Pretendo com este blog descrever viagens que fiz e farei por este tão lindo planeta, resgatando da memória as impressões armazenadas, algumas já esmaecidas pelo tempo, outras prudentemente registradas pelo olho mágico das lembranças fotográficas.
Acordo às 4 e 30, após um sono irrequieto, não por estar deitada em rede, mas pelo retorno à civilização. Não que eu despreze os confortos urbanos porém sempre sinto um banzo antecipado quando a aventura está prestes a findar. Bom demais se desligar da pressa e ansiedade que as obrigações cotidianas nos impõem. Somente preocupada com cobras e escorpiões, colocar repelente contra os famigerados mosquitos e atenta às raízes do terreno: isso é tudo o que ocupa minha cabeça. O desajuno são ovos mexidos com tomate e arepa mais suco de laranja. São 6 horas e as curiaras, canoas motorizadas, esperam-nos à beira do rio. Acho que o desassossego com a navegação no rio Churun, devido ao pouco volume de água em seu leito, amenizou porque choveu forte a noite toda. Este rio é um dos que descem do Auyantepui. Deixamos Isla Ratón, e iniciamos a navegação às 6 e 20. Várias vezes os homens descem do barco porque ele encalha em trechos rasos do rio entre as pedras que cobrem seu leito. Quando entramos no rio Carrau a navegação melhora e deixamos o canyon del Diablo passando a navegar pelo canyon Ahonda, a segunda garganta do Auyantepui, a oeste da del Diablo. Boa parte da navegação se dá contornando o grandioso tepui! Por 3 vezes descemos e caminhamos em trilhas que bordejam o rio devido às corredeiras, com uma parada numa praia de areias bem branquinhas à beira do rio Carrau. À medida que vamos descendo o rio Carrau, o Auyantepui vai se distanciando, mostrando sua grandeza até então só entrevista parcialmente. No final da manhã, chegamos a Canaima, balneário famoso à margem do lago de igual nome cujas águas tépidas exibem cor de caramelo. Pequena vila com várias pousadas onde podem ser admirados os saltos Ukaima, Gwadayma e Hacha guarnecidos ao fundo pelos tepuis, Kusari, Kurun e Kurawaina. Bem mexida a situação política aqui na Venezuela já que a maioria do povo quer retirar Maduro do poder pela via legítima do referendo, mas pra tanto precisa esperar que o cara complete metade do mandato. A situação está tão grave, especialmente em Caracas, que as cozinhas das casas são chaveadas porque os ladrões, ao invés de roubar dinheiro ou eletrônicos, roubam comida!! Vou à noite no barzinho, situado a pouco mais de 30 metros dapousada. Luzes vermelhas, verdes e azuis com DJ tocando música eletrônica e caribenha. Peço rum com gelo e me deito na areia à beira da água curtindo a lua já bem crescida no céu estrelado. O ar é morno e uma aragem gostosa faz farfalhar as folhas das palmeiras. Tudo de bom salvo a música, alta demais. Na quinta, passo a manhã lavando algumas roupas e ajeitando a mala. Não quero caminhar muito porque meu pé direito está ligeiramente machucado de tanto virá-lo durante os 7 dias de trekking. O dia lindo, quente. A pousada Morichal é legal com refeitório aberto e teto coberto de folhas trançadas de palmeira. Uma rede super disputada entre mim e Henry diante duma TV eternamente ligada. A comida é muito boa, caseira mas super bem temperada. Ilse, irmã da proprietária, Iné, é uma fofa. Atende na recepção e bar, sempre antenada nos noticiários políticos. O ruído das avionetas é constante porque o aeroporto fica a 100 metros da pousada. Ora os aviõezinhos decolam rumo a Ciudad Bolívar, ora sobrevoam os canyons, ora aterrissam vindo de Caracas com mais turistas. À tarde vamos de barco até o salto Hacha. Desembarcamos na praia e caminhamos por um corredor rochoso que há por trás da queda donde se vê a espessa cortina branca formada pela água que despenca da cachu. Tomamos banho numa espécie de minicanyon formado por um córrego, tipo tobogã, que termina num laguinho. Após, vamos até o salto Gwadayma onde vários nativos jovens se jogam dum penhasco. Na beira da praia, as índias põem seus bebês na água e algumas após o banho dão o peito pra eles. De volta à pousada, a Assembléia Nacional venezuelana discute o grave problema hidroelétrico que aflige o país. Na sexta, enquanto espero a condução que nos levará ao aeroporto, curto pai e filha, ambos pemones. A menina, super educada, me conta que não foi à aula hoje porque não tem tênis. No pequeno aeroporto de Canaima, o motorista do melhor lodge, vestido de índio, faz a delícia dos turistas. O aeroporto é pequeno com barzinho e venda de artesanato indígena. Saímos de Canaima às 10:45 e chegamos em Ciudad Bolívar às 11 e 50. O voo está sendo mais tranquilo que o da ida. Mais uma hora de bus até Puerto Ordaz por uma rodovia com 2 pistas. Como aqui não há regras para condução de pessoas em motos é comum ver até 5 pessoas se espremendo no pequeno assento destinado a um passageiro apenas! E a entediante espera pra Caracas porque nosso avião só sai às 16 horas. Isso se não atrasar mas, aleluia, parte no horário. Quando chegamos a Caracas esperamos 40 minutos pelas bagagens, mais o traslado até o hotel que, devido ao horário do rush, consome quase uma hora de viagem. Amanhã embarco cedo pra casa encerrando este magnífico trekking a um dos lugares mais lindos do planeta!!
Nem foi preciso o Fred me chamar porque antes das 4
eu já estava de olhos bem abertos, me arrumando pro grande dia. De posse de
minha mochilinha de ataque vou até a cozinha onde o desaiuno está sendo
servido. O apetite é zero porque quando estou neste estado de espírito, misto
de nervosismo, ansiedade e excitação, perco totalmente o apetite Em assim sendo, tenho de fazer um esforço na
tentativa de engolir alguma coisa. Em silêncio, deixamos o acampamento Salto Angel
às 6 horas debaixo de cerração, numa curta caminhada rumo ao ponto da parede,
distante 100 metros à direita, donde está a fenomenal cachoeira. Às 6 e 30
estamos já realizando a descida de aproximação até a borda do paredão. Não
contrariando o costume em semelhantes situações, sinto dor de barriga. Putz,
sacal demais tirar a cadeirinha pra poder me aliviar e depois ter de novamente
acinturá-la. Mas enfim, impossível conter os ímpetos intestinais. Fred
percebendo meu nervosismo, enquanto verifica se o baudrier está corretamente
atarraxado, aconselha “nerviosismo es aceptable, Beatriz, panico, no te
olvides, mata!” O providencial conselho mexe comigo de forma positiva,
tornando-me mais tranquila, ou melhor, menos medrosa. Inauguro o primeiro
rapel do dia, descendo 40 metros de parede entremeados de trechos positivo e
negativo. Durante o descenso a névoa dá uma breve dissipada e eu visualizo por
instantes o rio Churun lá embaixo no fundão do canyon. Até pinta um friozinho
no estômago mas controlo legal o medo. A reunião, na plataforma, acomoda bem
todos nós, clientes mais Ricardo, responsável pela segurança. À medida que
vamos descendo, Ric avisa Fred, posicionado na plataforma superior, que a corda
liberou. Assim, Fred faz descer o seguinte. Os 3 guias se comunicam por rádio
já que, na maior parte dos rapeis, cada um está posicionado em diferentes
níveis na parede, executando distintas funções, afastados entre si por dezenas
de metros. Por exemplo, pode Fred ficar em cima afixando a ponta da corda no freio
ATC de cada cliente, enquanto Mario, na plataforma imediatamente inferior,
segura as pontas durante o descenso de cada um. Já Ricardo, na plataforma
subsequente, prepara a ancoragem do próximo rapel. Tudo coordenadésimo,
tentando ganhar tempo e agilizar procedimentos num grupo de 12 pessoas. Fico
sabendo numa das esperas (necessária muiiitaaaa paciência até que todos baixem,
pois dependendo da altura do trecho rapelado, a espera dura de 40 minutos a 1
hora e meia) que eles, certa
feita, já operaram com até 19 pessoas!! O rapel seguinte, de apenas 30 metros,
também, apresenta lances positivo e negativo. Mario muito relax enquanto espera
o pessoal descer senta-se na sua minicadeirinha...que tipo! A plataforma do 2º
rapel não é tão larga e confortável quanto a 1ª, motivo pelo qual aqui ficamos
meio apertados. Otimista, contabilizo, mentalmente: bueno, se dos 500 metros
que temos de parede hoje, já rapelamos 70, agora só restam 430! Putzgrila, como
esses belgas são irritantes: não param nunca de falar; aos gritos incentivam
uns aos outros enquanto rapelam!! Parece um bando exaltado de adolescentes.
Oxalá, se houver abelhas, elas não se irritem com o griteiro e não nos ataquem.
Era só o que faltava, valha-me deus!! Às 9 e 30 a cerração continua impiedosa
obstruindo a visão do canyon. Os 3º e 4º rapeis medem respectivamente 40 e 80
metros e confesso que foi cansativo descer este último já que em razão de sua
altura é utilizada corda dupla. Paro umas três vezes pra descansar meu dolorido
braço direito durante o descenso e aproveito pra dar uma rápida olhada ao
redor. Consigo, inclusive, vencer a aversão à altura e curto um pouco o
espetacular cenário. Super emocionante estar pendurada a 800 metros de
altura!!! Fred escolhe o estreito e comprido platô, situado entre o 4º e 5º
rapel, como lugar de nosso almoço. Às 11 e 45, estamos comendo wraps recheados
com verduras. Minha adrenalina continua a mil, tanto que nem dou conta de toda
a refeição, guardando o restante na mochila. Virá a calhar quando estiver menos
agitada, confidencio pros meus botões. Igualmente estafante o 5º rapel
porquanto novamente é usada a pesada corda dupla, considerando que o lance
envolve outra baixada de 80 metros. Em compensação, a névoa dissipa-se de vez,
permitindo que se desfrute da esplêndida visão das adjacências à parede oeste
onde estou pendurada bem como duma boa porção do canyon. Pra se chegar ao local
onde inicia o 6º rapel, Ricardo ordena que nos becapeemos ao improvisado
corrimão feito com corda antes de percorrermos os 20 metros do estreito platô,
limitado à esquerda pelo despenhadeiro de quase 700 metros de altura. Quem pode
garantir que aquele terreno aparentemente sólido não desabe sem mais aquela,
não é mesmo?!! Afinal estamos a centenas de metros distantes de terra firme.
Embora seja o pior de todos, com 90 metros de exaustiva descida, sou
recompensada quando, num lance negativo, a corda me faz girar 180º, permitindo
que eu dê as costas à parede e tenha aos meus pés o cenário sensacional do
canyon del Diablo e do rio Churun. E ao tocar no platô, rodeado por deliciosa
matinha, nova recompensa: passarinhos cantando, pasmem, como bem observou
Mario, em estereofônica melodia! Embora o 7º rapel conte com modestos 35
metros, são tantos os arbustos que brotam da parede que a corda enreda 2 vezes
nos galhos, embaraçando o descenso. Como alguns ainda não terminaram de rapelar
o penúltimo lance do dia, enquanto aguardo, sentada quase à borda do platô,
curto Salto Angel, perfeitamente visível deste ponto da parede. O 8º rapel, com
80 metros, desenrola-se numa fenda entre rochas, exibindo, igualmente, muitos
arbustos grandotes já que deixamos a, até então, quase desnuda parede para
adentrarmos zona coberta com densa vegetação. Às 16 e 20 sou a primeira a
chegar ao acampamento Cueva, um platô largo forrado por areia rosada,
fronteiriço ao Salto Angel, coisa de 50 metros! Uma pequena reentrância
entre rochas forma uma pequena cova, daí a razão do nome do acampamento. O lugar onde
escolho dormir tem uma baita saliência de rocha formando um teto larguíssimo
cujo pé direito deve ter uns 15 metros. Muito tri vai ser dormir aqui,
bivaqueada, tendo apenas saco de dormir e isolante uhuuu!! Deitada, aprecio
o sol iluminar a parede leste acentuando a rósea coloração de sua rocha. Nuvens
lançam manchas escuras sobre a floresta que recobre a metade final daquele
paredão. E do Salto Angel a visão é soberba aqui do acampamento, inobstante a
pouca quantidade de água dar a impressão de que está se evaporando no ar durante
a queda. Incrível como meus sentimentos evoluíram desde que entrei na parede:
da aflitiva sensação de medo dos primeiros rapeis acompanhado do indefectível
questionamento “o que tô fazendo aqui, a la putcha?!” até a tão desejada
atitude de relaxamento que permitiu enfim que eu desfrutasse da soberba
paisagem que de outra maneira não teria conhecido!
Na terça-feira, acordo às 5:30 e tanta a cerração
que mal dá pra entrever o Salto Angel. Pensei que não iria conseguir dormir
haja vista as precárias condições de nossas “habitações”, afinal bivaquear
requer a tal palavra tão em voga: resiliência. Qual o quê, dormi legal salvo
algumas vezes quando acordei para virar de lado e acomodar melhor o travesseiro
na pedra. Hoje completaremos os rapeis que ainda faltam para sair da
parede. Temos pela frente outros 500 metros de baixada. Como o platô não é lá
muito grande, tampouco confortável pra acomodar 12 pessoas, sobrou
pra Mario dormir, literalmente, sobre pedras. Ele nem se abalou,
acomodou o colchonete atrás dos nossos e ali passou a noite. Imagino deva ter
sido bem desagradável sua noite, pobrecito del muchacho! Mas são ossos
do ofício de guia. Saímos às 7 horas e descemos, caminhando, uma piramba super
íngreme no mato cerrado. Como somos muitos, demorada se faz a pernada. Quase 9
horas e ainda tem dois a minha frente pro 1º rapel do dia. Esperar tanto assim
tira muita energia e dá um soooono. Finalmente chega minha vez depois de quase
uma hora aguardando. Mario prende a corda dupla no freio atc e eu desço 60
metros em meio ao matagal. Fred, no platô abaixo, nos prende à corda, dessa
feita, simples, para mais 40 metros de pura alegria: são degraus de rocha no
meio do mato. Cada vez mais perto do leito do rio Churun, já consigo até escutar
seu rumorejar. Às 11 e 30 faço o 3º rapel de 45 metros, constituído por
várias plataformas rochosas, desenrolando a corda lentamente (pra curtir, pra
curtir) dentro do verdejante bosque que cresce na encosta do
paredão. Mundo paralelo este, provavelmente, povoado por fadas, duendes e
gnomos, invisíveis aos nossos olhos hipossensitivos. Vez por outra rajadas de
vento. Trinados de pássaros e chão atapetado de folhas. A única coisa que
estraga tanta perfeição é o barulho nada a ver das avionetas com turistas
sobrevoando o canyon. Mas enfim cada qual, cada um. Assim, eles lá, eu
aqui, hehe!! A plataforma entre o 3º e 4º rapel embora estreita é confortável o
suficiente permitindo que nos sentemos comodamente, porém becapeados...por
segurança. O 4º rapel, ridiculamente curto (8 metros), até daria pra fazer sem
corda. Daqui dá pra ver bem a bifurcação existente no canyon del Diablo cavada
pelo Churun e por outro rio que guia algum soube dizer o nome, talvez até
porque nem tenha. O 5º rapel com 30 metros tem em seu início um trecho que
exige certa habilidade porém o restante do descenso é facinho. Não tinha ideia
de que a aparente verticalidade da parede (se vista de
fora), especificamente nestes 500 metros finais, comportasse
tantas plataformas, algumas com capacidade de acomodar 20 e tantos viventes,
bem como trechos onde se pode caminhar sem necessidade de rapel. O 6º rapel por
causa de troncos de árvores que crescem na beira do platô, também requer
cuidado no manuseio da corda. A mata se faz cada vez mais cerrada e bela. Os 35
metros do 7º e último rapel novamente é dificultado pelas árvores que
crescem como erva daninha na parede, findando, assim, o que era doce, quem desceu
arregalou-se!! Daqui pra frente, apenas caminhada numa baixada hiper íngreme e
resvaladiça até Isla Ratón onde pernoitaremos. Em alguns trechos, sento e
pratico o eskibunda, esporte em que sou perita, hehe. Ainda bem que a descida
foi curta (todos estamos bem cansados), sucedida por um trajeto relativamente
plano, cujo único entrave são raízes e pedras. Chegamos ao mirador do Salto
Angel onde paramos para fotografá-lo. O lugar é lindo, um largo anfiteatro
escavado pelas águas da famosa cachoeira que, ainda tem força para, em sua
parte final, formar uma sucessão de pequenas cascatas ladeadas pela verdejante
floresta. Chegamos a um refúgio em Isla Ratón (há outros mais) às 18
horas. Construído à margem esquerda do rio Churun, a rústica habitação, com
teto de zinco, sem paredes, conta apenas com a proteção dum baixo muro de
pedras no seu entorno. Contudo, cozinha e banheiros são fechados. Na ampla
peça, mais duma dezena de redes servem como cama. E luxo supremo: energia
elétrica fornecida por gerador, super barulhento, felizmente, desligado, às 22
horas!! Resolvo tomar um banho rápido no rio Churun onde sou atacada por uma
horda de famigerados mosquitos. Suas mordidas além de deixarem meu corpo
empolado coçaram durante vários dias. Estou faminta, afinal, a única refeiçãocomida durante o dia todo foi sucrilhos - acho insuportável esse "cereal" - com leiteno café da manhã, afora a rapadura de amendoim gentilmente oferecida por Mario
durante a espera num dos rapeis. Assim, nem mastigo direito os bens temperados
franguinhos assados na brasa, acompanhados de arroz e salada de
batatas, servidosna janta. De buchinho cheio, deito na rede embalada pelo tóin tóin das gotas
de chuva tamborilando no zinco do teto. Ai meu deus que coisa boa, coisa
boa meu deus, descer do céu pra entrar no paraíso!!
Choveu durante a noite e quando levanto às 5 horas dum sabadão nublado,
a garoa fina ainda está caindo. Deixamos às 7:30 o acampamento Neblina nos
embrenhando num matagal, constituído por expressiva quantidade de samambaias.
Nunca tinha visto coisa igual. E, coisa boa, as subidas não são muito puxadas.
Hoje sou eu que afundo no barro. Tanta a sucção que quase não consigo resgatar
a perna daquele sorvedouro de areia movediça, valha-me deus! De repente o
matagal de samambaias acaba num lajedo livre de vegetação onde há, pasmem, uma
estação meteorológica com uma puta antena! Ainda bem que não é de telefonia
celular, valha-me deus outra vez! Após breve descanso, a pegada é encarar o
interior dum bosque escuro, atravancado de troncos e galhos de árvores caídos,
cujo terreno irregularíssimo alterna baixadas e subidas. Por duas vezes, torço
o tornozelo e sinto que não foi pouca coisa, não. Tudo muito úmido, tornando o
solo em certos trechos uma meleca pantanosa. Após 2 horas e meia de pernada
naquele matagal soturno, fazemos outra parada, dessa feita mais longa, noutro
lajedo. Bernard, o fisioterapeuta, coloca kinesio tape num dos ombros da
francesa. Também pudera, carregar cargueira há 6 dias não é pra qualquer uma! A
picada, lá pelas tantas, melhora, tornando-se mais aberta, ladeada por um
capinzal que lembra talos de cana de açúcar. Num jogo de esconde-esconde, o sol
tenta se impor mas é vencido pelo humor cinzento do céu que se instala de vez
quando, às 13 horas, chegamos ao acampamento Kerepa. Situado às margens do rio
de mesmo nome, suas águas escuras não possuem atrativo algum. Devido à estiagem
do verão, visíveis as porções de lajes que formam seu leito. Pior acampamento
de todos. Ouso dizer: até me deprimiu um tantinho. Não sei se por causa do
tempo nublado, se pela nada atrativa mata ao redor, ou se devido ao solo
irregular e sulcado por raízes à flor da terra onde as barracas foram
instaladas. Sempre cuidadosa em relação às serpentes, cada vez que necessito
urinar ou defecar trato de fazê-los bem rapidinho. Morro de medo de que alguma
cobra queira me picar nas partes pudendas. O outro terror são os escorpiões. Há
uma espécie no Auyan que ataca o sistema nervoso, matando em pouquíssimas
horas. Nem adianta acionar o telefone satelital porque, até que mobilizem
helicóptero, o vivente terá passado desta pra melhor (será?). Assim, cuido em
por os únicos calçados que trouxe, o par de botas e a sandália Kroc, bem
abrigados sem-pre num saco no interior da barraca. E pela manhã dou um
vistaço neles. Eu hein?!! Entediada porque não há muito o que explorar neste
bosque onde estamos, cujo terreno truncado impede maiores deslocamentos,
quedo-me quase todo o tempo resguardada na barraca, exceto quando vou
tomar um banhito no rio e depois quando saio pra jantar. No mais é “caminha” e
a absorvente leitura do Americano Tranqüilo, escrita por Graham Greene, sobre a
love story entre uma vietnamita, um inglês e um norte-americano, ambientada num
Vietnã, prestes a ceder o domínio até então exercido pela França ao USA.
Hoje está terminando a primeira etapa de nossa aventura....que peninha,
pois foram ma-ra-vi-lho-sos todos os dias que caminhei nesse estupendo e
surpreendente tepui. A partir de amanhã, só descenso usando as benditas
cordinhas que nos ajudarão a baixar do tepui até o refúgio de Isla Ratón,
situado na margem esquerda do rio Churun....nem acredito....que maravilha!
Embora o trajeto seja curto, dura é a distância entre este acampamento e
o do Santo Angel, motivo por que não nos apressamos a abandonar Kerepa. Por
isso, somente às 8:15 iniciamos a caminhada até o acampamento Salto Angel. A
trilha percorre o mesmo tipo de bosque cerrado, escuro e úmido que percorremos
ontem, cheio de subidas e descidas, com poças lamacentas que nos obrigam a altas
acrobacias a fim de evitá-las. Louquíssimo o trecho da selva onde espessos
musgos de coloração ferruginosa recobrem por inteiro troncos e galhos de
árvores. O caminho é pontilhado por bromélias ao contrário de ontem onde o
predomínio foi das samambaias. O tempo insiste em permanecer nublado, embora às
vezes o sol consiga furar o bloqueio das nuvens. De repente não mais que de repente, nos
livramos do matagal pra adentrar num campo aberto coberto de gramíneas,
vencendo sem esforço uma curta ladeira cujo término é na zona lajeada,
circundada por arbustos, às margens do rio Kerepa, conhecida como acampamento Salto Angel, onde nos
aquerenciaremos esta noite. A caminhada durou
exatas 2 horas! A mais rápida de todos os 7 dias de trek!! Completamente
diferente do local onde pernoitamos ontem, este é uma grata surpresa. O rio Kerepa, só hoje fico sabendo, é quem nutre o Salto Angel, cujas
águas desbordam do paredão oeste do Canyon Del Diablo. Portanto, não há do que se
queixar em termos de visual já que estamos acampados num lugar ultra
privilegiado. Uma pena que a essa hora da manhã, 11 horas, a cerração mal
permite que avistemos a parede leste do canyon, contrária àquela por onde despenca o
Salto Angel. Um alerta: quando
chove muito, o terreno rochoso adjacente às margens do rio fica inundado,
motivo pelo qual é aconselhável fazer trek aqui no período que vai de dezembro
a abril.À tarde, vou com Antonio e seu sobrinho Wilson até o
mirador, de onde se tem uma baita visão da monumental garganta, do Salto Angel e
do rio Churun. A famosa cachu, porque é verão, exibe mirrado jorro e não aquele
colossal pé d’água que tanta atração exerce em qualquer vivente do planeta. No
paredão oposto, mal se entrevê outra linda cachoeira, de sugestivo nome
Cortina. No fundão do canyon, devido à estiagem, o escasso volume de
água do Churun permite que sejam visualizados largos trechos empedrados de seu leito. Antonio
faz questão de tirar uma foto comigo na borda do penhasco. Abraçados, assim
posamos pra posteridade. Fico sabendo por ele que dos 18 porteadores, inicialmente,
contratados só restam 5. Isso porque, ao longo do trek, os carregadores vão
sendo dispensados à medida que os mantimentos vão sendo consumidos. Desse modo
quando chegamos ao acampamento Dragon, 6 retornaram às suas aldeias e agora mais 7
foram daqui enviados de volta. Sobraram, portanto, ele, seu sobrinho e
mais outros três que retornarão com barracas e outros utensílios prescindíveis
de serem usados nos 3 últimos dias que restam pra acabar a aventura. Fred à
tardinha revisa o equipamento de todos: cadeirinhas, mosquetões, freios,
capacetes e luvas. À tardinha, nos acomodamos ao redor da fogueira,
providencialmente, acesa pelos porteadores, já que um arzinho gelado sopra no
topo deste tepui. Terminada a janta, os belgas e franceses permanecem mais um pouco
ao lado da lona que serve de improvisada cozinha, trocando idéias,
provavelmente, sobre a excitante aventura que nos aguarda amanhã. Os índios,
como sempre, já se encontram recolhidos às suas redes, instaladas nos matinhos
circundantes. Às 20 horas, reina o maior silêncio no acampamento. Das tendas,
não se escuta um pio. Até os tagarelas europeus estão conscientes da
necessidade de se concentrarem pra dormir bem, eis que amanhã temos de
levantar às 4 horas pra enfrentar o 1º dia de rapelagem na parede de 1000
metros....baaah, que frio na barriga!
Embora tenha chovido durante a noite, o dia
amanhece apenas nublado. O acampamento situado no encantador bosque entre a 2ª muralha e o Dragon, faz com que eu durma e acorde ao som do barulhinho
gostoso da correnteza do rio situado a 20 metros de minha barraca! O Dragon é um
dos afluentes do Churun, responsável pela formação do canyon del Diablo. A colossal garganta corta o tepui no sentido sul-norte, dando-lhe um formato de Y visto de cima. A passarada assanhada não para de trinar. Deve
estar, no mínimo, curiosa com nossa movimentação aqui embaixo, afinal Auyantepui
não é point turístico bombado como o Roraima. Converso com Antonio, meu porteador,
enquanto espero nossa partida. Com 23 anos, é casado desde os 16 e tem 2 filhos:
uma guria e um guri. Trabalha desde os 8 e jásubiu ao Auyantepui 52 vezes porteando carga!! Orgulhoso, gaba-se de que
pode carregar até 70 kg mas o normal é 30. Na aldeia de Uruyen, planta feijão,
arroz e mandioca. Aponta pra uma palmeira e explica que se chama san pablo,
usada nos tetos das casas e trançada tantos por homens quanto por mulheres.
Também são usadas outras espécies de folhas de palmeiras como kukurito, ceja e moriche,
durando os tetos em média 7 a 10 anos. Saímos bem cedo, 7:20, porque a pernada
até o próximo acampamento é, segundo os guias, duríssima. A escalaminhada até o
topo da 2ª muralha mostra-se, de fato, bem ríspida, encarando-se inclusive paredão
bem exposto que a mim deu medinho. Mas a beleza do mundo encantado das pedras e
dos musgos suplanta qualquer cansaço! Na metade da subida, a espetacular visão do
rio Dragon e adjacências é emocionante. Inacreditável que possa existir tanta
belezura no topo deste tepui. Quando terminamos o ascenso e alcançamos a tão sonhada
(por mim) 2ª muralha, as dificuldades não param. Aí é que se tornam mais e mais
exigentes, deveras cansativas. Tudo por que temos pela frente quilômetros de campos cobertos por
pequenos arbustos e altas gramíneas. Embora seja terreno plano, em nada se compara com
aquilo que pensáramos ser difícil só porque tinha que ser escalaminhado. O
terreno coberto de areia e material orgânico é fofo tal qual um colchão o que
torna super estafante a pisada. Mas o pior está por vir quando se adentra as
zonas de bosques. O que era até então fofo mas seco se torna pantanoso. O
coitado do espanhol enfia umas das pernas na lama até a altura do joelho. Por pouco
a Cannon dele não é sugada por aquela meleca preta. É um outro mundo este, situado além da 2ª muralha. Não tem nada a ver com o que vimos há 2 dias atrás quando chegamos no topo do
Auyan: colinas a perder de vista cobertas uniformemente por espessa vegetação,
num emaranhado formado pordiversos tipos de vegetação arbustiva. Dentre as flores,
destaca-se pela delicadeza a carnívora heliamphora pulchella. Mais um
bosque com solo pantanoso e outro campo sujo onde cruzamos o leito quase seco dum
rio que exige cuidado porque o lajedo está escorregadio. Por duas vezes somos obrigados, por causa
duma merda de chuva que não deslancha, a tirar os impermeáveis da mochila pra
cinco minutos depoisrecolocá-los de
volta na bolsa. Caminhar no terreno fofo, puta que os pariu e deus que me perdoe, é pagar
penitência tamanha a dureza do esforço exigido. Mil
vezes preferível escalaminhadas, por deus! Ao meio-dia, já com quase 5 horas de
caminhada, chegamos no acampamento Lomita à beira do rio de mesmo nome cujas
águas são deliciosamente alaranjadas. Esta coloração se deve à reação do tanino
contido nas plantas com a água. Exausta de enfrentar o tal terreno fofo até me
permito descansar um pouco escorada numa parede rochosa enquanto espero o almoço ser preparado. Terminada a refeição, mais desafios a enfrentar na trilha:um tronco improvisado fazendo
de ponte sobre um córrego demanda cautela. Eu sempre com medo de cair, fico toda
orgulhosa quando consigo transpô-lo sem muita frescura. Após o almoço, o sol
acena num vai e vem caprichoso entremeado pela persistente garoa. Contudo,
predomina céu encoberto. Mais 1 hora e meia de pernada e chegamos, aleluia, a
uma baixada onde se encontra o acampamento Neblina (1.820 msnm). Como sempre os
acampamentos são preferencialmente escolhidos ao lado dum rio. Este não foge à
regra porém suas águas são comumente escuras. O dia pode ser considerado duro:
8 horas lutando num terreno entre o fofo e o pantanoso cansa as pernuchas, tá ligado?
Novamente improvisam um toldo de lona pra proteger cozinheiros e
comida já que a intermitente garoa não dá folga. Fico conversando com Mario e
descubro que sua mãe muito católica vai à igreja orar pela segurança dos filhos
(ele tem um irmão gêmeo que também trabalha como guia) tanto quanto saem pra
trabalhar como quando retornam. Não sou católica mas aprecio
essas estórias de devoção.Pra repor as energias consumidas nas estafantes 8 horas de
caminhada, é servida na janta massa al sugo e a indefectível porém
gostosa sopa de legumes com queijo aos pedaços. Recolho-me cedo à minha “casinha”, porque o corpo implora, geme, pelo descanso na posição horizontal.
Aqui, no topo do
Auyan, talvez porque menos distante do céu (hehe) há bem mais concentração de
nuvens do que no vale, porém sem qualquer vestígio de
cerração como ontem durante a manhã enquanto escalaminhávamos a
parede sul buscando o topo do tepui. Terminado o desaiuno, saímos do acampamento El Oso, por volta das 8
horas, em direção ao Dragon, nosso próximo ponto de pernoite. Inicialmente caminhamos
por uma superfície rochosa basicamente plana. Apenas dois trepa-pedras envolveram
certas habilidades para transpô-los. Comparado a ontem, a pernada é trifácil,
mamãozinha com açúcar como se diz na terrinha. O tempo meio caprichoso, ora se
mostra ensolarado ora nublado. Se chover, tô nem aí, eu tô na paz, eu tô na boa!! Tão
feliz me sinto que não resisto ao som que sai de meu IPod (Los Hermanos,
adooorooo) e me ponho a dançar! À medida que avançamos mais visível é a 2ª
muralha, avolumando-se a nossa frente enquanto a 1ª se amesquinha, tornando-se
cada vez menos perceptível. Entramos numa mata fechada, cheia de sinuosas curvas, num sobe e desce ininterrupto
conhecida como labirinto, motivo por que os guias advertem que devemos caminhar
juntos uns aos outros, sob risco de nos perdermos. Colo atrás de Ricardo, bem coladinha...vá que algum fauno queira me sequestrar, hein?! De repente, não mais que de repente, numa dobra da mata,
uma visão ex-ta-si-an-te: as douradas águas do rio Dragon cercado por margens cuja areia é ro-sa-da!Paralelo
aos dois, bosque e rio, impõe-se a sombra poderosa da 2ª muralha. A floresta é linda com
arbustos e árvores de mais ou menos 5 metros de altura. Hospedadas nos troncos
das árvores diversos tipos de bromélias e no solo um tapete de folhas secas. Ao
parar pro almoço, no acampamento Lecho, descemos à margem do Dragon. Os belgas
ficam desconsertados diante desta senhorinha de ½ idade que sem pudores toma
banho da forma com que veio ao mundo. Enquanto a francesa depila os sovacos e
o padrasto faz a barba rola um bate-boca da parte dela, que se mostra indignada,
sabe-se lá o motivo. No almoço, comemos salada de massa com atum, cebola e
pimentão verde. Do rio avista-se a poucas centenas de metros o maciço paredão da
2ª muralha. Continuamos a pernada bosque adentro cuja beleza me deixa a cada
curva da trilha mais e mais encantada quando então chegamos às 14 horas no
acampamento Dragon (1.765 msn), como o Lecho, também situado às margens da alaranjada correnteza do Dragon.
Organizo minhas coisas dentro da barraca e trato de matar o tempo até a janta indo
passear ao longo do leito seco do rio, um extenso lajedo entrecortado por largas gretas. Ao longe, os
porteadores lavam louça. Agora 16:10 a chuva que estava de garoa apertou motivo
por que interrompo a caminhada abrigando-me na barraca. Uma pena porque eu
estava viajando com a visão da 2ª muralha diante de mim cujas rochas em seu
topo assumem formatos que os olhos não cansam de inventar. Os guias na
improvisada cozinha (uma lona segura por pedaços de pau) já iniciaram os
preparativos da janta. Escuto daqui seu conversê mas nem eles tampouco os
pemones fazem frente à tagarelice dos belgas, imbatíveis na charla! O dia
de hoje foi o de mais curta distância e o menos fatigante tirando alguns
trepa-pedras e uma que outra subida mais perrenguenta. Gente, tô decepcionado
com o espanhol. Quando o conheci, fiquei toda contentinha supondo que daí
resultaria uma parceria legal em razão da similaridade entre nossos idiomas já que
os demais falam francês. Qual o quê! O cara prefere tentar
se comunicar naquele seu inglês macarrônico com o resto do grupo, ao passo que
comigo dispensa polido tratamento, é vero, mas super convencional do tipo “buen
dia...buen apetite” e congêneres. Se bate papo 5 minutos por dia é muito!! E
não estou exagerando, não!! Mais, nunquinha manifesta a mínima curiosidade
sobre o Brasil. E sempre que tento contar algo sobre Pindorama, o espanhol,
após prestar 10 segundos de atenção, se escafede junto a seus irmãos europeus!
E nem se fale que a língua seja um empecilho, não é mesmo? Meu contato com os
demais membros do grupo é superficial porque não falo francês. Somente Bernard
e Antonio conseguem se comunicar relativamente bem em inglês. O coitado do Jean
Jacques tenta recordar a duras penas o que aprendeu no colégio há mais de 30 anos. Apesar dessa
limitação na comunicação não me sinto isolada porque quando quero conversar um pouco mais procuro a companhia dos guias. Os membros do grupo são bem diferentes entre si. Jean Jacques embora
fale alto e fisicamente lembre um ursão devido a sua espessa barba, é fofo, o tipo do cara bom. Bernard, fisioterapeuta, é o líder,
quem organiza as viagens e orienta os colegas nas passadas mais difíceis durante as escaladas, o típico doutor sabe tudo. Ed, cuidador de idosos, exibe aquele perfil de cara que entra mudo e sai calado. Padrasto de Cynthia, os dois, aparentemente, se dão bem e cuidam um do outro.
Michel, militar, belos olhos azuis, é o bonitão da turma. Joaquim, policial
civil, não consegue disfarçar a atração que sente pelafrancesa. Antonio,
italiano de nascimento, vive na Bélgica desde criança. Fala com fluência inglês daí por que assume naturalmente a função de intérprete. Enfim, Cynthia, 28 anos, advogada, magra, bonitinha. Por isso, e por ser a única integrante feminina de seu grupo, é super paparicada. Tentei no início enturmar com ela
mas ao cabo dos dias ela não demonstrou muita simpatia em confraternizar embora
arranhe espanhol e inglês. A única vez que se dirigiu a mim foi pra perguntar minha idade. Fazer o quê, né? Em compensação, os homens são
prestativos e bem agradáveis no trato....vive la différence!!
Nem tão encoberto assim o céu que não possa revelar
rasgos de azul às 7 da manhã quando saio da barraca pro desaiuno. São servidas
panquecas e os recheios são os mesmo do dia anterior: geleias de pêssego e morango mais calda de
chocolate. Café ou chá pra acompanhar. Ah, sempre tem queijo ralado para se
pôr na arepa ou na panqueca. Nesta manhã estou super excitada porque hoje é dia
de topo!! Enfim estamos nos dirigindo até o topo do
tepui Auyan motivo por que saímos bem cedinho: 7:30. A trilha atravessa uma
zona de mata cujo pedrario exige o uso constante das mãos, num trepa e desce
pedras constante. Tal subida nem se compara com a do Roraima. Em retrospecto, aquela
foi moleza mesmo!! Num dos breves descansos para recuperarmos o fôlego, Fred
nos dá pra chupar um talo verde que vem a ser um tipo de palmito. Aborrecido um
trecho coberto com troncos de arbustos caídos na trilha à semelhança dum
manguezal seco. Como estamos escalando a base da parede sul do tepui, é pedra
sobre pedra cercado de mata por todos os lados. Por isso, até a base do paredão
é só subida dura: pura escalaminhada, quando então o terreno se aplaina numa
estradinha de areia branca ladeada pela muralha que faz parte da face sul do
tepui. Fazemos uma pausa e Fred aproveita pra praticar um pouco de boulder na
pedra, imitado pelo espanhol e belgas. Fico só admirando a precisão e
elasticidade dos movimentos feitos pelo guia a cada lance. Tanta flexibilidade
lembra certos passos de balé, motivo por que o apelido de Nureyev de las rocas! Durante o descanso, a
neblina dá uma pausa e permite que se avistem, finalmente, o que mal
entrevíamos quando aqui chegamos: os gigantescos totens de pedra que guardam a
trilha. Um baita indício das maravilhas que teremos pela frente! A partir do
paredão as escalaminhadas exigem corda. O tempo nublado não permite que se
desfrute completamente da beleza das torres mal entrevistas através da
névoa. A partir daqui foram mais de 7 ascensos usando cordas até o topo do
tepui. Brutal o esforço físico dispendido, como observa certeiramente o espanhol, não todavia
para os porteadores que passam agilmente por nós como se fossem salamandras de 2
pernas. Sensação inebriante caminhar entre blocos gigantescos de
rocha onde nasce densa vegetação cujos destaques ficam por conta de exuberantes bromélias, palmeiras,
samambaias e arbustos de médio porte. Essa parte lembra um canyon, confinada
que está entre os impressionantes rochedos. Quando a névoa se dissipa um pouco, se
avistam espaços vazios entre as torres de arenito. Num desses, apelidado de
Callejón de las Palomas, Fred pede um pouco de silêncio aos tagarelas belgas e
franceses de modo que se possa escutar o arrulhar dessas aves que
fazem do buracão seu ninho. A fatigante subida entre as colossais agulhas acaba
de repente com Fred avisando que já estamos no topo. Ele nos recebe com um sorriso e um abraço de boas
vindas. Minha alegria me faz rir igual criança. Refeita da emoção, percebo
então as 2 muralhas dispostas perpendicularmente uma a outra. Ignoram os guias qualquer informação sobre a
1ª porque lá nunca estiveram. A que importa é a 2ª, velha conhecida deles
porque necessário subi-la e cruzá-la até alcançar o paredão por onde despenca
Salto Angel. Justamente por essa parede iniciaremos nossa descida de retorno. É
um mundo totalmente inédito o topo do Auyantepui que, na língua pemon, significa montanha do diabo. Ao contrário do Roraima,
surpreendente a densa cobertura vegetal com matas de galeria ao longo dos rios que riscam de amarelo o solo do Auyantepui. A coloração mais clara dos maciços rochosos (um me lembrou as Prateleiras, do Parque Nacional de Itatiaia) colabora também pra tornar o ambiente menos opressivo . O céu
mantém-se nublado embora a neblina tenha se dispersado. Em certos trechos mais
expostos de rocha, precisamos lançar mão, de novo, do uso de cordas mas nada que se compare
à excitante aventura que encaramos até o topo. Andamos uns 10 km até às 13 horas quando paramos
para almoçar à beira do rio Naranja cuja coloração caramelo da água é estupenda! Uma pena que esteja quase seco devido a pouca precipitação pluviométrica
durante o verão mas nada que impeça os belgas de se banhar. Restam, ainda, algumas poças que permitem que se abasteçam
d’água as garrafas. Sedenta do jeito que estou bebo até doer a barriga. O
almoço supera as expectativas. Fred serve lau lau (peixe de água doce)
defumado, abobrinha, berinjela e abacaxi desidratados, cebola e pimentão crus. Fred conta que ao invés de cursar faculdade, preferiu estudar
culinária, fotografia e técnicas hospitalares. Chegamos no acampamento El Oso (2.165
msnm) às 15:30 quando as nuvens começam a se dissolver revelando, enfim, a face azulada do céu. El Oso, também, é um acampamento que aproveita o baita teto formado por uma reentrância na rocha. Na janta, é servido
arroz com linguiça. Pena que o arroz esteja meio duro. Talvez isso se deva ao fato de a comida ter sido preparada pelos guias Mario e
Ricardo, uma vez que Fred, super indisposto, foi obrigado a se recolher a sua
rede lá ficando o coitado, ajojado, o resto do dia. Às 20 horas faz-se silêncio no acampamento, após a algazarra
habitual dos belgas e franceses. Ponho a cabeça pra fora da barraca e sou recompensada com o espetáculo de zilhões de estrelas piscando no céu.
Em torno de 20:30, eis-me ferrada no sono. O segredo de tão tranquilo dormir? O bom chute sonífero dum relaxante muscular, receitado, é claro, pelo meu ortopedista. Isso não impede que eu acorde por breves minutos durante a noite (quando viro de lado, tá ligado?), motivo por que escuto o barulhinho bom duma chuvinha fina tamborilando de leve sobre o teto da barraca. Às 5 e meia da matina já tô bem desperta iniciando os preparativos de pôr a equipagem no bolsão navy da North Face. O mais sacal dessa arrumação é ter de desinflar o isolante térmico. O colchonete há que ser sovado várias vezes até ficar bem murchinho. Após um desaiuno com arepas, feitas na hora por Fred, cujos recheios vão do salaminho a 2 tipos de queijos, mais geleias e creme de chocolate (este muito apreciado pelos belgas e franceses), saímos de Guayaraca às 7:30 em meio à densa cerração. Inicialmente atravessamos um trecho de savana sucedido por um trecho de floresta, sucedido mais uma vez por outro trecho de savana que por sua vez cede espaço a nova trilha na floresta. Tudo fácil porque plano. Cruzamos um ribeirão cuja ponte é um tronco de árvore. Com receio de cair na n’água porque não sou boa equilibrista (e se caio, molho a máquina, sacou?), percorro a improvisada passarela bem devagarinho. Após quase 5 km, vencidos facilmente em pouco mais de 1 hora, alcançamos um riacho onde recolhemos água para enfrentar a subida até a 2ª plataforma. Finalmente, no céu, o sol agora reina solito, sem nuvens a toldá-lo. Antes do ascenso, mimetizada entre raízes e folhas, uma enorme cascavel, toda enrodilhada, está de sentinela no meio da trilha. Gritinhos (meus) porque estou logo atrás do guia o que faz com que um dos belgas, nem lembro qual deles, me passe um pito. Que eu não deveria gritar (caso novamente me depare com o bicho) pois isso atrai o ataque da serpente....ai ai ai. Bueno, a víbora provoca tal frisson que o povo se acotovela pra fotografá-la como se fosse um rock star. É quase uma escalaminhada o trecho até a 2ª plataforma, terminando com a moleza da pernada sobre terreno plano. A ascensão, no meio da estreita picada, aberta
na floresta é dura, íngreme pra caramba. Os 2 km de subida dão a
impressão de ser muitíííssimoooo mais! Ainda bem que os providenciais troncos,
galhos e raízes ajudam na rude caminhada. Por entre o emaranhado dos galhos de árvores,
avisto, a extensão uniforme da savana espalhada no vale de Kamarata. Fazemos
uma parada pra repousar porque o cansaço amoleceu o povo que carrega mochila
cargueira. O guinchar dos macacos é perfeitamente audível, assemelhando-se,
pasmem, a rajadas de vento. Ao longo do caminho, uma bela flor branca com miolo
amarelo é presença constante na trilha. Os guias ignoram seu nome...uma
pena! Adoraria ter bons conhecimentos de botânica para saber melhor nomeá-las. Decorridas 4 horas e 8 km de muita subida, chegamos no topo da 2ª
plataforma donde se tem uma visão estupenda da face sul do Auyantepui. Sua
coloração avermelhada deve-se à presença do arenito na composição das rochas. Embaixo
dum rebordo de rocha que proporciona excelente sombra, já que é ½ dia e o sol
está a pino, paramos pra almoçar. A refeição oferecida é wrap recheado com
verduras e atum mais suco de limão. Terminado o ranguinho, retornamos à trilha.
Continuamos subindo porque hoje vamos até a metade da 3ª plataforma. Dessa feita, as subidas são intercaladas ora por curtas descidas ora por breves trechos planos. Continuamos embrenhados numa mata não tão cerrada quanto
aquela percorrida antes do almoço, já que predominam arbustos de médio porte. Degraus esculpidos na macia e clarinha rocha calcárea, lembram vagamente àqueles da rampa que conduz à base da parede do
Roraima. Mais uma vez trechos de exigente escalaminhada. Aqui, contudo, o cuidado
duplica porque há largas gretas entre as pedras. Chegamos a um córrego onde
abasteço minha garrafa. Diante de tanto esforço, suo em bicas, razão pela qual
tenho de repor o líquido perdido sob pena de me desidratar rapidinho. Chegamos às 14:40 ao
acampamento El Peñon (1.870 msnm) que leva este nome graças à proteção natural
proporcionada pelo grande teto de rocha onde as barracas são instaladas. Em
certos locais, o teto é tão baixo que tenho de me abaixar pra não bater com a
cabeça na pedra. Por uma sinuosa picada, desce-se até o riozinho cujo leito apresenta
degraus de pedras bem lisinhas, muitas delas forradas pelo aveludado e verde musgo, formando
pequenas quedas d’água. Encantador o lugar! Por volta das 17 horas, o sol se
põe, colorindo de dourado a avermelhada parede do tepui. Show la puesta del sol!
Lá embaixo, na savana, reluzem braseiros resultantes de focos de incêndio que, felizmente, não se propagaram demasiadamente. Rajadas
de vento levantam desagradáveis ondas de poeira. Mario, embora jovem, exibe tom
de voz que soa como se fosse um ancião. Não importa o tema que esteja
discorrendo, entremeia com pausas profundas a conversa. Pode tanto ser algo sério
quanto uma observação jocosa ou irônica. Pra onde vai carrega consigo um
pequeno banco de campanha onde se senta quando paramos. Linus com seu cobertor e Mario com sua silla, hehe. Como sempre, a refeição, feita no capricho pelo competente Fred, consta de prato principal - massa carbonara - e a nutritiva sopa de legumes com pedaços de queijo. De postre, banana
caramelada. Agora 19:30 o maior silêncio no acampamento, exceto o alegre murmúrio de
alguns porteadores refestelados nas belas e coloridas redes tecidas em três dias pelas índias nos rudimentares teares de suas aldeias. Já em frente ao
acampamento, os pirilampos fazem a festa inundando a mata de inúmeros pontos
luminosos. Mazaaahh, vidão!!