domingo, 7 de fevereiro de 2016

Curtindo Uruyen, aldeia indígena pemone

Mucha moneda, poca plata, assim é a moeda venezuelana, o bolívar. Ao câmbio oficial 1 dólar vale em torno de 230 bsf. Porém no câmbio paralelo pagam 550 bsf por una doleta. É um horror transacionar com esta moeda. Só são emitidas cédulas de 50 e 100 bsf. Tanto que o papel-moeda vale mais que seu próprio valor nominal. Não há cédulas velhas, são todas bem novinhas, porque o governo está sempre emitindo mais e mais grana. Dessa forma, um bolo de dinheiro com uma altura de 5 cm compra apenas uma dose de rum! Tem de se andar com uma sacola grande pra acomodar a dinheirama que pouco vale diante da odiosa inflação. A política cambial venezuelana (leia-se chavista) é absolutamente perversa, tanto que sou advertida para evitar compras com cartão de crédito. Isso porque, aqui, ocorre a proeza bíblica da multiplicação dos pães: por exemplo, uma compra de 1.600 bolivares (equivalente a 3 dólares) feita no cartão de crédito, resulta num valor próximo aos 130 dólares a ser debitado na tua fatura mensal! E, nas duties free da área internacional do aeroporto de Caracas, dólares não são aceitos, apenas bolivares, alcunhados pelo falecido Chaves de "fuertes"....seria cômico se não fosse trágico! Bueno, essas recomendações são feitas por Henry, no sábado, durante o almoço num restaurante especializado em arepa, tradicional prato regional. A comida consiste num pão de milho, recheado com vários tipos de carnes, legumes e queijos. Escolho uma arepa com carne mechada (carne desfiada com molho picante), abacate e queijo branco. Às 15 já estamos na ala nacional do aeroporto embora o voo saia somente às 19 horas. A cautelosa antecipação é pra evitar a prática do overbooking, feita na cara dura pelas companhias aéreas. Aguardam-se 4 horas num aeroporto bem xinfrim (se fosse bacana até compensaria a longa espera) para voar 1 hora até Puerto Ordaz onde pernoitamos. Cedinho, 7:30, já estamos no busão em direção a Ciudad Bolivar onde pegamos 3 avionetas do tempo de Saint Exupery. Aqui já começa a aventura! Na nossa, há 6 assentos. O piloto, Carlos, maneja com perícia o balouçante veículo. As turbulências, quando as há, são leves. O céu alterna corredores nublados com espaços abertos donde vejo enquanto nos afastamos de Bolívar as casas diminuindo de tamanho e o rio Orinoco passando ao largo desfilando suas águas amarronzadas. Voando a >uns 1.000 metro de altura, dá pra distinguir bem a paisagem. Relevo, inicialmente, plano, monótono, com vegetação predominantemente arbustiva. Impactante a desfiguração provocada pela construção da gigantesca usina hidroelétrica de Guri, no limiar da floresta amazônica. Após 50 minutos de voo, a espessa vegetação da floresta amazônica começa a dar pinta. Aqui e ali, pontos amarelos e rosados quebram o predomínio do verde. Ao passar pelo rio Carrao, a devastação causada pela mineração é desoladora. De repente, na paisagem plana, os tepuis começam a aflorar, espocando tal pipoca no solo. Majestoso é pouco pra descrever a belezura desse tipo de elevação, em forma de meseta, com paredes verticais, cuja altura varia de 2 mil a 2.900 metros. Paramos na aldeia Kamarata para deixar 2 caixas de papelão com comida (o cheiro é muiiitoooo bommm). O piloto desce e as entrega a um índio que, juntamente, com sua mulher, estão esperando a encomenda sentados em sua motocicleta. Quando aterrissamos, em Uruyen, até eu bato palmas!! Que deu um pouco de medo de voar na tal avioneta, ah, isso deu! Uruyen é uma das tantas aldeias indígenas pemones, localizadas no setor ocidental do Parque Nacional Canaima. O lugar conta com 8 ou 9 casas de adobe em formato de oca, feitas pela comunidade cujos tetos de palha exibem elaborados trançados. A paisagem que se desfruta de qualquer lugar onde se esteja é a da magnífica face sudeste do Auyantepui e de suas encostas revestidas de vegetação. Com altas muralhas formando recortes variados, sua superfície alcança 700 km², motivo por que é de longe o maior de todos tepuis existente no globo terrestre. Daqui da aldeia, já dá pra perceber a maravilha que vai ser essa pernada. Atrás de nossa casinha, corre o rio Yurwan de águas cristalinas. Esta região onde estamos chama-se vale Kamarata, rodeado por dezenas de outros tepuis além do Auyan. A Venezuela detém a maioria dos tepuis do planeta:  115!  A maioria localiza-se aqui no Parque Nacional Canaima. O restante – 140 - estão distribuídos pela Colombia, Brasil, Africa e Australia. O mais alto tepui do planeta é o Roraima onde já estive há um par de anos. No almoço, preparado pela pemone Dulce, é servido arroz, peixe e salada. E um tempero muito apreciado pelos pemones, o kumate. O molho é obtido mediante um complexo processo em que se misturam aji e yuka. Dependendo da tribo, são acrescentados, cupins, formigas ou peixes. Pura proteína, tá ligado? Eu adorei o ardido tempero. Os pemones que habitam o vale Kamarata pertencem à tribo Kamarakoto. Na dinâmica política dos pemones, o líder máximo é chamado capitão-general (?!!), já nas comunidades, o manda-chuva tem a patente de capitão (por tupã,  não entendi e também não conseguiram me explicar o motivo de os índios terem adotado a hierarquia militar dos brancos). Conversando com um dos pemones, comento sobre os efeitos deletérios causados pela mineração. Ele conta que tal atividade econômica foi estatizada, porquanto eles próprios se indignaram com o impactante sistema de extração do ouro usando máquinas e mercúrio. Exigiram do governo a proibição desse tipo de garimpagem. Atualmente, os indígenas continuam a exploração aurífera mas no sistema antigo de bateia  que não polui o ambiente. Um breve descanso após almoço (meu descanso foi arrumar e desarrumar minhas tralhas num frenesi compulsivo que nem 20 anos de terapia têm conseguido resolver) e tocamos rumo ao canyon do rio Yurwan. Calor na medida certa, céu pintalgado de nuvens fofas, tipo flocos de algodão, usufruo da visão desbundante do poderoso Auyantepui durante toda a pernada. O paredão cheio de pontas irregulares em seu topo lembra uma muralha, sobressaindo entre a compacidade rochosa algo semelhante a um gigantesco portão, como aqueles dos castelos medievais. À esquerda, outra escultura nas rochas remete às torres de vigia. Resguardado está o pétreo feudo! Depois de atravessar um trecho de savana, penetra-se numa mata que tem como limite a superfície lindamente amarelada do rio Yurwan. Não há como resistir a um tchibum nas águas frescas onde, infelizmente, a pulseira de prata que enfeita meu pulso direito é reivindicada por alguma entidade.....será? Se for Yara, que faça bom proveito....arghhh!! Atravessamos o rio e continuamos a caminhar ao longo do verdejante bosque até um brete de tirar o fôlega cujas paredes bem próximas uma da outra tornam o local escuro como aquelas antigas igrejas católicas (lembrei demais da garganta Kaigangue, localizada em Praia Grande/SC). O brete desemboca num lago circundado por paredes rochosas de 20 metros de altura donde despenca uma cachu cujo jorro d’água retumba no anfiteatro de pedra. Fico desbundada, nunca tinha visto algo igual. A pernada de retorno se dá quase ao entardecer, motivo por que apuro o passo já que não trago lanterna na mochila. Vou pro meu quarto assim que termina a janta, dessa feita, preparada pelos guias. Não demora muito chegam os dois belgas com quem divido o quarto. São tranqüilos e custo um pouco a dormir porque minha cama sem mosquiteiro não me protege das baratas que insistem em dar rasantes sobre meu rosto. Não resta outra alternativa, a não ser sair a cata dum filó pra me proteger das cucarachas.....hehe. 

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