metros finais,  comportasse tantas plataformas, algumas com capacidade de acomodar 20 e tantos viventes, bem como trechos onde se pode caminhar sem necessidade de rapel. O 6º rapel por causa de troncos de árvores que crescem na beira do platô, também requer cuidado no manuseio da corda. A mata se faz cada vez mais cerrada e bela. Os 35 metros do 7º e último rapel  novamente é dificultado pelas árvores que crescem como erva daninha na parede, findando, assim, o que era doce, quem desceu arregalou-se!! Daqui pra frente, apenas caminhada numa baixada hiper íngreme e resvaladiça até Isla Ratón onde pernoitaremos. Em alguns trechos, sento e pratico o eskibunda, esporte em que sou perita, hehe. Ainda bem que a descida foi curta (todos estamos bem cansados), sucedida por um trajeto relativamente plano, cujo único entrave são raízes e pedras. Chegamos ao mirador do Salto Angel onde paramos para fotografá-lo. O lugar é lindo, um largo anfiteatro escavado pelas águas da famosa cachoeira que, ainda tem força para, em sua parte final, formar uma sucessão de pequenas cascatas ladeadas pela verdejante floresta. Chegamos a um refúgio em Isla Ratón (há outros mais) às 18 horas. Construído à margem esquerda do rio Churun, a rústica habitação, com teto de zinco, sem paredes, conta apenas com a proteção dum baixo muro de pedras no seu entorno. Contudo, cozinha e banheiros são fechados. Na ampla peça, mais duma dezena de redes servem como cama. E luxo supremo: energia elétrica fornecida por gerador, super barulhento, felizmente, desligado, às 22 horas!! Resolvo tomar um banho rápido no rio Churun onde sou atacada por uma horda de famigerados mosquitos. Suas mordidas além de deixarem meu corpo empolado coçaram durante vários dias. Estou faminta, afinal, a única refeição comida durante o dia todo foi sucrilhos - acho insuportável esse "cereal" - com leite no café da manhã, afora a rapadura de amendoim gentilmente oferecida por Mario durante a espera num dos rapeis. Assim, nem mastigo direito os bens temperados franguinhos assados na brasa, acompanhados de arroz e salada de batatas, servidos na janta. De buchinho cheio, deito na rede embalada pelo tóin tóin das gotas de chuva tamborilando no zinco do teto. Ai meu deus que coisa boa, coisa boa meu deus, descer do céu pra entrar no paraíso!!

2 comentários:

Jucilene Pereira disse...

Orgulho master desta senhorinha!

Miriam Chaudon disse...

Que ma-ra-vi-lha!