segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Auyantepui e suas plataformas

Dessa vez, não farei trek solita, como de costume, mas acompanhada por 8 europeus: 5 belgas, 2 franceses e um espanhol. Contrariando a regra de seres frios e mal humorados, (por acharem que a civilização européia é superior?!! Será?!), os membros da expedição, exceto a francesa (infelizmente, a moça faz por merecer o estereótipo), são prestativos e bem humorados. Os belgas e franceses são amigos e costumam viajar juntos, alguns inclusive pedalando mundo afora. Sobraram de avulsos, eu e o espanhol. Feliz estou porque há alguém falando idioma que entendo bem. Quando se apresentou fez questão de frisar “yo soy catalán”......hummmm, já vi esse filme com os bascos quando fiz o trek na cordilheira Huayhuash no Peru. Bueno, afora nós, os clientes, há 3 guias e 18 porteadores pemones que transportam bagagens e equipamentos, acondicionados em cestas de vime e palha, chamadas guayares (para os ianomâmis brasileiros é jamachi). O guia-chefe é o infatigável Fred Espinoza, cujos dotes culinários foram muito elogiados por Henry. Vamos ver se ele faz realmente jus ao elogio. Os outros dois guias, Mario Osorio e Ricardo Navas, ficam na maior parte do tempo contemplando Fred cozinhar, limitando-se a picar algum alimento ou ralar queijo. Ao contrário do grupo, contratei um personal porter, Antonio, porque não tenho condições de carregar mochila cargueira nos costados. Quando saímos da aldeia Uruyen, às 9:20, neste 1º dia de trek, o tempo permanece nublado embora a névoa que escondia o Auyantepui tenha se dissipado. Ainda bem que o leve chuvisco, quando levantei às 7, não se manteve. Trilhamos um sendero bem demarcado na savana cujo destaque em matéria de vegetação é a Bulbostyle Paradoxa, com florescência similar à da sempre-viva. Resistente ao fogo lembra em muito nosso candombá. Ao cruzarmos o rio Ocoiñe, paramos para um mergulho refrescante pois o sol conseguiu se livrar da tela de nuvens, elevando exageradamente a sensação térmica. Uma pena que o rio, devido a pouca chuva na região, esteja tão raso. Aproveito e encho a garrafa de 600 ml e a água se mostra cristalina tal qual água mineral. Deixamos para trás a planura das pastagens verde-amareladas da savana, iniciando então a ascensão. Circundando a face sul do Auyan há 3 extensos platôs rochosos, formando como que gigantescos degraus que antecedem o topo do tepui. Hoje subiremos, contudo, somente até a 1ª plataforma. Percorremos uma mata relativamente cerrada pra desembocar no espaço aberto do cobiçado platô, após a árdua subida de 3 km que durou 2 horas, penando no calor escaldante do verão venezuelano!! A recompensa é a encantadora visão dum mundo de pedras cobertas por musgos e líquenes, arbustos e flores, sombra e água fresca. Almoçamos no alto da plataforma tendo aos nossos pés o vale de Kamarata delimitado pelo cada vez mais onipresente Auyantepui. Fred prepara sandus com kani kama, queijo e abobrinha regados a suco. Descansamos brevemente terminada a refeição e, quando reiniciamos a caminhar, São Pedro nos presenteia com um céu nublado....coisa boa!! Muitas flores ao longo do caminho: begônias, brincos de princesa, caliandras, entre outras cujos nomes  desconheço. Grande extensão da parede do tepui exibe-se esbranquiçada devido à ação dos líquenes. O caminho agora se torna moleza: uma suave descida sucedida por um trecho plano até o acampamento. Na trilha, a areia branquinha e as dezenas de arbustos queimados por combustão natural, faz-me recordar demais do cerrado da Chapada dos Veadeiros. Considerando que Uruyen está a 497 msnm e o acampamento Guayaraca a 1.011 até que o desnível não foi dos maiores já enfrentados. O Garmin registra 10 km vencidos em 5 horas e 30 minutos quando, por volta das 15:30, chegamos ao acampamento. Mais uma vez, o céu volta a desanuviar. No local do acampamento há um singelo galpão aberto, onde alguns índios amarram suas coloridas redes nas pilastras que sustentam o teto de palha. Já outros preferem o recato da mata, pendurando suas hamacas aos troncos de árvores. Cumprida a tarefa da montagem das barracas, os porteadores deitam-se nas redes e só se levantam no dia seguinte quando então lavam a louça da janta e do café da manhã. São totalmente relax! Feitos os necessários exercícios de alongamento, vou ao rio, que corre a 100 metros donde estamos acampados, e tomo um banho na água agradavelmente fresca. Pronto, eis restaurada a energia perdida. Beleza pura este recanto do planeta! Às 17:30 com a escuridão já quase instalada, tem início o show das luzinhas emitidas pelos pirilampos. No céu, novamente encoberto, vez por outra, as nuvens se dissipam e permitem que se admirem trechos crivados de estrelas. A janta gourmet está dos deuses: sopa de legumes (cenoura e mandioca), costeletas de porco ao molho shoyo com mostarda, purê e bananas fritas. De fato,  Fred é um cozinheiro de mão cheia! Às 19 horas, graças a deus, o silêncio se instala no acampamento, já que belgas e franceses, recolhidos às suas barracas, param, enfim, de conversar. Eu nunca vi gente tão tagarela, por deus!! Detalhe: dos 8, 7 são homens! Causa espécie que queiram ver animais na trilha não sabendo manter silêncio. Tá na cara que nunca os verão, porque os bichos, apavorados com o incessante falatório, devem estar cuidando de se proteger de tal escarcéu, se escondendo mata adentro, hehehe. Entretanto, as  risadinhas e o conversê, em tom baixo, dos porteadores naquela algaravia estranha, que é seu idioma, me delicia. Portanto, só me resta dizer por hoje au revoir!

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